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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A magnífica Emily Bronte - By Sahge


Tenho escrito alguns poemas que não me parecem estar ficando bons. Receio que eu tenha me tornado excessivamente aut-crítico em relação ao que escrevo, mas tenho sentido falta de postar poesias, por isso hoje eu gostaria de compartilhar estas de Emily Bronte. A obra dela é o que há de mais profundo em se trantando de poesias. Uma vez uma pessoa definiu a poesia de Emily como "gótica". Haja visto a profundidade da cultura gótica, considero isso um grande elogio, mas não sei se eu colocaria a força poética de Emily Bronte dentro do arcabouço de qualquer coisa que lhe dê uma forma. Prefiro pensar que o conteúdo dela é mais poderoso e é um ninho onde pode a alma repousar as cansadas asas.


ONDE, POIS ESTAVAS TU/ EIS QUE ESTAS DE VOLTA


Ah!Eis que estas de volta
Esta noite,
Para despertar ainda
O que eu julgava morto nos abismos do ser.
A luz aumenta;
De súbito, o coração ardente espalha
Sua luz vermelha.

Agora que vejo a palidez das tuas faces,
As grandes planícies dos teus olhos,
E que uma palavra mal se desprende dos teus lábios,
Adivinhei o curso estranho do teu sonho,
E poderia jurar que este vento triunfante
Dispersou para bem longe
As imagens do mundo,
E afastou do teu coração a imagem inoportuna,
Semelhante às flores de espuma que recolhe a onda.

E agora é um sopro do espírito
E tua presença e um dilúvio penetrante,
O raio que brame no meio das tormentas
E o suspiro
Final da tempestade que morre.

És o vasto encanto em que se embala
O universo, somente tu escapas
A sua fascinação.

A vida rebenta sem descanso de tua fonte poderosa
E sobre ti a morte já não tem nenhum poder.

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Onde, pois estavas tu?Em vão te procurei.
Um olhar brilhou, acreditei reconhecê-lo,
Mas em torno dessa fronte brincavam cachos negros;
O olhar cintilava como se fosse estranho astro
À minha alma extasiada.

E eu sentia meu coração, angustia de meus olhos,
Abandonar-se de repente à doçura de um sonho.
Tremia à idéia de saber seu nome,
E, no entanto eu me inclinava e esperava
Sua voz,
Esta voz que eu jamais tinha ouvido,
Que me falava docemente dos antigos anos,
E parecia despertar uma imagem longínqua.
Lagrimas subiam, e queimavam meus olhos.


Permaneci no limiar, imóvel, um instante.
Olhei a amplidão;
E vi o céu, e o circulo negro das
Montanhas.
A lua em meio a sua viagem em um claro navio
Vogando de alto bordo no oceano do espaço.
O vento passava como um murmúrio,
Estranhamente povoado de ecos e fantasmas.
E foi então que franqueei os muros
Da sombria prisão que me serve de lar,
E que eleva seu mistério sobre a planície vazia.


Oh!Vem, segue-me, dizia a canção de passagem;
A lua esplende bela nos outonos do céu
É tempo de vir.
Há muito esgotados por um trabalho inglório,
Os olhos e a cabeça pedem repouso.

Vem!

AGORA ESTA ACABADO

Ó, deus do céu, esta acabado agora!
Acabado o sonho horrível, o sonho de terror,
O coração partido, as áridas tristezas,
Os fantasmas da noite, a aurora plena,
E os dilaceramentos desse mal estranho.
A queimadura sem fim das lagrimas teimosas,
A queixa que suspira e lamenta cada lagrima,
E desborda e se arranca à sombria mansão.
A vida parecia fugir através dessas portas abertas,
Mas renascia sempre do mesmo desespero.
A noite branca e a garganta cerrada de angustia,
O ranger dos dentes e os olhos do medo,
E a eterna agonia dessa longa espera,
Quando, no escuro céu dos destinos
Implacáveis,
Não se via brilhar mais nenhuma chama de esperança.

As impacientes cóleras, os inúteis esforços para dissipar
Os sonhos que nunca deviam ter nascido!
E a alma esmagada pelos pensamentos, tonta, quase
A desmaiar sob a tortura,
Ate o dia em que o corpo se recusou a sofrer mais.
Agora esta acabado,
Sou livre.

O alto vento do mar me enobrece e me acaricia,
O vento, grande vagabundo das planícies ondulantes,
Que eu julgava perdido e sem esperança de volta.

Eu te bendigo, ó mar faiscante,
E tu esplendor arqueado,
E tu, universo, tu em que repousa minha alma!
Sede benditos... E minha voz desfalece.
Não é mais a tristeza que me cinge a garganta,
Mas sob a palidez das faces sinto uma fria magoa
Escorrer
Como a chuva que desce ao longo da planície.

Durante muito tempo este liquido molhou a minha
Prisão,
Gota a gota escorreu sobre a pedra úmida
E cinza.

As lagrimas me perseguiam ate em sonhos,
A noite, como o dia, me enchia de pavor.

E eu chorava também,
Quando a neve de inverno, através das grades
Rodava na tempestade.

Mas então, minha alegria se tornava mais serena,
Pois tinha medo de tudo nesta morte das coisas

O tempo mais amargo, o mais terrível,
Era quando o verão brilhava no seu esplendor,
E lançava nas paredes um clarão esverdeado
Que falava de planícies e ridentes bosques.

