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Mostrando postagens com marcador Poemas e Penas. Mostrar todas as postagens
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Poema sem data ou Dente de Leão 2
Ficou no ar feito perfume ou a tensão que precede o atroz...
Após a sua passagem ficou essa certeza
De que ha beleza no mundo,
E sol por sobre aquelas nuvens escuras..
E o desejo pelo fogo e calor que exala desse desejo,
E que ficou no ar e na paisagem depois de sua passagem,
É dessas coisas que não cabem em dicionário..
É dessas respostas para perguntas que nunca foram feitas...
E enquanto isso me percorre as veias em febre e a cabeça em êxtase,
Eu acelero o carro dos meus pensamentos e devaneio estradas infinitas,
Enquanto atravesso ruas de trânsito lento, sentindo felicidade em todos os meus sentidos.
Sussurre enquanto seu corpo treme no meu...
Suspire no ar enquanto minha alma devora cada instante...
Desses, quando desejo que o tempo pare ou exista todo de uma só vez.
Você deixou um pouco de sol, lá nesse paraíso qualquer de onde fugiu?
Eu caio,
Enquanto o ritmo da música diminui e seus cabelos varrem o ar.
Minha pulsação acelera com o mundo e eu sou feliz em câmara lenta..
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
O Elixir e a Pedra
“Vais arder...
E eu serei a mirra.”
Uma vez em um sonho alguém me havia dito
que "a beleza real de uma consciência desperta,
é que em pequeno espaço dela podem caber muitas estrelas."
Houve época em que eu podia facultar ter
ilusões de que poderia atribuir significado a tudo e a nada.
Era esse o meu modo de
abrir uma consciência em universo sonâmbulo.
Até que aconteceu.
Até que aconteceu.
Senti isso aflorar como algo que buscou passagem
por um longo tempo, passando por caminhos estreitos e labirintos, cavando,
fluindo por brechas e fendas na pesada armadura da razão, até vir à luz da
percepção.
É daquelas coisas, que despencam nos
sentidos, preenchendo espaços até então dotados de um vazio ignorado, causando
reações de violentos ciúmes em toda a sua lógica, porque a razão luta com unhas
e dentes para se apropriar desse território estrangeiro.
Esse, em que sentimos
um estremecimento, um reconhecimento de algo que escapa à explicação racional.
Nada nesse universo é como você espera,
a não ser, talvez, a decepção advinda da expectativa.
Preso a esse dogma, um dia parei de esperar e quando o fiz,
aquilo que não mais esperava veio.
Eu olhava para aquilo a que não pude dar
nome, com a certeza (eu que nunca tenho certeza de nada) de que era exatamente
como deveria ser e isso por si só já deveria causar um estranhamento...
Mas aquela certeza pulsava na minha mão como
um coração em chamas, e crepitava à minha volta como uma translúcida neblina flamejante.
Tal qual um primeiro homem reverente
ante o primeiro fogo, observei, e, no entanto, esse era um fogo que não queimava
ao toque, que não servia para servir, que não espantava o terror da noite.
Era uma chama que ardia sem consumir lenha,
um sol que sempre iluminaria o vazio, uma estrela que nunca cairia do céu. Espantava
o terror do terror.
Fiquei atado à sina fatal dessa
ambiguidade, pois Sempre e Nunca jamais deram as mãos em qualquer definição que
eu pudesse dar a um grande mistério ou a um devaneio.
Mas lá estava ela, a Definição,
algo que não necessitava de palavras, mas de sentidos e ainda assim, estou
inerte, sem versos, tentando determinar o que não se pode trancafiar no
arcabouço limitado da linguagem...
E ainda que certo receio antigo e
enraizado (nas mesmas profundezas de onde me veio aquilo de que estou certo) insista
para que eu deambule em incertezas, um vácuo de calma fatalista se apossa de mim e eu,
que nunca consegui silenciar as vozes da mente, me encontro final e magicamente em
transe...
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Expropriado (ou 100 Sonhos)
Nada há o que comungar e nada a partilhar
Entre o Eu e os amplos
espaços vazios da minha compreensão.
Há os grandes hiatos abertos
Em meus ossos quebrados por palavras
Em meu espírito fragmentado por pedras e paus...
