quinta-feira, 31 de março de 2011

Festinha - By Sahge


Espero que no dia em que meu Eu dobrar sobre si, eu ainda me reconheça apesar do tanto que deixei o mundo e meu próprio e tolo capricho amarrotar-me. Deixar, ainda que momentaneamente, que te molde o mundo ou o seu desejo de fazer parte dele é receita certa para um desastre, no qual o Eu acaba por sofre duros golpes na firmeza de sua força individual. Sua convicção vacila e os limites daquilo que é da cultura e daquilo que é seu, se esvaecem, o boêmio se confunde ao beato; e onde não há fronteira, há o tráfego e o tráfico de idéias que não são suas. Há o transe e o trânsito de pensamentos e anseios alienígenas ao Eu.


Deixe que entrem em si. Deixe!


Será como uma festa na qual aqueles poucos que receberam o seu convite, trouxeram consigo outros não convidados e estes também trouxeram uma companhia análoga. Somados a estes e aos anteriores, uma multidão de penetras adentrou a sua festa... E reviraram sua casa, sujaram seu tapete, transformaram sua pequena festa numa rave desordenada, comeram, beberam, incomodaram seus vizinhos, não fizeram o menor caso de cumprimentar o anfitrião e depois de reclamarem a noite toda da festa “mixa” na qual nada comeram e nada beberam ( a despeito do fato de você ter posto a disposição destes seu estoque mensal ou semestral de víveres e esvaziado a sua adega), vão se na noite sem sequer despedirem-se de você, deixando-lha uma pilha de pratos sujos, garrafas vazias e aquela sensação de que você se comportou como um tolo por ter feito a festa, para início de conversa.


Ainda não sei o que é pior; não ter forças para certas coisas em alguns aspectos e assumir isso, ou amparar-se na força de outrem se esquecendo da própria limitação.
O que eu sei, é que toda vez que vejo aquele “piedoso” e arrogante sorriso, no rosto de pessoas claramente vazias de si quando suspiram pelo “céu dos virtuosos” sem ao menos estarem honestamente convictos de que existe mesmo um céu, mais ardentemente desejo assegurar o meu lugar no inferno, porque me parece que é para lá que são enviadas as almas mais densas.

domingo, 13 de março de 2011

Yets, em quatro lindas versões


Abaixo o meu poema preferido de Willian Butler Yets em quatro magníficas traduções. Impressionante como lendo nas quatro versões, parece serem diferentes poemas, sendo no entanto facilmente reconhecido o seu teor.


Tivesse eu dos céus os bordados tecidos
Adornados com áurea e prateada luz,
Os azuis, delicados e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os ajeitaria por sob teus pés:
Mas eu, sendo pobre, só tenho os meus sonhos;
Eu postei os meus sonhos por sob teus pés;
Sejas leve ao pisar, pois pisas em meus sonhos.

Tivesse eu o céu, bordado em panos
com ouro e prata feitos de luz,
Azuis, e opacos, e escuros panos
em difusa e profusa e nula luz,
Eu poria os panos aos teus pés.
Mas eu, bem pobre, tenho só sonhos
Eu pus os meus sonhos aos teus pés
Pisa suave, que pisas em sonhos.

Se eu tivesse o manto bordado dos céus,
Tecido de veios de luz de ouro e de prata,
De pano azul, escuro e opaco
Da noite, a luz e a meia-luz,
Eu estenderia um manto sob teus pés: 
Mas, eu, tão pobre, apenas posso sonhar;
Estendi meus sonhos sob teus pés;
Pisa devagar, pois pisas sobre os meus sonhos.

Se meus fossem os tecidos do céu
E os azulados bordados de outro e de prata
E do azul escuro e fosco
Da noite a luz e a meia luz
Como um manto, eu os estenderia aos teus pés.
Mas sendo pobre, apenas tenho os meus sonhos
Eu estendi os meus sonhos aos teus pés
Caminhas devagar, porque caminhas sobre meus sonhos.

O Funk e o Desrespeito aos Outros e a si Mesmo - By Sahge


Acredito que boa parte do meu mau-humor da segunda feira venha do fato de que como em quase todo bairro de periferia, o meu passa pelo final de semana inteiro ao som de uma musica insuportavelmente alta. Fosse apenas o fato de ser música, brega ou banal, ou mesmo a um tipo qualquer de musica que não me agradasse, tudo iria razoavelmente bem, mas o tipo de musica que meus vizinhos não só ouvem alto, mas fazem questão de colocar as caixas de som no quintal não é só ruim, mas é de um mau gosto inacreditável e beira a pornografia sonora. 

