domingo, 16 de dezembro de 2012

A Felicidade do Absinto



O sol expirou seus últimos raios,
O que brilha sobre as nossas cabeças é um fantasma pálido.
Caiu para cima, desaparecendo na escuridão do céu.
Foi iluminar outros satélites, mais dignos do seu brilho.
A lembrança dele e a presença de sua ausência tira a essência das coisas menores
E com ele suicidou-se o amor que eu nutria pelas pequenas coisas
Quando não sabia que eram pequenas,
Quando não sabia que eram coisas.

O fato trágico...
Visto-o como quem enverga um traje a celebrar bodas com seu desamparo.
Mas aquela árvore,
Fincou profundamente suas raízes no nada
E tem lá nas alturas a sua copa a bater-se contra os ventos.
O que a pode sustentar senão a teima em bater-se contra os ventos?
Do que nutre a sua seiva e de que serve o amargo de seu fruto sem sementes?

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E caiu uma chuva de bronze na planície cinza e o verão chegou ao mundo.
Isso assaltou meu sonho escuro como uma febre assalta o corpo
E se infiltrou como uma idéia nova a soprar longe o bolor dos meus pensamentos.
Correu-me nas veias mais rápido que absinto e me embriagou,
Sem que com isso me tornasse irresponsavelmente feliz na embriagues
Como com o absinto...
Mas forçou-me a uma alegria involuntária, violentando-me a angustia
Seguido de um desespero que olhava as raias do outono distante, ainda o outro lado do mundo...
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E eu semeio pedras num campo rochoso e ainda lamento o não germinar...
E procuro encontrar onde não está o que busco (porque não posso achá-lo em outro lugar)
Sonho com o possível dentro da impossibilidade
E quero ver atrás do suposto o que é real
Ignorado pelo suposto que se pensa real, mas não sabe o que é...
E eu  não sei.

A seiva da incompreensão nutre as folhas
E a copa larga como velas de uma nau bate-se com os ventos do mundo
Vento, nada , solo rochoso...
E uma Charybdis a esquerda do peito, entre as costelas
O resto é pó e silêncio...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Lisbon Revisited (1926)




Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

                                    Álvaro de Campos

domingo, 4 de novembro de 2012

Para Dançar com o Meu Entorpecimento de Cada Dia


Nina Simone é uma maravilhosa trilha sonora para qualquer coisa. Dá vontade de dançar...
Difícil para quem tropeça tanto nos próprios pés quanto nos pensamentos emaranhados...

Eu não sou um dançarino e tampouco um amante. O que não significa que deva ter ensejos de ser expectador na sala onde outros dançam ou na alcova onde outros fazem amor. O teatro humano tem enredos demais para que o olhar se detenha no que quer que seja.
Reprises nesse teatro, não são clássicos, são o cansaço disfarçado de nostalgia.

Por enquanto, ensaio uns passos trôpegos com a minha sensação de vacuidade, bem aqui, onde deveria ter uma alma e dou beijos modestos na minha confusão quotidiana.

Se isso vai me render uma valsa ou uma cópula...Bem, expectativas à parte, sempre se pode contar com os erros das coisas, não é?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esquina



Eu sou o que não sou. E frequentemente, consigo não ser o que sou com maior zelo do que o ser.
E sendo, não posso ser outra coisa que não esta dialética e esse cio entre o ser e o não ser.

Os meus sentidos um dia talvez – não sei por qual sortilégio – venham a calar
E eu, com outras percepções, de outros modos venha a saber
Que na vida não tenho amado senão a fantasmas vivos
Sendo eu próprio e este espelho,
E estas rugas e estes olhos no espelho que me fitam com rancor,
Um fantasma do amor que deixei de legar a mim mesmo
Enquanto amava fantasmas vivos...

Penso que eu realmente deveria fumar estes cigarros
Que deixo arderem como incenso no cinzeiro apenas por gostar do cheiro de decadência
Da fumaça que se desprende da seda e dança até o teto.

Penso que eu realmente deveria parar de emprestar livros e sonhos.
As pessoas nunca os devolvem e eu me encontro pelos corredores desprovido de tudo,
Com a estante e a cabeça repletas de fantasmas literários e oníricos.
Um vazio paradoxalmente repleto de ausências.

Se eu virasse agora aquela esquina onde há um minuto
Garotos barulhentos perseguiam um cão vadio,
E pegasse depois de umas curvas e algumas esquinas outras, um caminho para o deserto,
Talvez perdesse essa sensação de alheamento
Com essa casa e este espelho,
Com esse silêncio barulhento em meu sangue
E essas gargalhadas que vem não sei de onde, 
E essa gente lá fora e essa inquietação aqui dentro
E esse desespero branco e essa preguiça tardia e esse cansaço que me corrói as horas
E as entranhas...


Há grandes questões no mundo,
Guerras e estrelas a explodir e a nascer nos remotos do céu e da terra.
Ali é só uma esquina mal iluminada.
Deus e o Diabo devem estar neste momento ocupadíssimos;
Em batalha pala alma de algum santo, decidindo o destino de uma nação,  envolvidos demais nas importâncias do mundo,
Para olharem para uma simples esquina.
Se eu virar ali sem que vejam, escapo para sempre das grandes questões!
Da metafísica!
Pensando nisso, deitei escadas abaixo o meu corpo em fuga dos meus pensamentos, antes mesmo de pensar no absurdo de empreender tal fuga.


