terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Não Pise na Grama




Então me sentei ao pé daquela  árvore. Chutei para longe a plaquinha recém colocada com os dizeres “não pise na grama” e pensei irritado para que diabos serviria uma grama senão para ser pisada, senão para ter a sua suavidade sentida pelos pés cansados...Confesso:sou a porcaria de um utilitarista, e a praça tem trocentos metros de grama e não iria ser daquele pouco mais de metro e meio que eu iria abrir mão.

E fiquei durante um tempo  gozando a sensação bem familiar de não ter, a não ser o pé daquela árvore dentre todos os lugares do planeta,  lugar algum neste planeta que eu pudesse  chamar de lar. 

Sensação reconhecível como minha, coisa mais familiar do que a alma que me habita, rebelando-se, protestando para abandonar-me, porque assim como não reconheço neste mundo como lar nada que esteja além das fronteiras do pé dessa árvore, minha alma não reconhece  como casa o corpo que habita e eu permaneço em fragmentos e em discordância até com as minhas contradições.

E o inferno sorri...

...e então quando sinto a grama e olho por momentos para essa praça, tudo tão frágil e tão brilhante; cachorrinhos, flores, crianças, pássaros e o som fervilhante da cidade em torno dela,  a cena  se move em minha mente e por uns momentos chego a duvidar de que algo de fato morra no mundo...

Daí a mesma grama me lembra, minha mente salta a cena e eu vejo a teatralidade, a maré de gente perdida de si, fantasmas pálidos se aquecendo em banalidades enquanto a iluminação de natal desmorona,  a cena congela em meu coração e chego a duvidar de que algo no mundo de fato viva...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Da Inadequação Do meu Existir




Você sabe, chega uma hora que simplesmente não se pode mais ignorar certas coisas.  

Por exemplo,  que a dialética só é possível na presença do Outro. É entediante entabular uma conversação consigo  próprio e você...Você já está levemente farto da própria conversa. E então recita:
Oh, Dio...me duelle tanto!

Quando dão em nada todas as suas tentativas de mergulhar sua angustia no teatro da vida interpretando solitários papeis coletivos, sorrindo quando queria mesmo era praguejar; sustentando uma felicidade fingida, tão ilusória quanto o bálsamo do tempo que já não serve como a prometida panacéia, ou você faz as pazes com aquilo, ou aquilo te devora. 

Imagino que isso seja mais ou menos o equivalente às picadas diárias de um diabético. Acabamos por nos acostumar  à dor e ela se torna tão e uma constante, que apenas em momentos de pura ausência do Eu (leia-se êxtase etílico) você percebe que ela está lá.  
Onde deveria estar a sua completitude.

Mas a rotação da terra te joga para fora da cama todas as manhãs e a pulsação do mundo não te dá folga ou tempo sequer para respirar, quanto mais para se lamentar. Você tem que andar mesmo meio morto. Mesmo sem calma, mesmo sem alma... A falta de sono é sempre uma ótima desculpa para a opacidade de seu olhar e para a languidez dos seus modos.

Exercite o inerte "músculus sorrisus" do seu rosto.
Esconda a sua tristeza suave como o viciado oculta as marcas do seu vício.
Ou o baile de máscaras pára e todos se voltam para você zangados porque você interrompeu a dança com a inadequação do seu existir.

Têm horários a cumprir o e trânsito na Cristiano Machado vai estar tão infernal quanto a noite insone que você teve. E o dia vai se arrastar tão intragável quanto aquele café frio e apressado que você deixou pela metade antes de perder mais um ônibus.

Então, enquanto o mundo desaba num dilúvio e você se esforça para lembrar como são aquelas tardes quentes em que o sol derrama ouro pela janela e o vento do leste te traz aromas de alturas inacreditáveis, você se pega a olhar para o nada  e sua mente vazia nota de novo o vazio ali.  Dá-se conta mais uma vez de que algo está faltando no mundo e já tinha prometido ao menos tentar  ignorar essa falta. 
Só que é estranho ignorar que apenas metade de você está realmente em  si, que você está pensando com meio cérebro, respirando com apenas um pulmão e que o Átrio e Ventrículo que te sobraram meio a esquerda do seu meio peito, já não dão conta de bombear  eficientemente o oxigênio para o seu meio corpo.

