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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Outra nota sobre a coragem...


Em uma postagem anterior,  falei sobre coragem, como um dom a ser perseguido.

E em outra, não sei se nesse blog ou em espaço perdido nas minhas antigas e perdidas veredas da net eu raciologiquei que coragem não é a ausência de medo. Ausência de medo é burrice, se não for patologia.
Coragem, é ter medo e, não obstante, enfrentá-lo.
É o kamikazi caindo voluntariamente do céu, é o guerreiro sozinho com uma espada se lançando contra um mar de escudos e lanças, é a mãe se jogando sobre o filho para protegê-lo das balas, é o rato acuado brigando como um leão.

É arriscar e talvez morrer por algo maior do que a si próprio.

Talvez seja uma coisa difícil de se fazer, porém, asseguro que é bem mais difícil viver com medo.

Anos atrás, após uma discussão breve, alguém gritou por socorro de madrugada, na rua em frente a minha casa. Me levantei imediatamente e ia sair mas minha ex-esposa me convenceu a não o fazer. Ela argumentou algumas coisas; que era briga de gente ruim, que era obrigação da polícia prestar socorro e que eu tinha esposa e filha e que devia pensar nelas ao invés de me colocar em risco por "gente que não presta".
A briga silenciou na rua e eu me deixei convencer pela minha ex-esposa.
A verdade, bem o sei, é que se eu estivesse resolvido, ela não teria conseguido me deter. Deixei o medo me segurar e me impedir de socorrer alguém. A verdade é que prezei mais a minha segurança do que o fazer o que é correto.
Passados tantos anos, não consigo me recordar deste episódio sem sentir náuseas de desprezo por mim mesmo. E faço questão de contar isso pra que eu nunca me esqueça.

Viver com medo é uma morte lenta, uma tortura silenciosa e uma escolha de covardes que preferem se acomodar quentinhos junto á lareira do que olhar o sol de frente. É coisa de quem quer um universo seguro e ordenado, de quem prefere as sombras projetadas na caverna do que sentir e viver a marcha selvagem da vida.

Viver a verdade das coisas é algo que tenho procurado ha muito tempo.
Penso que já nasci com essa veia moral, de encontrar significado, de olhar atrás do cenário, de tentar saber o que faz a marionete se mexer.
A mentira, a ilusão e a desonestidade são coisas pavorosas, que me reviram o estômago e me gelam o sangue de ódio. E é pior quando tento fazer isso comigo próprio.

Nunca soube de nada mais odioso do que a mentira.
Exceto, talvez, o medo.
Viver com medo ou viver uma vida de mentira é mil vezes pior  do que morrer.

Melhor está o leão morto do que o cão vivo.

O meu maior gesto de coragem foi olhar nos olhos de uma pessoa e lhe falar a verdade, sabendo que isso ia libertá-la e a mim, mas também lhe ia partir o coração e destruir sua zona de conforto.
Colhi as consequências.
Não poderia ser de outra forma.
Mas o alívio que eu senti por não mentir compensou em muito a dor que causei e senti.
Foi a coisa certa a fazer e não posso sequer me orgulhar de o ter feito, porque não é como se eu tivesse escolha.
Mas as pessoas em geral, pensam que têm.
A escolha de mentir.
A escolha de viver o conforto e a segurança.
A escolha do medo.

Mentir é roubar ao outro a liberdade de escolher um caminho a tomar.
Não é uma opção.

Ainda assim, este e outros atos de coragem, paradoxalmente me levam a seguir minha outra veia moral, uma que me move desde criança: O desejo por redenção.

Que pecados tem a purgar um criança?
Talvez o de ter nascido?
Quando aqueles que te trazem ao mundo manifestam, mesmo inconscientemente, o arrependimento por o ter feito, você é um desgraçado se por acaso tem sensibilidade o suficiente para perceber isso.


Deixando de lado minhas fantasias pueris de culpa filial, eu penso muito em redenção.

Não quero ir pra cova carregando essas dores que causei. É um fardo pesado demais.

Viver corajosamente tem um preço, é claro, e eu ainda prefiro ter a consciência atormentada pelos efeitos de uma atitude correta a ter de passar a vida tendo de contar a terceira para justificar a segunda mentira que justificou a primeira que serviu para esconder o fato de que sou um merda!

Ainda não vi um abismo que eu não tenha sentido vontade de me atirar ao fundo.
É a esperança que quando der por fim com o corpo nas pedras, silencie junto com minha respiração, o peso de tantas culpas.

São 16:22 agora...

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Eu inverno no outono enquanto desejo fugir

Minha visão monocromatizou em cinza essas manhãs de maio e minha percepção esticou as noites e encolheu os dias...

Mas que tem isso? Tudo se encolhe, se recolhe, pássaros ficam mudos nos ninhos, estrelas aparecem frias por entre as brechas do cinza das nuvens e eu sonho com o Atacama.
É inverno até no inferno.

