domingo, 4 de setembro de 2011

Sobre Um Vídeo que Não é Engraçado Porque é Trágico




Algumas pessoas que tem a paciência de ler as minhas psicodellias costumam pensar, dada a natureza...densa daquilo que escrevo, para usar um termo menos auto-elogioso,  que sou um tipo de sujeito sorumbático e circunspecto demais. Isso não chega a ser uma verdade, embora eu seja mesmo um tanto inclinado a longos momentos de olhar cravado no vazio. Mas quem me conhece de perto sabe bem que sou muito bem humorado e até mesmo debochado em demasia, o que me tem valido doses cavalares de ressaca moral por causa do meu sarcasmo ácido. Eu não sei qual é a função do senso de humor dentro da evolução da nossa espécie, mas penso que talvez seja o mais rudimentar recurso de sublimação de que o homem dispõe.
É preciso uma boa dose de humor para não enlouquecer diante das constantes adversidades da vida.
Eu confesso que não compreendo a maioria das piadas que me contam. Eu devia experienciar essas pequenas anedotas em vez de psicologizá-las, mas o conteúdo é quase sempre sobre, preconceitos de muitas ordens  (raciais, de gênero ou orientação, nacionalidades e até cor de cabelo e a lista de preconceitos idiotas segue) e sobre situações do quotidiano  que seriam trágicas se vividas por aqueles que contam a piada, mas são cômicas por estarem na categoria de “no olhos dos outros é refresco”.

 Uma vez uma amiga me enviou uma dessas piadas que circulam pela net. Era algo com o título “ agora é a vez das mulheres” e continha uma pequena lista de vinte tiradas como:
Como se chama um homem inteligente, sensível e bonito?
R.: Boato.


 Qual a semelhança entre o homem e o caracol?
R.: Ambos têm chifres, babam e se arrastam. E ainda pensam que a casa é deles.


Por que não existe um homem inteligente, sensível e bonito ao mesmo tempo?
R.: Porque seria mulher.


Esse tipo de email não requer resposta, mas acho que uma pessoa educada responde até a spams. E foi na boa educação que respondi agradecendo a minha “amiga” sua espirituosa mensagem, deixando claro que muito me lisonjeava que ela pensasse em mim quando lesse sobre as atitudes estúpidas dos homens. Isso certamente fazia muito bem a minha auto-estima e me mostrava o quanto ela me apreciava.
Disse a ela que embora fosse do meu agrado retribuir a gentileza e que naquela mesma semana eu tivesse recebido um email semelhante do mesmo teor ridicularizando as mulheres (deixei entre parênteses a observação de que, diferente do email que ela havia me enviado, o sobre as mulheres tinha não vinte, mas cerca de quarenta tiradas “cômicas” sobre as mulheres, o que me levava a pensar que os machistas eram superiores  quando o quesito era criatividade para piadas sexistas), não o enviaria a ela por me achar, moral, filosófica e até espiritualmente impedido de propagar pensamentos com os quais não concordava. Mas compreendia e a felicitava por não ter impedimentos semelhantes.
Sou um estúpido...
Esse tipo de atitude faz com que eu freqüentemente me surpreenda por ainda ter amigos. Sou um sujeito desagradável e ranzinza quando não entendo a piada, ou talvez quando entendo o que há por detrás dela. Sei lá se piadas sexistas, racistas ou de gênero contribuem de algum modo  para melhorar o já difícil diálogo entre homens e mulheres, homossexuais e héteros, negros e brancos e outras tribos que se digladiam. Como eu disse, sou um estúpido. Não entendo piadas.
A ultima que me contaram na verdade não chega a ser uma piada contada, mas um vídeo que está circulando no youtube e em redes sociais.  Ajudem-me nisso. Preciso compreender.

Uma adolescente, pouco mais que uma menina. Magrinha, joelhos salientes e cabelos desgrenhados, dança funk em frente a TV. A sala é humilde pelo que se pode observar pela imagem e a garota rebola, gira e faz aquele tipo de coreografia que se supõe, seja algo...voluptuoso.  De repente uma senhora entra na sala com um prato de comida na mão censurando  a garota: “isso é que é música de Deus, né fulana?” E junto com  a censura, tenta agredir a garota que escapa e  se justifica dizendo que se trata de um ensaio para a escola.

