domingo, 27 de fevereiro de 2011

Uma carta de Freud e uma reflexão sobre a vaidade - By Sahge



Trecho de uma carta de Freud a seu amigo, o reverendo Oskar Pfister:


“Posso imaginar que há vários milhões de anos, no período triássico, todos os grandes –odonte e –térios tinham muito orgulho da evolução da raça dos sáurios e estavam na expectativa de Deus sabe lá que magnífico futuro para eles. E então, com a exceção do maldito crocodilo, todos eles foram extintos. O senhor pode alegar que (...) o homem é dotado de inteligência, o que dá a ele o direito de pensar no futuro e acreditar nesse futuro. Ora, não há duvida de que existe algo de especial em relação à mente, tão pouco é o que se sabe sobre ela e sua relação com a natureza. Eu, pessoalmente, tenho um enorme respeito pela mente, mas será que a natureza o tem? A mente é apenas um pedacinho da natureza;o resto da natureza me parece que pode muito bem viver sem ela. Será que vai se permitir ser muito influenciada pela consideração que tenha pela mente? Aquele que puder sentir-se mais confiante do que eu a respeito disso é digno de inveja.”

Depois de boas e justas gargalhadas provocadas pela ironia do comentário de Freud, me veio a reflexão sobre a analogia entre os poderosos dinossauro e nós, magníficos sapiens-sapiens. Se como sugere Freud, os sáurios estavam envaidecidos pela opulência de sua raça não vem ao caso, mas motivos para tanto o tinham. Eram sem duvidas seres maravilhosos, senhores do planeta e havendo em sua possível e rudimentar inteligência um laivo qualquer de espiritualidade, é de se pensar que tal como nós, imaginavam-se o “top of mind” da criação, a imagem e semelhança de seu criador. A parte esses devaneios que me divertem, compartilhamos com os antigos lagartos trovão a mesma vaidade característica de seres poderosos e únicos. É fato que somos mentalmente tão poderosos quanto o eram os dinossauros fisicamente, mas o homem no fim das contas talvez seja apenas mais um acontecimento lindo e efêmero na história do universo, conceito contra o qual luta toda a nossa fé e filosofia.

E Quem é que quer se imaginar como erva que cresce, floresce e fina? Ninguém! E eu não sou exceção a regra. E como disse numa conversa com uma amiga tempos atrás, o grande problema com as minhas "crenças” (eufemismo para a minha vaidade em múltiplas facetas) é que elas não resistem a um exame da minha razão. Basta que eu medite um pouco e vou encontrar tantas brechas, tantas lacunas que tenho de preencher com verdades incômodas, que sinto que estou me sustentando sobre o nada. Um exemplo claro de como as ilusões são necessárias: Sentado tranquilamente na sala de aula no sexto andar, iludo-me de que aquilo em que piso é efetivamente, O Chão. E nem por um momento passa pela minha cabeça que na verdade me encontro suspenso dezenas de metros acima do chão. Mas suponhamos por um momento que as leis da física se alterassem e o concreto e paredes que me dão essa sensação de segurança se tornassem transparentes e eu visse onde estou. Onde realmente estou. Muito acima do chão e muito, muito abaixo das estrelas, no vazio...

Uma pobre e desamparada criatura de carne e sangue solta no vácuo. É provável que eu ou entrasse em pânico e me agarrasse a minha cadeira ou a qualquer coisa a mão como o náufrago de Ortega, e ficasse paralisado de terror. Me agarraria a qualquer coisa para não cair no vazio, para sentir que estou seguro. E é assim em todos os aspectos da vida. Sem ilusões estamos sós, estamos nus diante da grandeza da natureza que não tem consideração para conosco, como não teve para com os dinossauros ou para com qualquer outra criatura por mais poderosa que fosse. E a natureza física não é mais assustadora do que a natureza social, o meio em que vivemos. Nessa, necessitamos ainda mais de um lastro psíquico.

O grande problema é descobrir que se está andando por sobre uma camada de gelo fino. Nunca mais poderemos andar com a segurança necessária. E nisso, creio, esteja a clara vantagem que levavam sobre nós, os orgulhosos dinossauros de Freud; Eles não tinham em absoluto a menor dúvida de sua grandiosidade. Nunca se afligiram com hesitações ou questionaram se eram realmente tão importantes para a natureza ou uns para os outros e isso é uma coisa linda na arrogância: A certeza de estar sempre andando sobre as rochas, ainda que por baixo esteja realmente uma camada de gelo fino. Sem angustias, sem dúvidas, sem desamparo, até o dia em que, ou um asteróide os varreu ou o planeta os sacudiu como um animal sacode as pulgas do corpo. E desse orgulho todo, colecionamos os tesouros dos seus ossos em museus. Receio que meu frágil esqueleto não vá resistir ao tempo para dar testemunho de mim e de minha vaidade.

Tenho certeza de muitas coisas, mas por prudência e/ou covardia, evito passá-las pelo crivo da minha razão (da qual mantenho também uma suspeita saudável), por necessitar iludir-me tanto para poder permanecer tranquilamente sentado no sexto andar da faculdade, quanto para me movimentar no mundo e ficar convicto de que tenho alguma importância para o universo e para os meus. Como Freud, tenho um grande respeito pela mente, em especial, a minha e não por considerá-la algo notável entre as mentes humanas, mas por ser ela o meu canal, com o qual percebo, toco e sou tocado pela maravilha que é a comunidade das mentes humanas. Mas sei que a natureza não vai ter a mesma consideração para comigo e nesse caso, não estou em melhor situação que o genial e incômodo Freud: Também invejo o homem que está certo de que a natureza, o Universo ou seja lá o que for, terá para com a mente dele, sua essência ou alma maior anelo do que teve para com os dinos. Mas qualquer um que tiver alguma honestidade para consigo próprio vai reconhecer quão pouca é a segurança que sentimos e quão incômoda é a verdade (razão pela qual temos tanta avidez em acreditar em mentiras ou confirmar aquelas em já acreditamos) a respeito da nossa situação como seres que são parte, mas não mestres da natureza, tanto física quanto social.