Você sufoca pela metade.

Se ao menos não tivesse se desinvestido da capacidade de se intoxicar de idealismos e ignorar a si mesmo, talvez seu pensamento ultrapassasse menos o breu daquelas nuvens acima do horizonte e talvez você não fosse bater às portas daquele mundo além da bruma, atrás de uma paz que não te pertence.
Deixe doer. Só há dor onde há vida.

É a sua principal referencia... É o que melhor descreve a sua sensação de estar flutuando na borda de um buraco negro que ameaça, mas jamais te engole.

Nunca foi difícil lidar com o cinza . São as cores talvez  inexistentes com as quais sonham os seus pensamentos daltônicos, a deixar esse rio de água gelada correndo pelo seu estômago. E você sendo  monocromático, passando a vida a pensar que deveria ser caleidoscópico, quando o que realmente deveria ter feito é aprendido a apreciar  melhor  a coesão do cinza em si. E só depois de amassar o nariz em muitas portas fechadas e de recolher cacos de sonhos em sarjetas sujas é que acabou  entendendo que  não há almoço grátis e nem atalhos fáceis na vida. 

 “...e o Nada é o vazio que resta! ”
Você o cria sempre que coloca pensamentos importados ou  anseios alheios (tudo feito pra você, mas não por você) no lugar onde a pira do seu Eu deveria arder em chama alta, iluminando a escuridão.

Perto da sua curta adolescência, decidiu não beber (promessa que tem cumprido mais ou menos displicentemente) e acabou  levando essa abstemia para a vida ( e para a sua tragédia, a esse derivado da promessa tem sido mais fiel do que seria salutar).

O que talvez tenha sido o maior erro de que não vai se arrepender. 



domingo, 18 de dezembro de 2011

Fragmentos de "Os Hamlets"



Abaixo, estão os versos mais marcantes (em minha nada humilde opinião) recitados pelo Professor da Puc Minas Luciano Luppi, no excelente monólogo "Os Hamlets - Uma releitura", durante a Jornada do Fórum do Campo Lacaniano 2011. Lamento não me lembrar os versos na íntegra, mas estes, são inesquecíveis...


 Ser ou não ser, eis a questão
 Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, 
Ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? 
Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, 
Como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. 
Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: 
Pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, 
Uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar.
 Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Nenhuma constituição
E nenhuma revolução
Jamais pensaram em garantir, para os homens,
O Direito de Respirar 
Nenhum direito mais necessário,
Pois vivemos o tempo todo nos sufocando uns aos outros.
Você me sufoca:
- Sempre que não posso dizer para você o que faço,
O que sinto e
O que penso.
- Sempre que preciso controlar minha voz e meus gestos,
Para que você não perceba minhas intenções.
- Sempre que me ponho a justificar o que faço
Frente a meu Juiz interior – que é você.
- Sempre que reprimo meus desejos
Porque todos vigiam a todos, para que ninguém faça
O que todos gostariam de fazer
O que seria bom que todos fizessem.
Amar, cantar e dançar…
Minha vingança é fazer o mesmo com você.
Por isso digo que vivemos todos nos sufocando,
E que jamais se pensou em garantir para todos, o direito
De respirar.
Nós nos negamos o mais fundamental dos direitos –
O de viver.
Por isso vivemos sufocados – angustiados – infelizes.
É preciso renascer – e é possível renascer.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



                                                                             Shakespeare, Pessoa, Gaiarsa & José Régio 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Discordando do Grande Mestre Nietzsche





"Depois que um vento se opôs a mim,"
batalho contra qualquer sopro.

Huckleberry Finn- Ou a Minha inclinação para o Existencialismo



Lembra-se quando havia um azulado em seu sorriso e o futuro se estendia no infinito como um tapete prateado de uma eterna infância? Quando encontrava pequenos tesouros apenas por caminhar a beira de um córrego procurando quartzos ou lia um livreto da “Coleção Vaga-lume”? Lembra-se de como ria das diabruras de Thom Sawyer  e voava nas aventuras do pequeno canalha e desamparado guerreiro infantil,  Huckleberry Finn?  

