terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Velho do Fim da Rua





Meio que tive uma visão por esses dias...
Foi em um diálogo em que me impacientei comigo mesmo por causa da  eloquência raivosa com defendi um ponto de vista e cansei-me demasiado por estar certo e desejar intimamente estar errado (ou ter companhia nesse meu “estar certo”) e irritei-me pela consciência desse desejo.

Foi então que olhei para o meu futuro.

Pessoas que  tem algum tipo de crença podem dar N-explicações sobre este ou aquele fenômeno, mas como sou/estou aparentemente desprovido da capacidade de acreditar em qualquer coisa, sou levado a interpretar diversos eventos a que alguns chamariam “mediúnicos”, à luz crua do Cid-10 de F00 a F99.
É provável que seja o meu caso.

Um tanto mais prematuramente do que eu esperava.

E seja por uma patologia ou evento místico ou simples lógica advinda da experiência, foi-me revelado num insight cuja natureza eu me esforçaria em desvendar se não estive acometido por uma preguiça monumental, que estou em vias de tornar-me um “velho do fim da rua”.

É um tipo de personagem muito comum em quase toda comunidade. Trata-se do ermitão local, velhote excêntrico,  rabugento e um tanto rude que habita casa mal cuidada e suspeita de ser assombrada por todo tipo de aparição. Diz-se que esses tipos viram porcos na quaresma e lobisomens em sexta-feira santa e mais outros tantos sortilégios, de modo que são evitados pelas senhoras e crianças da região e vistos com reserva e certo receio  pelos homens.

Essa qualidade de velho bruxo tem sempre um jardim de ervas daninhas, pois em geral odeia plantas domesticadas, como odeia quase tudo o que é domesticado. Responde com um resmungo ofendido caso lhe dirijam a palavra e nunca devolve as bolas de futebol ou pipas que por acaso caiam em seu quintal e, no geral, só recebe visitas munidas de mandado judicial.

Muito provavelmente é este o meu destino. É só olhar para trás para ver por onde tenho andado e por onde ando atualmente para saber para onde meus passos me levarão.

Listando; Uma aversão por convívio social que vai se instalando pouco a pouco, uma impaciência com as contradições humanas que vai se convertendo lentamente em franca misantropia, um apego cada vez maior por momentos de solidão, uma antipatia profunda pelo som da minha própria voz (desejo velado por um mutismo intelectual também) e uma sensação ácida de ter sido estúpido por ter sempre me pautado por uma questão de Nobless Obligue, na maioria das vezes em meu próprio prejuízo.

Essas são mudanças que vão se alojando pouco a pouco, mas das quais tenho cá uma incômoda e dolorosa percepção. Será que não é possível entrar em decadência sem ter noção da dita cuja?

Bem, há dias em que acho que todo o mundo é lindo, que tenho uma compreensão quase espiritual dos paradoxos da vida, que desejo me expandir e estender-me e abraçar tudo a minha volta.
Esses dias têm tornado-se cada vez mais raros...

Há dias em que acho tudo horrível, que fico atordoado e confuso com toda a lógica e que fico perdido em meio à ordem e simetria das coisas e que desejo retrair-me e encolher até desaparecer em espiral para dentro de mim mesmo.
Esses dias, também têm tornado-se cada vez mais raros...

E enquanto essa letargia estranha vai se ocupando de transformar meu corpo em pedra e poeira e minha cabeça em nuvens cinzentas, penso que o fato de aprender a falar e ouvir ,não melhorou em nada minha capacidade de comunicação com os seres humanos. Até aí, nada demais. Mesmo que eu compreendesse os mecanismos que fazem um pássaro voar, estaria preso ao chão do mesmo modo.

Não preciso ser quiromante ou vidente para saber que isso sem duvida vai me levar a ser um desses velhos eremitas, habitantes de casa isolada em rua erma que vivem sós, balbuciando incoerências sábias, cercados de livros e lembranças encardidas.

