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quinta-feira, 31 de março de 2011

Festinha - By Sahge


Espero que no dia em que meu Eu dobrar sobre si, eu ainda me reconheça apesar do tanto que deixei o mundo e meu próprio e tolo capricho amarrotar-me. Deixar, ainda que momentaneamente, que te molde o mundo ou o seu desejo de fazer parte dele é receita certa para um desastre, no qual o Eu acaba por sofre duros golpes na firmeza de sua força individual. Sua convicção vacila e os limites daquilo que é da cultura e daquilo que é seu, se esvaecem, o boêmio se confunde ao beato; e onde não há fronteira, há o tráfego e o tráfico de idéias que não são suas. Há o transe e o trânsito de pensamentos e anseios alienígenas ao Eu.


Deixe que entrem em si. Deixe!


Será como uma festa na qual aqueles poucos que receberam o seu convite, trouxeram consigo outros não convidados e estes também trouxeram uma companhia análoga. Somados a estes e aos anteriores, uma multidão de penetras adentrou a sua festa... E reviraram sua casa, sujaram seu tapete, transformaram sua pequena festa numa rave desordenada, comeram, beberam, incomodaram seus vizinhos, não fizeram o menor caso de cumprimentar o anfitrião e depois de reclamarem a noite toda da festa “mixa” na qual nada comeram e nada beberam ( a despeito do fato de você ter posto a disposição destes seu estoque mensal ou semestral de víveres e esvaziado a sua adega), vão se na noite sem sequer despedirem-se de você, deixando-lha uma pilha de pratos sujos, garrafas vazias e aquela sensação de que você se comportou como um tolo por ter feito a festa, para início de conversa.


Ainda não sei o que é pior; não ter forças para certas coisas em alguns aspectos e assumir isso, ou amparar-se na força de outrem se esquecendo da própria limitação.
O que eu sei, é que toda vez que vejo aquele “piedoso” e arrogante sorriso, no rosto de pessoas claramente vazias de si quando suspiram pelo “céu dos virtuosos” sem ao menos estarem honestamente convictos de que existe mesmo um céu, mais ardentemente desejo assegurar o meu lugar no inferno, porque me parece que é para lá que são enviadas as almas mais densas.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Caos Numa Esquina - By Sahge




Escrevendo errado em linhas tortas finjo ser um poeta,
(decentemente, segundo uns, mas considero isso um elogio injustificado e imerecido),
Rabisco o Caos disfarçado em versos sem rima...

E porquanto o Caos pulsa-me nas veias e flui em minhas idéias,
Atrai-me a ordem e simetria das pequenas e grandes coisas,
Semelhante a mariposa fascinada pela chama.

Enquanto escorrego para casa, atravessando a noite fluida,
Experimento o subversivo e quase místico prazer de andar de olhos fechados...
Headfones me nutrindo de Stoa:
"ignis, quo crucior
(das Feuer, das mich quält)
immo quo glorior
(aber zugleich erhöht)
ignis est invisibilis".

E lá me vou numa cegueira auto-imposta
Pelas calçadas apinhadas e ruas de infernal trânsito...

Isso tudo é sonho, é claro...

A verdade é que fiquei ali parado numa esquina incapaz de mover-me...
Pensava se em algum momento você passou por ali,
Por aquela mesma esquina, imersa em pensamentos,
Como eu, andando em sonhos...
Enquanto isso contava o fluxo de pessoas e carros apressados,
E perdi a conta de quantas vezes perdi a conta.

Lembro-me de algo que você disse e penso enquanto me vou na noite:
Se as pessoas são sonhos (e sei bem quem são os meus),
Se estou sendo sonhado ou sou a imagem de um pesadelo (que seja),
Quem é o sonhador que a mim dá forma e substância onírica?
E o que acontece se ele acordar?
Será o despertar dele...Ou o meu?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Não há silêncio - By Sahge




Da morte não temo a vida, porque se a temesse
Evitaria como um louco a sua irmã gêmea.
São indistinguíveis no escuro, o choro ou o riso
E quem escuta?
Confundem-se no absurdo do contar de horas e anos.


Que faz existir um oceano senão gotas e rios perdidos
Que nele imergem sua unidade para se fundirem
No nada que é tudo?


Meu coração não é feito do sangue que bombeia,
Nem das fibras que alimenta,
Mas de cada batida dolorosa.
De cada batida lenta e dolorosa!

Cada passo em direção à morte me lembra de que estou vivo
E isso pode até ser redundância, mas
Cada vez que perco o fôlego, cada instante em que sufoco
Torna mais precioso o ar que respiro.
Minha vida
É feita de cada belo momento em que morro um pouco.

