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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Poema sem data ou Dente de Leão 2



Ficou no ar feito perfume ou a tensão que precede o atroz...
Após a sua passagem ficou essa certeza
De que ha beleza no mundo,
E sol por sobre aquelas nuvens escuras..

E o desejo pelo fogo e calor que exala desse desejo,
E que ficou no ar e na paisagem depois de sua passagem,
É dessas coisas que não cabem em dicionário..
É dessas respostas para perguntas que nunca foram feitas...

E enquanto isso me percorre as veias em febre e a cabeça em êxtase,
Eu acelero o carro dos meus pensamentos e devaneio estradas infinitas,
Enquanto atravesso ruas de trânsito lento, sentindo felicidade em todos os meus sentidos.

Sussurre enquanto seu corpo treme no meu...
Suspire no ar enquanto minha alma devora cada instante...
Desses, quando desejo que o tempo pare ou exista todo de uma só vez.
Você deixou um pouco de sol, lá nesse paraíso qualquer de onde fugiu?

Eu caio,
Enquanto o ritmo da música diminui e seus cabelos varrem o ar.
Minha pulsação acelera com o mundo e eu sou feliz em câmara lenta..

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Elixir e a Pedra



“Vais arder...
E eu serei a mirra.


Uma vez em um sonho alguém me havia dito que "a beleza real de uma consciência desperta, é que em pequeno espaço dela podem caber muitas estrelas."

Houve época em que eu podia facultar ter ilusões de que poderia atribuir significado a tudo e a nada. 
Era esse o meu modo de abrir uma consciência em universo sonâmbulo.


Até que aconteceu.

Senti isso aflorar como algo que buscou passagem por um longo tempo, passando por caminhos estreitos e labirintos, cavando, fluindo por brechas e fendas na pesada armadura da razão, até vir à luz da percepção.

É daquelas coisas, que despencam nos sentidos, preenchendo espaços até então dotados de um vazio ignorado, causando reações de violentos ciúmes em toda a sua lógica, porque a razão luta com unhas e dentes para se apropriar desse território estrangeiro. 
Esse, em que sentimos um estremecimento, um reconhecimento de algo que escapa à explicação racional.

Nada nesse universo é como você espera, a não ser, talvez, a decepção advinda da expectativa.
Preso a esse dogma, um dia parei de esperar e quando o fiz, aquilo que não mais esperava veio.

Eu olhava para aquilo a que não pude dar nome, com a certeza (eu que nunca tenho certeza de nada) de que era exatamente como deveria ser e isso por si só já deveria causar um estranhamento...

Mas aquela certeza pulsava na minha mão como um coração em chamas, e crepitava à minha volta como uma translúcida neblina flamejante.

Tal qual um primeiro homem reverente ante o primeiro fogo, observei, e, no entanto, esse era um fogo que não queimava ao toque, que não servia para servir, que não espantava o terror da noite.

Era uma chama que ardia sem consumir lenha, um sol que sempre iluminaria o vazio, uma estrela que nunca cairia do céu. Espantava o terror do terror.

Fiquei atado à sina fatal dessa ambiguidade, pois Sempre e Nunca jamais deram as mãos em qualquer definição que eu pudesse dar a um grande mistério ou a um devaneio. 

Mas lá estava ela, a Definição, algo que não necessitava de palavras, mas de sentidos e ainda assim, estou inerte, sem versos, tentando determinar o que não se pode trancafiar no arcabouço limitado da linguagem...


E ainda que certo receio antigo e enraizado (nas mesmas profundezas de onde me veio aquilo de que estou certo) insista para que eu deambule em incertezas, um vácuo de calma fatalista se apossa de mim e eu, que nunca consegui silenciar as vozes da mente, me encontro final e magicamente em transe...

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Abismo por Detrás do Vazio



Finalmente chove...
O ar está impregnado de umidade, as sarjetas estão quase suportáveis, o frio obriga todos a se abrigarem e um silêncio pesado se instala no mundo, quebrado sutilmente pelo gotejar leve das folhas das árvores encharcadas nas pedras e calçadas...

É realmente um tempo lindo...

Nem mesmo os cães barulhentos dos meus vizinhos parecem dispostos a fazerem a costumeira algazarra.

Partidário da época de chuva, sou quase levado a crer que mesmo as taxas de criminalidade diminuem em tempos assim, em que tudo parece se recolher e as noites parecem mais longas que os dias....

Queria apenas estar de férias, sem tv ou internet, sem telefones ou compromissos, esquecido de tudo que não fosse o cair hipnotizante da água do céu, no qual eu poderia passar os dias com a mente longe, perdido em lugares inacessíveis.
De repente me sinto imobilizado e de tal forma apaixonado por essa letargia, que me obrigo a levantar de rente a janela e ir fazer qualquer coisa.

Qualquer inutilidade que me tire desse transe pelo qual tanto ansiei enquanto pondero se meu desejo de morte se tornou agudo de tal forma que quase tenho de me lembrar de respirar...

Não, não é melancolia e nem depressão.
Se fosse isso eu saberia reconhecer e haveria certo aconchego nessas condições, porque são coisas reconhecíveis e mesmo a presença de monstros, quando familiares, são reconfortantes, porque há nisso um quê de reconhecimento.

Não é tristeza que me faz nutrir esses pensamentos lúgubres, mas uma paixão estranha pelo que se avizinha, um sentimento de término que assusta porque está permeado tanto de iminência quanto de incerteza...

Fazem algumas horas desde que comi alguma coisa. A cabeça e os motivos giram e me sinto subitamente divino. 

Hipoglicemia e solidão são sempre fontes excelentes de ilusões de transcendência...