Um dia hei – e na ânsia desse dia, já nem como ou durmo
senão em sonhos-
De livrar-me desse entorpecimento dos sentidos
Dessa fuga de pensamentos que correm em avalancha
Como se não tivesse crânio a detê-los, mas apenas o céu por
teto para o cérebro.
Por certo, deveria perder-me no acaso dos caminhos que
aponto
Nas direções que indico, mas nunca tomo,
Como se a trilha
para a minha alma caminhar
Começasse na ponta do meu indicador.
Todos parecem saber, mas eu...Eu não compreendo...
Mas tem uns fantasmas falando com minha voz,
Monólogos maçantes em que debato comigo mesmo e com meus
medos.
Pavores absurdos, pueris, pesadelos que já nem assustam
tanto
Quanto a consciência da súbita perda da capacidade
De me assustar.
Tem dois abismos doces por detrás de suas pupilas...
Há dois demônios graciosos a espreita nas suas pálpebras...
Há néctar e veneno confundidos na curva dos seus lábios...
E enquanto me corre um rio de água gelada pelo estômago,
Sorrio de volta para o inferno – Para o maravilhoso e
encantador inferno!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!
Devo, em meu devir repleto de reminiscências
Expropriar-me de imaginações e sepultar em baús os devaneios
Não tardará romper o dia e há tributos a serem pagos
A tudo e a todos e a corrida do mundo não toma fôlego.
Sonhos são dinheiro precioso.
Já cá, ando sem moeda alguma que jogar no Arrudas
Em troca de um desejo.
Um único.
Um único.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Poema Breve 2
...Vê, o vento sopra, é sinal de que o céu se inquieta.
Observa-o agitar-se no léu e deleite a sua alma.
Se bafeja nas velas da sua nau, significa que você será levado para lá,
Para os horizontes vermelhos em que deseja ardentemente se perder.
Se em direção contrária - posto que o vento é belo porque é livre -
Então para aquela modorrenta calmaria sem ondas,
Você dirá adeus ao vento e horizontes prometidos e estará também livre,
Livre como o viajante sem estradas e como o pássaro aconchegado à gaiola
Livre do desejo de se perder.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
O aceno de Náucrete
Você pode cantar sobre mim, se o quiser...
Eu canto sobre guerras e sobre dias alegres
E sobre flores e amores e a fragilidade das coisas...
Sobre sangue derramado e lascívia sobre a lua...
Eu canto sobre coisas que se arrastam sob a luz
E sobre o que cavalga acima da escuridão...
Mas que sei eu dessas coisas que canto,
senão que canto sobre o que não sei?
O que você não sabe,
É que eu conhecia o poder do sol sobre minhas asas de cera.
O que importa é voar, criança.
Em que direção é só um detalhe que preocupa quem não voa.
Eu?
Sou ilha de não saber nada...
Um amontoado de ignorância cercado por incompreensão por todos os lados.
E estando náufrago sem nau ou porto de mim,
Não compreendo esse seu Ser sendo o que não compreendo.
Mas acabei de fugir de um labirinto para dentro de outro.
Uma esquina errada que tomei depois da terceira nuvem...
Mas tão logo me liberte o mistério do meu Ser Humano
E me livre o fascínio do Eu,
Haverei de compreender o seu Ser Mulher
Para talvez começar a entender também o meu Ser Homem.
E é realmente belo que te digas louca,
Mas, sabe, isso deixa de ser virtude quando te gabas...
Eu canto sobre guerras e sobre dias alegres
E sobre flores e amores e a fragilidade das coisas...
Sobre sangue derramado e lascívia sobre a lua...
Eu canto sobre coisas que se arrastam sob a luz
E sobre o que cavalga acima da escuridão...
Mas que sei eu dessas coisas que canto,
senão que canto sobre o que não sei?
O que você não sabe,
É que eu conhecia o poder do sol sobre minhas asas de cera.
O que importa é voar, criança.
Em que direção é só um detalhe que preocupa quem não voa.
Eu?
Sou ilha de não saber nada...
Um amontoado de ignorância cercado por incompreensão por todos os lados.
E estando náufrago sem nau ou porto de mim,
Não compreendo esse seu Ser sendo o que não compreendo.
