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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Insone 2


Coloco  um copo de água no batente da janela.

Olho para a noite abafada que não me olha de volta.

E, na coletânea de pequenos mistérios que compõem o vitral dessa vida imensa, acresento mais este; de como é possível que as duas horas da manhã ainda esteja fazendo calor, nessa terra paralisada e sem vento…


Quente demais para dormir e quente demais para ficar acordado.


Eu estava lá, ainda agora, imerso na perfeição de um sonho. 

Era uma Ágora composta de muitas versões de notáveis raciocínios.


E tudo me estava tão claro, coeso,  límpido como um espelho novo.

Dialogava em lógica perfeita, fria, desapaixonada, desinvestida dessa voracidade e urgência que parece permear todos os meus pensamentos em febre.


E me vinham filosfias - agora perdidas - tão lúcidas, alinhadas, confortáveis como o zumbido de uma máquina que se sabe, em perfeito funcionamento.


No limiar do sono, entre aquele mundo das formas perfeitas e este, em que tudo me dói,  recusei-me tão veementemente quanto me permitiu o cavalheirismo a que eu estava investido, na confraria elegante do meu parlamento onírico, a tornar a este mundo estático de pensamentos rodopiantes.


Mas privado da tenaz ferocidade com que defendo e ataco pontos de vista a vista dos pontos que se me apresentam nesse mundo, deixei-me persuadir pela lógica implacável daquele lugar, e deslizei de volta, relutante e dócil, pra este mundo insone e ilógico.

(Quente, meu Deus!)


E tão implacável quanto a milimétrica lógica na qual instantes antes eu embalava um sonho, a realidade desse mundo desabou sobre mim, lançando sobre meus olhos e sentidos, uma coritina de confusão.


Tento organizar a algazarra dos meus pensamentos em louca debandada e em atropelo; uma manada querendo passar todos ao mesmo tempo pela porta estreita da percepção, tendo atrás de si sentimentos terríveis (sempre esses malditos sentimentos terriveis!) a tanger-lhes para dentro e para fora.


(Deus, que calor! Por que é que nunca venta nessa cidade?)


Instantes atrás, dentro de compartimentos organizados nos sonhos…


Tudo o que eu pensava estava  coreografado, impecavelmente coordenado. E em uníssono acordo, polidos, políticos e éticos, esses muitos pensamentos que enxameiam agora o ar como moscas repelentes, estavam arquitetados como fileiras de átomos e eu lhes podia chamar por nome e os reconhecer como filhos, embora fossem milhares.


E essa queda, para a clivagem, para a ruptura, um exercício de catar pedaços de si mesmo chamado Vida Desperta foi acertada por um conclave que, quando deliberou me pareceu tão lógica…


Mas então aqui,  na janela, no ar quente e parado, fitando uma noite quente - e de alguma forma imunda como um pesadelo, sem barulhos noturnos, sem sons de grilos ou sirenes ou qualquer som que denuncie a vida - uma noite que não é carinhosa e cheia de mistérios como era na minha terra, organizo-me minimamente e ao tentar deslizar de volta e sem muita expectativa, para um sono sem sonhos, me pergunto...


Se é sensato que um homem deposite toda a sua esperança na mutabilidade impossível de um passado inevitável.

terça-feira, 20 de março de 2018

O Sagitariano Decrépito





"Que mais há que ocupemos nossas horas, que cair em contradições enquanto esperamos o tecido  fino da vida desfiar?" 
Eu sou um rato. Já percorri essa merda de labirinto trinta vezes e, diabos, eu sei que não há saída, mas vou continuar procurando mesmo assim! E quando por fim me cansar de correr atrás de portas que não existem, vou esburacar essas paredes com os dentes, até que não me restem dentes ou que do limiar do meu desespero surja uma porta qualquer. 

Você desperta com essas palavras reverberando de algum sonho ou lembrança. Como um soldado cujo sono foi mais profundo do que o adequado, salta da cama ouvindo essas palavras, um clarim anunciando mais um dia de guerra.

Anda pala casa como um espectro de madrugada...
De madrugada...Todas as falsas madrugadas em que uma luz difusa e cinza cobre o mundo, você acorda ouvindo palavras, ecos de discursos oníricos ou lembranças, não sabe dizer, e o som de ondas baixas lambendo a areia da praia.