 A senhora continua xingando a menina, chamando-a de “sem vergonha” e coisas assim e o tempo todo falando em Deus. A garota parece assustada, mas se aproveita que a senhora, ainda no quarto se distrai e começa a dançar freneticamente diante da câmera (enquanto a senhora ainda continua a xingar) e termina a filmagem com um rugido e uma careta de raiva para a câmera.
Sou mesmo um estúpido! Não entendi nada. Não vi nada de que eu pudesse rir. Nada! Menina pobre dançando funk.
Funk! A coisa mais desprezível,  abjeta e grotesca que a nossa cultura já engendrou (sinto muito pelos que gostam desse lixo, mas já deixei a política de boa vizinhança muitas linhas e noites insones atrás). Uma menina que parece auferir alguma auto-estima dançando um estilo de musica cujas letras são um ultraje à dignidade das mulheres (e também dos homens em outra medida mas a misoginia nessas letras é escancarada ).
Uma mãe(?) que entra com um prato de comida numa mão, uma pancada na outra e Deus na ponta da língua como um flagelo  na ponta de um chicote. De que te ris?
Eu vejo o trágico, mas onde está a graça?
Uma garota equilibrada entre uma educação repressora ( e pelo jeito, violenta)  e uma cultura que ao mesmo tempo destaca e vulgariza a sexualidade. Uma garota pobre esmagada psicologicamente pela cultura do seu meio por um lado e pelas pancadas religiosas da mãe de outro. De que te ris, caramba!?
Tem uma graça ali que me escapa, talvez porque eu seja um estúpido  ou talvez me falte o neurônio “humoris sórdidus”, sei lá...
O que eu sei, é que o ato da menina dançar furiosamente nas costas da mãe, numa atitude clara de raiva (ou desespero)  e rebeldia, me faz pensar se ela não vai dali em diante tentar se libertar desse julgo fazendo sempre aquilo que sua mãe (ou avó, o vídeo tem o áudio ruim, então estou na dúvida) diz que não deve fazer. Ela vai querer se afirmar. Vai se meter num monte de encrenca e encher mente e corpo de cicatrizes. Vai colher os frutos de uma educação burra que não acolhe, que não ampara e que a está lançando nesse lodaçal absurdo que é a cultura de massa. Essa menina, ao contrário do que se pode pensar, não é menos esmagada pelo funk que estava dançando do que pela mãe e eu não sei qual dos dois está fazendo mais estrago.
Talvez alguém argumente que a própria menina postou o vídeo e deve rir muito dele, mas esse tipo de argumento não me tira a impressão de que se é assim, então o estrago feito pelas pancadas físicas, morais e religiosas em parceria com a nojeira ideológica que é essa aberração que chamam de funk, já fizeram um estrago maior do que eu pensava. Agora a própria garota está  “se espancando”.
Não sou hipócrita.
Gosto de rir de banalidades tanto quanto qualquer. Quando assisto a TV, a única coisa que me arranca algumas risadas é o CQC (é bem divertido:) e assisto a alguns canais no youtube cujo conteúdo humorístico é no mínimo duvidoso. Mas me recuso, tendo identificado o trágico numa situação, a ser impiedoso. Muito melhor ser estúpido a ser impiedoso.
O que eu sei é que prefiro continuar estúpido, incapaz de rir do trágico, porque talvez seja uma falha no meu caráter, mas  ainda me arde o que é lançado no olho do outro, porque é com esse olho que ele me vê.
Alguem aí sabe alguma de papagaio?

9 comentários:

Pandora disse...

Eu não acho que vc seja "um tipo de sujeito sorumbático e circunspecto demais", vc tá mais para um chato mesmo rsrs... Meus amigos da pós me apelidaram de "adoravel chata", acho que isso cabe a você também!

