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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Poema sem data ou Dente de Leão 2



Ficou no ar feito perfume ou a tensão que precede o atroz...
Após a sua passagem ficou essa certeza
De que ha beleza no mundo,
E sol por sobre aquelas nuvens escuras..

E o desejo pelo fogo e calor que exala desse desejo,
E que ficou no ar e na paisagem depois de sua passagem,
É dessas coisas que não cabem em dicionário..
É dessas respostas para perguntas que nunca foram feitas...

E enquanto isso me percorre as veias em febre e a cabeça em êxtase,
Eu acelero o carro dos meus pensamentos e devaneio estradas infinitas,
Enquanto atravesso ruas de trânsito lento, sentindo felicidade em todos os meus sentidos.

Sussurre enquanto seu corpo treme no meu...
Suspire no ar enquanto minha alma devora cada instante...
Desses, quando desejo que o tempo pare ou exista todo de uma só vez.
Você deixou um pouco de sol, lá nesse paraíso qualquer de onde fugiu?

Eu caio,
Enquanto o ritmo da música diminui e seus cabelos varrem o ar.
Minha pulsação acelera com o mundo e eu sou feliz em câmara lenta..

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Elixir e a Pedra



“Vais arder...
E eu serei a mirra.


Uma vez em um sonho alguém me havia dito que "a beleza real de uma consciência desperta, é que em pequeno espaço dela podem caber muitas estrelas."

Houve época em que eu podia facultar ter ilusões de que poderia atribuir significado a tudo e a nada. 
Era esse o meu modo de abrir uma consciência em universo sonâmbulo.


Até que aconteceu.

Senti isso aflorar como algo que buscou passagem por um longo tempo, passando por caminhos estreitos e labirintos, cavando, fluindo por brechas e fendas na pesada armadura da razão, até vir à luz da percepção.

É daquelas coisas, que despencam nos sentidos, preenchendo espaços até então dotados de um vazio ignorado, causando reações de violentos ciúmes em toda a sua lógica, porque a razão luta com unhas e dentes para se apropriar desse território estrangeiro. 
Esse, em que sentimos um estremecimento, um reconhecimento de algo que escapa à explicação racional.

Nada nesse universo é como você espera, a não ser, talvez, a decepção advinda da expectativa.
Preso a esse dogma, um dia parei de esperar e quando o fiz, aquilo que não mais esperava veio.

Eu olhava para aquilo a que não pude dar nome, com a certeza (eu que nunca tenho certeza de nada) de que era exatamente como deveria ser e isso por si só já deveria causar um estranhamento...

Mas aquela certeza pulsava na minha mão como um coração em chamas, e crepitava à minha volta como uma translúcida neblina flamejante.

Tal qual um primeiro homem reverente ante o primeiro fogo, observei, e, no entanto, esse era um fogo que não queimava ao toque, que não servia para servir, que não espantava o terror da noite.

Era uma chama que ardia sem consumir lenha, um sol que sempre iluminaria o vazio, uma estrela que nunca cairia do céu. Espantava o terror do terror.

Fiquei atado à sina fatal dessa ambiguidade, pois Sempre e Nunca jamais deram as mãos em qualquer definição que eu pudesse dar a um grande mistério ou a um devaneio. 

Mas lá estava ela, a Definição, algo que não necessitava de palavras, mas de sentidos e ainda assim, estou inerte, sem versos, tentando determinar o que não se pode trancafiar no arcabouço limitado da linguagem...


E ainda que certo receio antigo e enraizado (nas mesmas profundezas de onde me veio aquilo de que estou certo) insista para que eu deambule em incertezas, um vácuo de calma fatalista se apossa de mim e eu, que nunca consegui silenciar as vozes da mente, me encontro final e magicamente em transe...

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Expropriado (ou 100 Sonhos)




Nada há o que comungar e nada a partilhar
Entre o Eu e os amplos espaços vazios da minha compreensão.
Há os grandes hiatos abertos 
Em meus ossos quebrados por palavras
Em meu espírito fragmentado por pedras e paus...