Mas antes de virar a esquina, eis que me antagoniza um vagabundo.

Era um vagabundo parado entre eu e a esquina, olhando-me em desafio.
Talvez me confundisse sabe-se lá com que objeto do seu mal querer, mas era um vadio.
Chamo-o assim, porque o odeio.
Insulto-o porque o invejo.
Está ali, sem camisas e sem pudores, exibindo o torso nu no azul da tarde.
Gozando, por entre os rotos que parcamente lhe cobrem as partes, o estômago semi-vazio e a imundice de sua pele,
 A gloria de não ser eu.

Que direito esse maldito tem de não ser eu?
Que direito tem de estar ali fora das grandes questões do universo
E de ser peça ausente do xadrez de Deus e do Diabo?
Odiei-o! Odiei-o pela sua liberdade de não ser eu...
E por impor, como baluarte, sua liberdade entre mim e a esquina por onde eu fugiria.

Avaliei a coisa pela matemática enquanto retribuía o desafio.
Os números me desfavoreciam...
Era vinte quilos mais pesado, vinte centímetros mais alto e vinte anos mais jovem do que eu.
Levava na cara atrevida  e nas unhas sujas a malicia das ruas que em tempo e por entre  feras irmãs aprendera,
E que meus diplomas e leituras e noites em claro jamais me ensinariam.
Como ser fera livre.
Levava nos olhos a leveza da vadiagem desprovida de tudo.

Ele me bateria, estou certo e isso me fazia estar feliz com a felicidade dos desgraçados.
Pois por vezes um soco a esmagar as bochechas e dentes e ossos – é tanta vida a se desprender de um gesto – aquece a alma tal qual um beijo apaixonado.
Havia muito eu não sabia o que eram ambas essas coisas.

E por tudo o que estava em meu desfavor, decidi que definitivamente o atacaria.
E por deus, se não desembargasse aquela esquina, eu o reduziria a cinzas!

Que espetáculo seria!
A minha respeitabilidade engalfinhada com a livre mendicância dele!

Sim, era eu e era ele que não era eu e lutaríamos!
Tal era o meu ódio que, tinha certeza,  o esmagaria contra a sarjeta onde mendigava o seu pão.

Mas antes que eu travasse peleja mortal, uma nuvem cruza o céu e Deus e o Diabo olham.
Eis que passa um carro e um homem atira uma moeda,
E meu inimigo, rapidamente esquecido de mim, corre por entre os carros, arrisca a vida
A cata de uma moeda de pouco valor.
Li em seus olhos o desespero para buscá-la  e ao que ela traria e apiedando-me dele, amei-o.
A fúria que me animava os músculos se esvaiu.
Oh, homem desgraçado! É meu irmão!
Ele cata moedas por entre carros e eu  metafísicas  nas vilezas da vida.
Não é melhor do que eu, apenas tem amos em menor número.
É tão rico de necessitar de tão pouco, que nem me permite odiá-lo.

De volta ao meu quarto e muito depois, passado o meu sonho de mutuo extermínio,  lamento em silêncio o olhar de Deus e do Diabo
Para aquela esquina onde um homem agora dormia sobre trapos
Em sono menos perturbado do que eu em sedas e travesseiros a lavanda.
Ele só quer pão e álcool e eu quero o impossível não querer, mas...
Espera...!

Há aqui nesta mesa pão em demasia, repleto de bolor.
A metafísica não me permite comer.
Há aqui neste armário e sob esta cômoda, vinho mais velho do que meu cansaço.
A moral não me permite beber.

Do que ele necessita, o pão para saciar o corpo, o álcool para acalmar a alma,
Tenho em abundância, sem no entanto ter calma e sem saciedade.
Deveria ter arrebatado-lhe a moeda como me furtou a fuga!
Por que necessitaria de algo mais do que já tinha?
Era livre! Não era eu...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Insuficiências no Envelhecer


O real problema de se envelhecer, é que é este é processo demasiadamente lento.  Ocorre com um vagar que possibilita degustar todas as minúcias dessa decadência sutil. Um cabelo branco a mais, um fôlego a menos, a soma de um cansaço a mais, uma energia  subtraída e do montante, entre perdas e ganhos, resulta  uma impaciência que vai se instalando quando se percebe que já é bem tênue o fio que te liga a quase tudo o que antes te fazia atravessar meio mundo para buscar.

A morte assustadoramente mais perto a cada dia, ameaçando te privar do pouco de alegria e de significado que ainda resta no mundo.

A morte, a mesma morte,  desgraçadamente longe demais para te libertar da angustia que é suportar a angustia de ter que morrer e de ter que viver a morte a cada dia.

Foi o que? Cinco ou seis anos atrás? Você estava atrasado e corria dois quarteirões morro a cima para pegar o ônibus. Agora, quando tenta fazer o mesmo, pára na metade do caminho  sentindo seus pulmões e garganta em fogo e seus joelhos feito água. Mas não o suficiente. Você está velho, meu caro, mas não o suficiente.