Sorri quando me lembrei de quantas vezes tive de tirar minha dor do caminho do seu sorriso, antes de pegar uma autoestrada qualquer na qual eu pudesse final e irremediavelmente cair fora do mundo e para dentro de mim, mas hoje...
Me cansa esse desejo constante por decadência e meu niilismo dá lugar a um profundo anseio por sol, vento, e caminhos abertos.
Me cansa estar sempre em fuga, sentado no mesmo lugar de onde tudo em mim grita para sair...
Mas a casa está confortável e quente e eu nutro um autodesprezo doloroso por estar igualmente confortável, olhando pela janela o infinito do mundo em desafio.

Talvez você saiba quem sou eu, mais do que sabem minhas dúvidas, meus únicos pontos de referência na constante interrogação de mim mesmo...

E eu penso em você...
Penso em você até quando penso estar pensando em outra coisa.
Penso nos lugares alienígenas e maravilhosos por onde esteve e por onde sua presença igualmente alienígena e maravilhosa deixou e guardou marcas e me sinto encolher em febre...

Pois me dói pensar que é mais provável que assim como eu, você esteja olhando por alguma janela de algum lugar, desejando que seu corpo possa correr pelo mundo, junto à sua alma fugitiva.

Talvez haja sol aí,neste seu lado da realidade e talvez você cante com  minha voz alguma canção que soe subitamente estranha e triste..

Porque eu sei que você me acha estranho e triste e eu fico intrigado do motivo de eu gostar tanto do seu engano de pensar que eu sou uma única coisa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Tem alguém aí?

Dei uma revirada em uns posts meio apagados em blogs cujos autores alhures me encheram de saudades de gente que nunca conheci.

Senti a mesma sensação de perda sentida em paginas amarelas de livros antigos cujos autores nos deixaram com sua morte um tanto órfãos de humanidade.

Mas essas pessoas estão ai, vivas da Silva como eu, ou Pereiras, ou Bittenncourtts ou sobre outros sobrenomes sobre o mundo.

Onde estão vocês que me deixam tão órfão da sensação de humanidade?

As salas vazias desses corredores aparentemente vazios me fizeram mandar ao diabo a minha preguiça de ser qualquer coisa que não um observador e poupar a quem por ventura ou desventura me lê, a sensação de que também evaporei no mundo e no nada e vir até aqui manifestar a minha contínua existência.

Eu ainda teimo em ser.

Espero que eles também, porque nós já perdemos demais.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A Felicidade do Absinto



O sol expirou seus últimos raios,
O que brilha sobre as nossas cabeças é um fantasma pálido.
Caiu para cima, desaparecendo na escuridão do céu.
Foi iluminar outros satélites, mais dignos do seu brilho.
A lembrança dele e a presença de sua ausência tira a essência das coisas menores
E com ele suicidou-se o amor que eu nutria pelas pequenas coisas
Quando não sabia que eram pequenas,
Quando não sabia que eram coisas.

O fato trágico...
Visto-o como quem enverga um traje a celebrar bodas com seu desamparo.
Mas aquela árvore,
Fincou profundamente suas raízes no nada
E tem lá nas alturas a sua copa a bater-se contra os ventos.
O que a pode sustentar senão a teima em bater-se contra os ventos?
Do que nutre a sua seiva e de que serve o amargo de seu fruto sem sementes?

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E caiu uma chuva de bronze na planície cinza e o verão chegou ao mundo.
Isso assaltou meu sonho escuro como uma febre assalta o corpo
E se infiltrou como uma idéia nova a soprar longe o bolor dos meus pensamentos.
Correu-me nas veias mais rápido que absinto e me embriagou,
Sem que com isso me tornasse irresponsavelmente feliz na embriagues
Como com o absinto...
Mas forçou-me a uma alegria involuntária, violentando-me a angustia
Seguido de um desespero que olhava as raias do outono distante, ainda o outro lado do mundo...
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E eu semeio pedras num campo rochoso e ainda lamento o não germinar...
E procuro encontrar onde não está o que busco (porque não posso achá-lo em outro lugar)
Sonho com o possível dentro da impossibilidade
E quero ver atrás do suposto o que é real
Ignorado pelo suposto que se pensa real, mas não sabe o que é...
E eu  não sei.

A seiva da incompreensão nutre as folhas
E a copa larga como velas de uma nau bate-se com os ventos do mundo
Vento, nada , solo rochoso...
E uma Charybdis a esquerda do peito, entre as costelas
O resto é pó e silêncio...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Etc. (Cassiano Ricardo)

Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
(Fernando Pessoa)
Para que o mundo exista, existimos.
Pois seja.
Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?

Seria a árvore dos dourados pomos, etc.
O que é ignorado não existe.
O que é eterno também não existe.
A eternidade é uma forma de não existência.
Ao menos para nós o mundo não existiria
se não fosse existirmos.

Para mim, por exemplo, o mundo existe
porque ora estou alegre, ora sou triste.
Mas no fim vem a morte e… nos leva.
O seu poder é bem maior que o nosso;
porque é o da treva, e o nosso, esse não passa
de só dar existência ao que claramente já existe,
ao que só existe em razão dos nossos frágeis sentidos.
Que podemos ouvir, olhar, tocar, etc.

Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim… que foi? Um homem suicidou-se.
O dedo lhe está preso, ainda, no gatilho,
rígido como uma hora certa. Sem nenhum
arrependimento.

Muita gente reunida em redor do seu corpo.
Muitos rostos examinando o seu rosto.
Mas ele suicidou-se, apenas? Não é, isso, bem menos
do que ele fez?
Ele desceu violentamente a cortina da noite
sobre nossos rostos, que só continuam vivos
para nós.
O seu corpo ali está, presente a todos,
mas nós — que somos todos — já estamos ausentes.

Ele nos suprimiu.

Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.

Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Ele desceu violentamente a cortina da noite.
Jogou ao chão a sua própria estátua.
Não aceitou a explicação da vida.
Fez qualquer coisa de mais belo e mais monstruoso.
Pois nem Deus (e Deus é Deus)
conseguirá, jamais, fazer o que ele fez: suicidar-se.

Ah, ele conserva ainda
na mão a arma com que apagou o sol e as estrelas.
Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Agora virá a mulher e essa mulher o abraçará loucamente.
A esposa, e um anjo, a filha, lhe dirão palavras estranguladas.
Virá a ambulância. Alguém já chamou a polícia,
e haverá autópsia, etc.

Cassiano Ricardo

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Príncipes Universais em Lascaux




Você é uma montanha a ser conquistada?
Tem uma montanha perto da minha casa. Bem...Na verdade, não é bem uma montanha (não para os padrões mineiros).
Trata-se de um morro próximo (bem íngreme)  de forma cônica levemente lembrando aqueles desenhos estilizados de montanha,  que na minha infância  minha imaginação atribuía as proporções de um verdadeiro Himalaia.

Passei meus primeiros anos querendo subir lá, sem permissão e para a minha tragédia, eu era o tipo de garoto "obediota" e bem comportado. Não me admira que eu não fosse muito popular entre os outros garotos...E eu nunca subi a tal "montanha". 
Já fazia um bom tempo que eu sequer olhava para lá. Hoje, mais cedo, parei de digitar isso por um tempo e fui à janela. Ainda é um morro de proporção considerável, mas de modo algum lembra aquele simulacro de kilomanjaro, que minha pouca idade ansiava por conquistar.

Engraçado como o tempo parece privar as coisas de sua imponência....Quando eu era garoto e passava horas a fio olhando para lá era um espetáculo: Coberta com uma vegetação rasteira, algumas árvores  miúdas, grama verdinha...Ah e lá  ventava sempre o sol chegava mais cedo e se punha mais tarde ( e se Deus{a} existe, deve morar no vento e no sol!).
O topo parecia estar sempre iluminado e era delicioso  imaginar-me lá no alto dela, sentado como o rei do mundo...
Agora está cheio de casas e tem uma antena de operadora de celular no topo. E embora eu tenha passado a infância sonhando e eu levasse talvez menos de quinze minutos para chegar lá, nem um eco daquele anseio por subir até o alto daquele morro eu sinto.
Comecei com estes devaneios  da  minha infância  para falar sobre o anseio humano por desbravar  florestas ou escalar montanhas, internas, externas, psicológicas, espirituais, morais, filosóficas, físicas e metafísicas. Penso que  todo mundo gosta inconscientemente da sensação quase mágica de ser o primeiro a pisar num chão, vencer um desafio, romper uma resistência, ganhar uma peleja, um debate.

Ser o primeiro, um príncipe do universo.

 Neil Armstrong foi bastante polido e político em sua fala, mas não foi muito  honesto: Ser o primeiro a pisar na Lua, foi um salto inacreditável para aquele homem! Ao restante da humanidade coube o pequeno passo e o incômodo papel de  coadjuvante (contra o que rebela-se toda a nossa vaidade).

Ou como me afirmou um garoto religioso outro dia “somos todos príncipes universais”. Na minha atual queda para o existencialismo, tenho de “concordar” com ele (embora não veja vantagem alguma em ser um "príncipe" num universo onde supostamente todo mundo o é), porque se existe uma força maior que impera sobre o coração do homem, é a ilusão mal disfarçada de ser um “herói cósmico”. O primeiro e mais importante ente a ser considerado pelo universo (razão pela qual já não tenho impulsos de conquistar aquele morro, porque agora mesmo tem uns moleques lá no alto).

"Príncipes do universo". Por muito que tenho visto, sou levado a pensar que todos os seres humanos se vêem assim, embora disfarcem esse sentimento megalomaníaco por detrás de uma tonelada de recursos ideológicos, dentre os quais o mais bonito, comovente e mentiroso é a humildade.
Temos de justificar para o universo a nossa existência. De um modo ou de outro.  É o que nos move e é a nossa maneira de vencer a morte. E é para isso que criamos os deuses: Para sermos através deles, nós mesmos, eternos, incorruptíveis,  mais importantes do que as estrelas gigantescas ou as milhões de galáxias criadas por Eles, que foram ciados por nós.