Eu olhei em teus olhos e menti a única mentira que conheço.
A de que nunca te amei menos do que fui capaz por vontade...
A verdade, (negue se quiser, és livre!)
É a de que não existe no mundo verdade alguma
Senão a de que você e eu somos um.
Confundidos como um híbrido de Céu e Inferno.
Uma aberração, uma linda e reluzente aberração.

O medo corre em suas veias como um veneno
Corroendo os seus dias como o tempo corrói a sua carne.
O medo de descobrir que nada no mundo é real
Exceto aquilo em que não acredita.


Eu,
Eu nunca vi um abismo sem querer me atirar ao fundo
Nem conto voar ao fazê-lo, mas sentir na queda o vento no rosto.
Mais um instante de vida enquanto caio!
Nunca fugi de um pesadelo ou da decadência.
Nem de presas, garras ou olhos maus no escuro.

Mas fujo das visões que pairam sobre a minha cabeceira...
Visões do teu corpo nu na luminescência da noite,
Flutuando no céu dos meus desejos inebriados.
E corro da lembrança dos teus lindos olhos lânguidos,
E da sua alma prateada,
Que faz meu sangue correr como lava.

Ah, eu contava encontrar no vácuo do nada o silêncio
Que calasse toda a vida que pulsa em mim.
Contava silenciar a humanidade que me desperta a tua memória.
Só não contava que no vazio que há, não há silêncio...
Há que se preencher com aquilo que mais se ama.

MARFIM - By Sahge




Não há de me atormentar o desejo de ser atormentado.
Pelo desejo que me atormenta.
Para sempre.
Beijo lábios frios, desejando que sejam frios.
Mas escrevi teu nome em letras de fogo, como num sortilégio,
Distraindo-me em adivinhar no céu da sua angustia
Mil motivos para que não me veja olhando-te de volta
Quando te miras num espelho.

Oh, seríamos a erva e o sol, o canto rouco do vento
E o silêncio da tarde.
Ela se arrasta preguiçosa e eu conto nuvens no azul.
Eu recordo dos dias felizes em que eu era como esse sol
E te banhavas em minha luz.
E todas as tardes eram preguiçosas como essa.

Todos os dias minha loucura grita.
Que eu tenho o direito de esquecer o ângulo perfeito de teu rosto
E o circulo maravilhoso desse olhar febril que me despe sem me ver.
Mas que homem em sua sanidade
Escuta o que berra a sua loucura?

Imaginei o mundo como um louco carrossel multicolor
E eu a girar com ele,
Vejo o mundo em cores indistintas.
Um bêbado num carrossel.
Imaginei tuas formas sensuais sendo esculpidas em marfim,
Conseguido ao custo do sangue de muitos homens.
Sangue parece ser sempre o preço a se pagar pelo maravilhar dos olhos.

Seja por vicio poético, seja por escassa imaginação
Comparo-te aos materiais deleites que meus dedos podem tocar.

Fosse de ouro o teu corpo e safiras os teus olhos,
Com algum esforço eu te teria em meus braços.
Mas és de carne e sangue, forjada no amor de teus pais.
E nada é mais precioso do que carne, sangue e amor – Poesia!

Então, não te tenho e nem te toco,
Senão com um ou outro delírio fugaz que me permito.

Então se és toda poesia, se és feita de amor,
De que me serve todo o ouro e o delicado marfim do mundo?

domingo, 20 de março de 2011

El Toboso, la bella - By Sahge




Tomei-me de amores por ti,Toboso...
Encantei-me pelo cinza de suas pedras aquecidas pelo sol.
E tão extasiado estava pelo calor de sua beleza,
E pelo azul límpido desse teu céu ridente,
Que nem mesmo noteis os negros olhos
E a sinuosidade voluptuosa da morena ao passar.

É-me notável que sejas mais bela,
E mais envolvente do que una mujer con los ojos negros...
E que eu queira perder meus pensamentos e suspiros
Nas tuas seculares paredes musgosas,
Em teus muros cobertos de heras antigas e de noble sangre,
Em tuas escadas de gastos degraus...

Às seis, anunciam os sinos a hora do Angelus...
E eu, infiel distante dos altares e das divinas graças,
Envio minhas preces não para cima, mas por tuas ruas estreitas ou largas,
Apinhadas de gente e história, ou vazias de ambas as coisas,
Indo deitá-las nos púlpitos pagãos das florestas em volta,
Pedindo a todos os deuses bosquíferos, vivos ou mortos;
Que permitam, segundo seu capricho,
Que tudo destruído seja,
Que não haja mais Espanha ou Castilha – Tanto se me dá!
Mas que preservem a ti, bela Toboso de pedras quentes,
Aquecidas pelo sol e amor dessa terra azul...
Porque en las calles incluso se mueven las formas bellas de Dulcinea...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Um bom negócio.





Dei-lhe uns trocados e recebi um sorriso.