Daí quando você viaja para algum lugar, se apaixona pela estrada, pelo percurso...E sonha nunca chegar ao destino e jamais retornar ao ponto de partida. Você sente inveja de tudo o que se vai, de tudo o que vira a esquina e tem a liberdade de se ir, daquele saco plástico que o vento da tarde arrastou para o céu e para longe... 
Você sonha em cair pra cima e flutuar para sempre sobre os grandes vazios da terra, sobre os desertos, geleiras, campos  e mares infinitos...Cruzando ocasionalmente com aquelas outras almas flutuantes...

Mas, oh, diabos! O metrô está lotado como sempre, mas não o suficiente para te esmagar de vez e te libertar do peso do esmagamento.  O calor está infernal na cidade, mas não chove nem água para aplacar o calor e nem fogo para purgar essa Gomorra belorizontina de seus pecados mundanos.  Os pecados de BH não são o suficiente para merecer um dilúvio de fogo. Aquele cidadão está irritadíssimo porque você explicou pela décima vez que sim, vai ter de pagar tal e tal taxa municipal, mas a raiva dele é insuficiente para que tenha um dia de fúria e saque uma arma e liberte a si mesmo e a você da angustia de ter que discutir por uma quantia, que ele provavelmente gastaria em alguma banalidade...

O problema de se envelhecer, é que isso ocorre de um modo modorrento demais para que você se importe em estar envelhecendo. 

Você nem mesmo fica velho o suficiente para lamentar a perda da juventude. 

E nem celebrar a chegada da maturidade. Porque você sabe, com uma percepção que só tem quem deseja cair para cima, que nunca foi jovem o suficiente para viver irresponsavelmente uma infância e puberdade. Havia sempre uma sensação gelada de que havia mais na vida do que a efemeridade dos folguedos e você olhava pra cima enquanto o mundo corria a sua volta. E você envelhecia lentamente, percebendo  que o fazia.

Também  jamais será velho e sereno o suficiente, ainda que viva um século, para aplacar a inquietação. Haverá sempre a arder o calor de saber que o céu, por mais infinito que seja, é insuficiente para  conter o seu desejo...De flutuar para sempre.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Amici, ad Qui Venisti?


E aquilo chegou-se deslizando da escuridão da noite para a luz das labaredas na fogueira.
Não desrespeitou meu silêncio com saudações vazias e retribui-lhe a gentileza calando-me por meu turno. Claro que não pediu licença e nem era necessário. Eu era dono das cinzas e da madeira que crepitava, mas não do fogo, porque o fogo não pertence a ninguém.

Acocorou-se de frente e ali deixou-se ficar como eu, absorvido pela dança das chamas.
Era uma sombra, ou coisa que mais familiar seria se eu a chamasse assim. Não sabia o que era e nem parecia me importar ou se importar. Compartilhávamos o fogo, mas não a presença um do outro. Éramos então duas sombras gentis, zelando pela solidão um do outro.

Não sei se tinha olhos para ver ou um rosto que fosse visto, mas era uma sombra. De algo ou alguém...
Era noite escura  e ventava muito naquele deserto dos sentidos.  Seja lá o que isso for...
Uma parede de breu translucida se erguia alguns metros além do alcance do dourado das chamas, o deserto e o mundo se resumiam a aquele círculo e aquela sombra pareceu um pedaço da noite infinita a se desgarrar e vir aquecer-se, embora não fizesse frio.  

Não era do tipo supersticioso e não havia motivo para temer o que quer que fosse que viesse noite adentro. Mas algo naquela sombra solitária atraída pela fogueira de um vagabundo dos ermos  me inquietava.
Veio na direção contraria a que eu seguia, muito embora eu não tivesse direção alguma a seguir, o que é a coisa mais bela em um deserto – Não ter caminhos...

Mas eu sentia, muito mais do que sabia, que aquela sombra vinha na não-direção contrária, e eu pisaria nas pegadas dela voltando e ela pisaria em minhas pegadas indo.

Talvez...
Talvez fosse eu voltando de lá, daquele lugar para onde eu não ia seguindo sem querer chegar a lugar algum enquanto olhava para o céu. Talvez aquela sombra agachada perto do fogo olhando para o infinito das chamas fosse eu, mais velho e imensamente mais sábio. Ou pelo menos, menos miseravelmente  tolo. 

Talvez me olhasse dali do outro lado da fogueira como sombra também... Uma sombra da sua juventude, da sua infância, do caminhante sem rumo que foi e que muitos anos antes se sentou numa caverna meio perdida num deserto dos sentidos, ponderando sobre a natureza de uma sombra.

Talvez me olhasse com compaixão ou com pesar, talvez me invejasse a pele ainda virgem das muitas cicatrizes que levava e a alma ainda carregada de anseios...

E eu querendo saber se ele havia encontrado um pássaro pintado naquele céu infinito acima do deserto.
Mas se fosse eu, claro que não me diria.