Muitas vezes sentei-me ate mesmo no chão gelado,
Contemplando no céu um efêmero
Clarão.
E minha alma sem ver as trevas reinantes,
Lentamente partia para as terras serenas.

Para a abóboda divina onde o céu triunfava,
Para o azul puro com o ouro das nuvens,
Para o teto paternal da minha antiga mansão,
Igual,
E, no entanto, tão velha aos olhos da memória.

Oh!Ainda agora
Eu as vejo voltar com enorme terror,
Estas paixões cuja onda subia com o mar,
Quando, cabeça baixa, sobre os joelhos,
Asperamente lutava para domar meus soluços.

Precipitava-me no chão com raiva,
E gritava, arrancando meus cabelos emaranhados;
Quando a rajada tinha levado sua asa para mais longe,
Eu permanecia no chão, muda e sem esperança.


Às vezes uma oração ou às vezes uma blasfêmia,
Sacudia num estremecimento
O deserto da minha língua.
Mas a palavra expirava sem despertar eco,
E morria no seio que vira seu nascimento.

Já então o dia agonizava nas alturas,
E a noite estancava os seus últimos clarões.
Minha desgraça emprestava a febre adormecida
A estranha forma e o espectro de um sonho,
E terríveis visões me forçaram a conhecer
Os imensos desertos da dor humana.

Mas agora está bem acabado;
Para que voltar a mesma vereda,
Meditar e chorar sobre sentimentos mortos?
Liberta-te dos ferros e repudia as correntes,
E preciso viver amar e sorrir de novo!

Os anos devastados, a mocidade perdida,
Sepultados para sempre no escuro do cárcere,
A dor que rói, as lagrimas sem esperança,
Deixa-as para sempre no abismo do esquecimento.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Relógios - By Sahge






Pode procurar em qualquer lugar...loja de artigos de colecionador, e-bay, sites de curiosidades e em nenhum destes você vai conseguir encontrar um relógio cujos ponteiros girem em sentido contrário. É sério.
Claro, é uma trivialidade falar ou sequer pensar em algo tão inútil quanto um relógio defeituoso... Mas nem por curiosidade alguém faria um relógio assim? Seria um artigo pelo qual muitos pagariam uma soma considerável.

Eu me lembrei de quando era criança e num dia, movido por curiosidade e atendendo um impulso, desmontei um despertador, um daqueles modelos antigos e infernais que anunciavam o nascer de um novo dia com uma algazarra que rivalizava a  do galos. Não consegui reconstruir (o que me custou uma bela surra. Eram tempos rudes aqueles...), mas do modo que o montei, deu-me a impressão (ou talvez seja uma falsa memória provocada por um desejo meu) de que os ponteiros efetivamente começaram a girar em sentido inverso.
Se pararmos para pensar, vamos concluir que essa coisa que chamamos de tempo existe apenas nos instrumentos que usamos para marcar os instantes que incidem entre as nossas batidas cardíacas e entre o nascimento e morte de estrelas. Dá no mesmo. Sem um relógio, mesmo alguém que possua uma mente prodigiosa, só vai conseguir ter noção de tempo através dos ciclos da natureza, o que é também exterior a nossa mente. E se uma coisa implacável como o tempo pode ser enclausurado num instrumento rudimentar como um relógio, um produto efêmero de efêmeras mãos humanas, então não seria maravilhoso imaginar um relógio que girasse os ponteiros em sentido inverso e fizesse-o voltar no tempo? Não seria magnífico poder usar o mesmo instrumento que nos diz quando devemos acordar, levantar, comer, dormir, viver e morrer, para voltar o tempo a quem sabe um bom momento, ou mesmo congelar-nos nele como em um quadro, uma tapeçaria milenar, onde seriamos sempre jovens, sempre uma promessa a se cumprir...?


E mais, se o mesmo instrumento que marca a passagem linear do tempo pudesse fazê-lo retroceder, seria divino poder  consertar o inconsertavel...Reparar erros, propiciar (finalmente!) encontros que não se deram, colher no ar palavras que foram e não deviam ter sido ditas ou libertar no mesmo ar aquelas que deixamos presas.  Um homem poderia visitar a si mesmo em sua infância e ser seu próprio pai. Poderia se reinventar e ser mil possibilidade dentro de uma vida, em vez de ser uma vida dentre mil possibilidade.  Devaneios de um fim de domingo onde uma “depressão pós-fantástico” se avizinha e uma semana linear, dentro de um tempo linear se inicia.


O fluxo do tempo controla nossas vidas e ele é inexorável...É claro que o fato de um relógio correr ao contrário não trará de volta o brilho a cores desbotadas pela ausência daqueles que nos eram caros...Mas se o tempo existe fora da mente, dentro ou fora dos relógios, a mente não reconhece aquilo que é alheio a ela e se permite vagar em direção ao passado e ao futuro e colher flores em jardins abandonados ou que ainda não foram cultivados... Isso é a memória...Isso é esperança

"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais.

Quando eu lhe dizia:
"- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada."
Você sorriu e disse:
"- Eu gosto de você também."

Só que você foi embora cedo demais

Eu continuo aqui,
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

Vai com os anjos! vai em paz.
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez.

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais

E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer.