Um dia hei – e na ânsia desse dia, já nem como ou durmo senão em sonhos-
De livrar-me desse entorpecimento dos sentidos
Dessa fuga de pensamentos que correm em avalancha
Como se não tivesse crânio a detê-los, mas apenas o céu por teto para o cérebro.
Por certo, deveria perder-me no acaso dos caminhos que aponto
Nas direções que indico, mas nunca tomo, 
Como se a trilha para a minha alma caminhar
Começasse na ponta do meu indicador.
Todos parecem saber, mas eu...Eu não compreendo...

Mas tem uns fantasmas falando com minha voz,
Monólogos maçantes em que debato comigo mesmo e com meus medos.
Pavores absurdos, pueris, pesadelos que já nem assustam tanto
Quanto a consciência da súbita perda da capacidade
De me assustar.

Tem dois abismos doces por detrás de suas pupilas...
Há dois demônios graciosos a espreita nas suas pálpebras...
Há néctar e veneno confundidos na curva dos seus lábios...
E enquanto me corre um rio de água gelada pelo estômago,
Sorrio de volta para o inferno – Para o maravilhoso e encantador inferno!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!

Devo, em meu devir repleto de reminiscências
Expropriar-me de imaginações e sepultar em baús os devaneios
Não tardará romper o dia e há tributos a serem pagos
A tudo e a todos e a corrida do mundo não toma fôlego.

Sonhos são dinheiro precioso.
Já cá, ando sem moeda alguma que jogar no Arrudas
Em troca de um desejo.
Um único.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Poema Breve 2


...Vê, o vento sopra, é sinal de que o céu se inquieta.
Observa-o agitar-se  no léu e deleite a sua alma.
Se bafeja nas velas da sua nau, significa que você será levado para lá,
Para os horizontes vermelhos em que deseja ardentemente se perder.

Se em direção contrária -  posto que o vento é belo porque é livre -
Então para aquela modorrenta calmaria sem ondas,
Você dirá adeus ao vento e horizontes prometidos e estará também livre,
Livre como o viajante sem estradas e como o pássaro aconchegado à gaiola
Livre do desejo de se perder.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O aceno de Náucrete

Você pode cantar sobre mim, se o quiser...

Eu canto sobre guerras e sobre dias alegres
E sobre flores e amores e a fragilidade das coisas...
Sobre sangue derramado e lascívia sobre a lua...
Eu canto sobre coisas que se arrastam sob a luz
E sobre o que cavalga acima da escuridão...

Mas que sei eu dessas coisas que canto,
senão que canto sobre o que não sei?

O que você não sabe,
É que eu conhecia o poder do sol sobre minhas asas de cera.

O que importa é voar, criança.
Em que direção é só um detalhe que preocupa quem não voa.

Eu?
Sou ilha de não saber nada...
Um amontoado de ignorância cercado por incompreensão por todos os lados.
E estando náufrago sem nau ou porto de mim,
Não compreendo esse seu Ser sendo o que não compreendo.
Mas acabei de fugir de um labirinto para dentro de outro.
Uma esquina errada que tomei depois da terceira nuvem...

Mas tão logo me liberte o mistério do meu Ser Humano
E me livre o fascínio do Eu,
Haverei de compreender o seu Ser Mulher
Para talvez começar a entender também o meu Ser Homem.

E é realmente belo que te digas louca,
Mas, sabe, isso deixa de ser virtude quando te gabas...




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esquina



Eu sou o que não sou. E frequentemente, consigo não ser o que sou com maior zelo do que o ser.
E sendo, não posso ser outra coisa que não esta dialética e esse cio entre o ser e o não ser.

Os meus sentidos um dia talvez – não sei por qual sortilégio – venham a calar
E eu, com outras percepções, de outros modos venha a saber
Que na vida não tenho amado senão a fantasmas vivos
Sendo eu próprio e este espelho,
E estas rugas e estes olhos no espelho que me fitam com rancor,
Um fantasma do amor que deixei de legar a mim mesmo
Enquanto amava fantasmas vivos...

