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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Filopoema- Ou uma constatação

...e o que me faz (fez)  permanecer desperto desse transe (trânsito) em vive um (o) mundo imerso em banalidades, foi (é) a consciência de que não há nada no mundo que seja irrelevante.

Ainda que mesmo as estrelas e os possíveis deuses acima delas sejam efêmeros...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

We are from...


Mulheres (e derivativos) são de Vênus.
Homens (e adjacentes) são de Marte.
Já eu e minhas contradições somos de algum lugar em Plutão (que ora é planeta ora não é, mas segue girando indiferente as indiferenças alheias)

Como diabos viemos todos parar no quintal da terra?

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Aos Gatos que guerreavam em dança mortal no teto do mundo...



Enquanto eu durmo um sono-insone-entre-sonâmbulo, há gatos brigando por sobre o telhado, por sobre a cabeceira dos meus pesadelos.
E me perco raciocinando, tentado sondar o que só um delírio genuíno me revelaria.

Em algum lugar em Tikrit um sujeito sua frio e reza enquanto prende explosivos ao corpo.

Em algum lugar em Bangladesh alguém olha um copo vazio e se sente cheio de vazio enquanto enche o copo novamente.

Em algum lugar em Manaus alguém tentava apagar lembranças queimando fotografias antigas e agora tenta apagar as chamas com que tentava apagar as lembranças.
(vai ter cicatrizes para lembrá-lo de qundo tentou esquecer)

Em Porto Alegre alguém usa giz para riscar versos na parede de uma cela, porque lhe tiraram a caneta com que matou outro presidiário.

Em algum lugar a três ou trinta anos daqui, alguém mata mais um pouco da sua inocência olhando para uma tela onde algo indescritível se desenha.

Em Belo Horizonte, por sobre a cabeceira dos meus pesadelos gatos brigam num balé furioso de cio e violência.

Eu sonho com algo magnífico, mas é mais um fantasma furtivo do que eu não vou me lembrar amanhã.
Pensei de modo subliminar que haveria jeito supraliminar de ser um homem, mas já está dando tanto trabalho ser humano, que, sob pena de que me olhe novamente com esse seu olhar transparente, hoje vou me deixar escorregar para dentro do seu desgosto.

Desculpe, mas no balcão da padaria não tinha nem um pouco de Eternidade a venda (Eu perguntei. Juro!).
Perfeição também estava em falta, então contentei-me com bolinhos de avelã...

E não, não foi tentativa de suicídio.
Eu só me cortei para verificar se realmente eu era feito de gelo e de ouro, tal como me dizias, ainda que eu soubesse que não sou, porque me barbeio todos os dias e o rei Midas não era meu tetravô.

Acho que terei de sangrar, mas me esforçarei para não sujar os tapetes da sala e do mundo e da nossa vaidade.


Amanhã, quem sabe você deixe de desejar que eu fosse feito do mármore daquela estátua mergulhada em algum lugar do mar Egeu...?

Fonte da imagem:http://hqscreen.com/

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Você Tem de Entender Que a Chama Ama o Pavio e a Cera, Mas Tem Pouca Consideração Pelas Asas da Mariposa


Há um garoto seguindo meus passos. Eu realmente não me lembro de ele ser tão prudente.
Tem o cuidado de estar à mesma distância que mantenho do velho cansado
que está sempre a minha frente, não importa onde eu olhe e que e quantas esquinas eu vire.

Não fosse isso, eu o espantaria a pedradas, com a mesma impaciência com que me mira aquele velho cansado, quando o vermelho dos nossos olhos se cruza...

Um dia pretendo virar uma esquina dessas sem dar comigo mesmo pretendendo me desfazer desse desejo de virar esquinas.

Ontem à noite, da porta da rua até o quarto, fui deixando pelo chão da casa, sapatos, meias, roupas e restos de desejos. Quando o resto de mim chegou à cama, já não havia muito para caber em um pijama.
Se eu usasse pijamas...

O que me aborrece de verdade, por debaixo do som da chuva desabando no telhado, é pensar que aquele garoto que fui, não tem nem quinze minutos deixei de ser. É recente demais para que eu me desvencilhe dessa sensação de infância e fragilidade nos sentimentos e no pensamento.

Não importa quantos banhos tome, ainda estou fedendo a leite e a desamparo.

Queria olhar para aqueles sentimentos estranhos como estranhos a mim e me sentir divorciado deles, e esquecer como quem esquece um sonho qualquer quando a rotina do dia se assenta.

Algumas vezes, (umas três por semestre) quase posso fingir pra mim mesmo que ainda me resta alguns trocados no banco, uma fatia de pizza fria na geladeira (atrás do tomate murcho e da garrafa azul de água que eu vivo esquecendo de me lembrar de encher), algum amigo que ainda não tenha feito com que eu me sinta um calhorda e um pouco de esperança de que alguém, em algum lugar no mundo, está neste momento sonhando exatamente com o tipo de criatura que eu sou.

E que a cada dia que passa, sou menos.

Se esse improvável sonhador me encontrasse hoje, reconhecer-me-ia em meio aos restos de mim que nem mesmo chega a encher um pijama (se eu usasse pijamas)?

Acho até que ao menos hoje, me contentaria com alguma reprise decente na tv a cabo, que pago pelo privilégio de me entediar com a antiguidade das idéias novas.





segunda-feira, 21 de julho de 2014

Discordando do Grande Machado de Assis

"Lágrimas não são argumentos...."
Dizia Machado.
E eu digo: Oh, mas são de uma eloquência de dar inveja a qualquer discurso!

domingo, 6 de julho de 2014

Apresentação... Ou Um Exercício de Humanidade



Isso ia soar bem esquisito.
Fazer uma apresentação de mim (exigência para participar de um site de literatura), como se eu fosse ao mesmo tempo um ponto e guia turístico e tivesse de alistar dentre as minhas características algo que valesse a pena uma visita. Lamentavelmente, sou uma criatura bastante vulgar, no que tange a aparência física. Acho esquisitíssimo tirar e exibir fotografias de mim, como se a minha cara fosse algum tipo de obra de arte que valesse a pena ter na parede. Então, receio que quem me visite não vá ter um cartão postal decente que enviar para os conterrâneos. Quero dizer, a estética que se dane, porque eu já me irrito com o trabalho de ter de escolher dentre as roupas que sou obrigado a comprar alguma que seja sóbria o bastante para que eu passe despercebido e ou não assuste as velhinhas no ponto de ônibus a noite como a promessa de um possível assalto ou coisa que o valha e nem dê a impressão de que acabei de sair de um bloco carnavalesco.

