quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Devagar... - By Sahge


Creio que já falei algumas vezes, neste e em outro blog, que tenho uma relação um tanto turbulenta com bebidas alcoólicas. Não gosto muito e nem me dou bem com a bebida e menos ainda com a ressaca física e moral que a sucede. Ocorre que eu gosto de vinho barato e cerveja preta, mas não o bastante para fazer desse gostar  um habito. Há alguns meses ganhei uma garrafa de um vinho excelente, tão bom que contrariando minha frugalidade, consumi a garrafa quase toda em menos de um mês ( e pelo modo como já vi algumas pessoas sorverem litros e litros de bebidas em questão de horas, acho que demorar um mês para acabar com uma garrafa não é de modo algum um desatino). Faltando umas poucas doses para acabar com a garrafa, comecei a bebericar com vagar, para fazer com que dure mais. Lembrei-me disso por causa do que eu disse num post, sobre degustar em pequenos bocados a minha satisfação por voltar a ter aulas com certo professor a quem admiro. 


Meninos têm uma mania curiosa que me veio a mente; quando recebem, por exemplo, uma caixa de doces, devoram os primeiro sem o menor pudor, mas comem os últimos em pequenos bocados prorrogando desse modo o seu deleite em comê-los. Crianças também não têm muita noção de tempo e logo, são as criaturinhas mais atemporais e extemporâneas que existem (e aqui me parece que a questão do tempo que também tem me obcecado nos últimos dias mostra a suas garrinhas). Me lembrei que deixei a garrafa com o restinho do vinho escondida numa pilha de coisas esquecidas. Deu trabalho encontrar, especialmente a noite e no escuro. Valeu a pena! Uma dose e meia depois (tomadas com vagar), me sinto leve e pensando que vinho, doces ou felicidade são coisas que devem ser mesmo consumidas em pequenas doses. Prolongar o prazer que nos proporcionam essas coisas é eternizá-las em...Digamos, alguns dias, semanas ou meses...Quanto tempo dura a eternidade afinal? 


Acabei finalmente com a garrafa e não tenho doces, mas estou feliz hoje.  Vou tratar de poupar a felicidade desse dia, consumindo devagar e com extremo cuidado. E quando sentir que ela está acabando, vou tratar de guardar um pouco dela num canto da memória, de onde posso sacá-la em um dia de chuva ou quando a vida me dar novamente um limão e eu tiver que, na falta de açúcar, devorá-lo azedo mesmo. Com vagar... “Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso...”

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