Penso que eu realmente deveria fumar estes cigarros
Que deixo arderem como incenso no cinzeiro apenas por gostar do cheiro de decadência
Da fumaça que se desprende da seda e dança até o teto.

Penso que eu realmente deveria parar de emprestar livros e sonhos.
As pessoas nunca os devolvem e eu me encontro pelos corredores desprovido de tudo,
Com a estante e a cabeça repletas de fantasmas literários e oníricos.
Um vazio paradoxalmente repleto de ausências.

Se eu virasse agora aquela esquina onde há um minuto
Garotos barulhentos perseguiam um cão vadio,
E pegasse depois de umas curvas e algumas esquinas outras, um caminho para o deserto,
Talvez perdesse essa sensação de alheamento
Com essa casa e este espelho,
Com esse silêncio barulhento em meu sangue
E essas gargalhadas que vem não sei de onde, 
E essa gente lá fora e essa inquietação aqui dentro
E esse desespero branco e essa preguiça tardia e esse cansaço que me corrói as horas
E as entranhas...


Há grandes questões no mundo,
Guerras e estrelas a explodir e a nascer nos remotos do céu e da terra.
Ali é só uma esquina mal iluminada.
Deus e o Diabo devem estar neste momento ocupadíssimos;
Em batalha pala alma de algum santo, decidindo o destino de uma nação,  envolvidos demais nas importâncias do mundo,
Para olharem para uma simples esquina.
Se eu virar ali sem que vejam, escapo para sempre das grandes questões!
Da metafísica!
Pensando nisso, deitei escadas abaixo o meu corpo em fuga dos meus pensamentos, antes mesmo de pensar no absurdo de empreender tal fuga.


Mas antes de virar a esquina, eis que me antagoniza um vagabundo.

Era um vagabundo parado entre eu e a esquina, olhando-me em desafio.
Talvez me confundisse sabe-se lá com que objeto do seu mal querer, mas era um vadio.
Chamo-o assim, porque o odeio.
Insulto-o porque o invejo.
Está ali, sem camisas e sem pudores, exibindo o torso nu no azul da tarde.
Gozando, por entre os rotos que parcamente lhe cobrem as partes, o estômago semi-vazio e a imundice de sua pele,
 A gloria de não ser eu.

Que direito esse maldito tem de não ser eu?
Que direito tem de estar ali fora das grandes questões do universo
E de ser peça ausente do xadrez de Deus e do Diabo?
Odiei-o! Odiei-o pela sua liberdade de não ser eu...
E por impor, como baluarte, sua liberdade entre mim e a esquina por onde eu fugiria.

Avaliei a coisa pela matemática enquanto retribuía o desafio.
Os números me desfavoreciam...
Era vinte quilos mais pesado, vinte centímetros mais alto e vinte anos mais jovem do que eu.
Levava na cara atrevida  e nas unhas sujas a malicia das ruas que em tempo e por entre  feras irmãs aprendera,
E que meus diplomas e leituras e noites em claro jamais me ensinariam.
Como ser fera livre.
Levava nos olhos a leveza da vadiagem desprovida de tudo.

Ele me bateria, estou certo e isso me fazia estar feliz com a felicidade dos desgraçados.
Pois por vezes um soco a esmagar as bochechas e dentes e ossos – é tanta vida a se desprender de um gesto – aquece a alma tal qual um beijo apaixonado.
Havia muito eu não sabia o que eram ambas essas coisas.

E por tudo o que estava em meu desfavor, decidi que definitivamente o atacaria.
E por deus, se não desembargasse aquela esquina, eu o reduziria a cinzas!

Que espetáculo seria!
A minha respeitabilidade engalfinhada com a livre mendicância dele!

Sim, era eu e era ele que não era eu e lutaríamos!
Tal era o meu ódio que, tinha certeza,  o esmagaria contra a sarjeta onde mendigava o seu pão.

