segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Percepção de Uns Detalhes ou Phanta Hei



...então, me levantei um tanto trôpego, cambaleei no escuro de madrugada até a mesa do computador. Acabei desistindo de ligar e passar mais uma madrugada insone entre os bits e bytes fluidos da net. Deixei-me ficar no sofá, gozando o barulho da chuva que finalmente veio lavar um pouco os pecados e as calçadas apinhadas de BH. Esse tempo chuvoso deixa a cidade e o espírito encharcados, mas curiosamente me sinto confortável.  É sempre confortável estar na própria pele nesses momentos de solitude, quando o teatro do mundo baixa o pano e temos um tempinho para passar em nossa companhia.  
Senti um impulso ridículo de fumar um cigarro. Bobagem, porque eu não fumo e nem nunca fumei. Só me pareceu apropriado. Ficar sentado no escuro ouvindo a chuva pede a companhia  de um cigarro ou uma bebida (sei lá de onde diabos tirei essa idéia! Acho que a falta de sono está me afetando de verdade! Ou isso, ou ainda não assassinei completamente todo o meu romantismo balzaquiano!), mas me lembrei que também não bebo. Isso é um complicador, porque seres humanos são um pouco inclinados a terem vícios de toda ordem e quando não se permitem viciar nesses entorpecentes dos neurônios, viciam-se em anestesiar a mente com ideais ou idéias. Receio que meu caso seja o ultimo.
Um cigarro ou um copo de bebida amarga são coisas mais simples e talvez melhor companhia para uma madrugada insone. Não requerem esforço algum e talvez me relaxassem o bastante para voltar a dormir, enquanto o vício de voar em idéias talvez seja justamente o que me faz perder o sono.
Vai saber...
Não tendo como companhia senão um emaranhado de idéias desconexas, fiz uma pequena “associação livre” em meus pensamentos, apenas para ver o que viria, já que eu estava com preguiça demais para articular qualquer coisa por vontade própria. Veio-me isso do nada:
“O diabo mora nos detalhes.”
Pensamento estranho para se ter sentado no escuro, de madrugada. Li isso em algum lugar...ouvi de alguém. Um tanto lúgubre, mas já tem um tempinho que deixei de ignorar um pensamento apenas porque ele pode mexer com os  brios místico-religiosos meus ou de outrem. Nós não pensamos nada por acaso.  
Associado a isso, me veio outro pensamento, o de que esse primeiro é uma deslavada mentira.
Deus é quem mora nos detalhes.
Honestamente falando, só pensamos em coisas como  “buscar a felicidade “ porque a vida é basicamente uma eterna fuga do sofrimento. Viver é difícil, sofrido o bastante para que busquemos muitas formas de ter um pouco de prazer para aliviar a dor. Claro, essa é a concepção de alguém que é viciado em idéias, mas creio que quem se vicia em ideais, certamente vai ter da vida uma visão mais rósea, mais romântica, o que talvez não seja  necessariamente errado, mas dificilmente poderia considerar uma visão honesta.
Preciso mesmo dormir mais...
Continuando, quando saímos de casa pela manhã, não levamos uma harpa e folhas de palmeira  e cânticos para nos encontramos com nossos irmãos, não saímos para um piquenique. Nós vestimos a nossa melhor armadura, pegamos espada, escudo, cota de malha e rifle, porque nós vamos para a guerra e o campo de batalha é o mundo. Tudo bem que, como homens modernos, essas armas estejam disfarçadas de sorrisos falsos, afetação, formalismos e muita dissimulação, mas nem por isso a guerra deixa de ser mais cruenta e nem por isso nossos algozes  deixam de ser hostis.  O mundo não é mau ou bom. Apenas é. Nossos juízos de valor é que dão a tônica e os tons do mundo. No meu caso, já não me permito ingenuidades que ensejam acalentar pensamentos mentirosos. Já não consigo mentir para mim mesmo.
Reconheço que a vida perde uma profusão de coloridos a medida que se vai abandonando as ilusões caleidoscópicas que a sustentam. Mas talvez seja apenas uma questão de desenvolver novos sentidos com o que perceber o mundo. Torna-se mais fácil compreendê-lo e aceitá-lo ( e às pessoas que o compõe) quando se para de julgá-lo em termos de bem e mal. São conceito muito fluidos...
Mas dentre toda a agrura que perpassa a vida de um ser humano, mais especificamente deste que vos digita, existem uns pequenos Oasis, que talvez sejam mais preciosos por raros que sejam. Pequenos momentos deslocados no tempo e no espaço entre um problema e outro, detalhes, onde quem mora é Deus.
Um poema de  Yets, Pessoa ou Brontë, um encontro de idéias com alguém instigante, algo criado por alguém com amor, notícias de um amigo ausente, rir acompanhado, chorar sozinho, ter uma percepção do absurdo ( que muita gente confunde com inteligência),  barulho de chuva no telhado, um gato ronronando no sofá, cheiro de terra molhada e de café quente, som de crianças brincando, silêncio numa madrugada de chuva, um bom livro e tempo para lê-lo e, é claro, os cabelos e olhos claros da minha filha e sua risada alegre.
Essas coisas vêm subitamente me fazer companhia onde faltou um cigarro ou uma bebida que me fizesse sentir completa e decentemente decadente.