Se temos algum diferencial em relação aos sáurios é o de que nós pelo menos podemos escolher encarar a verdade e viver ao menos sem muitas ilusões, além das necessárias. Não pretendo e nem sugiro a ninguém viver constantemente com medo do futuro (até porque quem vive com medo, vive também refém de uma ou várias mentiras a respeito de si, dos outros e do mundo), porque viver com medo não é viver. É existir na sombra do mundo. Mas se um dia o planeta for me sacudir de sua pele, não pretendo ficar perplexo com isso, como se o meu desaparecimento fosse algo mais extraordinário do que o de uma estrela que arde por bilhões de anos. Afinal, tanto ela quanto eu somos, vaidade a parte, apenas elementos de um Todo maior que engloba tudo, até mesmo a mente humana de que me orgulho tanto. 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Uma frase em que tropecei num corredor de faculdade... By Sahge

"Tenho dentro de mim uma ausência que me atormenta"

                                                       Camile Claudel

Caro Anônimo (a) - By Sahge



Caro (a) Anônimo (a)
Lastimo que você não tenha deixado um endereço de email qualquer no qual eu pudesse te responder. Encontro-me numa situação embaraçosa  - parabéns por isso, senhor (a) -, porque gostei muito do seu comentário ao meu texto. Muito. Mesmo! A forma, o conteúdo e o inusitado das suas palavras me deram muito que pensar. Tivesse colocado um Nick qualquer  (claro que eu não esperava que você colocasse nome e nº de CPF com endereço), eu estaria ostentando com orgulho logo abaixo do meu texto o seu comentário, mas como você preferiu essa alcunha nula que em nada o distingue dos outros  milhões de Anônimos (uma tribo que talvez seja a mais numerosa da net), não posso postar o seu comentário. Haveria qualquer coisa de ilegítimo nisso, porque seria injusto para com seus muitos outros irmãos da nobre confraria dos anônimos, atribuir-lhes um comentário que veio de uma pessoa singular.


Gostei de você! Da sua crítica ácida, bem humorada, injusta/justa, ambígua... Esse é você e eu aprecio gente assim. Humana até a raiz dos cabelos. Mas depois de ser enxovalhado em outros espaços por Trolls, clones, fakes etc., geralmente covardes e mentirosos que pensam que o anonimato os esconde, quando na verdade o oposto ocorre, tornei-me antipático a esse tipo de Quasímodo (quase alguém) de modo que não posso dar espaço a quem usa sombras para se proteger e atacar. Mas sinto que esse não é o seu caso.

Que diabos!! Parece-me que estou teimosamente decidido a gostar de você!

Você pode ser um equivocado, mas não é um covarde e creio que sou suficientemente qualificado para avaliar um caráter nesse sentido. Então, por favor, da próxima vez que me enviar um comentário, ao menos use um Nick qualquer, mesmo que seja um número... Digamos... 1. É o meu numero favorito. Então, eu poderia chamá-lo de 'Senhor (a) 1' e teria um amigo/inimigo que eu poderia reconhecer entre as muitas sombras que se esgueiram a minha volta sem que possa diferenciar quem é o quê. Você seria real e isso me agradaria. Acho que você tem conteúdo, então não lhe faria mal algum ter também uma forma qualquer.


Por outro lado, se você se dá ao trabalho de me ”acompanhar por três blogs” que eu vivo “apagando e recriando sem o menor respeito pelos leitores" - e juro,sem falsa modéstia, que eu nunca imaginei que eu tivesse “leitores”. Até queria, mas supor que eu tivesse leitores no plural, nem em meus sonhos mais delirantes. Dizer isso é muita gentileza de sua parte, embora não seja verdade -  então, sinto que estou de algum modo, já que você me segue a tantos  blogs (não chegou a ver  os dois primeiros ou não gostou deles?) em débito para consigo.


 Daí esse post enorme, que vou considerar um adorável texto caótico”em sua homenagem, meu amigo/inimigo.

 Talvez não seja leal de minha parte chamar sua atenção para algumas incoerências  e injustiças  de sua parte em seu comentário, já que você permanece anônimo e meu blog não é espaço para debates. Não o fiz com esse ou qualquer outro propósito. Não o fiz por motivo algum que não fosse atender a um impulso. Tive e fiz...Talvez vaidade....Embora não espere, gosto de imaginar  que alguém vá ler e quebrar a cabeça imaginando que diabos afinal estou tentando dizer, quando falo muito e não digo absolutamente nada. Talvez eu queira apenas confundir e não me explicar...Talvez.


Sou um vaidoso, é claro, e suas criticas e elogios (especialmente as críticas)  só ajudam a agravar esse meu estado de vaidade patológica. O (a) senhor (a) está ciente de que me estimulando a vaidade está me ajudando a “carimbar meu passaporte para o inferno, como é destino de todo Ateu?” (só para constar, sou agnóstico)

 Sem que esteja aqui para se defender, argumentar, retirar ou reiterar suas criticas a mim, fica fácil demais justificar-me e usar toda a minha “verborragia insana” para te massacrar sem piedade (e você talvez  não faça idéia de como é fácil usar as palavras para massacrar alguém e como é difícil elevar  alguém usando o mesmo instrumento).