Um enlevo súbito, um sentimento de me estender ao infinito, enquanto silenciosamente desmorono para dentro, caindo entre os cacos do que até segundos atrás foram sentimentos de grandiosidade...
(mas não tem nada nessa geladeira que não esteja vencido ou com “gosto de geladeira”?)
...
Psicodellias... 
Meu blog surreal...
Um voo no meu desamparo e na minha perplexidade por estar existindo.
Estou aqui há quase oito anos agora e leio em retrospecto tudo o que já lancei no ar da net e, em coisas antigas, por entre os bytes dessa tela encontrei motivos de me sentir orgulhoso.

Sem contar o que escrevi muito antes, em outros lugares e que em minha infantilidade deletei sem cópias, coisas e sentimentos dos quais eu quis me divorciar e no processo não percebi que joguei muito de mim fora...

Lastimo, mas releio o que ficou.

Vejo a maneira como procurei me ocupar do meu universo íntimo, desbravando ao longo dos anos o grande mistério de mim mesmo e percebo a discrepância que fica entre o que sou por dentro (como coisa real, ainda que tudo seja sonho) e meu Eu menor, com o qual me movo neste mundo.

Porque ainda que me veja muitas vezes transcendente, pateticamente profético e que me arvore em poesias e trovas - com as quais assassino a estética e a língua - não ouso mentir a mim mesmo em toda instância e tenho de reconhecer que no mundo ordinário e vulgar, por entre gente ordinária e vulgar, sou igualmente ordinário e vulgar, com desejos e aspirações ordinárias e vulgares.

Um deus tentando controlar os gastos do cartão de crédito...

Ainda está chovendo e vai chover o dia todo.

Chove, está frio e eu aprecio o contraste entre o frio e o calor da caneca de sopa nos meus dedos e que aos poucos espanta o frio das minhas veias... Gosto do contraste de tudo, na verdade, porque no contraste podem bem se confundir o que é pano de fundo do que é tema, a ribalta e a plateia, a personagem e o enredo e por fim, creio que tudo é mais real quanto mais se distingue daquilo que o cerca...

Sentei-me de novo e deliciei-me com a chuva.
Tento gravar na memória a mágica do constante cair da água, porque tempos de seca devem se sobrepor a essa primavera. Me sinto tal qual essa chuva, sem forma e em queda, vazio como minha casa, perdido e preguiçoso demais para fazer esforço de me encontrar.  
Olho para o vazio (o vazio olha de volta) e para o abismo além dele sem temor.


Já sei que por preguiça ou por excesso de dignidade, jamais me ocorrerá atirar-me em seus profundos. Posso, no entanto, ter em perspectiva que um monstro qualquer se chateie o bastante para achar que valha o esforço de ele subir à tona e me arrastar para o fundo.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Poema Breve 2


...Vê, o vento sopra, é sinal de que o céu se inquieta.
Observa-o agitar-se  no léu e deleite a sua alma.
Se bafeja nas velas da sua nau, significa que você será levado para lá,
Para os horizontes vermelhos em que deseja ardentemente se perder.

Se em direção contrária -  posto que o vento é belo porque é livre -
Então para aquela modorrenta calmaria sem ondas,
Você dirá adeus ao vento e horizontes prometidos e estará também livre,
Livre como o viajante sem estradas e como o pássaro aconchegado à gaiola
Livre do desejo de se perder.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

1978, Elis Regina e uma mulher em manhãs de sábado



O ano era 1978.

Eu acho. Não se deve confiar demais na memória de alguém que procura memórias suas aos cinco anos de idade. Há gente que, com efeito, se recorda de lembranças de idade mais tenra ainda, prodígios capazes de voltar no tempo até seus dois ou três anos ou, caso não haja exagero, até mesmo meses de idade ou memórias intrauterinas.

Vai saber...
Lamento informar que não me encontro no rol de tais fenômenos e até o que comi no almoço me é tão indistinto quanto a camisa que usei em 15 de abril de 1993 ou, sei lá, minha adolescência que passou quase como um sopro de sonho. Daí eu ter de advertir que muito provavelmente, minhas memorias de 1978 são muito mais sensoriais (nisso eu posso me gabar de ter uma habilidade notável) do que de fatos concretos.

Eu tinha, pois, cinco anos e já era uma criança bem estranha, para os padrões da minha comunidade.

Muito grave, quase nunca ria e nunca chorava e se o fizesse, era em silêncio, no máximo um murmúrio de protesto sentido. Há que se pensar que eu esteja me vangloriando.... Ledo engano! Eu era uma criança “odiosa”. Os adultos me evitavam. As outras crianças também.  Era quieto demais. Silencioso demais. Adultos gostam de crianças barulhentas e dependentes, que lhes acreditem em todas as contradições e mentiras e que os façam sentir-se necessários e as crianças igualmente gostam de outras que lhes desafiem em jogos ou lhes apoiem as gatagens.

Eu era uma coisa que observava, indagava e aprendia. Por isso enquanto a matilha de irmãos e primos gritava lá fora atrás de cachorros, pipas e encrencas, eu me sentava e olhava pro céu, pras nuvens e pra dentro do meu pequeno e curioso eu.

A exceção, o que me arrancava de dentro da minha introspecção era o meu espetáculo favorito. Minha mãe.

Deus inexistente, como eu amava aquela mulher! 
Ela era linda, ora sofrida, ora alegre e vibrante. 
Aos fins de semana, depois de se matar a semana inteira para alimentar a ninhada, ela se matava para limpar a sujeira que a mesma ninhada fazia em suas ausências da semana.
Ela lavava roupas, limpava a casa, fazia a comida e limpava o terreiro, num ritual que lhe comia o dia todo.

