quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Príncipes Universais em Lascaux




Você é uma montanha a ser conquistada?
Tem uma montanha perto da minha casa. Bem...Na verdade, não é bem uma montanha (não para os padrões mineiros).
Trata-se de um morro próximo (bem íngreme)  de forma cônica levemente lembrando aqueles desenhos estilizados de montanha,  que na minha infância  minha imaginação atribuía as proporções de um verdadeiro Himalaia.

Passei meus primeiros anos querendo subir lá, sem permissão e para a minha tragédia, eu era o tipo de garoto "obediota" e bem comportado. Não me admira que eu não fosse muito popular entre os outros garotos...E eu nunca subi a tal "montanha". 
Já fazia um bom tempo que eu sequer olhava para lá. Hoje, mais cedo, parei de digitar isso por um tempo e fui à janela. Ainda é um morro de proporção considerável, mas de modo algum lembra aquele simulacro de kilomanjaro, que minha pouca idade ansiava por conquistar.

Engraçado como o tempo parece privar as coisas de sua imponência....Quando eu era garoto e passava horas a fio olhando para lá era um espetáculo: Coberta com uma vegetação rasteira, algumas árvores  miúdas, grama verdinha...Ah e lá  ventava sempre o sol chegava mais cedo e se punha mais tarde ( e se Deus{a} existe, deve morar no vento e no sol!).
O topo parecia estar sempre iluminado e era delicioso  imaginar-me lá no alto dela, sentado como o rei do mundo...
Agora está cheio de casas e tem uma antena de operadora de celular no topo. E embora eu tenha passado a infância sonhando e eu levasse talvez menos de quinze minutos para chegar lá, nem um eco daquele anseio por subir até o alto daquele morro eu sinto.
Comecei com estes devaneios  da  minha infância  para falar sobre o anseio humano por desbravar  florestas ou escalar montanhas, internas, externas, psicológicas, espirituais, morais, filosóficas, físicas e metafísicas. Penso que  todo mundo gosta inconscientemente da sensação quase mágica de ser o primeiro a pisar num chão, vencer um desafio, romper uma resistência, ganhar uma peleja, um debate.

Ser o primeiro, um príncipe do universo.

 Neil Armstrong foi bastante polido e político em sua fala, mas não foi muito  honesto: Ser o primeiro a pisar na Lua, foi um salto inacreditável para aquele homem! Ao restante da humanidade coube o pequeno passo e o incômodo papel de  coadjuvante (contra o que rebela-se toda a nossa vaidade).

Ou como me afirmou um garoto religioso outro dia “somos todos príncipes universais”. Na minha atual queda para o existencialismo, tenho de “concordar” com ele (embora não veja vantagem alguma em ser um "príncipe" num universo onde supostamente todo mundo o é), porque se existe uma força maior que impera sobre o coração do homem, é a ilusão mal disfarçada de ser um “herói cósmico”. O primeiro e mais importante ente a ser considerado pelo universo (razão pela qual já não tenho impulsos de conquistar aquele morro, porque agora mesmo tem uns moleques lá no alto).

"Príncipes do universo". Por muito que tenho visto, sou levado a pensar que todos os seres humanos se vêem assim, embora disfarcem esse sentimento megalomaníaco por detrás de uma tonelada de recursos ideológicos, dentre os quais o mais bonito, comovente e mentiroso é a humildade.
Temos de justificar para o universo a nossa existência. De um modo ou de outro.  É o que nos move e é a nossa maneira de vencer a morte. E é para isso que criamos os deuses: Para sermos através deles, nós mesmos, eternos, incorruptíveis,  mais importantes do que as estrelas gigantescas ou as milhões de galáxias criadas por Eles, que foram ciados por nós.

Acho que pior do que arrogância é a falsa humildade e, ah...Como somos habilidosos em fingir que somos humildes quando isso contraria toda a nossa natureza!



E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas, desenvolvendo (possíveis e ignorados) tumores que dia desses darão cabo da minha raça e ainda me imaginando o ser mais importante para os deuses, motivo de rivalidade entre eles e ator principal da tragicomédia do Universo.
O problema é que parece que TEMOS de funcionar assim ou enlouqueceremos por termos de encarar a nossa finitude e efemeridade. A desimportância da nossa existência e a falta do significado para a mesma é peso demais para nós.
Fugindo e voltando ao assunto:Você por acaso é uma montanha?
Bem, se for o tipo de pessoa que declara abertamente as suas dúvidas em relação à própria situação de primícia universal do homem, vai se tornar uma montanha a ser conquistada por qualquer um que se sinta ameaçado em sua posição de “príncipe universal” pelo seu raciocínio.


Você é também um daqueles estraga o natal contando as criancinhas que Papai Noel não existe? Saiba que você tem irmãos no mundo, meu amigo. Eu não o conheço, mas já gosto de você!

 Todo mundo tem um amigo nervosinho com quem os outros gostam de implicar, porque é divertido vê-lo irritado. Bem, se você não exatamente o tipo nervoso, mas sofrer de uma fibromialgia intelectual , então o princípio é o mesmo.  Eles têm que deslegitimar as suas dúvidas, porque elas os ameaçam de algum modo.Elas poem em xeque as certezas deles, das quais consciente e inconscientemente duvidam.

E se existem montanhas inalcançáveis, sempre vai ter alguém disposto a arriscar a vida (em ambos os casos, literalmente), para ser o primeiro a conquistá-la.

Você é uma montanha a ser demolida e reduzida às proporções de um morro ou uma colina. Você tem de ser vencido, conquistado, abatido sem piedade e o primeiro a conseguir fazer isso se sentirá um herói. Se fosse possível, moral e legalmente, é provável que empalharia a sua cabeça e a colocaria como um adereço numa parede, diante do qual contaria as vantagens da vitória sobre si.

Como a lei proíbe, o recurso mas usual é te converter em qualquer coisa que não seja você mesmo e se necessário, deixar por modos subjetivos, escrito em sua mente a seguinte frase imortalizante que podemos encontrar em árvores em meio a florestas ou nos parques: “Fulano esteve aqui”!

Nossos antepassados  em Lascaux (os mais antigos e famosos grafiteiros da história) sabiam disso .
É, ao que parece, outro jeito de se imortalizar.