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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Das Alegrias e das Paixões




“Irmão, quando tens uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém.
Na verdade, a queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
E vês! Dás-lhe agora um nome, que é comum a ti e ao povo, e tornaste-te povo e rebanho nas relações com a tua virtude!
Melhor seria que dissesses: “Inexpressável e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das minhas entranhas”.
Que  tua virtude seja demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar.
Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
Não o quero como mandamento de um deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras transcendentes e nem para  paraísos.
O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e menos ainda com o senso comum.
Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”.
É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
Dantes tinhas paixões e as chamava más. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: que brotaram das tuas paixões.
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias.

Ainda que fosses da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtudes, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua vaca de tribulação e agora bebes o doce leite dos seus úberes.
E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das tuas virtudes.

Irmão, és bem-aventurado quando gozas uma virtude, e nada mais, pois assim mais rapidamente passarás a ponte.
É uma distinção ter muitas virtudes, mas é sorte bem árdua; e mais de um foi morrer no deserto por estar farto de ser batalha e campo de batalha de suas virtudes.

Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas virtudes.
Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na cólera, no ódio e no amor.
Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes.
O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado.
Ah, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma?
O homem precisa ser superado. Por isso deves amar as tuas virtudes, porque por meio delas perecerás”.

Assim falou Zaratustra

Friedrich Wilhelm Nietzsche

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cognitio




Minha historia foi a seguinte:

Eu nasci, vivi e eu morri.
Vivi como um homem de fé, procurei a virtude piedosa e quando morri, estava certo de entrar numa outra vida e num modo melhor de existência, mas quando a luz se apagou...nada! Não havia nada lá e  eu estava morto e acabado e...

Espere aí! Isso não pode estar certo! Como eu poderia ter acabado se estou aqui a contar isso??

Na verdade não foi assim que aconteceu. Eu vivi e eu morri.
Mas eu vivi como um Ateu fundamentalista, victo e convicto e morri assim. Em meus momentos finais escarneci da morte, ri-me das preces dos meus tolos entes queridos por minha alma inexistente e apaguei. Esperava depois de morto...Nada. Mas para a minha surpresa, havia um depois, um além. Cheguei a um lugar que não era um lugar, mas um conceito. Daí pensei:
“Diabos! E não é que aquele bando de religiosos tinha razão?”
E agora?


Ah, cometi um equivoco aqui. Devem me perdoar. Não se pode se fiar na própria memória depois de morto. A verdade é que eu morri. Mas havia vivido como um cristão devotado e sincero. Quando segui a luz e cheguei perto do trono de Deus...Essa não! Jesus não estava ali. Era o Ganesha sentado no trono! E eu havia até mesmo debochado daquele deus-menino-elefante de quatro braços enquanto estava vivo! 
E agora?

Não.... Agora tenho certeza. Foi assim. 
Eu vivi e depois morri. 
Mas havia vivido a vida toda como um Budista fiel. Depois que abandonei minha carne, sabia que depois de ter vivido corretamente no caminho óctuplo, iria alcançar o  Nirvana, mas cheguei num lugar onde havia um trono e sentado no trono, reconheci de imediato aquela figura. 
Por todos os sagrados Lamas, aquele era Jesus!
E agora?

...

Eu morri como vivi.
Na dúvida. Nunca encontrei um modo mais honesto de se viver, o que talvez tenha sido um erro. Talvez meu único acerto. Estava prestes a descobrir.
Ou não...

Estava apavorado diante do novo, do incerto, daquilo do qual tudo e tanto especulei, mas nada sabia de fato. 

Eu estava saindo do mundo tão ignorante e desamparado quanto quando nele entrei. E assim como estava preparado para nele entrar, mesmo indefeso e com medo, estava preparado para dele sair. Engraçado como a morte e a vida parecem  portas de passagem para as mesmas incertezas...

Fiquei feliz pela minha vida não passar diante de mim como num filme, como eu ouvi certa vez que acontecia. Eu conhecia bem o roteiro e no geral, odeio reprises. E seria maçante ter de repassar todo o tédio de uma existência de desequilíbrio, alegrias, tristezas, rever rostos amados apagados pelo tempo e circunstâncias e idade; e apegar- me à lembrança renovada deles, o que tornaria minha morte mais dolorosa do que devia. Se é que deveria haver alguma dor na morte, como tanta houve na vida. Eu devia abandonar aquilo, do mesmo modo que abandonei o conforto do útero, para correr a corrida humana.

Mãos dadas com o meu medo e desamparo, havia uma esperança, tão tênue quanto o fôlego que me abandonava.

Torcia no meu intimo, que todos, absolutamente todos aqueles que ao longo da vida me apontaram dedos acusadores e caminhos para a salvação, estivessem certos e eu entrasse numa outra vida, ainda que fosse para ser punido num inferno porque qualquer forma de existência, mesmo penosa, parecia-me preferível a desaparecer para sempre. Supondo que há uma alma, a alma não reconhece o nada.

Mas torcia ainda mais, para que os deuses, se existissem, fossem mais piedosos e compreensivos do que seus muitos arautos, que condenaram a minha humanidade frágil por eu nunca estar a altura de sua semi-divindade, e se apiedassem de mim, antes poderoso e viril, agora quebrado, sozinho.