Sincero, porque apesar do seu estado de mendicância, não me pediu nada. Evitava pedir aos homens. Pedia às mulheres supondo talvez que nestas por serem mais sensíveis, ele poderia despertar um sentimento de compaixão. Eu o observei durante um bom tempo. Estávamos ambos melancólicos; Ele pelas razões óbvias e eu, dentre o muito que arde na cabeça e no estômago, por causa desse tempo nublado que se abateu sobre minha cidade e sobre meu espírito.

Calçada encharcada e suja; um frio dos diabos, no vento e no olhar das pessoas que passavam sem ver o homem invisível sentado numa pilha de andrajos, e eu momentaneamente esquecido da minha raiva pela demora do maldito ônibus. O contraste das gotas de chuva no neon dos letreiros e gente apressada se acotovelando nas portas dos “para-todos” lotados. E ele ali, com aquele olhar angustiado ( se treinado ou não pela pratica cotidiana do pedir-sem-receber, não se dizer);
“Ô Dona, me da uma ajuda?”.

Acredito que ele já estava nisso a um bom tempo, porque enquanto sua boca repetia aquela cantilena a que ninguém parecia dar atenção, seus olhos embaçados, sei lá se por catarata ou álcool, parecia anunciar que ninguém “estava em casa”. Parecia que sua imginação, etílica ou idílica por si, o levava para fora da sarjeta e do frio, para longe do corpo sujo e enregelado... Talvez seja apenas uma impressão minha... Talvez eu tenha essa tendência a psicologizar tudo, até a mendicância. Porque até que fatos me mostrem o contrário, tudo é psicológico. Até a miséria, dele caído na sarjeta, e dos outros caídos em sarjetas mentais, não menos frias.

Finalmente o ônibus veio. Parou no sinal a um quarteirão antes do ponto. Tive pouco tempo então para tomar qualquer atitude e não gosto de pensar que agi movido por compaixão ou por generosidade. Tenho de tomar cuidado quando avalio minhas motivações porque não raro sou justo ou injusto demais para comigo mesmo. A verdade é que me senti irmanado daquele sujeito invisível, cujo corpo pedia um trocado, mas cuja mente estava alhures... Porque sinto que às vezes me sinto desse modo, dicotômico em relação a realidade, no automático.
Claro, estou psicologizando isso também.

A verdade é que eu quis dar a ele um trocado por razões minhas em que eu nem pensei. Talvez seja apenas para zombar daquele discurso que diz que não se deve “incentivar a mendicância ou que as esmolas são usadas para comprar drogas e bla,bla, bla”, desculpas perfeitas para não se importar, para fingir que a tragédia do outro não lhe diz respeito. E eu não ligo se ele usou para comprar cachaça ou pão, coisa que ele conseguiria independente da minha atitude . O que eu sei é que no momento em que lhe dei um trocado (que ele não pediu) e pus a mão no ombro dele (coisa que ele não esperava), trouxe um sorriso sincero e um brilho no olhar opaco de um ser humano de quem a vida tirou absolutamente tudo. Nunca paguei tão barato por algo que tivesse tanto valor.

Pensando bem, não fui generoso ou compassivo. Não fiz nada por aquele homem. Fiz um bom negócio.

domingo, 13 de março de 2011

Yets, em quatro lindas versões


Abaixo o meu poema preferido de Willian Butler Yets em quatro magníficas traduções. Impressionante como lendo nas quatro versões, parece serem diferentes poemas, sendo no entanto facilmente reconhecido o seu teor.


Tivesse eu dos céus os bordados tecidos
Adornados com áurea e prateada luz,
Os azuis, delicados e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os ajeitaria por sob teus pés:
Mas eu, sendo pobre, só tenho os meus sonhos;
Eu postei os meus sonhos por sob teus pés;
Sejas leve ao pisar, pois pisas em meus sonhos.

Tivesse eu o céu, bordado em panos
com ouro e prata feitos de luz,
Azuis, e opacos, e escuros panos
em difusa e profusa e nula luz,
Eu poria os panos aos teus pés.
Mas eu, bem pobre, tenho só sonhos
Eu pus os meus sonhos aos teus pés
Pisa suave, que pisas em sonhos.

Se eu tivesse o manto bordado dos céus,
Tecido de veios de luz de ouro e de prata,
De pano azul, escuro e opaco
Da noite, a luz e a meia-luz,
Eu estenderia um manto sob teus pés: 
Mas, eu, tão pobre, apenas posso sonhar;
Estendi meus sonhos sob teus pés;
Pisa devagar, pois pisas sobre os meus sonhos.