Raramente eu a via, durante o dia, se sentar para comer ou para passar óleo nas pernas e cuidar do cabelo, coisa que ela só fazia durante a noite quando a ninhada já estava dormindo. Minha mãe primeiro cuidava do mundo. Depois cuidava de si. Depois disso, ela se sentava próximo a lamparina (não tinha luz elétrica em alguns bairros de BH nessa época) e se dedicava ao vicio que me legou: ler livros.

O menino estranho e a mulher sozinha a cuidar de seis filhos...

1978...

Minha mãe sempre canta quando está triste. Minha mãe está sempre cantando.

Em 1978 ela estava recém separada do meu pai. História comum em bairro comum de uma cidade comum de um mundo comum: Homem “abandona” mulher com filhos e cai no mundo. Lega a mulher o cuidado com os filhos e vai viver a vida com outra. Minha mãe amava aquele homem inconstante. Até onde eu sei, ele fazia um sucesso inacreditável com a mulherada. Charmoso, bonitão e absolutamente canalha, atributos que bem poderia ter me deixado de herança, já que não me deixou pecúnia.

Oh, aos cinco anos de idade eu amei pela primeira vez e pela primeira vez eu vi como era tolo o coração de uma mulher apaixonada. Minha mãe havia sido traída mais de uma vez. E meu pai ia e voltava uma história pra lá de clichê e não vou aborrecer ninguém com esses detalhes porque é basicamente a história de milhares, senão milhões de famílias...

Minha mãe cantava. Tinha uma radiola antiga a pilhas, onde ela ouvia Benito di Paula, Valdir de Azevedo e Elis Regina.

Elis. Se minha mãe foi meu primeiro amor, Elis foi o segundo.

Naquelas manhãs de sábado em que o sol entrava em casa pelas frestas do telhado desenhando moedas de ouro nas paredes e caindo em raios de poeira levantada pela vassoura da minha mãe, eu a ouvia cantar lá fora.

Na radiola, Elis cantava com minha mãe.
Eu já ouvi todas as músicas de Elis. Ouvi várias vezes e nunca consegui ao certo saber qual era aquela que minha mãe duetava com Elis. Talvez seja porque minha memória de cinco anos é emocional e sensorial. Eu ainda não tinha um arcabouço linguístico elaborado o bastante para saber sobre o que cantavam aquelas duas mulheres lindas. Eu apenas intuía. Eu hoje sou ateu, mas penso que aquelas manhãs de sábado eram momentos religiosos. Havia algo de muito místico naquilo. 

Eu saltava da cama irritado por ter dormido demais e ia lá pra fora, pro sol, pra poeira, pra Elis e pra minha mãe.
Elis cantava como um anjo e como um demônio, como uma amante, como uma assassina...!

Não sei qual era, mas minha mãe repetia tanto aquela música que não sei como o disco de vinil não gastava. E na voz de Elis, embora eu não soubesse e nem saiba a letra, eu ouvia a alegria e a dor, Elis amava naquela música e também odiava. Ela parecia implorar e amaldiçoar. Elis gritava sua angustia e seu deleite de um modo absolutamente mágico e parecia protestar e desafiar seja lá qual o destino lhe arrebatara a pessoa amada.

Era prata, cristal e fogo no ar em forma de música. Eu não entendia como meus irmãos ou qualquer pessoa podia fazer ou olhar ou ouvir qualquer coisa que não fosse aquilo. Era minha mãe, ainda lamentando a perda do “amor de sua vida”, chorando junto a Elis Regina em manhãs de sábado de 1978. Eu não sabia bem como reagir a beleza triste daquilo. Algumas vezes eu desejava poder fazer algo, por que em idade edípica, eu também lamentava do meu pai uma ausência qualquer. Venci meu inimigo pelo coração da mulher que eu amava. 

O que eu não sabia, era que eu amava o meu inimigo vencido e que ao expulsá-lo, fiquei com a mulher, mas o coração dela se foi com ele. Saudades do meu pai morto ainda em vida e de minha mãe, morta como mulher... Coisas que o divã revela...

Eu nada podia fazer, mas ao longo dos anos, sempre que minha mãe estava muito triste, eu permanecia calado ao lado dela, numa solidariedade muda, porque a mim parecia em minha fantasia de criança, que ficando perto eu poderia pegar um pouco daquilo que lhe pesava ao coração, absorver parte da tristeza dela para que ela risse mais, porque minha mãe chorando com Elis Regina era uma primavera, mas rindo, ela era as quatro estações e mais algumas.

Foi uma verdadeira lástima que minha mãe, assim como muita gente ao longo do meu caminhar, não compreendesse bem meu modo sutil de amar e de viver. Nunca entendeu o filho calado e profundo e embora ela tentasse muito, nunca conseguiu gostar dele ou o amar como pessoa.

Não me levem a mal (levem-me para Pasárgada!). Eu lhes asseguro que amor de mãe é coisa inútil para mim. Segundo dizem, se uma mãe tiver doze filhos, 11 psicopatas sádicos e um virtuoso, há de amar igualmente aos 12. Então qual o mérito do filho virtuoso no que tange ao amor de sua mãe?

Esse amor ideal de mãe, que tudo suporta, que tudo aceita e blá blá blá.... Isso nunca me interessou de modo que embora ela tenha sido excelente e ido além de suas forças ao cuidar de mim, não chego a lamentar que ela não me tenha amado como um filho. Eu já vi o que os filhos fazem as mães e como o amor por eles é pesado para elas. Todas essas besteiras que li no dia das mães, sobre esse ideário de amor quase transcendental, mãe que ama incondicionalmente, que tudo suporta, como se fosse realmente um martírio qualquer abrir o útero para uma criança, sofrer no parísio; ideário que talvez venha do mito de Maria mãe de Jesus, isso tudo me deixa nauseado, por que parece negar a uma mulher, uma vez sendo mãe, a humanidade própria.

