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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Etc. (Cassiano Ricardo)

Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
(Fernando Pessoa)
Para que o mundo exista, existimos.
Pois seja.
Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?

Seria a árvore dos dourados pomos, etc.
O que é ignorado não existe.
O que é eterno também não existe.
A eternidade é uma forma de não existência.
Ao menos para nós o mundo não existiria
se não fosse existirmos.

Para mim, por exemplo, o mundo existe
porque ora estou alegre, ora sou triste.
Mas no fim vem a morte e… nos leva.
O seu poder é bem maior que o nosso;
porque é o da treva, e o nosso, esse não passa
de só dar existência ao que claramente já existe,
ao que só existe em razão dos nossos frágeis sentidos.
Que podemos ouvir, olhar, tocar, etc.

Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim… que foi? Um homem suicidou-se.
O dedo lhe está preso, ainda, no gatilho,
rígido como uma hora certa. Sem nenhum
arrependimento.

Muita gente reunida em redor do seu corpo.
Muitos rostos examinando o seu rosto.
Mas ele suicidou-se, apenas? Não é, isso, bem menos
do que ele fez?
Ele desceu violentamente a cortina da noite
sobre nossos rostos, que só continuam vivos
para nós.
O seu corpo ali está, presente a todos,
mas nós — que somos todos — já estamos ausentes.

Ele nos suprimiu.

Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.

Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Ele desceu violentamente a cortina da noite.
Jogou ao chão a sua própria estátua.
Não aceitou a explicação da vida.
Fez qualquer coisa de mais belo e mais monstruoso.
Pois nem Deus (e Deus é Deus)
conseguirá, jamais, fazer o que ele fez: suicidar-se.

Ah, ele conserva ainda
na mão a arma com que apagou o sol e as estrelas.
Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Agora virá a mulher e essa mulher o abraçará loucamente.
A esposa, e um anjo, a filha, lhe dirão palavras estranguladas.
Virá a ambulância. Alguém já chamou a polícia,
e haverá autópsia, etc.

Cassiano Ricardo

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

(Dis)Pensando um Pensamento Minimalista


Beleza? Que é que eu sei de beleza meu deus!?
(Que é que eu sei de qualquer coisa?)
Me disseram uma ou mais vezes há muito tempo que eu não era bonito. Para meu infortúnio, eu era criança e crianças tem o dom de acreditar em tudo. Receio que acreditei neles de modo irremediável talvez. Mas penso que segundo a estética de algum lugar do mundo, talvez entre os aborígenes da Austrália ou entre os povos de alguma ilha perdida ao sudeste dos trópicos e meridianos do mundo, alguém de passagem por mim talvez considerasse que eu fosse uma visão agradável ao olhar.

É uma possibilidade, mas estou inclinado a duvidar dela. Que é que eu sei de estética?

Eu deveria achar “belos” um pôr do sol, um bebezinho sorrindo, uma imagem em flashplayer de uma flor desabrochando, uma pintura abstrata que não compreendo bem ou o rosto anguloso daquela moça que passou por mim com olhos lacrimosos  uma noite ou duas atrás...

Belos? Sem duvida! Belos ao engano dos meus olhos que não passam da superfície das coisas.

Mas quantos pores do sol, bebezinhos sorrindo, imagens em flash ou moças de rostos simétricos terei de ver até que algo disso me fale ao coração de tal modo que eu possa genuinamente dizer que tais têm significado para fora da estética?

Que pôr do sol, bebê sorridente (excluindo minha filha, porque aí já tenho uma opinião demasiado comprometida), imagem ou moça bonita passou por mim e alterou o curso do meu destino ou minha percepção de que existe algo para além da superficialidade das coisas vistas?

O problema é a fugacidade com que essa beleza toda desfila diante do engano dos meus olhos, porque sempre virá um por do sol mais rubro ou dourado, um bebê mais risonho ou uma moça mais bonita...

E a estética continua para mim a ser um abismo insondável.
Dái me dizem que “a beleza está nas coisas simples”.

Que lindo! Que pensamento mais gracioso e delicado...

Mas como quase tudo que é simplesmente gracioso e delicado e que agrada aos sentidos imediatamente ( e dos quais desconfio imediatamente), esse pensamento carece de alguma sustentação.

Mas não sou eu que vou tentar baseado na minha ignorância do que é beleza ou estética, a dizer se as coisas simples é que são belas.

Só deixo um “talvez”.

Talvez a beleza não esteja nas coisas simples, que são facilmente percebidas sem esforço, mas na capacidade de ver o belo das coisas complexas, que não são simplesmente bonitas.

domingo, 23 de setembro de 2012

Do que andei postergando...Um bom filme


Acabo de assistir a um filme que há tempos me indicaram. Estava meio perdido entre um monte de textos que devo ler para a faculdade, coisas meio acabadas que comecei a escrever e um aborto de TCC que ignorei solenemente. Comprei o filme já faz algumas semanas, depois de ter assistido a trechos na tv a cabo, mas meio que fui deixando a cargo do “amanhã assisto”.