Se meus fossem os tecidos do céu
E os azulados bordados de outro e de prata
E do azul escuro e fosco
Da noite a luz e a meia luz
Como um manto, eu os estenderia aos teus pés.
Mas sendo pobre, apenas tenho os meus sonhos
Eu estendi os meus sonhos aos teus pés
Caminhas devagar, porque caminhas sobre meus sonhos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Apreendendo e apreendendo tardiamente - By Sahge

O grande gênio de Mary Shelley cunhou isso:

Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações.
Dormimos.
Eis que um sonho nos envenena o sono.
Despertamos.
Um pensamento errante contamina o dia.
Sentimos, imaginamos, refletimos, rimos, choramos,
Abraçamo-nos à dor, ou libertamo-nos das penas,
Vário é o caminho, mas para a alegria ou a tristeza,
É sempre franco,
O amanhã jamais igualará o ontem;
Nada, exceto o mutável, pode perdurar!

Eu cheguei a pensar num tempo ido, que havia compreendido essas palavras de Mary, dado o grande impacto que em mim causaram. Se eu ao menos fosse tão bom em compreender as palavras com a mesma intensidade com que as sinto, então, tenho certeza, eu seria um grande gênio, talvez até mesmo do porte de Mary Shelley ou do seu. Isso não acontece e me frustro sendo incapaz de compreender as palavras ou mesmo impedir que me penetrem a consciência com tanta força. E como quase tudo acontece tardiamente para mim, só hoje compreendi, em harmonia com muito do que você disse, o que essas palavras querem realmente dizer.

Daí apreendi que é mais apropriado à minha flexibilidade e mutabilidade mental, pautar-me mais por idéias (que libertam) do que pelos ideais (que aprisionam).
E isso não é contraditoriamente prender-me a um ideal (o das idéias), mas uma tentativa de fazer com eu me torne o que você foi por toda a sua vida:


Um ser dialético.

Algo que me ocorreu longo de um longo dia... - By Sahge

Urge que o  Eu torne-se cada vez mais uma autoconsciência da própria unidade e singularidade, e não um mero pronome repetido a exaustão numa retórica vazia, que serve unicamente para a autopromoção num meio.

terça-feira, 1 de março de 2011

Fragmentado - By Sahge



...E daí acordei me sentindo estranho. Era, é claro, um sinal de que estava tudo bem, porque eu sempre acordo me sentindo estranho. Sentia porém, que algo estava diferente sem que eu soubesse exatamente o que. Aquela sensação de estranheza  era enervante, porque estou quase sempre com pressa, mesmo em relação a coisas sem importância, e ter de ficar tentando descobrir percepções por detrás de sensações que nem consigo definir enquanto o relógio ditador controla minha vida, aborrece-me em demasia. Queria ao menos não acordar tão exausto...

As pessoas dizem, e eu não tenho razão alguma para duvidar delas, que existe uma coisa chamada “uma boa noite de sono”, mas se isso realmente existe, o conceito me escapa completamente. Uma noite repousante, sem ter de lutar durante anos num mundo de pesadelos ou delirar por milênios num paraíso onírico...Sem acordar com aquela sensação de que elefantes usaram o seu corpo como pista para dançar rumba... Deve ser muito estranho... Quase como uma morte temporária, de uma noite só.

Algo estava faltando pela manhã, é claro. Algo está sempre faltando e algo é sempre novo. Acontece quando se é um amontoado de fragmentos que se ligam e desligam-se uns dos outros a todo o momento.  Não sei se já voltei pra casa alguma vez o mesmo que quando sai. Não sei se já me levantei o mesmo que quando me deitei na noite anterior. Não que eu estivesse prestando atenção. Parece-me que sempre há um acréscimo de alguma coisa, uma impressão talvez, ou um pensamento que me roeu durante todo o dia, algo que alguém me disse ou o olhar cruzado com alguém que provavelmente eu nunca mais verei... Tudo isso me compõe e então nem é necessário que eu tenha um nome, pois se me denomino de alguma forma, logo no fim do dia ou dali a um minuto já não mais me reconhecerei por esse nome...Me chame do que quiser, mas seja rápido em inventar novos nomes, porque é quase certo de que não vou atender pelo mesmo duas vezes.

Mas naquela manhã, dentre o muito que se desprendeu de mim, evadiu-se a esperança de que eu um dia seria uma unidade, um ser coeso. Não sei onde deixei...Nunca sei onde ponho minhas coisas. Minha memória péssima me leva a fazer anotações para me lembrar as coisas e anotações para lembrar-me de ler as primeiras anotações. Essa deficiência me fez perder muitas coisas preciosas, mas essa era uma pela qual eu devia ter tido um zelo maior.

Irremediavelmente quebrado, já não tinha mais noção das minhas dimensões, mas isso não chegava ser uma vantagem, porque eu estava tão limitado no infinito quanto disperso, dançando na ponta de uma agulha com os anjos vadios.
Não estou certo de onde a perdi, mas caso alguém a encontre, seria um gesto de amabilidade pelo qual eu seria muito grato, devolver-me essa esperança. Não é coisa difícil de reconhecer. Uma coisinha brilhante e um tanto delicada, quase como uma jóia, mas que nos dias de hoje não tem muito valor de mercado. Quase ninguém quer ter a esperança de estar íntegro, de modo que pouco conseguiriam por ela aqueles que a tentassem vender.