Eu jamais pouparia a mim mesmo o esmo em que vagava e a jornada, e a solidão das dunas e a espreita de Graograman e o vento quente no rosto e a sede de água e de mim mesmo...

Não. Estava decidido a, caso encontrasse a mim mesmo em algum momento da ida ou da volta, não faria nada a não ser partilhar um silêncio a volta de uma fogueira...

E a madrugada rompeu  a escuridão e tão silenciosamente quanto veio, aquilo foi para fora da caverna, das minhas vistas mas não dos meus pensamentos, enquanto eu caminhava pela paisagem árida saudando o sol e o vento maravilhoso e sem perceber, pisava os passos  que vinham de lá, de além das dunas, marcados na areia colorida....

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Etc. (Cassiano Ricardo)

Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
(Fernando Pessoa)
Para que o mundo exista, existimos.
Pois seja.
Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?

Seria a árvore dos dourados pomos, etc.
O que é ignorado não existe.
O que é eterno também não existe.
A eternidade é uma forma de não existência.
Ao menos para nós o mundo não existiria
se não fosse existirmos.

Para mim, por exemplo, o mundo existe
porque ora estou alegre, ora sou triste.
Mas no fim vem a morte e… nos leva.
O seu poder é bem maior que o nosso;
porque é o da treva, e o nosso, esse não passa
de só dar existência ao que claramente já existe,
ao que só existe em razão dos nossos frágeis sentidos.
Que podemos ouvir, olhar, tocar, etc.

Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim… que foi? Um homem suicidou-se.
O dedo lhe está preso, ainda, no gatilho,
rígido como uma hora certa. Sem nenhum
arrependimento.

Muita gente reunida em redor do seu corpo.
Muitos rostos examinando o seu rosto.
Mas ele suicidou-se, apenas? Não é, isso, bem menos
do que ele fez?
Ele desceu violentamente a cortina da noite
sobre nossos rostos, que só continuam vivos
para nós.
O seu corpo ali está, presente a todos,
mas nós — que somos todos — já estamos ausentes.

Ele nos suprimiu.

Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.

Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Ele desceu violentamente a cortina da noite.
Jogou ao chão a sua própria estátua.
Não aceitou a explicação da vida.
Fez qualquer coisa de mais belo e mais monstruoso.
Pois nem Deus (e Deus é Deus)
conseguirá, jamais, fazer o que ele fez: suicidar-se.

Ah, ele conserva ainda
na mão a arma com que apagou o sol e as estrelas.
Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Agora virá a mulher e essa mulher o abraçará loucamente.
A esposa, e um anjo, a filha, lhe dirão palavras estranguladas.
Virá a ambulância. Alguém já chamou a polícia,
e haverá autópsia, etc.

Cassiano Ricardo

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De(i)spensando um Pensamento Minimalista


Beleza? Que é que eu sei de beleza meu deus!?
(Que é que eu sei de qualquer coisa?)
Me disseram uma ou mais vezes há muito tempo que eu não era bonito. Para meu infortúnio, eu era criança e crianças tem o dom de acreditar em tudo. Receio que acreditei neles de modo irremediável talvez. Mas penso que segundo a estética de algum lugar do mundo, talvez entre os aborígenes da Austrália ou entre os povos de alguma ilha perdida ao sudeste dos trópicos e meridianos do mundo, alguém de passagem por mim talvez considerasse que eu fosse uma visão agradável ao olhar.

É uma possibilidade, mas estou inclinado a duvidar dela. Que é que eu sei de estética?

Eu deveria achar “belos” um pôr do sol, um bebezinho sorrindo, uma imagem em flashplayer de uma flor desabrochando, uma pintura abstrata que não compreendo bem ou o rosto anguloso daquela moça que passou por mim com olhos lacrimosos  uma noite ou duas atrás...

Belos? Sem duvida! Belos ao engano dos meus olhos que não passam da superfície das coisas.

Mas quantos pores do sol, bebezinhos sorrindo, imagens em flash ou moças de rostos simétricos terei de ver até que algo disso me fale ao coração de tal modo que eu possa genuinamente dizer que tais têm significado para fora da estética?

Que pôr do sol, bebê sorridente (excluindo minha filha, porque aí já tenho uma opinião demasiado comprometida), imagem ou moça bonita passou por mim e alterou o curso do meu destino ou minha percepção de que existe algo para além da superficialidade das coisas vistas?

O problema é a fugacidade com que essa beleza toda desfila diante do engano dos meus olhos, porque sempre virá um por do sol mais rubro ou dourado, um bebê mais risonho ou uma moça mais bonita...

E a estética continua para mim a ser um abismo insondável.
Dái me dizem que “a beleza está nas coisas simples”.

Que lindo! Que pensamento mais gracioso e delicado...

Mas como quase tudo que é simplesmente gracioso e delicado e que agrada aos sentidos imediatamente ( e dos quais desconfio imediatamente), esse pensamento carece de alguma sustentação.

Mas não sou eu que vou tentar baseado na minha ignorância do que é beleza ou estética, a dizer se as coisas simples é que são belas.

Só deixo um “talvez”.

