terça-feira, 15 de maio de 2012

Verossímil




Pequenino...?
Pequenino, você está aí?
Eu tenho que falar rápido, mesmo sem saber se você me ouve.
Talvez não faça sentido.
Mas não preciso que faça. 
Você e nem mesmo precisa me entender...
Entender não é importante.
Apenas me ouvir.

Não é verossímil...
Não deve nem tem de ser.
Num mundo absurdo, seria eu mais absurdo ainda que o mundo
Se me pautasse pela verossimilhança.

Pequenino?
Estou a um minuto de me esquecer o que me custou muito para compreender.
Eu tenho poucos instantes de loucura iluminada.
Logo volto a raciocinar direito, calcular como um mestre, ponderar como um sábio...
Logo deixo de ser divino.

Então, enquanto isso não acontece, me deixe dividir com você
E por favor, depois, divida de novo comigo, caso eu esqueça de lembrar.
Eis o que o silêncio me gritou de volta:

"A realidade é crua, criança...
Crua como a carne da gazela que o leão devora.
Você não encontrará temperos refinados na natureza
Nem culinária requintada na selva.
Sê selvagem, criança tola de olhos tristes, sê feroz!
Se quer amar, conhecer e sorver a realidade, esteja pronto para a sua crueza..."

“O amor só é possível no impossível...
Só existe na iminência, no eterno vir-a-ser.
O amor só é quando não é
E é quando não espera ser.”

Pequenino...?
Você me ouviu?
Você me ouve aqui neste silêncio?
Pegue o que eu te dei e escreva canções tristes...
Plante um jardim de coisas simples...
Mas não se esqueça de lembrar de me lembrar de não esquecer.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cognitio




Minha historia foi a seguinte:

Eu nasci, vivi e eu morri.
Vivi como um homem de fé, procurei a virtude piedosa e quando morri, estava certo de entrar numa outra vida e num modo melhor de existência, mas quando a luz se apagou...nada! Não havia nada lá e  eu estava morto e acabado e...

Espere aí! Isso não pode estar certo! Como eu poderia ter acabado se estou aqui a contar isso??

Na verdade não foi assim que aconteceu. Eu vivi e eu morri.
Mas eu vivi como um Ateu fundamentalista, victo e convicto e morri assim. Em meus momentos finais escarneci da morte, ri-me das preces dos meus tolos entes queridos por minha alma inexistente e apaguei. Esperava depois de morto...Nada. Mas para a minha surpresa, havia um depois, um além. Cheguei a um lugar que não era um lugar, mas um conceito. Daí pensei:
“Diabos! E não é que aquele bando de religiosos tinha razão?”
E agora?


Ah, cometi um equivoco aqui. Devem me perdoar. Não se pode se fiar na própria memória depois de morto. A verdade é que eu morri. Mas havia vivido como um cristão devotado e sincero. Quando segui a luz e cheguei perto do trono de Deus...Essa não! Jesus não estava ali. Era o Ganesha sentado no trono! E eu havia até mesmo debochado daquele deus-menino-elefante de quatro braços enquanto estava vivo! 
E agora?

Não.... Agora tenho certeza. Foi assim. 
Eu vivi e depois morri. 
Mas havia vivido a vida toda como um Budista fiel. Depois que abandonei minha carne, sabia que depois de ter vivido corretamente no caminho óctuplo, iria alcançar o  Nirvana, mas cheguei num lugar onde havia um trono e sentado no trono, reconheci de imediato aquela figura. 
Por todos os sagrados Lamas, aquele era Jesus!
E agora?

...

Eu morri como vivi.
Na dúvida. Nunca encontrei um modo mais honesto de se viver, o que talvez tenha sido um erro. Talvez meu único acerto. Estava prestes a descobrir.
Ou não...

Estava apavorado diante do novo, do incerto, daquilo do qual tudo e tanto especulei, mas nada sabia de fato. 

Eu estava saindo do mundo tão ignorante e desamparado quanto quando nele entrei. E assim como estava preparado para nele entrar, mesmo indefeso e com medo, estava preparado para dele sair. Engraçado como a morte e a vida parecem  portas de passagem para as mesmas incertezas...