Para mim, porém, é coisa preciosa e eu estaria disposto a pagar o que fosse necessário para tê-la novamente. Qualquer coisa que eu possua, daria em troca de ter novamente essa esperança. Mesmo essa quimera a que chamam “alma imortal”, porque de que me serve ter uma alma sem ter esperança para ela?

Queria terminar isso de modo otimista, mas, lamento, também perdi o otimismo em alguma esquina da vida, talvez a mesma esquina onde encontrei este tédio obstinado que me corroi as horas


Linhas - By Emily Bronte

O azul sem nuvens acaricia o olhar
E todo o ouro, o verde e o louro da terra,
Como em um novo éden rebentam nos ares.
Na terra e no ar encontrei o repouso.
Estava deitada e deslizei devagar
E mergulhei ao fundo ,onde reina
A minha infância.
Vi perderem-se ao longe as severas
Idéias,
E a doce memória triunfar finalmente
Das furiosas paixões e das pungentes iras.

Mas nele,
Que o sol agora iluminava
Banhando aquela fronte queimada,
Austera e negra,
Talvez despertassem (como adivinhá-lo?)
Os ecos de um murmúrio ou a doçura de um sonho,
Uma derradeira alegria,
Que depois de anos perdida
Numa frágil noite se tenha fenecido.

Este homem rude de férreo coração,
Parecia se muito comigo outrora;
Talvez tenha sido uma criança grave, ardente,
E sua infância deve ter visto
A gloria e os verões do céu.

Bem podem ter gemido no seu coração,
Ocultas tempestades,
Mas saberá ele esquecer em sua alma deserta
a antiga lembrança da primeira mansão?
Esquecer para sempre,sem esperança de volta?

Nem jamais voltar ver a imagem de sua mãe
Quando, relaxando os braços, doce e ternamente,
Abandonava a criança que seu coração
Preferia
Aos folguedos e aos jogos que duravam
Ate a noite?

Nem os lugares amados, nem as colheitas de flores,
Que a mão pequena apertava com ardor,
Ao voltar dos jardins onde a noite baixava
Misturando-se suave aos seus calmos cabelos?

Eu olhava a brisa
Brincar ligeira e beijar-lhe as faces,
Olhava seus dedos, fechados entre as rosas,
E espiava descer às suas faces
uma outra sombra, efêmera e dócil
Que na sua passagem lançava àquela alma
A ternura de um sonho.


Os olhos circulavam através da janela aberta
Do jardim cheio de reflexos ao céu
Maravilhoso.
E a esperança dos bosques se fazia mais
Profunda,
Aos cantos harmoniosos  da terra inumerável.

Ele silenciava e eu pude acreditar
Que talvez seu espírito
Consentisse ao repouso
Submetendo enfim aquele atormentado
Coração.
E na sua alma talvez surgisse a vaga
Do tranqüilo oceano que alimenta o sonho.

Quero estar mais próxima de espetáculo tão belo;
Verei seus olhos negros
Enfraquecerem e se velarem
Sob um santo orvalho,
E o remorso despertar na sua consciência
Para livrá-lo um pouco do peso
Destas culpas.

Eis talvez, a hora em que os destinos sonharão
Com o fim deste fatal poder que o inferno ostenta.
Ver-se-á o próprio céu descer de suas alturas
E saudar a alma em gritos, e o amor que salva.

Atenta, em segredo, retive os meus olhares.
E devagar meu pensamento seguiu o raio de luz,
Cujo brilho tinha furtado à sua passagem:
Surpreendi então nas suas pupilas a fria indiferença
Com que fitava o esplendor do lugar.

Oh!
O crime pode envelhecer uma alma ainda
Jovem,
Mais cedo do que os anos de exaustivo
Sofrimento,
E congelar o calor de um sangue generoso
Como o vento de inverno ou a neve dos pólos.

Esquinas e Curvas - By Sahge

O que completava e competia a tua alegria me escapou dos pensamentos...
Não consigo capturar nessas linhas turvas, difusas
Não consigo entender o que confundo com tanta e teimosa frequencia.
Se o que queres é eternizar-se em mim, dê-me prazer ou deixe doer,
Não temas. Faça-o! Simplesmente faça-o...
Mas não sejas nunca inofensiva ao meu espírito
Jamais inócua à minha carne e a minha mente.

Tudo o que sabemos sobre o amor poderia não ser verdadeiro
E se assim fosse, caber-nos-ia criar uma nova definição
Uma que fosse só nossa, porém mais real do que o ideário..