Quando havia mais na vida do que essa sutil dor de existir que cobre tudo como uma manta cinza?

Bem, seu corpo cresceu, adoeceu... Adolesceu, amadureceu e o mundo te engoliu, te vendeu anseios e, (pasme!!), conseguiu te convencer que eram seus aqueles desejos de status e riqueza . Você vendeu barato o azul do seu sorriso para receber em troca o amarelo dos sorrisos de aprovação dos outros, uma tentativa tola de fazer parte, quando o que você realmente queria era ser aceito. E agora as únicas portas que você procura abrir, são as que te levam ao emprego mal remunerado, à vida mal vivida, às relações sufocantes e simbióticas (quando não parasitárias) e ao jugo inacreditavelmente pesado da vida comunal.

 Deixou de ser Um, para se tornar mais um, ao preço de sua alma.

 Uma nulidade indistinta em meio a seis bilhões de pontos cegos.

A sua alma, o que restou do pequeno vagabundo, do livre  Huck Finn em você, se rebela e anseia (oh como anseia!) mandar o mundo ao diabo  e descer o rio da vida em mais uma jangada...

E enquanto você pensa que não são os cabelos brancos que te dão um ar de decadência, mas sim os cabelos pretos restantes, você suspira, olha para a janela, vê as nuvens deslizarem macias no infinito azul que antes iluminava o seu sorriso e sente ódio de si mesmo por ter crescido. 

E mais ainda por não ter crescido o bastante para não mais se importar por ter crescido.

Não seria assim, você raciocina, se todos os seres humanos nascessem com um relógio embutido na carne. Se pudessem fazer voltar o ponteiro do tempo ou mesmo emperrá-los. Deter a marcha inexorável, não da morte da vida (porque essa só assusta os fracos e covardes), mas da morte em vida (essa sim, apavora quem anseia um horizonte mais amplo), da entropia que primeiro rouba o azul do seu sorriso, depois arranca o significado das coisas que você aprende a desamar por fúteis e por fim, o nada se apossa da sua alma. 

A sua alma se torna o nada.


Ninguém vive dentro do tempo. 

 E a iminência de um beijo é sempre mais excitante do que o beijo.

E a iminência de um soco é sempre mais dolorosa do que o soco.

A iminência de um ser humano, a jovem promessa que suspira e lateja em sonhos cada vez que vê nas núvens, mais do que vapor de água esbranquiçando o céu,  a larva sonhadora,  é sempre mais iluminada do que o ser humano que brota e viceja na sua condição de nada, além de carne, sangue, falhas e uma magnífica singularidade.


Isso é ser humano. E “ou você é...Ou o buraco te ensinará a ser”.
Quando a perda do azul (mais cedo) e de parte de seu espirito (mais tarde e não há muito tempo), se torna dolorosamente consciente, em silêncio você pragueja contra todos os deuses, vivos, mortos e não nascidos (porque é da natureza humana atribuir culpa a alguém e você já está cansado de culpar apenas a si mesmo), e sente um rejubilo infantil por sua vingança muda, porque é um tolo, mas não o bastante para ignorar que não se deve andar na sombra dos deuses invejosos.
E esse é o meu vir-a-ser

Ser a iminência do absoluto ser humano, ciente do eterno e insaciável nada.  


domingo, 27 de novembro de 2011

Outra Conclusão Desconfortável...





A tragédia da minha vida tem sido estar atrasado para o que é importante, mas sempre aproveitar todas as oportunidades que me surgem de agir estupidamente.

PS: Relógios e tempo são coisas que odeio amar  tanto ou mais que amo odiar. E invejo qualquer um que decifre o oxímoro desse sentimento...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Uma Frase que caiu na minha consciência...


"Talvez já me tenha levado até o umbral da minha história."

Becket

Meu Meio-Diálogo




Pensar dói.

E por causa dessas cefaléias de pensamento, a maioria das pessoas sabiamente opta cada vez mais por mergulhar suas inquietações nas percepções sensoriais. Você sabe que faria companhia  a elas de bom grado nessa alienação do Eu, mas tem de lidar com seu inferno íntimo. Seus olhos dizendo que as cores choram de dia e as trevas entoam aleluias a noite. Sente o sabor azedo do linho em contato com sua pele e seus ouvidos atestando o tempo todo que tudo o que você come, tem a cor do desespero. 
E você, que nem aspirina toma, parece ter nascido com LSD nas veias.

