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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Insone 2


Coloco  um copo de água no batente da janela.

Olho para a noite abafada que não me olha de volta.

E, na coletânea de pequenos mistérios que compõem o vitral dessa vida imensa, acresento mais este; de como é possível que as duas horas da manhã ainda esteja fazendo calor, nessa terra paralisada e sem vento…


Quente demais para dormir e quente demais para ficar acordado.


Eu estava lá, ainda agora, imerso na perfeição de um sonho. 

Era uma Ágora composta de muitas versões de notáveis raciocínios.


E tudo me estava tão claro, coeso,  límpido como um espelho novo.

Dialogava em lógica perfeita, fria, desapaixonada, desinvestida dessa voracidade e urgência que parece permear todos os meus pensamentos em febre.


E me vinham filosfias - agora perdidas - tão lúcidas, alinhadas, confortáveis como o zumbido de uma máquina que se sabe, em perfeito funcionamento.


No limiar do sono, entre aquele mundo das formas perfeitas e este, em que tudo me dói,  recusei-me tão veementemente quanto me permitiu o cavalheirismo a que eu estava investido, na confraria elegante do meu parlamento onírico, a tornar a este mundo estático de pensamentos rodopiantes.


Mas privado da tenaz ferocidade com que defendo e ataco pontos de vista a vista dos pontos que se me apresentam nesse mundo, deixei-me persuadir pela lógica implacável daquele lugar, e deslizei de volta, relutante e dócil, pra este mundo insone e ilógico.

(Quente, meu Deus!)


E tão implacável quanto a milimétrica lógica na qual instantes antes eu embalava um sonho, a realidade desse mundo desabou sobre mim, lançando sobre meus olhos e sentidos, uma coritina de confusão.


Tento organizar a algazarra dos meus pensamentos em louca debandada e em atropelo; uma manada querendo passar todos ao mesmo tempo pela porta estreita da percepção, tendo atrás de si sentimentos terríveis (sempre esses malditos sentimentos terriveis!) a tanger-lhes para dentro e para fora.


(Deus, que calor! Por que é que nunca venta nessa cidade?)


Instantes atrás, dentro de compartimentos organizados nos sonhos…


Tudo o que eu pensava estava  coreografado, impecavelmente coordenado. E em uníssono acordo, polidos, políticos e éticos, esses muitos pensamentos que enxameiam agora o ar como moscas repelentes, estavam arquitetados como fileiras de átomos e eu lhes podia chamar por nome e os reconhecer como filhos, embora fossem milhares.


E essa queda, para a clivagem, para a ruptura, um exercício de catar pedaços de si mesmo chamado Vida Desperta foi acertada por um conclave que, quando deliberou me pareceu tão lógica…


Mas então aqui,  na janela, no ar quente e parado, fitando uma noite quente - e de alguma forma imunda como um pesadelo, sem barulhos noturnos, sem sons de grilos ou sirenes ou qualquer som que denuncie a vida - uma noite que não é carinhosa e cheia de mistérios como era na minha terra, organizo-me minimamente e ao tentar deslizar de volta e sem muita expectativa, para um sono sem sonhos, me pergunto...


Se é sensato que um homem deposite toda a sua esperança na mutabilidade impossível de um passado inevitável.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Do Fim do Meu Cansativo Sabbath

 

Uma vez me disseram, que na raiz de toda ação está, ou a necessidade ou a vontade.

A pessoa que me disse isso está mais qualificada do que eu para falar sobre a motivação do movimento ou inércia das coisas outras do universo afora, posto que é estudioso dessas coisas. Só posso falar por mim, embora não seja sequer graduado em mim mesmo.

 

Na raiz de quase todas as minhas ações ou inações, está o cansaço.

 Me movo por estar cansado de estar parado e paro por estar cansado de me mover.

Tenho quase certeza de que foi o cansaço, mais do que o fim do período natural de gestação, que me fez sair já com uma preguiça enorme, da barriga da minha mãe, onde acabei entrando por estar também cansado de ser sempre a possibilidade de ser uma pessoa.

 

Depois desse ultimo ano, cansei de falar pra mim mesmo o tempo todo, coisas que bem poderiam azucrinar cabeças alheias. Lá no fundinho da consciência há um dedo acusatório, um dentre milhares de filhos-da-puta-acusadores, que me denuncia a mentira velada, que está disfarçada mas que no fim é apenas o velho desejo de ser relevante que  move meus dedos neste teclado novamente.

 Mas estou certo de que justifico pra mim mesmo.

Não há uma só promessa que tenha feito a mim mesmo que não tenha quebrado. Posso viver com isso. Enquanto eu viver, prometo solenemente quebrar todas as promessas que a mim mesmo fizer. Ha outro modo de admitir os próprios erros?