Acho que pior do que arrogância é a falsa humildade e, ah...Como somos habilidosos em fingir que somos humildes quando isso contraria toda a nossa natureza!



E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas, desenvolvendo (possíveis e ignorados) tumores que dia desses darão cabo da minha raça e ainda me imaginando o ser mais importante para os deuses, motivo de rivalidade entre eles e ator principal da tragicomédia do Universo.
O problema é que parece que TEMOS de funcionar assim ou enlouqueceremos por termos de encarar a nossa finitude e efemeridade. A desimportância da nossa existência e a falta do significado para a mesma é peso demais para nós.
Fugindo e voltando ao assunto:Você por acaso é uma montanha?
Bem, se for o tipo de pessoa que declara abertamente as suas dúvidas em relação à própria situação de primícia universal do homem, vai se tornar uma montanha a ser conquistada por qualquer um que se sinta ameaçado em sua posição de “príncipe universal” pelo seu raciocínio.


Você é também um daqueles estraga o natal contando as criancinhas que Papai Noel não existe? Saiba que você tem irmãos no mundo, meu amigo. Eu não o conheço, mas já gosto de você!

 Todo mundo tem um amigo nervosinho com quem os outros gostam de implicar, porque é divertido vê-lo irritado. Bem, se você não exatamente o tipo nervoso, mas sofrer de uma fibromialgia intelectual , então o princípio é o mesmo.  Eles têm que deslegitimar as suas dúvidas, porque elas os ameaçam de algum modo.Elas poem em xeque as certezas deles, das quais consciente e inconscientemente duvidam.

E se existem montanhas inalcançáveis, sempre vai ter alguém disposto a arriscar a vida (em ambos os casos, literalmente), para ser o primeiro a conquistá-la.

Você é uma montanha a ser demolida e reduzida às proporções de um morro ou uma colina. Você tem de ser vencido, conquistado, abatido sem piedade e o primeiro a conseguir fazer isso se sentirá um herói. Se fosse possível, moral e legalmente, é provável que empalharia a sua cabeça e a colocaria como um adereço numa parede, diante do qual contaria as vantagens da vitória sobre si.

Como a lei proíbe, o recurso mas usual é te converter em qualquer coisa que não seja você mesmo e se necessário, deixar por modos subjetivos, escrito em sua mente a seguinte frase imortalizante que podemos encontrar em árvores em meio a florestas ou nos parques: “Fulano esteve aqui”!

Nossos antepassados  em Lascaux (os mais antigos e famosos grafiteiros da história) sabiam disso .
É, ao que parece, outro jeito de se imortalizar.

sábado, 18 de agosto de 2012

Florbela e a Noite do Meu Niilismo



Abaixo está um poema que uma pessoa cuja inteligencia e sensibilidade admiro mais do que posso expressar em palavras me enviou. Fiquei entre feliz e perplexo, pois lendo-o lembrou-se de mim, e de mim mesmo em uma outra instância.
E em uníssono ao espanto pelo (re)conhecimento destes versos que não são meus, mas calam tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu que fiz(?), eis o que me inspiraram:
                
 ...se até o Nada é relativo, nada é relativo, logo tudo é concreto, absoluto. E o que é absoluto é absolutamente desprovido de sentido, de significado. Mais ainda que o Nada. 

O que isso tem a ver com os versos? Tudo a ver e nada a ver. Porque diabos uma coisa tem que ver com outra para fazer ou não fazer sentido (que dá no mesmo)?
Você talvez nada tenha a ver comigo ou com ninguém...Deixa de ter ou tem mais significado por causa dessa sua singular desconexão com o todo?

Se ao ler isso sentir o seu estômago revirar com essas contradições, alegre-se! 
Pelo menos você ainda tem  um estômago que embrulhar! Eu já não tenho estomago para nada (pois o Nada o devorou). Apenas uma amaldiçoada e confusa cabeça pensante (coisa que ela faz de modo cada vez  mais precário como deve ter notado por essas linhas), que não posso resetar e nem deixar em stand by para dormir um pouco como você e sonhar com amenidades.

Mas hoje é uma noite tão boa quanto qualquer outra para fazer amor com os meus paradoxos.

"Foi tudo em vão até agora!"
Não há relatividade, exceto a relatividade do Nada.
É...meu niilismo não tem futuro. E nem deseja ter.

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou! 

                                                                                      Florbela Espanca




quarta-feira, 6 de junho de 2012

Das Alegrias e das Paixões




“Irmão, quando tens uma virtude e essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém.
Na verdade, a queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
E vês! Dás-lhe agora um nome, que é comum a ti e ao povo, e tornaste-te povo e rebanho nas relações com a tua virtude!
Melhor seria que dissesses: “Inexpressável e sem nome é o que constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das minhas entranhas”.
Que  tua virtude seja demasiado alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te envergonhes de balbuciar.
Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
Não o quero como mandamento de um deus, nem como uma lei e uma necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras transcendentes e nem para  paraísos.
O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a sabedoria e menos ainda com o senso comum.
Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”.
É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
Dantes tinhas paixões e as chamava más. Agora, porém, só tens as tuas virtudes: que brotaram das tuas paixões.
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram a ser tuas virtudes e alegrias.