Existem  aquelas coisas que você quer e pode compartilhar com aqueles que ama. Geralmente, amenidades, coisas pouco ou nada perturbadoras que não tiram o sono de ninguém. Outras, em muito mais densas, você só pode , na falta das bem treinadas orelhas de um Analista, gritar para dentro de você mesmo e num exercício de imaginação acreditar que não é o eco reverberando no vazio, mas uma voz interior te respondendo.

E você teima em ser denso num mundo de suavidades.

Daí você se move apenas porque ficou tempo demais na mesma posição e suas pernas têm cãibras (falta de potássio e perspectivas) Estivesse sentado numa praça, sua imobilidade confundiria os pombos e você seria obrigado por uma razão ainda mais desagradável do que cãibras a mover-se.  Não há um só lugar neste planeta onde possa aquietar a sua tranqüila monotonia.

Você só precisa da ferramenta certa para demolir essa fortaleza onde se encastelou a sua vaidade. Talvez uma pesada marreta de bom senso com que filosofar a sua solidão. Porque é tão importante ser bem visto aos olhos alheios quando aos seus próprios olhos você é invisível? E continua invisível ainda que te vejam com olhos bons ou maus, porque nunca verão além daquilo que desejam.
Você teima em ser profundo, num mundo de superficialidades.

Compre um livro de auto-ajuda, compre um carro bonito, consiga títulos e honras, colecione  palavras doces e pensamentos felizes e todo mundo vai te amar. Ou pode fazer o oposto e vitimizar-se além do humanamente digno e atrair compaixão, que é a mais ínfima migalha de respeito que lhe podem legar.

Pardais podem viver de migalhas, mas e se você tiver a natureza de uma águia ou de um corvo? Um poleiro seguro e afagos na sua cabeça outrora orgulhosa são um preço justo a se pagar pela perda da sua liberdade?
Sem mais vento no rosto?
Sem mais a alegria louca da queda livre?
Sem mais a divina perdição das almas vadias?

Livre- o Céu de ver-se repentinamente livre do seu céu!

Alguém passou por você numa esquina na Savassi e te olhou com um ar atrevido. Sentiu imediatamente o antagonismo e se perguntou  em que pesadelo ou sonho, (posto que nunca o viu cá, deste lado da realidade)  aquela alma contendeu consigo para sustentar assim o seu olhar de desafio em recíproca. Você gostou dele! Estivessem ambos livre das amarras sociais, teriam entabulado estranha conversa e é possível que se tivessem atracado em violenta fúria irracional. E você sente vergonha em admitir que já passou da idade de sentir vergonha em confessar que teria gostado disso. É o selvagem inerte em si, latente, domado por mil minúcias mundanas. Tanto quanto as mesmas que debelaram o espírito do  sujeito de quem se sentiu imediatamente irmanado. Que brutal mundo civilizado esse em que você vive!

E foi engraçado, porque ao vê-lo partir levando em si uma sufocada antipatia por você, sentiu tornar-se  mais real aos olhos deste estranho que te antipatizou, do que aos da maioria que lhe demonstram afeto .
Fugindo por entre a selva de concreto e lojas bacaninhas, esgueirando a sua estranheza por entre carros e pequenas iniqüidades do cenário urbano, vai...

Celebre a sua singular condição de estranho numa terra estranha, que é ao mesmo tempo sua casa e sua prisão. Subversão também é isso: amar em si aquilo que te ensinaram a odiar por razões não suas...

sábado, 12 de novembro de 2011

Uma Conclusão Desconfortável...