 Bem, aqui estou.

Nesse hiato de tempo entre minha ultima despedida deste espaço e hoje, aconteceram algumas coisas. Ninharias, é claro, mas quando você reencontra algum conhecido na rua, só se interessam pelas ninharias da sua vida.

“Já casou?” é a favorita das pessoas e nove entre dez que te encontram na rua te perguntam isso. Dá vontade de responder, “Não, não casei, mas atropelei um cachorro sem querer, atrasei a entrega da declaração de imposto de renda, minhas plaquetas estão baixas e um cara com quem troquei socos anos atrás fez cirurgia e agora é mulher e estou me sentindo um canalha por ter brigado com uma garota (e envergonhado também, porque no fim das contas, ela, que era ele na época, era boa de briga e eu apanhei mais do que bati)...Quer saber mais alguma coisa?”

 Tudo isso aconteceu no ultimo ano (com exceção do atropelamento, que inventei apenas para horrorizar meu suposto interlocutor).

 

A idade cronológica finalmente me alcançou neste ultimo ano e como sinal da minha decrepitude, agora tenho que usar óculos. Disseram que minha higiene é duvidosa e eu correria riscos se teimasse em usar lentes de contato. Depois de agradecer o aviso com um sonoro “vá se foder”, resolvi acatar o conselho, porque posso não ser um exemplo na higiene, mas não sou completamente estúpido. Ou perderia a porcaria das lentes ou pegaria uma infecção nos olhos. Relutei, refuguei e fiquei horrorizado quando os óculos ficaram prontos, mas, caramba! A maldita coisa é excelente! Consigo enxergar maravilhas com essa droga no rosto e só depois de voltar a enxergar direito, é que percebi como estava sofrendo pra ler.

Ademais, como vou brigar com bolsomínions no Twiter se não enxergo a porcaria das letrinhas do celular?

Uma saliência incomoda se alojou um pouco acima da minha cintura no ultimo ano e, vida tranquila e comida demais me instalaram uma ‘pochete” adiposa na linha da cintura, que meus detratores (os mesmos que sentenciaram minha higiene duvidosa) insistem que “só sai com cirurgia”. Ao que eu digo: Esperem só! Tiro essa merda com caminhadas e abdominais em tres meses!

Isso foi ha um ano...E a pochete continua aqui, infelizmente.

Mais novidades?

Na ultima semana peguei COVID. Não obstante litros e mais litros de alcool gel, caminhando quatro quatro quilômetros e meio a pé  na ida e volta ao trabalho para evitar ônibus e demais cuidados, sou diagnosticado com a porcaria do vírus e embora não tenha tido até o momento maiores problemas, (a não ser febre noturna nos primeiros dias, durante as quais creio que tenha brigado feio com deuses e diabos) estou assintomático..

Fiquei um tanto mais corajoso no ultimo ano, coisa que, espero, fique evidente na minha escrita.

Não o tipo de coragem que me faria saltar de pára-quedas ou mergulhar com tubarões, mas ...Não sei dizer...A coragem que vem da admissão da transitoriedade de tudo o que se ama.

E também o desejo de tacar pedras psicológicas no ideário incorruptível que criei dentro de mim mesmo, para prestar culto e reverencia, enquanto virava as costas as outras coisas que me ensinaram que eu deveria reverenciar. Decidi que isso igualmente é digno do meu desdém.

 

Pensei em escrever algo digno do meu desejo de retorno a esse teclado, mas eu sabia que ia me repetir aqui.

Coisa que ja faço desde de 2011.

Lá se vão doze anos de loop nas minhas ideias e, relendo, bem, ha coisas das quais efetivamente me orgulho de ter escrito. 

Em outras eu sinto aquela frustração advinda do divã, quando, depois de anos de análise, já me imaginado um ser humano ressignificado, me pego novamente a falar de minha mãe, como se estivesse na primeira consulta ainda.

É muito  frustrante e ainda que minha vida tenha sido uma coletânea de frustrações, não envelheci o bastante para as aceitar com o estoicismo necessário a não tomar decisões baseadas no cansaço de dar voltas em torno de mim mesmo.

Mas se eu esperar que me surja o ímpeto ou aquela velha ilusão de que eu poderia reinventar a roda, acho que nunca mais escreveria nada...

Isto dito, vamos as letras...

 

 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Expropriado (ou 100 Sonhos)




Nada há o que comungar e nada a partilhar
Entre o Eu e os amplos espaços vazios da minha compreensão.
Há os grandes hiatos abertos 
Em meus ossos quebrados por palavras
Em meu espírito fragmentado por pedras e paus...