É uma daquelas coisas que a gente vai procrastinando por razões muito subjetivas, como o regime que iniciaremos na segunda feira seguinte abandonando o prazer da boa gula, ou a visita a aquele amigo enlutado a quem não visitamos por ocasião de sua perda ou /e tudo mais que deixamos para o iminente “logo mais”.

Et bien, digamos que não havia mais motivos (aparentemente ) para empurrar com a barriga. Apertei play e após breves minutos de filme: Choque! Quem me indicou esse filme me conhece mais do que eu supunha e isso me deixa consternado além de qualquer expressão, porque isso abre e fecha tantas possibilidades que me deixa com a cabeça zunindo e os nervos em pandarecos.

Choque (2)! Confirmei o que eu suspeitava desde que assisti a “The Truman Show”: Jim Carrey é um bom ator, apesar de fingir magistralmente que não é, fazendo em diversos papeis aquelas irritantes caretas e traquejos.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (titulo estranhíssimo em minha opinião, porque o mais provável é que uma mente sem lembranças seja um tanto opaca), é daqueles filmes que para certas pessoas, não todas, funciona mais ou menos como um soco no estômago. Ou um beijo para lá de lúbrico. Ou uma droga de misto dos dois.

Como a muita gente não gosta que lhe contem o enredo de um filme (coisa que nunca compreendi direito) limito-me a dizer que a história fala (particularmente e única e exclusivamente para mim) de como certas  coisas são e de como as coisas poderiam ter sido,  os muitos atalhos tomados ou evitados e...Não fala de nada disso, mas são inferências particulares que por motivos meus acabei fazendo.

É sobre um casal de namorados que resolvem apagarem-se (literalmente) das mentes um do outro e para isso contratam os serviços de uma empresa.
O filme, muito bom por sinal, me levou a pensar possibilidades e isso é irritante e desalentador, porque o diabo criou e mora na maldita expressão “e se”...
O diabo é o pai das possibilidades natimortas.

Adiante...

Além daquilo de que não falarei, fiquei pensando que este é o segundo filme a que assisto nos últimos meses que fala da possibilidade de se manipular mecânica e artificialmente a mente humana. O primeiro foi “A Origem” (e sim, eu sei que Brilho Eterno é um filme já velhinho, mas como só o assisti agora, ele ficará na segunda posição). Acho que já dei uma opinião excessivamente entusiasmada do enredo de A Origem em post anterior, de modo que vou ater-me, se me permitem, no mérito da possibilidade de através de uma engenhoca qualquer entrar, apagar, inserir ou alterar o conteúdo da mente.

Não tenho duvidas de que se e por acaso um dia venham a comercializar um aparelho capaz de tais feitos, aquilo que chamamos de “identidade” estará irremediavelmente perdido.

Pessoas são sonhos.
Li isso uma vez num quanto e tanto, onde deveria estar uma pessoa, mas estava apenas o eco de um sonho de alguém...

Acrescento, lembranças são pessoas.
E não sei de nenhuma pessoa que esteja compondo aquilo que chamo de memórias, que em algum momento de nossas vidas não nos tenha ferido de um ou outro modo, intencionalmente ou sem querer. Isso é um problema, se pensarmos que nós seres humanos, gostamos em demasia do lúdico, do “pensamento felizinho”, das coisas meigas e ternas e doces e “fofas”e evitamos do modo como pudermos enfrentar lembranças ou pensamentos tristes. Somos uma hedonista e lamentável espécie.

Aquela garota  que você namorou até uns meses atrás e por quem estava apaixonado a ponto de lhe oferecer a lua como enfeite para os cabelos (Jesus!) e que terminou com você ou versa ou o oposto de ambas as opções, hoje lhe causa um profundo mal estar quando se encontram nos lugares comuns que freqüentam. Ah, sim, você superou e ela também. Mas o mal estar permanece. A dor te rói um pouquinho cada vez que você pensa na possibilidade perdida e sente uma raiva fria de si mesmo por pensar naqueles momentos de fragilidade em que você confessou que a amava mais do que tudo.

Seu estúpido! Seu maldito idiota! Agora ela está com outro e você já não pode “desdizer” o que disse. Não pode mudar o fato de que ainda sente-se fraca ou francamente atraído por ela.

 Não seria maravilhoso apagá-la da lembrança do mesmo modo como se apaga um arquivo do PC? Pense só na possibilidade! Sem mais dor, sem desconforto... Talvez até mesmo pudessem se tornar amigos um dia, conhecendo-se novamente, amando-se como se fosse a primeira vez, como se aquelas palavras ásperas não tivessem sido ditas, como se tudo não tivesse acontecido daquele modo...

E porque parar só por aí? Nada de análise, nada de sofrer num divã tentando ressignificar coisas ou traumas que preferia enterrar bem fundo. Todas as lembranças ruins, todo aquelas ocasiões em que se sentiu perdido, impotente, desamparado e infeliz em qualquer situação e com qualquer pessoa. Tudo deletado num passe de mágica e você poderia acordar pela manhã se sentindo renovado. Uma nova pessoa.