Fiquei feliz pela minha vida não passar diante de mim como num filme, como eu ouvi certa vez que acontecia. Eu conhecia bem o roteiro e no geral, odeio reprises. E seria maçante ter de repassar todo o tédio de uma existência de desequilíbrio, alegrias, tristezas, rever rostos amados apagados pelo tempo e circunstâncias e idade; e apegar- me à lembrança renovada deles, o que tornaria minha morte mais dolorosa do que devia. Se é que deveria haver alguma dor na morte, como tanta houve na vida. Eu devia abandonar aquilo, do mesmo modo que abandonei o conforto do útero, para correr a corrida humana.

Mãos dadas com o meu medo e desamparo, havia uma esperança, tão tênue quanto o fôlego que me abandonava.

Torcia no meu intimo, que todos, absolutamente todos aqueles que ao longo da vida me apontaram dedos acusadores e caminhos para a salvação, estivessem certos e eu entrasse numa outra vida, ainda que fosse para ser punido num inferno porque qualquer forma de existência, mesmo penosa, parecia-me preferível a desaparecer para sempre. Supondo que há uma alma, a alma não reconhece o nada.

Mas torcia ainda mais, para que os deuses, se existissem, fossem mais piedosos e compreensivos do que seus muitos arautos, que condenaram a minha humanidade frágil por eu nunca estar a altura de sua semi-divindade, e se apiedassem de mim, antes poderoso e viril, agora quebrado, sozinho.

Pensei na minha mãe. Fazia muitos, muitos anos que eu não pensava nela. Talvez esperasse que ela estivesse lá para me embalar, me segurar e cuidar de mim, como fez antes, mas, claro, era uma espera tão imersa na incerteza quanto a que experimentei naqueles segundos traumáticos depois do parto. Eu esperava, mas duvidava que ela estivesse lá; uma estranha esperança na qual não podia me apegar. Uma esperança desesperada.

Apaguei como uma vela soprada e não houve nem túnel de luz e nem um coro de anjos a me saudar. Tudo bem. Eu já estava, depois de uma longa carreira no mundo humano, desprovido da vaidade de esperar cerimônias e honrarias. Eu não esperava um coro. Apenas esperava que houvesse alguém lá que me recebesse. Que houvesse um lá e que houvesse um alguém.

Eu morri e fui levado pelas mãos do nada. Era o que fui a vida toda; um passarinho atordoado na tempestade, chicoteado pelo vento, desejando que depois daquela cortina de nuvens escuras, houvesse um galho qualquer de uma árvore qualquer, onde eu pudesse por fim repousar as asas cansadas.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Do que me inspiram Nietzsche, Paulo de Tarso e Ezio Auditore da Firenze




“Supondo-se que a verdade seja feminina — e não é fundada a suspeita de que todos os filósofos, enquanto dogmáticos, entendem pouco de mulheres? Que a espantosa seriedade, a indiscrição delicada com que até agora estavam acostumados a afrontar a verdade não eram meios pouco adequados para cativar uma mulher?”

Prefácio de Além do Bem e do Mal, de Nietzsche.


Com exceção de Jean-Paul Sartre, não sei de filósofo que tenha sido popular com as mulheres e mesmo assim, acho que o caso de Sartre se deve em muito a mística criada em torno dele e sua relação atípica com a sublime Simone de bouvoir. Por outro lado, tampouco estive interessado nas fofocas amorosas envolvendo aqueles grandes homens cujo fascínio advinha de outra ordem. Mas voltando ao Prefácio, penso que Nietzsche errou numa coisa: A verdade é um meio pouco adequado para cativar qualquer um, independente do gênero.

A relação nossa com a verdade é ambígua, porque se nos sentimos muito virtuosos por afirmarmos amar a dita cuja, por outro lado, quando algo ou alguém se mostra muito bom, dizemos que tal “é bom demais para ser verdade” e nessa frase, embora não pensamos nisso conscientemente, estamos dizendo que nada que é bom pode ser verdadeiro ou que a verdade é necessariamente ruim.