Eu até poderia auferir algum reforço a minha vaidade ao fazê-lo, mas isso equivaleria a pescar peixinhos num aquário, enquanto o que me apraz é arpoar Marlins em alto mar. Por isso, embora eu considere que você foi extremamente rude para comigo, duro em seu julgamento e contraditoriamente exagerado em seus elogios, quero agradecer-lhe o interesse pela minha pessoa.

Senhor (a) 1 (desculpe, mas já na posso chamá-lo de “anônimo”), agradeço de coração as suas censuras, porque sei-lhes a sinceridade, porque se afagos podem às vezes ser fingidos, pancadas não o podem.Pancadas sinceras são muito preferíveis a falsos carinhos, não?

Da próxima vez em que me enviar um comentário espirituoso e ácido, identifique-se de algum modo para que eu reconheça a pessoa com quem simpatizei, que eu após examinar se não será de algum modo ofensivo para com meus “leitores”, alegremente o postarei abaixo do texto que despertar a sua crítica. 

PS: Não publiquei seu comentário, porém não pude evitar colocar trechos dele nesse post. O (a) Senhor (a) os reconhecerá em vermelho e entre aspas.
PS2: Sobre o pano de fundo do meu blog ser o "mesmo do anterior e ser cansativo à vista", bem, que poso dizer...? Acostumei-me a ele e lilás é minha cor favorita. Além do mais, gosto do desenho porque ele traduz um estado constante de luta entre a Ordem e o Caos. Mas, claro, estou apenas me justificando novamente. Desculpe, mas vou manter o mesmo pano de findo até que eu me canse dele.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Lições Aprendidas ao longo de um longo dia.... - By Harlek

1º- Uma ciência Humana que lê o indivíduo a partir de uma concepção prévia do que é o homem, não é uma ciência honesta, posto que nega o inivíduo em sua inteireza em prol de um ideal.
2º- Nunca ignorar uma pessoa apenas porque num dia qualquer ela lhe tenha sido averssiva. Pode-se descobrir para surpresa nossa que ela , a quem tanto antipatizávamos tem mais em comum e nos compreenda melhor do que aqueles que nos brindam com sorrisos e simpatias.
3º. Ciência se debate com cientistas. Desenvolver uma saudavel antipatia pelo som da própria voz em alguns meios, durante certos debates, pode ser muito construtivo e evitar um desgaste de energia intelectual e emocional que pode melhor ser aproveitada numa atividade mais produtiva como...Digamos...Olhar para para branco da parede e pensar em nada durante horas.
4°- Nunca beber vinho em noites de terça, quando se precisa levantar na quarta bem cedo (mon dieu!! )

Bon jour

Waking Life

"Posso aprender a amar e fazer amor
Com os paradoxos que me perturbam.

E em noites românticas do eu...
Saio para dançar salsa com a minha confusão.

Antes que saia flutuando,
Não se esqueça...ou seja, lembre-se.
Porque lembrar é muito mais uma
Atividade psicótica que esquecer.
Lorca, no mesmo poema, disse...
Que o lagarto morderá os que não sonham.

E, quando se percebe...
Que se é um personagem sonhado
No sonho de outra pessoa...
Isso é consciência de si."

                              Waking Life

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Devagar... - By Sahge


Creio que já falei algumas vezes, neste e em outro blog, que tenho uma relação um tanto turbulenta com bebidas alcoólicas. Não gosto muito e nem me dou bem com a bebida e menos ainda com a ressaca física e moral que a sucede. Ocorre que eu gosto de vinho barato e cerveja preta, mas não o bastante para fazer desse gostar  um habito. Há alguns meses ganhei uma garrafa de um vinho excelente, tão bom que contrariando minha frugalidade, consumi a garrafa quase toda em menos de um mês ( e pelo modo como já vi algumas pessoas sorverem litros e litros de bebidas em questão de horas, acho que demorar um mês para acabar com uma garrafa não é de modo algum um desatino). Faltando umas poucas doses para acabar com a garrafa, comecei a bebericar com vagar, para fazer com que dure mais. Lembrei-me disso por causa do que eu disse num post, sobre degustar em pequenos bocados a minha satisfação por voltar a ter aulas com certo professor a quem admiro. 


Meninos têm uma mania curiosa que me veio a mente; quando recebem, por exemplo, uma caixa de doces, devoram os primeiro sem o menor pudor, mas comem os últimos em pequenos bocados prorrogando desse modo o seu deleite em comê-los. Crianças também não têm muita noção de tempo e logo, são as criaturinhas mais atemporais e extemporâneas que existem (e aqui me parece que a questão do tempo que também tem me obcecado nos últimos dias mostra a suas garrinhas). Me lembrei que deixei a garrafa com o restinho do vinho escondida numa pilha de coisas esquecidas. Deu trabalho encontrar, especialmente a noite e no escuro. Valeu a pena! Uma dose e meia depois (tomadas com vagar), me sinto leve e pensando que vinho, doces ou felicidade são coisas que devem ser mesmo consumidas em pequenas doses. Prolongar o prazer que nos proporcionam essas coisas é eternizá-las em...Digamos, alguns dias, semanas ou meses...Quanto tempo dura a eternidade afinal? 