Isso seria confortador, caso o mar não estivesse a várias centenas de quilômetros da sua janela e da sua sanidade (tão cinzenta e incerta como a luz da falsa madrugada e o falso som das ondas que escuta mesmo depois de já estar de pé, na cozinha, se empanturrando de café e solidão).
E você não quer pensar que chegou ao ponto de procurar consolo em devaneios alucinatórios.

Pela janela da cozinha observa sua nova e silenciosa vizinhança.
Talvez a ausência de barulho aqui tenha despertado em sua mente, acostumada a algazarra de sua antiga morada, esse som fantasma de uma praia alhures...

Cioso e agradecido da consideração de seus vizinhos, evita acender as luzes enquanto olha pela janela enorme em meio ao escuro da cozinha. Vê  lá fora, o mar de luzes acesas em uma BH que não dorme. 
Não de todo.

Se recua o olhar por um instante, para a intimidade da sua casa, um fantasma te olha de volta refletido no filme do vidro escuro da janela. Tenta ouvir qualquer som que denuncie vida; criança chorando, buzina de carro, seu coração batendo, um cão latindo, mas tudo que ouve é o zumbido da geladeira e esse som de ondas tão fantasma quanto o homem refletido no vidro segurando a caneca.

Tanta vida lá fora e você aqui, se sentindo esvair como um balão furado.
Agarra-se à caneca com uma força fanática, quase como se o amargo e o calor do café fossem lastro no ar, uma ancora ao inverso, para impedir o inevitável da sua queda.

Sente-se hoje mais perto da morte do que do dia do seu nascimento e é em choque que constata que este é um pensamento que já lhe ocorria aos oito ou nove anos de idade.
Um sentimento de iminência, de ir embora, uma ansiedade que não se configura nem em medo e nem em esperança, semelhante a um ruído branco no fundo da consciência...

Tem poucas expectativas agora.
Você, que era feito essencialmente de fogo e de esperança.
Corre-lhe pelas veias o sentimento de estar inacreditavelmente velho e cansado, como se os fios fracos que te ligam as coisas do mundo estivessem se rompendo um a um

Um dia desses se levantou mesmo antes de saber que havia acordado e antes de ir à cozinha, viu seu corpo ainda deitado e desde então não olha mais para a cama antes de ir pra cozinha ou pra onde quer que seus devaneios o levem de madrugada.

Se seu corpo experimenta cansaço demais para lhe acompanhar, pois que fique. Nunca quis mesmo arrastar consigo presenças relutantes.

Pobre do seu corpo. Anda tão farto da sua companhia...

Fossilizado em cansaço, tão largado quanto o edredom caído ao chão.
Uma casca que você abandona para devanear na janela e no amargo do café que nem mesmo tem certeza estar bebendo ou sonhando que o faz, enquanto fica imaginando onde diabos iriam as pessoas que estavam naquele jato que de madrugada deixava uma trilha reta de nuvem no céu. 

Você sabe que o mundo não inicia e nem termina em si.
Mas você iniciou e terminará em si mesmo.

O que te atormenta é imaginar como subirão as letras finais da droga do filme da sua vida.
Há pensamentos que gostaria de evitar.
Por exemplo, não quer pensar que morrerá tal como nasceu e como viveu: Chorando, com raiva e com medo.

Não quer pensar que será um idoso tão decepcionante para si agora quanto certamente o é para o moleque que foi umas décadas para trás.
Se seu coração encarquilhar dentro desse peito magro, talvez a única paixão que lhe reste no futuro, que seja capaz de o mover, seja examinar o paradoxo de ter ficado velho sem nunca ter sido jovem.

Voce pensa se quer mesmo viver para colecionar tanto arrependimento quanto cabelo branco.
Se por um lado não curou o câncer, tampouco jogou lixo nuclear em um parque, não plantou uma floresta e nem poluiu um rio e é triste se imaginar uma irrelevância tanto para o bem quanto para o mal no ordenamento final das coisas.

Por mais intenso que tenha sido no sentir, pondera que amou em conta gotas e foi igualmente frugal em seu ódio...
Não abraçou nenhuma causa que não tenha abandonado depois, não defendeu nenhum ponto de vista que não tenha renegado.