Efetivamente, seria exatamente isso o que você seria. Porque isso que te morde aí nessa cavidade por entre as costelas, essa dor ardente de ser, este é você.

E embora você goste de pensar que apenas as coisas e “pessoas boas” são ou foram relevantes para te fazer ser, meu caro, você não é senão uma sublime síntese da dialética do amargo e do doce da sua vida.

Você se deve, o que sabe e o que te compõe a todos os que passaram pela sua vida e, com efeito, se parar para considerar a coisa com um pouco de honestidade, vai chegar a conclusão de que aquela menina com quem você trocou umas carícias rápidas mas cujo nome você sequer se deu a trabalho de perguntar, teve menos ou nenhum efeito duradouro na constituição do seu eu, mas aquela fulana infernal e linda cujo nome você gostaria mas não pode esquecer e que te deu um fora sensacional quando você chegou-se a ela excessivamente confiante, teve um papel fundamental no seu aprendizado sobre causa, efeito e na conveniência de se ter um pouco mais de modéstia no trato com os outros.

Apague o que te dói lembrar mas é grande a possibilidade de que vá  se apagar no processo... Não, não vou fazer um mau julgamento de seu caráter caso coloquem esse serviço a disposição e você seja o primeiro da fila. O mais provável é que eu, por ter certa alergia a levantar cedo demais, acabe chegando depois de você e seja o segundo. É só uma suspeita...

Porque, ao menos conscientemente, prefiro ostentar maus pensamentos e lembranças tristes como a medalhas atestando o meu valor nos combates em que a vida me venceu de dez a zero, a apagar-me junto com as lembranças dessas muitas derrotas e tornar-me um sujeito alegrinho, despreocupado e completamente desprovido de qualquer densidade.

Mas, claro, é fácil ter esta opinião conquanto o serviço da Lacuna esteja restrito apenas ao campo da ficção.

Ótimo filme aliás...

domingo, 16 de setembro de 2012

Sábado, Sete e Quarenta



...Bem antes do que eu gostaria. Que diabos!

O mundo não dá uma folga nem para a minha preguiça de me irritar com tudo.

Sábado, sete e quarenta da manhã, pego o ônibus para ir à faculdade. Calor infernal, o que me agrada bastante porque para o tipo de criatura que sou, mesmo se chovesse fogo do céu ainda estaria frio. Mas, claro, não penso unicamente no meu conforto e já passou da hora de cair uma chuva por aqui para acabar com esse mormaço terrível que cobre BH.

Entrei no ônibus já com o humor não dos melhores.

 Saído de sei lá de que buraco, entra um casal. Cabelos desgrenhados, roupas sujas cheirando a suor de muitos  dias e a álcool. Pinga de má qualidade para ser mais exato. Jesus! Sete e quarenta da manhã!

Carregavam o que parecia ser uma TV de LCD ou coisa parecida. O Homem, cerca de trinta anos ou mais ou menos, entrou pela porta do meio, deixou a TV e voltou para  se sentar nos bancos dianteiros, bem debaixo de um letreiro onde dizia: “Reservado para idosos e portadores de necessidades especiais”

A única necessidade especial que aquele ali tinha, era a de um bom banho! Com urgência!

A mulher sentou-se bem na minha frente, ocupando dois bancos com a Tv no colo. E a viagem seguiu por uns dois quarteirões, quando  ela sacou de uma bolsa ou sacola o que parecia ser um “marmitex”. Para quem não conhece o termo, trata-se de uma embalagem feita de papel alumínio amarrotada, simulando o que deveria ser uma marmita. Meu deus!

Macarrão alho e óleo e arroz! Dentro do ônibus!  E uma droga de molho qualquer cujo cheiro forte e enjoativo deu-me um murro no estomago, lembrando-me de que na pressa de sair  acabei não tomando café.  E só o diabo sabe onde aquela mulher conseguiu um garfo. Juro! Um garfo de metal dentro do ônibus as sete e quarenta da manhã de sábado!

Agora pensando naquilo, não sei dizer o porquê não levantei e fui para os bancos traseiros do ônibus ou então descido. Porque o dia já começou mal e se eu tivesse um pouco de inteligência, teria visto nisso um sinal dos céus, descido do ônibus  e voltado para a casa e ficado por lá até depois de meia noite. Talvez o domingo começasse de modo mais ameno.

Então...

Sentado estava, sentado fiquei, talvez me penitenciando por alguma coisa. Excesso de pecados necessitando serem purgados talvez... Enquanto aquela mulher  devorava aquela comida que, de certo, era do dia anterior, fiquei pesando: “Por favor, me decepcione e não jogue os restos pela janela...”