Pensei na minha mãe. Fazia muitos, muitos anos que eu não pensava nela. Talvez esperasse que ela estivesse lá para me embalar, me segurar e cuidar de mim, como fez antes, mas, claro, era uma espera tão imersa na incerteza quanto a que experimentei naqueles segundos traumáticos depois do parto. Eu esperava, mas duvidava que ela estivesse lá; uma estranha esperança na qual não podia me apegar. Uma esperança desesperada.

Apaguei como uma vela soprada e não houve nem túnel de luz e nem um coro de anjos a me saudar. Tudo bem. Eu já estava, depois de uma longa carreira no mundo humano, desprovido da vaidade de esperar cerimônias e honrarias. Eu não esperava um coro. Apenas esperava que houvesse alguém lá que me recebesse. Que houvesse um lá e que houvesse um alguém.

Eu morri e fui levado pelas mãos do nada. Era o que fui a vida toda; um passarinho atordoado na tempestade, chicoteado pelo vento, desejando que depois daquela cortina de nuvens escuras, houvesse um galho qualquer de uma árvore qualquer, onde eu pudesse por fim repousar as asas cansadas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pétalas Quebradas




Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.

E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e vilezas piedosas do cotidiano.

Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar todos os espectros da cor?

Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação na natureza.

E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso  todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Corujices Minhas: Laura


Abaixo está o primeiro poema que já escreveram para mim. E eu não poderia estar mais orgulhoso. É muito mais do que especial, porque foi escrito pela pessoa que mais amo neste e em todos os mundos (e que é, ela própria, o melhor poema que já fiz), o que configura um caso muito feliz de amor correspondido.
 Corujices à parte, minha filha de dez anos escreveu o seu primeiro poema e acaba de desbancar no meu ranking de poetas preferidos, o imortal Fernando Pessoa, a maravilhosa Bronte, o mágico Butler Yets e muitos outros.


Um raio encontrei.
Uns pingos de chuva eu vi.
Mas eu vi o raio...E o raio...
Sempre gostei de você.
E quando eu olho pra você,
Eu vejo um raio das nuvens.
Eu amo você.


Laura Campos






Implicâncias Minhas: Fulano, Farmacêutico.



Entrei na farmácia perto das onze da noite. Era uma daquelas farmácias com uma decoração moderninha e que parece mais um mini-shopping do que uma drogaria. É uma boa estratégia essa de vender varias coisas numa farmácia, porque você entra atrás de um analgésico e acaba levando um pacote de ração para seus gatos (coisa de que, aliás, eu também estava necessitando naquele dia).  

Estava vazia, exceto por um casal de idosos que no balcão de remédios, monopolizava as atenções do único funcionário de plantão. Sujeito bonito, tal como as pessoas entendem a beleza masculina. Fortinho, cabelos muito claros e impecáveis, assim como o seu jaleco onde pendurado um crachá o identificava como Fulano de tal, Farmacêutico. Muito engomado, muito aprumado... Dir-se-ia que sua mãe ou esposa provavelmente o engomava a ferro antes de ele por o pé na rua. Atendia o casal de idosos também aprumados. Senhor bigodudo, com óculos de aro de tartaruga, calças de linho e camisa de seda. Ela, senhora muito distinta (tal como as pessoas entendem a distinção), cabelos brancos rigidamente alinhados com laquê (eu acho, porque o cabelo dela dava a impressão de coisa sólida, muito compacta), colar no pescoço e fala suave. Aquele distinto casal era do tipo de “aristocracia mineira” que freqüentemente encontramos nesses locais “metidos a besta”, como shoppings ou restaurantes “bem freqüentados”.


Fulano Farmacêutico os atendia com muita solicitude, dando longas explicações sobre os horários em que deviam ser tomados, reações adversas e outras informações que a mim pareciam ser mais da alçada do médico que os receitou do que do farmacêutico que os vendia. Azar! Nada tinha com aquilo. E meu deus,  como tomavam remédios aquela dupla de velhinhos aristocráticos! Tinham ao balcão bem uns trinta tipos de caixas de remédios e estou certo que a segunda metade daqueles remédios, serve, provavelmente, para combater os efeitos colaterais advindos da primeira metade tomada.

Estava quase saindo em busca de outra farmácia 24 horas, quando o casal recolheu sua cota de remédios e despediu-se do farmacêutico. Este, ainda dentro do seu proceder solicito, despachou-os com toda formalidade e educação. Gostei dele. Gosto de gente educada e principalmente, de gente paciente e aquele rapaz engomado demonstrou no trato com o casal de idosos, ser bem fornido de tais atributos.
Ledo engano!


Logo que os idosos se retiraram (e o farmacêutico os acompanhou com o olhar até chegarem ao caixa, ignorando completamente a minha presença junto ao balcão, coisa que estava me enervando) aproximei-me para pedir por minha vez o remédio que precisava. Assim que se dignou a olhar a minha pessoa, Fulano farmacêutico passou por uma curiosa transformação:

Sorriu, abandonou a postura rígida em que estivera quando atendia os idosos, assumiu um ar displicente e posso afirmar com segurança, que ficou com o corpo numa posição meio-diagonal curiosa. Até o tom de sua voz pareceu outro quando, ainda sorridente, abriu a boca para me atender desse modo:

- Fala aí, Guerreiro!

Guerreiro? GUERREIRO?
No curto espaço de tempo que levou entre a fala dele e a minha resposta, minha mente imaginou umas cenas engraçadas e eu meditei umas indignações a velocidade da luz.