Mas antes que eu travasse peleja mortal, uma nuvem cruza o céu e Deus e o Diabo olham.
Eis que passa um carro e um homem atira uma moeda,
E meu inimigo, rapidamente esquecido de mim, corre por entre os carros, arrisca a vida
A cata de uma moeda de pouco valor.
Li em seus olhos o desespero para buscá-la  e ao que ela traria e apiedando-me dele, amei-o.
A fúria que me animava os músculos se esvaiu.
Oh, homem desgraçado! É meu irmão!
Ele cata moedas por entre carros e eu  metafísicas  nas vilezas da vida.
Não é melhor do que eu, apenas tem amos em menor número.
É tão rico de necessitar de tão pouco, que nem me permite odiá-lo.

De volta ao meu quarto e muito depois, passado o meu sonho de mutuo extermínio,  lamento em silêncio o olhar de Deus e do Diabo
Para aquela esquina onde um homem agora dormia sobre trapos
Em sono menos perturbado do que eu em sedas e travesseiros a lavanda.
Ele só quer pão e álcool e eu quero o impossível não querer, mas...
Espera...!

Há aqui nesta mesa pão em demasia, repleto de bolor.
A metafísica não me permite comer.
Há aqui neste armário e sob esta cômoda, vinho mais velho do que meu cansaço.
A moral não me permite beber.

Do que ele necessita, o pão para saciar o corpo, o álcool para acalmar a alma,
Tenho em abundância, sem no entanto ter calma e sem saciedade.
Deveria ter arrebatado-lhe a moeda como me furtou a fuga!
Por que necessitaria de algo mais do que já tinha?
Era livre! Não era eu...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da Minha Necro-linguagem





A minha lógica morre junto as coisas que anseio vivas
E a vida vai perdendo batalhas, deixando a paisagem cinza
E o ar impregnado de vazio.
E enquanto mastigo a familiar sensação de incompreensão,
Moscas vivas empesteiam o ar da manhã
Enquanto folhas secas embelezam o chão da tarde com sua morte.

E é  assim talvez o modo de se darem as coisas,
A pedra beija a vidraça, a vela queima as asas da mariposa,
A alma em êxtase na queda,
O chão subindo violentamente contra a fragilidade do corpo,
Afagos ocultando vilezas e o amor ali, na ponta aguda do açoite.

Mundo louco!
É o ritmo estranho em que o universo dança,
Enquanto vou tropeçando em meus próprios pés
E nas palavras que me explodem a jugular em fogo.

Natural que tudo tenha lá a sua natureza.
E redundância ortográfica ou licença poética que seja,
Lego aos Poetas e aos Semânticos encontrar
As formas  mais exatas de definir
A indefinição,
A singular natureza do nada. 

A minha fala é por vezes  ininteligível e mortal
(mesmo para mim, quando não quero e tenho que falar)
Meus versos são de um embotamento cruel
(Mesmo para mim, quando quero e não posso calar)
E assassino lentamente as coisas quando nelas falo.

É essa, lamento dizer, a minha natureza
Sem semântica, sem poesia...
Mas o universo sabe, não sou nem quero ser poeta.
Somente queria ser mudo e surdo para isso que me ferve as entranhas
Para a febre dos meus sentidos. 

E porque todos os meus espelhos mentem,
Sou um EU atordoado na busca por outro EU.
Talvez  excessivamente encantado
Pelo próprio atordoamento.

sábado, 8 de setembro de 2012

A Alegria da Queda



Toda a natureza tende para baixo.
É a lei da gravidade e das muitas humanidades.

Caia.

Nada há de mais divino que isso.

Caem folhas das arvores no outono, caem anjos nos verões do céu.
Seja feliz na queda, abrace o precipício.
E goze a alegria louca nos poucos instantes
Da queda livre alucinada!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Signo do Corvo



Há humanos que se pensam deuses, feras  que se pensam homens e divindades de carne e sangue, que  se sentem menores e mais ínfimos que os primeiros.