Talvez apenas se torne mais um velhote com frio, lamuriento e nostálgico.
Ou pior! Talvez se torne desgraçadamente conformado e feliz!

Imagina-se andando por uma casa esmolando atenção e cuidados de netos que te ignoram solenemente e uma parentalha barulhenta, desconfiado intimamente de que eles, a despeito de todo o carinho, desejem inconscientemente que eu você resolva por fim a morrer e deixar o mundo aos que o herdaram.

Você se vê se recriminando pela falta de coragem, pelo apego à segurança na juventude... Imagina os longos diálogos íntimos entabulados nas suas horas vazias, com seus arrependimentos.
. 
Se um dia preferir a segurança de uma gaiola moral, conta ao menos perceber que morrerá de uma forma ou de outra exatamente no dia em que fizer essa escolha.

Você era o fogo, mas transformou-se em lenha.
Você era a seta, mas se converteu no arco.
Você desbravava caminhos, mas tornou-se gado...

Enquanto coloca a caneca na pia, você planeja e se revolta.

Tenciona encontrar a saída, pois esse labirinto não é maior do que seu desejo de fugir dele.

Mesmo tendo de o percorrer mais mil vezes, mesmo tendo de roer as paredes dessa paz pachorrenta da qual todo mundo finge se orgulhar.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Minha Dialética Tardia...




"A luta entre o velho e o novo, entre o que morre e o que nasce, entre o que é perene e o que evolui...
A luta dos contrários é,pois, o motor de toda a mudança."

Eu pensei que queimaria a mim mesmo na fogueira das minhas vaidades. Nunca soube de lenha mais adequada.

Isso seria um desejo mais realizável do que meu antigo anseio de ser uma lanterna para o mundo. Ou talvez apenas me tenha escapado o fato de que são desejos sinonimizados.

Mas, oh, clichês a parte, a chama ardeu alto, mas por tão pouco tempo que nem chegou a iluminar a mim mesmo ou a noite escura a minha volta. E eu cai de tão alto que já nem havia ossos na casca frágil que se rompeu de encontro as rochas..

De que é que poderia me envaidecer, eu, com a consciência aguda das minhas limitações físicas e metafisicas, estéticas e éticas, morais e acadêmicas e de outras ordens e desordens?

Eu olho para trás e vejo com antipatia e compaixão o garoto que fui há tão perdidos anos e para um pouco a frente, com temor do julgamento do velho que serei.

Paradoxalmente, sou ainda aquele garoto com ideias tão revolucionárias quanto efêmeras e também já aquele ancião repleto de cansaço e nostalgia que está há alguns outonos a frente, no horizonte do meu destino.

Há coisas inconfessáveis, que perturbam o suposto da minha maturidade, em numero similar aos constrangimentos antigos da minha meninice.

O entusiasmo sufocante por coisas que eu julgava tão apagadas em mim como a chama da minha vaidade fenecida me inquieta e tenho de me mexer.

De repente me brotam versos e trovas vindas de algum lugar, inspirada por estrelas em ascensão, quando minha alma já caiu no escuro de algum canto onde o mofo e bolor tirou-lhe o brilho..

Ah, melodrama do diabo!
Me sinto antigo e apaixonado por coisas novas, um dinossauro procurando sua versão .2 em smartphones...
Me sinto ridículo, com uns impulsos que brigam com meu desejo de imobilidade e sou ultrapassado até pela minha letargia.

Um corvo errante berra seu “Never more” e eu passo as horas tentando escrever e dar sentido à sujeira que seu pouso deixou no encosto da minha cadeira e na minha consciência...

Me releio em coisas esquecidas e lembradas, umas com ternura, outras com embaraço e rio de mim mesmo, em gargalhadas sufocadas pelo pensamento de que em alguns anos provavelmente estarei rindo deste Sahge/2017...


Talvez eu esteja mesmo é com receio de que a decadência não seja afinal tão romântica quanto a quer o meu niilismo...

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Escolha a vida...





"Escolha a vida".

"Escolha a vida" era um slogan de uma campanha anti-droga dos anos 80...

Só que nós adicionamos coisas.
Eu diria, por exemplo:

Escolha...

...uma lingerie nova na esperança de reviver
uma relação morta.