Mas acabei de fugir de um labirinto para dentro de outro.
Uma esquina errada que tomei depois da terceira nuvem...
Mas tão logo me liberte o mistério do meu Ser Humano
E me livre o fascínio do Eu,
Haverei de compreender o seu Ser Mulher
Para talvez começar a entender também o meu Ser Homem.
E é realmente belo que te digas louca,
Mas, sabe, isso deixa de ser virtude quando te gabas...
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Esquina
Eu sou o que não sou. E frequentemente, consigo não ser
o que sou com maior zelo do que o ser.
E sendo, não posso ser outra coisa que não esta
dialética e esse cio entre o ser e o não ser.
Os meus sentidos um dia talvez – não sei por qual
sortilégio – venham a calar
E eu, com outras percepções, de outros modos venha a
saber
Que na vida não tenho amado senão a fantasmas vivos
Sendo eu próprio e este espelho,
E estas rugas e estes olhos no espelho que me fitam
com rancor,
Um fantasma do amor que deixei de legar a mim mesmo
Enquanto amava fantasmas vivos...
Penso que eu realmente deveria fumar estes cigarros
Que deixo arderem como incenso no cinzeiro apenas
por gostar do cheiro de decadência
Da fumaça que se desprende da seda e dança até o teto.
Penso que eu realmente deveria parar de emprestar
livros e sonhos.
As pessoas nunca os devolvem e eu me encontro pelos
corredores desprovido de tudo,
Com a estante e a cabeça repletas de fantasmas
literários e oníricos.
Um vazio paradoxalmente repleto de ausências.
Se eu virasse agora aquela esquina onde há um minuto
Garotos barulhentos perseguiam um cão vadio,
E pegasse depois de umas curvas e algumas esquinas outras,
um caminho para o deserto,
Talvez perdesse essa sensação de alheamento
Com essa casa e este espelho,
Com esse silêncio barulhento em meu sangue
E essas gargalhadas que vem não sei de onde,
E essa gente lá fora e essa inquietação aqui dentro
E esse desespero branco e essa preguiça tardia e
esse cansaço que me corrói as horas
E as entranhas...
Há grandes questões no mundo,
Guerras e estrelas a
explodir e a nascer nos remotos do céu e da terra.
Ali é só uma esquina mal iluminada.
Deus e o Diabo devem estar neste momento
ocupadíssimos;
Em batalha pala alma de algum santo, decidindo o
destino de uma nação, envolvidos demais
nas importâncias do mundo,
Para olharem para uma simples esquina.
Se eu virar ali sem que vejam, escapo para sempre
das grandes questões!
Da metafísica!
Pensando nisso, deitei escadas abaixo o meu corpo em
fuga dos meus pensamentos, antes mesmo de pensar no absurdo de empreender tal
fuga.
Mas antes de virar a esquina, eis que me antagoniza
um vagabundo.
Era um vagabundo parado entre eu e a esquina,
olhando-me em desafio.
Talvez me confundisse sabe-se lá com que objeto do
seu mal querer, mas era um vadio.
Chamo-o assim, porque o odeio.
Insulto-o porque o invejo.
Está ali, sem camisas e sem pudores, exibindo o
torso nu no azul da tarde.
Gozando, por entre os rotos que parcamente lhe
cobrem as partes, o estômago semi-vazio e a imundice de sua pele,
A gloria de
não ser eu.
Que direito esse maldito tem de não ser eu?
Que direito tem de estar ali fora das grandes
questões do universo
E de ser peça ausente do xadrez de Deus e do Diabo?
Odiei-o! Odiei-o pela sua liberdade de não ser eu...
E por impor, como baluarte, sua liberdade entre mim e
a esquina por onde eu fugiria.
Avaliei a coisa pela matemática enquanto retribuía o
desafio.
Os números me desfavoreciam...
Era vinte quilos mais pesado, vinte centímetros mais
alto e vinte anos mais jovem do que eu.
Levava na cara atrevida e nas unhas sujas a malicia das ruas que em
tempo e por entre feras irmãs aprendera,
E que meus diplomas e leituras e noites em claro
jamais me ensinariam.
Como ser fera livre.
Levava nos olhos a leveza da vadiagem desprovida de
tudo.