Um dia hei – e na ânsia desse dia, já nem como ou durmo senão em sonhos-
De livrar-me desse entorpecimento dos sentidos
Dessa fuga de pensamentos que correm em avalancha
Como se não tivesse crânio a detê-los, mas apenas o céu por teto para o cérebro.
Por certo, deveria perder-me no acaso dos caminhos que aponto
Nas direções que indico, mas nunca tomo, 
Como se a trilha para a minha alma caminhar
Começasse na ponta do meu indicador.
Todos parecem saber, mas eu...Eu não compreendo...

Mas tem uns fantasmas falando com minha voz,
Monólogos maçantes em que debato comigo mesmo e com meus medos.
Pavores absurdos, pueris, pesadelos que já nem assustam tanto
Quanto a consciência da súbita perda da capacidade
De me assustar.

Tem dois abismos doces por detrás de suas pupilas...
Há dois demônios graciosos a espreita nas suas pálpebras...
Há néctar e veneno confundidos na curva dos seus lábios...
E enquanto me corre um rio de água gelada pelo estômago,
Sorrio de volta para o inferno – Para o maravilhoso e encantador inferno!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!

Devo, em meu devir repleto de reminiscências
Expropriar-me de imaginações e sepultar em baús os devaneios
Não tardará romper o dia e há tributos a serem pagos
A tudo e a todos e a corrida do mundo não toma fôlego.

Sonhos são dinheiro precioso.
Já cá, ando sem moeda alguma que jogar no Arrudas
Em troca de um desejo.
Um único.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Tem alguém aí?

Dei uma revirada em uns posts meio apagados em blogs cujos autores alhures me encheram de saudades de gente que nunca conheci.

Senti a mesma sensação de perda sentida em paginas amarelas de livros antigos cujos autores nos deixaram com sua morte um tanto órfãos de humanidade.

Mas essas pessoas estão ai, vivas da Silva como eu, ou Pereiras, ou Bittenncourtts ou sobre outros sobrenomes sobre o mundo.

Onde estão vocês que me deixam tão órfão da sensação de humanidade?

As salas vazias desses corredores aparentemente vazios me fizeram mandar ao diabo a minha preguiça de ser qualquer coisa que não um observador e poupar a quem por ventura ou desventura me lê, a sensação de que também evaporei no mundo e no nada e vir até aqui manifestar a minha contínua existência.

Eu ainda teimo em ser.

Espero que eles também, porque nós já perdemos demais.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Aos Gatos que guerreavam em dança mortal no teto do mundo...



Enquanto eu durmo um sono-insone-entre-sonâmbulo, há gatos brigando por sobre o telhado, por sobre a cabeceira dos meus pesadelos.
E me perco raciocinando, tentado sondar o que só um delírio genuíno me revelaria.

Em algum lugar em Tikrit um sujeito sua frio e reza enquanto prende explosivos ao corpo.

Em algum lugar em Bangladesh alguém olha um copo vazio e se sente cheio de vazio enquanto enche o copo novamente.

Em algum lugar em Manaus alguém tentava apagar lembranças queimando fotografias antigas e agora tenta apagar as chamas com que tentava apagar as lembranças.
(vai ter cicatrizes para lembrá-lo de qundo tentou esquecer)

Em Porto Alegre alguém usa giz para riscar versos na parede de uma cela, porque lhe tiraram a caneta com que matou outro presidiário.

Em algum lugar a três ou trinta anos daqui, alguém mata mais um pouco da sua inocência olhando para uma tela onde algo indescritível se desenha.

Em Belo Horizonte, por sobre a cabeceira dos meus pesadelos gatos brigam num balé furioso de cio e violência.

Eu sonho com algo magnífico, mas é mais um fantasma furtivo do que eu não vou me lembrar amanhã.
Pensei de modo subliminar que haveria jeito supraliminar de ser um homem, mas já está dando tanto trabalho ser humano, que, sob pena de que me olhe novamente com esse seu olhar transparente, hoje vou me deixar escorregar para dentro do seu desgosto.

Desculpe, mas no balcão da padaria não tinha nem um pouco de Eternidade a venda (Eu perguntei. Juro!).
Perfeição também estava em falta, então contentei-me com bolinhos de avelã...

E não, não foi tentativa de suicídio.
Eu só me cortei para verificar se realmente eu era feito de gelo e de ouro, tal como me dizias, ainda que eu soubesse que não sou, porque me barbeio todos os dias e o rei Midas não era meu tetravô.

Acho que terei de sangrar, mas me esforçarei para não sujar os tapetes da sala e do mundo e da nossa vaidade.