Não sou moralista (na verdade, tenho horror à gente moralista) e tento (muito mesmo) ter respeito pela liberdade de escolha de entretenimento de quem está  a minha volta, desde que este permaneça em particular e não seja nocivo física ou psiquicamente a outros...O grande problema é que a recíproca não é verdadeira, uma vez que a minha liberdade de escolher “não ouvir” é arbitrariamente ignorada. Talvez seja um pensamento fatalista, mas não espero mais colher amoras num pé de romãs. Gente que não respeita a si própria dificilmente vai respeitar os outros.  Só me resta mudar para paisagens não tão turbulentas, o que , dada a propagação desse tipo de musica, talvez não seja viável em terras tupiniquins .

O que me enerva também é a maneira paternalista  com que a questão do Funk é tratada nos meios  acadêmicos e sociais. Há uma tendência a ver como “uma expressão da cultura da periferia” como se fosse uma produção genuína e uma forma de arte, quando na verdade isso tem sido um instrumento nefasto de destruição da auto-estima de um povo , de propagação da misoginia e da banalização das já fragilizadas relações humanas. Não vou nem questionar a qualidade da sonoridade da musica em si, mas qualquer um que leia aquelas letras e tiver a metade da sensibilidade e inteligência de uma ostra, vai ficar chocado com o mau gosto, com a mediocridade das letras e com a pavorosa  ideologia criminosa por detrás daquelas letras. 


É um crime o que fazem essas musicas, na auto-imagem daqueles que a ouvem e a propagam. Uma coisificação do Eu humano, como se as pessoas de repente se tornassem e se tratassem umas as outras como nada. Manter esse discurso sociológico de “expressão cultural” - e a maioria o faz para ouvir as claques aplaudindo e para ouvir entoarem os loas ao fato de que não é um pensador etnocentrista, mas no fundo, ou despreza essa cultura de periferia ou dela se serve ocasionalmente para extravasamento de sua libido -  fica difícil quando se vai a um baile funk. O modo como as mulheres, meninas em formação, são tratadas nesses lugares é algo abominável. Funk é uma abominação, porque contribui para reduzir as pessoas  a um estado de animalidade chocante. E mais chocante ainda é observar que aqueles que mais são agredidos  por essa ideologia odiosa, não só gostam desse tipo de “musica”, mas o defende furiosamente.  


O problema é que a despeito de toda a rabugisse do meu discurso, sou um otimista inveterado, (mas um otimista não ideológico). Considero a humanidade destinada à grandeza e vejo todo homem e mulher como um gigante em potencial...Observar uma aberração disfarçada de cultura, entre os muitos instrumentos de que se servem  os interesses dominantes para atacar nossa auto-estima, se propagar cada vez mais e ninguém se preocupar com isso com seriedade, me deixa desalentado, porque é muito fácil observar os efeitos dessa “musica” na psique daqueles que a ouvem e na visão de si e dos outros que estes têm. 


Estão nos esmagando, nos transformando em formigas, e em tempos em que a religião está em franca decadência, estão usando para isso o segundo elemento de dominação psíquica; o sexo. E já faz alguns meses em que tenho ouvido pessoas cantarolar uma musica cujo texto não vou transcrever e quando dizia que não a tinha ouvido, olhavam-me como se eu tivesse acabado de descer de um disco voador do planeta Marte. Consegui manter meus ouvidos “virgens” dessa abominação durante meses, mas esta manhã  (07:24 de um domingo) meus vizinhos defloraram meus ouvidos e até agora, 21:26 tenho de dividir minha audição entre o som vindo da igreja a direita e do vizinho funkeiro a esquerda.

Talvez no fim seja uma coisa boa a morte, porque eu acredito que se nada acontecer, eu ainda  vá viver uns trinta ou quarenta anos. Por que parece, (impressão que tenho desde o advento da Lambada em 1988, passando pelos muitos BBBs e afins,  breganejos, funk melodys da década de 90, axés de todos os matizes, etc...)  que estamos entrando num período de idade média cultural. Posso aceitar ser atormentado sonora e visualmente por quarenta anos, mas supondo-se que esta idade média dure tanto quanto a outra, ser torturado desse modo por mil e quinhentos anos? Nem o inferno seria tão ruim.

