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Mostrando postagens com marcador Raivas Minhas. Mostrar todas as postagens
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
Sobre Mentiras..
Liste todos os defeitos possíveis no impossível repertório de vícios de um ser humano e eu colocarei na primeira escala de seres abomináveis os Mentirosos.
Superam até os nazifascistas.
Anos atrás, quando me falaram de uma coisa chamada "Deep Web" (acho que por razões óbvias ela é chamada hoje muito apropriadamente de "Dark Web") e eu movido por uma curiosidade pueril, fui lá fuçar no lodo moral da humanidade o tipo de atrocidade de que os filhos de Adão são capazes.
Não precisei de mais do que alguns minutos para sair horrorizado, com vontade de vomitar, com nojo de mim mesmo por ter me aviltado daquela forma e sentindo uma necessidade absurda de tomar banho repetidamente e assistir filmes da disney ou qualquer coisa felizinha.
E mesmo assim, ainda considero o Mentiroso mais abjeto do que aquelas pessoas que são capazes de perversões inomináveis (até porque, é sabido que esse tipo de pessoa que passeia pelo lado underground da vida, mantém uma vida social irreprovável, como bom cidadão, como pessoa moral e "do bem", logo, na raiz, um Mentiroso.)
Odeio mentiras com um ódio que me faz gelar o sangue.
Não que eu não minta. Eu não teria sobrevivido até os 45 anos sem ter me valido da mentira para sobreviver em um mundo tão duro quanto o que vivemos.
Mas usei esse recurso odioso tão pouco, que o apego a verdade me custou amizades, convívio familiar e relacionamentos.
A bem da verdade, me fez chegar a vida adulta com pouquíssima experiência amorosa, coisa que até certa época me deixava aturdido. Mas não deveria.
Fale a verdade e condene-se a solidão.
Mas há escolha?
Quem pode conscientemente adotar um estilo de vida diverso ao que considera o correto apenas para obter vantagens que de outra forma não obteria é canalha, gente de espírito fraco, covarde no âmago e vou me deter aqui na lista de adjetivos que iria longe.
Custou um preço alto e eu o paguei. E seria um mentiroso se eu falasse que me sinto recompensado ou se valeu a pena, porque não é como se eu tivesse escolha.
Mentir nunca foi uma escolha. Foi apenas violência cometida contra mim mesmo na medida em que me igualei a tudo e todos que desprezo.
A questão é que quando alguém mente, priva o outro da liberdade de escolher que caminho tomar.
Mentir é roubar a liberdade.
Mentir é aprisionar na ignorância.
É um ato de covardia
Um ato de falta de amor, pelo outro e por si mesmo.
Quem mente não quer pagar o preço de sua liberdade de escolher e por isso rouba a liberdade do outro mentindo para ele, mantendo-o cego e incapaz de decidir seu destino baseado em fatos.
Se por um lado a mentira é a coisa que mais desprezo em um ser humano, por outro o que mais admiro é a coragem.
Só seres extraordinários tem coragem de ser e de pagar o preço por ser quem é e manifestar isso diante do mundo.
Viver é mais que se esconder atrás de cenários pintados nas línguas falsas do teatro social.
Mas eu não sei ao certo o que é viver e não quero sentir novamente aquela sensação de estupidez que sinto quando me ponho a falar de assuntos que não compreendo.
Mas sei que viver mentindo é um simulacro de vida que não vale a respiração.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Deuses, Diabos e Sapatos de Camurça
Uma vez após outra você me prometeu amor.
Adoração.
Agora que você finalmente encontrou, o que vem a seguir?
A seguir? A seguir vem a morte.
E depois?
Depois? Depois você queima!
Deus e o diabo bebiam tranquilamente naquele barzinho lá da
rua Claudio Manoel.
Tenho certeza de que eram eles! Quero dizer, é esquisito
falar em certeza quando se trata de Deus ou do Diabo. Ainda mais para um Ateu
relutante até em desacreditar de tudo como eu.
Era de manhã bem cedo.
Sei lá como ninguém parecia perceber os dois ali.
Deve ser porque ninguém estava procurando por eles (daí
talvez se permitirem uma folga na sua rivalidade e procurarem um boteco
underground para relaxar e tomar uma bebida). Ou então e porque com frequência
quem procura algo dificilmente encontra, mesmo aquilo estando perto (como o
caso da caneta que você procura e acaba constatando constrangido que a porcaria
estava atrás da sua orelha o tempo todo).
Bem, eu certamente não estava à procura deles. Gente
inteligente evita a sombra de deuses e diabos e eu quero realmente crer que não
sou um completo estúpido, apesar de rotineiramente fornecer a mim mesmo provas
em contrário.
O que eu procurava era um lugar para me abrigar da chuva,
porque o mundo inundava e eu na pressa de sair de casa, esqueci botas e bom
senso e calhei de sair de sapatos de camurça. Coisa ridícula a se fazer em
tempo de chuva (ou em qualquer tempo, pensei agora olhando com desgosto para
meus sapatos).
A caminho do trabalho há esse bar decadente, mas que serve
ótimo café. Como já estava lá, resolvi
pagar a minha estadia consumindo ao menos um copo de uma porcaria qualquer que
fingi beber no espaço de tempo em que lá estive. Refrigerante, já que estava a
caminho do trabalho, mas soubesse o que estava para se suceder, teria pedido vodca,
rum ou whisky ou mesmo cachaça! Sob risco de perder o trabalho!
Quando aquelas pessoas passaram por mim, senti o mesmo que se
sente ao ficar perto de um dínamo ou caixa de som. Arrepiei pelos do corpo que
nem mesmo sabia que tinha. E olhando para eles não tive dúvidas sobre quem ou o
que eram, o que me fez ficar um tanto surpreso com a aparente amistosidade
entre ambos quanto a escolha do lugar onde foram ter seu happy hour.
E às sete da manhã!!
Pensando bem, acho que só gente mortal pensa haver algum
mérito em tomar um drink caro em uma boate chique de algum lugar elegante, mas
se você for um dos jogadores cósmicos da vida humana, acho que tanto faz champanhe em Milão ou cachaça em uma birosca em Itacaxeroca.
Passei ao exame de ambos...
Conversavam como bons camaradas, contavam alguma coisa que os
divertia. Talvez alguma fofoca sobre deuses ou demônios.
Vai saber sobre o que conversam demiurgos...!
Notei que Deus tomava um líquido dourado e translúcido e que
por mais que ele bebesse daquele copo, este nunca ficava vazio. Ninguém o
servia e ainda assim seu copo estava sempre cheio.
Já o Diabo era servido por um pobre garçom que no tempo em
que enchia o copo daquela coisa, envelhecia a olhos vistos e suava, transpirava,
como se estivesse carregando pedras. E não importava o que derramasse naquele
copo, o líquido se transmutava em cor carmesim, que o Diabo levava aos lábios
igualmente rubros e perfeitamente delineados. E como bebia aquele demônio! O
pai e mãe de todo o alcoolismo, sem dúvidas!
Deus era um velho barbudo que se você olhasse direito parecia
tomar todo o ambiente e não apenas ocupar uma cadeira. Tinha aquele ar de
magnata, de gente muito rica que está habituada a receber todo tipo de
deferência. Acho que ele notou que eu o observava, mas aparentemente não se
importou. Tinha olhos bondosos, tenho que reconhecer, mas era aquela bondade um
tanto tola que você vê nos olhos de crianças cujos pais não ensinaram a não
serem imediatamente simpáticos com estranhos.
A pele formigava ao olhar para ele e eu senti aquela sensação
de queda iminente, um frio no estômago como quando se está diante de uma
cachoeira imponente ou olhando a beira de um abismo.
