sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Entre o Templo e o Arrudas




Acendi a mirra e a vela e recitei o pouco que eu me lembrava de como seria  uma oração. “Deve passar”, pensei...

Soou mais ou menos como um memorando de Departamento Pessoal, mas foi o melhor que pude fazer nas minhas circunstâncias e creio que Deus já me conhece o bastante para perdoar a minha fervorosa falta de fé.

E eu não vou antagonizar quem pode, a qualquer momento e por razões que eu nunca vou compreender me vaporizar com um raio ou coisa que o valha.
Não que isso importe.

Parece-me muito mais glorioso morrer fulminado por um raio do que atacado de sífilis ou hérnia de disco, supondo-se que alguém ainda morra de sífilis ou que hérnia mate ou mesmo que haja glória em algum tipo de morte.

E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas e talvez desenvolvendo um ignorado tumor que dia desses me dará cabo da raça, conjecturando a natureza do divino e me sentindo um rematado tolo por estar orando para divindades nas quais nem mesmo acredito.

Certo...Eu sei que estou pensando demais na morte, mas o que você queria? Templos religiosos não são sempre uma droga de lembrança de que vamos todos morrer?.
Caramba!
Que pensamentos para se ter ajoelhado diante de um altar!

Não sei o nome da divindade, santo ou seja lá o que era aquela imagem levemente andrógina para quem  dirigi preces. Eu deveria ter arrematado o meu arremedo de oração com um “a quem interessar possa”, mas claro, minha irreverência tem o limite exato da autopreservação.
Nem mesmo sei que raios de templo era aquele  em que entrei. Não sei de nada.  Apenas sei que prometi rezar e apesar de saber que muitas coisas estão além das minhas lágrimas ou orações, eu sei também que ainda estou próximo demais da droga da minha consciência que não me permite quebrar uma promessa. Lembre-me de nunca fazer promessa para não ter que ser tentado a quebrá-las

Gostei da calmante luz de velas e o sacerdote até que foi bem simpático e entendeu sem que eu precisasse dizer que eu queria ficar sozinho. Isso foi bem constrangedor...Não gosto de sacerdotes e não queria simpatizar com aquele. Fazer-se simpatizar contra a minha vontade foi uma violência por parte daquele padre, pastor, rabino ou seja lá o que ele era e eu fiquei irritado por ficar pensando nele com simpatia.

“Que droga estou fazendo aqui?”

Pedir alguma coisa aos deuses me parece como comprar alguma coisa  naqueles sites que nunca te entregam o que você comprou, mas te mandam um monte de emails justificando a demora. “Nós só queremos o seu bem estar, e o de sua família”.
E sem SAC  ou 0800 para reclamar!

Ainda assim usei todo o fervor de que dispunha, o que não era muito. Gastei boa parte da minha energia numa inútil discussão de trânsito pela manhã. Entre uma conta  e outra do japamala (ou terço..não se a diferença) ocultei durante todo o tempo em que estive ali em devoção, o que eu realmente queria dizer a Deus. Mas aliviava a minha consciência saber que ele sabia que todos ajoelhados ali evitavam pedir o que realmente lhe ia ao coração. Era estranho pensar que eu estava irmanado àquelas pessoas devotas justamente em minha falsidade litúrgica.

Não tenho fé do tamanho de uma semente de mostarda para pedir algo aos deuses, mas a tenho do tamanho de uma montanha para jogar uma moeda no arrudas e fazer um pedido.
Terminei o que fui fazer ali e na saída pedi ao santo ou divindade entalhado em gesso pintado de bronze, que se não pudesse por qualquer motivo me atender no que eu havia pedido, pelo menos me desse a graça de jamais permitir que eu me ajoelhe novamente diante de um altar.  Se não me atendesse em ambos os casos, poderia ir pro inferno. Ou me mandar pra lá. Pouco me importava...

Só para me certificar, na saída parei em cima do Boulevard Arrudas e gastei uns oito minutos revirando os bolsos atrás de uma moeda....