Embora ache um exagero a resposta dada a amiga, pobrezinha deve ter ficado mortificada, também não vejo graça na maioria das piadas que são veiculadas a torto e a direito, racismo, gênero, diferenças religiosas e derivativos não me fazem ri videos onde alguém é ridicularizado também não me enchem os olhos e eu odeio video cassetada e pegadinhas, acho tudo isso pavoroso... No fim é impossivel não começa a histocizar as ideias que estão sendo veiuculadas através dessas coisas e ai é uma chatice só, mas eu gosto mais de ser chata do que ri do que faz arder o olho dos outros.

Também gosto de ri, mas não do que é simbolicamente violênto!

Sahge disse...

Minha amiga Pandora...
Certamente sou um chato, mas "adorável"... Bem, sinto-me mais confortavel pensando que sou apenas um chato mesmo. Rsrsrsrsr

Tem uns vinte anos que o Faustão passa suas video-cassetadas mostrando casais de idosos caindo, crianças despencando de escorregadores e afins e ainda não entendi quando a miséria humana virou motivo de riso. Eu vivo chegando atrasado para tudo e aparentemente, também me atrasei quando distribuiram a capacidade de abstrair.

E não tenha pena da minha amiga, porque ela já tem o suficiente de si mesma, mas nenhuma de mim. E ela provocou a celeuma toda. Puchou o rabo do touro então aguente a chifrada! rsrsrsrsr
Isso é que é ruim em ser um chato: as pessoas gostam de te provocar e metem o dedo nas suas feridas, mas não reagem bem quando você reage. Karma, néh?
Cheros, minha amiga.

Garota Insana disse...

Obrigada pelo carinho, Sahge.

Por que as pessoas gostam de rir da desgraça alheia? Não sei, deve ser um misto de sadismo com uma sensação de superioridade, do tipo “comigo isso não aconteceria.” De qualquer forma, a realidade é que certas coisas são tão absurdas que mesmo o mais puro de todos os homens sente dificuldade em sentir empatia pelo próximo. Ou isso é uma racionalização marota pra aliviar minha consciência e no fim do dia eu conseguir dormir tranquila. Sei lá....

Lembra do padre dos balões? rsrs. Exatamente. Ninguém pensa no que o padre passou. E longe de mim querer passar algum tipo de lição de moral sobre o assunto, eu tô segurando o riso só de lembrar do padre falando que não sabia mexer no GPS.

Eu assumo, eu já ri de muitas desgraças alheias, e sentia muita culpa por isso, até que um dia eu percebi que as vezes eu chego a dar gargalhadas das minhas próprias desgraças, e isso me deixou mais aliviada...

Dani =* disse...

A graça do vídeo consiste na rebeldia da menina pelas costas da mãe ou avó não aceitando seu "sermão" fazendo caretas e dançando freneticamente para a câmera. Agora se formos julgar todas as deficiências presentes no vídeo, este se torna lamentável sem nenhum teor de humor.
O vídeo tornou-se popular pela falta de julgamento das pessoas e pelo humor superficial que ele retrata.

Estou retribuindo seu comentário no meu blog passando por aqui. Achei bem bacana seu espaço.

Sahge disse...

Garota Insana,
Nao me agradeça, porque é sempre uma satisfação reencontrar meus amigos. Você, Pandora...Só faltou o Rafael, mas como eu, ele é mais leitor e menos comentador dos blogs dos amigos. Vou ter de fazer um convite formal a ele. Rsrsrsrs

Acho que a minha deficiencia consiste no fato de que eu tenho dificuldade em rir das minhas próprias mazelas. Daí para me sentir desconfortável em rir das dos outros é um passo. Não consigo ficar alheio e exagero sentindo como se tudo me dissesse respeito. talvez seja um indício de que os limites entre a minha solidariedade e a minha megalomania estejam esvaecendo...
Obrigado por contribuir e me ajudar a pensar.

Sahge disse...

Dani,
Obrigado por seu ponto de vista. Eu fico tentando encontrar uma falha em meus raciocínios e questiono se não estou vendo mais do que há para ser visto. Isso é o que chamamos de "psicologia selvagem", quando damos opiniões mais embasados em nossas percepções pessoais do que no ponto que devia partir a partir do próprio sujeito.