...dos restos de uma conversa com um amigo e após uma semana em que estive em infrutíferos debates ínteriores e exteriores, ouvindo e falando tolices e avaliando as vantagens de me encerrar num mutismo salutar, concluí que;

Em muitos seres humanos, Cérebro e Inteligencia não estão necessariamente associados. A existência  do primeiro não implica obrigatoriamente na presença  do segundo...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Perpétuos




Tem umas coisas que acrescidas ao muito que já nos ferve como uma febre mental, acabam por mandar nosso sono pro espaço.  Se por acaso alguém vir uma tonelada de noites mal dormidas flutuando por aí, gentileza remeter a este pobre blogueiro insone.
Bem, estava fazendo uma pequena e lúgubre contabilidade do ultimo ano (habito pouco saudável que a ninguém recomendo) e nas visitas desagradáveis que Dona Morte andou me fazendo, enquanto prossegue a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens". Por ordem:

-Um acidente de carro

-Meia dúzia de “quase-atropelamentos”

-Alguns choques elétricos (coisa de pouca monta, uma vez que estou convencido que seriam necessários muitos milhares de volts para me deixar  realmente “chocado”)

-Algumas balas perdidas que certamente passaram tão rápido rente a minha cabeça, que não as percebi (talvez seja exagero, mas são tempos perigosos os que vivemos).

-Stress capaz de transformar o sangue em lava fervente e ácido.


Para ser honesto, da pequena lista acima, apenas o acidente de carro aconteceu de fato e de direito, o restante trata-se apenas de especulações da minha parte ou exageros propositais, de uma série de modos horrorosos que me ocorreu, pelos quais eu poderia ter morrido. 2011 tem sido um ano bem difícil...

Sem sair do assunto, mas pegando um pequeno atalho, a obra de Neil Gaiman parece ser um elemento da minha vida cujo apreço compartilho com quase todo mundo que é importante para mim. Leio há bastante tempo ( o sujeito é ídolo de ninguém menos do que Alan Moore!!)  e por influencia de alguns amigos em especial, releio bastante também.  E da mitologia criada por Gaiman em sua principal obra “Sandman”, até o inicio deste ano, seguindo minha inclinação natural de “teimoso-do-contra”, temi  estar sob o signo de todos os Perpétuos.



Desejo e eu nunca nos entendemos, nunca nos demos bem. Ele/Ela não gosta de mim e a antipatia é recíproca. Não nos sintonizamos e por vezes chego a odiá-lo, porque talvez seja prepotência da minha parte, mas sinto lá no fundo dessa minha veia estóica, haver uma certa perda de dignidade quando se cede a Desejo e quando acontece, irrita-me imaginar o sorriso sarcástico dele/dela, saboreando o momento que o meu eu simbólico cedeu ao meu eu animal.E quando posso, a/o ignoro ou empurro tão para o fundo da consciência, que um asceta parecer-se-ia a um fauno em comparação comigo.


Desespero passa tempo demais comigo para que eu sinta por ela mais do que o escravo sente pelo amo. Ela é familiar demais. Presente demais. E o fato de cada vez mais me habituar a essa presença, a torna maçante, como aquela pessoa que você é obrigado a ver todos os dias e que conta sempre a mesma piada, fala sobre os mesmos assuntos...Seu anel  está tão constantemente fisgando o meu coração, que já o considero um adorno, como um piercing, em que a ferida já cicatrizou em torno da agudes do esporão...


Destruir nunca foi meu forte ( a não ser a minha auto-estima em momentos de crassa estupidez). Romper com as coisas antigas para que o novo surja é o que faz com que eu goste de Destruição. Tudo parece ter surgido da entropia de algo que veio antes, como o fato de que os átomos que compõe os nossos corpos foram antes átomos de outras coisas e de outras e de outras até a origem de tudo. Acabo pensando, quando penso em Destruição, que, em direção ao passado, somos feitos da mesma coisa. Isso também me leva a pensar, numa direção a frente, que aquilo que me compõe vai um dia fazer parte de  outra coisa e outra, até que a entropia nos transforme de novo no deus ou na deusa que talvez tenha dividido a sua forma e consciência nisso tudo que somos e que temos a nossa volta.