Mães não podem odiar, não podem se permitir uma canalhice, mães não tem orgasmos (supostamente a concepção de filhos deve ser “pura”), momentos de fraqueza ou força, mães estão condenadas à santidade em vida e não são absolutamente, mulheres. 
Pobres mães...

Ah, eu amava aquela mulher que chorava o amor perdido enquanto colocava lençóis azulados de anil na grama para quarar ao som absolutamente mágico da voz incrível de Elis Regina. Amava a força esmagadora dela ao enfrentar o mundo, ao levantar de madrugada no escuro para arrancar sozinha do mundo o com que alimentar os filhos; suportando bravamente enquanto o ser mãe ia lentamente minando o ser mulher dela.

Muita chuva e vento e verões transcorreram desde 1978.


Morreu Elis, morreu meu pai, morreu a mulher que cantava com Elis e chorava pelo meu pai. 

Ficou a mãe, que me olha com olhos gentis, vasculha no fundo da alma algum amor que possa dar ao filho estranho tão “indiferente” e diferente dos outros filhos e pergunta como vou indo, nas raras vezes em que nos vemos. Abraço-lhe o corpo ossudo, os ombros cansados e sinto raiva de mim mesmo por ser seu filho e assim como os outros filhos, ter arrancado dela tanto que não posso devolver. 

Quase como se eu tivesse entrado no Louvre e, extasiado de amor, tivesse arruinado a Mona Lisa...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

We are from...


Mulheres (e derivativos) são de Vênus.
Homens (e adjacentes) são de Marte.
Já eu e minhas contradições somos de algum lugar em Plutão (que ora é planeta ora não é, mas segue girando indiferente as indiferenças alheias)

Como diabos viemos todos parar no quintal da terra?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esquina



Eu sou o que não sou. E frequentemente, consigo não ser o que sou com maior zelo do que o ser.
E sendo, não posso ser outra coisa que não esta dialética e esse cio entre o ser e o não ser.

Os meus sentidos um dia talvez – não sei por qual sortilégio – venham a calar
E eu, com outras percepções, de outros modos venha a saber
Que na vida não tenho amado senão a fantasmas vivos
Sendo eu próprio e este espelho,
E estas rugas e estes olhos no espelho que me fitam com rancor,
Um fantasma do amor que deixei de legar a mim mesmo
Enquanto amava fantasmas vivos...

Penso que eu realmente deveria fumar estes cigarros
Que deixo arderem como incenso no cinzeiro apenas por gostar do cheiro de decadência
Da fumaça que se desprende da seda e dança até o teto.

Penso que eu realmente deveria parar de emprestar livros e sonhos.
As pessoas nunca os devolvem e eu me encontro pelos corredores desprovido de tudo,
Com a estante e a cabeça repletas de fantasmas literários e oníricos.
Um vazio paradoxalmente repleto de ausências.

Se eu virasse agora aquela esquina onde há um minuto
Garotos barulhentos perseguiam um cão vadio,
E pegasse depois de umas curvas e algumas esquinas outras, um caminho para o deserto,
Talvez perdesse essa sensação de alheamento
Com essa casa e este espelho,
Com esse silêncio barulhento em meu sangue
E essas gargalhadas que vem não sei de onde, 
E essa gente lá fora e essa inquietação aqui dentro
E esse desespero branco e essa preguiça tardia e esse cansaço que me corrói as horas
E as entranhas...


Há grandes questões no mundo,
Guerras e estrelas a explodir e a nascer nos remotos do céu e da terra.
Ali é só uma esquina mal iluminada.
Deus e o Diabo devem estar neste momento ocupadíssimos;
Em batalha pala alma de algum santo, decidindo o destino de uma nação,  envolvidos demais nas importâncias do mundo,
Para olharem para uma simples esquina.
Se eu virar ali sem que vejam, escapo para sempre das grandes questões!
Da metafísica!
Pensando nisso, deitei escadas abaixo o meu corpo em fuga dos meus pensamentos, antes mesmo de pensar no absurdo de empreender tal fuga.


Mas antes de virar a esquina, eis que me antagoniza um vagabundo.

Era um vagabundo parado entre eu e a esquina, olhando-me em desafio.
Talvez me confundisse sabe-se lá com que objeto do seu mal querer, mas era um vadio.
Chamo-o assim, porque o odeio.
Insulto-o porque o invejo.
Está ali, sem camisas e sem pudores, exibindo o torso nu no azul da tarde.
Gozando, por entre os rotos que parcamente lhe cobrem as partes, o estômago semi-vazio e a imundice de sua pele,
 A gloria de não ser eu.

Que direito esse maldito tem de não ser eu?
Que direito tem de estar ali fora das grandes questões do universo
E de ser peça ausente do xadrez de Deus e do Diabo?
Odiei-o! Odiei-o pela sua liberdade de não ser eu...
E por impor, como baluarte, sua liberdade entre mim e a esquina por onde eu fugiria.

Avaliei a coisa pela matemática enquanto retribuía o desafio.
Os números me desfavoreciam...
Era vinte quilos mais pesado, vinte centímetros mais alto e vinte anos mais jovem do que eu.
Levava na cara atrevida  e nas unhas sujas a malicia das ruas que em tempo e por entre  feras irmãs aprendera,
E que meus diplomas e leituras e noites em claro jamais me ensinariam.
Como ser fera livre.
Levava nos olhos a leveza da vadiagem desprovida de tudo.

