quarta-feira, 6 de junho de 2012

Das Alegrias e das Paixões




“Irmão, quando tens uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém.
Na verdade, a queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
E vês! Dás-lhe agora um nome, que é comum a ti e ao povo, e tornaste-te povo e rebanho nas relações com a tua virtude!
Melhor seria que dissesses: “Inexpressável e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das minhas entranhas”.
Que  tua virtude seja demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar.
Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
Não o quero como mandamento de um deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras transcendentes e nem para  paraísos.
O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e menos ainda com o senso comum.
Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”.
É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
Dantes tinhas paixões e as chamava más. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: que brotaram das tuas paixões.
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias.

Ainda que fosses da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtudes, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua vaca de tribulação e agora bebes o doce leite dos seus úberes.
E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das tuas virtudes.

Irmão, és bem-aventurado quando gozas uma virtude, e nada mais, pois assim mais rapidamente passarás a ponte.
É uma distinção ter muitas virtudes, mas é sorte bem árdua; e mais de um foi morrer no deserto por estar farto de ser batalha e campo de batalha de suas virtudes.

Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas virtudes.
Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na cólera, no ódio e no amor.
Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes.
O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado.
Ah, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma?
O homem precisa ser superado. Por isso deves amar as tuas virtudes, porque por meio delas perecerás”.

Assim falou Zaratustra

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