“Guerreiro? Esse sujeito engomado me chamou de guerreiro... Que modo mais peculiar de atender um cliente! Que quererá dizer com isso? Vejamos; imagine eu trajando uma túnica de couro cru, tendo numa mão um machado de bronze  de quinze quilos e na outra um escudo de madeira, mais um capacete com chifres e...Não, espere...Isso é muito nórdico. Minha ancestralidade é de um tanto mais ao sul do equador. Hummm...Talvez um guerreiro Massai, de dois metros de altura, com uma lança de três metros e um escudo de quatro!? Não. Onde vou alojar nessa imagem os meus parcos 1,69 metros?”

“Talvez um Bantoo ou um Yorubá?”

“Um Cartaginês ou sudanês da antiguidade talvez? Não, sou esquálido demais para isso...”


E foi assim que cheguei à conclusão de que não, eu não sou um “guerreiro”, e o modo como aquele Fulano Farmacêutico me tratou, foi um inconsciente e ainda assim indesculpável gesto de racismo velado. Oras, para o vovô de óculos de aro de tartaruga é “pois não senhor” e “volte sempre senhor” e para mim é “Fala aí guerreiro”?

Certo. Sujeito negro trajando jeans desbotado e camisa de tecido sintético só pode ser um “mano”, um “guerreiro da quebrada” e é claro que é desprovido de boas maneiras ou não sabe falar senão a linguagem do gueto, de modo que Fulano Farmacêutico pensou que pode muito bem dispensar o profissionalismo e a cortesia e me tratar em termos de fingida simpatia, que é outra forma de racismo paternalista que considero detestável. Alguns podem argumentar que os modos... informais de Fulano farmacêutico eram apenas e simplesmente um tipo de simpatia e eu concordaria com estes, caso ele tivesse dispensado um tratamento idêntico ao casal de idosos. Seria o caso de tratar o velhinho como “truta” ou a velhinha como “tiazinha”. Mas isso não aconteceu. E preconceito “positivo” ainda é preconceito!

Quero e tudo me leva a crer que ele não teve a intenção de me ofender e na verdade, usou uma lógica absurda, talvez a de que “pessoas diferentes devem ser tratadas de modo diferente”. E é fato que a maioria das pessoas racistas ignora que o são e mesmo reagem com fúria quando lhes denunciamos os gestos racistas. Da mesma forma, muitas pessoas que sofrem discriminações preferem pensar que não aconteceu, ou que se tratou “ de um engano”. Queria poder sublimar a coisa desse modo... Tornaria a minha vida algo mais ilegítimo, mas é certo que seria mais fácil aceitar as coisas como são.


Mas não! Fulano farmacêutico a pretexto de “ser simpático” me destratou e tal gesto merecia e exigia pronta resposta. E eu a dei do seguinte modo; Aproximei-me do balcão dando-lhe meu mais simpático sorriso e olhei-nos olhos. Falei do modo mais formal e afetado possível:

-Muito “Boa Noite” para o senhor também, senhor... (e enfatizando a palavra “senhor”, inclinei-me para olhar o seu crachá, como se não soubesse o nome dele. Voltei a olhar para ele e fiz uma pausa de uns milissegundos como que para me certificar de que o rosto correspondia a fotografia do crachá), Senhor Fulano. Necessito  da medicação (X).


Aos meus gestos e fala Fulano Farmacêutico ficou desprovido de gestos e fala. Sua pele assumiu umas cinco cores camaleônicas. Parou de sorrir imediatamente e ficou rígido.

-Pois não senhor. Só um momento senhor!


E assim fui alçado da categoria de “guerreiro” para a minha legitima posição naquele momento. Eu era um “senhor”. E não por ter trinta e oito anos. Eu o seria ainda que tivesse dezoito ou vinte e pouco. Sou um homem, um estranho e um cliente e nada justificava aquela atitude pretensamente “amistosa” da parte dele, senão o programa de tolos estereótipos raciais e sociais que certamente rodou no processador daquele “simpático” farmacêutico. Esperei que voltasse com a minha medicação. Já então era o mesmo farmacêutico solicito e educado que atendeu o casal de velhinhos aristocráticos. E em educadas escusas me informou que o remédio estava em falta (numa farmácia em que nada, nem ração de gatos e nem mesmo bengalas faltava), mas que havia um similar de outra marca e laboratório e se eu queria levar este. Ainda com seca afetação eu disse:


-Conquanto tenha a mesma fórmula, o mesmo princípio ativo e a mesma posologia, não faço quaisquer objeções.

E após me tranqüilizar quanto a isso, mostrando a bula inclusive, perguntou se eu trouxera a “receita”.

-Se o senhor se refere à prescrição médica, aqui está.

E escorreguei a “receita” (que já estava sobre o tampo e debaixo dos meus dedos) pelo balcão que ele pegou e conferiu devolvendo-me a cópia.
Por minha vez, conferi cópia e medicamento, e ainda afetado e cerimonioso agradeci a atenção prestada.

- Muito obrigado Senhor Fulano. Tenha uma boa noite.

O costumeiro (e temporariamente esquecido) profissionalismo de Fulano farmacêutico  despachou-me com o “Obrigado senhor, volte sempre senhor” apropriado.