Então, fotos em sites, nem pensar!
Porque diabos eu vou dar as pessoas que me visitam o desprazer que me acomete todos os dias pela manhã ao olhar para a minha cara cansada?

Toda vez que faço a barba e tenho de suportar o espelho olhando de volta, olho e penso se a imagem daqueles olhos vermelhos e nariz pontudo ficariam bem numa parede qualquer de uma galeria de arte. O pensamento só não me faz rir porque pela manhã meu humor não está dos melhores, coisa que me torna ainda menos atraente ao olhar...
E olha que nem me considero realmente "feio", mas é que essa pele que uso para me movimentar neste mundo não me parece que deva ser o aspecto que eu vá valorizar em detrimento de outros. Sempre tem um cara mais bonito,  mais "fodão", mais forte, mais rico, mais o diabo, então, que se dane isso que daqui ha uns anos vai ser só poeira numa cova qualquer...

As pessoas geralmente quando se apresentam adotam uma postura bastante estranha, descrevendo defeitos como qualidades, passando-se por temíveis, atraentes ou mais agressivas do que na verdade são. 

Mulheres fatais super-fêmeas, ultraseguras e coquetes até a ponta dos dedos ou o irritante oposto - mocinha-donzela-a-espera-de-uma-porcaria-de-príncipe-que-lhe-vá-salvar-de-sei-lá-o-quê.

Homens super-amantes, dotados de capacidades sexuais dignas de um fauno (aqueles falastrões do tipo, “se te pego de te viro do avesso...”), ou a-porcaria-de-príncipe-de-mentira-que-a-mocinha-das-linhas-de-cima-espera.

Afinal "onde é que há gente no mundo?"

Não neste em que vivemos, isso é certo... 
Um mundo maravilhoso de clichês, de gente clichê, de pensamentos prontos e ou previsivelmente suaves ou previsivelmente agressivos, ou previsivelmente previsíveis...
Existe sempre "a coisa certa" a ser dita. 
Diga, e todos vão amar a pessoa "maravilhosa" que você é.

O fato de "a coisa certa" quase nunca ser verdade ou coisa sincera é de somenos importância.
O que importa é que te amem na mentira, que talvez (se você para pra pensar) seja tão pesado quanto ser odiado na verdade.

Mas todo mundo se protege do desamor dos outros...
Uns exageram suas “qualidades” mais desimportantes e outros o fazem com os defeitos de mesma ordem. Já vi gente, (muita gente aliás) se dizendo “louca” (como se isso fosse alguma vantagem, como como se alguém que fosse realmente 'louco' se visse como tal e não visse no inverso, que louco é o mundo).

 Na maioria das vezes essas pessoas unicamente se valiam da suposição de sua loucura para acobertar uma estranheza (que contraditoriamente é bem normalzinha, por que da pele pra fora todos no mundo nos são estranhos), como desculpa para sua inconstância, para não formarem laços (como se apenas eles ansiassem por uma vida não- simbiótica), para justificar as feridas que sua singularidade causa naqueles que os amam (como fosse possível viver sem ferir os outros).

Os falsos humildes são ainda piores do que os assumidamente arrogantes, com a diferença que estes últimos são engraçadíssimos, enquanto os primeiros são maçantes ao cubo!

Eu penso que ninguém se apresenta como um ser humano, simples, inconstante, cheio de medo e de duvidas simplesmente porque ninguém nos ensina a ser gente, (humana e falível gente) e de outra parte, somos ensinados a nunca pôr a nu diante dos nossos irmãos da confraria humana, que somos tal como eles. Mesmo porque, as pessoas em geral se sentem desconfortáveis quando alguém se atreve a lhe lançar consciência adentro o peso de sua humanidade como um espelho, onde podem mirar a própria. 


Então, por consideração aos vossos brios, permitam-me que me apresente adequadamente...
Eu sou uma semi-divindade, cavalheiros!
Eu sou um homem maravilhoso, virtuoso, forte, inteligente, cheio de convicção e portador de uma força e fé inabaláveis.
Nunca oscilo, nunca tenho um momento de dúvida e não sei o que é fragilidade.
Do mesmíssimo modo que todos vocês, aliás...

Só falo um pouquinho de mentira.

E infelizmente, me falta a mágica capacidade de acreditar nelas.
Nutro em secreto a ambição de um dia acreditar, nas minhas e nas vossas...

Mas eu ainda não tive uma só ambição que não me saísse pela culatra.
Algumas vezes, naquelas horas em que uma sensação tão castanha quanto a minha pele se apossa de mim, fico me perguntando se há algo mais digno de ser ambicionado do que ser simplesmente um ser humano, para fora de qualquer rótulo.

A verdade é que talvez não existam verdades, a não ser a verdade do pó, das coisas ínfimas que no conjunto aparentam as coisas grandiosa em que nossa vaidade se aferra...

Mas tudo se constitui de fina poeira que o vento leva e a mim parece que um homem só tolera a ideia de ser humano porque nesta ideia está implícita a sedutora ideia de ser o embrião de um deus.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Do que eu não consigo definir...

O que paralisa e por vezes  cala a minha grande necessidade de dizer algo não é a falta de tema ou uma inspiração escassa.

Dá-se o oposto, e quase sempre, me vem um vagalhão de pensamentos em manada, num fluxo enlouquecido em via expressa mental, tendo como meio de manifestação no mundo o fino gargalo dos meus dedos neste teclado.

Talvez me faltem as ferramentas apropriadas, como por vezes me falta a compreensão necessária...

É só, que se eu tivesse cinzel e mármore ou pincel e tinta e tela, talvez me fosse possível fazer o impossível e desenhar em pedra ou em tela o indefínivel.

Não é muito comum encontrar o impossível dentro da possibilidade e caso ocorra, quem detem os meios de registrar, como quer que seja, isso, essa sensação de impossível que exige ter forma além do conteúdo?