Amanhã, quem sabe você deixe de desejar que eu fosse feito do mármore daquela estátua mergulhada em algum lugar do mar Egeu...?

Fonte da imagem:http://hqscreen.com/

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Você Tem de Entender Que a Chama Ama o Pavio e a Cera, Mas Tem Pouca Consideração Pelas Asas da Mariposa


Há um garoto seguindo meus passos. Eu realmente não me lembro de ele ser tão prudente.
Tem o cuidado de estar à mesma distância que mantenho do velho cansado
que está sempre a minha frente, não importa onde eu olhe e que e quantas esquinas eu vire.

Não fosse isso, eu o espantaria a pedradas, com a mesma impaciência com que me mira aquele velho cansado, quando o vermelho dos nossos olhos se cruza...

Um dia pretendo virar uma esquina dessas sem dar comigo mesmo pretendendo me desfazer desse desejo de virar esquinas.

Ontem à noite, da porta da rua até o quarto, fui deixando pelo chão da casa, sapatos, meias, roupas e restos de desejos. Quando o resto de mim chegou à cama, já não havia muito para caber em um pijama.
Se eu usasse pijamas...

O que me aborrece de verdade, por debaixo do som da chuva desabando no telhado, é pensar que aquele garoto que fui, não tem nem quinze minutos deixei de ser. É recente demais para que eu me desvencilhe dessa sensação de infância e fragilidade nos sentimentos e no pensamento.

Não importa quantos banhos tome, ainda estou fedendo a leite e a desamparo.

Queria olhar para aqueles sentimentos estranhos como estranhos a mim e me sentir divorciado deles, e esquecer como quem esquece um sonho qualquer quando a rotina do dia se assenta.

Algumas vezes, (umas três por semestre) quase posso fingir pra mim mesmo que ainda me resta alguns trocados no banco, uma fatia de pizza fria na geladeira (atrás do tomate murcho e da garrafa azul de água que eu vivo esquecendo de me lembrar de encher), algum amigo que ainda não tenha feito com que eu me sinta um calhorda e um pouco de esperança de que alguém, em algum lugar no mundo, está neste momento sonhando exatamente com o tipo de criatura que eu sou.

E que a cada dia que passa, sou menos.

Se esse improvável sonhador me encontrasse hoje, reconhecer-me-ia em meio aos restos de mim que nem mesmo chega a encher um pijama (se eu usasse pijamas)?

Acho até que ao menos hoje, me contentaria com alguma reprise decente na tv a cabo, que pago pelo privilégio de me entediar com a antiguidade das idéias novas.





segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Anacrônico



Chame a si mesmo do que quiser,  
(até porque, quando te chamas, nunca respondes!)
Nomes são palavras "e os erros são teus"
Mas você é um profeta, 
Quando faz poesia,
Poeta, 
Quando vem anunciar para ouvidos moucos o absurdo das pequenas vilezas dos homens,
Sábio, quando compõe odes a sua ignorância,
Tolo, quando pensa estar pensando que sabe o que pensa sem o saber.

Você pode estar confuso, mas não o bastante para andar sem rumo,
E há tantos caminhos a escolher, que não é difícil se perder por entre escolhas. 

Você é o portador de uma estranha verdade:
  - Estar perdido é o modo de esbarrar consigo mesmo numa esquina qualquer.

E afinal este não é um mundo alucinado?
Você pode ter certezas, mas fatalmente irá desconfiar delas, porque é a sua natureza ir contra a sua natureza de ser contra a sua natureza (e por aí vai...)

Mas isso que você faz,
Isso que você é,
É uma tentativa comovente criança,
De dar a si mesmo o que tão fartamente dá a outros sem receber,
Um meio de amar a si mesmo, ainda que através do amor dos outros,
E de ver a si mesmo, mesmo que com olhos que não te enxergam...

domingo, 3 de novembro de 2013

Talvez (elevado a sexta potência)


Dialetizemos as nossas discordâncias na imagem acima.
O que você chama de "felicidade" está aparentemente à esquerda.
O que eu penso ser "liberdade" segue à direita...
É possível que estejamos ambos  em erro e que nem você seja tão feliz quanto pensa e tampouco eu seja verdadeiramente livre.
Talvez eu acabe ficando prisioneiro de minha singularidade,
Talvez você se torne livre do compromisso de ser alguém único...
Talvez seja alto o preço a se pagar por ser livre e, consequentemente, solitário.
Talvez a felicidade da multidão seja uma alegria menor ao que deseja a sua alma...
E talvez eu que busco a liberdade, acabe por me tornar feliz por ter a mim mesmo
E ao abraçar o mundo, você perceba que ficou de mãos vazias,
Ou privando-se de si mesmo você tenha tudo...