Daí , ao invés de simplesmente me divertir com a dinâmicas e o enredo pouco ortodoxos (que se dane a ortodoxia!) do meu game favorito “Assassins Creed”, fiquei durante horas pensando na célebre frase que é um preceito da Ordem:

Nada é verdade. Tudo é permitido.

Lendo a coisa numa literalidade rasteira, fica parecendo que essa afirmação (da qual se pode duvidar porque uma vez que nada é verdade, então esse mesmo princípio não escapa desta contradição autofágica, ou seja, TUDO é verdade tanto quando NADA é verdade) é uma apologia ao individualismo selvagem, e que tudo é permitido segundo o próprio critério do indivíduo.

Engano dos mais grosseiros. Na realidade, o contexto por detrás dessa frase significa (no meu parco e talvez errôneo entendimento) que não havendo Uma Verdade, mas muitas verdades, as atitudes de um homem devem ser derivadas de um julgamento moral (não confundir com “moralidade) de ordem mais elevada do que um Canon coletivo ou de uma verdade alheia a ele próprio. Não é uma licença para se fazer tudo, mas o contrário disso, a consciência de que a responsabilidade de guiar seus atos cabe ao próprio homem, não podendo o mesmo depositá-la em outros ombros e nem delegar a outros ombros as conseqüências dos atos cometidos ou das isenções.

As Verdades são empíricas, experienciadas, porque até onde sei, verdade é tudo aquilo que se configura como fato, até que a realidade mostre o oposto. O engraçado é que a Verdade, que deveria ser pétrea por sua própria natureza, é fluida pois até bem pouco tempo era verdade que a terra era plana e o centro do universo (e opiniões em contrário eram punidas com a fogueira), e que o homem era o top of mind do mesmo universo (verdade que ainda prevalece, lutando bravamente contra os fatos que mostram o contrário).   
                                       
Partilho com Otto Rank o pensamento de que já existe um excesso de verdades no mundo, uma superprodução que não pode ser consumida. E acho que o fato de haver uma superprodução sem publico consumidor se deve a outro fato, o de que com a boca e a consciência louvamos a verdade, enquanto inconscientemente, repudiamo-la e acalentamos as fantasias confortáveis que podem sustentar o nosso ego.

Odiamos a verdade e ninguém que nos queira cativar deve munir-se de um estoque desse veneno, sob pena de devotarmos a ele o ódio mais abjeto.

Aprendi a duras penas...

Não somos diabéticos morais. Adoramos mentiras doces. Ainda que nos dê cáries e nos corroa dentes e espírito.

Então,ainda remoendo as lições de Ézio Auditore, lembrei- me de outra lição, desta feita do grande gênio Paulo de Tarso, que disse:

"Sempre que as pessoas do mundo que não tem Lei (ou Verdade, no meu entender), fazem por sua própria natureza as coisas da Lei, essas pessoas, muito embora não tenha Lei, são uma Lei para si mesmas, porque a Lei está escrita nos seus corações e nos seus corações elas mesmas se acusam e elas mesmas se perdoam e essas pessoas, que não tem Lei, hão de julgar a ti, que professas seguir a Lei sendo transgressor dela."

Adoro Paulo de Tarso
Adoro Nietzsche
E Ézio Auditore!

Das minhas conclusões, virtuoso não é o homem que faz ou deixa de fazer algo por temer uma sanção, secular ou metafísica, do Estado, da sociedade ou dos deuses, mas o que faz ou deixa de fazer algo seguindo um princípio mais elevado do que Lei e Verdade (que são tiranos fluidos, variando de homem para homem, de sociedade para sociedade, de época para época...);
o princípio da Alteridade (essa sim, divindade digna de todas as devoções)

Nós somos muitos e são muitas as nossas percepções de verdade.
E nesse nosso macrocosmo;

Tudo é verdade, nada é permitido, dentro do espaço do outro ou que fira as verdades ou permissões desse outro. 

Isso hoje é um fato para mim. Vejamos se a realidade mostra o oposto amanhã.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pétalas Quebradas




Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.

E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e vilezas piedosas do cotidiano.

Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar todos os espectros da cor?

Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação na natureza.

E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso  todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...

terça-feira, 17 de abril de 2012

Saudades...


A vida é mesmo um estranhamento constante.
De uma complexidade simples e de uma simplicidade complexa...
Ela tem atalhos, labirintos e esquinas onde a gente se perde, se desencontra do que realmente importa. E dói, quando um desses atalhos altera planos, turva sonhos, arranca os brotos da terra deixando árvores ressequidas na paisagem solitária.

Desde ontem penso em você, meu amigo e lembrando de uma musica que eu vivia cantarolando ha muito tempo.

"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora 
Cedo demais."

E eu cantarolava isso mesmo antes de ser atingido pela perda de pessoas queridas, mesmo antes de chegar a ter uma noção do inconsertável. E continuei a não ter, até que isso desabou na minha cabeça e me deixou preso a um atordoamento perene.

Queria ter estado lá hoje. Queria ter dito adeus e ter tentado de algum modo consolar aqueles que te amam...Mas isso ia ser particularmente difícil, porque resisto teimosamente a dizer adeus às coisas preciosas e além disso, estou tentando e ha muito tempo consolar a mim mesmo, sem ter sucesso nisso. Tem coisas que parecem necessitar de uma vida inteira para elaborar...

Acho que comentei com você uma vez que eu tinha uma grande dificuldade com a fé religiosa e tinha motivos em demasia para não acreditar num princípio divino. Então, eu ainda não acredito em Deus. Eu tenho esperança em Deus.

Esperança que ele/ela exista, apesar de todas as minha duvidas.
E que te receba com amor,  te guarde e ampare aqueles que sempre se lembrarão com saudades de você e da sua alegria.

Atribuem ao escocês Willian Wallace o pensamento:

"Todos os homens morrem, mas nem todos os homens de fato vivem".

E uma pessoa, que se tornou para mim de uma importância assustadora, me disse uma vez:

"Quem não é lembrado, jamais existiu".


E você viveu, amigo. Você existiu.

E vai continuar vivendo na memória dos seus amigos.

Fique em paz...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Corujices Minhas: Laura


Abaixo está o primeiro poema que já escreveram para mim. E eu não poderia estar mais orgulhoso. É muito mais do que especial, porque foi escrito pela pessoa que mais amo neste e em todos os mundos (e que é, ela própria, o melhor poema que já fiz), o que configura um caso muito feliz de amor correspondido.
 Corujices à parte, minha filha de dez anos escreveu o seu primeiro poema e acaba de desbancar no meu ranking de poetas preferidos, o imortal Fernando Pessoa, a maravilhosa Bronte, o mágico Butler Yets e muitos outros.


Um raio encontrei.
Uns pingos de chuva eu vi.
Mas eu vi o raio...E o raio...
Sempre gostei de você.
E quando eu olho pra você,
Eu vejo um raio das nuvens.
Eu amo você.


Laura Campos






Implicâncias Minhas: Fulano, Farmacêutico.



Entrei na farmácia perto das onze da noite. Era uma daquelas farmácias com uma decoração moderninha e que parece mais um mini-shopping do que uma drogaria. É uma boa estratégia essa de vender varias coisas numa farmácia, porque você entra atrás de um analgésico e acaba levando um pacote de ração para seus gatos (coisa de que, aliás, eu também estava necessitando naquele dia).  

Estava vazia, exceto por um casal de idosos que no balcão de remédios, monopolizava as atenções do único funcionário de plantão. Sujeito bonito, tal como as pessoas entendem a beleza masculina. Fortinho, cabelos muito claros e impecáveis, assim como o seu jaleco onde pendurado um crachá o identificava como Fulano de tal, Farmacêutico. Muito engomado, muito aprumado... Dir-se-ia que sua mãe ou esposa provavelmente o engomava a ferro antes de ele por o pé na rua. Atendia o casal de idosos também aprumados. Senhor bigodudo, com óculos de aro de tartaruga, calças de linho e camisa de seda. Ela, senhora muito distinta (tal como as pessoas entendem a distinção), cabelos brancos rigidamente alinhados com laquê (eu acho, porque o cabelo dela dava a impressão de coisa sólida, muito compacta), colar no pescoço e fala suave. Aquele distinto casal era do tipo de “aristocracia mineira” que freqüentemente encontramos nesses locais “metidos a besta”, como shoppings ou restaurantes “bem freqüentados”.