Ainda que fosses da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em virtudes, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se converter em pássaros e aves canoras.
Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua vaca de tribulação e agora bebes o doce leite dos seus úberes.
E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das tuas virtudes.

Irmão, és bem-aventurado quando gozas uma virtude, e nada mais, pois assim mais rapidamente passarás a ponte.
É uma distinção ter muitas virtudes, mas é sorte bem árdua; e mais de um foi morrer no deserto por estar farto de ser batalha e campo de batalha de suas virtudes.

Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas virtudes.
Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na cólera, no ódio e no amor.
Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes.
O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado.
Ah, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se a si mesma?
O homem precisa ser superado. Por isso deves amar as tuas virtudes, porque por meio delas perecerás”.

Assim falou Zaratustra

Friedrich Wilhelm Nietzsche

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cognitio




Minha historia foi a seguinte:

Eu nasci, vivi e eu morri.
Vivi como um homem de fé, procurei a virtude piedosa e quando morri, estava certo de entrar numa outra vida e num modo melhor de existência, mas quando a luz se apagou...nada! Não havia nada lá e  eu estava morto e acabado e...

Espere aí! Isso não pode estar certo! Como eu poderia ter acabado se estou aqui a contar isso??

Na verdade não foi assim que aconteceu. Eu vivi e eu morri.
Mas eu vivi como um Ateu fundamentalista, victo e convicto e morri assim. Em meus momentos finais escarneci da morte, ri-me das preces dos meus tolos entes queridos por minha alma inexistente e apaguei. Esperava depois de morto...Nada. Mas para a minha surpresa, havia um depois, um além. Cheguei a um lugar que não era um lugar, mas um conceito. Daí pensei:
“Diabos! E não é que aquele bando de religiosos tinha razão?”
E agora?


Ah, cometi um equivoco aqui. Devem me perdoar. Não se pode se fiar na própria memória depois de morto. A verdade é que eu morri. Mas havia vivido como um cristão devotado e sincero. Quando segui a luz e cheguei perto do trono de Deus...Essa não! Jesus não estava ali. Era o Ganesha sentado no trono! E eu havia até mesmo debochado daquele deus-menino-elefante de quatro braços enquanto estava vivo! 
E agora?

Não.... Agora tenho certeza. Foi assim. 
Eu vivi e depois morri. 
Mas havia vivido a vida toda como um Budista fiel. Depois que abandonei minha carne, sabia que depois de ter vivido corretamente no caminho óctuplo, iria alcançar o  Nirvana, mas cheguei num lugar onde havia um trono e sentado no trono, reconheci de imediato aquela figura. 
Por todos os sagrados Lamas, aquele era Jesus!
E agora?

...

Eu morri como vivi.
Na dúvida. Nunca encontrei um modo mais honesto de se viver, o que talvez tenha sido um erro. Talvez meu único acerto. Estava prestes a descobrir.
Ou não...

Estava apavorado diante do novo, do incerto, daquilo do qual tudo e tanto especulei, mas nada sabia de fato. 

Eu estava saindo do mundo tão ignorante e desamparado quanto quando nele entrei. E assim como estava preparado para nele entrar, mesmo indefeso e com medo, estava preparado para dele sair. Engraçado como a morte e a vida parecem  portas de passagem para as mesmas incertezas...

Fiquei feliz pela minha vida não passar diante de mim como num filme, como eu ouvi certa vez que acontecia. Eu conhecia bem o roteiro e no geral, odeio reprises. E seria maçante ter de repassar todo o tédio de uma existência de desequilíbrio, alegrias, tristezas, rever rostos amados apagados pelo tempo e circunstâncias e idade; e apegar- me à lembrança renovada deles, o que tornaria minha morte mais dolorosa do que devia. Se é que deveria haver alguma dor na morte, como tanta houve na vida. Eu devia abandonar aquilo, do mesmo modo que abandonei o conforto do útero, para correr a corrida humana.

Mãos dadas com o meu medo e desamparo, havia uma esperança, tão tênue quanto o fôlego que me abandonava.

Torcia no meu intimo, que todos, absolutamente todos aqueles que ao longo da vida me apontaram dedos acusadores e caminhos para a salvação, estivessem certos e eu entrasse numa outra vida, ainda que fosse para ser punido num inferno porque qualquer forma de existência, mesmo penosa, parecia-me preferível a desaparecer para sempre. Supondo que há uma alma, a alma não reconhece o nada.

Mas torcia ainda mais, para que os deuses, se existissem, fossem mais piedosos e compreensivos do que seus muitos arautos, que condenaram a minha humanidade frágil por eu nunca estar a altura de sua semi-divindade, e se apiedassem de mim, antes poderoso e viril, agora quebrado, sozinho.