A voz dele, como seria de se esperar, parecia-se a um trovão
ribombando, e ele ria alto deixando a mostra perfeitos dentes madrepérola.
Instintivamente passei a língua sobre a ruína que trago por detrás dos lábios
um tanto invejoso. O plano odontológico dele era, aparentemente,
melhor que o meu. Juro que não sei dizer
que roupa ele vestia, se é que vestia alguma, porque quando se olha na direção
daquilo, a única coisa que se pode ver é o rosto que inspira bondade e pavor.
Receoso das implicações de ficar encarando Deus, passei a
observar o Diabo.
Devia ter continuado a olhar pra Deus!
O Diabo era uma coisa andrógena e um tanto...Reptiliana.
Parecia uma mulher bem bonita (acho que seria um homem bonito, caso eu fosse de
outro gênero), mas uma beleza que assustava porque vinha carregada de
ameaça. Se movia de modo gracioso e
mortal, parecendo uma cobra ou um chicote e tal como uma cobra, sua voz era um
sussurro e sibilava alguma indiscrição divertida nos ouvidos de Deus, ao que
este ria alto dando tapas no joelho.
E o cheiro que o Diabo exalava é algo difícil de descrever.
Uma coisa doce e putrefata. Um odor animalesco...Cio e festim de alguma fera
que acasalava ou matava e aquilo apavorava e atraia, como se eu me descobrisse
repentinamente dentro da toca de uma ursa... Não era bem isso. Como eu disse,
difícil de descrever...
Mas sei que aquele cheiro horroroso mas viciante me entrou
violento pelas narinas e involuntariamente me fez ter uma dolorosa e
constrangedora ereção e também uma vontade profunda de vomitar.
Irritado e nauseado, engoli mais um pouco do que quer que eu
estivesse bebendo, lutando para não colocar pra fora o frugal café da manhã que
havia tomado. Nunca pensei que o diabo pudesse ser tão odioso!
Achei revoltante o modo como conversavam como se fossem comadres velhas.
O mundo lá fora perdido, necessitando de salvação e de
tentação e eles ali, indolentes em uma manhã de quinta-feira, em boteco
decadente como se nada lhes dissesse respeito.
Isso e mais o incômodo físico provocado pela presença deles
fez olhar com hostilidade para ambos quando saíram.
Deus me sorriu amistoso e complacente. O Diabo mandou um beijinho
todo coquete, carregado de deboche e promessas. Sumiram na chuva...
Fiquei na dúvida, depois que saíram. Talvez fossem apenas um
velho rico conversando amigavelmente com um rapazola (ou moça) em manhã de
chuva.
Quero dizer, tinha mais gente lá no bar e ninguém parecia
notar aquelas figuras extravagantes ou o impacto que causavam no ambiente.
Estava quase duvidando do meu juízo, afinal, eu sou um ateísta.
Que sei de deuses e diabos para reconhecer quaisquer deles?
Mas olhando em derredor, encontrei cumplicidade e apoio nos
olhos de uma garota de piercing que parecia tão atordoada quanto eu.
-Você reparou naqueles dois? – Perguntei como se fosse
evidente de quem falava. A garota, no entanto, pareceu acompanhar meus
pensamentos.
-Claro que vi! Inacreditável, né? Por essas e outras é que
sou atéia!!
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Mea Culpa Entre Amigos (2, eu acho...)
Tá... Eu desisto.
Preciso estudar, mas minha capacidade de concentração foi
pro ar, junto com meus pensamentos que surpreendi a vaguear pelo nada...
Tenho de compartilhar um ponto de vista e me lembro ao
fazê-lo de um dito de uma professora minha que “à vista de um ponto, tudo é um
ponto de vista”.
Do divórcio então...
Minha ex-esposa pensava que eu sou ateu, que tenho pouco ou
nenhum respeito pelos valores da sociedade, que tenho ideias nada ortodoxas,
que não faço nenhum sentido, que sou um filho-da-puta que não faz o mínimo
esforço pra ser socialmente aceito e que acho que estou sempre certo.
Tudo verdade, é claro. Mas essa não foi exatamente a questão
do divórcio. Eu tinha cá comigo as minhas queixas também.
Afinal ela era
humana, não é?
Deixemos minhas queixas de lado, porque do meu lado, não
foram minhas queixas, mas minhas ideias.
Porque dentre as minhas ideias loucas está a de que você faz
coisas doidas por amor e uma delas é não permitir que alguém que você ama (ou
pelo menos, porque nutre algum amor fraterno, como era o caso) permaneça ao seu
lado sendo infeliz por esse motivo, ou que alguém use o que chama de “amor” por
você, como um tipo de chicote com o qual se auto-inflinge todo tipo de mazela.
Daí talvez você tenha de expulsar o passarinho da gaiola (oh, que altruísta que
eu sou..) e obriga-lo a voar, porque o carcereiro está tão preso quanto o
detento.
Sei lá, mas tem papéis nos quais simplesmente não vou
aceitar nunca que me coloquem.
“Criatura, escolha ser livre! Escolha encontrar o melhor de você mesma! ”
“Criatura, escolha ser livre! Escolha encontrar o melhor de você mesma! ”
Esse tipo de pensamento é assustador, pra maioria, mas eu
meio que tinha de ser fiel à minha tendência a queimar e reluzir e reduzir a
cinzas as prisões interiores de todos a minha volta, como convém a um bom
Sagitariano com ascendente em Áries.
Além do mais, inquietar é preciso, viver não é preciso.
Porra, Sagitário com ascendente em Áries!!
O que esperam de
alguém com dois signos do fogo?!
São os dois signos mais donos da verdade que existem!
Se a gente fode a coisa toda no processo, é mero detalhe, eu
acho...
Fogo total nas minhas ideias e nos meus impulsos! Oras, vai
lá e pede pro sol brilhar menos ou ser menos quente....
Como podem ver, não era fácil viver comigo. Talvez eu devesse estar feliz, por não ter sido vítima de um crime passional, porque motivos para tanto, talvez eu até tenha dado...
A questão não é essa. Ninguém casa sozinho e ninguém
divorcia sozinho. Eu apenas acho que toda história tem dois lados e aqui eu me esforcei, penso, para contar apenas o lado da minha ex-esposa..
Nem era sobre divórcio esse post.
Era sobre como as coisas podem melhorar, se você permitir
que melhorem. Há pássaros que amam gaiolas e isso é coisa que não me entra na
cabeça. E olha que eu sou a pessoa com idéias doidas!
Idade pode ser uma coisa ótima, caso você não tenha síndrome
de Peter Pan, e a bem da verdade, eu tive certamente boas influências externas
e internas para operar mudanças necessárias e colocar um pouco de saudável Caos
no bolor estagnado que eu chamava de “ordem”.
Uma coisa boa em ser ateísta, é a certeza de que você só
dispões de uma vida. Uma única em que que fazer as coisas valerem a pena. Não, não
falo de hedonismo, falo de coisas reais, que não se perdem tão fácil quanto um
orgasmo ou a sensação boa de comprar algo caro ou obter um deleite frugal.
A vida é boa.
E eu espero que seja
boa pra todo mundo que já cruzou meu caminho, caminhou comigo por um tempo e
depois seguiu o próprio (claro, desde que esses queiram que seja, porque se não
quiserem, eu não entendo, mas lhes reconheço o direito de se ferrarem. Que se
vai fazer...)
Só isso já é motivo o bastante pra sair pro sol...
PS: Acho que avisei que sou um filho-da-puta que acha que está sempre certo, né?
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Sobre vitaminas que não tomo e noites que não durmo...
Me afogo...
E, no entanto, não ouso descansar os braços enquanto nado
nesse abismo de água repleto de monstros que sussurram meu nome na escuridão.