Eu não tenho cinzel, tinta ou pincel e também não sei cantar, dançar ou emprestar a esse mundo qualquer forma de beleza que não sejam palavras. Pelo menos era o que eu pensava, mas agora as palavras me traem e me faltam, quando delas preciso.

Mas existem... Momentos, fragmentos de impossível, de eternidade, momentos nos quais somos acometidos pelo desejo de neles existirmos para sempre, sem passado, sem futuro, sem desejo ou anseio do que seja ou esteja além daquele momento de nirvana em que somos e temos tudo...


Isso é o indefinível acima do qualquer forma de arte possa expressar...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Raciologicando no B612

E antes que eu tire minha dor do caminho, para que você passe com seu sorriso infernal, me deixe te contar uma conclusão: 
                         Sementes de rosa são muito mais perigosas do que as de Baobás.

As ultimas só te partem o planeta, mas, diabos, há muitos planetas no céu, mas só um coração dentro de cada peito.

E se o sol não pode viver longe (ou perto) da lua eu não sei...
Mas sei que cometi erros demais emaranhando a minha alma por aí .
E que no fim das contas, flores e espinhos acabam por ferir-se mutuamente.

Mas quem é que entende a razão dos espinhos?

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Para você...

...que como eu sofre da infeliz característica de ficar engraçado quando com raiva, uma advertência:
A imbecilidade alheia é (e cresce) proporcional à sua capacidade de se irritar.

Especialmente quando - mãe das contradições - os infelizes portadores dessa patologia espiritual (no caso, a imbecilidade), têm percepção dessa correlação, embora não tenham, aparentemente, de mais coisa alguma.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O aceno de Náucrete

Você pode cantar sobre mim, se o quiser...

Eu canto sobre guerras e sobre dias alegres
E sobre flores e amores e a fragilidade das coisas...
Sobre sangue derramado e lascívia sobre a lua...
Eu canto sobre coisas que se arrastam sob a luz
E sobre o que cavalga acima da escuridão...

Mas que sei eu dessas coisas que canto,
senão que canto sobre o que não sei?

O que você não sabe,
É que eu conhecia o poder do sol sobre minhas asas de cera.

O que importa é voar, criança.
Em que direção é só um detalhe que preocupa quem não voa.

Eu?
Sou ilha de não saber nada...
Um amontoado de ignorância cercado por incompreensão por todos os lados.
E estando náufrago sem nau ou porto de mim,
Não compreendo esse seu Ser sendo o que não compreendo.
Mas acabei de fugir de um labirinto para dentro de outro.
Uma esquina errada que tomei depois da terceira nuvem...

Mas tão logo me liberte o mistério do meu Ser Humano
E me livre o fascínio do Eu,
Haverei de compreender o seu Ser Mulher
Para talvez começar a entender também o meu Ser Homem.

E é realmente belo que te digas louca,
Mas, sabe, isso deixa de ser virtude quando te gabas...




quinta-feira, 3 de abril de 2014

SobRE medidas


É só que as vezes 1,70 m e 60 kg são espaço e volume e densidade insuficientes para abrigar uma alma já repleta de insuficiências, mas que tende e se estende ao infinito.
Mesmo que o infinito esteja alojado na cabeça de um alfinete, onde dançam os anjos vadios...

Dizem que a noite é longa e a vida é curta ( e eu querendo muito saber com que diabos de régua as mediram), mas isso com frequência me remete a questão fundamental, que acabou virando um juízo de valor entre pessimistas (os chatos) e otimistas (os iludidos), se o copo afinal está meio cheio ou meio vazio.

E eu achando que qualquer copo está meio cheio de vazio e o vazio tem fome também da metade que não está...

E olhe que eu, que nem mesmo sei ao certo como ajustar o sinal da tv a cabo, ou pra que existem tantos widgets nos aparelhos quando usamos apenas um ou dois ou nenhum e não compreendo outras pequenas miudezas quotidianas que se configuram mistérios para mim; justo eu, tento sondar o gigantismo do nada na metade vazia de um copo.

Na minha balança psicológica, a incompreensão das coisas pesa tanto quanto a consciência dessa incompreensão. E é sem fronteira visível, pelo menos, desse ponto cardinal de onde tento me lançar às estrelas (trilhões de kms acima) enquanto estou indo cada vez mais para baixo (cerca de 2,4x1x1,70m em minha viagem final).

Estou em temporada de caça e abate de Verdades Absolutas, mas creio que minha parede vai ficar limpa de troféus, porque verdades são esquivas e eu tenho péssima mira...

Mas hoje, e talvez apenas hoje, eu gostaria de compreender e ser capaz de desmistificar a antiga verdade de que a mariposa não tem escolha a não ser dançar perigosa e apaixonadamente em torno da voluptuosidade da chama...



domingo, 30 de março de 2014

Dos restos dos meus diálogos oníricos


...e mesmo que a gente não venha a este mundo aparelhado com uma tecla f5, é necessária atualização constante do que nós somos e isso implica longos auto-diálogos para dentro. Então conhece a si mesmo para tornar-se o que você é.

Isso requer mudança, porque sem mudança há a extinção do que somos, porque a moeda de troca pela aceitação do mundo e (pasme) até de nós  mesmos, é a nossa identidade. Não  a cristalize, pois, em modelos.

O que não muda, desaparece e você tem sim de mudar constantemente para estar cada vez mais parecido consigo mesmo. "Só o mutável pode perdurar", lembra?

..e antes que o despertador grite para que você vá (ainda) mal aparelhado para a batalha do mundo, me deixe dividir com você uma quase-verdade que troquei por uma imperfeição de que gostava muito:

O Amor tal como nos é ensinado não existe. O que existe é desejo de posse.

É só pensar que se você diz amar algo ou alguém, ficará apavorado com a ideia de ter de partilhar com outro esse objeto do seu amor.
Talvez até o faça, por razões que só o inferno compreende, mas não sem uma quota considerável de sofrimento.

Houvesse um mandamento contra essa idéia, seria: "Não chamarás 'amor' o teu desejo de exclusividade emocional ou sexual sobre nada ou ninguém".

