sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sem título...

É tarde e estou inacreditavelmente cansado, mas a despeito do corpo estar pulsando de fadiga, não consigo dormir. Parece nunca haver silêncio nesse bairro infernal onde vivo, mas justiça seja feita, mesmo o silêncio mais sepulcral seria incapaz de me fazer dormir agora. Tenho tido problemas para cair no sono com muita freqüência. Creio que é porque eu não desejo sonhar. Não mais. Eu gostaria de ter pesadelos... Terríveis, assustadores, do tipo que me fazem acordar suado e gritando, do tipo que já não tenho há muito tempo... Pesadelos em certas ocasiões podem ser infinitamente mais proveitosos do que sonhos. É só pensar que se você sonha, por exemplo, que encontrou uma mala cheia de dinheiro ou que ganhou na loteria, é um sonho maravilhoso, mas ao acordar, você  se dá conta de que na verdade, não tem dinheiro nem para pagar a porcaria do cheque especial ou pior, está desempregado e sem perspectiva.  Hoje estou com um pavor enorme de sonhar e acordar para uma realidade que parece um perene pesadelo.


Pesadelos são diferentes...Você enfrenta todo tipo de monstro ou situação terrível e quando a manhã chega, respira aliviado e sua realidade se torna mais colorida, ou pelo menos,menos cinzenta.
Queria levantar a cabeça corajosamente em desafio ao que lá fora se avoluma na escuridão da noite e arrasta consigo aquilo que me é mais caro, mas como se pode brigar com o imaterial? Com o tempo e com a imutabilidade de certos eventos? Com a terrível, com a pavorosa consciência de que não se pode mudar o que passou?


Estou realmente cansado e nada do que escrevo agora está em completa sintonia com o que penso, como se eu pensasse em sânscrito e digitasse em grego. Creio que eu esteja entorpecido de angustia e de sono. Possivelmente amanhã estarei em condições de ser pelo menos metade do que sou...Pensar que algum dia serei íntegro novamente é ser iludir-me e eu perdi esse hábito já há algum tempo. Mas hoje, sinto uma falta enorme da minha antiga e defenestrada capacidade de iludir-me, de acreditar em certas coisas que a tantos servem de consolo.


Amanhã... E essa é a beleza do amanhã. Não posso prevê-lo, mas posso planejá-lo. O amanhã admite esperança, enquanto ao ontem reina o mais amargo desespero. Hoje não há nada que eu odeie mais do que o ontem inexorável, porque ele e seus eventos se estendem se insinuam ao futuro.  
Eu estava... Estive o dia inteiro com a cabeça fervilhando de pensamentos, mas não tive sequer um momento para pô-los em ordem e arrancar algum sentido nesse redemoinho mental onde fiquei como uma folha seca ao vento.  Agora que estou finalmente tendo tempo, me descubro vazio de palavras e de sentido.  So consigo estar e escrever mais confusamente do que de costume sem que isso seja uma virtude, como costumo considerar sempre. Para onde foi tudo aquilo que me fervilhou no espírito hoje?  Estou triste além do suportável, furioso contra algo que nem mesmo sei nomear...Talvez o Universo ou o destino ou qualquer outra força metafísica em algum lugar, anjos ou demônios, forças de qualquer natureza que provocam ou permitem desastres como a perda de...Também não sei nomear. Não hoje.


Eu olhei demorada e apaixonadamente para o abismo e torci, ansiei que o abismo olhasse de volta, mas ele não vai me retribuir o olhar. Por mais que eu queira.

Um comentário:

Lidi Dias disse...

Olá Sahge !
Que texto incrível !!
E é verdade o que você descreveu, é melhor ter pesadelos do que ter um sonho bom e no acordar, não estar vivendo um sonho bom...
Mas sonhar faz bem,(depende dos nossos dias)
Adoro ler seus textos!
Parabéns
Beijos na sua Alma