Pensei na minha mãe. Fazia muitos, muitos anos que eu não pensava nela. Talvez esperasse que ela estivesse lá para me embalar, me segurar e cuidar de mim, como fez antes, mas, claro, era uma espera tão imersa na incerteza quanto a que experimentei naqueles segundos traumáticos depois do parto. Eu esperava, mas duvidava que ela estivesse lá; uma estranha esperança na qual não podia me apegar. Uma esperança desesperada.

Apaguei como uma vela soprada e não houve nem túnel de luz e nem um coro de anjos a me saudar. Tudo bem. Eu já estava, depois de uma longa carreira no mundo humano, desprovido da vaidade de esperar cerimônias e honrarias. Eu não esperava um coro. Apenas esperava que houvesse alguém lá que me recebesse. Que houvesse um lá e que houvesse um alguém.

Eu morri e fui levado pelas mãos do nada. Era o que fui a vida toda; um passarinho atordoado na tempestade, chicoteado pelo vento, desejando que depois daquela cortina de nuvens escuras, houvesse um galho qualquer de uma árvore qualquer, onde eu pudesse por fim repousar as asas cansadas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Pétalas Quebradas




Amo versos sombrios e trovas obscuras- odes infernais, uivos para a lua-
Menos pelo que têm de obscuro ou sombrio,
E mais pelo que têm de real em sua dor que grita...
Tenho, pelos versos doces venturosos na boca e na mente
Da gente que se afoga num desespero cinza enquanto gargalha,
A mesma repulsa que me desperta
Os salmos entoados com pompa na boca dos incrédulos
Enquanto em secreto, secretam maldições.

E eu, desprovido da capacidade de entorpecer-me de alegria cinza
-quer retórica, quer genuína -
Ou de ter uma Fé - quer retórica, quer genuína-
Desdenho no meu desdenhar sutil, das pequenas alegrias e vilezas piedosas do cotidiano.

Você pode desenhar o mundo em negro numa folha branca,
Ou em branco num fundo negro.
Ainda será muitas vezes mais real, verdadeiramente mais real
Do que as cores caleidoscópicas de uma aurora para olhos míopes para o óbvio.
– ou você por acaso pensa que seus olhos podem enxergar todos os espectros da cor?

Porque este é um mundo de contrastes e não existe afetação na natureza.

E porquanto criaram barreiras entre eu e a Humanidade
E entre eu e minha própria humanidade
Repugno, sentencio ao cadafalso  todos os “nobres idealismos” por falsos;
Por não sustentarem adequadamente a humanidade,
Por me desadequarem enquanto humano que sangra,
Por deslegitimarem o fogo do meu ódio aos que me perseguem,
E por falsearem a legitimidade do amor que me legam
Aqueles que sorrindo me beijam...

terça-feira, 27 de março de 2012

Das Coisas que Me Ocorrem Quando Paro de Olhar Pra Dentro...




Esse é o principio ou também e talvez, o fim de toda angústia (se minha ou alienígena a mim, não estou no momento equipado para dizer, mas que conheço e reconheço)
 e que talvez seja um pensamento que mais confunda do que explique:


A alma irremediavelmente nômade, peregrina, a sonhar com espaços e pensamentos abertos,
atada por mil Nós (em pronomes e substantivos) a um corpo, com todas as suas vicissitudes,
Irremediavelmente  enraizado  nas minúcias voláteis da vida cotidiana...


Digamos, despretensiosamente, o que na prática significa que é uma fala carregada com todos os anseios de que dispomos, que uma ausência pode ser das presenças a mais constante.
Cortante.


"Corvos voam com corvos", e as vezes, ou com mais frequência do que é aceitável, entedia o olhar, olhar para o azul do céu forrado de asas multicores e não ver por entre estas a cálida figura de uma ave, que é como você,aço de sua têmpera...
Estaremos realmente entrando em extinção?



quinta-feira, 22 de março de 2012

Ofertas e Vergonha.



E foi com vergonha que sai daquela loja, onde comprei sem saber bem o porquê, aquele projeto de virtude que eu nem mesmo queria, mas que a fala hábil de outros e meu ridículo desejo por aceitação, convenceram-me de que era meu anseio. Já agora não sabia o que fazer com aquilo. Era pesado, eu mal dava conta de carregá-lo, quanto mais de sustentar aquilo por muito tempo. E eu já tinha tanta quinquilharia na consciência, tantos desejos importados, tanta afetação, tantos automatismos sociais, tanta fala bonita decorada, tantos sorrisos falsos e simpatias forjadas, tanta crença fingida, tantos modos e medos de disfarçar meu desajuste, tanto... Que ficava cheio do alheio ao mesmo tempo em que me esvaziava pouco a pouco de mim.


Mas que ser humano desprezível eu vi, quando me olhei refletido no vidro espelhado daquela loja cuja vitrine anunciava mais um porrilhão de falsidades brilhantes em oferta:

 Seja um príncipe luminoso, por apenas $ 19,95!

Torne-se um bom cidadão por apenas $16,00!

Aprenda a cativar os outros falando sempre a coisa certa por $26,15!