Ele me bateria, estou certo e isso me fazia estar
feliz com a felicidade dos desgraçados.
Pois por vezes um soco a esmagar as
bochechas e dentes e ossos – é tanta vida a se desprender de um gesto – aquece
a alma tal qual um beijo apaixonado.
Havia muito eu não sabia o que eram ambas essas
coisas.
E por tudo o que estava em meu desfavor, decidi que
definitivamente o atacaria.
E por deus, se não desembargasse aquela esquina, eu
o reduziria a cinzas!
Que espetáculo seria!
A minha respeitabilidade engalfinhada com a livre
mendicância dele!
Sim, era eu e era ele que não era eu e lutaríamos!
Tal era o meu ódio que, tinha certeza, o esmagaria contra a sarjeta onde mendigava o
seu pão.
Mas antes que eu travasse peleja mortal, uma nuvem
cruza o céu e Deus e o Diabo olham.
Eis que passa um carro e um homem atira uma moeda,
E meu inimigo, rapidamente esquecido de mim, corre
por entre os carros, arrisca a vida
A cata de uma moeda de pouco valor.
Li em seus olhos o desespero para buscá-la e ao que ela traria e apiedando-me dele, amei-o.
A fúria que me animava os músculos se esvaiu.
Oh, homem desgraçado! É meu irmão!
Ele cata moedas por entre carros e eu metafísicas
nas vilezas da vida.
Não é melhor do que eu, apenas tem amos em menor
número.
É tão rico de necessitar de tão pouco, que nem me
permite odiá-lo.
De volta ao meu quarto e muito depois, passado o meu
sonho de mutuo extermínio, lamento em
silêncio o olhar de Deus e do Diabo
Para aquela esquina onde um homem agora dormia sobre
trapos
Em sono menos perturbado do que eu em sedas e
travesseiros a lavanda.
Ele só quer pão e álcool e eu quero o impossível não
querer, mas...
Espera...!
Há aqui nesta mesa pão em demasia, repleto de bolor.
A metafísica não me permite comer.
Há aqui neste armário e sob esta cômoda, vinho
mais velho do que meu cansaço.
A moral não me permite beber.
Do que ele necessita, o pão para saciar o corpo, o
álcool para acalmar a alma,
Tenho em abundância, sem no entanto ter calma e sem
saciedade.
Deveria ter arrebatado-lhe a moeda como me furtou a
fuga!
Por que necessitaria de algo mais do que já tinha?
Era livre! Não era eu...
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Da Minha Necro-linguagem
A minha lógica morre junto as coisas que anseio vivas
E a vida vai perdendo batalhas, deixando a paisagem cinza
E o ar impregnado de vazio.
E enquanto mastigo a familiar sensação
de incompreensão,
Moscas vivas empesteiam o ar da manhã
Enquanto folhas secas embelezam o chão da tarde com sua
morte.
E é assim talvez o modo de se darem as coisas,
A pedra beija a vidraça, a vela queima as asas da mariposa,
A alma em êxtase na queda,
O chão subindo violentamente contra a fragilidade do corpo,
Afagos ocultando vilezas e o amor ali, na ponta aguda do
açoite.
Mundo louco!
É o ritmo estranho em que o universo dança,
Enquanto vou tropeçando em meus próprios pés
E nas palavras que me explodem a jugular em fogo.
Natural que tudo tenha lá a sua natureza.
E redundância ortográfica ou licença poética que seja,
Lego aos Poetas e aos Semânticos encontrar
As formas mais exatas de definir
A indefinição,
A singular natureza do nada.
A minha fala é por vezes ininteligível e mortal
(mesmo para mim, quando não quero e tenho que falar)
Meus versos são de um embotamento cruel
(Mesmo para mim, quando quero e não posso calar)
E assassino lentamente as coisas quando nelas
falo.
É essa, lamento dizer, a minha natureza
Sem semântica, sem poesia...
Mas o universo sabe, não sou nem quero ser poeta.
Somente queria ser mudo e surdo para isso que me ferve as
entranhas
Para a febre dos meus sentidos.
E porque todos os meus espelhos mentem,
Sou um EU atordoado na busca por outro EU.