Ainda sou o embaixador de mim mesmo, mas não faço proclamas
porque ainda não acredito no meu produto. Uma buzina soa, alguém dobra os
joelhos e grita aleluias e eu olho irritado o inicio do apocalipse, porque o
mundo vai acabar ainda não acabei de ler um livro que ganhei de aniversário..
Um sonho mau... Apenas isso.
E então fico aqui,inerte por um tempo...
Eu me espreguiço de tédio nesse escuro porque terror é coisa
que compreendo tão bem quanto as letras miúdas em frascos de vitaminas que meus
olhos não conseguem mais ler sem óculos e meu esquecimento não dá conta de engulir.
E a droga é que nem tenho óculos, mas tenho uma memória
elefantina...
Talvez eu devesse ter óculos...
Talvez eu devesse ter anseios, desejos de felicidade e amor,
mas sempre que penso nisso, me sinto tolo, como alguém que teima em tirar água
com que se afogar em um poço que já secou há muito tempo...
Até sinto um pouco de medo, mas não o compreendo...
Em um mundo de sensações, fico imaginando se alguém
compreende ou mesmo se alguém se importa em compreender algo, além de sentir.
E é através dessa vida vítrea que meio trôpego, me levanto
no escuro, me desvio de um ou outro fantasma lamentoso e praguejo contra o pé
da mesa no qual dou topadas no escuro.
Queria não ter bexiga, vizinhos barulhentos e sonhos
perturbadores e talvez não precisasse me levantar tantas vezes durante a noite.
Oh, deus do céu! De repente tenho 43 anos e nem sinal do
rosto grave, absolutamente masculino, olhar duro e vida segura que em minha infância
sonhava que estaria me olhando de volta neste espelho.
Um corpo lânguido, uma alma febril e um sentimento de virar
a esquina da vida a qualquer tempo. Alguma coisa deu errada na minha, mas faço
balancetes diários e ainda assim não fecho a conta, mas fecho o armário do
banheiro e la está a cara de garoto cansado me olhando...
Uma semana sem fazer a barba e nem sinal de pelos
espinhentos que me completem o ar de decadência. Preciso checar o cartão de crédito,
o cheque especial, as notas da escola da minha filha e meus níveis de
testosterona.
Deus! Que hora ruim pra ser ateu! Eu poderia fazer como
fazem seus “filhos” e culpa-lo por tudo, dizer que é um dos seus “planos
misteriosos” e me consolar de alguma forma absurda e esotérica.
Ao invés disso
fico aqui, me culpando por tudo, até
pela vitória de Trump e a queda de todos os aviões e projetos de vida do mundo...
E porque diabos estou escovando os dentes as três da
madrugada?!
Cabelos brancos desde os dezesseis anos, então não posso me
vangloriar dessa névoa no topete como uma condecoração pelo tempo de vida e eu
nunca fui vaidoso, mas que merda! Se não posso ter um rosto bonito, ao menos não
poderia tê-lo um tantinho mais viril?
Olhos tristes e cansados, cansados também de se verem a cada
manhã e agora a cada madrugada nesse espelho salpicado de creme dental.
É insano!
Sempre tem alguma porcaria de cachorro latindo, rádio ligado
em algum lugar, gente gritando em um bar próximo e eu que deveria estar
dormindo, irritado como um autêntico velhinho mal humorado que fica reclamando
do barulho.
E pra falar a verdade, fico mais incomodado é com o silêncio
nesse lugar, parecido ao silêncio da selva, como se algo inacreditável e violento
estivesse pra acontecer.
Reminiscências de uma noite insone e insana...
Sinto vontade de fumar e novamente me lembro de que nunca
fumei e que detesto o cheiro de cigarros e que detesto estar detestando tudo o
tempo todo, mas que se dane isso!
Cada qual com seu talento, não é?
O meu é estar mal e detestar, eu acho.
A única coisa que parece que sou bom.
Tenho uma inclinação patológica pra estar mal..
Tenho um buraco onde deveria haver um estômago.
Uma fome de
tudo que paralisa meus sentidos.
Tenho cãibras nos braços e nos motivos,
Tenho preguiça até de ter preguiça e me movo de volta pra
cama fria em câmara lenta enquanto sobem as letras dos créditos finais de minha
vida.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Uns minutos de silêncio...
...e então você começa a compreender o pensamento dos supervilões clássicos e aquele desejo de destruir o mundo e reconstruí-lo ao seu modo torna-se bastante atraente. Você meio que se delicia com o pensamento desse planeta ardendo, e depois que tudo silenciar, você pegaria uma pá, removeria o entulho e olharia para o céu, ciente de que tudo está como deveria. São sete e vinte da manhã e eu estou me deliciando agora é com um inesperado silêncio na minha vizinhança que parece que jamais tem um minuto de silêncio.
A gente que mora por aqui é odiosa! Solta foguete por qualquer motivo, por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio; e escuta funk e breganejo no ultimo volume por qualquer motivo desses ou por nenhum, mas escuta, estuprando os ouvidos alheios com essa droga!
Ontem foi véspera de natal e esse bairro horroroso que não tem nem de longe o charme de uma Las Vegas, mas igualmente nunca dorme, parece ter finalmente silenciado um pouco e, ou algum demônio camarada ouviu minhas súplicas e matou todo mundo num raio de kilômetros, ou então estão todos em coma, entupidos de comida gordurosa (churrasco, pernil, chester e porcarias semelhantes),emborcados em uma ressaca daquelas, porque, papagaiadas de "espirito natalino" a parte, tudo parece motivo para se entupir de bebidas e derivativos (por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio).
(E se você estiver pensando "se ele odeia tanto a sua vizinhança, por que diabos não se muda?", eu digo, dê-me a chave do seu apartamento de cobertura no Belvedere cara, e eu me mudo imediatamente! Mas essa vizinhança me apetece, porque a odeio e a humanidade é coisa que eu odeio amar, mas amo odiar! Cada qual com seu vício!)
De repente descubro que não sei o que fazer com esse silêncio que se instala e, como uma criança que come um doce bem devagar para que dure mais, teclo devagar nesse teclado e ouço o silêncio. Tenho um minuto para parar de me manter na superfície das coisas do mundo que amaçam me afogar se eu parar de nadar e venho aqui dividir sei-lá-o-quê com sei-la-quem, porque sinceramente? Quem lê blogs hoje em dia?
Quem lê qualquer coisa que não sejam linhas curtas de whatsapp?
Mas-que-merda!
Algum cretino pelo jeito não bebeu o bastante e acabou de ligar o som às 7:38 da manhã!
Durou pouco e eu fiquei desanimado de continuar a escrever.
Que vontade de morrer...Só espero que o diabo seja mesmo o pai do rock e que não toquem funk no inferno...
Vou ali, tentar me manter na superfície dessas coisas que odeio e me consolar com o pensamento de que não sou eterno e uma hora dessas eu morro e deixo pra trás esse planeta, que não posso destruir por mais que o queira e nem reconstruir ao meu modo.
Uma hora dessas vem lá um ataque cardíaco, um crime passional ou não, câncer, falência múltipla dos órgãos ou um raio de um deus me punindo pelas minhas heresias e eu morro...
Mas numa praia solitária ou na boca de um tubarão. De jeito nenhum afogado nesse mar de lixo psicológico chamado "vida comunal"
Fonte da imagem: http://canaltech.com.br/
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Um pouquinho de raiva para adoçar o dia
Horror a compromissos, como se uma estabilidade qualquer fosse o nome escrito em sangue num contrato nas mãos do Diabo, fugia disso como quem foge da cruz, crescente, estrela de Davi ou adjacências...
Você queria uma reposta pronta?
Queria um sentido e direção e palavras de conforto?
Você queria felicidade (e quem não quer) ?