Talvez a beleza não esteja nas coisas simples, que são facilmente percebidas sem esforço, mas na capacidade de ver o belo das coisas complexas, que não são simplesmente bonitas.

domingo, 23 de setembro de 2012

Do que andei postergando...Um bom filme


Acabo de assistir a um filme que há tempos me indicaram. Estava meio perdido entre um monte de textos que devo ler para a faculdade, coisas meio acabadas que comecei a escrever e um aborto de TCC que ignorei solenemente. Comprei o filme já faz algumas semanas, depois de ter assistido a trechos na tv a cabo, mas meio que fui deixando a cargo do “amanhã assisto”.

É uma daquelas coisas que a gente vai procrastinando por razões muito subjetivas, como o regime que iniciaremos na segunda feira seguinte abandonando o prazer da boa gula, ou a visita a aquele amigo enlutado a quem não visitamos por ocasião de sua perda ou /e tudo mais que deixamos para o iminente “logo mais”.

Et bien, digamos que não havia mais motivos (aparentemente ) para empurrar com a barriga. Apertei play e após breves minutos de filme: Choque! Quem me indicou esse filme me conhece mais do que eu supunha e isso me deixa consternado além de qualquer expressão, porque isso abre e fecha tantas possibilidades que me deixa com a cabeça zunindo e os nervos em pandarecos.

Choque (2)! Confirmei o que eu suspeitava desde que assisti a “The Truman Show”: Jim Carrey é um bom ator, apesar de fingir magistralmente que não é, fazendo em diversos papeis aquelas irritantes caretas e traquejos.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (titulo estranhíssimo em minha opinião, porque o mais provável é que uma mente sem lembranças seja um tanto opaca), é daqueles filmes que para certas pessoas, não todas, funciona mais ou menos como um soco no estômago. Ou um beijo para lá de lúbrico. Ou uma droga de misto dos dois.

Como a muita gente não gosta que lhe contem o enredo de um filme (coisa que nunca compreendi direito) limito-me a dizer que a história fala (particularmente e única e exclusivamente para mim) de como certas  coisas são e de como as coisas poderiam ter sido,  os muitos atalhos tomados ou evitados e...Não fala de nada disso, mas são inferências particulares que por motivos meus acabei fazendo.

É sobre um casal de namorados que resolvem apagarem-se (literalmente) das mentes um do outro e para isso contratam os serviços de uma empresa.
O filme, muito bom por sinal, me levou a pensar possibilidades e isso é irritante e desalentador, porque o diabo criou e mora na maldita expressão “e se”...
O diabo é o pai das possibilidades natimortas.

Adiante...

Além daquilo de que não falarei, fiquei pensando que este é o segundo filme a que assisto nos últimos meses que fala da possibilidade de se manipular mecânica e artificialmente a mente humana. O primeiro foi “A Origem” (e sim, eu sei que Brilho Eterno é um filme já velhinho, mas como só o assisti agora, ele ficará na segunda posição). Acho que já dei uma opinião excessivamente entusiasmada do enredo de A Origem em post anterior, de modo que vou ater-me, se me permitem, no mérito da possibilidade de através de uma engenhoca qualquer entrar, apagar, inserir ou alterar o conteúdo da mente.

Não tenho duvidas de que se e por acaso um dia venham a comercializar um aparelho capaz de tais feitos, aquilo que chamamos de “identidade” estará irremediavelmente perdido.

Pessoas são sonhos.
Li isso uma vez num quanto e tanto, onde deveria estar uma pessoa, mas estava apenas o eco de um sonho de alguém...

Acrescento, lembranças são pessoas.
E não sei de nenhuma pessoa que esteja compondo aquilo que chamo de memórias, que em algum momento de nossas vidas não nos tenha ferido de um ou outro modo, intencionalmente ou sem querer. Isso é um problema, se pensarmos que nós seres humanos, gostamos em demasia do lúdico, do “pensamento felizinho”, das coisas meigas e ternas e doces e “fofas”e evitamos do modo como pudermos enfrentar lembranças ou pensamentos tristes. Somos uma hedonista e lamentável espécie.

Aquela garota  que você namorou até uns meses atrás e por quem estava apaixonado a ponto de lhe oferecer a lua como enfeite para os cabelos (Jesus!) e que terminou com você ou versa ou o oposto de ambas as opções, hoje lhe causa um profundo mal estar quando se encontram nos lugares comuns que freqüentam. Ah, sim, você superou e ela também. Mas o mal estar permanece. A dor te rói um pouquinho cada vez que você pensa na possibilidade perdida e sente uma raiva fria de si mesmo por pensar naqueles momentos de fragilidade em que você confessou que a amava mais do que tudo.

Seu estúpido! Seu maldito idiota! Agora ela está com outro e você já não pode “desdizer” o que disse. Não pode mudar o fato de que ainda sente-se fraca ou francamente atraído por ela.

 Não seria maravilhoso apagá-la da lembrança do mesmo modo como se apaga um arquivo do PC? Pense só na possibilidade! Sem mais dor, sem desconforto... Talvez até mesmo pudessem se tornar amigos um dia, conhecendo-se novamente, amando-se como se fosse a primeira vez, como se aquelas palavras ásperas não tivessem sido ditas, como se tudo não tivesse acontecido daquele modo...