O pensamento não chega a me assustar, (embora não seja um prognóstico animador para o que eu tenho ambicionado) quando muito me aborrecer , mesmo porque, a bem da verdade, já sou um ranzinza com quase todo o ônus de um ermitão, sem necessariamente ter as benesses advindas desse papel.

Eis-me à beira da estrada, à beira do mundo
Sem eira e sem alforge.
Trago um silêncio enfastiado 
Ensurdecedor, no desejo de calar-se com voz.
Trago somente um olhar para rostos próximos:
Vejo-os léguas além dos poucos centímetros
que separam seus olhos dos meus.

Eu, 
Aprendiz das pedras sábias e dos inteligentes regatos
Eu, 
Para quem ladram os cães em noite escura,
Eu, 
Que cheiro o sol e a muitos suores dormidos,
Eu,
Que sigo a lua e o lobo debaixo da lua,
 e o vento e a folha que o vento sopra...,
De barba-arbusto no campo selvagem do meu rosto
Trajo andrajos qual rei vestindo oiros,
Ah, sendo rico de solidão, sou pobre de tudo, de tudo...
Exceto de mim mesmo.


    Sahge

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Esboço de um momento niilista que esqueci dentro de um livro perdido... Acabaram me devolvendo o livro e o momento junto com ele..



Tudo se inquieta debaixo do sol.
Há imponentes coisas correndo e ocorrendo  na extensão da terra 
Há questões e debates acalorados entre muitos eus nos íntimos da mente...
Então, refugio-me ali, naquele canto escuro ao fim de um corredor que dá para uma porta que dá para o nada.
Porque ali,
Naquele pedaço de nada, lugar nenhum onde nada acontece,
Naquele canto tão esquecido que nem deus e o diabo disputam,
Ali posso ouvir cantar o silêncio final de todas as coisas
E tenho espaço o bastante para ser
Nada.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Uma Pequena Nota Sobre a Coragem...


Eu te proponho algo dificílimo.
Faço-o a você, porque dentre toda a massa humana que conheço, penso que você, e apenas você, consiga carregar sobre os ombros a pesada carga de ser um indivíduo.

Comecemos pela semântica: Proponho que comece a questionar como é que surgiu em nossa linguagem (e dela para a nossa consciência) o termo "eternidade".
É uma palavra linda! Desliza pelas cordas vocais com uma agradável sensação de macies e corre pelo sangue com o calor e o gozo de uma caneca de rum em noite fria.

Mas eternidade, considerando-a honestamente, é apenas uma ficção, porque nada no universo físico é eterno e do universo que não é físico...Bem, deixemos essas abstrações para os, agora raros, dias de embriagues poética.

Nada é eterno, criança. Nem eu, nem você, nem a grama lá fora, nem o criancinha no colo, nem o ancião cansado, nem o jovem atlético, nem as borboletas de trinta dias, nem as tartarugas de cento e cinquenta anos, nem as "estrelas cadentes" e  nem as nebulosas nos ermos do céu...

Nada é eterno, então a eternidade é invenção e filha direta da consciência do quanto somos efêmeros...Do quanto somos mortais. É o nosso anseio tolo por durar mais do que as estrelas, é a maçã no Éden, o nosso grito patético de rebeldia contra o peremptório abraço da morte.

Então, proponho algo difícil a você, que é um indivíduo como nenhum outro, e propondo a você, proponho-o também a mim, que almejo ser um indivíduo igual a você na diferença com o mundo:
Tenha coragem!
É a virtude máxima.
A maior força que se pode ter não vêm dos braços, do corpo ou dos recursos, mas da coragem de enfrentar o que vier pela frente.
Com a fúria apropriada, com correta  ferocidade no olhar de quem enfrenta a morte, não para vencê-la, porque tudo o que vive morre, mas porque é da natureza de tudo o que vive brigar até  fim.

Aquele pensamento bonito está errado (como estão quase todos os pensamentos bonitos): O leão morto vale muito mais do que o cão vivo.
Porque é preferível e mais significativo morrer com coragem do que viver eternamente com medo.