Pois a criatura pareceu adivinhar-me os pensamentos e depois de uns torturantes minutos comendo, embrulhou os restos dos restos e atirou pela janela.  Depois sacou três Yakults da sacola, tomou os três de um gole sé e lá se foram as embalagens voando pela janela do ônibus. Que combinação maravilhosa de uma refeição matinal! Macarrão alho e óleo e Yakult!

Ainda fez uma “limpeza” na sacola que levava, tirou os restos mortais de outros alimentos e porcarias anexas e jogou tudo pela janela após o que, começou a chupar os dentes  e a limpá-los com a unha suja do dedo mindinho. Um fragmento de comida voou e ficou pregado no vidro da janela. Passou a poucos centímetros do meu rosto e eu fiquei gelado pensando nos vinte anos ou mais, que eu certamente passaria em um presídio qualquer cumprindo pena por “maloqueiricídio”, caso aquilo caísse em mim.  

E já estava engolindo de volta a bile que me subia como ácido pela garganta (porque estava certo de que ia vomitar e como estava com o estomago vazio de tudo o que não fosse ódio, tenho certeza de  que vomitaria Napalm), cabeça doendo de raiva e enjôo quando eis que entra um sujeito...Que foge a qualquer definição.

O ônibus estava quase vazio, mas o tal fez questão de ficar em pé, naquele espaço em meio ao ônibus que é reservado aos cadeirantes.  Apoiou o traseiro na barra de ferro bem na direção de quem estava sentado. No caso, de costas para mim e para a educada senhora que acabara de fazer a sua sofisticada refeição matinal.

Nada demais, mas o sujeito que... Porta alguma adiposidade, tendo-a concentrada quase que exclusivamente na região sobre os glúteos ( que numa vaca chamaríamos “alcatra”), estava usando calças largas demais, sem cinto e por efeito da gravidade (e da total ausência de bom senso), calças e cuecas largas caiam.

Que é que meus pobres olhos fizeram para merecer semelhante espetáculo?

Resultado  ostentoso do seu apetite, o sujeito certamente estava orgulhoso de sua obra, posto que ao sair de casa, deixava-a a vista de todos. Um artista sem dúvidas!

E, de certo, o tal era aparentado dos lobisomens ou da nobre família dos ursos pardos, porque eu certamente poderia passar umas trinta encarnações ou mais sem ver semelhante coisa, mas a não ser que se tratasse de um boi almiscarado dentro do ônibus, aquela foi certamente a  “alcatra humana”mais cabeluda que meus olhos já tiveram o desprazer de olhar.

Que droga de mundo horrível! Principio da Alteridade, descanse em paz!

Macarrão com Yacult, lixo voando pela janela e um “cofre cabeludo” às malditas sete e quarenta de uma maldita manhã de sábado!

Horror! Horror! Horror!




Imagem:artedootavio

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ultimo Post




Este é o meu quarto  blog. Os outros três implodi pelo mesmo motivo: 
Passado algum tempo, comecei  a me preocupar  em demasia com a qualidade estética daquilo que escrevia, procurando a forma em detrimento do conteúdo e ficando reptilicamente envaidecido pelos elogios que as coisas que escrevi recebiam. Fiquei excessivamente cordial. Curiosamente, era justamente aquilo que eu considerava o mais superficial e óbvio dentre o que eu escrevia a  agradar. Então envergonhei-me, senti-me  alienígena daquilo tudo e abandonando as cascas anteriores, iniciei este meu Psicodellias em 06/01/2011.
 http://sahgelk.blogspot.com.br/2011/01/primeiro-post-by-sahge.html  

Para a minha surpresa,  passados inacreditáveis vinte meses, ainda não explodi este. Mas ele anda correndo um serio risco.

É que os primeiros três tive de destruir quando entendi que eles começaram a ter um propósito e como sou partidário do Caos, penso que as coisas que realmente  merecem a existência são justamente aquelas que não têm  ou não servem a propósito algum ou a ninguém.  
E agora, com as sutis raias da minha cada vez mais esmaecida capacidade de reflexão, entendo que este blog está servindo a um propósito.

O propósito é encontrar você.
Ou ser encontrado. Dá no mesmo. Fazendo a equação de modo contrario, realmente  o caos dos fatores não altera o resultado.
Já me perdoei por isso. Não foi nunca a minha intenção. Um propósito freqüentemente não se revela para mim até que eu o veja delineado em algum subterfúgio ou comportamento meu. E eu percebo, por muito e por pouco que escrevo nos últimos tempos  quase como se falasse a alguém. Agora o “quase” me abandonou e estou sob o julgo desta certeza.

Eu falo a Você.

E também estou subjugado por  outra ainda mais pesada, a certeza de que nossos caminhos provavelmente não vão se  (re)encontrar e você se sentirá órfão de mim quando passar por aqui e eu já estiver  longe quanto eu sinto agora o peso da sua falta. Da falta daquilo que eu não tive e provavelmente não terei.Sim, eu snto falta do que não tive. E você também...