Não é um pensamento confortável, mas talvez te desperte mais eficientemente do que as xícaras de café amargo e o banho frio.

O único amor real, é o que se tem pelas ideias, porque essas, você ama e faz questão de partilhar e de soprar ao vento como dentes-de-leão.


sábado, 29 de março de 2014

Da minha coleção


Tem gente que coleciona selos, moedas, namoradas...

Eu coleciono defeitos.

Todo dia esbarro em um pelas esquinas e como o adulo e lhe faço carícias, o bandidinho me segue até em casa e daí fica difícil me livrar do bicho. 

Então minha coleção aumenta exponencialmente, enquanto meu estoque de amigos diminui na mesma proporção.

Hora ou outra tenho de fazer um puxadinho moral para colocar em ordem essa coleção e para tanto, terei de demolir um cômodo ou dois onde tenho alojado qualidades mentirosas.

É um inferno, porque a unica coisa que tenho para amar em mim mesmo atualmente são meus defeitos, porque eles são muito mais genuínos do que as minhas qualidades reais ou imaginárias, então fica difícil desfazer-me de um item dessa coleção, mesmo os que tenho repetidos e que poderia trocar num escambo de más qualidades. 


Quer dizer, a gente até pode mentir para os outros ou para nós mesmos, sobre as próprias virtudes e embora as pessoas possam ter ilusões a seu respeito, você é uma pessoa bem desafortunada se tiver uma repulsa natural pelas auto-mentiras.

Se eu fosse um sujeito esperto, colecionaria selos, , namorada, moedas ou falsas qualidades. 
São coisas muito úteis e as pessoas em geral gostam bastante de quem ostenta um bom estoque dessas coisas.

Mas quem disse que eu sou esperto?
Sei lá se alguém disse. 
Foi uma pergunta meramente retórica.

Mas se alguém tivesse realmente dito, estaria falando, é certo, de uma das poucas falsas qualidades minhas que pretendo desalojar para ampliar minha coleção de defeitos genuínos.

---
Ah e só pra constar, não, não sou adepto da misoginia ou da misandria.
Sou misantropo mesmo e minha birra de gente (que oscila para um absoluto fascínio e simpatia) não conhece e não reconhece gênero.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Um momento de chauvanismo místico




Apesar de ser um incrédulo fanático e apóstata de tudo o que é "bonitinho" e esteticamente doce, sou, penso, um sujeito de muita fé.

Tenho fé na minha descrença e acredito que muita falta me faz o dom divino de ter fé. 
No que quer que seja.
Por exemplo, contrariando a todo o pensamento corrente (ao menos no ocidente que tem a pretensão de ter a palavra ultima sobre tudo), acredito piamente que Deus não é Ele, mas Ela.

E olha que eu nem acredito em Deus.
Não mais do que não acredito em mim mesmo e nas minhas descrenças.

Eu nunca entendi essa coisa de "deus-pai", como se o ser superior tivesse testículos e gametas para preenchê-los e (já fui até aqui em minhas heresias sem que um raio me caísse na cabeça, então, vou me permitir ir adiante!) fecundasse a criação como um homem "fecunda" uma mulher.

A lógica me diz que se deus existe, ele só pode ser mulher.
E não é porque o ato de gerar seja um atributo tipicamente feminino ou porque o universo seja maravilhosamente caótico e cheio de minúcias, porque estou convencido de que a unica coisa que um homem faz melhor do que uma mulher é urinar em pé (embora eu saiba de umas que se tem aprimorado nesta técnica e de uns que nunca a aprenderam corretamente, como se verifica nas tampas de sanitários) e um deus macho pode ser igualmente capaz de ser confuso e minucioso como o é aquele(a) ser que talvez esteja neste momento preparando um relâmpago destinado a me abater (é, eu me acho sim! Na verdade, não me acho. Me tenho certeza, ainda que duvide dela!).

E nem adiantaria enumerar os aspectos positivos e negativos da divindade, porque neste sentido, tudo o que se diz de uma mulher pode igualmente ser dito de um homem, embora em instâncias diferentes.

Mas o que me convence, a mim que não me permito convencer de nada, de que Deus é fêmea, é por uma razão muito pessoal:
E nunca me dei bem com as mulheres, do mesmo modo que não me dou bem com Deus(a).

Temos, penso, uma mútua incompreensão, sua lógica é confusa para mim e a minha confusão não se acerta com Sua lógica, tenho um desejo muito profundo de acreditar nele(a), papagueio um monte de asneiras no afã de chamar sua atenção (ainda que seja um raio como castigo pelas heresias), acho que a existência dele(a) é a coisa mais necessária neste universo (embora as evidências A MIM mostrem que no céu só tem estrelas e aliens e vácuo), amo (a idéia de) Deus(a), mas Ele(a) sequer tem idéia do que eu amo ou odeio.

Deus(a) me ignora completamente (apesar do discurso de que Ele[a] tem um plano qualquer que me envolva pessoalmente, trata-se de plano obscuro demais e muito mais da cabeça dos que dizem ser Seus porta vozes do que o que a realidade das coisa me tem revelado) e é a mais maravilhosa musa a me inspirar a mais profunda angustia existencial.

Dificilmente  um macho, seja físico ou metafísico, seria capaz de inspirar (ao menos a mim) tanto fascínio, confusão, pavor e uma indisfarçável revolta  pelo seu aparente desdém.
Deus não gosta de mim embora eu o ame e não acredite nele.
Logo Deus é mulher.

Postagem estranha para o mês de março, mas eu sou estranho e acho que por hoje vou me permitir abrir mão do compromisso de tentar aparentar normalidade ou bom mocismo.

Não que seja necessário esclarecer, mas a postagem acima, embora seja  expressão da minha verdade particular (logo frágil e passível de mudança nos próximos segundos) é uma descarada provocação a uma amiga; criatura maravilhosa, visceral em sua genialidade, tola até a raiz dos cabelos quando se irrita, uma feminista roxa, ateia fanática, pensadora vitoriosa e o mais implacável inimigo da minha irascibilidade imbecil.




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

E você...