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mais eu sei
Que você está bem agora
Só que este ano
O verão acabou
Cedo demais.
   (Legião Urbana)

Dia atípico - By Sahge


Semana passada, tive um dia que  foi dentre os meus dias ruins (uma vasta e tediosa coleção) o pior de todos. Não sei a frente no futuro. O pessimismo que tomou meu espírito nas ultimas semanas é tal que bem posso imaginar umas mil e tantas situações tenebrosas em que eu poderia desbancar aquele do posto de “pior dia da minha vida”.  Espanto esses pensamentos a golpes de música alta e muita sublimação. O passado já me dá angustias  demais e o presente perspectiva de menos para que eu me sinta em condições de tratar também do futuro. E, sobretudo pensar o futuro com uma sombra de pessimismo sobre os ombros.

O dia começou com um acidente de carro. 

Numa via de transito rápido uma motorista saiu da rotatória e entrou na frente do carro em que eu ia sem olhar ou dar a preferência.  O carro atingiu-a na lateral e o veículo dela foi arrastado uns cinco metros. Ambos os carros ficaram destruídos, mas, felizmente ninguém ficou ferido, o que em tempos mais amenos eu chamaria de milagre. Todos inteiros, a exceção de uma luxação na minha panturrilha que ainda está ardendo como o inferno.  Ainda não acredito, dada a força da colisão, que eu estou aqui vivo digitando isso. Esquisito...O acidente aconteceu num segundo, mas ainda posso ver a cena em câmara lenta. Vidro voando, o carro da motorista patinhando na pista, o barulho de metal se retorcendo, o cheiro forte de gasolina, a pressão do cinto de segurança quase me partindo os ossos e as buzinas de outros veículos sinalizando.O mais estranho é que na hora, não fiquei com medo de morrer. Vi a dama de negro passar bem pertinho e acenar-me, mas não tive reação alguma, nem receio nem expectativa. Correspondi ao aceno sem rancor ou simpatia. É possível estar tão letárgico que nem mesmo a pavorosa chance de virar picadinho de gente num acidente terrível possa causar uma comoção qualquer?


Só fiquei ali, sentado no meio fio pensando, olhando para os carros arruinados, que a vida é algo que se perde fácil...Só fiquei realmente assustado quando a senhora que estava no outro carro contou que havia acabado de deixar as crianças na escola. Teria sido horrível se ela ainda estivesse com os pequenos no carro e eles se ferissem ou morressem.  Acho que no fim das contas, pensando que poderia ter acontecido uma tragédia fora o prejuízo com o estrago e o aborrecimento com a seguradora, até que saiu barato (e nesse caso, embora toda vida seja preciosa, a vida daqueles que mal a começaram tem um valor maior quando posta ao lado daqueles que já tiveram tempo de realizar alguma coisa. Se alguém tem de se salvar, então que sejam as “mulheres e crianças primeiro”).

O dia que se seguiu foi tão tenso que ficou na minha cabeça a imagem de Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”  e fui tão e constantemente espezirritado (espezinhado e irritado) nesse dia pela vida, pelo universo, pelas pessoas e pelas circunstâncias, que confirmei para mim mesmo que as chances de que eu venha a me tornar um homicida um dia são mínimas. Dei provas de uma paciência (ou apatia) dignas de Jó. Suportei situações que fariam Ghandi ter uma síncope e o dia findou de um modo senão poético, no mínimo lírico, sem que com isso eu queira dizer que tenha sido agradável.  Embora o placar tenha sido de 1000 a zero para a vida, creio que eu mereço uma medalha por ter sobrevivido ao ontem. Passou, mas quer me parecer que o passado e eu sejamos irreconciliáveis. Ao menos por enquanto.

Fui para a cama com um exemplar surrado de “O Livro dos Sonhos” e pensando na obra de Gaiman, Sandman ( a minha favorita) pergunto; Se o Destino, a Morte, o Sonho, Destruição, Desespero, Desejo e Delírio são perpétuos, seriam efêmeros  o Acaso, a Vida, a Realidade, o Inicio, a Esperança, a Apatia e a Razão ?

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Centro do Universo

"O que eu fico tentando entender...É porque você está tão convencido assim de que é superior aos outros..."

"Ora, mas é muito simples! Eu SOU superior aos outros...A todos eles. Mesmo àqueles que considero melhores do que eu. Mesmo àqueles que vejo como gigantes. Me sinto superior a eles porque sou superior a eles, tanto quanto eles são a mim"

"Isso é um oxímoro absurdo! Não faz sentido algum considerar como gigantes aqueles a quem SENTE lhe serem inferiores.

"Quanto ao absurdo, fiz dele a minha vocação a muito tempo. Damo-nos bem, o absurdo e eu. E não, não é um oxímoro, mas uma verdade. E eu não disse que os outros são inferiores a mim. Disse que sou superior a eles (o que é diferente se você pensar a respeito) e essa é uma verdade. A minha!"

"De novo...Isso não faz sentido"

"Cuidado com isso.Perca a vida, mas não perca o sentido das coisas. Pense! Do ponto em que estou olhando, sentindo e vivenciando a realidade, o universo começa no meu umbigo  e se expande ao infinito e logo, eu sou o centro dele. Iso é verdade para mim e se você se atrever a pensar com honestidade e não temer uma censura por falar o que pensa, vai ter de admitir para mim que o mesmo se dá consigo. E com eles. Com todos os outros. Somos todos universos íntimos, andando lado a lado com outros universos. No dia em que eu morrer, tenho certeza, esse universo acaba, as estrelas se apagam e o mundo desmorona. Todos nós pensamos assim, bem lá no fundo, embora nos empenhemos com sinceridade em pensar e afirmar o oposto. Então, não é a vaidade que me move a afirmar que sou a criatura mais importante do universo, mas a convicção e a certeza de que só posso sentir amor pelo universo e por tudo o que ele contém, porque no intervalo entre nós, tenho uma noção muito profunda de EU. E me desculpe por considerar o meu coração como mais importante do que o seu, porque é com esse meu coração que te amo, meu universo..."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Caminhar para as estrelas - By Sahge

Eu ia postar um link para outro vídeo, um que homenageia alguém especial, uma alma única, mas não pedi, logo não obtive permissão. Por isso posto este, que adoro e que chegou a mim num momento e numa situação de que não quero falar agora. Assunto mais para o futuro...De todo modo, a música é linda e reflete o meu atual estado de espírito. 