Ele me bateria, estou certo e isso me fazia estar feliz com a felicidade dos desgraçados.
Pois por vezes um soco a esmagar as bochechas e dentes e ossos – é tanta vida a se desprender de um gesto – aquece a alma tal qual um beijo apaixonado.
Havia muito eu não sabia o que eram ambas essas coisas.

E por tudo o que estava em meu desfavor, decidi que definitivamente o atacaria.
E por deus, se não desembargasse aquela esquina, eu o reduziria a cinzas!

Que espetáculo seria!
A minha respeitabilidade engalfinhada com a livre mendicância dele!

Sim, era eu e era ele que não era eu e lutaríamos!
Tal era o meu ódio que, tinha certeza,  o esmagaria contra a sarjeta onde mendigava o seu pão.

Mas antes que eu travasse peleja mortal, uma nuvem cruza o céu e Deus e o Diabo olham.
Eis que passa um carro e um homem atira uma moeda,
E meu inimigo, rapidamente esquecido de mim, corre por entre os carros, arrisca a vida
A cata de uma moeda de pouco valor.
Li em seus olhos o desespero para buscá-la  e ao que ela traria e apiedando-me dele, amei-o.
A fúria que me animava os músculos se esvaiu.
Oh, homem desgraçado! É meu irmão!
Ele cata moedas por entre carros e eu  metafísicas  nas vilezas da vida.
Não é melhor do que eu, apenas tem amos em menor número.
É tão rico de necessitar de tão pouco, que nem me permite odiá-lo.

De volta ao meu quarto e muito depois, passado o meu sonho de mutuo extermínio,  lamento em silêncio o olhar de Deus e do Diabo
Para aquela esquina onde um homem agora dormia sobre trapos
Em sono menos perturbado do que eu em sedas e travesseiros a lavanda.
Ele só quer pão e álcool e eu quero o impossível não querer, mas...
Espera...!

Há aqui nesta mesa pão em demasia, repleto de bolor.
A metafísica não me permite comer.
Há aqui neste armário e sob esta cômoda, vinho mais velho do que meu cansaço.
A moral não me permite beber.

Do que ele necessita, o pão para saciar o corpo, o álcool para acalmar a alma,
Tenho em abundância, sem no entanto ter calma e sem saciedade.
Deveria ter arrebatado-lhe a moeda como me furtou a fuga!
Por que necessitaria de algo mais do que já tinha?
Era livre! Não era eu...

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ultimo Post




Este é o meu quarto  blog. Os outros três implodi pelo mesmo motivo: 
Passado algum tempo, comecei  a me preocupar  em demasia com a qualidade estética daquilo que escrevia, procurando a forma em detrimento do conteúdo e ficando reptilicamente envaidecido pelos elogios que as coisas que escrevi recebiam. Fiquei excessivamente cordial. Curiosamente, era justamente aquilo que eu considerava o mais superficial e óbvio dentre o que eu escrevia a  agradar. Então envergonhei-me, senti-me  alienígena daquilo tudo e abandonando as cascas anteriores, iniciei este meu Psicodellias em 06/01/2011.
 http://sahgelk.blogspot.com.br/2011/01/primeiro-post-by-sahge.html  

Para a minha surpresa,  passados inacreditáveis vinte meses, ainda não explodi este. Mas ele anda correndo um serio risco.

É que os primeiros três tive de destruir quando entendi que eles começaram a ter um propósito e como sou partidário do Caos, penso que as coisas que realmente  merecem a existência são justamente aquelas que não têm  ou não servem a propósito algum ou a ninguém.  
E agora, com as sutis raias da minha cada vez mais esmaecida capacidade de reflexão, entendo que este blog está servindo a um propósito.

O propósito é encontrar você.
Ou ser encontrado. Dá no mesmo. Fazendo a equação de modo contrario, realmente  o caos dos fatores não altera o resultado.
Já me perdoei por isso. Não foi nunca a minha intenção. Um propósito freqüentemente não se revela para mim até que eu o veja delineado em algum subterfúgio ou comportamento meu. E eu percebo, por muito e por pouco que escrevo nos últimos tempos  quase como se falasse a alguém. Agora o “quase” me abandonou e estou sob o julgo desta certeza.

Eu falo a Você.

E também estou subjugado por  outra ainda mais pesada, a certeza de que nossos caminhos provavelmente não vão se  (re)encontrar e você se sentirá órfão de mim quando passar por aqui e eu já estiver  longe quanto eu sinto agora o peso da sua falta. Da falta daquilo que eu não tive e provavelmente não terei.Sim, eu snto falta do que não tive. E você também...

Ou eventualmente nossos caminhos se cruzam  e você ou eu fugiremos apavorados ou não nos reconheceremos. Os nossos encontros serão sempre tardios ou prematuros. Parece ser a nossa sina e eu espero sinceramente que os que vierem após este nosso tempo de desencontros, encontrem um meio mais eficaz de permanecerem juntos. Daí teremos realmente uma tribo de Eus e não um amontoado de indistinto “nós”. É um plano ambicioso, uma (re)união de Eus e me revolta até a raiz da alma pensar que provavelmente não estarei por perto quando tal se concretizar.

Eu escrevo sobre o nada, mas não escrevo para o nada. Eu escrevo para você, que é um “Eu“ anacrônico, que percebe que está numa situação de singular contrariedade com os muitos meios em que vive. Você que é sutil em sua peculiar condição de ser pensante, inquieto. Você que incomoda os acomodados com a sua existência intensa. Você que mesmo que queira, não pode ser ignorado. Você que deixa sua consciência flutuar no zumbido da própria consciência e pondera porque não pode realmente viver um instante dentro do tempo, enquanto a sua volta fala-se, vive-se e morre-se em banalidades... Você...O mundo tem batido forte, não é? O Mundo tem sido implacável...