Acabei finalmente com a garrafa e não tenho doces, mas estou feliz hoje.  Vou tratar de poupar a felicidade desse dia, consumindo devagar e com extremo cuidado. E quando sentir que ela está acabando, vou tratar de guardar um pouco dela num canto da memória, de onde posso sacá-la em um dia de chuva ou quando a vida me dar novamente um limão e eu tiver que, na falta de açúcar, devorá-lo azedo mesmo. Com vagar... “Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso...”

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Relógios - By Sahge






Pode procurar em qualquer lugar...loja de artigos de colecionador, e-bay, sites de curiosidades e em nenhum destes você vai conseguir encontrar um relógio cujos ponteiros girem em sentido contrário. É sério.
Claro, é uma trivialidade falar ou sequer pensar em algo tão inútil quanto um relógio defeituoso... Mas nem por curiosidade alguém faria um relógio assim? Seria um artigo pelo qual muitos pagariam uma soma considerável.

Eu me lembrei de quando era criança e num dia, movido por curiosidade e atendendo um impulso, desmontei um despertador, um daqueles modelos antigos e infernais que anunciavam o nascer de um novo dia com uma algazarra que rivalizava a  do galos. Não consegui reconstruir (o que me custou uma bela surra. Eram tempos rudes aqueles...), mas do modo que o montei, deu-me a impressão (ou talvez seja uma falsa memória provocada por um desejo meu) de que os ponteiros efetivamente começaram a girar em sentido inverso.
Se pararmos para pensar, vamos concluir que essa coisa que chamamos de tempo existe apenas nos instrumentos que usamos para marcar os instantes que incidem entre as nossas batidas cardíacas e entre o nascimento e morte de estrelas. Dá no mesmo. Sem um relógio, mesmo alguém que possua uma mente prodigiosa, só vai conseguir ter noção de tempo através dos ciclos da natureza, o que é também exterior a nossa mente. E se uma coisa implacável como o tempo pode ser enclausurado num instrumento rudimentar como um relógio, um produto efêmero de efêmeras mãos humanas, então não seria maravilhoso imaginar um relógio que girasse os ponteiros em sentido inverso e fizesse-o voltar no tempo? Não seria magnífico poder usar o mesmo instrumento que nos diz quando devemos acordar, levantar, comer, dormir, viver e morrer, para voltar o tempo a quem sabe um bom momento, ou mesmo congelar-nos nele como em um quadro, uma tapeçaria milenar, onde seriamos sempre jovens, sempre uma promessa a se cumprir...?


E mais, se o mesmo instrumento que marca a passagem linear do tempo pudesse fazê-lo retroceder, seria divino poder  consertar o inconsertavel...Reparar erros, propiciar (finalmente!) encontros que não se deram, colher no ar palavras que foram e não deviam ter sido ditas ou libertar no mesmo ar aquelas que deixamos presas.  Um homem poderia visitar a si mesmo em sua infância e ser seu próprio pai. Poderia se reinventar e ser mil possibilidade dentro de uma vida, em vez de ser uma vida dentre mil possibilidade.  Devaneios de um fim de domingo onde uma “depressão pós-fantástico” se avizinha e uma semana linear, dentro de um tempo linear se inicia.


O fluxo do tempo controla nossas vidas e ele é inexorável...É claro que o fato de um relógio correr ao contrário não trará de volta o brilho a cores desbotadas pela ausência daqueles que nos eram caros...Mas se o tempo existe fora da mente, dentro ou fora dos relógios, a mente não reconhece aquilo que é alheio a ela e se permite vagar em direção ao passado e ao futuro e colher flores em jardins abandonados ou que ainda não foram cultivados... Isso é a memória...Isso é esperança

"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais.

Quando eu lhe dizia:
"- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada."
Você sorriu e disse:
"- Eu gosto de você também."

Só que você foi embora cedo demais

Eu continuo aqui,
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

Vai com os anjos! vai em paz.
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez.

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais

E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer.

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mais eu sei
Que você está bem agora
Só que este ano
O verão acabou
Cedo demais.
   (Legião Urbana)

Dia atípico - By Sahge


Semana passada, tive um dia que  foi dentre os meus dias ruins (uma vasta e tediosa coleção) o pior de todos. Não sei a frente no futuro. O pessimismo que tomou meu espírito nas ultimas semanas é tal que bem posso imaginar umas mil e tantas situações tenebrosas em que eu poderia desbancar aquele do posto de “pior dia da minha vida”.  Espanto esses pensamentos a golpes de música alta e muita sublimação. O passado já me dá angustias  demais e o presente perspectiva de menos para que eu me sinta em condições de tratar também do futuro. E, sobretudo pensar o futuro com uma sombra de pessimismo sobre os ombros.

O dia começou com um acidente de carro. 

Numa via de transito rápido uma motorista saiu da rotatória e entrou na frente do carro em que eu ia sem olhar ou dar a preferência.  O carro atingiu-a na lateral e o veículo dela foi arrastado uns cinco metros. Ambos os carros ficaram destruídos, mas, felizmente ninguém ficou ferido, o que em tempos mais amenos eu chamaria de milagre. Todos inteiros, a exceção de uma luxação na minha panturrilha que ainda está ardendo como o inferno.  Ainda não acredito, dada a força da colisão, que eu estou aqui vivo digitando isso. Esquisito...O acidente aconteceu num segundo, mas ainda posso ver a cena em câmara lenta. Vidro voando, o carro da motorista patinhando na pista, o barulho de metal se retorcendo, o cheiro forte de gasolina, a pressão do cinto de segurança quase me partindo os ossos e as buzinas de outros veículos sinalizando.O mais estranho é que na hora, não fiquei com medo de morrer. Vi a dama de negro passar bem pertinho e acenar-me, mas não tive reação alguma, nem receio nem expectativa. Correspondi ao aceno sem rancor ou simpatia. É possível estar tão letárgico que nem mesmo a pavorosa chance de virar picadinho de gente num acidente terrível possa causar uma comoção qualquer?


