sábado, 25 de junho de 2011

A Grandeza em cinquenta e três minutos


Grandeza
Este é o destino do ser humano e sua principal fonte de angustia. Nascemos “deuses“ e somos tratados quando bebês com tal zelo, que sentimos ser confirmada a nossa divindade.  Basta chorar, e somos alimentados, confortados, consolados e embalados com amor e todo o nosso mundo  se resume a deleite. Onipotência constantemente reafirmada, tanto mais percebemos e recebemos do mundo sensações de agrado e prazer. Mas nossa divindade é posta a prova bem cedo, quando tomamos consciência de que existe mais do que nossas vontades imediatas, e somos forçados a reconhecer que não somos tudo e não podemos ter tudo. Ao contrário, somos forçados a abandonar o seio materno, a dividir os brinquedos, a ter hora para dormir e pouco a pouco nosso altar pueril vai sendo demolido. É o Princípio de Realidade nos destituindo do divino.

E, no entanto, mesmo depois de muito tempo, nossa sensação oceânica de pertencer a tudo e a tudo abarcar persiste e somos tomados o tempo todo por pensamentos de grandeza, ainda que estes estejam disfarçados de idéias ou ideais. O monge mais abnegado, que orgulhosamente afirma não estar atado a mesquinharias materiais e volta seu olhar para as coisas do espírito, espera alcançar através de sua abnegação a gloria do Nirvana ou a recompensa dos virtuosos num paraíso transcendental. E nisso  ele não difere de um lobo de wall street ou da Bovespa; ambos tem pensamentos grandiosos, com a diferença de que o lobo parece ser mais honesto consigo mesmo e com sua sede de grandeza do que o monge. Porém, a ambição do monge está mais de acordo com a vocação humana de sublimar suas reais motivações. É um pensamento grandioso, uma ambição, me parece, mais altiva do que os sonhos vorazes do maior dos avaros. Admitir, no entanto essa vocação para a grandeza fere a nossa moral  e criamos um monte de contradições culturais.Uma coisa engraçada na nossa cultura,é a de valorizar os de inclinação “humilde”. Dissemos “Conhece Fulano? Ah, ele é uma pessoa muito boa...É humilde e simples”. Porque? Porque deve nos emocionar o fato de uma pessoa ser mais hábil do que nós em mascarar a sua sede de grandeza por detrás de uma simplicidade que é tão ilusória, quanto incompatível com a natureza humana? Em outros países , em outras terras, o homem empreendedor é admirado como modelo a ser seguido, mas nossa cultura não parece valorizar quem se valoriza. Do coveiro ao Desembargador, do Pároco ao Cardeal, por mais que uma pessoa demonstre capacidade, vai estar sempre sendo orientada a manter uma atitude de humildade, não porque isso seja necessariamente uma virtude, mas especialmente porque nos incomoda muito ver alguém assumir algo que nós mesmos não temos coragem, a saber, ousar atribuir a si mesmo o valor pessoal que é direito e dever de todo herdeiro de Adão e de toda filha de Eva. Conquistamos o direito á grandeza, com o preço da perda do paraíso e de nossa inocência.

Porém...
Uma vez falei  a uma amiga sobre como um livro nos afeta de diferentes modos, em diferentes épocas da vida. Parece-me um bom modo de medir o nosso amadurecimento (ou a falta dele), reler um livro que nos causou uma impressão forte em certa época e depois  avaliar se reagimos do mesmo modo a ele. Bem, passando por um sebo, entre pilhas de volumes amarelados dei com um exemplar maltratado de “O Pequeno Príncipe” e enquanto me perguntava por quanto tempo ainda esse livro comovente vai emocionar gerações, inconscientemente o folheei até a página que contem minha passagem preferida do livro. Muita gente sintetiza a beleza desse livro na frase  O essencial é invisível para os olhos”, ou “Te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e eu me reúno a elas em coro a admiração que essas frases lindas e terríveis (um oxímaro, eu sei) desperta. Lindas pelas razões óbvias, e terríveis, porque essa ultima frase profunda, contém mais do que a beleza de um pensamento lírico bem escrito por um homem genial, mas também a fatalidade, quase uma sentença, uma Lei do amor que em outras épocas chamei de “Regra da Raposa”.  E depois que se cai sobre o encantamento dela, todas as relações, todo o sentimento que nutrimos pelos outros passa a ser visto pelo âmbito dessa lei.


Mas ainda que eu tenha caído voluntariamente vítima dessa Lei e essa frase tenha me encantado tanto quanto a maioria, não é essa absolutamente a frase de “O Pequeno Príncipe” que mais me impressionou, mas sim a que diz:

 “Se eu tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando, passo a passo, mãos nos bolsos na direção de uma fonte”.

Eu devia ter onze ou doze anos quando li essa frase pela primeira vez e se puder avaliar as mudanças na minha personalidade pela maneira que um livro me afeta, sou forçado a acreditar que não sou muito diferente daquele garoto, porque tão logo reli a frase, fui tomado do mesmo encantamento. Por quê? O que há nessa frase que parece tão deslocada no texto que me parece tão importante?

A maneira como o autor a colocou no texto me faz pensar sempre num significado oculto para um pensamento que ocorreu ao Principezinho quando se viu na possibilidade de ter tal tempo disponível. Porque entre tanto que se pode fazer, com tanta coisa importante a realizar alguém quereria simplesmente ir caminhando devagar em direção a uma fonte? Nenhuma razão, e por isso mesmo, a razão mais importante dentre todas.


E de novo me vem a mente o fato de que nos estamos sempre tão empenhados com coisas importantes, (coisas de gente grande), projetos grandiosos como construir uma carreira, alcançar o sucesso, criar filhos e deixar a marca de nossa passagem no planeta, que pouco tiramos tempo para a singeleza de um momento deslocado no tempo. Quando, entre tantos momentos que temos para os outros e para nosso projeto de grandeza, quer material, quer metafísico, tiramos um momento para o nada (porque creio que em nada pensaria o principezinho ao caminhar desocupadamente em direção a uma fonte)? Admirar a imponência de uma montanha é coisa fácil e não requer nenhum esforço de imaginação... Mas e quanto as pequenas pedras que em conjunto formam essa montanha? E embora eu esteja convencido que nosso destino e condenação é a grandeza, seja de que modo for, creio que construir um monumento que ofusque o brilho das estrelas, não seja afinal mais importante do que passar uma tarde preguiçosa deitado numa varanda, acompanhando com o olhar o vôo despreocupado de um pardal ou mesmo o zumbido de um inseto. Tudo é insignificante e tudo é importante.


Minha cidade não tem muitas fontes e as poucas que conheço não me motivam a querer caminhar até elas. Talvez eu deva circular mais pelo meu habitat, mas acredito, depois de meditar sobre os pensamentos  grandiosos que assombram os homens, nada nesse momento me parece mais extraordinário do que caminhar, passo a passo, mãos nos bolsos na direção senão de uma fonte, de um momento qualquer para gastar com o nada, com o vazio que não anseia ser preenchido.  É só uma questão de relatividade, mas aí já é outra história...


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