Pegasse nas postagens divertidas de poucas linhas do facebook, nos vídeos en(des)graçados que atentam contra dignidade humana e que rapidamente contagiam no whatsapp, nas conversas vazias em mesas de bar e meios diálogos ensaiados de meia gente.
Fosse à igreja ouvir o sacerdote, lesse livros de auto-ajuda, conversasse com aquelas pessoas "do bem", que enchem a boca pra falar de "Deus, Pátria, Tradição, Família", ou nos defensores vorazes de boas causas...
Você queria a salvação?
Queria um céu idílico onde poderia entoar Alleluias por megabilhões de anos?
E, contraditoriamente, queria um mundo de prazeres imediatos e facilmente alcançáveis e facilmente perdíveis?
Você querias as cordinhas invisíveis de um supremo titereiro invisível?
Desculpe, mas essas coisas eu não tenho em estoque, porque têm sido amplamente consumidas por esses dias e não são recursos renováveis (e não porque se esgotam, mas porque nunca se renovam em sua antiguidade).
Mas tenho caos em abundância.
Perdição em ampla faixa.
Eu tenho sentimentos de revolta e ódio maravilhosos e desejos de atear fogo no mundo (estão em promoção).
Eu tenho a alegria da queda e o gosto de sangue nos lábios partidos por socos dados em brigas ferozes.
Eu tenho gritos no escuro e solidão e medo e repulsa (dizem que é a ultima moda em algum lugar de Bangladesh e muito popular em Seattle).
Eu tenho vida, valiosa porque se perde em um minuto, e sem promessa de céu ou ameaça do inferno...
Por outro lado, a grama do lado de lá parece mais verde e você pode se sentar nela e ignorar que alguém tem de regá-la e apará-la e adubá-la para que você possa dar descanso à sua ignorância.
Você pode ignorar e pode descansar por muito e por pouco.
Eu prefiro preferir um minuto qualquer de vida genuína.
E no processo, odiar.
Odiar linda e divinamente, como quem está apaixonado...
Feliz Natal...
Você queria uma reposta pronta?
Queria um sentido e direção e palavras de conforto?
Você queria felicidade (e quem não quer) ?
Pegasse nas postagens divertidas de poucas linhas do facebook, nos vídeos en(des)graçados que atentam contra dignidade humana e que rapidamente contagiam no whatsapp, nas conversas vazias em mesas de bar e meios diálogos ensaiados de meia gente.
Fosse à igreja ouvir o sacerdote, lesse livros de auto-ajuda, conversasse com aquelas pessoas "do bem", que enchem a boca pra falar de "Deus, Pátria, Tradição, Família", ou nos defensores vorazes de boas causas...
Você queria a salvação?
Queria um céu idílico onde poderia entoar Alleluias por megabilhões de anos?
E, contraditoriamente, queria um mundo de prazeres imediatos e facilmente alcançáveis e facilmente perdíveis?
Você querias as cordinhas invisíveis de um supremo titereiro invisível?
Desculpe, mas essas coisas eu não tenho em estoque, porque têm sido amplamente consumidas por esses dias e não são recursos renováveis (e não porque se esgotam, mas porque nunca se renovam em sua antiguidade).
Mas tenho caos em abundância.
Perdição em ampla faixa.
Eu tenho sentimentos de revolta e ódio maravilhosos e desejos de atear fogo no mundo (estão em promoção).
Eu tenho a alegria da queda e o gosto de sangue nos lábios partidos por socos dados em brigas ferozes.
Eu tenho gritos no escuro e solidão e medo e repulsa (dizem que é a ultima moda em algum lugar de Bangladesh e muito popular em Seattle).
Eu tenho vida, valiosa porque se perde em um minuto, e sem promessa de céu ou ameaça do inferno...
Por outro lado, a grama do lado de lá parece mais verde e você pode se sentar nela e ignorar que alguém tem de regá-la e apará-la e adubá-la para que você possa dar descanso à sua ignorância.
Você pode ignorar e pode descansar por muito e por pouco.
Eu prefiro preferir um minuto qualquer de vida genuína.
E no processo, odiar.
Odiar linda e divinamente, como quem está apaixonado...
Feliz Natal...
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Uma reflexão sobre a minha humanidade...
Eu havia prometido não falar mais de deus ou dos deuses.
Eu
já prometi não prometer nada.
Tem muito que eu já disse que não mais faria e
faço e farei (e aqui estou eu, na minha trocentésima postagem quando me vem a
memória a promessa de não escrever mais nada).
E tem tanta coisa que eu já me propus a não fazer (ou mesmo
sentir) mas eis que me encontro sempre e sempre de volta a velhos hábitos, como
um maldito viciado, que sim, me assumo uma pessoa volúvel (desgraçadamente
ciente de que o é, para azar meu) e lá vai:
Sobre os deuses...
Religiosos enchem o saco.
Ateus idem e com a mesma virulência.
E eu sou um apóstata de todas as minhas crenças e
descrenças e por vezes, defendo com tanta veemência os meus não-pontos de
vista, que me irmano a camarilha irritante de gente que teima em impor a sua
visão de mundo aos outros.
Mas como já falei deles e me causam preguiça mortal,
quero mais é que se danem. Ou que me permitam danar-me em paz...
Mas hoje tenho de abjurar da crença em um último deus em
que eu depositava alguma fé.
E desconstruir outro que eu sequer sabia que recebia culto
e reverência.
O primeiro é o deus Diálogo.
Confesso que o altar deste recebia
de mim as mais fervorosas orações e súplicas. Eu pensava ( e alguma parte quase perdida de
mim ainda pensa) que qualquer coisa entre as pessoas poderia e seria resolvida,
compreendida, apaziguada, conciliada, sancionada em comum acordo ou de outra
forma, que o Diálogo era a ponte que uniria e a marreta a quebrar os muros entre
os seres humanos...
Mas a nossa era é uma era de medo do Diálogo, das conversações em poucos caracteres, porque as
pessoas não mais falam, por medo de se expor e não ouvem, por receio de não
compreender aquele que por ventura se arrisca a mostrar que não é um
super-homem e que chora e que ama e que sangra...
O medo e a resultante incapacidade de reflexão e consequente
compreensão do outro, matou o deus Diálogo.
Ainda que haja retórica em
contrário, toda a conversa que se tem é campo de batalha para fazer valer a
força, não da lógica ou da razão, mas a força da força, trincheiras onde as
pessoas que querem parecer fortes se escondem com medo que o outro veja a sua
fragilidade.
Homens de vidro voluntariamente mudos e surdos em armaduras de aço.
O segundo deus a quem tenho de mandar ao limbo sou eu
mesmo.
É sério!
Fui até ontem uma divindade.
Não aos meus próprios olhos, está claro.
Mas aos olhos equivocados de pessoas que cismaram sei lá
por que diabos, que eu era um tipo qualquer de Lama iluminado ou um guru
espiritualizado.
Teve gente que teve receio de me falar coisas muito simples,
como se eu fosse uma coisa qualquer de pura ou muito santa que não deveria ser conspurcada
por linguagem baixa ou assunto chulo.
Mais de uma garota me brindou com o maldito “amor Ágape” (e
teve a feliz ideia de me contar essa porcaria, à guisa de fazer-me sentir “especial”),
castrando-me, desprovendo-me de pênis, testosterona e defeitos, me colocando numa droga de altar quando eu
queria que me quisessem na cama ou no inferno, que são os lugares em
que uma mulher deveria colocar o homem que lhe serve ou não lhe serve.
Mais de um homem tomou-me a bênção ou veio a mim em busca
de conselho sobre coisas que eu ignorava (e ainda ignoro) ou buscando perdão
por pecados cometidos, não contra mim, mas contra si mesmo, como se eu, pelo
suposto da minha “idoneidade moral”, estivesse em posição de dar-lhes a
absolvição que eles próprios não se davam.