Sinto muito, mas estou as vésperas de uma segunda feira e de mal humor justificado. Provavelmente estarei melhor amanha, logo, para quem conseguir dormir, boa noite e bons sonhos!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Apreendendo e apreendendo tardiamente - By Sahge

O grande gênio de Mary Shelley cunhou isso:

Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações.
Dormimos.
Eis que um sonho nos envenena o sono.
Despertamos.
Um pensamento errante contamina o dia.
Sentimos, imaginamos, refletimos, rimos, choramos,
Abraçamo-nos à dor, ou libertamo-nos das penas,
Vário é o caminho, mas para a alegria ou a tristeza,
É sempre franco,
O amanhã jamais igualará o ontem;
Nada, exceto o mutável, pode perdurar!

Eu cheguei a pensar num tempo ido, que havia compreendido essas palavras de Mary, dado o grande impacto que em mim causaram. Se eu ao menos fosse tão bom em compreender as palavras com a mesma intensidade com que as sinto, então, tenho certeza, eu seria um grande gênio, talvez até mesmo do porte de Mary Shelley ou do seu. Isso não acontece e me frustro sendo incapaz de compreender as palavras ou mesmo impedir que me penetrem a consciência com tanta força. E como quase tudo acontece tardiamente para mim, só hoje compreendi, em harmonia com muito do que você disse, o que essas palavras querem realmente dizer.

Daí apreendi que é mais apropriado à minha flexibilidade e mutabilidade mental, pautar-me mais por idéias (que libertam) do que pelos ideais (que aprisionam).
E isso não é contraditoriamente prender-me a um ideal (o das idéias), mas uma tentativa de fazer com eu me torne o que você foi por toda a sua vida:


Um ser dialético.

Algo que me ocorreu longo de um longo dia... - By Sahge

Urge que o  Eu torne-se cada vez mais uma autoconsciência da própria unidade e singularidade, e não um mero pronome repetido a exaustão numa retórica vazia, que serve unicamente para a autopromoção num meio.

terça-feira, 1 de março de 2011

Fragmentado - By Sahge



...E daí acordei me sentindo estranho. Era, é claro, um sinal de que estava tudo bem, porque eu sempre acordo me sentindo estranho. Sentia porém, que algo estava diferente sem que eu soubesse exatamente o que. Aquela sensação de estranheza  era enervante, porque estou quase sempre com pressa, mesmo em relação a coisas sem importância, e ter de ficar tentando descobrir percepções por detrás de sensações que nem consigo definir enquanto o relógio ditador controla minha vida, aborrece-me em demasia. Queria ao menos não acordar tão exausto...
As pessoas dizem, e eu não tenho razão alguma para duvidar delas, que existe uma coisa chamada “uma boa noite de sono”, mas se isso realmente existe, o conceito me escapa completamente. Uma noite repousante, sem ter de lutar durante anos num mundo de pesadelos ou delirar por milênios num paraíso onírico...Sem acordar com aquela sensação de que elefantes usaram o seu corpo como pista para dançar rumba... Deve ser muito estranho... Quase como uma morte temporária, de uma noite só.
Algo estava faltando pela manhã, é claro. Algo está sempre faltando e algo é sempre novo. Acontece quando se é um amontoado de fragmentos que se ligam e desligam-se uns dos outros a todo o momento.  Não sei se já voltei pra casa alguma vez o mesmo que quando sai. Não sei se já me levantei o mesmo que quando me deitei na noite anterior. Não que eu estivesse prestando atenção. Parece-me que sempre há um acréscimo de alguma coisa, uma impressão talvez, ou um pensamento que me roeu durante todo o dia, algo que alguém me disse ou o olhar cruzado com alguém que provavelmente eu nunca mais verei... Tudo isso me compõe e então nem é necessário que eu tenha um nome, pois se me denomino de alguma forma, logo no fim do dia ou dali a um minuto já não mais me reconhecerei por esse nome...Me chame do que quiser, mas seja rápido em inventar novos nomes, porque é quase certo de que não vou atender pelo mesmo duas vezes.
Mas naquela manhã, dentre o muito que se desprendeu de mim, evadiu-se a esperança de que eu um dia seria uma unidade, um ser coeso. Não sei onde deixei...Nunca sei onde ponho minhas coisas. Minha memória péssima me leva a fazer anotações para me lembrar as coisas e anotações para lembrar-me de ler as primeiras anotações. Essa deficiência me fez perder muitas coisas preciosas, mas essa era uma pela qual eu devia ter tido um zelo maior.
Irremediavelmente quebrado, já não tinha mais noção das minhas dimensões, mas isso não chegava ser uma vantagem, porque eu estava tão limitado no infinito quanto disperso, dançando na ponta de uma agulha com os anjos vadios.
Não estou certo de onde a perdi, mas caso alguém a encontre, seria um gesto de amabilidade pelo qual eu seria muito grato, devolver-me essa esperança. Não é coisa difícil de reconhecer. Uma coisinha brilhante e um tanto delicada, quase como uma jóia, mas que nos dias de hoje não tem muito valor de mercado. Quase ninguém quer ter a esperança de estar íntegro, de modo que pouco conseguiriam por ela aqueles que a tentassem vender.
Para mim, porém, é coisa preciosa e eu estaria disposto a pagar o que fosse necessário para tê-la novamente. Qualquer coisa que eu possua, daria em troca de ter novamente essa esperança. Mesmo essa quimera a que chamam “alma imortal”, porque de que me serve ter uma alma sem ter esperança para ela?
Queria terminar isso de modo otimista, mas, lamento, também perdi o otimismo em alguma esquina da vida, talvez a mesma esquina onde encontrei este tédio obstinado que me corroi as horas