Paguei e saí certo de que Fulano entendeu o recado. Não estou tão  certo de que vá tratar alguém com mais ou menos profissionalismo e sem comportamentos raciais ou elitistas, mas certamente vai se lembrar de que numa noite dessas um “mano” passou pelo balcão e mostrou a ele um pouco de boa educação.De todo modo, penso que o melhor modo de lidar com uma atitude (inconsciente ou não) com a qual eu não concorde é ainda fazer mais do que brigar ou exigir direitos, embora por vezes o caminho seja este.  Puni Fulano com o modo mais efetivo de se combater um preconceituoso:

Eduquei-o.

Infelizmente, no processo me esqueci completamente de comprar a ração de gatos...

terça-feira, 27 de março de 2012

Das Coisas que Me Ocorrem Quando Paro de Olhar Pra Dentro...




Esse é o principio ou também e talvez, o fim de toda angústia (se minha ou alienígena a mim, não estou no momento equipado para dizer, mas que conheço e reconheço)
 e que talvez seja um pensamento que mais confunda do que explique:


A alma irremediavelmente nômade, peregrina, a sonhar com espaços e pensamentos abertos,
atada por mil Nós (em pronomes e substantivos) a um corpo, com todas as suas vicissitudes,
Irremediavelmente  enraizado  nas minúcias voláteis da vida cotidiana...


Digamos, despretensiosamente, o que na prática significa que é uma fala carregada com todos os anseios de que dispomos, que uma ausência pode ser das presenças a mais constante.
Cortante.


"Corvos voam com corvos", e as vezes, ou com mais frequência do que é aceitável, entedia o olhar, olhar para o azul do céu forrado de asas multicores e não ver por entre estas a cálida figura de uma ave, que é como você,aço de sua têmpera...
Estaremos realmente entrando em extinção?



quinta-feira, 22 de março de 2012

Ofertas e Vergonha.



E foi com vergonha que sai daquela loja, onde comprei sem saber bem o porquê, aquele projeto de virtude que eu nem mesmo queria, mas que a fala hábil de outros e meu ridículo desejo por aceitação, convenceram-me de que era meu anseio. Já agora não sabia o que fazer com aquilo. Era pesado, eu mal dava conta de carregá-lo, quanto mais de sustentar aquilo por muito tempo. E eu já tinha tanta quinquilharia na consciência, tantos desejos importados, tanta afetação, tantos automatismos sociais, tanta fala bonita decorada, tantos sorrisos falsos e simpatias forjadas, tanta crença fingida, tantos modos e medos de disfarçar meu desajuste, tanto... Que ficava cheio do alheio ao mesmo tempo em que me esvaziava pouco a pouco de mim.


Mas que ser humano desprezível eu vi, quando me olhei refletido no vidro espelhado daquela loja cuja vitrine anunciava mais um porrilhão de falsidades brilhantes em oferta:

 Seja um príncipe luminoso, por apenas $ 19,95!

Torne-se um bom cidadão por apenas $16,00!

Aprenda a cativar os outros falando sempre a coisa certa por $26,15!

Olhei em volta para ver se alguma loja oferecia, senão uma aspiração atroz, ou uma ferocidade autentica ao menos o direito de ser às vezes um legítimo e livre filho da puta. Alguma patifaria sincera, algum pecado que não viesse com uma tonelada de culpa numa venda casada. Algo que calasse um pouco a vergonha de ser humano e falho. Mas qual!

Senti vergonha de sentir vergonha de assumir, que eu gosto da noite e das coisas tomadas por tristes quando são na verdade  profundas e que a maioria teme por ter um coração superficial. Por ter simpatizado e me identificado com o Góllun e seu tormento um tanto canalha e ter me entediado com os olhos meigos e cheios de ternura de Frodo Boffin. Senti vergonha de ter estendido as mãos suplicantes diante de altares vazios e ter pensado que se minhas orações não despertavam respostas, era apenas porque eu era indigno de obtê-las e não porque estava orando para os altares  errados.

E de não ter percebido que só era necessário um pouco de honestidade para quebrar o grilhão.
Sai com uma sacola cheia do lixo que me convenceram que eu deveria comprar para ser um ser humano decente e no estomago uma sensação vazia de que já então havia muito pouco de mim para defenestrar e preencher o espaço com aquele lixo ideológico, fingido,disfarçado de virtude. E é coisa complicada reconstruir uma alma a partir de um fragmento.

Comprei por um preço muito alto, aquilo que me destruiu.
Só me resta esperar a fatura no fim do mês...
E quebrar a droga do cartão de crédito!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Saudosista Assumido

Um vídeo ótimo de uma das bandas de que mais gosto. The Smiths, junto a Joy Division e The Cure foram em minha opinião as bandas mais significativas do Punk Rock e Alternativo das ultimas décadas.
Ver esse vídeo me fez lembrar de um tempo em que para sermos "cool" não era necessário nos comportarmos como "jackass", como parece ser a regra hoje.

E fiquei pensando se afinal não nos esquecemos de como fazer (e escutar) boa música.
Como diria minha amiga Thuany Freitas, "saudades das minhas lembranças"...









quinta-feira, 15 de março de 2012

Uma Pequena Nota de Des-clarecimento


Me ocorreu e isso que me ocorreu é uma coisa tensa, eu diria, e como o termo “tenso” está muito em voga hoje em dia e eu me penso naturalmente alérgico ao que “está em voga”, sinto- me um pouco tolo e levemente traído por mim mesmo ao usar essa palavra.

Ao diabo, com isso! 
Até que eu tenha um meio, capacidade e interesse de falar sem palavras (fonadas ou escritas), não hei de pensar que a moda se apossou e na mesma hora me desapossou do uso da  língua portuguesa.