Tornemo-nos lindos, tornemo-nos trágicos se necessário,
 Porque grandes tragédias comovem
E são o perfeito enredo de uma história de amor.
Vamos nos amar trágica e lindamente!
Mas se quiseres um final feliz, doce e colorido,
Tal qual sonhava a tua infância na vida,
O podes comprar em troca de um sentimento menos real.

Desaprendi a perder, tu sabes.
Então guardei a marca das tuas pegadas,
Certo de que as seguirias de volta para casa.

Ignoro o que é essa parede de bruma entre nós.
Eu sei,
Que eu nunca soube coisa alguma do que devia saber.
Atolado entre uma pilha de livros em mil línguas,
Lendo os pensamentos de outros,
Nunca soube ler os teus silêncios
Nem mesmo quando eles gritavam para mim.

Nunca soube coisa alguma
Sobre o descompasso do teu coração
E da alegria e da  alegoria ardente de tua alma
Sob cuja superfície perpassava uma tristeza muda.

Nunca entendi,
Porque devias tu pensar com a mente de outros
Pintar o mundo com cores alheias...
Na minha loucura ou lucidês de poeta
Cheguei a pensar que te bastaria e servia
Como para mim, é certo, bastava
As mais perfeitas cores que emanam de ti mesma.

Seriam as flores insensíveis a própria beleza e perfume?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Uma carta de Freud e uma reflexão sobre a vaidade - By Sahge



Trecho de uma carta de Freud a seu amigo, o reverendo Oskar Pfister:


“Posso imaginar que há vários milhões de anos, no período triássico, todos os grandes –odonte e –térios tinham muito orgulho da evolução da raça dos sáurios e estavam na expectativa de Deus sabe lá que magnífico futuro para eles. E então, com a exceção do maldito crocodilo, todos eles foram extintos. O senhor pode alegar que (...) o homem é dotado de inteligência, o que dá a ele o direito de pensar no futuro e acreditar nesse futuro. Ora, não há duvida de que existe algo de especial em relação à mente, tão pouco é o que se sabe sobre ela e sua relação com a natureza. Eu, pessoalmente, tenho um enorme respeito pela mente, mas será que a natureza o tem? A mente é apenas um pedacinho da natureza;o resto da natureza me parece que pode muito bem viver sem ela. Será que vai se permitir ser muito influenciada pela consideração que tenha pela mente? Aquele que puder sentir-se mais confiante do que eu a respeito disso é digno de inveja.”

Depois de boas e justas gargalhadas provocadas pela ironia do comentário de Freud, me veio a reflexão sobre a analogia entre os poderosos dinossauro e nós, magníficos sapiens-sapiens. Se como sugere Freud, os sáurios estavam envaidecidos pela opulência de sua raça não vem ao caso, mas motivos para tanto o tinham. Eram sem duvidas seres maravilhosos, senhores do planeta e havendo em sua possível e rudimentar inteligência um laivo qualquer de espiritualidade, é de se pensar que tal como nós, imaginavam-se o “top of mind” da criação, a imagem e semelhança de seu criador. A parte esses devaneios que me divertem, compartilhamos com os antigos lagartos trovão a mesma vaidade característica de seres poderosos e únicos. É fato que somos mentalmente tão poderosos quanto o eram os dinossauros fisicamente, mas o homem no fim das contas talvez seja apenas mais um acontecimento lindo e efêmero na história do universo, conceito contra o qual luta toda a nossa fé e filosofia.

E Quem é que quer se imaginar como erva que cresce, floresce e fina? Ninguém! E eu não sou exceção a regra. E como disse numa conversa com uma amiga tempos atrás, o grande problema com as minhas "crenças” (eufemismo para a minha vaidade em múltiplas facetas) é que elas não resistem a um exame da minha razão. Basta que eu medite um pouco e vou encontrar tantas brechas, tantas lacunas que tenho de preencher com verdades incômodas, que sinto que estou me sustentando sobre o nada. Um exemplo claro de como as ilusões são necessárias: Sentado tranquilamente na sala de aula no sexto andar, iludo-me de que aquilo em que piso é efetivamente, O Chão. E nem por um momento passa pela minha cabeça que na verdade me encontro suspenso dezenas de metros acima do chão. Mas suponhamos por um momento que as leis da física se alterassem e o concreto e paredes que me dão essa sensação de segurança se tornassem transparentes e eu visse onde estou. Onde realmente estou. Muito acima do chão e muito, muito abaixo das estrelas, no vazio...

Uma pobre e desamparada criatura de carne e sangue solta no vácuo. É provável que eu ou entrasse em pânico e me agarrasse a minha cadeira ou a qualquer coisa a mão como o náufrago de Ortega, e ficasse paralisado de terror. Me agarraria a qualquer coisa para não cair no vazio, para sentir que estou seguro. E é assim em todos os aspectos da vida. Sem ilusões estamos sós, estamos nus diante da grandeza da natureza que não tem consideração para conosco, como não teve para com os dinossauros ou para com qualquer outra criatura por mais poderosa que fosse. E a natureza física não é mais assustadora do que a natureza social, o meio em que vivemos. Nessa, necessitamos ainda mais de um lastro psíquico.