Nós elaboramos certas coisas de modos que nos são peculiares e eu queria elaborar uma em especial com poesia e o farei no futuro. Mas no momento, não estou conseguindo escrever nada que preste, nada que traduza o que ando sentindo. Palavras podem ser traiçoeiras e nos trair e abandonar quando delas mais precisamos. Talvez.. 

Talvez eu esteja errado. Estou sendo injusto..Talvez as palavras estejam em algum canto da minha mente, mas se avolumam mais rápido do que estou conseguindo pensar e eu me encontre mais uma vez incapacitado para contraditoriamente organizar o meu caos. E eu quero que saia perfeito. 

O caminho era longo e fiquei perdido vezes sem conta. Pensei muitas vezes que havia chegado em casa e estava errado. Voltei, refiz meus passos e reencontrei finalmente o B 612, mas agora era apenas uma rocha vazia. Sem a minha rosa, não era mais o meu lar porque lar é onde mora o coração e o meu havia partido. Mas o aroma de suas pétalas ainda pairava no ar dando noticias de que um dia houve ali uma flor muito, muito amada.O mesmo aroma que me trouxe de volta, expulsou-me agora do meu planeta querido. Seria insuportável viver apenas de lembranças. Então, restam-me mais do que cinqüenta e três minutos para andar passo a passo, mãos nos bolsos, na direção de uma fonte.  Vou caminhar para as estrelas, vou andar por aí, porque quando se está perdido, qualquer direção serve...Talvez ela se tenha cansado (por maravilhosas que sejam, flores se entediam facilmente) e tenha voado com os pássaros. Se eu deixar de ter esta tênue esperança , então será como se todas elas estivessem apagadas realmente. Não sou mais pequeno e sem minha rosa, nem sou mais príncipe.

Estou para descobrir duas coisas que nunca vi em minhas viagens: Se podem as rosas voarem com ou como os pássaros e se não puderem, se pode um homem viver quando morre a sua alma.

Sem título...

É tarde e estou inacreditavelmente cansado, mas a despeito do corpo estar pulsando de fadiga, não consigo dormir. Parece nunca haver silêncio nesse bairro infernal onde vivo, mas justiça seja feita, mesmo o silêncio mais sepulcral seria incapaz de me fazer dormir agora. Tenho tido problemas para cair no sono com muita freqüência. Creio que é porque eu não desejo sonhar. Não mais. Eu gostaria de ter pesadelos... Terríveis, assustadores, do tipo que me fazem acordar suado e gritando, do tipo que já não tenho há muito tempo... Pesadelos em certas ocasiões podem ser infinitamente mais proveitosos do que sonhos. É só pensar que se você sonha, por exemplo, que encontrou uma mala cheia de dinheiro ou que ganhou na loteria, é um sonho maravilhoso, mas ao acordar, você  se dá conta de que na verdade, não tem dinheiro nem para pagar a porcaria do cheque especial ou pior, está desempregado e sem perspectiva.  Hoje estou com um pavor enorme de sonhar e acordar para uma realidade que parece um perene pesadelo.


Pesadelos são diferentes...Você enfrenta todo tipo de monstro ou situação terrível e quando a manhã chega, respira aliviado e sua realidade se torna mais colorida, ou pelo menos,menos cinzenta.
Como se pode brigar com o imaterial? Com o tempo e com a imutabilidade de certos eventos? Com a terrível, com a pavorosa consciência de que não se pode mudar o que passou?


Estou realmente cansado e nada do que escrevo agora está em completa sintonia com o que penso, como se eu pensasse em sânscrito e digitasse em grego. Creio que eu esteja entorpecido de angustia e de sono. Possivelmente amanhã estarei em condições de ser pelo menos metade do que sou...Pensar que algum dia serei íntegro novamente é ser iludir-me e eu perdi esse hábito já há algum tempo. Mas hoje, sinto uma falta enorme da minha antiga e defenestrada capacidade de iludir-me, de acreditar em certas coisas que a tantos servem de consolo.


Amanhã... E essa é a beleza do amanhã. Não posso prevê-lo, mas posso planejá-lo. O amanhã admite esperança, enquanto ao ontem reina o mais amargo desespero. Hoje não há nada que eu odeie mais do que o ontem inexorável, porque ele e seus eventos se estendem se insinuam ao futuro.  
Eu estava... Estive o dia inteiro com a cabeça fervilhando de pensamentos, mas não tive sequer um momento para pô-los em ordem e arrancar algum sentido nesse redemoinho mental onde fiquei como uma folha seca ao vento.  Agora que estou finalmente tendo tempo, me descubro vazio de palavras e de sentido.  So consigo estar e escrever mais confusamente do que de costume sem que isso seja uma virtude, como costumo considerar sempre. Para onde foi tudo aquilo que me fervilhou no espírito hoje?  Estou triste além do suportável, furioso contra algo que nem mesmo sei nomear...Talvez o Universo ou o destino ou qualquer outra força metafísica em algum lugar, anjos ou demônios, forças de qualquer natureza que provocam ou permitem desastres como a perda de...Também não sei nomear. Não hoje.