É apenas que me ocorreu depois de uma persistente febre seguida de uma preguiça tenaz, que nós somos todos crianças entediadas num jardim de novidades voláteis. O problema é que nenhuma novidade extingue  o nosso tédio obstinado e queremos sempre um brinquedo novo e maravilhoso, quando aquele que há um minuto nos iluminava o olhar, tem seu brilho pouco a pouco esmaecido.

O problema é que ali naquela esquina, algo vai me encontrar, algo vai se abater sobre a minha cabeça e eu acabei por pensar que é absurdo esperar que seja sempre algo venturoso. Posso esperar que me caia na cabeça, talvez a módica quantia de alguns milhares de dólares (coisa que me seria bem útil), mas jamais vou pensar que os mesmo virão do céu embalados num cofre de meia tonelada, como naqueles desenhos viciantes de Hanna e Barbera.

Porque desejos são mais traiçoeiros do que sonhos, tenho de me lembrar de nunca esquecer que devo ter redobrado cuidado com aquilo que desejo.
Talvez seja trágico consegui-lo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

São Tempos Difíceis...




"Já tive sonhos que nunca mais me abandonaram
e que me mudaram as idéias; espalharam-se dentro de mim, como
o vinho se espalha na água, e alteraram a cor dos meus
pensamentos."


Li isso há tanto tempo em “O Morro dos ventos Uivantes” e fiquei tanto tempo sob o impacto dessas palavras, que sim, elas também se espalharam dentro de mim e alteraram a cor dos meus pensamentos. Ou os meus pensamentos se tornaram tão densos que por causa deles eu tenho lá aqueles sonhos estranhos (mesmo acordado) e eu também acabo acordando sempre com aquela sensação de que “duendes me usam como saco de pancadas durante a noite”.

Chega-se a um ponto que o que é pensamento e o que é sonho fica indistinto e ou os pensamentos são os  sonhos disfarçados de razão ou os sonhos são uma forma mais subjetiva e mais elevada de pensamento.

Não sei...

Só sei que tenho pensado que embora eu lamente, (num luto que cada vez mais me parece impossível de elaborar), que certas pessoas morram (quando a coisa mais importante do mundo é que estivessem vivas), lamento em maior medida, embora não tão dolorosamente, que a maioria das pessoas que me cercam, embora respirem, não estão de fato vivas.

E que quando se perde a referência o que fica tem mesmo de valer o esforço da existência...

São mesmo tempos difíceis para os sonhadores...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reencontre-se




Recupere a sua compreensão e conexão com o absurdo. Que há com você? Se ignorar  o vazio voraz que te devora, que te consome pouco a pouco, disfarçando a sua indiferença com ideologias que te abandonam como uma amante infiel, que vai colocar em seu lugar? O que vai usar para tapar o abismo, que não seja uma panela de retórica positivista, frívola e irreal? Por acaso a irrealidade não é uma versão enganadora do nada? Uma camada de gelo fino disfarçada de chão a sustentar os pés alegres de homens inconscientes a dançar? (lembre-se da lição de Atreyu: O nada não pode ser destruído. Deve ser preenchido). Preencha o nada com o seu Eu. Deixe-se ser um indivíduo íntegro, não no sentido da moralidade, mas da inteireza, da coesão.  O Nada não é o inimigo. O seu medo dele é que é. Derrote o medo, abrace o nada. Nele, há muito mais espaço para ser Você. O nada é real. As verdades são pura abstração.

Então Carl Gustav Jung estava certo nisso: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. (até porque, é quase impossível alguém estar errado em tudo, e eu implico com Jung por causa da minha lealdade canina ao velho Sig e da minha alergia ao misticismo, que Jung abraçou)
Eh, Bien, sou eu novamente.
Lembrei-me de uma cena de um dos melhores filmes a que assisti no ano passado; Cisne Negro. Quase no finzinho do filme, Natalie Portman tem o corpo coberto de penas negras (é o tal cisne negro dando as caras) e sorriu de satisfação. Curiosamente, salvo engano, é a única cena do filme em que ela sorri, o que me faz pensar se a miséria da vida dela não era o seu Cisne Branco. Voltar para dentro de mim mesmo, a sensação foi parecida. Com a diferença que eu sempre tive “plumas negras” e meus problemas começam quando cismo, sei lá por que, que tenho de ser colorido como uma droga de Arara.

Todo mundo precisa ficar um pouco só, para reaprender a respirar com seus próprios pulmões (é a primeira coisa que a gente aprende na vida, mas a própria vida comunal acaba por nos fazer esquecer, daí sufocamos na multidão). Apenas um pouco de solitude, coisa que as circunstâncias ( e em certa medida, nossa  própria covardia) não nos têm permitido é necessário para lembrarmos. (Um pouquinho de tempo e  duas ou três musicas de Himogen Heap pode surtir um efeito similar ao que uma bolsa de sangue teria para um hemorrágico).

Estar dentro da própria pele  é bastante atormentador, mas é um tormento confortável e familiar, porque é o Seu  tormento, e não as agruras alheias que as pessoas teimam em colocar sobre ombros outrem.
Preciso sempre me lembrar de que se existe ressaca moral, também existe embriagues moral, e esse é o tipo de porre de que qualquer um deve se envergonhar. Ficar embriagado de ideologias ou da inconsciência de si é o pior tipo de carraspana que alguém pode tomar.

Sem direito a um antiácido psicológico.