Talvez excessivamente encantado
Pelo próprio atordoamento.
sábado, 8 de setembro de 2012
A Alegria da Queda
Toda a natureza tende para baixo.
É a lei da gravidade e das muitas humanidades.
Caia.
Nada há de mais divino que isso.
Caem folhas das arvores no outono, caem anjos nos verões do céu.
Seja feliz na queda, abrace o precipício.
E goze a alegria louca nos poucos instantes
Da queda livre alucinada!
quinta-feira, 26 de julho de 2012
O Signo do Corvo

Há humanos
que se pensam deuses, feras que se
pensam homens e divindades de carne e sangue, que se sentem menores e mais ínfimos que os
primeiros.
Por vezes antílopes
sonham serem leões a devorar os próprios irmãos.
Por vezes os
deuses erram e a esses erros, chamamos “humanidade”.
É uma massa
estranha, com erros sobrepondo-se a enganos, imiscuindo- se, disfarçados de
certezas.
E eis a
única certeza possível:
Hás de morrer, criança, e com o substrato da tua decadência
alimentarás a terra e, por um
tempo, também a saudade daqueles que
lamentando a tua sorte, fingirão não estarem sob o julgo da mesma sina .
Dar-te-ão
guirlandas, a erva da terra por teto e o nome no mármore ou uma moeda para que pagues ao barqueiro do Estige, e apiedando- se de ti
com velas e orações, esquecer-te-ão, pois dali em diante a dor da tua ausência
será a constante lembrança de suas próprias finitudes.
Deixa-os
brincar de eternidade e de incorrupção enquanto os cabelos se lhes tornam
brancos e a poeira do tempo lhes enevoa os ombros.
Deves
perdoá-los, para o teu bem.
É coisa
pequena que te esqueçam.
Que importa
se olvidam de ti, se tanto e com mais freqüência, esquecem a si mesmos para
perscrutar o céu a cata de presságios?
E a terra
lamenta uma ausência tanto quanto a mata lamenta a folha que cai ou o perdulário chora o centavo perdido.
Mas a noite
escura se apieda de todos os que têm a coragem necessária
Para admitir
que a teme.
Abraçá-la-á
a negra terra e terás repouso, então, é tolice
ir-se aos prantos ao seio que recebeu
os teus antes de ti e que receberá a teus filhos e os filhos destes.
Deixasses
pedaços de pão para encontrar o caminho de casa, os pássaros os comeriam e
ainda estarias perdida.
O esmo é a
direção que deves tomar, a única vereda digna dos teus passos.
Alegra-te
por estares perdida, criança!
Apenas o que
o sabem podem orientar os próprios caminhos.
Então, se
lhe aprouver hoje adornar-te com esta tristeza,
Ora, que
sejas linda e triste como a lua de outono,
Mas ergue-te
amanhã, poderosa e inclemente,
Como o mais rubro e implacável sol de verão.
Como o mais rubro e implacável sol de verão.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Pétalas Quebradas
Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos
para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.
E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria
cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e
vilezas piedosas do cotidiano.
Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar
todos os espectros da cor?
Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação
na natureza.
E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria
humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
O Abismo de Mim
Uma pedra lançou-me no abismo.
Atentou para ouvir
O eco do meu corpo, quando eu batesse
no fundo
Quando meu grito ressoasse no nada.
“O abismo a que me empurras – disse a
Esfinge – Não é maior
Do que aquele que existe em tua alma”
Não houve som e nem dor,
Quando me choquei contras as rochas .
Apenas uma nuvem de dentes de leão
flutuando no ar
E o som do farfalhar de folhas secas
Levadas pelo vento.
Bobagem.
Não há vento no abismo profundo,
Como não há alegria nas horas escuras
Quando seu mundo parece retrair e morrer.
Deve deixar que as sombras dancem com
as sombras
E as luzes de tua alma,
Que dancem com as luzes que emanam das
almas felizes.
Como morrem os anjos?
Como abraçam o vazio os homens alados,
cujos sonhos voam?
Morrem como morrem todos os homens,
Sozinhos e com medo, antes que a
cortina caia.
Lançando no eterno a esperança de
alcançar o mar infinito
O verde e o campo onde caminhariam
para sempre.
Uma pedra lançou-me ao abismo.