...até pode pretender saber qualquer coisa sobre o amor. Mas eu ainda acho que feliz era Lili, que não amava ninguém... E J. Pinto Fernandes, que veio por fora da pista e ganhou a corrida.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Obra Maravilhosa de Fernando Esteves Pinto...



Não conheço o teu rosto de prazer, mas deve estar dentro desta frase. 

Queres existir nesta folha do tempo que viaja dentro da minha mente? 
Vou pôr um livro nas tuas mãos enquanto te despes.
Não quero que me ames se pensas que o amor é para sempre. 
Tenho uma idéia da minha vida que nem sequer é verdadeira. 
Uma história de amor.

E se eu te dissesse que amamos sempre pelas razões erradas? 
Os erros eternos fazem grandes histórias de amor. 
Não tenho uma imagem do teu sorriso. 
Não tenho um desenho da tua boca. 
Desejas amar-me em que sentido?

Que tempo queres que exista para se dar o encontro?
Um nevoeiro corporal em tudo o que nos espera. 
Tenho as tuas palavras, mas esvaziei-as da emoção que traziam. 
No fundo és uma luz no desejo de não existires.
 E eu escrevo este tempo perdido no corpo que procuro.
 Se eu deixasse de pensar e escrever, eu sei, tu não sentirias medo.

O espetáculo burlesco que vai à minha cabeça. 
Esta manhã vi teu rosto em todas as mulheres com quem me cruzei na rua.
É uma espécie de escrita em que vou abandonando pequenos pensamentos que não acho interessante. 
No fim fiquei sem nada, mulher nua com um livro a ser lido. 
Tu amas o tempo e eu não vivo no teu tempo.

Tu amas as minhas palavras e eu não sou as palavras que escrevo. 
O amor e a literatura são parecidos na mentira. E é sempre triste não amar alguém porque se tem medo da mentira.

Tenho saudades dos teus dias passados longe da minha vida, é uma verdade. Se isso não chega para se sentir o amor, nunca poderei amar a tua liberdade. 
Mulher no tempo com livro aberto no coração nu. 
Um dia encontrar-te-ei dentro duma frase que fale de amor. 


Fernando Esteves Pinto


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Raciologicando à quinta potência


(...)

... e depois de considerar o quanto pode caber no espaço ocupado por parênteses e três pontos, me convenço finalmente de que a linguagem, contraditoriamente, é talvez o maior entrave à nossa comunicação.

No espaço por entre os parênteses acima, estava um longo monólogo carregado de uma emotividade ridícula que me encheu de auto-desprezo depois de ler o que digitei. Fica pra outra hora, porque acho que já espezirritei-me a mim mesmo em demasia por essa semana (e talvez por toda uma encarnação)...

Penso que é até possível, com os meios adequados e ainda ignorados, ensinar um animal ou vegetal e até um mineral (por que não?) a falar.

Mas um homem, tendo-o aprendido a falar, lamentavelmente jamais aprenderá a calar a maldita boca, enquanto se importar com esses universos caóticos chamados "pessoas" que circundam a sua órbita e meio que parasitam seu parco estoque de auto-amor, mais do que consigo mesmo e com este estoque.

Isso é lastimável, embora não pareça fazer muito sentido.

Mas se posso afirmar (e ainda que eu não pudesse, afirmaria assim mesmo), considero que somos talvez muito afortunados pelo fato de sermos capazes de odiar, tão doida e profundamente quanto amamos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Anacrônico



Chame a si mesmo do que quiser,  
(até porque, quando te chamas, nunca respondes!)
Nomes são palavras "e os erros são teus"
Mas você é um profeta, 
Quando faz poesia,
Poeta, 
Quando vem anunciar para ouvidos moucos o absurdo das pequenas vilezas dos homens,
Sábio, quando compõe odes a sua ignorância,
Tolo, quando pensa estar pensando que sabe o que pensa sem o saber.

Você pode estar confuso, mas não o bastante para andar sem rumo,
E há tantos caminhos a escolher, que não é difícil se perder por entre escolhas. 

Você é o portador de uma estranha verdade:
  - Estar perdido é o modo de esbarrar consigo mesmo numa esquina qualquer.

E afinal este não é um mundo alucinado?
Você pode ter certezas, mas fatalmente irá desconfiar delas, porque é a sua natureza ir contra a sua natureza de ser contra a sua natureza (e por aí vai...)

Mas isso que você faz,
Isso que você é,
É uma tentativa comovente criança,
De dar a si mesmo o que tão fartamente dá a outros sem receber,
Um meio de amar a si mesmo, ainda que através do amor dos outros,
E de ver a si mesmo, mesmo que com olhos que não te enxergam...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Considerações antes de uma capitulação...

Caso alguém me leve a mal,
Penso e advirto
Que me divirto imenso
Escrevendo isto.
(A rima é proposital)
...

E quem haveria de pensar em tal coisa...?
A verdade, e eu me lembro bem, que fomos meio lubridiados no advento do ano 2000, ano que segundo os afeitos ao apocalipse, o mundo acabaria em fogo e enxofre. “Mil passará, dois não chegará e blá-blá-blá...”
E nós ainda estamos aqui.

Mas, claro, nosso fascínio pela nossa destruição não cede mesmo quando o Armagedon não venha nos próximos cinco minutos, como quer a nossa fé. O mundo não foi pras cucuias. Deus nos decepcionou e não nos mandou fogo dos céus...
Mas continuamos a espera.

O que eu acho engraçado, se é que isso tem graça ou talvez seja uma “dês” (apenas para poupar os olhos e mentes mais sensíveis as sutilezas do nosso vocabulário), é que um dos personagens do fim do mundo já deu as caras há tempos e parece que ninguém se deu conta. Aqui está a parte engraçada: Ficamos todos à espera que a tal “besta do apocalipse” surgisse entre os grandes vultos da humanidade. Uns pensavam que seria um líder político e outros tinham certeza de que seria um guia religioso.
Quem imaginaria que o dito cujo fosse um nerd dos confins de Westchester?