Fulano Farmacêutico os atendia com muita solicitude, dando longas explicações sobre os horários em que deviam ser tomados, reações adversas e outras informações que a mim pareciam ser mais da alçada do médico que os receitou do que do farmacêutico que os vendia. Azar! Nada tinha com aquilo. E meu deus,  como tomavam remédios aquela dupla de velhinhos aristocráticos! Tinham ao balcão bem uns trinta tipos de caixas de remédios e estou certo que a segunda metade daqueles remédios, serve, provavelmente, para combater os efeitos colaterais advindos da primeira metade tomada.

Estava quase saindo em busca de outra farmácia 24 horas, quando o casal recolheu sua cota de remédios e despediu-se do farmacêutico. Este, ainda dentro do seu proceder solicito, despachou-os com toda formalidade e educação. Gostei dele. Gosto de gente educada e principalmente, de gente paciente e aquele rapaz engomado demonstrou no trato com o casal de idosos, ser bem fornido de tais atributos.
Ledo engano!


Logo que os idosos se retiraram (e o farmacêutico os acompanhou com o olhar até chegarem ao caixa, ignorando completamente a minha presença junto ao balcão, coisa que estava me enervando) aproximei-me para pedir por minha vez o remédio que precisava. Assim que se dignou a olhar a minha pessoa, Fulano farmacêutico passou por uma curiosa transformação:

Sorriu, abandonou a postura rígida em que estivera quando atendia os idosos, assumiu um ar displicente e posso afirmar com segurança, que ficou com o corpo numa posição meio-diagonal curiosa. Até o tom de sua voz pareceu outro quando, ainda sorridente, abriu a boca para me atender desse modo:

- Fala aí, Guerreiro!

Guerreiro? GUERREIRO?
No curto espaço de tempo que levou entre a fala dele e a minha resposta, minha mente imaginou umas cenas engraçadas e eu meditei umas indignações a velocidade da luz.


“Guerreiro? Esse sujeito engomado me chamou de guerreiro... Que modo mais peculiar de atender um cliente! Que quererá dizer com isso? Vejamos; imagine eu trajando uma túnica de couro cru, tendo numa mão um machado de bronze  de quinze quilos e na outra um escudo de madeira, mais um capacete com chifres e...Não, espere...Isso é muito nórdico. Minha ancestralidade é de um tanto mais ao sul do equador. Hummm...Talvez um guerreiro Massai, de dois metros de altura, com uma lança de três metros e um escudo de quatro!? Não. Onde vou alojar nessa imagem os meus parcos 1,69 metros?”

“Talvez um Bantoo ou um Yorubá?”

“Um Cartaginês ou sudanês da antiguidade talvez? Não, sou esquálido demais para isso...”


E foi assim que cheguei à conclusão de que não, eu não sou um “guerreiro”, e o modo como aquele Fulano Farmacêutico me tratou, foi um inconsciente e ainda assim indesculpável gesto de racismo velado. Oras, para o vovô de óculos de aro de tartaruga é “pois não senhor” e “volte sempre senhor” e para mim é “Fala aí guerreiro”?

Certo. Sujeito negro trajando jeans desbotado e camisa de tecido sintético só pode ser um “mano”, um “guerreiro da quebrada” e é claro que é desprovido de boas maneiras ou não sabe falar senão a linguagem do gueto, de modo que Fulano Farmacêutico pensou que pode muito bem dispensar o profissionalismo e a cortesia e me tratar em termos de fingida simpatia, que é outra forma de racismo paternalista que considero detestável. Alguns podem argumentar que os modos... informais de Fulano farmacêutico eram apenas e simplesmente um tipo de simpatia e eu concordaria com estes, caso ele tivesse dispensado um tratamento idêntico ao casal de idosos. Seria o caso de tratar o velhinho como “truta” ou a velhinha como “tiazinha”. Mas isso não aconteceu. E preconceito “positivo” ainda é preconceito!