Só fiquei ali, sentado no meio fio pensando, olhando para os carros arruinados, que a vida é algo que se perde fácil...Só fiquei realmente assustado quando a senhora que estava no outro carro contou que havia acabado de deixar as crianças na escola. Teria sido horrível se ela ainda estivesse com os pequenos no carro e eles se ferissem ou morressem.  Acho que no fim das contas, pensando que poderia ter acontecido uma tragédia fora o prejuízo com o estrago e o aborrecimento com a seguradora, até que saiu barato (e nesse caso, embora toda vida seja preciosa, a vida daqueles que mal a começaram tem um valor maior quando posta ao lado daqueles que já tiveram tempo de realizar alguma coisa. Se alguém tem de se salvar, então que sejam as “mulheres e crianças primeiro”).

O dia que se seguiu foi tão tenso que ficou na minha cabeça a imagem de Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”  e fui tão e constantemente espezirritado (espezinhado e irritado) nesse dia pela vida, pelo universo, pelas pessoas e pelas circunstâncias, que confirmei para mim mesmo que as chances de que eu venha a me tornar um homicida um dia são mínimas. Dei provas de uma paciência (ou apatia) dignas de Jó. Suportei situações que fariam Ghandi ter uma síncope e o dia findou de um modo senão poético, no mínimo lírico, sem que com isso eu queira dizer que tenha sido agradável.  Embora o placar tenha sido de 1000 a zero para a vida, creio que eu mereço uma medalha por ter sobrevivido ao ontem. Passou, mas quer me parecer que o passado e eu sejamos irreconciliáveis. Ao menos por enquanto.

Fui para a cama com um exemplar surrado de “O Livro dos Sonhos” e pensando na obra de Gaiman, Sandman ( a minha favorita) pergunto; Se o Destino, a Morte, o Sonho, Destruição, Desespero, Desejo e Delírio são perpétuos, seriam efêmeros  o Acaso, a Vida, a Realidade, o Inicio, a Esperança, a Apatia e a Razão ?

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Centro do Universo

"O que eu fico tentando entender...É porque você está tão convencido assim de que é superior aos outros..."

"Ora, mas é muito simples! Eu SOU superior aos outros...A todos eles. Mesmo àqueles que considero melhores do que eu. Mesmo àqueles que vejo como gigantes. Me sinto superior a eles porque sou superior a eles, tanto quanto eles são a mim"

"Isso é um oxímoro absurdo! Não faz sentido algum considerar como gigantes aqueles a quem SENTE lhe serem inferiores.

"Quanto ao absurdo, fiz dele a minha vocação a muito tempo. Damo-nos bem, o absurdo e eu. E não, não é um oxímoro, mas uma verdade. E eu não disse que os outros são inferiores a mim. Disse que sou superior a eles (o que é diferente se você pensar a respeito) e essa é uma verdade. A minha!"

"De novo...Isso não faz sentido"

"Cuidado com isso.Perca a vida, mas não perca o sentido das coisas. Pense! Do ponto em que estou olhando, sentindo e vivenciando a realidade, o universo começa no meu umbigo  e se expande ao infinito e logo, eu sou o centro dele. Iso é verdade para mim e se você se atrever a pensar com honestidade e não temer uma censura por falar o que pensa, vai ter de admitir para mim que o mesmo se dá consigo. E com eles. Com todos os outros. Somos todos universos íntimos, andando lado a lado com outros universos. No dia em que eu morrer, tenho certeza, esse universo acaba, as estrelas se apagam e o mundo desmorona. Todos nós pensamos assim, bem lá no fundo, embora nos empenhemos com sinceridade em pensar e afirmar o oposto. Então, não é a vaidade que me move a afirmar que sou a criatura mais importante do universo, mas a convicção e a certeza de que só posso sentir amor pelo universo e por tudo o que ele contém, porque no intervalo entre nós, tenho uma noção muito profunda de EU. E me desculpe por considerar o meu coração como mais importante do que o seu, porque é com esse meu coração que te amo, meu universo..."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sem título...

É tarde e estou inacreditavelmente cansado, mas a despeito do corpo estar pulsando de fadiga, não consigo dormir. Parece nunca haver silêncio nesse bairro infernal onde vivo, mas justiça seja feita, mesmo o silêncio mais sepulcral seria incapaz de me fazer dormir agora. Tenho tido problemas para cair no sono com muita freqüência. Creio que é porque eu não desejo sonhar. Não mais. Eu gostaria de ter pesadelos... Terríveis, assustadores, do tipo que me fazem acordar suado e gritando, do tipo que já não tenho há muito tempo... Pesadelos em certas ocasiões podem ser infinitamente mais proveitosos do que sonhos. É só pensar que se você sonha, por exemplo, que encontrou uma mala cheia de dinheiro ou que ganhou na loteria, é um sonho maravilhoso, mas ao acordar, você  se dá conta de que na verdade, não tem dinheiro nem para pagar a porcaria do cheque especial ou pior, está desempregado e sem perspectiva.  Hoje estou com um pavor enorme de sonhar e acordar para uma realidade que parece um perene pesadelo.