E porque parar só por aí? Nada de análise, nada de sofrer num divã tentando ressignificar coisas ou traumas que preferia enterrar bem fundo. Todas as lembranças ruins, todo aquelas ocasiões em que se sentiu perdido, impotente, desamparado e infeliz em qualquer situação e com qualquer pessoa. Tudo deletado num passe de mágica e você poderia acordar pela manhã se sentindo renovado. Uma nova pessoa.

Efetivamente, seria exatamente isso o que você seria. Porque isso que te morde aí nessa cavidade por entre as costelas, essa dor ardente de ser, este é você.

E embora você goste de pensar que apenas as coisas e “pessoas boas” são ou foram relevantes para te fazer ser, meu caro, você não é senão uma sublime síntese da dialética do amargo e do doce da sua vida.

Você se deve, o que sabe e o que te compõe a todos os que passaram pela sua vida e, com efeito, se parar para considerar a coisa com um pouco de honestidade, vai chegar a conclusão de que aquela menina com quem você trocou umas carícias rápidas mas cujo nome você sequer se deu a trabalho de perguntar, teve menos ou nenhum efeito duradouro na constituição do seu eu, mas aquela fulana infernal e linda cujo nome você gostaria mas não pode esquecer e que te deu um fora sensacional quando você chegou-se a ela excessivamente confiante, teve um papel fundamental no seu aprendizado sobre causa, efeito e na conveniência de se ter um pouco mais de modéstia no trato com os outros.

Apague o que te dói lembrar mas é grande a possibilidade de que vá  se apagar no processo... Não, não vou fazer um mau julgamento de seu caráter caso coloquem esse serviço a disposição e você seja o primeiro da fila. O mais provável é que eu, por ter certa alergia a levantar cedo demais, acabe chegando depois de você e seja o segundo. É só uma suspeita...

Porque, ao menos conscientemente, prefiro ostentar maus pensamentos e lembranças tristes como a medalhas atestando o meu valor nos combates em que a vida me venceu de dez a zero, a apagar-me junto com as lembranças dessas muitas derrotas e tornar-me um sujeito alegrinho, despreocupado e completamente desprovido de qualquer densidade.

Mas, claro, é fácil ter esta opinião conquanto o serviço da Lacuna esteja restrito apenas ao campo da ficção.

Ótimo filme aliás...

domingo, 16 de setembro de 2012

Sábado, Sete e Quarenta



...Bem antes do que eu gostaria. Que diabos!

O mundo não dá uma folga nem para a minha preguiça de me irritar com tudo.

Sábado, sete e quarenta da manhã, pego o ônibus para ir à faculdade. Calor infernal, o que me agrada bastante porque para o tipo de criatura que sou, mesmo se chovesse fogo do céu ainda estaria frio. Mas, claro, não penso unicamente no meu conforto e já passou da hora de cair uma chuva por aqui para acabar com esse mormaço terrível que cobre BH.

Entrei no ônibus já com o humor não dos melhores.

 Saído de sei lá de que buraco, entra um casal. Cabelos desgrenhados, roupas sujas cheirando a suor de muitos  dias e a álcool. Pinga de má qualidade para ser mais exato. Jesus! Sete e quarenta da manhã!

Carregavam o que parecia ser uma TV de LCD ou coisa parecida. O Homem, cerca de trinta anos ou mais ou menos, entrou pela porta do meio, deixou a TV e voltou para  se sentar nos bancos dianteiros, bem debaixo de um letreiro onde dizia: “Reservado para idosos e portadores de necessidades especiais”

A única necessidade especial que aquele ali tinha, era a de um bom banho! Com urgência!

A mulher sentou-se bem na minha frente, ocupando dois bancos com a Tv no colo. E a viagem seguiu por uns dois quarteirões, quando  ela sacou de uma bolsa ou sacola o que parecia ser um “marmitex”. Para quem não conhece o termo, trata-se de uma embalagem feita de papel alumínio amarrotada, simulando o que deveria ser uma marmita. Meu deus!

Macarrão alho e óleo e arroz! Dentro do ônibus!  E uma droga de molho qualquer cujo cheiro forte e enjoativo deu-me um murro no estomago, lembrando-me de que na pressa de sair  acabei não tomando café.  E só o diabo sabe onde aquela mulher conseguiu um garfo. Juro! Um garfo de metal dentro do ônibus as sete e quarenta da manhã de sábado!

Agora pensando naquilo, não sei dizer o porquê não levantei e fui para os bancos traseiros do ônibus ou então descido. Porque o dia já começou mal e se eu tivesse um pouco de inteligência, teria visto nisso um sinal dos céus, descido do ônibus  e voltado para a casa e ficado por lá até depois de meia noite. Talvez o domingo começasse de modo mais ameno.

Então...

Sentado estava, sentado fiquei, talvez me penitenciando por alguma coisa. Excesso de pecados necessitando serem purgados talvez... Enquanto aquela mulher  devorava aquela comida que, de certo, era do dia anterior, fiquei pesando: “Por favor, me decepcione e não jogue os restos pela janela...”