Por vezes antílopes sonham serem leões a devorar os próprios irmãos.
Por vezes os deuses erram e a esses erros, chamamos “humanidade”.
É uma massa estranha, com erros sobrepondo-se a enganos, imiscuindo- se, disfarçados de certezas.

E eis a única certeza possível:
Hás de morrer, criança,  e com o substrato da tua decadência alimentarás a terra  e, por um tempo,  também a saudade daqueles que lamentando a tua sorte, fingirão não estarem sob o julgo da mesma sina .

Dar-te-ão guirlandas, a erva da terra por teto e o nome no mármore ou uma moeda para que pagues ao barqueiro do Estige, e apiedando- se de ti com velas e orações, esquecer-te-ão, pois dali em diante a dor da tua ausência será a constante lembrança de suas próprias finitudes.

Deixa-os brincar de eternidade e de incorrupção enquanto os cabelos se lhes tornam brancos e a poeira do tempo lhes enevoa os ombros.
Deves perdoá-los, para o teu bem.
É coisa pequena que te esqueçam.
Que importa se olvidam de ti, se tanto e com mais freqüência, esquecem a si mesmos para perscrutar o céu a cata de presságios?

E a terra lamenta uma ausência tanto quanto a mata lamenta a folha que cai ou  o perdulário chora  o centavo perdido.
Mas a noite escura se apieda de todos os que têm a coragem necessária
Para admitir que a teme.

Abraçá-la-á a negra terra e terás repouso, então, é tolice  ir-se aos prantos ao seio que recebeu  os teus antes de ti e que receberá a teus filhos e os filhos destes.
Deixasses pedaços de pão para encontrar o caminho de casa, os pássaros os comeriam e ainda estarias perdida.

O esmo é a direção que deves tomar, a única vereda digna dos teus passos.
Alegra-te por estares perdida, criança!
Apenas o que o sabem podem orientar os próprios caminhos.

Então, se lhe aprouver hoje adornar-te com esta tristeza,
Ora, que sejas linda e triste como a lua de outono,
Mas ergue-te amanhã, poderosa e inclemente, 
Como o mais rubro e implacável  sol de verão.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pétalas Quebradas




Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.

E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e vilezas piedosas do cotidiano.

Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar todos os espectros da cor?

Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação na natureza.

E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso  todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Abismo de Mim



Uma pedra  lançou-me no abismo.
Atentou para ouvir
O eco do meu corpo, quando eu batesse no fundo
Quando meu grito ressoasse no nada.
“O abismo a que me empurras – disse a Esfinge – Não é maior
Do que aquele que existe em tua alma”

Não houve som e nem dor,
Quando me choquei contras as rochas .
Apenas uma nuvem de dentes de leão flutuando no ar
E o som do farfalhar de folhas secas
Levadas pelo vento.

Bobagem.
Não há vento no abismo profundo,
Como não há alegria nas horas escuras
Quando seu mundo parece retrair e morrer.
Deve deixar que as sombras dancem com as sombras
E as luzes de tua alma,
Que dancem com as luzes que emanam das almas felizes.
Como morrem os anjos?
Como abraçam o vazio os homens alados, cujos sonhos voam?

Morrem como morrem todos os homens,
Sozinhos e com medo, antes que a cortina caia.
Lançando no eterno a esperança de alcançar o mar infinito
O verde e o campo onde caminhariam para sempre.

Uma pedra lançou-me ao abismo.
Está claro que não morri.
E o que não me mata, torna mais louco.
Fiquei carregado da  sabedoria de nada saber,.

Há conforto na sabedoria.
Há abrigo na ignorância.

Mas a loucura....
Abraça-me os ombros como uma consorte.
E me seduz com beijos doces, alucinógenos...
Dota-me de asas imaginarias
E enche a minha cabeça de um céu ilusório:

Mas no vazio, a queda para baixo ou para cima
Não faz diferença alguma.
A pilhéria da vida é a mesma.
Se a ouvir de cabeça pra baixo
Terá a mesma graça
Nenhuma corrente te prende à sombra do mundo,
Exceto as que tu mesmo forjas com lágrimas
Exceto a paixão à própria prisão.