O grande problema é descobrir que se está andando por sobre uma camada de gelo fino. Nunca mais poderemos andar com a segurança necessária. E nisso, creio, esteja a clara vantagem que levavam sobre nós, os orgulhosos dinossauros de Freud; Eles não tinham em absoluto a menor dúvida de sua grandiosidade. Nunca se afligiram com hesitações ou questionaram se eram realmente tão importantes para a natureza ou uns para os outros e isso é uma coisa linda na arrogância: A certeza de estar sempre andando sobre as rochas, ainda que por baixo esteja realmente uma camada de gelo fino. Sem angustias, sem dúvidas, sem desamparo, até o dia em que, ou um asteróide os varreu ou o planeta os sacudiu como um animal sacode as pulgas do corpo. E desse orgulho todo, colecionamos os tesouros dos seus ossos em museus. Receio que meu frágil esqueleto não vá resistir ao tempo para dar testemunho de mim e de minha vaidade.

Tenho certeza de muitas coisas, mas por prudência e/ou covardia, evito passá-las pelo crivo da minha razão (da qual mantenho também uma suspeita saudável), por necessitar iludir-me tanto para poder permanecer tranquilamente sentado no sexto andar da faculdade, quanto para me movimentar no mundo e ficar convicto de que tenho alguma importância para o universo e para os meus. Como Freud, tenho um grande respeito pela mente, em especial, a minha e não por considerá-la algo notável entre as mentes humanas, mas por ser ela o meu canal, com o qual percebo, toco e sou tocado pela maravilha que é a comunidade das mentes humanas. Mas sei que a natureza não vai ter a mesma consideração para comigo e nesse caso, não estou em melhor situação que o genial e incômodo Freud: Também invejo o homem que está certo de que a natureza, o Universo ou seja lá o que for, terá para com a mente dele, sua essência ou alma maior anelo do que teve para com os dinos. Mas qualquer um que tiver alguma honestidade para consigo próprio vai reconhecer quão pouca é a segurança que sentimos e quão incômoda é a verdade (razão pela qual temos tanta avidez em acreditar em mentiras ou confirmar aquelas em já acreditamos) a respeito da nossa situação como seres que são parte, mas não mestres da natureza, tanto física quanto social.

Se temos algum diferencial em relação aos sáurios é o de que nós pelo menos podemos escolher encarar a verdade e viver ao menos sem muitas ilusões, além das necessárias. Não pretendo e nem sugiro a ninguém viver constantemente com medo do futuro (até porque quem vive com medo, vive também refém de uma ou várias mentiras a respeito de si, dos outros e do mundo), porque viver com medo não é viver. É existir na sombra do mundo. Mas se um dia o planeta for me sacudir de sua pele, não pretendo ficar perplexo com isso, como se o meu desaparecimento fosse algo mais extraordinário do que o de uma estrela que arde por bilhões de anos. Afinal, tanto ela quanto eu somos, vaidade a parte, apenas elementos de um Todo maior que engloba tudo, até mesmo a mente humana de que me orgulho tanto. 

sábado, 26 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Lições Aprendidas ao longo de um longo dia....

1º- Uma ciência Humana que lê o indivíduo a partir de uma concepção prévia do que é o homem, não é uma ciência honesta, posto que nega o inivíduo em sua inteireza em prol de um ideal.
2º- Nunca ignorar uma pessoa apenas porque num dia qualquer ela lhe tenha sido averssiva. Pode-se descobrir para surpresa nossa que ela , a quem tanto antipatizávamos tem mais em comum e nos compreenda melhor do que aqueles que nos brindam com sorrisos e simpatias.
3º. Ciência se debate com cientistas. Desenvolver uma saudavel antipatia pelo som da própria voz em alguns meios, durante certos debates, pode ser muito construtivo e evitar um desgaste de energia intelectual e emocional que pode melhor ser aproveitada numa atividade mais produtiva como...Digamos...Olhar para para branco da parede e pensar em nada durante horas.
4°- Nunca beber vinho em noites de terça, quando se precisa levantar na quarta bem cedo (mon dieu!! )

Bon jour

Waking Life

"Posso aprender a amar e fazer amor
Com os paradoxos que me perturbam.

E em noites românticas do eu...
Saio para dançar salsa com a minha confusão.

Antes que saia flutuando,
Não se esqueça...ou seja, lembre-se.
Porque lembrar é muito mais uma
Atividade psicótica que esquecer.
Lorca, no mesmo poema, disse...
Que o lagarto morderá os que não sonham.