Está claro que não morri.
E o que não me mata, torna mais louco.
Fiquei carregado da sabedoria de nada saber,.
Há conforto na sabedoria.
Há abrigo na ignorância.
Mas a loucura....
Abraça-me os ombros como uma consorte.
E me seduz com beijos doces,
alucinógenos...
Dota-me de asas imaginarias
E enche a minha cabeça de um céu
ilusório:
Mas no vazio, a queda para baixo ou
para cima
Não faz diferença alguma.
A pilhéria da vida é a mesma.
Se a ouvir de cabeça pra baixo
Terá a mesma graça
Nenhuma corrente te prende à sombra do
mundo,
Exceto as que tu mesmo forjas com
lágrimas
Exceto a paixão à própria prisão.
Uma pedra atirou-me no lago
Atentou para contar as ondas que
se formaram
Quando eu afundei...
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
A Prisioneira - Emily Bronte
Saibam ainda meus
tiranos, que não estou disposta a vestir
Ano após ano a
tunica do desespero sombrío e desolado;
Um mensageiro de
Esperança vem a mim cada noite,
E ele oferece uma curta
vida mas plena liberdade.
Vem com os ventos
do oeste, com os ares errantes do anoitecer,
Com esse claro
crepúsculo de ceu que traz as estrelas mais densas:
Os ventos
tomam um tom absorto, e estrelas um brilho suave,
E sobem, e mudam, visões
que me matam de desejos.
Desejo de nada saber
nos meus anos mais maduros,
Quando o gozo
enlouquecia com sobressalto, contando as futuras mágoas:
Quando, estando o
ceu do meu espírito cheio de amparos calorosos,
Eu não sabia de
onde eles vinham, se do sol ou se da noite trevosa.
Mas primeiro, um
silêncio de paz —uma calma sem som desce;
O forçar da
angústia e a impaciencia feroz silenciam.
Uma música
muda acalma meu peito—A harmonia é indescritível
E eu nunca poderia
sonhar, até que a Terra se perdesse para mim.
Então amanhece e o
Invisível, o Oculto revela sua verdade;
Meu senso externo
foi-se, minha essência evola;
Estende suas asas
—seu caminho se abre, encontra seu porto,
Mede o abismo,
inclina-se, e ousa dar o salto final.
Oh, terrível é a
prova —intensa a agonia,
Quando a orelha
começa a ouvir, e o olho começa a ver;
Quando o pulso
começa a palpitar —o cerebro a pensar outra vez,
A alma a sentir a
carne, e a carne a sentir a cadeia.
Contudo eu desejo essa perda, mas não a menor tortura;
Quanto mais a
angústia atormenta, mais cedo serei livre;
E inflamada com os
fogos do inferno, ou brilhante com luz
celestial,
Ainda que coberto
com o manto da morte, a visão final da vida é divina.
domingo, 25 de setembro de 2011
Colombinices
E se as rugas cobrirem de fino pó do tempo o rosto magro
Enquanto suaves sombras são perseguidas?
E se do outro lado dessa mesma rua nua,
Ardesse em catarata o sol pelos ombros de cetim,
Aquecidos como os campos de ouro enamorado?
E se em coro corressem os ventos de verão em alcatéia?
-----------------------------
E então uma névoa desaba sobre o dia claro,
Um pesado silêncio que cala o mundo com um grito
O despertador berrou, a cidade murmurava e ele saia de casa,
Ela atravessou a rua sem sequer olhar para os lados
E por entre os carros, um séquito de borboletas a seguia
Se desprendendo dos cabelos flamejantes a medida que o ar da cidade lhe beijava o rosto.
Ele fazia apostas no acaso...
Jogava os dados torcendo para que num daqueles momentos fugidios
O Destino estivesse olhando para o outro lado e então poderia roubar um pouco de felicidade.
Ela dobrava a esquina da Rua Tamoios e descia em direção ao Parque Municipal...
Ele se barbeava pela manha e sentia girar o tambor numa roleta russa para a sua alma,
Esperando que houvesse uma bala e que ela por fim parasse na agulha...
Ela rabiscava versos sem rima nas capas dos cadernos,
E um estranho o olhava de volta quando se via no espelho.