Pesadelos são diferentes...Você enfrenta todo tipo de monstro ou situação terrível e quando a manhã chega, respira aliviado e sua realidade se torna mais colorida, ou pelo menos,menos cinzenta.
Queria levantar a cabeça corajosamente em desafio ao que lá fora se avoluma na escuridão da noite e arrasta consigo aquilo que me é mais caro, mas como se pode brigar com o imaterial? Com o tempo e com a imutabilidade de certos eventos? Com a terrível, com a pavorosa consciência de que não se pode mudar o que passou?


Estou realmente cansado e nada do que escrevo agora está em completa sintonia com o que penso, como se eu pensasse em sânscrito e digitasse em grego. Creio que eu esteja entorpecido de angustia e de sono. Possivelmente amanhã estarei em condições de ser pelo menos metade do que sou...Pensar que algum dia serei íntegro novamente é ser iludir-me e eu perdi esse hábito já há algum tempo. Mas hoje, sinto uma falta enorme da minha antiga e defenestrada capacidade de iludir-me, de acreditar em certas coisas que a tantos servem de consolo.


Amanhã... E essa é a beleza do amanhã. Não posso prevê-lo, mas posso planejá-lo. O amanhã admite esperança, enquanto ao ontem reina o mais amargo desespero. Hoje não há nada que eu odeie mais do que o ontem inexorável, porque ele e seus eventos se estendem se insinuam ao futuro.  
Eu estava... Estive o dia inteiro com a cabeça fervilhando de pensamentos, mas não tive sequer um momento para pô-los em ordem e arrancar algum sentido nesse redemoinho mental onde fiquei como uma folha seca ao vento.  Agora que estou finalmente tendo tempo, me descubro vazio de palavras e de sentido.  So consigo estar e escrever mais confusamente do que de costume sem que isso seja uma virtude, como costumo considerar sempre. Para onde foi tudo aquilo que me fervilhou no espírito hoje?  Estou triste além do suportável, furioso contra algo que nem mesmo sei nomear...Talvez o Universo ou o destino ou qualquer outra força metafísica em algum lugar, anjos ou demônios, forças de qualquer natureza que provocam ou permitem desastres como a perda de...Também não sei nomear. Não hoje.


Eu olhei demorada e apaixonadamente para o abismo e torci, ansiei que o abismo olhasse de volta, mas ele não vai me retribuir o olhar. Por mais que eu queira.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Uma frase que deixei perdida numa esquina de BH -By Sahge



"A apenas um receio ainda submeto a minha liberdade; o de ferir, de que modo for, aqueles que amo."

Os Meus Amados Inimigos



"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados".
                                                                                Heinrich Heine
Talvez não seja um habito razoável, mas gosto de escrever cartas aos meus autores favoritos ou a outros cujas obras me emocionem ou me atinjam de algum modo comentando trechos de sua obra. É um tanto ousado, para não dizer que é uma tolice de minha parte, uma vez que não envio tais cartas e a maioria desses autores já morreu. É apenas um modo de demonstrar apreço ou dissecar o efeito que teve em mim tais obras. Hoje me ocorreu de enviar uma ao grande  Heinrich Heine, comentando a sua poesia acima que muito me impressionou.

Julho, Inverno de 2010
Caro Herr Heine
Eu deveria começar dizendo que não tenho palavras para expressar o meu apreço por sua intrigante poesia, mas isso, além de uma gabolice que deve cansar a vista de um escritor, seria uma inverdade, posto que tanto tenho, que delas farei uso para atrever-me a fazer algumas considerações. O senhor naturalmente não me conhece, portanto não estou no direito de fazer qualquer censura as suas palavras que diga-se, são a expressão de uma inquietante verdade. No entanto, tenho de indagar; 
Se o senhor foi  honesto o bastante para confessar o desejo, por muitos tomado como repreensível, de ver enforcados os seus inimigos, ora, porque não fez uso desta mesma honestidade para admitir que, não, não lhe bastaria apenas uma cabana humilde e boa comida, mas agradar-lhe-ia em muito em vez disso, habitar o mais esplendoroso palácio de prata e cristal, tendo a sua disposição um lauto banquete servido por um batalhão de bailarinas?

Certo... É bem possível que se trate mais de um desejo exclusivamente meu e que minha prepotência atribua igual anseio a todos os homens e que o senhor seja de uma estirpe menos mundana, porem, não consigo entender por que diabos iria um homem contentar-se com uma choupana quando poderia muito bem dispor de todo um reino, caso lhe fosse oferecida a oportunidade de escolha!  Eu de minha parte, não julgaria mal o seu caráter caso tivesse demonstrado um desejo inicial mais de acordo com a índole humana, como o senhor fez magistralmente em sua conclusão e me sentiria menos desconfortável por ter de ver-me em posição inferior, de homem ambicioso e fútil que almeja sonhos de grandeza enquanto ao senhor que é um totem entre gigantes, tão pouco bastaria. Mas é evidente que ao forjar a sua perturbadora e genial poesia, o senhor de modo algum estava interessado nos sentimentos de anônimos admiradores de sua obra, dentre os quais me incluo. Deixemos de lado.