Escolha bolsas caras.
Escolha sapatos de salto alto.
Lã, caxemira e seda para sentir que qualquer coisa te faz feliz.

Escolha um iPhone fabricado na China por
uma mulher que pulou de uma janela...

E coloque-o em sua bolsa feita
em uma fábrica que pode pegar fogo a qualquer momento.

Escolha Facebook, Twitter,
Snapchat, Instagram...

... e milhares de outras maneiras ridículas
de expor e oferecer sua vida a estranhos.

Escolha atualizar seu perfil.

Poste uma foto do que você comeu no café da manhã e diga ao mundo o que você vai ter para um almoço na esperança de que alguém se importe.

Olhe perfis de ex-namorados, procure paqueras antigas, desejando de que eles não tenham envelhecido tanto quanto você.

Escolha olhar as fotos de viagem de alguém, mas não olhe ninguém nos olhos...
Escolha postar um vídeo ao vivo de sua primeira masturbação, poste e partilhe tudo, até sua morte.

(Interação humana reduzida
a mera informação.)


Escolha 10 coisas que você não
sabia sobre celebridades.
Escolha ignorar tudo o que você não sabe sobre você...

Escolha gritar e reclamar sobre o barulho.


Escolha ouvir e contar piadas de estupro, racismo, pornografia de
vingança e pedofilia deprimente.

Escolha achar que nunca aconteceu o 11 de setembro e se aconteceu,escolha achar que foi causado pelos judeus.

Escolha um contrato de 10 horas e uma
viagem de 2 horas para o trabalho...

...E o que é pior, escolha a mesma merda para
os seus filhos!

E talvez você venha um dia a pensar que
Fosse melhor nunca ter existido;
E depois talvez possa relaxar e afogar a dor...
com uma dose desconhecida de uma droga desconhecida feita em uma cozinha desconhecida por um desconhecido.

Escolha promessas quebradas.
Escolha arrepende-se  de tudo.
Escolha culpar os outros...

Escolha nunca aprender com seus erros.

Escolha isso para ver a mesma porcaria de história se repetir.

Escolha apegar-se lentamente
à migalha que você pode conseguir em vez de lutar por aquilo
com o que você sonhou.

Escolha contentar-se com menos e com um sorriso no rosto,
escolha a decepção...

Escolha ignorar seus entes queridos, até você ver que, no futuro, um por um, todos desapareceram e quando eles se forem, um pedaço
de você morrerá com eles.

E não haverá nada mais de você que
Poderia te mostrar que você está vivo ou morto.

Escolha o seu futuro,
“Escolha a vida.”


                                                            (Adaptado do roteiro do filme  “Trainspotting2”)

domingo, 1 de março de 2015

Da minha preguiça de escrever e do que a motiva....

Peguei a caneta e uns papeis amassados e amarelecidos. O amarelo do papel mais o fato de a caneta ser uma bico de pena me deram a falsa impressão de que eu, tal qual os grandes literários a quem admiro, seria possuído por sei lá qual das musas caprichosas e engendraria algo fabuloso e digno de ser lido e de que me orgulharia...

Mas eu teclo há muito tempo e os músculos da mão desacostumados, logo se cansaram e eu abandonei neste momento de desalento as minhas pretensões de nada pretender...
É mais ou menos assim; você passa um período qualquer numa letargia literária e se vê na obrigação de fazer algo relevante, reinventar a roda e re-re-redescobrir uma América de significados.

Fiquei com preguiça de escrever e essa foi a desculpa que dei a mim mesmo para fingir que eu não estava com vergonha do conhecimento de que eu escrevo para ser reconhecido por alguém que como eu seja “da Tribo”.

Lastimo não ter de, tal qual um Odisseu moderno, passado uma vida sem encontrar e a procura destes que como eu estão conectados a essa coisa sem nome, esse sentimento de EU e de existência.

Infelizmente para mim, eu os encontrei. E assim como não posso dar nome ao que nos liga sem tornar o que nos liga algo que efetivamente não é (dar-lhe nome), também não posso com segurança descrever a sensação de decepção e pesar, por ver que a Tribo não quer ser a tribo.