E eu me sinto feliz por Deus existir nesses detalhes e grato por vir me fazer companhia.  Tenho com a idéia de Deus ou deuses uma pugna que na verdade diz mais da incoerência das religiões e minha incapacidade de fazer vistas grossas a essas incoerências do que com  a natureza ou existência do divino. Não sei realmente se Ele ou Ela existe ou não, mas se tenho alguns detalhes na vida pelos quais ser grato, então, seja lá quem for, esteja onde estiver, sou-lhe grato por isso.  Não é o bastante para me fazer ajoelhar no escuro entoando hallelujahs, ou desejar ir a um templo (Deus me livre!), mas já é um bom começo de uma possível reconciliação, senão com a religiosidade, ao menos com o divino.
Agora que através de uma associação livre de pensamentos fiz as pazes com Deus ou a Deusa nos detalhes da minha vida, talvez fosse uma boa coisa me reconciliar igualmente com o sono...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O Homo-Oníricus




Isso talvez nem seja uma verdade – Seja! Que tem a verdade a ver com a realidade? – mas duvido, e estou certo de minhas duvidas, que o pensamento  tenha surgido na rudimentar  mente do símio ta-ta-ta-ta(etc)avô do homem como mágica.

Estou convencido de que o homem primeiro sonhou e só muito depois articulou dos sonhos o pensamento.
Existem teorias – não me peçam para citá-las por nome, pois nunca fui apresentado a elas adequadamente. Apenas ouvi falar e limitei-me a acreditar nelas, tal como fiz com outras quimeras, como; “boas noites de sono”, “felizes para sempre”, “cachorros sem pulgas”, “deuses benevolentes” e o coelho da páscoa – E sem mais tergiversações,  voltando às teorias acima mencionadas, existem linhas (as quais também não fui formalmente apresentado) de pensamento que afirmam ser a realidade um produto da nossa mente, surgindo a medida que nos conscientizamos dela.

Se é assim, se a realidade veio a existência através dos nossos primeiros pensamentos estruturados e se esses pensamentos foram os sonhos primevos de nosso ancestral , então a nossa realidade surgiu quando nosso honorável  hepta-avô ( vamos chamá-lo de  Homo-Oníricus) olhou um dia para as estrelas e sonhou o mundo abaixo delas.

Nós somos conseqüência de um sonho.
Você por acaso pensa que está pensando? Então pense, quando foi que involuimos do sonho à intelectualidade? 

Certo, tudo tem um preço...
Talvez devaneios não resultassem mesmo na invenção da roda e do motor a diesel e certamente não teríamos exterminado os Dentes-de-sabre com nossas fantasias e nem descoberto o fogo.
Mas quando caímos para fora de nossos sonhos e para dentro do mundo, o caminho de volta ficou turvo, obscuro e pegamos atalhos demais em muitas encruzilhadas perdidas e nos perdemos de nós.
Pagamos um alto preço para saltarmos de Oníricus a Sápiens,  e não estou vendo ninguém questionar se pechinchamos ou demos até a nossa ultima moeda nessa negociata com o destino (e já que a satisfação não foi garantida, podemos pedir o reembolso?).  Não sei não, mas de minha parte, sinto que fomos lubridiados de algum modo.

Sonhos moldam o mundo, então o mundo talvez esteja estagnado por falta de sonhadores. Talvez não estejamos sonhando a realidade mais, mas vendo a realidade, parece que estamos dormindo.

Haveremos de despertar algum dia do Sono para O sonho?

domingo, 9 de outubro de 2011

Desencontros



Foi  numa fala de um filme (acho que “Heart of América”), que um dos personagens resume a coisa desse modo; "A vida é chata, e aí você morre".
Parece simples. Pessimista, mas verdadeiro. Simplista, mas não tão breve quando se sofre, nem tão longa, quando venturosa...
A vida às vezes parece mesmo  ser uma sucessão de tentativas diárias de driblar a morte e viver parta temê-la por  mais um dia. E é extremamente chato viver com medo.
Pesa menos, quando não se está só. Mas dentre essa multidão que te aperta, esses que te sorriem e perguntam como foi o seu dia, esses que te adicionam em redes sociais e vão as festas de aniversários dos seus filhos e amigos, quem destes realmente te olha nos olhos sem recuar apavorado porque contemplou o abismo de uma alma humana?
Quem destes cujo sangue lhe corre nas veias ou lhe estão ligados por genuínos laços de afeto; quem destes que até apreciam seu modo mordaz e critico de encarar certas coisas, destes que sempre se lembram de algo espirituoso que tenha falado ou te citam positivamente em conversas quando você está ausente; quem destes sabe o que lhe vai ao espírito quando o mundo se encolhe na noite íntima por detrás dos seus olhos fechados?
Você ama essas pessoas, mas fica envergonhado às vezes, quando sente que está mais intimamente ligado àquela pessoa que cruzou o seu caminho um dia e o olhou de modo enigmático e se foi; alguém que você provavelmente nunca mais verá, mas que numa esquina ou rua qualquer, compartilhou realmente com você um instante no tempo, do que àqueles que te conhecem a décadas. E você sente saudade dessa pessoa em cujo olhar sua alma mergulhou por um momento...
A questão, é que aquilo que te poderia servir de referencial, sua ponte para as estrelas, sua tribo, aquilo que te poderia dar ou ser o seu lugar no mundo morreu, ou ainda não nasceu. Você está extemporâneo, eternamente  apartado do que lhe é caro. Sozinho como todo mundo, mas diferente de todo mundo, miseravelmente consciente de sua solidão, bem como de outras coisas. Não há fuga.
Aquilo, aquela coisa sem nome,  grandiosa como o sonho de um poeta, aquela marca indelével do potencial humano, morreu ou não nasceu (nascerá no exato momento em que você expirar e você sabe disso) ou então está tão alhures de si, perdida, tateando nessa humanosfera apartada da própria humanidade, que, é certo, está sempre um passo atrás, a frente ou fora da linha torta que desenha o seu caminho.
Talvez haja caído para cima, como é próprio da tribo, como um dia você cairá, mas o céu é vasto demais para possibilitar um encontro. Então não se fie numa esperança acima das nuvens enquanto você não for leve o bastante para alcançá-las.