Ou eventualmente nossos caminhos se cruzam  e você ou eu fugiremos apavorados ou não nos reconheceremos. Os nossos encontros serão sempre tardios ou prematuros. Parece ser a nossa sina e eu espero sinceramente que os que vierem após este nosso tempo de desencontros, encontrem um meio mais eficaz de permanecerem juntos. Daí teremos realmente uma tribo de Eus e não um amontoado de indistinto “nós”. É um plano ambicioso, uma (re)união de Eus e me revolta até a raiz da alma pensar que provavelmente não estarei por perto quando tal se concretizar.

Eu escrevo sobre o nada, mas não escrevo para o nada. Eu escrevo para você, que é um “Eu“ anacrônico, que percebe que está numa situação de singular contrariedade com os muitos meios em que vive. Você que é sutil em sua peculiar condição de ser pensante, inquieto. Você que incomoda os acomodados com a sua existência intensa. Você que mesmo que queira, não pode ser ignorado. Você que deixa sua consciência flutuar no zumbido da própria consciência e pondera porque não pode realmente viver um instante dentro do tempo, enquanto a sua volta fala-se, vive-se e morre-se em banalidades... Você...O mundo tem batido forte, não é? O Mundo tem sido implacável...

Bem há um sistema, e a homeostase diz que o sistema tem que permanecer em seu equilíbrio estagnado e você, meu caro, você é a doença do sistema. E ele quer te combater e te enquadrar. Eu o cumprimento por isso! Você é da minha tribo.

Você já não teme jogar pedras nas muitas cruzes onde querem pendurar o seu ser. Você sofre e ao mesmo tempo ama e se agarra às suas contradições, ás suas imposturas e o modo magnífico que você abandona falsas idéias e ideais com a mesma facilidade com que os outros trocam de namorados ou celulares.

Você não tem. Você não está. Você É.

E ninguém, e receio dizer, nem mesmo você, pode te tirar isso.

Você flui. Você não pode fugir desse enxame de inquietações e de pensamentos.
De  imediato te presenteio com mais um, que talvez melhore suas poucas horas de sono conturbado:
Abandone a paixão por essa sua dor constante de pensar que você é o único da sua espécie. Não é. Existem vários  dessa nossa tribo esparsa (eu mesmo já conheci alguns, mas penso que talvez  tenhamos virado curvas demais para longe uns dos outros), mas nós...

Nós nos evitamos, olhamo-nos com desconfiança quando nos percebemos, nós nos tememos mutuamente, nós não sabemos o que querer um do outro (até porque é o inferno que queiram algo de nós). Encontrando-nos, sentimos perto, um do outro, renovar a coragem para ser um Eu, e isso ocorre quando estamos quase e finalmente nos rendendo a doutrinação do coletivo.

Nós não podemos ficar unidos porque o aço afia o aço e quanto mais perto de um Eu você estiver, mais um Eu você será e lá no fundo, bem lá no fundo de você há o vil, inconfesso e repugnante desejo de ser “nós”, de se render ao coletivo , de se fundir a massa que divide em ombros desprovidos de singularidade a pesada carga de ser humano.

É, talvez, o nosso desejo mais recôndito, contra o qual nos rebelamos e eu o confesso sem pudor algum porque  talvez por já me considerar velho demais para a teatralidade da negativa obstinada, ou talvez por ter a clara consciência de que se fosse dada a oportunidade, nenhum de nós da Tribo, nem eu, nem você, nem nenhum outro Eu aceitaria.  Seria a morte em vida. E queremos viver vivos!

Daí um dia você passará por aqui e eu talvez já esteja  alhures.
Acontece com uma freqüência  desconcertante, quase como se nós, que somos anomalias ambulantes, tivéssemos em nosso caos organizado, uma ordem caótica a ser seguida.

Espero que não. Gostaria mesmo de conhecê-lo.  Caso não ocorra, caso o mundo me arraste como arrastou a tantos outros... Eu lamento muitíssimo, porque conheço a sensação que você está experimentando agora.

É sem pretensão que as coisas ocorrem. Ainda tenho alguma lenha a queimar e gosto de escrever muito mais do que sei fazê-lo. Então este talvez não seja o meu ultimo post, como o titulo sugere.  Não planejo sumir por ora. Conheço-me o bastante e daqui a uma hora ou um dia, cismo, volto aqui e posto outra coisa, mas como quase tudo o me acontece, ocorre a revelia da minha vontade, então é possível que eu saia por um minuto para comprar pão e... Bem, digamos que o Nada tem fome e gente como nós é seu prato predileto. Cuidado com o Nada meu caro!

Deixe um legado.
Deixe uma trilha que outros possam seguir. Deixe que alguém se reconheça naquilo que você é. 