O anseio por qualquer coisa é um mau juízo de toda forma e não é incomum no afã do maravilhar-se com alguém, se agigantar anões e ver montanhas onde só há colinas.
Pior ainda é ver tigres ronronando como a gatos e leões se autocastrarem para serem adulados como poodles...

Há o mundo que-se-reconhece-como-O-real e nele nós não temos lugar, a não ser o lugar ermo dos mau-ditos (ou mal ditos ou malditos mesmo) e das incompreensões. Mas a Tribo, ainda que não se reúna como tal e nem crie nenhum estatuto, estabelece por instinto os meios de como se imiscuir num mundo que não a quer; e o meio é não querer ser o que se é.

Talvez você conheça o tipo de pessoa que nega o que é e foge do que é, como o diabo foge  do diabo caso se veja ao espelho.  É mais ou menos como aquele homossexual não assumido que se por acaso encontra em ocasião social um que é assumido, evita-lhe ou mesmo o hostiliza por receio de que este olhando-o nos olhos o reconheça como um igual e reconhecendo o denuncie de alguma forma e de alguma forma ele perca o “greencard” para o mundo dos “normais”.


Em certos países, o recurso do greencard pode ser obtido, caso se case com um nativo ou de outra forma, abjure da sua cidadania e cultura anteriores. Você seria, pois, aceito, assimilado.

Não há lugar nesse mundo estranho para gente estranha, então, assimile-se.
Você não casa na tribo. Você não comercia, você não frequenta e nem é frequentado pela tribo e caso alguém se assuma como Anacrônico, há sempre o recurso de evitar-lhe amavelmente e amavelmente evitar o que poderiam ser em associação um com o outro.

Melhor casar, comerciar e viver com um a quem subreptilicamente se considera como um “normal” (seja lá que diabos isso signifique) e tentar, através desse vínculo fingir mais um pouco que não se está fingindo e fugindo de quem é você.

A vida inautêntica mata, crianças.

Tire a vírgula da frase anterior e você lerá não um aviso, mas uma verdade amarga...

A Tribo está em extinção porque merece ser extinta, porque um povo, um ser que não acredita no próprio direito de ser o que se é e de existir e que procura pelos meios de se autoanular em troca das migalhas da aceitação alheia cheia de condicionantes, não merece mesmo existir.

Não sei direito por que e o porquê faço ou deixo de fazer algumas coisas, mas o interesse em saber, penso, me distingue da manada.  

É um pensamento vaidoso, mas a vaidade é um recurso legitimo para se manter a autoestima e os motivos afiados, em tempos  de vazio e banalidades em que tudo o mais parece fraquejar e sumir a sua volta.


Ainda não tenho respostas, mas tampouco me cansei de fazer as perguntas...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Retrospectiva de um ano em que tudo fluiu (de um modo e de outro)



2014 foi um ano...Igualzinho aos anteriores e diferente de todos os demais.

Fiz um pequeno balanço, coisa inútil, tanto quanto aquelas resoluções de ano novo que a gente nunca segue, mas eu meio que desenvolvi o gosto nada saudável de polir e dar brilho à minha perplexidade...

Comecei o ano enrolado na incompreensão de alguns paradoxos cotidianos  e o que era um simples novelo nas patas de um gatinho metafísico, agora no momentos em que dezembro agoniza é uma bola emaranhada de não-entendi do tamanho do Himalaia.

Conheci o que é essa tão falada “felicidade” e me deliciei e me desesperei por compreender o quão facilmente isso nos pode ser tirado.

Também confirmei  aquela impressão antiga (e que me extasiou quando percebi que não era percepção exclusiva minha) que tudo o que se ama é permeado de uma angustia dolorosa, porque tudo o que se ama está na iminência da perda.

Fiquei atordoado ao perceber que as pessoas gostam de mim pelos meus defeitos e me detestam pelas minhas qualidades.

Também parei de brigar com certas idéias apenas porque me eram antipáticas e aprendi a melhor ouvir o inimigo para melhor combatê-lo ou celebrar a paz, se for o caso.

Deixei de lado a estética e parei de repudiar o escatológico, mas ainda tento manter as unhas e pensamentos razoavelmente limpos.

Quebrei promessas (especialmente as de não fazer promessas), mas felizmente nenhum osso do corpo e citando o “Sábio” Falcão, caí em contradição, mas não do oitavo andar.