Eu olhei demorada e apaixonadamente para o abismo e torci, ansiei que o abismo olhasse de volta, mas ele não vai me retribuir o olhar. Por mais que eu queira.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Uma frase que deixei perdida numa esquina de BH -By Sahge



"A apenas um receio ainda submeto a minha liberdade; o de ferir, de que modo for, aqueles que amo."

Os Meus Amados Inimigos



"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados".
                                                                                Heinrich Heine
Talvez não seja um habito razoável, mas gosto de escrever cartas aos meus autores favoritos ou a outros cujas obras me emocionem ou me atinjam de algum modo comentando trechos de sua obra. É um tanto ousado, para não dizer que é uma tolice de minha parte, uma vez que não envio tais cartas e a maioria desses autores já morreu. É apenas um modo de demonstrar apreço ou dissecar o efeito que teve em mim tais obras. Hoje me ocorreu de enviar uma ao grande  Heinrich Heine, comentando a sua poesia acima que muito me impressionou.

Julho, Inverno de 2010
Caro Herr Heine
Eu deveria começar dizendo que não tenho palavras para expressar o meu apreço por sua intrigante poesia, mas isso, além de uma gabolice que deve cansar a vista de um escritor, seria uma inverdade, posto que tanto tenho, que delas farei uso para atrever-me a fazer algumas considerações. O senhor naturalmente não me conhece, portanto não estou no direito de fazer qualquer censura as suas palavras que diga-se, são a expressão de uma inquietante verdade. No entanto, tenho de indagar; 
Se o senhor foi  honesto o bastante para confessar o desejo, por muitos tomado como repreensível, de ver enforcados os seus inimigos, ora, porque não fez uso desta mesma honestidade para admitir que, não, não lhe bastaria apenas uma cabana humilde e boa comida, mas agradar-lhe-ia em muito em vez disso, habitar o mais esplendoroso palácio de prata e cristal, tendo a sua disposição um lauto banquete servido por um batalhão de bailarinas?

Certo... É bem possível que se trate mais de um desejo exclusivamente meu e que minha prepotência atribua igual anseio a todos os homens e que o senhor seja de uma estirpe menos mundana, porem, não consigo entender por que diabos iria um homem contentar-se com uma choupana quando poderia muito bem dispor de todo um reino, caso lhe fosse oferecida a oportunidade de escolha!  Eu de minha parte, não julgaria mal o seu caráter caso tivesse demonstrado um desejo inicial mais de acordo com a índole humana, como o senhor fez magistralmente em sua conclusão e me sentiria menos desconfortável por ter de ver-me em posição inferior, de homem ambicioso e fútil que almeja sonhos de grandeza enquanto ao senhor que é um totem entre gigantes, tão pouco bastaria. Mas é evidente que ao forjar a sua perturbadora e genial poesia, o senhor de modo algum estava interessado nos sentimentos de anônimos admiradores de sua obra, dentre os quais me incluo. Deixemos de lado.

A parte a humilhação minha por ter de confessar-me um homem cobiçoso de coisas que talvez sejam futilidades, também fiquei desconcertado quando imaginei-me em seu lugar, tendo prontamente atendido o meu íntimo desejo de levar ao cadafalso os meus inimigos.  O primeiro fato é imaginar que Deus me tenha em tão alta conta que vá, a guisa de fazer-me feliz, pendurar pelo pescoço seis ou sete pessoas, desconsiderando o fato de que elas dificilmente estariam tendo a sua felicidade realizada em tal posição. Eu teria de ser um prodígio e valer mais do que sete pessoas, um elemento dentre o universo da humanidade por quem o Criador tivesse um afeto e consideração excepcionais. Porém minha constante e severa avaliação de mim mesmo me impossibilita de iludir-me a esse respeito. Nunca fui um santo ou um homem dotado de virtude piedosa. E se há uma sorte de homens assim, supondo que o senhor se inclua nessa confraria de portentos, livre-me Deus de estar contado dentre os inimigos de tais homens! Estaria eu contado dentre os seis ou sete dependurados nas belas árvores em frente a sua porta. A minha consternação seguinte está no fato de que nunca soube com exatidão quem eram os meus inimigos, com exceção de um.  Veja o senhor que ainda hoje andei lendo um sábio conselho que há muito me persegue: Cuidado com o que desejas, pois podes acabar o conseguindo.

Conselho valioso e sábio e atento a ele, não posso deixar de imaginar que baseado no conhecimento do meu desconhecimento acerca de quem são os meus inimigos, eu possivelmente tendo um tal desejo atendido, veria ali seis ou sete das pessoas a quem mais tenho amado nessa vida. Oh, não é exagero imaginar cena tão dantesca, porque o único inimigo que conheço e reconheço em qualquer campo de batalha, aquele que trabalha para a minha ruína noite e dia e com quem tenho me batido há muitos e cansativos verões em guerra aberta é o meu coração estúpido. Esse, herr Heine, é o único inimigo que eu gostaria de ver pendurado no cadafalso, supondo é claro, que eu poderia viver sem as suas batidas infernais dentro do meu peito. Como sei que a coisa não se dá assim, teria de contentar-me com as belas árvores unicamente por sua sombra e flores ou frutos e pela força de seus troncos e galhos onde poderiam pousar os meus corvos.