E, quando se percebe...
Que se é um personagem sonhado
No sonho de outra pessoa...
Isso é consciência de si."

                              Waking Life

Aliunde - By Sahge

 

De tudo que já me esqueci,
Aprendi a ser muita coisa por amor.
Eu conheço a agonia de ser o ninho que o pássaro abandona
E a alegria de ser o céu em que ele voa ao deixar o ninho.
Sofrer pela sua liberdade que me priva do seu calor,
E extasiar-mede alegria sentindo o teu vôo nos meus ares...
Acariciar tuas asas com meu vento,
Secar nos teus olhos as mesmas lágrimas de desespero no adeus que me queimam a face...
E regozijar-me até a loucura quando distingo a tua forma voltando.
Nunca compreendi o que agora se me revela
Que não importa o quanto e o quão longe voe
Continuas voando em mim...

E eu pergunto;
Para onde eu poderia ir que não te levasse em minhas veias
Minha febre tão amada?
Jamais abandone a minha cabeceira,
Resista a todas as poções alquímicas ou do bom senso,
E deixe-me arder gloriosamente por este breve instante
Em que te apraz repousar em mim suas asas fartas de vôo.

Vem, deixa-me abrigar-te da chuva e da noite escura,
E não temas  perder-te,
Porque todos os ventos soprar-te-ão a mim
E vire curvas, desças e suba sobre vales...
Todos os teus caminhos trar-te-ão a minha porta.
Para onde eu poderia partir desse limiar,
Se tornei-me o próprio lugar onde permaneço?
Sou o porto açoitado pelo vento e pelas marés
 E nesse oceano que finda no infinito,
Cujas ondas são também a minha carne e fibras
Desliza o barco que abandona o porto que sou eu.

Ficar nunca foi escolha minha, partir nunca foi escolha tua
É o meu destino, passarinho encantado de plumas ao vento
Permanecer ao largo do mundo e te apontar as distâncias que te chamam.
“Ela há de voltar”, sussurra o vento
“Ela tem de voltar!”, grita minha alma.

E vigilante investigo no ocaso das horas o céu e as ondas.
É o ritual durante o qual indago se minha razão abandou-me
Como o pássaro abandona o ninho.

Se meu destino é a um só tempo ser pouso e céu de adejo
O teu meu passarinho tão amado, é ser livre para voar em mim...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Devagar... - By Sahge


Creio que já falei algumas vezes, neste e em outro blog, que tenho uma relação um tanto turbulenta com bebidas alcoólicas. Não gosto muito e nem me dou bem com a bebida e menos ainda com a ressaca física e moral que a sucede. Ocorre que eu gosto de vinho barato e cerveja preta, mas não o bastante para fazer desse gostar  um habito. Há alguns meses ganhei uma garrafa de um vinho excelente, tão bom que contrariando minha frugalidade, consumi a garrafa quase toda em menos de um mês ( e pelo modo como já vi algumas pessoas sorverem litros e litros de bebidas em questão de horas, acho que demorar um mês para acabar com uma garrafa não é de modo algum um desatino). Faltando umas poucas doses para acabar com a garrafa, comecei a bebericar com vagar, para fazer com que dure mais. Lembrei-me disso por causa do que eu disse num post, sobre degustar em pequenos bocados a minha satisfação por voltar a ter aulas com certo professor a quem admiro. 


Meninos têm uma mania curiosa que me veio a mente; quando recebem, por exemplo, uma caixa de doces, devoram os primeiro sem o menor pudor, mas comem os últimos em pequenos bocados prorrogando desse modo o seu deleite em comê-los. Crianças também não têm muita noção de tempo e logo, são as criaturinhas mais atemporais e extemporâneas que existem (e aqui me parece que a questão do tempo que também tem me obcecado nos últimos dias mostra a suas garrinhas). Me lembrei que deixei a garrafa com o restinho do vinho escondida numa pilha de coisas esquecidas. Deu trabalho encontrar, especialmente a noite e no escuro. Valeu a pena! Uma dose e meia depois (tomadas com vagar), me sinto leve e pensando que vinho, doces ou felicidade são coisas que devem ser mesmo consumidas em pequenas doses. Prolongar o prazer que nos proporcionam essas coisas é eternizá-las em...Digamos, alguns dias, semanas ou meses...Quanto tempo dura a eternidade afinal? 


Acabei finalmente com a garrafa e não tenho doces, mas estou feliz hoje.  Vou tratar de poupar a felicidade desse dia, consumindo devagar e com extremo cuidado. E quando sentir que ela está acabando, vou tratar de guardar um pouco dela num canto da memória, de onde posso sacá-la em um dia de chuva ou quando a vida me dar novamente um limão e eu tiver que, na falta de açúcar, devorá-lo azedo mesmo. Com vagar... “Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso...”
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