sábado, 18 de maio de 2013

Umas Coisas que Talvez sejam Uma



Olha lá pra trás...!
Foi uma tediosa e longa estrada caminhada e no decurso dela, mais de uma vez você confirmou a sua inabilidade para se passar por gente.
Porque diabos ser gente é tão complicado?!
Você admira as feministas, os machistas, os idealistas, os românticos e todos os que tomaram um partido ou outro e todo e qualquer um que levante uma bandeira e diga com orgulho "EU SOU!, porque deve ser algo  extraordinário pensar que se é uma coisa só.
Imagina isso!
Acordar pela manhã e reconhecer aquele corpo como o seu, sem adendos, sem ausências,  sem fragilidades acrescentadas ou enrijecimentos súbitos....! Delicia isso de ser uma coisa só!
Bem, deve ser...

Dias desses você olhou-se ao espelho e viu um par de olhos azuis te olhando de volta daquele reflexo do seu rosto afroamerindio confuso, e ao fim da tarde, o castanho do seu espírito saltou de volta para a sua íris e você já não tinha mais os cabelos verdes de seis semanas atrás.

Ah...Ser uma coisa só!

Hoje, é um dia de merda.
Jesus, que inveja dos que creem em qualquer coisa!
Ou dos que não acreditam em nada ou de qualquer um que possa viver sem arrependimentos ou sem a consciência de motivos para se arrepender.
Que inveja dos que tem certeza de qualquer coisa e enfrentam a vida com o mesmo desdém com que você tromba na morte sempre a espreita pelas esquinas escuras de BH.
Que inveja dos que não tem inveja e dos que podem fingir não ter e de qualquer um que, esteja onde estiver, pode abraçar a si mesmo com o afago de auto-enganos doces e pensamentos de poder e independência  enquanto sonha ser abraçado por outro...
Maravilhoso!

Se você rezasse, mesmo sem fé, algum deus ouviria?
Seria algo então, encher o saco dos deuses com orações sem fé, como eles enchem a sua cabeça de sonhos quebradiços ao menor sopro de realidade e seu coração de esperanças que se despedaçam saltando do quarto andar de qualquer repartição publica onde há formulários e mais formulários a preencher.
Será que vai ter de preencher questionários e reconhecer firma para poder descansar em paz no inferno?
E enquanto todo mundo parece te dizer que deve ser deste ou daquele modo e tomar esta ou aquela direção, você pensa, por que, meu deus, é tão complicado ser gente?

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Daí aquelas gotas de sangue na calçada da Avenida dos Andradas.
O que chamou a atenção?
Todo mundo passa por gotas ou rios de sangue em sarjetas mal frequentadas e dão menos atenção a isso do que a pessoas caídas em meio ao lixo e em meio ao luxo dessa selva de concreto BH.
O odor acre de urina velha e vômito e lixo...Quem dirá que é  mais ou menos nauseante do que o daquelas lojas perfumadas dos shoppings repletas de vendedores ensabonetados?

Talvez algo no modo como as gotas caíram nos paralelepípedos lembrasse a configuração de umas estrelas que lhe custaram uma dor no pescoço, quando em noites atrás e a frente, você ficou de boca aberta olhando com seus olhos invejosos para aquele mar de luzes inalcançáveis.


Não, não foi isso.
Aquilo não eram estrelas na calçada (e que sabe você da configuração de estrelas?).
Era sangue de alguém, uma marca de alguma dor infligida. Alguém sofreu ali horas antes e deixou tatuado no chão a assinatura de um momento de vida e de morte.
"Sangue de mendigo ou maloqueiro", diriam uns, e "essa gente nunca morre direito", diria Paulo Honório do seu São Bernardo amarelado. E quem vive ou morre direito afinal?

E um pouco mais adiante, uma alma gigantesca forrou uma daquelas horríveis bolas de concreto sob o viaduto Santa Tereza de papel laminado dourado,  e quem se deteve para olhar, mesmo tendo ignorado o sangue uns metros antes, teve um pequeno momento de sonho que não se despedaçou.
Talvez não seja um dia de merda afinal...
Talvez seja só um dia...



Obs; Fotos tiradas com pressa e da câmera ruim de um celular ruim na mão de um "fotógrafo" ruim às 07:42   de uma manhã de 17/05/2013.
Deus, eu detesto e amo Belo Horizonte!