O Abismo de Mim



Uma pedra  lançou-me no abismo.
Atentou para ouvir
O eco do meu corpo, quando eu batesse no fundo
Quando meu grito ressoasse no nada.
“O abismo a que me empurras – disse a Esfinge – Não é maior
Do que aquele que existe em tua alma”

Não houve som e nem dor,
Quando me choquei contras as rochas .
Apenas uma nuvem de dentes de leão flutuando no ar
E o som do farfalhar de folhas secas
Levadas pelo vento.

Bobagem.
Não há vento no abismo profundo,
Como não há alegria nas horas escuras
Quando seu mundo parece retrair e morrer.
Deve deixar que as sombras dancem com as sombras
E as luzes de tua alma,
Que dancem com as luzes que emanam das almas felizes.
Como morrem os anjos?
Como abraçam o vazio os homens alados, cujos sonhos voam?

Morrem como morrem todos os homens,
Sozinhos e com medo, antes que a cortina caia.
Lançando no eterno a esperança de alcançar o mar infinito
O verde e o campo onde caminhariam para sempre.

Uma pedra lançou-me ao abismo.
Está claro que não morri.
E o que não me mata, torna mais louco.
Fiquei carregado da  sabedoria de nada saber,.

Há conforto na sabedoria.
Há abrigo na ignorância.

Mas a loucura....
Abraça-me os ombros como uma consorte.
E me seduz com beijos doces, alucinógenos...
Dota-me de asas imaginarias
E enche a minha cabeça de um céu ilusório:

Mas no vazio, a queda para baixo ou para cima
Não faz diferença alguma.
A pilhéria da vida é a mesma.
Se a ouvir de cabeça pra baixo
Terá a mesma graça
Nenhuma corrente te prende à sombra do mundo,
Exceto as que tu mesmo forjas com lágrimas
Exceto a paixão à própria prisão.

 Uma pedra atirou-me no lago
Atentou  para contar as ondas que se formaram
Quando eu  afundei...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Subverta-se



Parece até que era uma afronta ou por afronta, mas não, você não escolhia ser um oxímoro ambulante para debochar daqueles que escolhem terceirizar suas escolhas.

Era apenas por sentir que não tinha e nunca teve escolha alguma, a não ser escolher por si mesmo.

Claro, o que acabei de digitar é uma deslavada mentira.
A verdade e que você era assim pelo puro e bruto prazer de andar na direção contrária à multidão. Esse era o único prazer genuíno e digno da grandeza do seu espírito livre. Você sentia que só possuia uma única vida e já não tinha certeza de haver um “segundo tempo” ou então era uma certeza tão tênue, que sem perceber (ou habilmente fingindo não perceber) você permanecia tentando acumular o ouro onde a traça come e o ladrão rouba. .

Você percebia que nasceu sozinho (porque venhamos e convenhamos, sua mãe estava com preocupações maiores naquele momento e só depois do choque inicial do nascimento, é que pode te amparar um pouco), que vivia sozinho porque por mais amigos e amantes e amados tivesse, viessem e se fossem, quem é que sabia ou queria saber o que se passava na escura noite ou nos dias solitários por trás de todos os seus sorrisos e afetações?

E você sabia que morreria também sozinho no final, quando a luz se apagasse e todo o resquício de sua pouca fé seria posta a prova. Onde estariam neste momento aqueles que te amam? Provavelmente ali, segurando a sua mão, sofrendo por você (na verdade, sofrendo por eles mesmos, porque sua morte lhe doeria, mas não faça julgamentos, porque é um sofrimento sincero ainda assim). Estariam ali tentando te dar algum conforto, mas você estaria só, porque seria  o seu coração  parando, a sua respiração cessando e  a sua vida se esvaindo...

Então, porque por vezes se esquece de tudo isso e fica pensando que precisa mesmo estar em uma simbiose psicológica com o mundo? Porque tem de se render a tirania da aceitação alheia numa síndrome de Estocolmo para a sua alma? Porque acha que sua vida deve ser como um maldito comercial de margarina?

Tem um preço a se pagar pela realidade da sua existência, pelo direito de ser você mesmo e pense se ele é tão alto e penoso quanto o valor do ingresso para desaparecer imerso na coletividade sem alma.

O preço é a mais absoluta solidão, mas nesse caso, você vai estar a sós consigo mesmo e eu ainda não sei que melhor companhia possa um ser humano almejar. A solidão não é o demônio que pintam ou pelo menos, não é tão medonho quanto o estrangulamento do seu Eu no coletivo.

Só que te ensinaram a não gostar de estar consigo, a temer ficar sozinho e nu diante de si mesmo, taxaram de egoísta o seu olhar para dentro,chamaram de "masturbação mental", como se um minuto de autismo intelectivo fosse um crime de “lesa humanidade”, quando o que realmente temem é que você se ame mais do que ama aquilo que escolheram que você amasse.


Não sei se é realmente possível amar o que é para você ou o que você tem. Não se ama o que se tem ou o que tem você.Talvez apenas seja possível amar o que é com você. O que coexiste com você em singularidade própria.
Aquilo que não é sua própria imagem distorcida num espelho de vaidades vazias.
Aquilo que não se desconfigurou apenas para agradar seus olhos.
Aquilo que não responde como um autômato à fugaz palpitação dos seus hormônios.
Aquilo que permanece dentro de sua própria pele, sem máscaras, acariciando com amor os limites entre o que é ele e o que é você.
Um ser humano íntegro.
Um Eu que permanece um Eu em sua companhia, sem buscar te sufocar com o nós.
Encontro, sim. Anexação, não! 