 Uma pedra atirou-me no lago
Atentou  para contar as ondas que se formaram
Quando eu  afundei...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Prisioneira - Emily Bronte




Saibam ainda meus tiranos, que não estou disposta a vestir
Ano após ano a tunica do desespero sombrío e desolado;
Um mensageiro de Esperança vem a mim cada noite,
E ele oferece uma curta vida mas plena liberdade.

Vem com os ventos do oeste, com os ares errantes do anoitecer,
Com esse claro crepúsculo de ceu que traz as estrelas mais densas:
Os ventos tomam um tom absorto, e estrelas um brilho suave,
E sobem, e mudam, visões que me matam de desejos.    

Desejo de nada saber nos meus anos mais maduros,
Quando o gozo enlouquecia com sobressalto, contando as futuras mágoas:
Quando, estando o ceu do meu espírito cheio de amparos calorosos,
Eu não sabia de onde eles vinham, se do sol ou se da noite trevosa.

Mas primeiro, um silêncio de paz —uma calma sem som desce;
O forçar da angústia e a impaciencia feroz  silenciam.
Uma música muda acalma meu peito—A harmonia é indescritível
E eu nunca poderia sonhar, até que a Terra se perdesse para mim.

Então amanhece e o Invisível, o Oculto revela sua verdade;
Meu senso externo foi-se, minha essência evola;
Estende suas asas —seu caminho se abre, encontra seu porto,
Mede o abismo, inclina-se, e ousa dar o salto final.

Oh, terrível é a prova —intensa a agonia,
Quando a orelha começa a ouvir, e o olho começa a ver;
Quando o pulso começa a palpitar —o cerebro a pensar outra vez,
A alma a sentir a carne, e a carne a sentir a cadeia.

Contudo  eu desejo essa perda, mas não a menor tortura;
Quanto mais a angústia atormenta, mais cedo serei livre;
E inflamada com os fogos  do inferno, ou brilhante com luz celestial,
Ainda que coberto com o manto da morte, a visão final da vida  é divina.

domingo, 25 de setembro de 2011

Colombinices

E se as rugas cobrirem de fino pó do tempo o rosto magro
Enquanto suaves sombras são perseguidas?
E se  do outro lado dessa  mesma rua nua,
Ardesse em catarata o sol pelos ombros  de cetim,
Aquecidos como os campos de ouro enamorado?
E se  em coro corressem os ventos de verão em alcatéia?

                                                      -----------------------------

E então uma névoa desaba sobre o dia claro,
Um pesado silêncio que cala o mundo com um grito
O despertador berrou,  a cidade murmurava e ele saia de casa,
Ela atravessou a rua sem sequer olhar para os lados
E por entre os carros, um séquito de borboletas a seguia
Se desprendendo  dos cabelos flamejantes a medida que o ar da cidade lhe beijava o rosto.

Ele fazia apostas no acaso...
Jogava os dados  torcendo para que num daqueles  momentos fugidios
 O Destino estivesse olhando para o outro lado e então poderia roubar um pouco de felicidade.
Ela dobrava a esquina da Rua Tamoios e descia em direção ao Parque Municipal...
Ele se barbeava pela manha e sentia girar o tambor numa roleta russa para a sua alma,
Esperando que houvesse uma bala e que ela por fim parasse na agulha...

Ela rabiscava versos sem rima nas capas dos cadernos,
E um estranho o olhava de volta quando se via no espelho.
Era a sua  vida viciada como um baralho de cartas marcadas.
Às vezes  ele blefava e odiava gravatas e horários apertados.
Ela gostava de gatos, de bons livros e de cantar em inglês errado,


Ele estava sempre com pressa, sujava o colarinho em lanches apressados...
Ela suspirava devagar e namorava passarinhos em vôo,
E encantava e inquietava qualquer um que lhe respirasse a presença inquieta.
Mas ele...Dir-se-ia que não tinha olhos e se os tivesse, não teriam cores...
Quem se lembraria?