É a nossa maneira de nos reproduzir. É uma produção assexuada, de modo que ainda que você não tenha os meus genes, se o seu despertar se iniciar ao ler qualquer uma das minhas linhas, se você cruzar a porta movido por qualquer coisa que eu tenha dito, então você é meu/minha filho (a), pai, mãe, irmão ou irmã e mesmo sabendo que você um dia me odiará por ter tirado você do seu lugar de conforto,  mesmo sabendo que talvez eu nunca te (re)conheça, precisa saber que eu sei quem você é. E há outros que sabem. Só tem de nos encontrar.

Agora eu vou ali e já volto.



quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da Minha Necro-linguagem





A minha lógica morre junto as coisas que anseio vivas
E a vida vai perdendo batalhas, deixando a paisagem cinza
E o ar impregnado de vazio.
E enquanto mastigo a familiar sensação de incompreensão,
Moscas vivas empesteiam o ar da manhã
Enquanto folhas secas embelezam o chão da tarde com sua morte.

E é  assim talvez o modo de se darem as coisas,
A pedra beija a vidraça, a vela queima as asas da mariposa,
A alma em êxtase na queda,
O chão subindo violentamente contra a fragilidade do corpo,
Afagos ocultando vilezas e o amor ali, na ponta aguda do açoite.

Mundo louco!
É o ritmo estranho em que o universo dança,
Enquanto vou tropeçando em meus próprios pés
E nas palavras que me explodem a jugular em fogo.

Natural que tudo tenha lá a sua natureza.
E redundância ortográfica ou licença poética que seja,
Lego aos Poetas e aos Semânticos encontrar
As formas  mais exatas de definir
A indefinição,
A singular natureza do nada. 

A minha fala é por vezes  ininteligível e mortal
(mesmo para mim, quando não quero e tenho que falar)
Meus versos são de um embotamento cruel
(Mesmo para mim, quando quero e não posso calar)
E assassino lentamente as coisas quando nelas falo.

É essa, lamento dizer, a minha natureza
Sem semântica, sem poesia...
Mas o universo sabe, não sou nem quero ser poeta.
Somente queria ser mudo e surdo para isso que me ferve as entranhas
Para a febre dos meus sentidos. 

E porque todos os meus espelhos mentem,
Sou um EU atordoado na busca por outro EU.
Talvez  excessivamente encantado
Pelo próprio atordoamento.

sábado, 8 de setembro de 2012

A Alegria da Queda



Toda a natureza tende para baixo.
É a lei da gravidade e das muitas humanidades.

Caia.

Nada há de mais divino que isso.

Caem folhas das arvores no outono, caem anjos nos verões do céu.
Seja feliz na queda, abrace o precipício.
E goze a alegria louca nos poucos instantes
Da queda livre alucinada!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um Sopro em Minha Estupides




É uma situação desconfortável.
Saber tanto sobre o quão pouco se sabe sobre tudo.  A maioria das pessoas não sabe disso. A maioria das pessoas tem uma sorte danada. Receio que eu não esteja incluído no grupo dos afortunados ignorantes da própria ignorância. A maioria das pessoas é sabia. Eu sou, penso em meu errôneo pensar,  de uma estupidez atroz, tão mais aguda quanto mais ciente dela estou.

Mas tem momentos em que eu quase chego a me esquecer de me lembrar do quanto sou tolo. Tem momentos em que posso sem constrangimento dizer, “Foda-se!”, que é expressão grosseira, mas catarticamente a mais perfeita.
Infelizmente, são momentos bem raros.

Porém, tive um momento meio...místico esta tarde.
Estava sentado num velho e gasto banco de concreto bem de frente para um pequeno  bosque (se posso chamar assim, porque na verdade, trata-se de um jardim com algumas árvores que me agrada pelo seu aspecto meio selvagem) que há onde eu trabalho.  A tarde estava ensolarada e ventava o maravilhoso bafo de agosto. Sei lá como, mas consegui por um momento não pensar em coisa alguma. Nem percebi que estava (ou não estava) pensando em nada quando o vento soprou pelas arvores e uma chuva de folhas secas flutuou em diagonal até o chão do “bosque”. Parecia um instante em câmera lenta e eu acompanhei a queda das folhas até o chão como que hipnotizado. Era agosto (mês de desgosto, de cachorro louco e de ventania) agonizando e enchendo o ar de beleza com seus últimos suspiros.

Foi só então que, alucinando ou não, percebi que por um minuto deixei de ser extemporâneo, desconectei das lembranças do passado e das angustias do futuro e existi dentro daquele exato momento em que vivi  a queda das folhas. Foi bastante estranho  (bonito, reconfortante como uma boa noite de sono, mas estranho) e como na ultima postagem eu disse ( lembrando de uma fala ótima do filme ”V de Vingança”) que Deus(a) está no vento, talvez seja Ele(a) brincando com a minha descrença (como se fosse escolha minha acreditar ou não...) dando uma pequena mostra de sua existência.

 Se foi assim, gostei, especialmente pelo fato de ser (em teoria) uma prova de que Ele(a), caso exista,  ao contrario dos que dizem adorá-lo(a), tem senso de humor.