Inimigos não são tão facilmente identificáveis porque constantemente estamos esperando destes uma adaga fria na noite, uma flecha a nos fender o fígado ou o sabor amargo do ferro quente, mas nunca um beijo, um afago ou uma palavra amiga. Seis ou sete dos meus amados pendurados pelo pescoço não é cena que eu gostaria de ver e nem completaria a minha felicidade. Primeiro porque, sem inimigos imagino que a vida de um homem deva ser menos desafiadora e embora eu já não seja tão jovem, me apetece um bom desafio, uma luta em que triunfar ou tombar em glória e coragem ( Como vê, não abandonei totalmente o idealismo da juventude). E em segundo, porque seria trespassado por dores agudas ao descobrir que aqueles a quem dediquei amor, abstinência e abnegação e muitos dos meus pensamentos são justamente as pessoas que mais se empenharam para que eu permanecesse infeliz.  Posso muito bem perdoá-los sem que para isso tenham de morrer, porque inimigos ou não, são pessoas a quem amo e se inimigos se mostrassem... Diabos! Não seria dar-lhes a vitória final sobre mim, causando-me com sua morte brutal uma dor profunda a  que meu coração estúpido que não sabe diferenciar amigo de inimigo iria fatalmente me submeter?  Há coisa mais patética do que sofrer pelo inimigo enforcado? Há coisa mais terrível que descobrir que amou quem em secreto te odiava?

Ah, se ao Criador (por compaixão ou por diversão ou por simples tédio, posto que por merecimento dificilmente me concederia alguma graça) aprouvesse fazer-me feliz, seja numa choupana com teto de palha ou num palácio de prata e cristal, deixaria meus amados, meus muito amados inimigos vivos, mas penduraria pelas artérias,( já que pescoço não possui) o meu coração estúpido e me permitiria viver sem ele. Talvez eu não criasse mais, talvez eu nem mesmo tivesse algo como um arremedo de vida, mas é possível que tivesse algumas boas noites de sono.  Bom outono para o senhor e parabéns pela bela e incômoda poesia!

Atenciosamente
Sahge.

PS: Caso o pedantismo e atrevimento de minhas palavras o tenham exasperado além do humanamente suportável, peço desculpas e renovo a minha estima e consideração mesmo se  o senhor, justamente movido pela irritação mandar-me ao inferno, advertindo-lhe contudo que é inútil fazê-lo. Sou um poeta, mein freund. Já vivo no inferno há algum tempo e acostumei-me a esta vizinhança.

A Roupa Nova do Imperador - Uma Metáfora




“Esqueça o conto de fadas, garoto. A coisa não terminou como contam na história. 
Eu estava lá, na segunda fila, suportando o calor e o aperto da multidão quando o maldito imperador resolveu exibir sua roupa miraculosa. Ora, corria o boato, espalhado pelos serviçais do palácio, de que a roupa era a coisa mais grandiosa, mais sublime que os olhos humanos podiam contemplar e todos os serviçais asseveraram que a qualidade do tecido e a riqueza dos detalhes eram algo digno da magnificência de um imperador. Só numa coisa não concordavam: Quanto a cor e a forma da roupa. Uns diziam que eram tons de azul e outros asseguravam que era verde água e outros garantiam que era das cores de todo o arco Iris. E ainda, que a roupa possuía um componente mágico, pois só os inteligentes e os astuciosos poderiam admirar lhe a beleza e os estultos e fracos de caráter nada viam. Diabos me levem garoto! Sou um homem capaz de certa...como é mesmo o termo que você vive me enfiando orelhas adentro? – Auto-análise! Sei muito bem que não sou um estúpido completo e saber que também não sou um sábio, faz-me mais inteligente do que aqueles que afirmam e reafirmam a própria sabedoria. Mas quero morrer fulminado por um raio se ao entrar na praça da cidade, precedido de pompas e fanfarras, o funesto imperador não estava nu como veio ao mundo!”


“Ora, ali estava o velho bandido, todo galante segurando o cetro numa mão e a outra erguida num gesto teatral, tendo as partes pudendas a mostra de quem quer que olhasse em sua direção. Andava com o garbo e a segurança de quem está vestido de gala e merecesse por isso toda a admiração.”


“Meu primeiro impulso foi o de duvidar da minha sanidade junto com a minha inteligência. Seria eu o único estúpido naquela matilha de miseráveis que se acotovelava para ver o imperador desnudo? Seria eu o único a ver que o imperador estava nu? Tirei os olhos do espetáculo lamentável que era aquele corpanzil desprezível andando pelado e comecei a olhar a multidão a minha volta. Mais de uma jovem donzela enrubesceu até as orelhas quando o imperador surgiu na praça, os olhos de toda a multidão ficaram esbugalhados como se não acreditassem no que NÃO estavam vendo. A perplexidade e o desconcerto diante da verdade que se apresentava eram evidentes em todos os olhares e podiam ser resumidos no seguinte fato: Ou o rei estava realmente nu ou todos naquela multidão eram uma camarilha de completos imbecis! E qual não foi meu choque quando desviando a atenção dos olhos para as vozes, ouvi comentários entusiasmados como:


-Mas que cores magníficas!


-Repare nos detalhes das mangas! Que primor!”