No Mercado das Flores, ela comprou crisântemos brancos
Ele parou no sinal amarelo, irritando os outros motoristas.
A caminho da Praça da Liberdade ela deu uma das flores e um sorriso a um mendigo.
Os sapatos dele estavam desamarrados e ele  abaixou o olhar  
No exato momento em que ela passou bem perto cantarolando baixinho:

“I can remember this place
It's all out of phase now
Different time and space
It's like wearing new eyes
Do you complete me?
Just try, just try”
Só muito tempo depois de perder sua ultima moeda ele soube
Que  o Destino não estava olhando para o outro lado...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Uma Casa No Fim do Mundo



Final de estrada, onde todas as encruzilhadas se desencontram.
E depois dali não havia mais nada, só o nada silencioso.
Como uma casa no fim do mundo...
 Um casebre pequeno como um suspiro,
Com mil corredores e escadas ligando o nada a lugar algum.
E nesse palácio de vidro colorido
Onde ecoa o barulho de sonhos gemendo,
Morrendo e ressurgindo, repicando como mil sinos a distância
Ouvi risadas de crianças perdidas, ressoando em algum lugar ao longo das paredes.

Perdi meus pinceis e desisti de espantar o cinza do mundo.
Não posso desenhar um arco-íris com tintas invisíveis.
Ela porem se deteve a porta muitas e muitas vezes  e em muitos matizes,
Quando a risada alegre e desvairada de crianças iluminava o caos dos meus pensamentos.
Onde nessa casa pequena, grande como o mundo  estariam os pequenos?

Eu via uma profusão de cores na tela negra e opaca,
Podia ver através  e dentro das trevas.
Odor de mofo e histórias antigas, quadros de ancestrais
Ilustres anônimos mortos no tempo
Mobília antiga e gasta coberta de lençóis e tempo,
Histórias guardadas em baús enegrecidos...
Sem meus pincéis, senti-me inacreditavelmente velho...


O olhar percorreu os corredores como o vento levantando o pó,
E foi deter - se de novo no fim do caminho,
Onde as encruzilhadas  se desencontravam.
O quadro antigo era na verdade um espelho,
De onde  mirava-me o pálido fantasma de mim mesmo.
Inacreditavelmente velho
Numa casa no fim do mundo...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Dente-de-Leão no Vento





Olha! Lá na curva depois do rio, subindo com o orvalho do alvorecer nevoento,
É uma asa errante trazendo o brilho de lugares aquecidos pelo sol!
E se eu de repente cobrisse meus olhos com flores?
Florejar o olhar com a primeira luz de uma manhã de verão...
Ah...Mas são justamente em alvoradas  frias de inverno inclemente
Que nos aconchegamos mais para prorrogar um sonho...
Então me é permitido amar também no frio e na noite.

Veio durante a tarde coberta de suspiros, soltos no ar como dentes-de-leão,
Agitou todas as flâmulas por sobre os muros cobertos de heras
E varreu para fora o bolor da casa a muitos dias fechada,
Uma brisa cálida a me despertar, trazendo os aromas das longínquas terras,
Para cobrir-me os olhos com flores,
Para prorrogar  um sonho luxuriante.

Um pouco mais de sonho para aquecer a alma, 
Para alegrar os abismos do espírito.
Para dar à meia-noite as cores de uma tarde quente,
Enquanto não cessa  o cortante hálito gelado do inverno.

De todo modo, vou optar por cair pra cima
E talvez no meu eterno flutuar por entre as nuvens
Te encontre sentada no teto do mundo.

sábado, 18 de junho de 2011

Sândalo caído - By Sahge



Quem é mais afetado pelo choque;
o Sândalo caído
ou o machado perfumado?
Ironia cruel, vendo o gigante caído,
Penso que o gume frio do machado
Nada vale sem um cabo que o empunhe.
De um galho o Sândalo o forneceu à mão que o deitou.


