domingo, 3 de fevereiro de 2013

Devaneios Em Noite de Chuva e Devaneios




Está chovendo a cântaros por aqui...
Se existir um deus da chuva, devo lhe dizer que sou grato por esses  dilúvios- lágrimas-do-céu que aquietam um pouco o mundo e no processo, lavam as calçadas imundas de Belo Horizonte que só nessa época chuvosa ficam realmente limpas. Acender-lhe-ia uma vela, se eu não fosse um maldito cético-incrédulo-infiel-ateu (cansei de dizer que sou agnóstico e ter de ficar explicando a diferença, então, dane-se!) e além do mais, só tenho uma vela em casa e a energia costuma faltar em noites de chuva, então não vou desperdiçá-la num ritual sem fé.
Vai ter de bastar um cordial “muito obrigado”.

Tem essas horas que o mundo realmente encolhe (como em agradáveis e insones noites  de chuva) e então, tenho uma ilusória sensação de conforto, como se as asas do mundo se fechassem em torno de mim, como num abraço...

Mas não são asas e sim tentáculos e o mundo não abraça afavelmente, ele estrangula impiedosamente.

E tem também essa...Coisa.
Esse sentimento de estar na iminência da percepção de algo novo e revelador, como um conhecimento íntimo de qualquer coisa que não se apresenta claramente à consciência, mas esgueira-se como um fantasma furtivo a nos observar no canto da visão periférica, e que desaparece caso o olhamos diretamente. E é coisa bastante  irritante esse saber-sem-saber e acabar descobrindo algo por intuição, depois de quase uma vida pensando e meditando sobre o assunto.

Isso, mais o silêncio por debaixo do telhado, por debaixo da chuva, por debaixo do céu, por debaixo de tudo, encharca o espírito de uma melancolia fria, tanto ou mais que as sarjetas lá fora estão encharcadas de água. Então toda a minha capacidade de abstração desaparece e fico refém dos sentidos, vivendo trôpego como num sonho embriagado.

Acho que nos últimos anos acabei ficando muito tempo andando em ruínas. E apenas quando lá não encontrei, tive noção de que buscava algo, que não encontrei onde o buscava sem saber.
Ou então encontrava vestígios, rotos de presença, fiapos de um “quase” alguém aqui e ali, mas no fim, no meio da multidão não havia ninguém.

Toda vez que penso ter encontrado alguém, que na falta de uma definição mais precisa tenho de chamar de “meu povo”, esse alguém já se foi; está morto ou alhures ou não é do Meu Povo, mas apenas um suposto, filho do meu desejo de que este suposto seja alguém do Meu Povo.
Ou então esse Eu foi engolido pelo mundo e rendeu-se ao desejo/desespero de ser aceito e mergulhou na inconsciência da massa fingindo não ser uma Pessoa, tornando-se Nós, mas por esses últimos, compreendo, mas não me permito lamentar.

Então o mundo para onde tenho olhado a cata de outro Eu, me parece ser uma sucessão de casas vazias, de lugares vazios por onde alguém passou e deixou marcas. E tudo que escuto são ecos muito longínquos desses outros, sorrisos congelados em fotografias, olhos que já não estão ali a olhar para o vazio,  pegadas quase cobertas pela poeira nas ruínas que rondo como um espectro.

Mas pegadas não são tão profundas quanto os pés que as gravaram e nem os ecos são realmente vozes e nem o suposto de alguém é alguém e nem quem deseja se perder na multidão merece ser encontrado.
E fico pensando se não estou eternamente passageiro parado na estação a espera de um trem que já passou e levou todos os meus embora...

Tinha alguém ali na esquina, mas virou à esquerda do mundo enquanto eu me distraí olhando as horas e acabei virando à direita.
Estou sempre e miseravelmente atrasado para tudo...

É uma sorte estranha ser um quase extinto, ultimo de uma espécie em vias de desaparecer, indivíduo que, por sua estranheza, exerce sobre a casta dominante um fascínio que tem um misto de repulsa e atração, admiração disfarçada de desdém e menosprezo mascarado de compaixão. Isso tudo enche-me de tédio e sono, mas curiosamente não consigo dormir.

É possível que no fim das contas, façamos amor e guerra pelo mesmo motivo:
Falta de espaço.
Precisamos mesmo ocupar os espaços internos dos outros já que os nossos a nós não bastam.

Talvez seja hora conveniente para ampliar minhas fronteiras internas mais para dentro, já que aparentemente o mundo encolheu demais para fora e já não há (se é que um dia houve) espaço algum para ser.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...