Não permita que te convençam de que é desejo seu ter aqueles arreios a tolher sua mente e vontade e vida. Não pague com o ouro da sua liberdade pelos grilhões e pelos serviços do carcereiro. Te ensinaram a temer a noite e você sente frio naquele momento logo após o sol desaparecer, como se fosse a sua vida se pondo com o sol e não subindo com a lua. Mas a noite é só e apenas o outro lado da realidade por detrás dessa gaiola confortável onde você se meteu.
Você é um corvo de plumas obsidianas fingindo ser um canário amarelo, quando devia mesmo era amar ser um corvo. 
Você é um Eloi inocente, alimentado e nutrido pelos Morlocks...Sabe como a história termina.

O que não querem que você saiba, é que não há na floresta lá fora nenhum lobo que seja mais aterrador do que a mão a te colocar alpiste todas as manhãs.
Que a gaiola nem mesmo tem tranca (é o seu medo a te manter preso).
Que você tem asas e elas são tão poderosas quanto for a sua determinação.
Que a árdua sobrevivência é mais gratificante do que a desprezível rendição.
Que mais vale o leão morto em combate na selva do que o poodle vivo no travesseiro de seda.

Nem é preciso pensar muito. É o momento de esquecer a lógica, se esta é mais um elo da longa corrente.
Rebele-se, não contra o mundo, mas contra si mesmo, contra o conforto, contra a maciez da vida de limites auto-impostos. Seja Um. Seja Livre! Chega de andar nas calçadas e na sombra. Arrisque-se.
Ande pelo meio da rua até encontrar um carro sem maçanetas na porta e então, caia para cima como uma estrela ascendente.




quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A vida é Detalhe.




Não me recordo de ninguém estender-me seus sonhos como um tapete (a não naqueles casos de crasso engano. Erraram o endereço da entrega). E forço a mente num esforço inacreditável, para tentar descobrir um só motivo para que alguém o fizesse. Seria uma atitude de uma magnanimidade e também de uma tolice extrema e linda por ambos os motivos. Gosto de gente magnânima e de gente tola. O difícil é discernir entre um e outro. Ainda assim, seguindo o exemplo de alguém bem sábio (tinha muito de magnânimo, mas quase nada de tolo), aprendi a flutuar para não pisar em sonhos alheios, porque é evidente que seguindo a minha natureza distraída, (seria por distração e apenas por isso), eu pisoteasse os anseios oníricos de outrem. Na maioria das vezes não ha recíproca e nesse caso minha outra natureza, a vingativa, derivaria certo prazer nesse vandalismo psicoemocional.

Disseram-me uma vez que a vida é só um detalhe. E a ingratidão da minha memória fraca apagou quem mo disse, de modo que não posso citar a fonte. Sinceramente, a maioria das coisas relevantes naquilo que aprendi ao longo da vida, aprendi das fontes mais inusitadas e por isso mesmo difíceis de ser lembradas. Alguém que encontrei  numa noite dessas, depois de pegar por acaso, a curva errada num sonho desgarrado. Minha natureza distraída me fez conhecer tipos maravilhosos, porque eles quase sempre estão onde ninguém está olhando. E como são esses “lugares” que sempre atraem o meu olhar, tenho cá esse bônus derivado do que deveria ser um deficiência. E foi assim que conheci esse que me sussurrou a irrelevância da vida. Esse alguém não faz questão de ser lembrado e acredito até que se aborrece quando me lembro dele. Desculpe por isso meu amigo onírico, seja lá quem ou o que você for.

“A vida é só um detalhe. A chama fraca de uma vela que o menor sopro pode apagar. Importa mesmo é a luz que se pode derivar dessa chama, porque quando ela se apaga, a luz continua a brilhar por muito tempo”. Foi há algum tempo  embora eu não falasse nada na hora, há uns dois janeiros atrás deixei de estar interessado unicamente na “luz e na virtude”. Escuridão e vício também fazem parte de nós e quem ignora isso é justamente o tipo que sucumbe a eles com mais freqüência. Dois janeiros... Se não me trai novamente a memória foi a mesma época em que apostatei do culto à deusa Felicidade. Tenho mais o que fazer...Cuidar desse detalhe que é a vida.

Foi mais ou menos isso que me disseram ou não. Provavelmente eu disse isso a mim mesmo por entre momentos de pura embriaguês poética, quando meu desejo de que nós sejamos um pouco mais do que carne, sangue e erros, transborda da taça dos meus devaneios.

 Prefiro acreditar que ouvi de outras pessoas, porque como tenho o habito enervante  de sempre me enganar a respeito de coisas boas, embora eu tenha algumas certezas, estou seriamente decidido a duvidar de todas elas.

Acho que estou precisando é  me alegrar um pouco. O planeta não vai cair fora da órbita se eu me alegrar um pouco, relaxar os ombros e parar de fingir que eu sou o Atlas. Eu acho, mas minha megalomania gosta de pensar que sim, que cairia. Daí, em momentos de mau humor eu gargalharia só por picardia e pelo prazer sádico de ver o mundo indo pras cucuias! Alguém aí por acaso tem um pouco de bom senso pra vender? Deixei todo o que tinha nos bolsos de um casaco que estava usando umas seis ou sete encarnações lá atrás...
Sou mesmo ridículo!