Era a sua vida viciada como um baralho de cartas marcadas.
Às vezes ele blefava e odiava gravatas e horários apertados.
Ela gostava de gatos, de bons livros e de cantar em inglês errado,
Ele estava sempre com pressa, sujava o colarinho em lanches apressados...
Ela suspirava devagar e namorava passarinhos em vôo,
E encantava e inquietava qualquer um que lhe respirasse a presença inquieta.
Mas ele...Dir-se-ia que não tinha olhos e se os tivesse, não teriam cores...
Quem se lembraria?
No Mercado das Flores, ela comprou crisântemos brancos
Ele parou no sinal amarelo, irritando os outros motoristas.
A caminho da Praça da Liberdade ela deu uma das flores e um sorriso a um mendigo.
Os sapatos dele estavam desamarrados e ele abaixou o olhar
No exato momento em que ela passou bem perto cantarolando baixinho:
“I can remember this place
It's all out of phase now
Different time and space
It's like wearing new eyes
Do you complete me?
Just try, just try”
Só muito tempo depois de perder sua ultima moeda ele soube
Que o Destino não estava olhando para o outro lado...
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Uma Casa No Fim do Mundo
Final de estrada, onde todas as encruzilhadas se
desencontram.
E depois dali não havia mais nada, só o nada silencioso.
Como uma casa no fim do mundo...
Um casebre pequeno
como um suspiro,
Com mil corredores e escadas ligando o nada a lugar algum.
E nesse palácio de vidro colorido
Onde ecoa o barulho de sonhos gemendo,
Morrendo e ressurgindo, repicando como mil sinos a distância
Ouvi risadas de crianças perdidas, ressoando em algum lugar
ao longo das paredes.
Perdi meus pinceis e desisti de espantar o cinza do mundo.
Não posso desenhar um arco-íris com tintas invisíveis.
Ela porem se deteve a porta muitas e muitas vezes e em muitos matizes,
Quando a risada alegre e desvairada de crianças iluminava o
caos dos meus pensamentos.
Onde nessa casa pequena, grande como o mundo estariam os pequenos?
Eu via uma profusão de cores na tela negra e opaca,
Podia ver através e
dentro das trevas.
Odor de mofo e histórias antigas, quadros de ancestrais
Ilustres anônimos mortos no tempo
Mobília antiga e gasta coberta de lençóis e tempo,
Histórias guardadas em baús enegrecidos...
Sem meus pincéis, senti-me inacreditavelmente velho...
O olhar percorreu os corredores como o vento levantando o pó,
E foi deter - se de novo no fim do caminho,
Onde as encruzilhadas se desencontravam.
O quadro antigo era na verdade um espelho,
De onde mirava-me o pálido fantasma de mim mesmo.
Inacreditavelmente velho
Numa casa no fim do mundo...
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Dente-de-Leão no Vento
Olha! Lá na curva depois do rio, subindo com o orvalho do
alvorecer nevoento,
É uma asa errante trazendo o brilho de lugares aquecidos
pelo sol!
E se eu de repente cobrisse meus olhos com flores?
Florejar o olhar com a primeira luz de uma manhã de verão...
Ah...Mas são
justamente em alvoradas frias de inverno
inclemente
Que nos aconchegamos
mais para prorrogar um sonho...
Então me é permitido amar também no frio e na noite.
Veio durante a tarde coberta de suspiros, soltos no ar como
dentes-de-leão,
Agitou todas as flâmulas por sobre os muros cobertos de
heras
E varreu para fora o bolor da casa a muitos dias fechada,
Uma brisa cálida a me despertar, trazendo os aromas das longínquas
terras,
Para cobrir-me os olhos com flores,
Para prorrogar um
sonho luxuriante.
Um pouco mais de sonho para aquecer a alma,
Para alegrar os
abismos do espírito.
Para dar à meia-noite as cores de uma tarde quente,
Enquanto não cessa o
cortante hálito gelado do inverno.
De todo modo, vou optar por cair pra cima
E talvez no meu eterno flutuar por entre as nuvens
Te encontre sentada no teto do mundo.
sábado, 18 de junho de 2011
Sândalo caído - By Sahge
Quem é mais afetado pelo choque;
o Sândalo caído
ou o machado perfumado?
