sábado, 18 de agosto de 2012

Florbela e a Noite do Meu Niilismo



Abaixo está um poema que uma pessoa cuja inteligencia e sensibilidade admiro mais do que posso expressar em palavras me enviou. Fiquei entre feliz e perplexo, pois lendo-o lembrou-se de mim, e de mim mesmo em uma outra instância.
E em uníssono ao espanto pelo (re)conhecimento destes versos que não são meus, mas calam tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu que fiz(?), eis o que me inspiraram:
                
 ...se até o Nada é relativo, nada é relativo, logo tudo é concreto, absoluto. E o que é absoluto é absolutamente desprovido de sentido, de significado. Mais ainda que o Nada. 

O que isso tem a ver com os versos? Tudo a ver e nada a ver. Porque diabos uma coisa tem que ver com outra para fazer ou não fazer sentido (que dá no mesmo)?
Você talvez nada tenha a ver comigo ou com ninguém...Deixa de ter ou tem mais significado por causa dessa sua singular desconexão com o todo?

Se ao ler isso sentir o seu estômago revirar com essas contradições, alegre-se! 
Pelo menos você ainda tem  um estômago que embrulhar! Eu já não tenho estomago para nada (pois o Nada o devorou). Apenas uma amaldiçoada e confusa cabeça pensante (coisa que ela faz de modo cada vez  mais precário como deve ter notado por essas linhas), que não posso resetar e nem deixar em stand by para dormir um pouco como você e sonhar com amenidades.

Mas hoje é uma noite tão boa quanto qualquer outra para fazer amor com os meus paradoxos.

"Foi tudo em vão até agora!"
Não há relatividade, exceto a relatividade do Nada.
É...meu niilismo não tem futuro. E nem deseja ter.

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou! 

                                                                                      Florbela Espanca




2 comentários:

Pandora disse...

Na falta ou no excesso do que se amar escolher fazer amor com os paradoxos,Nem sempre nem constantemente, é uma boa escolha ou talvez seja ate necessário!!!

Acho que desde sempre amo os sonetos de Camões e Florbela, e sim, nunca me tinha ocorrido isso, mas realmente esse soneto é tua cara... em cada linhas!!!

Sahge disse...

Cara Pandora...
Evito propositalmente ler alguns textos para evitar a sensação de que tudo o que valia a pena dizer já foi dito ou pensado. Como naquele pensamento de Otto Rank; "Já existe um excesso de verdades no mundo."

Até penso que talvez eu ainda possa dizer a mesma coisa de outra forma, mas em todo o caso, seria uma temeridade olhar de perto demais obras que pelo seu efeito hipnotizante me prenderiam numa teia de perplexidade.
E eu já tenho perplexidades em excesso.
Florbela Espanca é uma "aranha" muito sedutora, como Fernando Pessoa, como Camões, como Yets e como Emile Bronte...
E esses versos em especial, me lembram de mim mesmo, como eu seria se tivesse nascido em outro tempo e lugar mas estivesse sob o julgo da mesma perplexidade.
Paradoxos meus...
Cheros!