Linhas - By Emily Bronte

O azul sem nuvens acaricia o olhar
E todo o ouro, o verde e o louro da terra,
Como em um novo éden rebentam nos ares.
Na terra e no ar encontrei o repouso.
Estava deitada e deslizei devagar
E mergulhei ao fundo ,onde reina
A minha infância.
Vi perderem-se ao longe as severas
Idéias,
E a doce memória triunfar finalmente
Das furiosas paixões e das pungentes iras.

Mas nele,
Que o sol agora iluminava
Banhando aquela fronte queimada,
Austera e negra,
Talvez despertassem (como adivinhá-lo?)
Os ecos de um murmúrio ou a doçura de um sonho,
Uma derradeira alegria,
Que depois de anos perdida
Numa frágil noite se tenha fenecido.

Este homem rude de férreo coração,
Parecia se muito comigo outrora;
Talvez tenha sido uma criança grave, ardente,
E sua infância deve ter visto
A gloria e os verões do céu.

Bem podem ter gemido no seu coração,
Ocultas tempestades,
Mas saberá ele esquecer em sua alam deserta
a antiga lembrança da primeira mansão?
Esquecer para sempre,sem esperança de volta?

Nem jamais voltar ver a imagem de sua mãe
Quando, relaxando os braços, doce e ternamente,
Abandonava a criança que seu coração
Preferia
Aos folguedos e aos jogos que duravam
Ate a noite?

Nem os lugares amados, nem as colheitas de flores,
Que a mão pequena apertava com ardor,
Ao voltar dos jardins onde a noite baixava
Misturando-se suave aos seus calmos cabelos?

Eu olhava a brisa
Brincar ligeira e beijar-lhe as faces,
Olhava seus dedos, fechados entre as rosas,
E espiava descer às suas faces
uma outra sombra, efêmera e dócil
Que na sua passagem lançava àquela alma
A ternura de um sonho.


Os olhos circulavam através da janela aberta
Do jardim cheio de reflexos ao céu
Maravilhoso.
E a esperança dos bosques se fazia mais
Profunda,
Aos cantos harmoniosos  da terra inumerável.

Ele silenciava e eu pude acreditar
Que talvez seu espírito
Consentisse ao repouso
Submetendo enfim aquele atormentado
Coração.
E na sua alma talvez surgisse a vaga
Do tranqüilo oceano que alimenta o sonho.

Quero estar mais próxima de espetáculo tão belo;
Verei seus olhos negros
Enfraquecerem e se velarem
Sob um santo orvalho,
E o remorso despertar na sua consciência
Para livrá-lo um pouco do peso
Destas culpas.

Eis talvez, a hora em que os destinos sonharão
Com o fim deste fatal poder que o inferno ostenta.
Ver-se-á o próprio céu descer de suas alturas
E saudar a alma em gritos, e o amor que salva.

Atenta, em segredo, retive os meus olhares.
E devagar meu pensamento seguiu o raio de luz,
Cujo brilho tinha furtado à sua passagem:
Surpreendi então nas suas pupilas a fria indiferença
Com que fitava o esplendor do lugar.

Oh!
O crime pode envelhecer uma alma ainda
Jovem,
Mais cedo do que os anos de exaustivo
Sofrimento,
E congelar o calor de um sangue generoso
Como o vento de inverno ou a neve dos pólos.