A parte a humilhação minha por ter de confessar-me um homem cobiçoso de coisas que talvez sejam futilidades, também fiquei desconcertado quando imaginei-me em seu lugar, tendo prontamente atendido o meu íntimo desejo de levar ao cadafalso os meus inimigos.  O primeiro fato é imaginar que Deus me tenha em tão alta conta que vá, a guisa de fazer-me feliz, pendurar pelo pescoço seis ou sete pessoas, desconsiderando o fato de que elas dificilmente estariam tendo a sua felicidade realizada em tal posição. Eu teria de ser um prodígio e valer mais do que sete pessoas, um elemento dentre o universo da humanidade por quem o Criador tivesse um afeto e consideração excepcional. Porém minha constante e severa avaliação de mim mesmo me impossibilita de iludir-me a esse respeito. Nunca fui um santo ou um homem dotado de virtude piedosa. E se há uma sorte de homens assim, supondo que o senhor se inclua nessa confraria de portentos, livre-me Deus de estar contado dentre os inimigos de tais homens! Estaria eu contado dentre os seis ou sete dependurados nas belas árvores em frente a sua porta. A minha consternação seguinte está no fato de que nunca soube com exatidão quem eram os meus inimigos, com exceção de um.  Veja o senhor que ainda hoje andei lendo um sábio conselho que há muito me persegue: Cuidado com o que desejas, pois podes acabar o conseguindo.

Conselho valioso e sábio e atento a ele, não posso deixar de imaginar que baseado no conhecimento do meu desconhecimento acerca de quem são os meus inimigos, eu possivelmente tendo um tal desejo atendido, veria ali seis ou sete das pessoas a quem mais tenho amado nessa vida. Oh, não é exagero imaginar cena tão dantesca, porque o único inimigo que conheço e reconheço em qualquer campo de batalha, aquele que trabalha para a minha ruína noite e dia e com quem tenho me batido há muitos e cansativos verões em guerra aberta é o meu coração estúpido. Esse, herr Heine, é o único inimigo que eu gostaria de ver pendurado no cadafalso, supondo é claro, que eu poderia viver sem as suas batidas infernais dentro do meu peito. Como sei que a coisa não se dá assim, teria de contentar-me com as belas árvores unicamente por sua sombra e flores ou frutos e pela força de seus troncos e galhos onde poderiam pousar os meus corvos.

Inimigos não são tão facilmente identificáveis porque constantemente estamos esperando destes uma adaga fria na noite, uma flecha a nos fender o fígado ou o sabor amargo do ferro quente, mas nunca um beijo, um afago ou uma palavra amiga. Seis ou sete dos meus amados pendurados pelo pescoço não é cena que eu gostaria de ver e nem completaria a minha felicidade. Primeiro porque, sem inimigos imagino que a vida de um homem deva ser menos desafiadora e embora eu já não seja tão jovem, me apetece um bom desafio, uma luta em que triunfar ou tombar em glória e coragem ( Como vê, não abandonei totalmente o idealismo da juventude). E em segundo, porque seria trespassado por dores agudas ao descobrir que aqueles a quem dediquei amor, abstinência e abnegação e muitos dos meus pensamentos são justamente as pessoas que mais se empenharam para que eu permanecesse infeliz.  Posso muito bem perdoá-los sem que para isso tenham de morrer, porque inimigos ou não, são pessoas a quem amo e se inimigos se mostrassem... Diabos! Não seria dar-lhes a vitória final sobre mim, causando-me com sua morte brutal uma dor profunda a  que meu coração estúpido que não sabe diferenciar amigo de inimigo iria fatalmente me submeter?  Há coisa mais patética do que sofrer pelo inimigo enforcado? Há coisa mais terrível que descobrir que amou quem em secreto te odiava?

Ah, se ao Criador (por compaixão ou por diversão ou por simples tédio, posto que por merecimento dificilmente me concederia alguma graça) aprouvesse fazer-me feliz, seja numa choupana com teto de palha ou num palácio de prata e cristal, deixaria meus amados, meus muito amados inimigos vivos, mas penduraria pelas artérias,( já que pescoço não possui) o meu coração estúpido e me permitiria viver sem ele. Talvez eu não criasse mais, talvez eu nem mesmo tivesse algo como um arremedo de vida, mas é possível que tivesse algumas boas noites de sono.  Bom outono para o senhor e parabéns pela bela e incômoda poesia!

Atenciosamente
Sahge.

PS: Caso o pedantismo e atrevimento de minhas palavras o tenham exasperado além do humanamente suportável, peço desculpas e renovo a minha estima e consideração mesmo se  o senhor, justamente movido pela irritação mandar-me ao inferno, advertindo-lhe contudo que é inútil fazê-lo. Sou um poeta, mein freund. Já vivo no inferno há algum tempo e acostumei-me a esta vizinhança.

A Roupa Nova do Imperador - Uma Metáfora - By Harlek




“Esqueça o conto de fadas, garoto. A coisa não terminou como contam na história. 
Eu estava lá, na segunda fila, suportando o calor e o aperto da multidão quando o maldito imperador resolveu exibir sua roupa miraculosa. Ora, corria o boato, espalhado pelos serviçais do palácio, de que a roupa era a coisa mais grandiosa, mais sublime que os olhos humanos podiam contemplar e todos os serviçais asseveraram que a qualidade do tecido e a riqueza dos detalhes eram algo digno da magnificência de um imperador. Só numa coisa não concordavam: Quanto a cor e a forma da roupa. Uns diziam que eram tons de azul e outros asseguravam que era verde água e outros garantiam que era das cores de todo o arco Iris. E ainda, que a roupa possuía um componente mágico, pois só os inteligentes e os astuciosos poderiam admirar lhe a beleza e os estultos e fracos de caráter nada viam. Diabos me levem garoto! Sou um homem capaz de certa...como é mesmo o termo que você vive me enfiando orelhas adentro? – Auto-análise! Sei muito bem que não sou um estúpido completo e saber que também não sou um sábio, faz-me mais inteligente do que aqueles que afirmam e reafirmam a própria sabedoria. Mas quero morrer fulminado por um raio se ao entrar na praça da cidade, precedido de pompas e fanfarras, o funesto imperador não estava nu como veio ao mundo!”