“E logo, toda a multidão estava comentando sobre a maestria com que fora feita a inexistente roupa do imperador, mesmo os olhos dizendo o oposto e todos, ou evitando olhar na direção de uma verdade desconcertante – “Eu dentre toda essa multidão sou o único estúpido, porque não consigo ver a maldita roupa do imperador”- ou concentrando a sua atenção com um ar de escárnio nas partes e formas ridículas do imperador. Ora, a tarde estava fria e nem mesmo o fato de o imperador estar tiritando de frio - natural, uma vez que estava nu- fez com que aquela turba se desse conta de que não havia roupa alguma. E quanto mais duvida sentiam, quanto mais seus olhos negavam a existência de uma roupa que cobrisse a miserável vergonha de nosso soberano, tanto mais se empenhavam em convencer aos outros e a si mesmo de que existia uma roupa e que ela era magnífica. E tinham gente ali que estava tão convencida da própria inteligência que sou capaz de jurar pelo céu e inferno que realmente estava vendo uma roupa cobrindo a pele esverdeada do velho patife. Sempre subestime a inteligência alheia, garoto, mas nunca a ignorância.”


“Bem, a coisa ia desse modo, ninguém vendo roupa alguma, mas todos pasmos, apalermados com o garbo e elegância do imperador nu e todos em secreto, mortificados com o fato de que aparentemente  não eram inteligentes, mas sem coragem de falar qualquer coisa que os denunciasse como tolos. Eu já estava para sair dali e livrar-me da obrigação de assistir ao duplo e triste espetáculo encenado por um rei parvo e desnudo e uma multidão que duvidava de sua própria inteligência para endossar a imbecilidade alheia, quando o garoto gritou:

- O rei está nu!

“Todos olharam para o pirralho. Eu já o conhecia. Ficava sempre ali pela cidade importunando as pessoas com perguntas que elas não sabiam ou não queriam responder. Uns o chamavam de Nicolau Copérnico e outros de Charles Darwin e outros ainda de Sigmund Freud. Bem, o fato é que o tal Freud, por ser um menino ou por ser um pouco mais corajoso (já que havia outros meninos na praça e apenas ele teve coragem de denuncia a nudez do rei) gritou para quem quisesse ouvir- O rei está nu!- ou se preferir, “o homem está nu!” E como reconhecer a nudez do rei seria reconhecer a própria estupidez - uma vez que até que o menino gritasse, todos ali estavam elogiando a roupa nova do imperador - diferindo do conto de fadas, o fato é que o tal do Freud foi espancado pelo pai que o pôs a correr da praça a golpes de cinta. Pensa que o moleque se intimidou? Ora, o capetinha saiu correndo sim, mas continuou gritando enquanto o fazia? “O rei está nu! O rei está nu!”. E seu pai o perseguiu para uma ou duas pancadas adicionais, mas Freud escapou pelas vielas da cidade continuando a gritar a nudez do homem. Um silêncio mortal se abateu pela praça e o imperador que até então andava em tranqüila confiança, se apressou a entrar no palácio. Nunca mais exibiu a sua roupa maravilhosa e depois de Freud mostrar que o homem estava nu, ninguém mais ficou confortável em relação à própria inteligência ou tolice. Que menino infernal! “


“Essa, ao que me lembro, foi a primeira vez em que duvidei dos meus sentidos e da minha inteligência, mas para ser honesto, acho que foi mesmo a primeira vez em que me dei conta da dúvida. Você pode até me olhar com esse ar de reprovação, garoto, mas pense por um minuto e responda para si mesmo. Se você estivesse lá, teria coragem de dizer para todo mundo o que seus olhos e seu bom senso lhe mostravam? Se tivesse, provavelmente fariam a você o que fizeram com Freud, Darwin, Copérnico, ou seja lá que diabo de nome tenha aquele moleque. Quanto a mim, sou um velho cínico sem vocação para mártir. A estupidez dos outros não me incomoda e já tenho trabalho demais em lidar com a minha própria.”

Reminiscencias de uma carraspana 2 - By Sahge



Eu não bebo
Pelo sabor do vinho ou para debochar da fé
Mas para esquecer, nem que seja por um momento
De mim mesmo”


Lastimo não me lembrar de onde li isso e de quem é a autoria, mas recebo com certo impacto e a devida reverência a totalidade do significado desses versos. Um brinde ao autor!

Já comentei, até recentemente pelo que me lembro, de que evito beber. Tenho razões várias e até então, não tenho motivo algum para arrepender-me de estar me privando dos deleites etílicos, embora se comparado com outro tipo de embriaguês, recomendo a todos, como um remédio do qual não faço uso. Não fazia.
Bem, estava ali no fim de tarde com alguns amigos, gente paciente que por longos anos tem suportado como cabe a bons amigos, a minha obstinada abstemia. Fico sempre desconcertado tentando entender para onde vão tantos litros de bebida, porque até onde sei, a cavidade estomacal do seres humanos tem lá seus limites embora minhas observações digam o contrário. Bebiam como se toda a bebida do mundo estivesse acabando e eu bebericando um copo de refrigerante por horas a fio. O chato em ser o único de uma turma na mesa de um bar que não bebe, é que à medida que o álcool sobe pelas têmporas  do grupo, você acaba se tornando, por ser o único a estar sóbrio, ininteligível. Ninguém mais compreende o que você fala e você fica ali, sozinho na multidão, privado do conforto da irmandade (porque a tribo dos “pinguços” é muito irmanada), afastado da afável confraria etílica.