As pessoas que eu conheço ficam particularmente chocadas
quando me posiciono a favor do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo,
da Auto-eutanásia, da liberdade irrestrita de pensamento ou contra a pena de
morte (ééé... Porque "gente santa", em geral, curiosamente é a favor da pena de morte).
Acham absurdo que eu coma carne e não recicle o lixo e
pensam que eu fico a vida inteira com a cara enfiada num livro, meditando, em contemplação
de sei –lá que universo metafísico, procurando a solução para os grandes males
da humanidade enquanto as pessoas reais vivem vidas reais.
Pro inferno com o amor Ágape! Pro inferno com toda a deferência
com que me tratam!
Sou um homem, não um clichê de “ser superior”.
Eu sou desse mundo mes amis, ainda que não o compreenda.
Justo eu, o pior ser humano que eu conheço (até porque eu
sou o único que realmente conheço, já que está todo mundo entrincheirado e com
medo de se mostrar, mas eu não posso esconder de mim o que sou)!
Daí abjurar do deus diálogo e do suposto da minha
divindade.
Daí estar inclinado a viver, pensar e escrever com um tanto
mais de agressividade, fazendo uso dos atributos que são considerados “humanos”,
não para convencer meus confrades de que sou gente, mas para o reafirmar para mim
mesmo, por que seria o fim da picada se eu me deixasse convencer pela opinião
corrente de que não sou...
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Sabe o Fulano?! (ou de como as 8 da manhã de sábado perdi mais um amigo por falar o que penso)
Luiz, cê não vai acreditar!!
...?
Sabe Fulano..?!
Que é que tem ele?
Cara, cê não imagina...!
...
Fiquei sabendo agorinha! Ele assumiu que é gay!!!
...
...?
E aí?
Aí o quê?
Não vai falar nada?
Tou esperando você me falar a
grande “bomba” sobre Fulano...
Mas então!?
Então o quê, jesus!?
Ce me ouviu? Fulano é gay!
E daí? Porque é que eu não
acreditaria nisso?
Vai dizer que ce sabia!?
Sabia o que?
Que ele era gay!??
Era? Ora, pois então não é mais?
@%$*! Você sabe do que eu estou falando!
Você supõe que eu saiba. O
problema é quando eu também suponho. Ta, ce quer saber se eu sabia que ele É
homossexual? Não, não sabia. Mas também não sabia se ele era heterossexual...
Coméquié?
Sabe...Heterossexual; Pessoas que
se relacionam sexualmente com pessoas do sexo oposto.
Eu sei o que que é “hétero”!
E então.
Então o quê?
Então eu nunca soube se fulano
era heterossexual, daí também não saber se ele era homossexual... Também não
sei de você. Porque é que eu saberia? Nunca me interessei na verdade.
Mas que porra de conversa é essa?
Cê já me viu fazer sexo com alguém?
Que merda, claro que não! E por que eu veria!?
(É mesmo...Por que você veria..?)
Então!? Como é que você sabe se eu sou gay ou não? Como é que sabe que eu não
gosto de homem?
Mas você é casado e tem filho!!
Fulano também. Você também.
Tá querendo insinuar o quê? Que eu sou gay? Que você também é gay?
Uai e se eu fosse? Ia sair daqui
correndo e contar absurdado pra algum amigo como se fosse a coisa mais
fantástica do mundo?
Mas...
Híí...Já ta me olhando esquisito.
Afastando a cadeira... O quê que há “bofe”? Tá com medo que eu te pegue? Hahahaha!
Pára!
Pra sua informação (e provável
decepção), não, eu não sou homossexual, se é que isso é da sua conta.
Mas o que me deixa pasmo é você
vir aqui falar de um cara que a gente conhece há vinte e tantos anos de um
aspecto da vida dele que a gente não sabia (e ainda não entendi porque diabos a
gente deveria saber ou não saber disso), mas parece agora que ele veio de Saturno
ou que tem tentáculos.
Ô, né preconceito não! Mas, cara, porque ele não falou pra gente?
E pra quê ele falaria? Que é que
isso interessa? Alguma vez você já me disse que era hétero?
Né isso não!
...?
É que...sei lá. Parece que eu não sei mais nada sobre Fulano...
Só porque “por acaso” o cara
assumiu que é gay? Bom, aqui vai o que eu sei de Fulano: Cara legal, conta
péssimas piadas, dança bem, me roubou uma namorada na oitava série, adora os
filhos, briga, com a esposa, gosta de Creedence (eca!) e me deve uns oitenta
reais (aquele dali não paga gente viva!)...Ah e “agora” é gay!
Mas custava falar?
De novo: Pra quê? Que diferença
faz? Você ta com quarenta anos e tá reagindo assim. Imagina como reagiria se
ele te falasse quando éramos moleques...
Eu realmente não entendo porque
isso te incomoda tanto...! Pleno século vinte e um e alguém ainda se
impressionar com a sexualidade dos outros como se fosse o fim do mundo!
Puta merda! Mas cê faz discurso pra tudo einh?
É um estilo de vida... E eu tava
cuidando da minha quando você veio me enfiar a vida de fulano orelhas adentro.
Mas tem que me fazer sentir o sujeito mais preconceituoso do mundo?
Você é um filho da puta, Luiz!
(De novo) É um estilo de vida. Igual
ao seu, de ser preconceituoso sem ser preconceituoso. Igual ao de fulano, que
tem o direito de ser quem e o que é e falar disso ou não e você não tem
porcaria nenhuma a ver com isso. Mais alguma coisa?
Só uma...Porque é que você não vai se fod@#$%?
“Me” fod@#$%? Não, obrigado. Isso
daí é coisa que eu prefiro fazer com outra pessoa... Eu gosto de fazer assim.
Espero que não seja um problema pra você.
%$#&@&#!!!!!
Ora, amém irmão! E lembranças a
sua senhora...!
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Para você...
...que como eu sofre da infeliz característica de ficar engraçado quando com raiva, uma advertência:
A imbecilidade alheia é (e cresce) proporcional à sua capacidade de se irritar.
Especialmente quando - mãe das contradições - os infelizes portadores dessa patologia espiritual (no caso, a imbecilidade), têm percepção dessa correlação, embora não tenham, aparentemente, de mais coisa alguma.
A imbecilidade alheia é (e cresce) proporcional à sua capacidade de se irritar.
Especialmente quando - mãe das contradições - os infelizes portadores dessa patologia espiritual (no caso, a imbecilidade), têm percepção dessa correlação, embora não tenham, aparentemente, de mais coisa alguma.
sábado, 29 de março de 2014
Da minha coleção
Tem gente que coleciona selos, moedas, namoradas...
Eu coleciono defeitos.
Todo dia esbarro em um pelas esquinas e como o adulo e lhe faço carícias, o bandidinho me segue até em casa e daí fica difícil me livrar do bicho.
Então minha coleção aumenta exponencialmente, enquanto meu estoque de amigos diminui na mesma proporção.
Hora ou outra tenho de fazer um puxadinho moral para colocar em ordem essa coleção e para tanto, terei de demolir um cômodo ou dois onde tenho alojado qualidades mentirosas.
É um inferno, porque a unica coisa que tenho para amar em mim mesmo atualmente são meus defeitos, porque eles são muito mais genuínos do que as minhas qualidades reais ou imaginárias, então fica difícil desfazer-me de um item dessa coleção, mesmo os que tenho repetidos e que poderia trocar num escambo de más qualidades.
Quer dizer, a gente até pode mentir para os outros ou para nós mesmos, sobre as próprias virtudes e embora as pessoas possam ter ilusões a seu respeito, você é uma pessoa bem desafortunada se tiver uma repulsa natural pelas auto-mentiras.