Observo-o caído interrompendo a passagem.
Caiu sobre a trilha antiga, obrigando os passantes a darem a volta.
Eu o deixarei lá, o bravo gigante!
Ficará ali até que seu tronco se desfaça sob a chuva e o sol.
Um testemunho incômodo, de que ali viveu e floriu.
Perfumou o ar com sua extinção...


Breve a trilha se desviará para o canto
E os viajantes, evitando o tronco,
Passarão ao largo do lago morto.

E entre essas duas coisas mortas,
A trilha da vida dará uma pausa,
Suspirará e tomará um novo alento.
Talvez o lago volte a brilhar, talvez o toco de arvore
Reviva seus galhos de folhas e sombra.
Talvez...


Atrás de mim, sinto a lareira arder suavemente,
Uma frágil flama que se apaga em lento crepitar.
Sinto um impulso de avivar-lhe as brasas
Lançar-lhe uma nova acha que fortaleça suas chamas
Mas não me movo.
Tudo tem um inicio e tudo tem um fim.

O fogo, o Sândalo caído...
Sinto isso, mesmo que minha razão fraqueje em aceitá-lo.


E por mais que eu lamente a queda da árvore
E tema o frio que se instalará na casa e na minha alma
Quando a labareda delicada se apagar,
Quando a árvore morta desaparecer da paisagem,

Deixo que o mundo pulse e siga.
Deixo que a chama apague
Quando poderia usar o velho Sândalo caído
Como lenha perfumada...


Não posso  alimentar meu lume
Com os destroços da agonia alheia,
Com os despojos de um colosso tombado.
Não foi a minha mão, não foi meu o machado...
E não desejo o calor das chamas
a semelhante preço.


Talvez quando a labareda se extinguir por fim,
O frio me expulse dessa janela,
E eu saia ao sol e pegue aquela trilha...

Em direção ao lago morto.



terça-feira, 31 de maio de 2011

Neve e Trigo




Da neve branca e farta bloqueando caminhos, rompem brotos verdes rumo ao céu;
Mas o frio expulsou-me da janela um pouco antes do cair da noite e meus olhos perderam o lento e belo fim do inverno. Minha lareira quase se apagou e eu precisei reavivar as chamas. Invejo a força das plantas sob o gelo, mas compartilho com elas seu amor ao sol.  Ergo meus braços a ele numa oração lenta algumas vezes, mas como toda divindade que se preze, o sol Ignora solenemente os meus rogos.


Minha casa é repleta de fantasmas, bem o sabes... E tua forma vem preenchê-la sempre de alegria, espantando as sombras, quando, exausta de viagens e farta de estradas, apetece-te passar algumas horas comigo à lareira. Então mesmo desperto, conheço um pouco do que é felicidade.

Haverá por certo pousos melhores que este, em lugares mais ridentes e paragens com mais cores, jardins bem cuidados e frescos campos gramados, terras amenas de vento suave... Mas nenhum que vá amar-te tanto,  mesmo a sombra do teu vôo quando partes, nenhum que deseje tanto o teu pouso esporádico, quanto a minha casa. Nenhum que reconheça suas plumas numa multidão de outras asas, anjo infinito de cabelos ao vento... E eu ainda serei o teu lar, porque só podes repousar em mim.

Se o mesmo vento soprar a apagar minhas velas... E olhando em volta ver que junto com minhas chamas, levou o vento suas asas diáfanas... Bem, a alegria por vezes dura um instante apenas, mas é um instante imbuído de eternidade. Haverei de passar a vida esperando esses instantes em que eu sou eterno...


E ainda que eu não coma pão, ganho por causa dos campos de trigo e sentirei o  cheiro dos teus cabelos no ouro dos raios do sol.

domingo, 22 de maio de 2011

Linhas Breves


Porque é tenue a linha separando o beato do boêmio,
E seja por fé ou embriagues,
Não lhes pesa a realidade...
Morrem jovens, mesmo em franca senilidade,
Mesmo fartos de dias e cercados de netos,
Quando morrem sozinhos, tal como a este mundo vêm...
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