Não acho Destino factível, mas gosto dele ainda assim, como gosto de tudo o que fica no campo do fantástico. Existem coisas, eventos no universo que não parecem admitir questionamento. Elas simplesmente são. E existe um conhecimento do qual, uma vez adquirido, não se pode abrir mão. Não se pode escapar ao conhecimento de certas coisas, como se ele estivesse atado em nossos pulsos por algemas e correntes. Identifico-me a Destino, porque como ele, sou cego para algumas coisas, com o diferencial que Destino não precisa de olhos para ver, para saber, e eu vou tropeçando no escuro, batendo a canela nas quinas das coisas e metendo o nariz em lugares, sejam físicos ou psicológicos, onde eu bem faria em manter-me distante.



Sonho não chega a ser um personagem que eu goste ou desgoste. Eu apenas me submeto. Ele tem o dom de esmaecer as cores da realidade pelo violento contraste existente  entre o lá e o aqui. Mas pela aura de tragicalidade envolvendo Morpheus e sua melancolia persistente, e aquela consciência da perda de algo precioso que ele manifesta sempre, eu não gosto de Sonho. Eu sou o próprio (e antes que alguém pense que estou me vangloriando, advirto que de forma alguma considero isso uma vantagem).



E Delírio...
Ah, eu amo Delírio! É a minha favorita...Delírio, embora Gaiman não coloque dessa forma, é um tipo de anti-Destino. Ela é o único escape para e da realidade e da dureza desta. Porque a loucura é o único conforto de que dispõe a mente de quem está acorrentado pelo conhecimento de certas coisas, quando a ignorância e o conforto advindo desta já não é mais uma opção. O mundo de Delírio é um refugio onde a alma pode se perder em suas próprias singularidades. Delirar é ser livre de muitas amarras...Ou como a propria diz nas palavras de Erasmo de Roterdâ:

  "Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto
meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura
sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais"

 Não obstante o fato de eu  sonhar, desejar, me desesperar, destruir , delirar e estar sob o julgo de um destino por vezes implacável e delirar suavemente, nunca temi (pelo menos conscientemente) a Morte.


Meu pragmatismo sempre me fez pensar no absurdo de se temer  a Morte, porque acredito que até seja possível evitar-se as dívidas, mas a Morte é o fim natural de tudo, de uma borboleta que vive um mês a uma estrela com bilhões de anos. Todos marchamos para o inexorável fim e isso nunca me pareceu algo a ser racionalmente temido. Como se houvesse algo de racional no temor...

Afirmo, sem risco de me pegar falseando minhas impressões para manter uma retórica (de novo, ao menos conscientemente), que continuo imune ao medo da MINHA morte. A de outros é coisa completamente diferente.  Compreender que tudo deve morrer, embora toda a nossa mitologia e filosofia persistam em  tentar conquistar a morte, não diminui a dor que fica na ausência, no vácuo onde devia haver alguém. Se a Morte é perpétua, a vida é efêmera e a lógica desse raciocínio pode até confortar quando se pensa no próprio fim (e qualquer um que não receie o julgamento alheio em relação aos próprios sentimentos, vai confessar ao menos para si mesmo que muitas vezes tem amado e até mesmo desejado a própria morte), mas não vai preencher o vazio que fica quando se pensa que aquele para onde flui a sua energia libidinal está em vias de desaparecer ou então já se foi.

Não é difícil compreender o funcionamento do pensamento de alguém que crê num além para fora da esfera da matéria. Pensar num infinito campo verde onde poderemos reencontrar nossos amados é um conforto genial criado pelas nossas muitas religiões. E embora eu não seja capaz de partilhar de tal conforto, pensar a morte alheia me fez ser mais indulgente e compreensivo com quem se anestesia com crenças ou álcool ou outra forma de abstrair da dor da vida. A dor da perda é aterradora.

Talvez eu ame a Morte no dia que ela vier por mim (e não mais  mim), quando sua visita vier silenciar minhas dores e não mais recrudescê-las (aí, ela que se entenda com quem sentir a minha falta). Quando suas visitas fortuitas não mais vierem tornar insuportavelmente longo aquele instante que o ponteiro leva para saltar de um segundo a outro. Quando ela silenciar a minha voz e não aquelas que amo, quando parar de colher o dourado do trigo deixando o joio vicejar no campo do mundo.