Lembrei-me de uma conversa antiga com uma grande amiga, uma dessas pessoas maravilhosas que a vida nos arranca de um modo ou de outro (como o vento arranca folhas das árvores), que me disse:
“Quem quer buscar a Deus, na maioria das vezes, deve-se afastar das religiões. O pensamento deve desligar-se dos preceitos acanhados; deve rejeitar as formas grosseiras e irrefletidas que as religiões envolveram o supremo ideal.”

 “Deve estudar Deus na majestade de suas obras”.

Era uma pessoa de grande fé, coisa de que ainda sou incapaz, mas hoje compreendi um pouco mais do que ela queria dizer. Eu acho.

E acho que implico demais com Deus(a). 
E na possibilidade de Ele(a) existir, dá o troco do seu modo.

Eu também tenho senso de humor , mas embora tenha apreciado muito  aquele momento, ainda preferia um desfile de anjos na Praça Sete  ao meio dia ou então que a Pampulha se dividisse ao meio mostrando o  leito normalmente  elameado  limpo e coberto por Maná.
Mas acho que isso seria esperar demais.

 Então, partindo do principio de que (segundo dizem), para Ele(a) tudo é possível, possível é que  nas horas de ócio em que não está distribuindo pragas ou bênçãos para a humanidade (segundo dizem 2), tire algum tempo para ler blogs obscuros.

Nesse caso Deus(a),  caso passe por aqui, saiba que agradeço pelo momento mágico da tarde de sol e vento, pela paralisia do tempo na queda das folhas e pelo instante de silêncio que me proporcionou; e se possível (já que para si tudo o é), gostaria de pedir  que me concedesse a graça de poder ficar inconsciente desse tanto que sei sobre o que não sei, ignorante da minha ignorância e não tão certo da minha própria estupidez.. Faça-o por capricho, por compaixão ou por misericórdia (a mim não interessa tanto o atributo quanto o resultado), mas faça. 
Ser-lhe-ia muito agradecido...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Príncipes Universais em Lascaux




Você é uma montanha a ser conquistada?
Tem uma montanha perto da minha casa. Bem...Na verdade, não é bem uma montanha (não para os padrões mineiros).
Trata-se de um morro próximo (bem íngreme)  de forma cônica levemente lembrando aqueles desenhos estilizados de montanha,  que na minha infância  minha imaginação atribuía as proporções de um verdadeiro Himalaia.

Passei meus primeiros anos querendo subir lá, sem permissão e para a minha tragédia, eu era o tipo de garoto "obediota" e bem comportado. Não me admira que eu não fosse muito popular entre os outros garotos...E eu nunca subi a tal "montanha". 
Já fazia um bom tempo que eu sequer olhava para lá. Hoje, mais cedo, parei de digitar isso por um tempo e fui à janela. Ainda é um morro de proporção considerável, mas de modo algum lembra aquele simulacro de kilomanjaro, que minha pouca idade ansiava por conquistar.

Engraçado como o tempo parece privar as coisas de sua imponência....Quando eu era garoto e passava horas a fio olhando para lá era um espetáculo: Coberta com uma vegetação rasteira, algumas árvores  miúdas, grama verdinha...Ah e lá  ventava sempre o sol chegava mais cedo e se punha mais tarde ( e se Deus{a} existe, deve morar no vento e no sol!).
O topo parecia estar sempre iluminado e era delicioso  imaginar-me lá no alto dela, sentado como o rei do mundo...
Agora está cheio de casas e tem uma antena de operadora de celular no topo. E embora eu tenha passado a infância sonhando e eu levasse talvez menos de quinze minutos para chegar lá, nem um eco daquele anseio por subir até o alto daquele morro eu sinto.
Comecei com estes devaneios  da  minha infância  para falar sobre o anseio humano por desbravar  florestas ou escalar montanhas, internas, externas, psicológicas, espirituais, morais, filosóficas, físicas e metafísicas. Penso que  todo mundo gosta inconscientemente da sensação quase mágica de ser o primeiro a pisar num chão, vencer um desafio, romper uma resistência, ganhar uma peleja, um debate.

Ser o primeiro, um príncipe do universo.

 Neil Armstrong foi bastante polido e político em sua fala, mas não foi muito  honesto: Ser o primeiro a pisar na Lua, foi um salto inacreditável para aquele homem! Ao restante da humanidade coube o pequeno passo e o incômodo papel de  coadjuvante (contra o que rebela-se toda a nossa vaidade).

Ou como me afirmou um garoto religioso outro dia “somos todos príncipes universais”. Na minha atual queda para o existencialismo, tenho de “concordar” com ele (embora não veja vantagem alguma em ser um "príncipe" num universo onde supostamente todo mundo o é), porque se existe uma força maior que impera sobre o coração do homem, é a ilusão mal disfarçada de ser um “herói cósmico”. O primeiro e mais importante ente a ser considerado pelo universo (razão pela qual já não tenho impulsos de conquistar aquele morro, porque agora mesmo tem uns moleques lá no alto).