Bem há um sistema, e a homeostase diz que o sistema tem que permanecer em seu equilíbrio estagnado e você, meu caro, você é a doença do sistema. E ele quer te combater e te enquadrar. Eu o cumprimento por isso! Você é da minha tribo.

Você já não teme jogar pedras nas muitas cruzes onde querem pendurar o seu ser. Você sofre e ao mesmo tempo ama e se agarra às suas contradições, ás suas imposturas e o modo magnífico que você abandona falsas idéias e ideais com a mesma facilidade com que os outros trocam de namorados ou celulares.

Você não tem. Você não está. Você É.

E ninguém, e receio dizer, nem mesmo você, pode te tirar isso.

Você flui. Você não pode fugir desse enxame de inquietações e de pensamentos.
De  imediato te presenteio com mais um, que talvez melhore suas poucas horas de sono conturbado:
Abandone a paixão por essa sua dor constante de pensar que você é o único da sua espécie. Não é. Existem vários  dessa nossa tribo esparsa (eu mesmo já conheci alguns, mas penso que talvez  tenhamos virado curvas demais para longe uns dos outros), mas nós...

Nós nos evitamos, olhamo-nos com desconfiança quando nos percebemos, nós nos tememos mutuamente, nós não sabemos o que querer um do outro (até porque é o inferno que queiram algo de nós). Encontrando-nos, sentimos perto, um do outro, renovar a coragem para ser um Eu, e isso ocorre quando estamos quase e finalmente nos rendendo a doutrinação do coletivo.

Nós não podemos ficar unidos porque o aço afia o aço e quanto mais perto de um Eu você estiver, mais um Eu você será e lá no fundo, bem lá no fundo de você há o vil, inconfesso e repugnante desejo de ser “nós”, de se render ao coletivo , de se fundir a massa que divide em ombros desprovidos de singularidade a pesada carga de ser humano.

É, talvez, o nosso desejo mais recôndito, contra o qual nos rebelamos e eu o confesso sem pudor algum porque  talvez por já me considerar velho demais para a teatralidade da negativa obstinada, ou talvez por ter a clara consciência de que se fosse dada a oportunidade, nenhum de nós da Tribo, nem eu, nem você, nem nenhum outro Eu aceitaria.  Seria a morte em vida. E queremos viver vivos!

Daí um dia você passará por aqui e eu talvez já esteja  alhures.
Acontece com uma freqüência  desconcertante, quase como se nós, que somos anomalias ambulantes, tivéssemos em nosso caos organizado, uma ordem caótica a ser seguida.

Espero que não. Gostaria mesmo de conhecê-lo.  Caso não ocorra, caso o mundo me arraste como arrastou a tantos outros... Eu lamento muitíssimo, porque conheço a sensação que você está experimentando agora.

É sem pretensão que as coisas ocorrem. Ainda tenho alguma lenha a queimar e gosto de escrever muito mais do que sei fazê-lo. Então este talvez não seja o meu ultimo post, como o titulo sugere.  Não planejo sumir por ora. Conheço-me o bastante e daqui a uma hora ou um dia, cismo, volto aqui e posto outra coisa, mas como quase tudo o me acontece, ocorre a revelia da minha vontade, então é possível que eu saia por um minuto para comprar pão e... Bem, digamos que o Nada tem fome e gente como nós é seu prato predileto. Cuidado com o Nada meu caro!

Deixe um legado.
Deixe uma trilha que outros possam seguir. Deixe que alguém se reconheça naquilo que você é. 

É a nossa maneira de nos reproduzir. É uma produção assexuada, de modo que ainda que você não tenha os meus genes, se o seu despertar se iniciar ao ler qualquer uma das minhas linhas, se você cruzar a porta movido por qualquer coisa que eu tenha dito, então você é meu/minha filho (a), pai, mãe, irmão ou irmã e mesmo sabendo que você um dia me odiará por ter tirado você do seu lugar de conforto,  mesmo sabendo que talvez eu nunca te (re)conheça, precisa saber que eu sei quem você é. E há outros que sabem. Só tem de nos encontrar.

Agora eu vou ali e já volto.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um Sopro em Minha Estupides




É uma situação desconfortável.
Saber tanto sobre o quão pouco se sabe sobre tudo.  A maioria das pessoas não sabe disso. A maioria das pessoas tem uma sorte danada. Receio que eu não esteja incluído no grupo dos afortunados ignorantes da própria ignorância. A maioria das pessoas é sabia. Eu sou, penso em meu errôneo pensar,  de uma estupidez atroz, tão mais aguda quanto mais ciente dela estou.

Mas tem momentos em que eu quase chego a me esquecer de me lembrar do quanto sou tolo. Tem momentos em que posso sem constrangimento dizer, “Foda-se!”, que é expressão grosseira, mas catarticamente a mais perfeita.
Infelizmente, são momentos bem raros.

Porém, tive um momento meio...místico esta tarde.
Estava sentado num velho e gasto banco de concreto bem de frente para um pequeno  bosque (se posso chamar assim, porque na verdade, trata-se de um jardim com algumas árvores que me agrada pelo seu aspecto meio selvagem) que há onde eu trabalho.  A tarde estava ensolarada e ventava o maravilhoso bafo de agosto. Sei lá como, mas consegui por um momento não pensar em coisa alguma. Nem percebi que estava (ou não estava) pensando em nada quando o vento soprou pelas arvores e uma chuva de folhas secas flutuou em diagonal até o chão do “bosque”. Parecia um instante em câmera lenta e eu acompanhei a queda das folhas até o chão como que hipnotizado. Era agosto (mês de desgosto, de cachorro louco e de ventania) agonizando e enchendo o ar de beleza com seus últimos suspiros.