Talvez eu esteja sendo injusto mas se há algo em que um ser humano pode legitimamente ser injusto, é naquilo que não compreende (porque a compreensão obriga a tolerância) e apesar de ter obtido muito o que pensar a respeito quando estive pensando a morte nos posts de Pandora e Rafael, acho que por um bom tempo, por razões muito minhas, Morte vai ser o Perpétuo de que menos gosto.

A Prisioneira - Emily Bronte




Saibam ainda meus tiranos, que não estou disposta a vestir
Ano após ano a tunica do desespero sombrío e desolado;
Um mensageiro de Esperança vem a mim cada noite,
E ele oferece uma curta vida mas plena liberdade.

Vem com os ventos do oeste, com os ares errantes do anoitecer,
Com esse claro crepúsculo de ceu que traz as estrelas mais densas:
Os ventos tomam um tom absorto, e estrelas um brilho suave,
E sobem, e mudam, visões que me matam de desejos.    

Desejo de nada saber nos meus anos mais maduros,
Quando o gozo enlouquecia com sobressalto, contando as futuras mágoas:
Quando, estando o ceu do meu espírito cheio de amparos calorosos,
Eu não sabia de onde eles vinham, se do sol ou se da noite trevosa.

Mas primeiro, um silêncio de paz —uma calma sem som desce;
O forçar da angústia e a impaciencia feroz  silenciam.
Uma música muda acalma meu peito—A harmonia é indescritível
E eu nunca poderia sonhar, até que a Terra se perdesse para mim.

Então amanhece e o Invisível, o Oculto revela sua verdade;
Meu senso externo foi-se, minha essência evola;
Estende suas asas —seu caminho se abre, encontra seu porto,
Mede o abismo, inclina-se, e ousa dar o salto final.

Oh, terrível é a prova —intensa a agonia,
Quando a orelha começa a ouvir, e o olho começa a ver;
Quando o pulso começa a palpitar —o cerebro a pensar outra vez,
A alma a sentir a carne, e a carne a sentir a cadeia.

Contudo  eu desejo essa perda, mas não a menor tortura;
Quanto mais a angústia atormenta, mais cedo serei livre;
E inflamada com os fogos  do inferno, ou brilhante com luz celestial,
Ainda que coberto com o manto da morte, a visão final da vida  é divina.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Percepção de Uns Detalhes ou Phanta Hei



