quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De quando quase meti a colher



Praça de alimentação, Shopping Cidade às três da tarde. 
Casal jovem. 
Ele, cara  bonitinho, como as pessoas entendem a beleza masculina. 
Sentaram bem perto de mim, brigando sei lá por qual motivo, mas meio que ocuparam o banco em que eu estava sentado, me “convidando” a sair dali. Mas como não chegaram a me solicitar polidamente e se permitiram me ignorar, deixei-me ficar por minha vez, ignorando-os também. 
Ou tentando pelo menos.

Brigavam.

Na verdade, era o garoto que gritava como um lunático, coisa bastante desagradável em se tratando de um local público e ainda mais sentado a centímetros de alguém que já estava lá e nada tinha a ver com a lide.

Mas, meu deus, esses “playboys” todos tem o mesmo cheiro! Cheiro de sabonete, mas um cheiro nauseante, como se esses caras comessem uma dieta qualquer que os fizessem suar uma murrinha esquisita...

Certo. Estava de má vontade (e nunca vi um ser humano completamente isento de antipatias e não sou exceção!) para com aquele tipo e tudo nele me desagradaria, ainda que ele exalasse sândalo em vez de almíscar azedo...

Ela, garota linda (como meus olhos entendem a beleza feminina). 
Cheirava maravilhosamente bem, mas acho que meu nariz tem predileção especial pelo aroma doce da progesterona, mesmo por debaixo daquela camada de perfumes e cremes todos. Discutiam acidamente por alguma coisa e não, não estou orgulhoso por, mesmo sem querer, ter ouvido sorrateiramente conversa alheia. 

Azar.

Casal discutindo todo lugar tem. E se a eles não ocorre lavar a droga da roupa suja em casa, problema deles caso  orelhas involuntariamente curiosas estejam ali, ávidas por perscrutar os detalhes do entrevero.

Mas minha bisbilhotice não foi completamente saciada. Chegaram ali já no ápice da questão, naquele momento tenso em que em muitos casos a coisa já culminou para as vias de fato.

Mas era uma briga de casal e jamais me ocorreria que a coisa pudesse descambar (em se tratando de uma rixa homem – mulher) para a violência física. Mas o sujeito gritou com a garota um “vai tomar no @#%! “ com tanta fúria  na voz, que tive um súbito mal estar. “Que diabos esse cara tem? Está drogado?”

Mulheres são criaturas deliciosas e enervantes, isso é certo.
Por vezes, tanto mais deliciosas quanto mais enervantes. Posso listar dúzia e meia de ocasiões, e só no ultimo semestre, em que uma ou outra mulher, nas muitas instâncias da minha vida, me tirou do sério. Mas nada, nada mesmo justifica uma atitude de violência, mesmo moral ou vocal, de um homem contra uma mulher. 
Não da parte de um homem de verdade. 

E isso pode até ser um chauvinismo tolo da minha parte, mas senti ânsias de partir pra pancada com o sujeito e com certeza o faria, se ele tivesse tocado naquela garota, que fosse lá namorada dele ou não, não lhe dava direto de gritar aquela grosseria. E num shopping  cheio de crianças!

Pensando nisso, me ocorre que é a segunda vez em menos de um semestre, fico excitado com a possibilidade de me meter numa briga e levar uns socos, o que talvez mostre preocupantes sinais de sentimentos de autodestruição de minha parte. Mas é maçante ficar o tempo todo indagando das próprias motivações como se a droga do mundo fosse uma extensão da droga do divã.

Azar(2)!

Olhei para os lados. 
Nada de seguranças ou coisa semelhante. Certos profissionais têm o dom de desaparecer de vista quando mais se precisa deles. Isso tudo aconteceu no espaço de minutos, tempo insuficiente para se tomar decisões que poderiam acabar na delegacia ou no hospital. 