Esqueçam de Lex Luthor, Darth Vader ou o Coringa. O grande supervilão da humanidade é o fundador do facebook, mas diferente destes três primeiros, ele realmente conseguiu “dominar o mundo”.
Hoje em dia ninguém mais existe de fato fora do “face”.
Não há comunicação fora dali.
Ninguém te manda e-mail, carta ou mesmo telefona.
Aquelas fotos de família? “Postei ontem no face.”
O trabalho de faculdade? “Ta no face desde de manhã! Em que mundo você vive?”
“Te deixei um recado no face.” “Eu não te encontro no face?!” “Qual é o seu face?”

Da ultima vez em que acessei o facebook, foi quando das manifestações pelo Brasil no ano passado (ao final das quais mais uma vez perdemos a oportunidade de fazer história em vez de vivê-la) e eu precisava saber onde e quando as pessoas se reuniriam. Foi útil, mas atualmente esse negócio anda mais ou menos como sopa de quartel: cem gramas de carne para quatro litros de água!

O mundo real não existe mais. E é nesse mundo que ainda teimo em viver. O meu denuncismo talvez seja uma teimosia quixotesca, talvez um prazer advindo da rebeldia ou simplesmente uma tendência a andar na direção contrária da multidão. Mas o fato é que ninguém mais “compra ou vende” fora do facebook.

Até então eu tenho me virado razoavelmente bem sem ele, mais o cerco se aperta e acontece que enquanto eu vivo e convivo em sociedade, preciso comerciar. Preciso comprar e preciso vender, logo, tenho de ter a tal marca do face, porque encontro esse logotipo “F” (coincidentemente, a 6ª letra do alfabeto. Número repleto de significados sinistros...)em tudo que é canto. Até em sites governamentais!

“Curta a porcaria da nossa página...”

O meu problema é que tenho preguiça em militar por qualquer coisa. Ficar praguejando contra as tendências da humanidade cansa o espírito já exausto de lutas inúteis, pra não falar que cansa os ouvidos alheios. O virtual superou o real (que já era confuso e duvidoso) e agora, aparentemente não temos mais carne e sangue, a não ser em situações especiais e fomos convertidos em bits e bytes, em álbuns de fotos que nada dizem e postagens sobre banalidades ou tragédias pessoais.


É magnífica a capacidade humana para transformar ferramentas potencialmente úteis em coisas perniciosas e estou pra ver coisa mais nefasta e comprometedora da privacidade do que o tal facebook.
E olha que eu já implicava com o orkut, msn (alguém se lembra?)...
E como o “funk” (outra praga que veio pra ficar) substituiu a lambada, já me arrepio pensando no que vai substituir o “face”.

Quem pode me explicar o porquê de um ser humano tirar uma fotografia de um prato de batatas (engorduradas e aparentemente fritas em óleo muitas vezes utilizado, a julgar pelos fragmentos escuros nas fritas) e postar essa porcaria numa rede social?
E me explica, por favor, os mais de trinta comentários do tipo: “Hum...Tô aí!” “Que delícia!” “Eu queeeeroooo!”, e por aí vai!?

E vai olhando;
a pessoa posta, essencialmente, piadas (que já foram compartilhadas numa centena de outros perfis), fotos suas em poses repetidas (fazendo um bico ridículo ou com os dedos em v e L)  ou em ocasiões que o bom senso diriam ser intimas (pra não dizer constrangedoras), farpas para supostos inimigos(as) (que aparentemente não tem coisa pra fazer além de fuçar o perfil de quem lhe detesta), trechos adocicados de poemas, mensagens religiosas do tipo “Jesus te ama” intercaladas com coisas como “Batom de periguete é superbonder”  e a lista segue.

Lamento, porém, que essa figura não se trate de exceção, mas representa uma grande maioria barulhenta.

Eu juro, nunca vou compreender as pessoas.

Não passa semana em que alguém não me venha dizer que teve um problema qualquer no “face”. É inacreditável, porém, como as pessoas se expõem ali e continuam a se expor não obstante os problemas que por ventura tenham.

Mas eu dizia que preciso comerciar. Preciso comprar e preciso viver e contrariando as minhas esperanças, essa rede social aparentemente veio pra ficar, aliando-se ao telefone celular para se tornar mais uma porcaria de cadeia sem a qual não é possível existir em sociedade e ter ou manter contatos.

Então, é sem constrangimento (até porque dá muito trabalho ficar constrangido) que reconheço que estou em vias de capitular.

Estou bem com isso.
Já fui um sujeito de convicções, até o dia em que percebi que é melhor não estar convencido de nada, porque obstinação é raiz de carvalho em noite de tormenta.

E como não sou um deus e nem um animal, não posso, infelizmente, viver só, daí enfiar o rabo entre as pernas e colocar-me sob o jugo de mais essa cadeia.

Paciência...
Vai ver, são apenas moinhos de vento mesmo...


“Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

De (s) esperança

Esperança é um urubu pintado de verde.
O diabo é que a essa porcaria de pássaro estranho calhou de cismar que meu ombro é seu poleiro e eu persigo um meio qualquer de parar de perseguir o que quer que seja que não me permita dormir...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Do que é melhor não saber

"Só sei que nada sei..."


Mas a pressuposição da ignorância não chega a ser um conforto, porque, mãe das contradições, a pressuposição enseja um “saber de algo” que nega a si mesmo. As autofagias desses raciocínios não chegam a melhorar a minha gastrite que faz estágio para úlcera que faz estágio para coisa pior no meu estômago e eu tenho de reiterar, embora preferisse não saber, que bênção não é a ignorância, mas a ignorância da própria ignorância.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sensações de um Sonâmbulo Desperto





É uma manhã como todas as outras.
Uma primeira manhã como todas as ultimas. O esquisito, para início de conversa, é que escovo os dentes de maneira metódica, todas as noites antes de dormir. Depois enxaguante com o desenho de um cara queixudo no rótulo e mais um pouco de água. Ainda assim, acordo com a boca amarga, como se tivesse bebido rum ou absinto e como se tivesse passado a noite em um festim nojento na lixeira.

Isso pra não falar do corpo doendo, a cabeça latejando e a sensação de que elefantes me usaram como pista de dança por mais uma noite e que fui sparring em algum sonho perdido do Muhamad Ali...