Passei o ano inteiro em constante mudança para tentar permanecer como sou, briguei para consolidar uma identidade, nadei contra a maré e me afoguei (mas eu pensei e ainda penso que foi a coisa certa a fazer). Fui jogando pela janela ou deixei que por lá se atirassem os amigos de ocasião, o social, o noblesse oblige, o politicamente correto.

Namorei, casei e me divorciei de algumas idéias e reatei com outras, entendi que relações, infeliz ou felizmente, são como iogurte:têm prazo de validade.
Arrependi-me de algumas coisas, mas teimei e as fiz novamente e tenciono continuar a fazê-las em 2015, porque eu me permitirei ser minimamente estúpido.

Aprendi que as pessoas não são feitas de manteiga e espantosamente não morrem caso se lhes fale uma verdade amarga ou um galanteio grosseiro (com a pessoa certa e no momento apropriado, é claro) e que ser educado não é sinônimo de ser um dândi

Descobri que não é crime falar um ou outro palavrão (e o poder catártico que desse gesto advém) e algumas vezes é até mesmo desejável.

Fui pra guerra levando caneta e papel enquanto os outros levavam metralhadoras, fui de black tie em festas à fantasia e perdi aliados por incapacidade de fingir ser bonzinho e amável e de comungar com a suavidade de alguns pensamentos.

Descobri a preciosa fragilidade do amor e o revigorante e autodestrutivo poder do ódio. E como é importante beber das duas fontes...

Continuo brigando com a minha própria humanidade, mas fiz as pazes com a dos outros...

 E a despeito de todos os calorosos, impensados e superficiais votos que eu e você receberemos no dia de hoje, uma mudança no calendário nada significa se você não operar mudanças em si mesmo.

Então vou te dar um mau conselho (porque os bons não são de graça e eu sei que você não vai me pagar):

Em 2015, você que esfolou a droga dos joelhos subindo montes, tentando sem sucesso alcançar o céu, dê uma chance para a sua humanidade; para de se pensar mais ou menos do que é.

Permita-se o inferno!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Das Perguntas que ninguém quer (se) fazer...

Por que?
Por que somos quem e o que somos?
Por que fazemos as coisas que fazemos?
Por que aceitamos que o que deveria ser o absurdo se torne o comum, parte da paisagem?
Quando foi que nos dessensibilizamos para o que deveria nos tocar e nos tornamos tão sensíveis ao que deveríamos ser resilientes?

E por que, afinal, toda maldita pergunta tornou-se retórica?

Eu ia justificar umas coisas por aqui e tentar ponderar outras, mas a verdade, é que ninguém está muito a fim de compreender o que quer que seja e a Preguiça de ser e de pensar e de entender ( e também de se explicar) tornou-se a contraditória dinâmica de nossa época...

Ninguém está imune...

Quase todo mundo que conheço ( e para meu espanto, as pessoas a quem mais admiro estão no rol) adquiriu sei -la como e por que motivo, um horror absurdo ao auto-questionamento ou a inquirição de outros. As pessoas fazem e pensam e vivem de uma maneira quase automática, sempre em movimento, quase como se temessem que, caso parassem por um momento, perderiam o equilíbrio e cairiam no abismo por debaixo do arame onde andam precariamente.

Você pergunta a alguém o motivo de o porquê é o que é e faz o que faz e a pessoa é evasiva, não porque não quer responder, mas porque nunca pensou muito sobre o assunto e se por acaso você insiste em perguntar, a pessoa é tomada de um horror absurdo, como se você a estivesse despindo (o que não deixa de ser verdade), ou invadindo ou mexendo com coisas que ela preferia deixar de lado e o que choca, não é porque ela não quer que VOCÊ saiba, mas porque ela tem pavor de que ela mesma venha a saber o que é mais confortável ignorar.

Por mais que o processo seja (aparentemente) doloroso, uma pessoa que não se fascina pelo mistério da própria existência é um mistério que  (aparentemente) não fascina ninguém .

Mas não é difícil entender que, ainda que isso não se revele conscientemente para todo mundo, inconscientemente as pessoas sabem que conhecimento pressupõe responsabilidade e ação; e ninguém conseguem mais ficar no conforto do agir e viver irresponsavelmente tendo descoberto o que a motiva, o que a faz ser quem é.

