quinta-feira, 22 de março de 2012

Ofertas e Vergonha.



E foi com vergonha que sai daquela loja, onde comprei sem saber bem o porquê, aquele projeto de virtude que eu nem mesmo queria, mas que a fala hábil de outros e meu ridículo desejo por aceitação, convenceram-me de que era meu anseio. Já agora não sabia o que fazer com aquilo. Era pesado, eu mal dava conta de carregá-lo, quanto mais de sustentar aquilo por muito tempo. E eu já tinha tanta quinquilharia na consciência, tantos desejos importados, tanta afetação, tantos automatismos sociais, tanta fala bonita decorada, tantos sorrisos falsos e simpatias forjadas, tanta crença fingida, tantos modos e medos de disfarçar meu desajuste, tanto... Que ficava cheio do alheio ao mesmo tempo em que me esvaziava pouco a pouco de mim.


Mas que ser humano desprezível eu vi, quando me olhei refletido no vidro espelhado daquela loja cuja vitrine anunciava mais um porrilhão de falsidades brilhantes em oferta:

 Seja um príncipe luminoso, por apenas $ 19,95!

Torne-se um bom cidadão por apenas $16,00!

Aprenda a cativar os outros falando sempre a coisa certa por $26,15!

Olhei em volta para ver se alguma loja oferecia, senão uma aspiração atroz, ou uma ferocidade autentica ao menos o direito de ser às vezes um legítimo e livre filho da puta. Alguma patifaria sincera, algum pecado que não viesse com uma tonelada de culpa numa venda casada. Algo que calasse um pouco a vergonha de ser humano e falho. Mas qual!

Senti vergonha de sentir vergonha de assumir, que eu gosto da noite e das coisas tomadas por tristes quando são na verdade  profundas e que a maioria teme por ter um coração superficial. Por ter simpatizado e me identificado com o Góllun e seu tormento um tanto canalha e ter me entediado com os olhos meigos e cheios de ternura de Frodo Boffin. Senti vergonha de ter estendido as mãos suplicantes diante de altares vazios e ter pensado que se minhas orações não despertavam respostas, era apenas porque eu era indigno de obtê-las e não porque estava orando para os altares  errados.

E de não ter percebido que só era necessário um pouco de honestidade para quebrar o grilhão.
Sai com uma sacola cheia do lixo que me convenceram que eu deveria comprar para ser um ser humano decente e no estomago uma sensação vazia de que já então havia muito pouco de mim para defenestrar e preencher o espaço com aquele lixo ideológico, fingido,disfarçado de virtude. E é coisa complicada reconstruir uma alma a partir de um fragmento.

Comprei por um preço muito alto, aquilo que me destruiu.
Só me resta esperar a fatura no fim do mês...
E quebrar a droga do cartão de crédito!

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