Antes de ir tirar a sensação de esgoto da boca e desenrijecer a máquina velha que é meu corpo, tenho de me atualizar.
Me situar de novo no mundo concreto e separar as sobras de sonhos que me enxameia a cabeça como moscas em torno da lixeira que sinto no estômago; terminar diálogos que tive nesses sonhos, experimentar partes do meu corpo para ter certeza de que não vão se liquefazer ou coisa parecida e por fim decidir de vez se já acordei mesmo ou se ainda estou vivendo uma daquelas outras mil e doze vidas, mais terríveis, mais vívidas, mais sensíveis e mais preferíveis a essa em que acordo com lixo no estômago e dores nos ossos.

Esse processo não costuma demorar mais do que uns poucos minutos, mas nos últimos tempos tenha percebido com o que me resta de senso crítico nesses momentos no limiar, que tenho me demorado cada vez mais entre sonho e realidade. 

E não chego a ter certeza do quê é o quê.

Algumas vezes isso me ocorre ao longo do dia, como num sonho lúcido invertido.
Então o despertador berra uma irritante música que vivo jurando que vou mudar sem o fazer e por fim decido que sou Eu. Espanto relutante as sobras de sonho a contragosto e reitero escovação, enxaguante e mais água, apenas para minutos depois sujar novamente dentes e espírito com café e as notícias do mundo nos jornais da manhã.

Está escuro lá fora e tento me recordar se na verdade já não é noite e eu tenha dormido de dia e por algum motivo não me tenha lembrado.

Não.

É chuva.

O céu parece comigo esta manhã: Negro, ameaçador, de mau humor e em vias de desabar.
 “Bem-vindo ao clube, cara!”.

Se eu tivesse bom senso não estaria zombando do céu em manhã de tempestade. Não me lembro o que é bom senso.
Também não me lembro de ter ligado a TV ou mesmo se deixei ligada quando dormi. Mas ela zumbe uma musica qualquer que por motivo qualquer me chama a atenção.

“E a estrada fica difícil, não sei o porquê...
A estrada é longa, nós seguimos adiante
Tente se divertir nesse meio tempo”

Garota com cara anglo-saxâ e nome latino.
Bonita. O cara abraçado com ela no vídeo também. Ao fundo tem uma bandeira americana tremulando e a música não é de todo ruim. Mas o cenário é clichê demais.
Pelo modo como se abraçam, percebo que definitivamente não sou um tipo romântico ou tenho uma percepção um tanto torta do que é o amor, se é que a música fala realmente disso.

Azar!
Tenho uma percepção torta sobre quase tudo, inclusive sobre o que é percepção...
A menina no vídeo parece estar nos seus melhores anos. Mas já tem tempo que não vejo um sujeito com uma aparência mais junkie life! Se esse vídeo tiver mais de um ano, duvido que esse garoto ainda esteja vivo.

Mas é maldade minha e talvez uma pontada de inveja, por eu ser tão saudável, por não fumar ou ter tatuagens ou não ser capaz de arruinar o coração de alguém, como a letra da canção dá a entender que o garoto de aparência doentia fez ou faz.

Desligo a TV e olho pela janela. O céu está mais escuro. Embora já seja oito da manhã, as luzes dos postes ainda estão ligadas lançando o amarelo do mercúrio em desafio ao negror do céu.
Tem gente passando apressada na calçada, como se chuva fosse ácido. E nem está chovendo ainda. Sinto impulsos de gritar: É só água, caramba!

Mas quem disse que consigo atender a impulsos?

São 8:32 agora...

Acho que eu devia estar a caminho do trabalho ou coisa assim e só depois de tomar mais duas ou três xícaras de café me decido por fim de que é domingo e não tenho que sair.
É onde é que essa gente vai apressada as oito da manhã de domingo?
Queria que todo dia fosse domingo, menos as quartas, que é dia sessão de filmes estrangeiros num charmoso cinema decadente ali pelos lados do Floresta.

Espera aí...
O cinema fechou há anos. Virou uma Igreja eu acho.
E é para a igreja lá da esquina que essa gente vai, com certeza.
Desliguei a TV cedo demais.

Aos poucos me recordo de que no dia anterior estava defenestrando com alguma alegria todos os textos sobre psicologia que fui obrigado a ler nos últimos anos e em meio a estes papeis dei com uns versinhos rimados que forjei há uns vinte anos.

Havia me esquecido de que os havia escrito e bem poderia ter continuado neste esquecimento.
Que coisa tola e doce e idealista! E este era eu nestes versos.
Verdade seja dita, tenho preguiça e um desdém enorme pelos versos que já escrevi em qualquer época e que em uma vaidade entorpecida chamei de “poesia”.

É como quando se é criança e pega-se um monte de remédios dos pais, temperos e mais qualquer outra substância a mão e mistura-se, imaginando estar criando uma fórmula mágica.

Escrevo uma coisa, acho-a maravilhosa e passo um curto tempo gozando a irreal e fugidia sensação de que sei escrever.
Depois renovo a minha convicção de que sou um tolo e defenestro meus escritos, com a mesma facilidade com que gostaria de defenestrar a mim mesmo de mim.


Mas estes versos em particular me irritam demasiado.

O caso é que eles representam um Eu que já desapareceu de mim sem deixar saudades e sentir na sintaxe deles o absurdo da minha (quero crer) antiga ingenuidade, deixa-me um tanto encabulado, especialmente por me recordar de que àquela época, eu teria defendido com unhas e dentes e um fervor apaixonado essas ideias de que hoje me envergonho.
E eu era realmente assim?

Pobre e tolo Luiz...
Ocorreu-me um dos meus trechos favoritos de Waking Life e fiz as contas: Vinte anos... Troquei todas as células do meu corpo neste tempo e já não há mais nem um resquício daquele garoto em mim.

Isso porém não me consola nem um pouco e sobra-me a certeza de que, em geral, o constrangimento que se sente quando topamos com algum vestígio de um Eu nosso mais jovem é na verdade uma disfarçada culpa por termos decepcionado os anseios daquela criança que fomos um dia.
É quase como se disséssemos: “Desculpe garoto(a), mas eu fiz merda com todas as suas esperanças”.

Culpa sua, menino!
Quem mandou ter tão altas expectativas em relação a si e ao mundo?

Finalmente começa a chover e uma garota passa na calçada.
Diferente dos demais, ela não tem pressa e vai na direção contrária. Fuma e eu sinto inveja dela e sentir inveja duas vezes numa só manhã me deixa ainda mais irritado.