Se eu fosse um sujeito esperto, colecionaria selos, , namorada, moedas ou falsas qualidades.
São coisas muito úteis e as pessoas em geral gostam bastante de quem ostenta um bom estoque dessas coisas.
Mas quem disse que eu sou esperto?
Sei lá se alguém disse.
Foi uma pergunta meramente retórica.
Mas se alguém tivesse realmente dito, estaria falando, é certo, de uma das poucas falsas qualidades minhas que pretendo desalojar para ampliar minha coleção de defeitos genuínos.
---
Ah e só pra constar, não, não sou adepto da misoginia ou da misandria.
Sou misantropo mesmo e minha birra de gente (que oscila para um absoluto fascínio e simpatia) não conhece e não reconhece gênero.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Raciologicando à quinta potência
(...)
... e depois de considerar o quanto pode caber no espaço ocupado por parênteses e três pontos, me convenço finalmente de que a linguagem, contraditoriamente, é talvez o maior entrave à nossa comunicação.
No espaço por entre os parênteses acima, estava um longo monólogo carregado de uma emotividade ridícula que me encheu de auto-desprezo depois de ler o que digitei. Fica pra outra hora, porque acho que já espezirritei-me a mim mesmo em demasia por essa semana (e talvez por toda uma encarnação)...
Penso que é até possível, com os meios adequados e ainda ignorados, ensinar um animal ou vegetal e até um mineral (por que não?) a falar.
Mas um homem, tendo-o aprendido a falar, lamentavelmente jamais aprenderá a calar a maldita boca, enquanto se importar com esses universos caóticos chamados "pessoas" que circundam a sua órbita e meio que parasitam seu parco estoque de auto-amor, mais do que consigo mesmo e com este estoque.
Isso é lastimável, embora não pareça fazer muito sentido.
Mas se posso afirmar (e ainda que eu não pudesse, afirmaria assim mesmo), considero que somos talvez muito afortunados pelo fato de sermos capazes de odiar, tão doida e profundamente quanto amamos.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Considerações antes de uma capitulação...
Caso
alguém me leve a mal,
Penso e
advirto
Que me
divirto imenso
Escrevendo
isto.
(A rima é
proposital)
E quem haveria de pensar em tal coisa...?
A verdade, e eu me lembro bem, que fomos
meio lubridiados no advento do ano 2000, ano que segundo os afeitos ao
apocalipse, o mundo acabaria em fogo e enxofre. “Mil passará, dois não chegará
e blá-blá-blá...”
E nós ainda estamos aqui.
Mas, claro, nosso fascínio pela nossa
destruição não cede mesmo quando o Armagedon não venha nos próximos cinco
minutos, como quer a nossa fé. O mundo não foi pras cucuias. Deus nos
decepcionou e não nos mandou fogo dos céus...
Mas continuamos a espera.
O que eu acho engraçado, se é que isso tem
graça ou talvez seja uma “dês” (apenas para poupar os olhos e mentes mais
sensíveis as sutilezas do nosso vocabulário), é que um dos personagens do fim
do mundo já deu as caras há tempos e parece que ninguém se deu conta. Aqui está
a parte engraçada: Ficamos todos à espera que a tal “besta do apocalipse”
surgisse entre os grandes vultos da humanidade. Uns pensavam que seria um líder
político e outros tinham certeza de que seria um guia religioso.
Quem imaginaria que o dito cujo fosse um
nerd dos confins de Westchester?
Esqueçam de Lex Luthor, Darth Vader ou o
Coringa. O grande supervilão da humanidade é o fundador do facebook, mas
diferente destes três primeiros, ele realmente conseguiu “dominar o mundo”.
Hoje em dia ninguém mais existe de fato
fora do “face”.
Não há comunicação fora dali.
Ninguém te manda e-mail, carta ou mesmo
telefona.
Aquelas fotos de família? “Postei ontem no
face.”
O trabalho de faculdade? “Ta no face desde de
manhã! Em que mundo você vive?”
“Te deixei um recado no face.” “Eu não te
encontro no face?!” “Qual é o seu face?”
Da ultima vez em que acessei o facebook,
foi quando das manifestações pelo Brasil no ano passado (ao final das quais
mais uma vez perdemos a oportunidade de fazer história em vez de vivê-la) e eu
precisava saber onde e quando as pessoas se reuniriam. Foi útil, mas atualmente
esse negócio anda mais ou menos como sopa de quartel: cem gramas de carne para
quatro litros de água!
O mundo real não existe mais. E é nesse mundo
que ainda teimo em viver. O meu denuncismo talvez seja uma teimosia quixotesca,
talvez um prazer advindo da rebeldia ou simplesmente uma tendência a andar na
direção contrária da multidão. Mas o fato é que ninguém mais “compra ou vende”
fora do facebook.
Até então eu tenho me virado razoavelmente
bem sem ele, mais o cerco se aperta e acontece que enquanto eu vivo e convivo
em sociedade, preciso comerciar. Preciso comprar e preciso vender, logo, tenho
de ter a tal marca do face, porque encontro esse logotipo “F” (coincidentemente,
a 6ª letra do alfabeto. Número repleto de significados sinistros...)em tudo que
é canto. Até em sites governamentais!
“Curta a porcaria da nossa página...”
O meu problema é que tenho preguiça em
militar por qualquer coisa. Ficar praguejando contra as tendências da
humanidade cansa o espírito já exausto de lutas inúteis, pra não falar que cansa
os ouvidos alheios. O virtual superou o real (que já era confuso e duvidoso) e
agora, aparentemente não temos mais carne e sangue, a não ser em situações
especiais e fomos convertidos em bits e bytes, em álbuns de fotos que nada
dizem e postagens sobre banalidades ou tragédias pessoais.
É magnífica a capacidade humana para
transformar ferramentas potencialmente úteis em coisas perniciosas e estou pra
ver coisa mais nefasta e comprometedora da privacidade do que o tal facebook.
E olha que eu já implicava com o orkut, msn
(alguém se lembra?)...
E como o “funk” (outra praga que veio pra ficar)
substituiu a lambada, já me arrepio pensando no que vai substituir o “face”.
Quem pode me explicar o porquê de um ser
humano tirar uma fotografia de um prato de batatas (engorduradas e
aparentemente fritas em óleo muitas vezes utilizado, a julgar pelos fragmentos
escuros nas fritas) e postar essa porcaria numa rede social?
E me explica, por favor, os mais de trinta
comentários do tipo: “Hum...Tô aí!” “Que delícia!” “Eu queeeeroooo!”, e por aí
vai!?
E vai olhando;
a pessoa posta, essencialmente, piadas (que
já foram compartilhadas numa centena de outros perfis), fotos suas em poses
repetidas (fazendo um bico ridículo ou com os dedos em v e L) ou em ocasiões que o bom senso diriam ser
intimas (pra não dizer constrangedoras), farpas para supostos inimigos(as) (que
aparentemente não tem coisa pra fazer além de fuçar o perfil de quem lhe detesta),
trechos adocicados de poemas, mensagens religiosas do tipo “Jesus te ama”
intercaladas com coisas como “Batom de periguete é superbonder” e a lista segue.
Lamento, porém, que essa figura não se
trate de exceção, mas representa uma grande maioria barulhenta.
Eu juro, nunca vou compreender as pessoas.
Não passa semana em que alguém não me venha
dizer que teve um problema qualquer no “face”. É inacreditável, porém, como as
pessoas se expõem ali e continuam a se expor não obstante os problemas que por
ventura tenham.
Mas eu dizia que preciso comerciar. Preciso
comprar e preciso viver e contrariando as minhas esperanças, essa rede social
aparentemente veio pra ficar, aliando-se ao telefone celular para se tornar
mais uma porcaria de cadeia sem a qual não é possível existir em sociedade e
ter ou manter contatos.