...então, me levantei um tanto trôpego, cambaleei no escuro de madrugada até a mesa do computador. Acabei desistindo de ligar e passar mais uma madrugada insone entre os bits e bytes fluidos da net. Deixei-me ficar no sofá, gozando o barulho da chuva que finalmente veio lavar um pouco os pecados e as calçadas apinhadas de BH. Esse tempo chuvoso deixa a cidade e o espírito encharcados, mas curiosamente me sinto confortável.  É sempre confortável estar na própria pele nesses momentos de solitude, quando o teatro do mundo baixa o pano e temos um tempinho para passar em nossa companhia.  
Senti um impulso ridículo de fumar um cigarro. Bobagem, porque eu não fumo e nem nunca fumei. Só me pareceu apropriado. Ficar sentado no escuro ouvindo a chuva pede a companhia  de um cigarro ou uma bebida (sei lá de onde diabos tirei essa idéia! Acho que a falta de sono está me afetando de verdade! Ou isso, ou ainda não assassinei completamente todo o meu romantismo balzaquiano!), mas me lembrei que também não bebo. Isso é um complicador, porque seres humanos são um pouco inclinados a terem vícios de toda ordem e quando não se permitem viciar nesses entorpecentes dos neurônios, viciam-se em anestesiar a mente com ideais ou idéias. Receio que meu caso seja o ultimo.
Um cigarro ou um copo de bebida amarga são coisas mais simples e talvez melhor companhia para uma madrugada insone. Não requerem esforço algum e talvez me relaxassem o bastante para voltar a dormir, enquanto o vício de voar em idéias talvez seja justamente o que me faz perder o sono.
Vai saber...
Não tendo como companhia senão um emaranhado de idéias desconexas, fiz uma pequena “associação livre” em meus pensamentos, apenas para ver o que viria, já que eu estava com preguiça demais para articular qualquer coisa por vontade própria. Veio-me isso do nada:
“O diabo mora nos detalhes.”
Pensamento estranho para se ter sentado no escuro, de madrugada. Li isso em algum lugar...ouvi de alguém. Um tanto lúgubre, mas já tem um tempinho que deixei de ignorar um pensamento apenas porque ele pode mexer com os  brios místico-religiosos meus ou de outrem. Nós não pensamos nada por acaso.  
Associado a isso, me veio outro pensamento, o de que esse primeiro é uma deslavada mentira.
Deus é quem mora nos detalhes.
Honestamente falando, só pensamos em coisas como  “buscar a felicidade “ porque a vida é basicamente uma eterna fuga do sofrimento. Viver é difícil, sofrido o bastante para que busquemos muitas formas de ter um pouco de prazer para aliviar a dor. Claro, essa é a concepção de alguém que é viciado em idéias, mas creio que quem se vicia em ideais, certamente vai ter da vida uma visão mais rósea, mais romântica, o que talvez não seja  necessariamente errado, mas dificilmente poderia considerar uma visão honesta.
Preciso mesmo dormir mais...
Continuando, quando saímos de casa pela manhã, não levamos uma harpa e folhas de palmeira  e cânticos para nos encontramos com nossos irmãos, não saímos para um piquenique. Nós vestimos a nossa melhor armadura, pegamos espada, escudo, cota de malha e rifle, porque nós vamos para a guerra e o campo de batalha é o mundo. Tudo bem que, como homens modernos, essas armas estejam disfarçadas de sorrisos falsos, afetação, formalismos e muita dissimulação, mas nem por isso a guerra deixa de ser mais cruenta e nem por isso nossos algozes  deixam de ser hostis.  O mundo não é mau ou bom. Apenas é. Nossos juízos de valor é que dão a tônica e os tons do mundo. No meu caso, já não me permito ingenuidades que ensejam acalentar pensamentos mentirosos. Já não consigo mentir para mim mesmo.
Reconheço que a vida perde uma profusão de coloridos a medida que se vai abandonando as ilusões caleidoscópicas que a sustentam. Mas talvez seja apenas uma questão de desenvolver novos sentidos com o que perceber o mundo. Torna-se mais fácil compreendê-lo e aceitá-lo ( e às pessoas que o compõe) quando se para de julgá-lo em termos de bem e mal. São conceito muito fluidos...
Mas dentre toda a agrura que perpassa a vida de um ser humano, mais especificamente deste que vos digita, existem uns pequenos Oasis, que talvez sejam mais preciosos por raros que sejam. Pequenos momentos deslocados no tempo e no espaço entre um problema e outro, detalhes, onde quem mora é Deus.
Um poema de  Yets, Pessoa ou Brontë, um encontro de idéias com alguém instigante, algo criado por alguém com amor, notícias de um amigo ausente, rir acompanhado, chorar sozinho, ter uma percepção do absurdo ( que muita gente confunde com inteligência),  barulho de chuva no telhado, um gato ronronando no sofá, cheiro de terra molhada e de café quente, som de crianças brincando, silêncio numa madrugada de chuva, um bom livro e tempo para lê-lo e, é claro, os cabelos e olhos claros da minha filha e sua risada alegre.
Essas coisas vêm subitamente me fazer companhia onde faltou um cigarro ou uma bebida que me fizesse sentir completa e decentemente decadente.

E eu me sinto feliz por Deus existir nesses detalhes e grato por vir me fazer companhia.  Tenho com a idéia de Deus ou deuses uma pugna que na verdade diz mais da incoerência das religiões e minha incapacidade de fazer vistas grossas a essas incoerências do que com  a natureza ou existência do divino. Não sei realmente se Ele ou Ela existe ou não, mas se tenho alguns detalhes na vida pelos quais ser grato, então, seja lá quem for, esteja onde estiver, sou-lhe grato por isso.  Não é o bastante para me fazer ajoelhar no escuro entoando hallelujahs, ou desejar ir a um templo (Deus me livre!), mas já é um bom começo de uma possível reconciliação, senão com a religiosidade, ao menos com o divino.
Agora que através de uma associação livre de pensamentos fiz as pazes com Deus ou a Deusa nos detalhes da minha vida, talvez fosse uma boa coisa me reconciliar igualmente com o sono...