Quero e tudo me leva a crer que ele não teve a intenção de me ofender e na verdade, usou uma lógica absurda, talvez a de que “pessoas diferentes devem ser tratadas de modo diferente”. E é fato que a maioria das pessoas racistas ignora que o são e mesmo reagem com fúria quando lhes denunciamos os gestos racistas. Da mesma forma, muitas pessoas que sofrem discriminações preferem pensar que não aconteceu, ou que se tratou “ de um engano”. Queria poder sublimar a coisa desse modo... Tornaria a minha vida algo mais ilegítimo, mas é certo que seria mais fácil aceitar as coisas como são.


Mas não! Fulano farmacêutico a pretexto de “ser simpático” me destratou e tal gesto merecia e exigia pronta resposta. E eu a dei do seguinte modo; Aproximei-me do balcão dando-lhe meu mais simpático sorriso e olhei-nos olhos. Falei do modo mais formal e afetado possível:

-Muito “Boa Noite” para o senhor também, senhor... (e enfatizando a palavra “senhor”, inclinei-me para olhar o seu crachá, como se não soubesse o nome dele. Voltei a olhar para ele e fiz uma pausa de uns milissegundos como que para me certificar de que o rosto correspondia a fotografia do crachá), Senhor Fulano. Necessito  da medicação (X).


Aos meus gestos e fala Fulano Farmacêutico ficou desprovido de gestos e fala. Sua pele assumiu umas cinco cores camaleônicas. Parou de sorrir imediatamente e ficou rígido.

-Pois não senhor. Só um momento senhor!


E assim fui alçado da categoria de “guerreiro” para a minha legitima posição naquele momento. Eu era um “senhor”. E não por ter trinta e oito anos. Eu o seria ainda que tivesse dezoito ou vinte e pouco. Sou um homem, um estranho e um cliente e nada justificava aquela atitude pretensamente “amistosa” da parte dele, senão o programa de tolos estereótipos raciais e sociais que certamente rodou no processador daquele “simpático” farmacêutico. Esperei que voltasse com a minha medicação. Já então era o mesmo farmacêutico solicito e educado que atendeu o casal de velhinhos aristocráticos. E em educadas escusas me informou que o remédio estava em falta (numa farmácia em que nada, nem ração de gatos e nem mesmo bengalas faltava), mas que havia um similar de outra marca e laboratório e se eu queria levar este. Ainda com seca afetação eu disse:


-Conquanto tenha a mesma fórmula, o mesmo princípio ativo e a mesma posologia, não faço quaisquer objeções.

E após me tranqüilizar quanto a isso, mostrando a bula inclusive, perguntou se eu trouxera a “receita”.

-Se o senhor se refere à prescrição médica, aqui está.

E escorreguei a “receita” (que já estava sobre o tampo e debaixo dos meus dedos) pelo balcão que ele pegou e conferiu devolvendo-me a cópia.
Por minha vez, conferi cópia e medicamento, e ainda afetado e cerimonioso agradeci a atenção prestada.

- Muito obrigado Senhor Fulano. Tenha uma boa noite.

O costumeiro (e temporariamente esquecido) profissionalismo de Fulano farmacêutico  despachou-me com o “Obrigado senhor, volte sempre senhor” apropriado.

Paguei e saí certo de que Fulano entendeu o recado. Não estou tão  certo de que vá tratar alguém com mais ou menos profissionalismo e sem comportamentos raciais ou elitistas, mas certamente vai se lembrar de que numa noite dessas um “mano” passou pelo balcão e mostrou a ele um pouco de boa educação.De todo modo, penso que o melhor modo de lidar com uma atitude (inconsciente ou não) com a qual eu não concorde é ainda fazer mais do que brigar ou exigir direitos, embora por vezes o caminho seja este.  Puni Fulano com o modo mais efetivo de se combater um preconceituoso:

Eduquei-o.

Infelizmente, no processo me esqueci completamente de comprar a ração de gatos...