Pois a criatura pareceu adivinhar-me os pensamentos e depois de uns torturantes minutos comendo, embrulhou os restos dos restos e atirou pela janela.  Depois sacou três Yakults da sacola, tomou os três de um gole sé e lá se foram as embalagens voando pela janela do ônibus. Que combinação maravilhosa de uma refeição matinal! Macarrão alho e óleo e Yakult!

Ainda fez uma “limpeza” na sacola que levava, tirou os restos mortais de outros alimentos e porcarias anexas e jogou tudo pela janela após o que, começou a chupar os dentes  e a limpá-los com a unha suja do dedo mindinho. Um fragmento de comida voou e ficou pregado no vidro da janela. Passou a poucos centímetros do meu rosto e eu fiquei gelado pensando nos vinte anos ou mais, que eu certamente passaria em um presídio qualquer cumprindo pena por “maloqueiricídio”, caso aquilo caísse em mim.  

E já estava engolindo de volta a bile que me subia como ácido pela garganta (porque estava certo de que ia vomitar e como estava com o estomago vazio de tudo o que não fosse ódio, tenho certeza de  que vomitaria Napalm), cabeça doendo de raiva e enjôo quando eis que entra um sujeito...Que foge a qualquer definição.

O ônibus estava quase vazio, mas o tal fez questão de ficar em pé, naquele espaço em meio ao ônibus que é reservado aos cadeirantes.  Apoiou o traseiro na barra de ferro bem na direção de quem estava sentado. No caso, de costas para mim e para a educada senhora que acabara de fazer a sua sofisticada refeição matinal.

Nada demais, mas o sujeito que... Porta alguma adiposidade, tendo-a concentrada quase que exclusivamente na região sobre os glúteos ( que numa vaca chamaríamos “alcatra”), estava usando calças largas demais, sem cinto e por efeito da gravidade (e da total ausência de bom senso), calças e cuecas largas caiam.

Que é que meus pobres olhos fizeram para merecer semelhante espetáculo?

Resultado  ostentoso do seu apetite, o sujeito certamente estava orgulhoso de sua obra, posto que ao sair de casa, deixava-a a vista de todos. Um artista sem dúvidas!

E, de certo, o tal era aparentado dos lobisomens ou da nobre família dos ursos pardos, porque eu certamente poderia passar umas trinta encarnações ou mais sem ver semelhante coisa, mas a não ser que se tratasse de um boi almiscarado dentro do ônibus, aquela foi certamente a  “alcatra humana”mais cabeluda que meus olhos já tiveram o desprazer de olhar.

Que droga de mundo horrível! Principio da Alteridade, descanse em paz!

Macarrão com Yacult, lixo voando pela janela e um “cofre cabeludo” às malditas sete e quarenta de uma maldita manhã de sábado!

Horror! Horror! Horror!




Imagem:artedootavio

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ultimo Post




Este é o meu quarto  blog. Os outros três implodi pelo mesmo motivo: 
Passado algum tempo, comecei  a me preocupar  em demasia com a qualidade estética daquilo que escrevia, procurando a forma em detrimento do conteúdo e ficando reptilicamente envaidecido pelos elogios que as coisas que escrevi recebiam. Fiquei excessivamente cordial. Curiosamente, era justamente aquilo que eu considerava o mais superficial e óbvio dentre o que eu escrevia a  agradar. Então envergonhei-me, senti-me  alienígena daquilo tudo e abandonando as cascas anteriores, iniciei este meu Psicodellias em 06/01/2011.
 http://sahgelk.blogspot.com.br/2011/01/primeiro-post-by-sahge.html  

Para a minha surpresa,  passados inacreditáveis vinte meses, ainda não explodi este. Mas ele anda correndo um serio risco.

É que os primeiros três tive de destruir quando entendi que eles começaram a ter um propósito e como sou partidário do Caos, penso que as coisas que realmente  merecem a existência são justamente aquelas que não têm  ou não servem a propósito algum ou a ninguém.  
E agora, com as sutis raias da minha cada vez mais esmaecida capacidade de reflexão, entendo que este blog está servindo a um propósito.

O propósito é encontrar você.
Ou ser encontrado. Dá no mesmo. Fazendo a equação de modo contrario, realmente  o caos dos fatores não altera o resultado.
Já me perdoei por isso. Não foi nunca a minha intenção. Um propósito freqüentemente não se revela para mim até que eu o veja delineado em algum subterfúgio ou comportamento meu. E eu percebo, por muito e por pouco que escrevo nos últimos tempos  quase como se falasse a alguém. Agora o “quase” me abandonou e estou sob o julgo desta certeza.

Eu falo a Você.

E também estou subjugado por  outra ainda mais pesada, a certeza de que nossos caminhos provavelmente não vão se  (re)encontrar e você se sentirá órfão de mim quando passar por aqui e eu já estiver  longe quanto eu sinto agora o peso da sua falta. Da falta daquilo que eu não tive e provavelmente não terei.Sim, eu snto falta do que não tive. E você também...