Olhei em volta para ver se alguma loja oferecia, senão uma aspiração atroz, ou uma ferocidade autentica ao menos o direito de ser às vezes um legítimo e livre filho da puta. Alguma patifaria sincera, algum pecado que não viesse com uma tonelada de culpa numa venda casada. Algo que calasse um pouco a vergonha de ser humano e falho. Mas qual!

Senti vergonha de sentir vergonha de assumir, que eu gosto da noite e das coisas tomadas por tristes quando são na verdade  profundas e que a maioria teme por ter um coração superficial. Por ter simpatizado e me identificado com o Góllun e seu tormento um tanto canalha e ter me entediado com os olhos meigos e cheios de ternura de Frodo Boffin. Senti vergonha de ter estendido as mãos suplicantes diante de altares vazios e ter pensado que se minhas orações não despertavam respostas, era apenas porque eu era indigno de obtê-las e não porque estava orando para os altares  errados.

E de não ter percebido que só era necessário um pouco de honestidade para quebrar o grilhão.
Sai com uma sacola cheia do lixo que me convenceram que eu deveria comprar para ser um ser humano decente e no estomago uma sensação vazia de que já então havia muito pouco de mim para defenestrar e preencher o espaço com aquele lixo ideológico, fingido,disfarçado de virtude. E é coisa complicada reconstruir uma alma a partir de um fragmento.

Comprei por um preço muito alto, aquilo que me destruiu.
Só me resta esperar a fatura no fim do mês...
E quebrar a droga do cartão de crédito!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Saudosista Assumido

Um vídeo ótimo de uma das bandas de que mais gosto. The Smiths, junto a Joy Division e The Cure foram em minha opinião as bandas mais significativas do Punk Rock e Alternativo das ultimas décadas.
Ver esse vídeo me fez lembrar de um tempo em que para sermos "cool" não era necessário nos comportarmos como "jackass", como parece ser a regra hoje.

E fiquei pensando se afinal não nos esquecemos de como fazer (e escutar) boa música.
Como diria minha amiga Thuany Freitas, "saudades das minhas lembranças"...









quinta-feira, 15 de março de 2012

Uma Pequena Nota de Des-clarecimento


Me ocorreu e isso que me ocorreu é uma coisa tensa, eu diria, e como o termo “tenso” está muito em voga hoje em dia e eu me penso naturalmente alérgico ao que “está em voga”, sinto- me um pouco tolo e levemente traído por mim mesmo ao usar essa palavra.

Ao diabo, com isso! 
Até que eu tenha um meio, capacidade e interesse de falar sem palavras (fonadas ou escritas), não hei de pensar que a moda se apossou e na mesma hora me desapossou do uso da  língua portuguesa.

É apenas que me ocorreu depois de uma persistente febre seguida de uma preguiça tenaz, que nós somos todos crianças entediadas num jardim de novidades voláteis. O problema é que nenhuma novidade extingue  o nosso tédio obstinado e queremos sempre um brinquedo novo e maravilhoso, quando aquele que há um minuto nos iluminava o olhar, tem seu brilho pouco a pouco esmaecido.

O problema é que ali naquela esquina, algo vai me encontrar, algo vai se abater sobre a minha cabeça e eu acabei por pensar que é absurdo esperar que seja sempre algo venturoso. Posso esperar que me caia na cabeça, talvez a módica quantia de alguns milhares de dólares (coisa que me seria bem útil), mas jamais vou pensar que os mesmo virão do céu embalados num cofre de meia tonelada, como naqueles desenhos viciantes de Hanna e Barbera.

Porque desejos são mais traiçoeiros do que sonhos, tenho de me lembrar de nunca esquecer que devo ter redobrado cuidado com aquilo que desejo.
Talvez seja trágico consegui-lo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

São Tempos Difíceis...




"Já tive sonhos que nunca mais me abandonaram
e que me mudaram as idéias; espalharam-se dentro de mim, como
o vinho se espalha na água, e alteraram a cor dos meus
pensamentos."


Li isso há tanto tempo em “O Morro dos ventos Uivantes” e fiquei tanto tempo sob o impacto dessas palavras, que sim, elas também se espalharam dentro de mim e alteraram a cor dos meus pensamentos. Ou os meus pensamentos se tornaram tão densos que por causa deles eu tenho lá aqueles sonhos estranhos (mesmo acordado) e eu também acabo acordando sempre com aquela sensação de que “duendes me usam como saco de pancadas durante a noite”.

Chega-se a um ponto que o que é pensamento e o que é sonho fica indistinto e ou os pensamentos são os  sonhos disfarçados de razão ou os sonhos são uma forma mais subjetiva e mais elevada de pensamento.

Não sei...

Só sei que tenho pensado que embora eu lamente, (num luto que cada vez mais me parece impossível de elaborar), que certas pessoas morram (quando a coisa mais importante do mundo é que estivessem vivas), lamento em maior medida, embora não tão dolorosamente, que a maioria das pessoas que me cercam, embora respirem, não estão de fato vivas.