Então, é sem constrangimento (até porque dá
muito trabalho ficar constrangido) que reconheço que estou em vias de
capitular.
Estou bem com isso.
Já fui um sujeito de convicções, até o dia
em que percebi que é melhor não estar convencido de nada, porque obstinação é raiz
de carvalho em noite de tormenta.
E como não sou um deus e nem um animal, não
posso, infelizmente, viver só, daí enfiar o rabo entre as pernas e colocar-me
sob o jugo de mais essa cadeia.
Paciência...
Vai ver, são apenas moinhos de vento
mesmo...
“Se te é
impossível viver só, nasceste escravo”.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
De quando quase meti a colher
Praça de alimentação, Shopping Cidade às três da tarde.
Casal jovem.
Ele, cara bonitinho, como as pessoas entendem a beleza
masculina.
Sentaram bem perto de mim, brigando sei lá por qual motivo, mas
meio que ocuparam o banco em que eu estava sentado, me “convidando” a sair
dali. Mas como não chegaram a me solicitar polidamente e se permitiram me
ignorar, deixei-me ficar por minha vez, ignorando-os também.
Ou tentando pelo menos.
Brigavam.
Na verdade, era o garoto que gritava como um lunático, coisa
bastante desagradável em se tratando de um local público e ainda mais sentado a
centímetros de alguém que já estava lá e nada tinha a ver com a lide.
Mas, meu deus, esses “playboys” todos tem o mesmo cheiro! Cheiro
de sabonete, mas um cheiro nauseante, como se esses caras comessem uma dieta
qualquer que os fizessem suar uma murrinha esquisita...
Certo. Estava de má vontade (e nunca vi um ser humano
completamente isento de antipatias e não sou exceção!) para com aquele tipo e
tudo nele me desagradaria, ainda que ele exalasse sândalo em vez de almíscar
azedo...
Ela, garota linda (como meus olhos entendem a beleza
feminina).
Cheirava maravilhosamente bem, mas acho que meu nariz tem
predileção especial pelo aroma doce da progesterona, mesmo por debaixo daquela
camada de perfumes e cremes todos. Discutiam acidamente por alguma coisa e não,
não estou orgulhoso por, mesmo sem querer, ter ouvido sorrateiramente conversa
alheia.
Azar.
Casal discutindo todo lugar tem. E se a eles não ocorre lavar a
droga da roupa suja em casa, problema deles caso orelhas
involuntariamente curiosas estejam ali, ávidas por perscrutar os detalhes do
entrevero.
Mas minha bisbilhotice não foi completamente saciada.
Chegaram ali já no ápice da questão, naquele momento tenso em que
em muitos casos a coisa já culminou para as vias de fato.
Mas era uma briga de casal e jamais me ocorreria que a coisa
pudesse descambar (em se tratando de uma rixa homem – mulher) para a violência
física. Mas o sujeito gritou com a garota um “vai tomar no @#%! “ com tanta
fúria na voz, que tive um súbito mal estar. “Que diabos esse cara tem?
Está drogado?”
Mulheres são criaturas deliciosas e enervantes, isso é certo.
Por vezes, tanto mais deliciosas quanto mais enervantes. Posso listar dúzia e meia de ocasiões, e só no ultimo semestre, em que uma ou outra
mulher, nas muitas instâncias da minha vida, me tirou do sério. Mas nada, nada
mesmo justifica uma atitude de violência, mesmo moral ou vocal, de um homem
contra uma mulher.
Não da parte de um homem de verdade.
E isso pode até ser um chauvinismo tolo da minha parte, mas senti
ânsias de partir pra pancada com o sujeito e com certeza o faria, se ele
tivesse tocado naquela garota, que fosse lá namorada dele ou não, não lhe dava
direto de gritar aquela grosseria. E num shopping cheio de crianças!
Pensando nisso, me ocorre que é a segunda vez em menos de um
semestre, fico excitado com a possibilidade de me meter numa briga e levar uns
socos, o que talvez mostre preocupantes sinais de sentimentos de autodestruição
de minha parte. Mas é maçante ficar o tempo todo indagando das próprias
motivações como se a droga do mundo fosse uma extensão da droga do divã.
Azar(2)!
Olhei para os lados.
Nada de seguranças ou coisa semelhante. Certos profissionais têm o
dom de desaparecer de vista quando mais se precisa deles. Isso tudo aconteceu
no espaço de minutos, tempo insuficiente para se tomar decisões que poderiam
acabar na delegacia ou no hospital.
É só que tem horas que, ou se mete colher ou se encolhe como um covarde e depois vai pra um canto qualquer remoer um desagradável auto-desprezo.
Acho que ia me meter em confusão dos diabos.
E a coisa ia por aí...Eu já sentindo engulhos de partir pra
pancada com o sujeito, quando a menina levantou-se do banco, olhou-o com um olhar
triste e num meio sorriso disse com suavidade:
“Espero que você tenha câncer...”
E foi embora.
“Espero que você tenha câncer”!!!!
Jesus! Fiquei ali paralisado, sentado com aquele sujeito cheirando
a sabonete e murrinha! Nós dois com a boca aberta e olhos arregalados.
Quase quatro décadas de vida e nunca vi ninguém desejar semelhante
coisa a alguém. Nunca vi ninguém sentir um ódio tão profundo por alguém a ponto
de desejar-lhe que tenha câncer. Ah...Em outra situação, teria rido do tal
sujeito, pois era um tipo estúpido que bem merecia um insulto, mas enquanto ele
se afastava com a cabeça baixa (talvez digerindo aquelas palavras ditas com
gelo na voz), senti dele uma inveja enorme.
É fato, o cara era um FDP², mas o era
de tal modo, que conseguia inspirar naquela moça bonita o ódio mais
maravilhosamente autêntico que já vi alguém expressar.
E ódio autêntico é certamente muito mais doce de ser usufruído do
que um amor por vezes titubeante.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Eu sou "Do Mal"
“Eu sou do Bem!”
O sujeito, recém-chegado, disse isso tocando solenemente no
próprio peito e com um tom de voz tão afetado que deixava claro o orgulho que sentia de si
mesmo. Isso era tão evidente que era possível ver que se postando assim, do
lado das luzes e das virtudes piedosas, estava acima da ralé humana cheia de
vícios e defeitos. E eu sou, lastimo dizer, desgraçadamente humano.
Já ia ficando de má vontade para com a gabolice dele, porque tenho uma
antiga e desarrazoada antipatia para com os deuses, e ver um semideus de
carne e osso e tão superior bem na minha frente, atiçou todas as cascavéis que
tenho no estômago.
Discursava efusivamente, com gestos teatrais, com a eloquência de
um pregador religioso e a verborragia maçante de um palestrante motivacional.
E como a criatura era bastante performática, literalmente
saltando por entre as cadeiras e mesas, papagueando o tempo todo um discurso hiper-positivo, claro que cativou imediatamente os corações e mentes de todos os presentes,
exceto um, que, como era sabido por todos os presentes, não tinha coração e
duvidava mesmo que tinha uma mente a ser conquistada.
De minha parte, tentei simpatizar com ele tão logo me foi
apresentado. É do tipo que sorri fácil, tem um aperto de mão firme e olha nos
olhos quando o faz, embora o seu olhar não dure nem um segundo, caso se olhe de
volta.
Mas era aparentemente do tipo que não suporta não ser o
centro das atenções e tão logo lhe foi dada a palavra, iniciou o seu monólogo
auto-afirmativo. Falava alto e com gestos tão largos e espalhafatosos (fazendo
círculos e curvas rápidas com os braços), que temi por várias vezes que fosse
fazer voar pelos ares a bandeja de um dos garçons.