Ironia cruel, vendo o gigante caído,
Penso que o gume frio do machado
Nada vale sem um cabo que o empunhe.
De um galho o Sândalo o forneceu à mão que o deitou.
Observo-o caído interrompendo a passagem.
Caiu sobre a trilha antiga, obrigando os passantes a darem a volta.
Eu o deixarei lá, o bravo gigante!
Ficará ali até que seu tronco se desfaça sob a chuva e o sol.
Um testemunho incômodo, de que ali viveu e floriu.
Perfumou o ar com sua extinção...
Breve a trilha se desviará para o canto
E os viajantes, evitando o tronco,
Passarão ao largo do lago morto.
E entre essas duas coisas mortas,
A trilha da vida dará uma pausa,
Suspirará e tomará um novo alento.
Talvez o lago volte a brilhar, talvez o toco de arvore
Reviva seus galhos de folhas e sombra.
Talvez...
Atrás de mim, sinto a lareira arder suavemente,
Uma frágil flama que se apaga em lento crepitar.
Sinto um impulso de avivar-lhe as brasas
Lançar-lhe uma nova acha que fortaleça suas chamas
Mas não me movo.
Tudo tem um inicio e tudo tem um fim.
O fogo, o Sândalo caído...
Sinto isso, mesmo que minha razão fraqueje em aceitá-lo.
E por mais que eu lamente a queda da árvore
E tema o frio que se instalará na casa e na minha alma
Quando a labareda delicada se apagar,
Quando a árvore morta desaparecer da paisagem,
Deixo que o mundo pulse e siga.
Deixo que a chama apague
Quando poderia usar o velho Sândalo caído
Como lenha perfumada...
Não posso alimentar meu lume
Com os destroços da agonia alheia,
Com os despojos de um colosso tombado.
Não foi a minha mão, não foi meu o machado...
E não desejo o calor das chamas
a semelhante preço.
Talvez quando a labareda se extinguir por fim,
O frio me expulse dessa janela,
E eu saia ao sol e pegue aquela trilha...
Em direção ao lago morto.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Neve e Trigo
Da neve branca e farta bloqueando caminhos, rompem brotos verdes rumo ao céu;
Mas o frio expulsou-me da janela um pouco antes do cair da noite e meus olhos perderam o lento e belo fim do inverno. Minha lareira quase se apagou e eu precisei reavivar as chamas. Invejo a força das plantas sob o gelo, mas compartilho com elas seu amor ao sol. Ergo meus braços a ele numa oração lenta algumas vezes, mas como toda divindade que se preze, o sol Ignora solenemente os meus rogos.
Minha casa é repleta de fantasmas, bem o sabes... E tua forma vem preenchê-la sempre de alegria, espantando as sombras, quando, exausta de viagens e farta de estradas, apetece-te passar algumas horas comigo à lareira. Então mesmo desperto, conheço um pouco do que é felicidade.
Haverá por certo pousos melhores que este, em lugares mais ridentes e paragens com mais cores, jardins bem cuidados e frescos campos gramados, terras amenas de vento suave... Mas nenhum que vá amar-te tanto, mesmo a sombra do teu vôo quando partes, nenhum que deseje tanto o teu pouso esporádico, quanto a minha casa. Nenhum que reconheça suas plumas numa multidão de outras asas, anjo infinito de cabelos ao vento... E eu ainda serei o teu lar, porque só podes repousar em mim.
Se o mesmo vento soprar a apagar minhas velas... E olhando em volta ver que junto com minhas chamas, levou o vento suas asas diáfanas... Bem, a alegria por vezes dura um instante apenas, mas é um instante imbuído de eternidade. Haverei de passar a vida esperando esses instantes em que eu sou eterno...
E ainda que eu não coma pão, ganho por causa dos campos de trigo e sentirei o cheiro dos teus cabelos no ouro dos raios do sol.
domingo, 22 de maio de 2011
Linhas Breves
Porque é tenue a linha separando o beato do boêmio,
E seja por fé ou embriagues,
Não lhes pesa a realidade...
Morrem jovens, mesmo em franca senilidade,
Mesmo fartos de dias e cercados de netos,
Quando morrem sozinhos, tal como a este mundo vêm...
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