É só que tem horas que, ou se mete  colher  ou se encolhe como um covarde e depois vai pra um canto qualquer remoer um desagradável auto-desprezo.
Acho que ia me meter em confusão dos diabos.

E a coisa ia por aí...Eu já sentindo engulhos de partir pra pancada com o sujeito, quando a menina levantou-se do banco, olhou-o com um olhar triste e num meio sorriso disse com suavidade:

“Espero que você tenha câncer...”

E foi embora.

“Espero que você tenha câncer”!!!!

Jesus! Fiquei ali paralisado, sentado com aquele sujeito cheirando a sabonete e murrinha! Nós dois com a boca aberta e olhos arregalados.

Quase quatro décadas de vida e nunca vi ninguém desejar semelhante coisa a alguém. Nunca vi ninguém sentir um ódio tão profundo por alguém a ponto de desejar-lhe que tenha câncer. Ah...Em outra situação, teria rido do tal sujeito, pois era um tipo estúpido que bem merecia um insulto, mas enquanto ele se afastava com a cabeça baixa (talvez digerindo aquelas palavras ditas com gelo na voz), senti dele uma inveja enorme.

É fato, o cara era um FDP², mas o era de tal modo, que conseguia inspirar naquela moça bonita o ódio mais maravilhosamente autêntico que já vi alguém expressar.


E ódio autêntico é certamente muito mais doce de ser usufruído do que um amor por vezes titubeante.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Do que escrevi em caixa de sugestões....

...E se posso recomendar, perca o hábito de ter hábitos...

Os dilemas de um homem sutil




"Ouse, ouse... ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. 

Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!"


Lou Andeas Salomé


Eu ia dizer que é engraçado como, diferente dos cérebros que os pensam, certos pensamentos nunca envelhecem.  Como esse de Lou Salomé...
Mas a verdade é que isso não chega a ter graça.
Isso sequer é uma coisa extraordinária.
Isso simplesmente é.

E a natureza de um homem por vezes se volta contra a simplicidade das coisas e ele se rebela contra a simplicidade, quando talvez fosse mais sábio rebelar-se contra a sua natureza. 
Intimamente, arde-lhe uma certeza velada e uma voz lhe sussurra: "Não é assim. Deve haver algo mais".
E com uma frequência desconcertante ele tem confirmações excessivas da simplicidade do mundo, enquanto anda as cegas, procurando o sentido profundo das coisas.
O que quer que isso seja.

Há no mundo um tipo de lógica matematicamente cruel.
Verdades cruas, que só o paladar de um selvagem pode apreciar com refinamento.

Por exemplo, que não se pode aparentemente obter uma quota de alegria sem que em algum lugar a balança pese em sentido contrário e como resultado, o seu deleite se converte em desespero para outrem.

A vida dá mesmo poucos presentes.
Em compensação, pode tirar tudo o que você consegue obter. Pisque os olhos e já foi.
Você ficou velho, perdeu muito e ainda não encontrou a droga do sentido profundo das coisas.
A duras penas vem, facilmente se vai.
E tem verdades que incomodam, mesmo quando se passa pelo próprio julgamento.
Deve certamente, haver algo de errado quando você começa a pensar que ver alguém se desvencilhar de ideias velhas é tão ou mais sedutor do que uma mulher se despindo.

E quando se começa a questionar, sem aquele constrangimento próprio de quem se pensa virtuoso, a natureza do que chamamos de bem e mal e se percebe que é tudo uma questão de tempo e momento histórico e retórica e cultura, põe-se em cheque a própria concepção do que é ser humano.

Princípios são coisas traiçoeiras e submeter-se a eles é meter-se numa paralisia moral enquanto sua vida cai a sua volta como um castelo de cartas.

Então as veredas, diferentes daquela trilhada tão teimosamente, se abrem como um mar de possibilidades quando se quebra certas correntes, mas a paralisia está não somente no apego as ideias velhas, mas na consciência de que ha preços que não se pode pagar.