Daí preferirem se jogar nas coisas...

Vai lá e diz pra elas que o chão é de vidro, que suas vidas não são tão seguras quanto pensam, que aquilo que sustenta seu ego, o amor dos outros e deles próprios é vacilante, que ninguém ama unica e exclusivamente pessoa alguma, que não há perfeição, que não há um Deus que vela, que estão sozinhas e nuas no vazio e que a única coisa que as sustenta é o auto-engodo de pensar que se é o centro do universo...E vão se voltar contra você e te destruir...

Vai dizer a elas que a vida não se resume àquelas sombras projetadas no fundo da caverna e que o caminho que escolheram foi escolhido para elas e que nada é certo, nada é seguro. Vai tirá-las do cantinho quente junto ao fogo e dizer a elas que devem se preparar para os predadores que espreitam lá fora em noite escura.
Pra que perguntar?
É carnaval, é Ano Novo, é Natal!

Paz na terra entre os homens de boa vontade.
Tudo bem, a Terra está aí e não vou nem perguntar cadê a Paz, mas afinal onde está a vontade  e onde estão os homens?


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eu não temo cinzas e nem o fogo...

Roma está a arder...
E minha inspiração me abandona porque as musas tem medo das chamas. Eu não.
Eu não temo chamas ou cinzas.
 Eu temo e sempre temi que essa cidade queimasse. Por isso mesmo a incendiei.
Eu acordava apavorado e suado e gritando na noite quando num pesadelo furtivo eu via as chamas a lamber os pátios e o templos.
Agora, que meu coração se desintegra junto com os pilares e casas e lugares amados a que estava ligado, eu olho e contemplo o pavor de um pesadelo vivo.
Eu queimo junto com esta cidade.
Mas eu temi tanto que ela se queimasse, que não tive escolha a não ser atear o fogo que agora ilumina o céu dos meus temores.
Foi a coisa mais lógica a se fazer, porque depois que só restarem cinzas, vou parar de ter medo.


sexta-feira, 12 de setembro de 2014

We are from...


Mulheres (e derivativos) são de Vênus.
Homens (e adjacentes) são de Marte.
Já eu e minhas contradições somos de algum lugar em Plutão (que ora é planeta ora não é, mas segue girando indiferente as indiferenças alheias)

Como diabos viemos todos parar no quintal da terra?

domingo, 6 de julho de 2014

Apresentação... Ou Um Exercício de Humanidade



Isso ia soar bem esquisito.
Fazer uma apresentação de mim (exigência para participar de um site de literatura), como se eu fosse ao mesmo tempo um ponto e guia turístico e tivesse de alistar dentre as minhas características algo que valesse a pena uma visita. Lamentavelmente, sou uma criatura bastante vulgar, no que tange a aparência física. Acho esquisitíssimo tirar e exibir fotografias de mim, como se a minha cara fosse algum tipo de obra de arte que valesse a pena ter na parede. Então, receio que quem me visite não vá ter um cartão postal decente que enviar para os conterrâneos. Quero dizer, a estética que se dane, porque eu já me irrito com o trabalho de ter de escolher dentre as roupas que sou obrigado a comprar alguma que seja sóbria o bastante para que eu passe despercebido e ou não assuste as velhinhas no ponto de ônibus a noite como a promessa de um possível assalto ou coisa que o valha e nem dê a impressão de que acabei de sair de um bloco carnavalesco.

Então, fotos em sites, nem pensar!
Porque diabos eu vou dar as pessoas que me visitam o desprazer que me acomete todos os dias pela manhã ao olhar para a minha cara cansada?

Toda vez que faço a barba e tenho de suportar o espelho olhando de volta, olho e penso se a imagem daqueles olhos vermelhos e nariz pontudo ficariam bem numa parede qualquer de uma galeria de arte. O pensamento só não me faz rir porque pela manhã meu humor não está dos melhores, coisa que me torna ainda menos atraente ao olhar...
E olha que nem me considero realmente "feio", mas é que essa pele que uso para me movimentar neste mundo não me parece que deva ser o aspecto que eu vá valorizar em detrimento de outros. Sempre tem um cara mais bonito,  mais "fodão", mais forte, mais rico, mais o diabo, então, que se dane isso que daqui ha uns anos vai ser só poeira numa cova qualquer...