Mas aqui, nessa encruzilhada onde nossos caminhos se separam (e porque apenas eu questiono)
Me questiono, e ao fazê-lo penso
Que talvez eu, que questiono, já seja livre, porque ter certeza é ser prisioneiro.
E você, que segue o mundo sem questionar, já seja feliz, porque ser prisioneiro é, de alguma forma, estar seguro...


Fonte da imagem http://www.caulos.com/

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A tardia ignição do meu Desconfiômetro



Tenho cérebro de esquilo.
 Fato.

É o que sempre digo a mim mesmo quando tenho uma opinião desfavorável a meu respeito e como isso é quase uma constante, admira-me o fato de eu não ter ainda me mudado para um desses parques de BH e ido fazer parte de uma comunidade de caxinguelês. 

Injustiça minha, é claro. Estou sendo duro demais nesse juízo de valor.
Esquilos são criaturas espertas e agradáveis, o que é mais do que posso dizer a meu respeito. Na verdade, devo ter é um cérebro de avelã (se é que tenho cérebro) e por associação, acabei difamando a honrada raça dos esquilos.

Mostre-me uma pessoa com elevada autoestima e eu te mostrarei alguém com baixíssima autocrítica (e consequentemente, uma pessoa feliz, tal como as pessoas em geral compreendem a quimera da felicidade)

Tenho um retardo patológico para coisas importantes. Constatação triste e que, como de costume, chega- me tardiamente.

Estou dando informações que não interessam a ninguém, mas a exceção do meu metabolismo, tudo em mim funciona com uma lentidão que parece que vejo e levo a vida em tedioso slow-motion. Mas, criatura de extremos que sou, quando engreno uma marcha, adquiro uma compreensão supersônica  do que até um segundo atrás ignorava completamente. Não é uma coisa vantajosa e muito menos um processo indolor.

Então o meu “descofiômetro”, aparelho subjetivo de existência duvidosa, resolveu finalmente funcionar e agora está próximo a velocidade da luz.

Pegou no tranco e para tanto, precisei de uma ladeira onírica e me recuso a pensar que sempre necessitarei de recursos metapsicológicos para inferir coisas que deviam vir de ponderação e raciocínio. Mas que posso esperar do meu diminuto cérebro de avelã?
Meu Deus!

Como também tenho queda para exageros e melodrama, penso em Édipo arrancando os olhos quando descobre que matou o pai e casou com a mãe, mas é apenas uma outra associação inadequada. Sou um sujeito de extremos, mas nem tanto.

Mas tragédia é tragédia e não sei de condição mais trágica do que a do barril consciente de que está cheio de pólvora e que o pavio está aceso e se aproximando perigosamente.

Então, não é exatamente por não saber dançar, mas por não poder ignorar que o chão é de gelo fino, que me agarro apavorado nesses lapsos de consciência de onde olho para mim mesmo com certo desprezo. Seria bem mais digno e menos cansativo simplesmente deixar-me cair. Duvido que a queda doa tanto quanto o medo da queda...

A consciência de certas coisas é constrangedora, mais ou menos como entrar nu numa sala cheia de tias anciãs e carolas. E pior, ficar lembrando-se desse fato o tempo todo. 

Putz! Parafraseando Mafalda: “Justo a mim me coube ser eu”.
É o meu dia de Hardy, a hiena...
"Oh, dia, oh vida...."

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Devaneios Em Noite de Chuva e Devaneios




Está chovendo a cântaros por aqui...
Se existir um deus da chuva, devo lhe dizer que sou grato por esses  dilúvios- lágrimas-do-céu que aquietam um pouco o mundo e no processo, lavam as calçadas imundas de Belo Horizonte que só nessa época chuvosa ficam realmente limpas. Acender-lhe-ia uma vela, se eu não fosse um maldito cético-incrédulo-infiel-ateu (cansei de dizer que sou agnóstico e ter de ficar explicando a diferença, então, dane-se!) e além do mais, só tenho uma vela em casa e a energia costuma faltar em noites de chuva, então não vou desperdiçá-la num ritual sem fé.
Vai ter de bastar um cordial “muito obrigado”.

Tem essas horas que o mundo realmente encolhe (como em agradáveis e insones noites  de chuva) e então, tenho uma ilusória sensação de conforto, como se as asas do mundo se fechassem em torno de mim, como num abraço...

Mas não são asas e sim tentáculos e o mundo não abraça afavelmente, ele estrangula impiedosamente.