"Príncipes do universo". Por muito que tenho visto, sou levado a pensar que todos os seres humanos se vêem assim, embora disfarcem esse sentimento megalomaníaco por detrás de uma tonelada de recursos ideológicos, dentre os quais o mais bonito, comovente e mentiroso é a humildade.
Temos de justificar para o universo a nossa existência. De um modo ou de outro.  É o que nos move e é a nossa maneira de vencer a morte. E é para isso que criamos os deuses: Para sermos através deles, nós mesmos, eternos, incorruptíveis,  mais importantes do que as estrelas gigantescas ou as milhões de galáxias criadas por Eles, que foram ciados por nós.

Acho que pior do que arrogância é a falsa humildade e, ah...Como somos habilidosos em fingir que somos humildes quando isso contraria toda a nossa natureza!



E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas, desenvolvendo (possíveis e ignorados) tumores que dia desses darão cabo da minha raça e ainda me imaginando o ser mais importante para os deuses, motivo de rivalidade entre eles e ator principal da tragicomédia do Universo.
O problema é que parece que TEMOS de funcionar assim ou enlouqueceremos por termos de encarar a nossa finitude e efemeridade. A desimportância da nossa existência e a falta do significado para a mesma é peso demais para nós.
Fugindo e voltando ao assunto:Você por acaso é uma montanha?
Bem, se for o tipo de pessoa que declara abertamente as suas dúvidas em relação à própria situação de primícia universal do homem, vai se tornar uma montanha a ser conquistada por qualquer um que se sinta ameaçado em sua posição de “príncipe universal” pelo seu raciocínio.


Você é também um daqueles estraga o natal contando as criancinhas que Papai Noel não existe? Saiba que você tem irmãos no mundo, meu amigo. Eu não o conheço, mas já gosto de você!

 Todo mundo tem um amigo nervosinho com quem os outros gostam de implicar, porque é divertido vê-lo irritado. Bem, se você não exatamente o tipo nervoso, mas sofrer de uma fibromialgia intelectual , então o princípio é o mesmo.  Eles têm que deslegitimar as suas dúvidas, porque elas os ameaçam de algum modo.Elas poem em xeque as certezas deles, das quais consciente e inconscientemente duvidam.

E se existem montanhas inalcançáveis, sempre vai ter alguém disposto a arriscar a vida (em ambos os casos, literalmente), para ser o primeiro a conquistá-la.

Você é uma montanha a ser demolida e reduzida às proporções de um morro ou uma colina. Você tem de ser vencido, conquistado, abatido sem piedade e o primeiro a conseguir fazer isso se sentirá um herói. Se fosse possível, moral e legalmente, é provável que empalharia a sua cabeça e a colocaria como um adereço numa parede, diante do qual contaria as vantagens da vitória sobre si.

Como a lei proíbe, o recurso mas usual é te converter em qualquer coisa que não seja você mesmo e se necessário, deixar por modos subjetivos, escrito em sua mente a seguinte frase imortalizante que podemos encontrar em árvores em meio a florestas ou nos parques: “Fulano esteve aqui”!

Nossos antepassados  em Lascaux (os mais antigos e famosos grafiteiros da história) sabiam disso .
É, ao que parece, outro jeito de se imortalizar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Florbela e a Noite do Meu Niilismo



Abaixo está um poema que uma pessoa cuja inteligencia e sensibilidade admiro mais do que posso expressar em palavras me enviou. Fiquei entre feliz e perplexo, pois lendo-o lembrou-se de mim, e de mim mesmo em uma outra instância.
E em uníssono ao espanto pelo (re)conhecimento destes versos que não são meus, mas calam tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu que fiz(?), eis o que me inspiraram:
                
 ...se até o Nada é relativo, nada é relativo, logo tudo é concreto, absoluto. E o que é absoluto é absolutamente desprovido de sentido, de significado. Mais ainda que o Nada. 

O que isso tem a ver com os versos? Tudo a ver e nada a ver. Porque diabos uma coisa tem que ver com outra para fazer ou não fazer sentido (que dá no mesmo)?
Você talvez nada tenha a ver comigo ou com ninguém...Deixa de ter ou tem mais significado por causa dessa sua singular desconexão com o todo?

Se ao ler isso sentir o seu estômago revirar com essas contradições, alegre-se! 
Pelo menos você ainda tem  um estômago que embrulhar! Eu já não tenho estomago para nada (pois o Nada o devorou). Apenas uma amaldiçoada e confusa cabeça pensante (coisa que ela faz de modo cada vez  mais precário como deve ter notado por essas linhas), que não posso resetar e nem deixar em stand by para dormir um pouco como você e sonhar com amenidades.

Mas hoje é uma noite tão boa quanto qualquer outra para fazer amor com os meus paradoxos.

"Foi tudo em vão até agora!"
Não há relatividade, exceto a relatividade do Nada.
É...meu niilismo não tem futuro. E nem deseja ter.

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou! 

                                                                                      Florbela Espanca




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