“Ora, ali estava o velho bandido, todo galante segurando o cetro numa mão e a outra erguida num gesto teatral, tendo as partes pudendas a mostra de quem quer que olhasse em sua direção. Andava com o garbo e a segurança de quem está vestido de gala e merecesse por isso toda a admiração.”


“Meu primeiro impulso foi o de duvidar da minha sanidade junto com a minha inteligência. Seria eu o único estúpido naquela matilha de miseráveis que se acotovelava para ver o imperador desnudo? Seria eu o único a ver que o imperador estava nu? Tirei os olhos do espetáculo lamentável que era aquele corpanzil desprezível andando pelado e comecei a olhar a multidão a minha volta. Mais de uma jovem donzela enrubesceu até as orelhas quando o imperador surgiu na praça, os olhos de toda a multidão ficaram esbugalhados como se não acreditassem no que NÃO estavam vendo. A perplexidade e o desconcerto diante da verdade que se apresentava eram evidentes em todos os olhares e podiam ser resumidos no seguinte fato: Ou o rei estava realmente nu ou todos naquela multidão eram uma camarilha de completos imbecis! E qual não foi meu choque quando desviando a atenção dos olhos para as vozes, ouvi comentários entusiasmados como:


-Mas que cores magníficas!


-Repare nos detalhes das mangas! Que primor!”


“E logo, toda a multidão estava comentando sobre a maestria com que fora feita a inexistente roupa do imperador, mesmo os olhos dizendo o oposto e todos, ou evitando olhar na direção de uma verdade desconcertante – “Eu dentre toda essa multidão sou o único estúpido, porque não consigo ver a maldita roupa do imperador”- ou concentrando a sua atenção com um ar de escárnio nas partes e formas ridículas do imperador. Ora, a tarde estava fria e nem mesmo o fato de o imperador estar tiritando de frio - natural, uma vez que estava nu- fez com que aquela turba se desse conta de que não havia roupa alguma. E quanto mais duvida sentiam, quanto mais seus olhos negavam a existência de uma roupa que cobrisse a miserável vergonha de nosso soberano, tanto mais se empenhavam em convencer aos outros e a si mesmo de que existia uma roupa e que ela era magnífica. E tinham gente ali que estava tão convencida da própria inteligência que sou capaz de jurar pelo céu e inferno que realmente estava vendo uma roupa cobrindo a pele esverdeada do velho patife. Sempre subestime a inteligência alheia, garoto, mas nunca a ignorância.”


“Bem, a coisa ia desse modo, ninguém vendo roupa alguma, mas todos pasmos, apalermados com o garbo e elegância do imperador nu e todos em secreto, mortificados com o fato de que aparentemente  não eram inteligentes, mas sem coragem de falar qualquer coisa que os denunciasse como tolos. Eu já estava para sair dali e livrar-me da obrigação de assistir ao duplo e triste espetáculo encenado por um rei parvo e desnudo e uma multidão que duvidava de sua própria inteligência para endossar a imbecilidade alheia, quando o garoto gritou:

- O rei está nu!

“Todos olharam para o pirralho. Eu já o conhecia. Ficava sempre ali pela cidade importunando as pessoas com perguntas que elas não sabiam ou não queriam responder. Uns o chamavam de Nicolau Copérnico e outros de Charles Darwin e outros ainda de Sigmund Freud. Bem, o fato é que o tal Freud, por ser um menino ou por ser um pouco mais corajoso (já que havia outros meninos na praça e apenas ele teve coragem de denuncia a nudez do rei) gritou para quem quisesse ouvir- O rei está nu!- ou se preferir, “o homem está nu!” E como reconhecer a nudez do rei seria reconhecer a própria estupidez - uma vez que até que o menino gritasse, todos ali estavam elogiando a roupa nova do imperador - diferindo do conto de fadas, o fato é que o tal do Freud foi espancado pelo pai que o pôs a correr da praça a golpes de cinta. Pensa que o moleque se intimidou? Ora, o capetinha saiu correndo sim, mas continuou gritando enquanto o fazia? “O rei está nu! O rei está nu!”. E seu pai o perseguiu para uma ou duas pancadas adicionais, mas Freud escapou pelas vielas da cidade continuando a gritar a nudez do homem. Um silêncio mortal se abateu pela praça e o imperador que até então andava em tranqüila confiança, se apressou a entrar no palácio. Nunca mais exibiu a sua roupa maravilhosa e depois de Freud mostrar que o homem estava nu, ninguém mais ficou confortável em relação à própria inteligência ou tolice. Que menino infernal! “


“Essa, ao que me lembro, foi a primeira vez em que duvidei dos meus sentidos e da minha inteligência, mas para ser honesto, acho que foi mesmo a primeira vez em que me dei conta da dúvida. Você pode até me olhar com esse ar de reprovação, garoto, mas pense por um minuto e responda para si mesmo. Se você estivesse lá, teria coragem de dizer para todo mundo o que seus olhos e seu bom senso lhe mostravam? Se tivesse, provavelmente fariam a você o que fizeram com Freud, Darwin, Copérnico, ou seja lá que diabo de nome tenha aquele moleque. Quanto a mim, sou um velho cínico sem vocação para mártir. A estupidez dos outros não me incomoda e já tenho trabalho demais em lidar com a minha própria.”