E tem também essa...Coisa.
Esse sentimento de estar na iminência da percepção de algo novo e revelador, como um conhecimento íntimo de qualquer coisa que não se apresenta claramente à consciência, mas esgueira-se como um fantasma furtivo a nos observar no canto da visão periférica, e que desaparece caso o olhamos diretamente. E é coisa bastante  irritante esse saber-sem-saber e acabar descobrindo algo por intuição, depois de quase uma vida pensando e meditando sobre o assunto.

Isso, mais o silêncio por debaixo do telhado, por debaixo da chuva, por debaixo do céu, por debaixo de tudo, encharca o espírito de uma melancolia fria, tanto ou mais que as sarjetas lá fora estão encharcadas de água. Então toda a minha capacidade de abstração desaparece e fico refém dos sentidos, vivendo trôpego como num sonho embriagado.

Acho que nos últimos anos acabei ficando muito tempo andando em ruínas. E apenas quando lá não encontrei, tive noção de que buscava algo, que não encontrei onde o buscava sem saber.
Ou então encontrava vestígios, rotos de presença, fiapos de um “quase” alguém aqui e ali, mas no fim, no meio da multidão não havia ninguém.

Toda vez que penso ter encontrado alguém, que na falta de uma definição mais precisa tenho de chamar de “meu povo”, esse alguém já se foi; está morto ou alhures ou não é do Meu Povo, mas apenas um suposto, filho do meu desejo de que este suposto seja alguém do Meu Povo.
Ou então esse Eu foi engolido pelo mundo e rendeu-se ao desejo/desespero de ser aceito e mergulhou na inconsciência da massa fingindo não ser uma Pessoa, tornando-se Nós, mas por esses últimos, compreendo, mas não me permito lamentar.

Então o mundo para onde tenho olhado a cata de outro Eu, me parece ser uma sucessão de casas vazias, de lugares vazios por onde alguém passou e deixou marcas. E tudo que escuto são ecos muito longínquos desses outros, sorrisos congelados em fotografias, olhos que já não estão ali a olhar para o vazio,  pegadas quase cobertas pela poeira nas ruínas que rondo como um espectro.

Mas pegadas não são tão profundas quanto os pés que as gravaram e nem os ecos são realmente vozes e nem o suposto de alguém é alguém e nem quem deseja se perder na multidão merece ser encontrado.
E fico pensando se não estou eternamente passageiro parado na estação a espera de um trem que já passou e levou todos os meus embora...

Tinha alguém ali na esquina, mas virou à esquerda do mundo enquanto eu me distraí olhando as horas e acabei virando à direita.
Estou sempre e miseravelmente atrasado para tudo...

É uma sorte estranha ser um quase extinto, ultimo de uma espécie em vias de desaparecer, indivíduo que, por sua estranheza, exerce sobre a casta dominante um fascínio que tem um misto de repulsa e atração, admiração disfarçada de desdém e menosprezo mascarado de compaixão. Isso tudo enche-me de tédio e sono, mas curiosamente não consigo dormir.

É possível que no fim das contas, façamos amor e guerra pelo mesmo motivo:
Falta de espaço.
Precisamos mesmo ocupar os espaços internos dos outros já que os nossos a nós não bastam.

Talvez seja hora conveniente para ampliar minhas fronteiras internas mais para dentro, já que aparentemente o mundo encolheu demais para fora e já não há (se é que um dia houve) espaço algum para ser.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um Sopro em Minha Estupides




É uma situação desconfortável.
Saber tanto sobre o quão pouco se sabe sobre tudo.  A maioria das pessoas não sabe disso. A maioria das pessoas tem uma sorte danada. Receio que eu não esteja incluído no grupo dos afortunados ignorantes da própria ignorância. A maioria das pessoas é sabia. Eu sou, penso em meu errôneo pensar,  de uma estupidez atroz, tão mais aguda quanto mais ciente dela estou.

Mas tem momentos em que eu quase chego a me esquecer de me lembrar do quanto sou tolo. Tem momentos em que posso sem constrangimento dizer, “Foda-se!”, que é expressão grosseira, mas catarticamente a mais perfeita.
Infelizmente, são momentos bem raros.

Porém, tive um momento meio...místico esta tarde.
Estava sentado num velho e gasto banco de concreto bem de frente para um pequeno  bosque (se posso chamar assim, porque na verdade, trata-se de um jardim com algumas árvores que me agrada pelo seu aspecto meio selvagem) que há onde eu trabalho.  A tarde estava ensolarada e ventava o maravilhoso bafo de agosto. Sei lá como, mas consegui por um momento não pensar em coisa alguma. Nem percebi que estava (ou não estava) pensando em nada quando o vento soprou pelas arvores e uma chuva de folhas secas flutuou em diagonal até o chão do “bosque”. Parecia um instante em câmera lenta e eu acompanhei a queda das folhas até o chão como que hipnotizado. Era agosto (mês de desgosto, de cachorro louco e de ventania) agonizando e enchendo o ar de beleza com seus últimos suspiros.