E que quando se perde a referência o que fica tem mesmo de valer o esforço da existência...

São mesmo tempos difíceis para os sonhadores...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reencontre-se




Recupere a sua compreensão e conexão com o absurdo. Que há com você? Se ignorar  o vazio voraz que te devora, que te consome pouco a pouco, disfarçando a sua indiferença com ideologias que te abandonam como uma amante infiel, que vai colocar em seu lugar? O que vai usar para tapar o abismo, que não seja uma panela de retórica positivista, frívola e irreal? Por acaso a irrealidade não é uma versão enganadora do nada? Uma camada de gelo fino disfarçada de chão a sustentar os pés alegres de homens inconscientes a dançar? (lembre-se da lição de Atreyu: O nada não pode ser destruído. Deve ser preenchido). Preencha o nada com o seu Eu. Deixe-se ser um indivíduo íntegro, não no sentido da moralidade, mas da inteireza, da coesão.  O Nada não é o inimigo. O seu medo dele é que é. Derrote o medo, abrace o nada. Nele, há muito mais espaço para ser Você. O nada é real. As verdades são pura abstração.

Então Carl Gustav Jung estava certo nisso: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. (até porque, é quase impossível alguém estar errado em tudo, e eu implico com Jung por causa da minha lealdade canina ao velho Sig e da minha alergia ao misticismo, que Jung abraçou)
Eh, Bien, sou eu novamente.
Lembrei-me de uma cena de um dos melhores filmes a que assisti no ano passado; Cisne Negro. Quase no finzinho do filme, Natalie Portman tem o corpo coberto de penas negras (é o tal cisne negro dando as caras) e sorriu de satisfação. Curiosamente, salvo engano, é a única cena do filme em que ela sorri, o que me faz pensar se a miséria da vida dela não era o seu Cisne Branco. Voltar para dentro de mim mesmo, a sensação foi parecida. Com a diferença que eu sempre tive “plumas negras” e meus problemas começam quando cismo, sei lá por que, que tenho de ser colorido como uma droga de Arara.

Todo mundo precisa ficar um pouco só, para reaprender a respirar com seus próprios pulmões (é a primeira coisa que a gente aprende na vida, mas a própria vida comunal acaba por nos fazer esquecer, daí sufocamos na multidão). Apenas um pouco de solitude, coisa que as circunstâncias ( e em certa medida, nossa  própria covardia) não nos têm permitido é necessário para lembrarmos. (Um pouquinho de tempo e  duas ou três musicas de Himogen Heap pode surtir um efeito similar ao que uma bolsa de sangue teria para um hemorrágico).

Estar dentro da própria pele  é bastante atormentador, mas é um tormento confortável e familiar, porque é o Seu  tormento, e não as agruras alheias que as pessoas teimam em colocar sobre ombros outrem.
Preciso sempre me lembrar de que se existe ressaca moral, também existe embriagues moral, e esse é o tipo de porre de que qualquer um deve se envergonhar. Ficar embriagado de ideologias ou da inconsciência de si é o pior tipo de carraspana que alguém pode tomar.

Sem direito a um antiácido psicológico.

O Abismo de Mim



Uma pedra  lançou-me no abismo.
Atentou para ouvir
O eco do meu corpo, quando eu batesse no fundo
Quando meu grito ressoasse no nada.
“O abismo a que me empurras – disse a Esfinge – Não é maior
Do que aquele que existe em tua alma”

Não houve som e nem dor,
Quando me choquei contras as rochas .
Apenas uma nuvem de dentes de leão flutuando no ar
E o som do farfalhar de folhas secas
Levadas pelo vento.

Bobagem.
Não há vento no abismo profundo,
Como não há alegria nas horas escuras
Quando seu mundo parece retrair e morrer.
Deve deixar que as sombras dancem com as sombras
E as luzes de tua alma,
Que dancem com as luzes que emanam das almas felizes.
Como morrem os anjos?
Como abraçam o vazio os homens alados, cujos sonhos voam?

Morrem como morrem todos os homens,
Sozinhos e com medo, antes que a cortina caia.
Lançando no eterno a esperança de alcançar o mar infinito
O verde e o campo onde caminhariam para sempre.

Uma pedra lançou-me ao abismo.
Está claro que não morri.
E o que não me mata, torna mais louco.
Fiquei carregado da  sabedoria de nada saber,.

Há conforto na sabedoria.
Há abrigo na ignorância.

Mas a loucura....
Abraça-me os ombros como uma consorte.
E me seduz com beijos doces, alucinógenos...
Dota-me de asas imaginarias
E enche a minha cabeça de um céu ilusório:

Mas no vazio, a queda para baixo ou para cima
Não faz diferença alguma.
A pilhéria da vida é a mesma.
Se a ouvir de cabeça pra baixo
Terá a mesma graça
Nenhuma corrente te prende à sombra do mundo,
Exceto as que tu mesmo forjas com lágrimas
Exceto a paixão à própria prisão.

 Uma pedra atirou-me no lago
Atentou  para contar as ondas que se formaram
Quando eu  afundei...
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