Foi só então que, alucinando ou não, percebi que por um minuto deixei de ser extemporâneo, desconectei das lembranças do passado e das angustias do futuro e existi dentro daquele exato momento em que vivi  a queda das folhas. Foi bastante estranho  (bonito, reconfortante como uma boa noite de sono, mas estranho) e como na ultima postagem eu disse ( lembrando de uma fala ótima do filme ”V de Vingança”) que Deus(a) está no vento, talvez seja Ele(a) brincando com a minha descrença (como se fosse escolha minha acreditar ou não...) dando uma pequena mostra de sua existência.

 Se foi assim, gostei, especialmente pelo fato de ser (em teoria) uma prova de que Ele(a), caso exista,  ao contrario dos que dizem adorá-lo(a), tem senso de humor.

Lembrei-me de uma conversa antiga com uma grande amiga, uma dessas pessoas maravilhosas que a vida nos arranca de um modo ou de outro (como o vento arranca folhas das árvores), que me disse:
“Quem quer buscar a Deus, na maioria das vezes, deve-se afastar das religiões. O pensamento deve desligar-se dos preceitos acanhados; deve rejeitar as formas grosseiras e irrefletidas que as religiões envolveram o supremo ideal.”

 “Deve estudar Deus na majestade de suas obras”.

Era uma pessoa de grande fé, coisa de que ainda sou incapaz, mas hoje compreendi um pouco mais do que ela queria dizer. Eu acho.

E acho que implico demais com Deus(a). 
E na possibilidade de Ele(a) existir, dá o troco do seu modo.

Eu também tenho senso de humor , mas embora tenha apreciado muito  aquele momento, ainda preferia um desfile de anjos na Praça Sete  ao meio dia ou então que a Pampulha se dividisse ao meio mostrando o  leito normalmente  elameado  limpo e coberto por Maná.
Mas acho que isso seria esperar demais.

 Então, partindo do principio de que (segundo dizem), para Ele(a) tudo é possível, possível é que  nas horas de ócio em que não está distribuindo pragas ou bênçãos para a humanidade (segundo dizem 2), tire algum tempo para ler blogs obscuros.

Nesse caso Deus(a),  caso passe por aqui, saiba que agradeço pelo momento mágico da tarde de sol e vento, pela paralisia do tempo na queda das folhas e pelo instante de silêncio que me proporcionou; e se possível (já que para si tudo o é), gostaria de pedir  que me concedesse a graça de poder ficar inconsciente desse tanto que sei sobre o que não sei, ignorante da minha ignorância e não tão certo da minha própria estupidez.. Faça-o por capricho, por compaixão ou por misericórdia (a mim não interessa tanto o atributo quanto o resultado), mas faça. 
Ser-lhe-ia muito agradecido...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Príncipes Universais em Lascaux




Você é uma montanha a ser conquistada?
Tem uma montanha perto da minha casa. Bem...Na verdade, não é bem uma montanha (não para os padrões mineiros).
Trata-se de um morro próximo (bem íngreme)  de forma cônica levemente lembrando aqueles desenhos estilizados de montanha,  que na minha infância  minha imaginação atribuía as proporções de um verdadeiro Himalaia.

Passei meus primeiros anos querendo subir lá, sem permissão e para a minha tragédia, eu era o tipo de garoto "obediota" e bem comportado. Não me admira que eu não fosse muito popular entre os outros garotos...E eu nunca subi a tal "montanha". 
Já fazia um bom tempo que eu sequer olhava para lá. Hoje, mais cedo, parei de digitar isso por um tempo e fui à janela. Ainda é um morro de proporção considerável, mas de modo algum lembra aquele simulacro de kilomanjaro, que minha pouca idade ansiava por conquistar.

Engraçado como o tempo parece privar as coisas de sua imponência....Quando eu era garoto e passava horas a fio olhando para lá era um espetáculo: Coberta com uma vegetação rasteira, algumas árvores  miúdas, grama verdinha...Ah e lá  ventava sempre o sol chegava mais cedo e se punha mais tarde ( e se Deus{a} existe, deve morar no vento e no sol!).
O topo parecia estar sempre iluminado e era delicioso  imaginar-me lá no alto dela, sentado como o rei do mundo...
Agora está cheio de casas e tem uma antena de operadora de celular no topo. E embora eu tenha passado a infância sonhando e eu levasse talvez menos de quinze minutos para chegar lá, nem um eco daquele anseio por subir até o alto daquele morro eu sinto.
Comecei com estes devaneios  da  minha infância  para falar sobre o anseio humano por desbravar  florestas ou escalar montanhas, internas, externas, psicológicas, espirituais, morais, filosóficas, físicas e metafísicas. Penso que  todo mundo gosta inconscientemente da sensação quase mágica de ser o primeiro a pisar num chão, vencer um desafio, romper uma resistência, ganhar uma peleja, um debate.

Ser o primeiro, um príncipe do universo.

 Neil Armstrong foi bastante polido e político em sua fala, mas não foi muito  honesto: Ser o primeiro a pisar na Lua, foi um salto inacreditável para aquele homem! Ao restante da humanidade coube o pequeno passo e o incômodo papel de  coadjuvante (contra o que rebela-se toda a nossa vaidade).

Ou como me afirmou um garoto religioso outro dia “somos todos príncipes universais”. Na minha atual queda para o existencialismo, tenho de “concordar” com ele (embora não veja vantagem alguma em ser um "príncipe" num universo onde supostamente todo mundo o é), porque se existe uma força maior que impera sobre o coração do homem, é a ilusão mal disfarçada de ser um “herói cósmico”. O primeiro e mais importante ente a ser considerado pelo universo (razão pela qual já não tenho impulsos de conquistar aquele morro, porque agora mesmo tem uns moleques lá no alto).