Foi só então que, alucinando ou não, percebi que por um minuto deixei de ser extemporâneo, desconectei das lembranças do passado e das angustias do futuro e existi dentro daquele exato momento em que vivi  a queda das folhas. Foi bastante estranho  (bonito, reconfortante como uma boa noite de sono, mas estranho) e como na ultima postagem eu disse ( lembrando de uma fala ótima do filme ”V de Vingança”) que Deus(a) está no vento, talvez seja Ele(a) brincando com a minha descrença (como se fosse escolha minha acreditar ou não...) dando uma pequena mostra de sua existência.

 Se foi assim, gostei, especialmente pelo fato de ser (em teoria) uma prova de que Ele(a), caso exista,  ao contrario dos que dizem adorá-lo(a), tem senso de humor.

Lembrei-me de uma conversa antiga com uma grande amiga, uma dessas pessoas maravilhosas que a vida nos arranca de um modo ou de outro (como o vento arranca folhas das árvores), que me disse:
“Quem quer buscar a Deus, na maioria das vezes, deve-se afastar das religiões. O pensamento deve desligar-se dos preceitos acanhados; deve rejeitar as formas grosseiras e irrefletidas que as religiões envolveram o supremo ideal.”

 “Deve estudar Deus na majestade de suas obras”.

Era uma pessoa de grande fé, coisa de que ainda sou incapaz, mas hoje compreendi um pouco mais do que ela queria dizer. Eu acho.

E acho que implico demais com Deus(a). 
E na possibilidade de Ele(a) existir, dá o troco do seu modo.

Eu também tenho senso de humor , mas embora tenha apreciado muito  aquele momento, ainda preferia um desfile de anjos na Praça Sete  ao meio dia ou então que a Pampulha se dividisse ao meio mostrando o  leito normalmente  elameado  limpo e coberto por Maná.
Mas acho que isso seria esperar demais.

 Então, partindo do principio de que (segundo dizem), para Ele(a) tudo é possível, possível é que  nas horas de ócio em que não está distribuindo pragas ou bênçãos para a humanidade (segundo dizem 2), tire algum tempo para ler blogs obscuros.

Nesse caso Deus(a),  caso passe por aqui, saiba que agradeço pelo momento mágico da tarde de sol e vento, pela paralisia do tempo na queda das folhas e pelo instante de silêncio que me proporcionou; e se possível (já que para si tudo o é), gostaria de pedir  que me concedesse a graça de poder ficar inconsciente desse tanto que sei sobre o que não sei, ignorante da minha ignorância e não tão certo da minha própria estupidez.. Faça-o por capricho, por compaixão ou por misericórdia (a mim não interessa tanto o atributo quanto o resultado), mas faça. 
Ser-lhe-ia muito agradecido...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Príncipes Universais em Lascaux




Você é uma montanha a ser conquistada?
Tem uma montanha perto da minha casa. Bem...Na verdade, não é bem uma montanha (não para os padrões mineiros).
Trata-se de um morro próximo (bem íngreme)  de forma cônica levemente lembrando aqueles desenhos estilizados de montanha,  que na minha infância  minha imaginação atribuía as proporções de um verdadeiro Himalaia.

Passei meus primeiros anos querendo subir lá, sem permissão e para a minha tragédia, eu era o tipo de garoto "obediota" e bem comportado. Não me admira que eu não fosse muito popular entre os outros garotos...E eu nunca subi a tal "montanha". 
Já fazia um bom tempo que eu sequer olhava para lá. Hoje, mais cedo, parei de digitar isso por um tempo e fui à janela. Ainda é um morro de proporção considerável, mas de modo algum lembra aquele simulacro de kilomanjaro, que minha pouca idade ansiava por conquistar.

Engraçado como o tempo parece privar as coisas de sua imponência....Quando eu era garoto e passava horas a fio olhando para lá era um espetáculo: Coberta com uma vegetação rasteira, algumas árvores  miúdas, grama verdinha...Ah e lá  ventava sempre o sol chegava mais cedo e se punha mais tarde ( e se Deus{a} existe, deve morar no vento e no sol!).
O topo parecia estar sempre iluminado e era delicioso  imaginar-me lá no alto dela, sentado como o rei do mundo...
Agora está cheio de casas e tem uma antena de operadora de celular no topo. E embora eu tenha passado a infância sonhando e eu levasse talvez menos de quinze minutos para chegar lá, nem um eco daquele anseio por subir até o alto daquele morro eu sinto.
Comecei com estes devaneios  da  minha infância  para falar sobre o anseio humano por desbravar  florestas ou escalar montanhas, internas, externas, psicológicas, espirituais, morais, filosóficas, físicas e metafísicas. Penso que  todo mundo gosta inconscientemente da sensação quase mágica de ser o primeiro a pisar num chão, vencer um desafio, romper uma resistência, ganhar uma peleja, um debate.