Meu primeiro incômodo foi ver que o tal sujeito, a quem
todos gabavam como “um figuraça”, gostava
dessa alcunha, que no meu entender não
tinha nada de elogiosa. Era uma pessoa extravagante e positiva demais para ser levado
a sério, mas a voz alta, o sorriso largo, mais aquela meia dúzia de frases
doces e sedutoras que papagueava para que todos soubessem o quanto ele era “do
bem”, claro, tornaram-no o centro das atenções. Tal como ele, aparentemente,
queria...
Estaria tudo bem, não fosse o fato de que as pessoas na
mesa, habituadas a minha visão niilista e pouco ortodoxa da vida,
imediatamente alçaram o tal sujeito “do bem”, a posição de meu nêmesis: “Tá
vendo Luiz!?? É assim que você TEM que ser!”
E eu, por entre resmungos mal humorados, fazia pequenas e
silenciosas preces para os deuses em que não acreditava e antipatizava: “Da
boca do lobo, da pata do tigre, da vingança das mulheres e dos 'homens de bem',
livrai-me senhor!”
Aquele sujeito, segundo meus “queridos amigos” a mesa diziam, era a
minha antítese (e logo, um modelo de virtude e bondade que eu devia seguir) e
insistiam que eu Devia ser como aquele cara, porque não tenho certeza do
porquê, mas pessoas próximas que gostam de mim pelas suas razões (equivocadas
ou não), cismam de salvar-me a alma, tentando fazer com que eu seja um anjinho
de candura e bondade cristã, apoiador de boas causas, alguém que professa fé em
Deus, na moral, nos bons costumes e na porcaria do modo de vida americano e
blá-blá-blá... Como se eu não soubesse que gostam de mim exatamente por eu ser
“mau” como sou...
Para a minha sorte, aquele homem continuava metralhando-nos
impiedosamente com suas bravatas auto-afirmativas, proclamando dentre outras
coisas: a defesa da liberdade do Tibete (coisa que todo mundo apoiou sem sequer
saber localizar o Tibete num mapa), a proteção da floresta Amazônica, da fauna,
da flora, das crianças, das baleias, dos rios, a camada de ozônio, os escoteiros, os animais
em extinção, os meninos de rua, os pobres, as minorias, o UNICEF e mais um
porrilhão de outras boas causas.
Estava entretido demais consigo mesmo, encantando com o próprio
coração bom e virtuoso e duvido que fosse capaz de perceber a presença de mais
alguém além de si mesmo, doutro modo teria percebido que as pessoas naquela
mesa se divertiam à custa dele e as minhas, alçando-nos a posição de
antagonistas involuntários.
E eu tinha decidido gostar do sujeito! E eu apoiava quase
todas as “boas causas” que ele defendia!
Mas uma coisa que li há muito tempo num livro do Balzac, foi
o conselho de jamais permitir que digam que você seja um sujeito “divertido”,
porque esta é uma expressão de disfarçado menosprezo. Mas meu brilhante Sir
Galahad, meu belo e encantador “inimigo” do outro lado da mesa, parecia estar
indiferente aos sorrisos sardônicos dos que o aclamavam. Acho que aplausos
devem tornar- nos surdos e cegos para as vaias que rastejam por debaixo dos
mesmos. Mas, claro, essa é uma inferência meramente teórica, posto que não sei e nunca quero saber o que é ser aplaudido.
A bem da verdade, penso que eu estava mais irritado é por
ter aceitado o convite para a bebida e não conseguir encontrar um modo elegante
de cair fora daquela mesa sem parecer estar irritado e mais irritado ainda por
ficar preocupado com o que eu aparentaria ou não.
Olhava para a pregação de boas causas daquele homem e quase
podia ver um halo sobre a sua cabeça e, por comparação e por maioria de votos, constatei que definitivamente, eu sou um sujeito “do mal”.
Pensar nisso e colocar- me nessa posição, fez com que eu me sentisse razoavelmente confortável e menos irritadiço. Porque se algo me dava alguma satisfação naquele momento, era me distanciar, no que pudesse, da aura de santidade patética daquele sujeito. Foi então que, para coroar uma frase de efeito ele soltou emocionado essa pérola:
Pensar nisso e colocar- me nessa posição, fez com que eu me sentisse razoavelmente confortável e menos irritadiço. Porque se algo me dava alguma satisfação naquele momento, era me distanciar, no que pudesse, da aura de santidade patética daquele sujeito. Foi então que, para coroar uma frase de efeito ele soltou emocionado essa pérola:
“Porque uma célula feliz, convida a célula do lado: ‘Vem ser
feliz comigo!’ E elas convidam outra e outra e logo todo organismo do sujeito
está iluminado de felicidade!”
Ovação total. Ouviu-se o costumeiro “ohhhh” na mesa, mas
desta feita, alguém que estava ao meu lado teve a feliz ideia de me cutucar
(fisicamente! Praticamente me cravou o cotovelo por entre as costelas.Tem gente que arrisca a vida por pouco...!) quase berrando em
meus ouvidos:
“Tá veeeenndo Luiz!!!”
Engasguei com o ultimo gole de bebida amarga (que a
essas alturas, comparada à bile e à raiva que percorria o veneno vermelho das
minhas veias, estava quase doce), mas terminei a bebida. Até então havia me
limitado a resmungar. Era a minha deixa para ir embora. Disse levantando-me da
mesa:
“Isso tem lá sua lógica...Por exemplo, uma célula em
metástase também convida a célula ao lado; ‘Vem fazer um tumor comigo!’ E elas
juntas fazem um câncer que f@#%m o cara. “
Dito isso, deixei uma nota em cima da mesa para pagar a
minha parte da conta e fui embora. Não ia dar oportunidades para réplicas e essa era uma atitude de óbvia covardia dialética, mas acredito que por umas dez encarnações já esgotei minha cota de pérolas a lançar aos porcos.
Ia emendar um sonoro “vão para o inferno, vocês todos” ou coisa semelhante, mas já estava longe da mesa e meio arrependido por ter falado aquilo. Não pelos meus amigos convivas, mas pelo tal “príncipe feliz”.
Certamente não merecia aquilo e não era um "mau" sujeito.
Eu era.
Ia emendar um sonoro “vão para o inferno, vocês todos” ou coisa semelhante, mas já estava longe da mesa e meio arrependido por ter falado aquilo. Não pelos meus amigos convivas, mas pelo tal “príncipe feliz”.
Certamente não merecia aquilo e não era um "mau" sujeito.
Eu era.
Eu sou.
E o inferno vai congelar antes que eu mude.
E o inferno vai congelar antes que eu mude.
Mas não mau o bastante para não me importar em ferir os
sentimentos dos “bonzinhos” (ai meu deus!Que gente irritante!) com palavras ásperas. Também me
senti levemente contrariado por ter participado contra a minha vontade daquele
espetáculo lamentável.
Aquietei minha atormentada consciência com a constatação
que, muito provavelmente, aquele rapaz sequer ouviu minha grosseria. Como eu
disse, duvido muito que ele ouvisse qualquer coisa que não fossem elogios ou a própria
voz entoando loas a si mesmo.
Quanto aos meus "amigos" que fizeram a gentileza de se
divertir as minhas expensas, não disse, mas reitero o que não disse;
Vão para o diabo sem mim.
Ou deixem-me ir ao diabo sozinho.
Por que haveríamos de ir juntos?
Fora isso, tenho de aceitar que em grande parte a culpa é
minha por ser tão previsível em minhas irritações e por insistir em partilhar
companhias que fazem com que eu, por minha natureza, acabe sendo grosseiro e
tenha cada vez menos (em companhia deles) simpatia por mim mesmo.
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