"Príncipes do universo". Por muito que tenho visto, sou levado a pensar que todos os seres humanos se vêem assim, embora disfarcem esse sentimento megalomaníaco por detrás de uma tonelada de recursos ideológicos, dentre os quais o mais bonito, comovente e mentiroso é a humildade.
Temos de justificar para o universo a nossa existência. De um modo ou de outro.  É o que nos move e é a nossa maneira de vencer a morte. E é para isso que criamos os deuses: Para sermos através deles, nós mesmos, eternos, incorruptíveis,  mais importantes do que as estrelas gigantescas ou as milhões de galáxias criadas por Eles, que foram ciados por nós.

Acho que pior do que arrogância é a falsa humildade e, ah...Como somos habilidosos em fingir que somos humildes quando isso contraria toda a nossa natureza!



E eu fico aqui, tendo movimentos peristálticos, produzindo gametas, desenvolvendo (possíveis e ignorados) tumores que dia desses darão cabo da minha raça e ainda me imaginando o ser mais importante para os deuses, motivo de rivalidade entre eles e ator principal da tragicomédia do Universo.
O problema é que parece que TEMOS de funcionar assim ou enlouqueceremos por termos de encarar a nossa finitude e efemeridade. A desimportância da nossa existência e a falta do significado para a mesma é peso demais para nós.
Fugindo e voltando ao assunto:Você por acaso é uma montanha?
Bem, se for o tipo de pessoa que declara abertamente as suas dúvidas em relação à própria situação de primícia universal do homem, vai se tornar uma montanha a ser conquistada por qualquer um que se sinta ameaçado em sua posição de “príncipe universal” pelo seu raciocínio.


Você é também um daqueles estraga o natal contando as criancinhas que Papai Noel não existe? Saiba que você tem irmãos no mundo, meu amigo. Eu não o conheço, mas já gosto de você!

 Todo mundo tem um amigo nervosinho com quem os outros gostam de implicar, porque é divertido vê-lo irritado. Bem, se você não exatamente o tipo nervoso, mas sofrer de uma fibromialgia intelectual , então o princípio é o mesmo.  Eles têm que deslegitimar as suas dúvidas, porque elas os ameaçam de algum modo.Elas poem em xeque as certezas deles, das quais consciente e inconscientemente duvidam.

E se existem montanhas inalcançáveis, sempre vai ter alguém disposto a arriscar a vida (em ambos os casos, literalmente), para ser o primeiro a conquistá-la.

Você é uma montanha a ser demolida e reduzida às proporções de um morro ou uma colina. Você tem de ser vencido, conquistado, abatido sem piedade e o primeiro a conseguir fazer isso se sentirá um herói. Se fosse possível, moral e legalmente, é provável que empalharia a sua cabeça e a colocaria como um adereço numa parede, diante do qual contaria as vantagens da vitória sobre si.

Como a lei proíbe, o recurso mas usual é te converter em qualquer coisa que não seja você mesmo e se necessário, deixar por modos subjetivos, escrito em sua mente a seguinte frase imortalizante que podemos encontrar em árvores em meio a florestas ou nos parques: “Fulano esteve aqui”!

Nossos antepassados  em Lascaux (os mais antigos e famosos grafiteiros da história) sabiam disso .
É, ao que parece, outro jeito de se imortalizar.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O Signo do Corvo



Há humanos que se pensam deuses, feras  que se pensam homens e divindades de carne e sangue, que  se sentem menores e mais ínfimos que os primeiros.

Por vezes antílopes sonham serem leões a devorar os próprios irmãos.
Por vezes os deuses erram e a esses erros, chamamos “humanidade”.
É uma massa estranha, com erros sobrepondo-se a enganos, imiscuindo- se, disfarçados de certezas.

E eis a única certeza possível:
Hás de morrer, criança,  e com o substrato da tua decadência alimentarás a terra  e, por um tempo,  também a saudade daqueles que lamentando a tua sorte, fingirão não estarem sob o julgo da mesma sina .

Dar-te-ão guirlandas, a erva da terra por teto e o nome no mármore ou uma moeda para que pagues ao barqueiro do Estige, e apiedando- se de ti com velas e orações, esquecer-te-ão, pois dali em diante a dor da tua ausência será a constante lembrança de suas próprias finitudes.

Deixa-os brincar de eternidade e de incorrupção enquanto os cabelos se lhes tornam brancos e a poeira do tempo lhes enevoa os ombros.
Deves perdoá-los, para o teu bem.
É coisa pequena que te esqueçam.
Que importa se olvidam de ti, se tanto e com mais freqüência, esquecem a si mesmos para perscrutar o céu a cata de presságios?

E a terra lamenta uma ausência tanto quanto a mata lamenta a folha que cai ou  o perdulário chora  o centavo perdido.
Mas a noite escura se apieda de todos os que têm a coragem necessária
Para admitir que a teme.

Abraçá-la-á a negra terra e terás repouso, então, é tolice  ir-se aos prantos ao seio que recebeu  os teus antes de ti e que receberá a teus filhos e os filhos destes.
Deixasses pedaços de pão para encontrar o caminho de casa, os pássaros os comeriam e ainda estarias perdida.

O esmo é a direção que deves tomar, a única vereda digna dos teus passos.
Alegra-te por estares perdida, criança!
Apenas o que o sabem podem orientar os próprios caminhos.

Então, se lhe aprouver hoje adornar-te com esta tristeza,
Ora, que sejas linda e triste como a lua de outono,
Mas ergue-te amanhã, poderosa e inclemente, 
Como o mais rubro e implacável  sol de verão.
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