Voce tem toda razão. O humor ali é superficial e eu tenho dificuldade em olhar superficialmente ou entçao tenho uma visão excessivamente aguçada para os fatos trágicos do quotidiano.
Obrigado por sua presença e por seu comentário.

Pandora disse...

Sahge fique confortavel e deixe o adoravel por minha conta que gosto de você, mesmo quando lendo seus escritos sempre me pergunte se eu iria sentir a mesma simpatia se tivesse encontrado com vc no meio da rotina dos que convivem no mundo "real".

Mas, agora persebi que me escapou de comentar sobre a graça ou desgraça do dito video, mas afinal que diabos de video é esse ein? Que só eu não vi?!?! \o/

E sim, agora realmente só falta o Rafael, sim o
o habitus bloguistiscos de vcs dois sempre me fazem pensar até que ponto um comentário é bem vindo, são os únicos blogueiros que fazem pensar duas vezes antes de comentar, e olha que eu sou comentadora compulsiva! rsrs...

Sahge disse...

Minha Cara Pandora,
Muito provavelmente assim como todos os meus melhores amigos, você não só não simpatizaria comigo no início, como é possível que até mesmo me detestasse. Depois de algum tempo de conversa é claro que iria me adorar!

Ahahahahaha...

Tudo bem. Me sinto confortável sendo um adorável ogro.

Não vou falar pelo Rafael (embora me identifique tanto com ele, que acredito as vezes que ele se pareça mais comigo do que eu mesmo), mas meu hábito de ser econômico nos comentários nos blogs que frequento, se deve ao fato que eu sou um tanto inseguro em relação ao meu entendimento. Eu leio, apreendo e por vezes penso que apreendi de modo diverso ao que pretendia o autor ao escrever seu texto, então as vezes comentar nesse contexto experiencial, é quase como se eu de algum modo me "apropriasse" do texto e o deformasse por minha interpretação errônea. Não é muito justo com quem escreve, então muitas vezes opto por ler, experienciar e me ir, o que também não é muito justo, porque cá entre nós, fico satisfeitíssimo quando algo que eu escrevo toca de algum modo (para o bem ou para o mal), quando inquieta alguém.

Missão cumprida. Valeu a pena escrever! Mas cuido de não projetar essa minha...vaidade nos autores dos textos em que me deleito em experienciar.

Quanto ao vídeo, minha amiga, eu o vi numa rede social, mas está no youtube também. Não quis postar o link aqui porque quis evitar que mais gente risse da garota (bobagem da minha parte, já que muita gente riu e continua rindo a despeito do meu choque, mas tenho uma inclinação para lutas quixotescas e ainda não encontrei um moinho digno da minha fúria esse semestre) mas mando para você um link para busca dele no google. Acho que isso o meu implacável superego permite.

E Pandora...Você é da família. sinta-se livre para comentar e me ajudar a pensar sempre que puder e quiser, porque com frequência, apreendo errado até mesmo o que Eu escrevo, então outros olhares sobre isso são muito bem vindos.

Pandora disse...

Mas Sahge me diga uma coisa, se por acaso o objetivo do texto for uma experiência didática, onde alguém fala/escreve e pretende ser compreendido/ouvido/lido pelo outro, o bom não é quando o que ouve/ler consegue se apropriar do que foi dito e ressignificar a mensagem a sua maneira produzindo significados diversos?!?!?

Me pergunto se existe uma forma de interpretação errônea ou apenas, algumas vezes, há uma grande distancia entre o que se pretende dizer e o que se diz de verdade, mas bem, a vezes (quase sempre) quem fala/escreve não está preparado para encarar o conteúdo implícito ou explicito em suas palavras, então o comentário de quem entendeu tende mesmo a não ser bem recebido de maneira que o silêncio por parte de quem ler/escuta pode ser uma atitude muito ponderada!

Enfim... Obrigada pelo "da família", vc e o Rafael realmente tem muitos pontos em comum e pode deixar que eu sou uma comentadora compulsiva mesmo quando dúvido da validade ou utilidado do que comento.

Cheros Sahge, se cuide!