Mas tenho salvação.Três coisas são capazes ainda de me inebriar e me deixar contente: Vinho (tinto, suave e bem barato), que me transforma no mais ardoroso e patético dos apaixonados (por tudo); Passar uma tarde a encher o céu de bolhas de sabão com a minha filha; e poesia, que é o melhor  meio de tradução do absurdo e da beleza terrível da vida. Que é só um detalhe.
São mais de onze da noite, e das duas primeiras coisas que me inebriam e me alegram, uma dorme como um passarinho ( e verdade seja dita, que pensaria do precário juízo do seu velho pai se este a convidasse a fazer bolhas de sabão  a estas horas?). A outra, receio que só tenha uma garrafa de vinho seco, caro e horrível! Um...presente de grego que preciso agradecer adequadamente. Vou deixar para temperar carne... A terceira coisa a me deixar feliz parece ter tirado folga essa semana. E eu nem sabia que versos tiravam férias...Fazer o quê...? Ces’t  La vie
E a  vida é só um detalhe...

Valerie



"Eu não sei quem você é. Por favor, acredite. Não há como convencê-lo de que isto não é mais um truque deles.
Mas não importa.
Eu sou eu e não sei quem é você,
Mas eu te amo.
Tenho um lápis, bem pequenininho que eles não encontraram. Escondi dentro de mim. Eu sou uma mulher.
Talvez não possa escrever de novo, por isso essa será uma carta muito longa sobre minha vida. É a única autobiografia que vou escrever e, oh, Deus, estou escrevendo num papel higiênico."

"Eu nasci em 1957. Chovia um bocado. Passei no teste de avaliação e fui pra uma escola feminina.
Eu queria ser atriz.
Conheci minha primeira namorada na escola.
Seu nome era Sara. Tinha quatorze anos e eu quinze. Nós duas estávamos na classe da Srta. Watson.
As mãos dela...Elas eram lindas!
Na aula de biologia, contemplando um feto de coelho num jarro de picles, fiquei ouvindo a Sra. Hird dizer que isso era uma fase da adolescência, que as pessoas superam.
A Sara superou.
Eu não."

"Em 1967 parei de fingir e levei uma namorada, Christine, pra conhecer os meus pais. Uma semana depois fui pra Londres e me matriculei na Escola Dramática. Mamãe disse que eu parti o coração dela...
Mas minha integridade era mais importante. Isso é egoísmo?
Pode não ser muito, mas é tudo o que nos resta aqui.
São os nossos últimos centímetros, mas neles, nós somos livres."

"Londres...
Eu era feliz em Londres.
Em 1981 interpretei Dandini em “Cinderela”, meu primeiro trabalho profissional.
O mundo era estranho, farfalhante e conturbado, com platéias invisíveis por trás das luzes quentes e ofegantes. Glamour..."

"Era excitante e, ao mesmo tempo, solitário...
Eu ia ao Gatewars ou outras casas noturnas, mas eu era bem retraída e não me misturava facilmente. Eu via de tudo, mas nunca me senti confortável. Lá havia muitos que só queriam ser gays. Era a vida deles. Sua ambição. Era só disso que falavam e eu queria mais do que aquilo..."

"O trabalho evoluiu. Consegui pequenos papeis em alguns filmes, depois outros maiores.
Em 1986 participei do “Dunas de Sal”. Ganhou todos os prêmios, mas não o público.
Conheci Ruth trabalhando nele. Fomos morar juntas no dia dos namorados. Ela me mandava rosas e, Deus, nós tínhamos tanto...
Nós nos amávamos e foram os três melhores anos de minha vida."

"Em 1988 veio a guerra.
Depois disso não houve mais rosas.
Para ninguém."

"Em 1992, depois que tomaram o poder, começaram a prender os homossexuais. Levaram Ruth enquanto ela procurava comida. Porque eles têm tanto medo de nós?
Queimaram Ruth com pontas de cigarro e forçaram a coitada a dar nomes. Ela assinou uma declaração de que foi seduzida por mim. Eu não a culpei. Eu amava Ruth, não podia culpá-la...
Mas ela sim.
Ruth se matou em sua cela. Ela não pôde viver depois de me trair. Após ceder aqueles últimos centímetros.
Oh, Ruth..."


"Eles vieram me buscar. Disseram que todos os meus filmes seriam queimados
Rasparam meu cabelo, meteram minha cabeça numa privada e fizeram piadas sobre lésbicas.
Fui trazida para cá e drogada. Não sinto mais minha língua e nem posso falar.
A outra lésbica daqui, Rita, morreu duas semanas atrás e acho que vou morrer logo também.
É estranho que minha vida possa acabar neste lugar horrível. Mas por três anos eu recebi rosas e não tive de prestar contas a ninguém.
Eu vou morrer aqui. Cada centímetro de mim morrerá.
Exceto um."

"Um só.
É pequeno e frágil e é a única coisa do mundo que ainda vale a pena se ter.
Não devemos jamais perdê-lo, vendê-lo ou entregá-lo.
Não podemos deixar que alguém tire de nós.
Não sei quem você é. Se é homem ou mulher.
Talvez eu nunca o veja, nem te abrace, nem bebamos juntos...
...Mas eu te amo.
Espero que consiga fugir.
Espero que o mundo mude, que as coisas melhorem e que, um dia, as rosas voltem.
Queria muito poder te beijar..."
                                               
                                       Valerie

Alan Moore em V, de Vingança

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