Ou eventualmente nossos caminhos se cruzam  e você ou eu fugiremos apavorados ou não nos reconheceremos. Os nossos encontros serão sempre tardios ou prematuros. Parece ser a nossa sina e eu espero sinceramente que os que vierem após este nosso tempo de desencontros, encontrem um meio mais eficaz de permanecerem juntos. Daí teremos realmente uma tribo de Eus e não um amontoado de indistinto “nós”. É um plano ambicioso, uma (re)união de Eus e me revolta até a raiz da alma pensar que provavelmente não estarei por perto quando tal se concretizar.

Eu escrevo sobre o nada, mas não escrevo para o nada. Eu escrevo para você, que é um “Eu“ anacrônico, que percebe que está numa situação de singular contrariedade com os muitos meios em que vive. Você que é sutil em sua peculiar condição de ser pensante, inquieto. Você que incomoda os acomodados com a sua existência intensa. Você que mesmo que queira, não pode ser ignorado. Você que deixa sua consciência flutuar no zumbido da própria consciência e pondera porque não pode realmente viver um instante dentro do tempo, enquanto a sua volta fala-se, vive-se e morre-se em banalidades... Você...O mundo tem batido forte, não é? O Mundo tem sido implacável...

Bem há um sistema, e a homeostase diz que o sistema tem que permanecer em seu equilíbrio estagnado e você, meu caro, você é a doença do sistema. E ele quer te combater e te enquadrar. Eu o cumprimento por isso! Você é da minha tribo.

Você já não teme jogar pedras nas muitas cruzes onde querem pendurar o seu ser. Você sofre e ao mesmo tempo ama e se agarra às suas contradições, ás suas imposturas e o modo magnífico que você abandona falsas idéias e ideais com a mesma facilidade com que os outros trocam de namorados ou celulares.

Você não tem. Você não está. Você É.

E ninguém, e receio dizer, nem mesmo você, pode te tirar isso.

Você flui. Você não pode fugir desse enxame de inquietações e de pensamentos.
De  imediato te presenteio com mais um, que talvez melhore suas poucas horas de sono conturbado:
Abandone a paixão por essa sua dor constante de pensar que você é o único da sua espécie. Não é. Existem vários  dessa nossa tribo esparsa (eu mesmo já conheci alguns, mas penso que talvez  tenhamos virado curvas demais para longe uns dos outros), mas nós...

Nós nos evitamos, olhamo-nos com desconfiança quando nos percebemos, nós nos tememos mutuamente, nós não sabemos o que querer um do outro (até porque é o inferno que queiram algo de nós). Encontrando-nos, sentimos perto, um do outro, renovar a coragem para ser um Eu, e isso ocorre quando estamos quase e finalmente nos rendendo a doutrinação do coletivo.

Nós não podemos ficar unidos porque o aço afia o aço e quanto mais perto de um Eu você estiver, mais um Eu você será e lá no fundo, bem lá no fundo de você há o vil, inconfesso e repugnante desejo de ser “nós”, de se render ao coletivo , de se fundir a massa que divide em ombros desprovidos de singularidade a pesada carga de ser humano.

É, talvez, o nosso desejo mais recôndito, contra o qual nos rebelamos e eu o confesso sem pudor algum porque  talvez por já me considerar velho demais para a teatralidade da negativa obstinada, ou talvez por ter a clara consciência de que se fosse dada a oportunidade, nenhum de nós da Tribo, nem eu, nem você, nem nenhum outro Eu aceitaria.  Seria a morte em vida. E queremos viver vivos!

Daí um dia você passará por aqui e eu talvez já esteja  alhures.
Acontece com uma freqüência  desconcertante, quase como se nós, que somos anomalias ambulantes, tivéssemos em nosso caos organizado, uma ordem caótica a ser seguida.

Espero que não. Gostaria mesmo de conhecê-lo.  Caso não ocorra, caso o mundo me arraste como arrastou a tantos outros... Eu lamento muitíssimo, porque conheço a sensação que você está experimentando agora.

É sem pretensão que as coisas ocorrem. Ainda tenho alguma lenha a queimar e gosto de escrever muito mais do que sei fazê-lo. Então este talvez não seja o meu ultimo post, como o titulo sugere.  Não planejo sumir por ora. Conheço-me o bastante e daqui a uma hora ou um dia, cismo, volto aqui e posto outra coisa, mas como quase tudo o me acontece, ocorre a revelia da minha vontade, então é possível que eu saia por um minuto para comprar pão e... Bem, digamos que o Nada tem fome e gente como nós é seu prato predileto. Cuidado com o Nada meu caro!

Deixe um legado.
Deixe uma trilha que outros possam seguir. Deixe que alguém se reconheça naquilo que você é. 

É a nossa maneira de nos reproduzir. É uma produção assexuada, de modo que ainda que você não tenha os meus genes, se o seu despertar se iniciar ao ler qualquer uma das minhas linhas, se você cruzar a porta movido por qualquer coisa que eu tenha dito, então você é meu/minha filho (a), pai, mãe, irmão ou irmã e mesmo sabendo que você um dia me odiará por ter tirado você do seu lugar de conforto,  mesmo sabendo que talvez eu nunca te (re)conheça, precisa saber que eu sei quem você é. E há outros que sabem. Só tem de nos encontrar.

Agora eu vou ali e já volto.