Nas costas nuas ela levava a tatuagem de uma fênix, a mais mal feita que já vi e por isso a achei linda. Que direito essa menina tem de passar diante do meu mau humor como um raio de sol naquelas nuvens escuras? (penso nisso e intimamente digo: "Mais versos dos quais me envergonhar amanhâ...")
A beleza das mulheres é um tormento e um tormento a mais quando emoldurada em almas rebeldes como aquela.

Deus, tem dias que ser um homem é um saco!

Também é um saco controlar emoções o tempo todo então enquanto rasgo meus antigos e rejeitados versos dou livre rédea a minha inveja.
Sinto inveja do menino que fui e do cigarro daquela menina, da igreja para onde as pessoas iam apressadas em busca de salvação, do mundo de onde essa garota provavelmente vinha com uma nova cota de pecados e do céu, que depois de muito ameaçar, desaba pesado sobre o mundo.








quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De quando quase meti a colher



Praça de alimentação, Shopping Cidade às três da tarde. 
Casal jovem. 
Ele, cara  bonitinho, como as pessoas entendem a beleza masculina. 
Sentaram bem perto de mim, brigando sei lá por qual motivo, mas meio que ocuparam o banco em que eu estava sentado, me “convidando” a sair dali. Mas como não chegaram a me solicitar polidamente e se permitiram me ignorar, deixei-me ficar por minha vez, ignorando-os também. 
Ou tentando pelo menos.

Brigavam.

Na verdade, era o garoto que gritava como um lunático, coisa bastante desagradável em se tratando de um local público e ainda mais sentado a centímetros de alguém que já estava lá e nada tinha a ver com a lide.

Mas, meu deus, esses “playboys” todos tem o mesmo cheiro! Cheiro de sabonete, mas um cheiro nauseante, como se esses caras comessem uma dieta qualquer que os fizessem suar uma murrinha esquisita...

Certo. Estava de má vontade (e nunca vi um ser humano completamente isento de antipatias e não sou exceção!) para com aquele tipo e tudo nele me desagradaria, ainda que ele exalasse sândalo em vez de almíscar azedo...

Ela, garota linda (como meus olhos entendem a beleza feminina). 
Cheirava maravilhosamente bem, mas acho que meu nariz tem predileção especial pelo aroma doce da progesterona, mesmo por debaixo daquela camada de perfumes e cremes todos. Discutiam acidamente por alguma coisa e não, não estou orgulhoso por, mesmo sem querer, ter ouvido sorrateiramente conversa alheia. 

Azar.

Casal discutindo todo lugar tem. E se a eles não ocorre lavar a droga da roupa suja em casa, problema deles caso  orelhas involuntariamente curiosas estejam ali, ávidas por perscrutar os detalhes do entrevero.

Mas minha bisbilhotice não foi completamente saciada. Chegaram ali já no ápice da questão, naquele momento tenso em que em muitos casos a coisa já culminou para as vias de fato.

Mas era uma briga de casal e jamais me ocorreria que a coisa pudesse descambar (em se tratando de uma rixa homem – mulher) para a violência física. Mas o sujeito gritou com a garota um “vai tomar no @#%! “ com tanta fúria  na voz, que tive um súbito mal estar. “Que diabos esse cara tem? Está drogado?”

Mulheres são criaturas deliciosas e enervantes, isso é certo.
Por vezes, tanto mais deliciosas quanto mais enervantes. Posso listar dúzia e meia de ocasiões, e só no ultimo semestre, em que uma ou outra mulher, nas muitas instâncias da minha vida, me tirou do sério. Mas nada, nada mesmo justifica uma atitude de violência, mesmo moral ou vocal, de um homem contra uma mulher. 
Não da parte de um homem de verdade. 

E isso pode até ser um chauvinismo tolo da minha parte, mas senti ânsias de partir pra pancada com o sujeito e com certeza o faria, se ele tivesse tocado naquela garota, que fosse lá namorada dele ou não, não lhe dava direto de gritar aquela grosseria. E num shopping  cheio de crianças!

Pensando nisso, me ocorre que é a segunda vez em menos de um semestre, fico excitado com a possibilidade de me meter numa briga e levar uns socos, o que talvez mostre preocupantes sinais de sentimentos de autodestruição de minha parte. Mas é maçante ficar o tempo todo indagando das próprias motivações como se a droga do mundo fosse uma extensão da droga do divã.

Azar(2)!

Olhei para os lados. 
Nada de seguranças ou coisa semelhante. Certos profissionais têm o dom de desaparecer de vista quando mais se precisa deles. Isso tudo aconteceu no espaço de minutos, tempo insuficiente para se tomar decisões que poderiam acabar na delegacia ou no hospital. 

É só que tem horas que, ou se mete  colher  ou se encolhe como um covarde e depois vai pra um canto qualquer remoer um desagradável auto-desprezo.
Acho que ia me meter em confusão dos diabos.

E a coisa ia por aí...Eu já sentindo engulhos de partir pra pancada com o sujeito, quando a menina levantou-se do banco, olhou-o com um olhar triste e num meio sorriso disse com suavidade:

“Espero que você tenha câncer...”

E foi embora.

“Espero que você tenha câncer”!!!!

Jesus! Fiquei ali paralisado, sentado com aquele sujeito cheirando a sabonete e murrinha! Nós dois com a boca aberta e olhos arregalados.

Quase quatro décadas de vida e nunca vi ninguém desejar semelhante coisa a alguém. Nunca vi ninguém sentir um ódio tão profundo por alguém a ponto de desejar-lhe que tenha câncer. Ah...Em outra situação, teria rido do tal sujeito, pois era um tipo estúpido que bem merecia um insulto, mas enquanto ele se afastava com a cabeça baixa (talvez digerindo aquelas palavras ditas com gelo na voz), senti dele uma inveja enorme.

É fato, o cara era um FDP², mas o era de tal modo, que conseguia inspirar naquela moça bonita o ódio mais maravilhosamente autêntico que já vi alguém expressar.


E ódio autêntico é certamente muito mais doce de ser usufruído do que um amor por vezes titubeante.


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