As pessoas geralmente quando se apresentam adotam uma postura bastante estranha, descrevendo defeitos como qualidades, passando-se por temíveis, atraentes ou mais agressivas do que na verdade são. 

Mulheres fatais super-fêmeas, ultraseguras e coquetes até a ponta dos dedos ou o irritante oposto - mocinha-donzela-a-espera-de-uma-porcaria-de-príncipe-que-lhe-vá-salvar-de-sei-lá-o-quê.

Homens super-amantes, dotados de capacidades sexuais dignas de um fauno (aqueles falastrões do tipo, “se te pego de te viro do avesso...”), ou a-porcaria-de-príncipe-de-mentira-que-a-mocinha-das-linhas-de-cima-espera.

Afinal "onde é que há gente no mundo?"

Não neste em que vivemos, isso é certo... 
Um mundo maravilhoso de clichês, de gente clichê, de pensamentos prontos e ou previsivelmente suaves ou previsivelmente agressivos, ou previsivelmente previsíveis...
Existe sempre "a coisa certa" a ser dita. 
Diga, e todos vão amar a pessoa "maravilhosa" que você é.

O fato de "a coisa certa" quase nunca ser verdade ou coisa sincera é de somenos importância.
O que importa é que te amem na mentira, que talvez (se você para pra pensar) seja tão pesado quanto ser odiado na verdade.

Mas todo mundo se protege do desamor dos outros...
Uns exageram suas “qualidades” mais desimportantes e outros o fazem com os defeitos de mesma ordem. Já vi gente, (muita gente aliás) se dizendo “louca” (como se isso fosse alguma vantagem, como como se alguém que fosse realmente 'louco' se visse como tal e não visse no inverso, que louco é o mundo).

 Na maioria das vezes essas pessoas unicamente se valiam da suposição de sua loucura para acobertar uma estranheza (que contraditoriamente é bem normalzinha, por que da pele pra fora todos no mundo nos são estranhos), como desculpa para sua inconstância, para não formarem laços (como se apenas eles ansiassem por uma vida não- simbiótica), para justificar as feridas que sua singularidade causa naqueles que os amam (como fosse possível viver sem ferir os outros).

Os falsos humildes são ainda piores do que os assumidamente arrogantes, com a diferença que estes últimos são engraçadíssimos, enquanto os primeiros são maçantes ao cubo!

Eu penso que ninguém se apresenta como um ser humano, simples, inconstante, cheio de medo e de duvidas simplesmente porque ninguém nos ensina a ser gente, (humana e falível gente) e de outra parte, somos ensinados a nunca pôr a nu diante dos nossos irmãos da confraria humana, que somos tal como eles. Mesmo porque, as pessoas em geral se sentem desconfortáveis quando alguém se atreve a lhe lançar consciência adentro o peso de sua humanidade como um espelho, onde podem mirar a própria. 


Então, por consideração aos vossos brios, permitam-me que me apresente adequadamente...
Eu sou uma semi-divindade, cavalheiros!
Eu sou um homem maravilhoso, virtuoso, forte, inteligente, cheio de convicção e portador de uma força e fé inabaláveis.
Nunca oscilo, nunca tenho um momento de dúvida e não sei o que é fragilidade.
Do mesmíssimo modo que todos vocês, aliás...

Só falo um pouquinho de mentira.

E infelizmente, me falta a mágica capacidade de acreditar nelas.
Nutro em secreto a ambição de um dia acreditar, nas minhas e nas vossas...

Mas eu ainda não tive uma só ambição que não me saísse pela culatra.
Algumas vezes, naquelas horas em que uma sensação tão castanha quanto a minha pele se apossa de mim, fico me perguntando se há algo mais digno de ser ambicionado do que ser simplesmente um ser humano, para fora de qualquer rótulo.

A verdade é que talvez não existam verdades, a não ser a verdade do pó, das coisas ínfimas que no conjunto aparentam as coisas grandiosa em que nossa vaidade se aferra...

Mas tudo se constitui de fina poeira que o vento leva e a mim parece que um homem só tolera a ideia de ser humano porque nesta ideia está implícita a sedutora ideia de ser o embrião de um deus.
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