Ser o primeiro, um príncipe do universo.

 Neil Armstrong foi bastante polido e político em sua fala, mas não foi muito  honesto: Ser o primeiro a pisar na Lua, foi um salto inacreditável para aquele homem! Ao restante da humanidade coube o pequeno passo e o incômodo papel de  coadjuvante (contra o que rebela-se toda a nossa vaidade).

Ou como me afirmou um garoto religioso outro dia “somos todos príncipes universais”. Na minha atual queda para o existencialismo, tenho de “concordar” com ele (embora não veja vantagem alguma em ser um "príncipe" num universo onde supostamente todo mundo o é), porque se existe uma força maior que impera sobre o coração do homem, é a ilusão mal disfarçada de ser um “herói cósmico”. O primeiro e mais importante ente a ser considerado pelo universo (razão pela qual já não tenho impulsos de conquistar aquele morro, porque agora mesmo tem uns moleques lá no alto).

"Príncipes do universo". Por muito que tenho visto, sou levado a pensar que todos os seres humanos se vêem assim, embora disfarcem esse sentimento megalomaníaco por detrás de uma tonelada de recursos ideológicos, dentre os quais o mais bonito, comovente e mentiroso é a humildade.
Temos de justificar para o universo a nossa existência. De um modo ou de outro.  É o que nos move e é a nossa maneira de vencer a morte. E é para isso que criamos os deuses: Para sermos através deles, nós mesmos, eternos, incorruptíveis,  mais importantes do que as estrelas gigantescas ou as milhões de galáxias criadas por Eles, que foram ciados por nós.

Acho que pior do que arrogância é a falsa humildade e, ah...Como somos habilidosos em fingir que somos humildes quando isso contraria toda a nossa natureza!



E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas, desenvolvendo (possíveis e ignorados) tumores que dia desses darão cabo da minha raça e ainda me imaginando o ser mais importante para os deuses, motivo de rivalidade entre eles e ator principal da tragicomédia do Universo.
O problema é que parece que TEMOS de funcionar assim ou enlouqueceremos por termos de encarar a nossa finitude e efemeridade. A desimportância da nossa existência e a falta do significado para a mesma é peso demais para nós.
Fugindo e voltando ao assunto:Você por acaso é uma montanha?
Bem, se for o tipo de pessoa que declara abertamente as suas dúvidas em relação à própria situação de primícia universal do homem, vai se tornar uma montanha a ser conquistada por qualquer um que se sinta ameaçado em sua posição de “príncipe universal” pelo seu raciocínio.


Você é também um daqueles estraga o natal contando as criancinhas que Papai Noel não existe? Saiba que você tem irmãos no mundo, meu amigo. Eu não o conheço, mas já gosto de você!

 Todo mundo tem um amigo nervosinho com quem os outros gostam de implicar, porque é divertido vê-lo irritado. Bem, se você não exatamente o tipo nervoso, mas sofrer de uma fibromialgia intelectual , então o princípio é o mesmo.  Eles têm que deslegitimar as suas dúvidas, porque elas os ameaçam de algum modo.Elas poem em xeque as certezas deles, das quais consciente e inconscientemente duvidam.

E se existem montanhas inalcançáveis, sempre vai ter alguém disposto a arriscar a vida (em ambos os casos, literalmente), para ser o primeiro a conquistá-la.

Você é uma montanha a ser demolida e reduzida às proporções de um morro ou uma colina. Você tem de ser vencido, conquistado, abatido sem piedade e o primeiro a conseguir fazer isso se sentirá um herói. Se fosse possível, moral e legalmente, é provável que empalharia a sua cabeça e a colocaria como um adereço numa parede, diante do qual contaria as vantagens da vitória sobre si.

Como a lei proíbe, o recurso mas usual é te converter em qualquer coisa que não seja você mesmo e se necessário, deixar por modos subjetivos, escrito em sua mente a seguinte frase imortalizante que podemos encontrar em árvores em meio a florestas ou nos parques: “Fulano esteve aqui”!

Nossos antepassados  em Lascaux (os mais antigos e famosos grafiteiros da história) sabiam disso .
É, ao que parece, outro jeito de se imortalizar.
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