Sei lá porque nesse dia resolvi mandar ao diabo toda a minha prudência em relação ao álcool e resolvi acompanhar  o grupo. “Uma cerveja, faz favor!”.  
Detesto o sabor de cerveja e de outras bebidas, principalmente as “secas”. O fato de todo mundo falar que “é uma delicia” me leva a concluir que deve haver algo de muito errado com meu paladar. Penso intimamente: “ Eu sou um ignorante ou isso aqui é mesmo uma porcaria?”


E como o sabor daquela cerveja estava longe de ser o que eu definiria como “delícia”, tomei de uma vez, como se fosse remédio. Não precisei de muita para ficar completamente embriagado, porque bebedores de ocasião são “fracos” e a relação dose/embriaguês é relativamente desproporcional. Em resumo, fiquei bêbado “como  um gambá” com uma quantidade ridícula de bebida.
Antes que eu passe às minhas impressões sobre o meu estado de embriaguês, permitam-me contar que ao que me recorde, fiquei bêbado por duas vezes, mas foi há tanto tempo e os resultados foram tão negativos (física e moralmente falando) que tenho destes episódios lembranças muito vagas, talvez por tê-las  bloqueado em função dos maus resultados.


Levantei-me para ir ao banheiro (ritual que os bebedores executam diversas vezes quando em culto etílico) e senti imediatamente o chão sair de debaixo dos meus pés. Não vou perder-me em descrições fisiológicas do meu estado, porque considero isso desinteressante em comparação com minhas outras impressões. Então...Uma pequena dose de “filosofia de buteco”.

Bêbado...
O mundo se torna repentinamente mágico e dores que eu nem sabia que tinha (ou são tão freqüentes que já não as noto) desaparecem. Fico desorientado e me parece estranho pensar que o que me orienta seja justamente a união de todas essas dores. Olho para os lados e acho que todo mundo que está a minha volta é lindo. Como as pessoas são bonitas quando estão alegres!  Não tinha me dado conta. E de repente, amo todo mundo e se já odiei alguém, me parece absurdo que o tenha feito e gostaria nesse momento que essa pessoa estivesse ali comigo para nos reconciliarmos em volta daquela mesa. Um brinde!


Rio como um desvairado de qualquer tolice, mais pelo prazer de rir do que pelo significado do que foi dito. Esqueço-me do significado. Esqueço-me de lembrar qualquer coisa. Esqueço de que existe coisa como lembrança  e falo alto e em bom tom tudo o que me vem à língua, porque à cabeça, nada me vem, exceto talvez aquela sensação agradável de que o mundo é um carrossel, um caleidoscópio maravilhoso. Tudo o que tenho vontade de fazer eu faço, porque me parece absurdo não atender aos meus desejos. Que é conseqüência? Estando amparado pela perfeita desculpa de estar completamente bêbado, atrevo-me a destilar amores. De repente, eu amo todo mundo, até a quem odeio e especialmente estes.

Bêbado...
A alma não dói (não mais), a mente não mais fervilha. Desfaço-me de angustias com uma facilidade absurda, que nem em vinte anos de análise daria conta. Analiso o mundo pelos meus sentidos. Que há além do que podem eles perceber?  De repente me sinto despossuído do dom de mentir e me torno um livro aberto (coisa assustadora e possivelmente acarretará graves conseqüências) , não pela expectativa da reciprocidade, mas porque me parece natural fazê-lo. Amo, e descubro para a minha surpresa que também sou amado e recebo tal amor com a mesma naturalidade com que recebo mais um copo. “ Mais um copo!”
Arrisco-me pelas ruas e tenho uma crise de risos cada vez que sinto a Morte dançar perto de mim. Buzinas, faróis e gritos: “Saia da rua seu louco!”

Bêbado.
Como um desvairado num carrossel em giro lento. Dentro de mim, como que encarcerado numa jaula invisível, o meu bom senso se debate como um animal. Grita, esperneia, mas o ignoro. Todos os chatos têm de ser ignorados. “Amanhã, é certo que vou ficar extremamente constrangido”, digo a alguém que um impulso vindo sei-lá-de-onde, levou-me a ser mais carinhoso do que permitiria meu bom senso engaiolado, mas no momento não me parece importante. Eu quis fazer e fiz. Que há de constrangedor nisso? Que ha de constrangedor em decidir por um minuto não mais violentar a sua vontade? A vida é curta, a noite é longa e BH não tem mar, mas tem bar, portanto...

Manhã seguinte, a ressaca foi o menor dos meus problemas. (mentira! A ressaca foi o maior dos meus problemas!) Não fiz nada que não tenha conserto ( a não ser que eu esteja sofrendo de amnésia etílica. Muito comum em casos de abstêmios que enfiam o pé na jaca.) e cheguei intacto em casa. Mas recordando-me da sensação de liberdade... liberdade da angustia e de outras coisas pelas quais passamos a vida em luta constante, compreendo melhor as pessoas que bebem.  E tive impulsos de fazer a solene e sagrada promessa de nunca mais voltar beber, mas estou um pouco receoso quanto a fazer promessas, portanto,  em vez de tomar decisões, tomo um analgésico, porque minha cabeça está explodindo. E fico indeciso se estar bêbado é um modo de roubar artificialmente um pouco de felicidade num mundo de dor ou apenas mais um modo de ser mais estúpido.







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