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sábado, 15 de abril de 2023

Hiflosigkeit








Bem ao fundo, onde você se funda

Nas bases íntimas do seu eu,

Naquela noite eterna e cintilada de estrelas por detrás das suas pálpebras

Lá, na escuridão púrpura, pontilhada por luzes distantes, 

Nas raízes primárias de onde voce ergueu;

 

Esse sorriso fácil, mentiroso e gentil,

E esse sarcasmo 

E esse senso de humor duvidoso…

E essa formalidade elegante com a qual despacha, preenche certidões e mandados…

E essa afetação educada nos cumprimentos a toda a gente…

E esse olhar astuto a negociar preços e taxas menores de juros…

E esse ar preocupado e solene ao ler as notícias dos desvairos do mundo…

E esse suspiro sonhador e perdido ao se deliciar por manter para si um segredo doce…

E esse aborrecimento tardio ao descobrir aqui e ali sinais de selinidade…

E essa vaidade tola pela adulação ao suposto da sua erudição…

E a eterna postergação para tomar decisões perfeitamente adiáveis…



Abaixo, dentro e por detrás de tudo isso;



Que há nos recônditos interiores de si, meu pobre Luiz, criatura confusa e erma de si mesma?

Há um herege blasfemando sacrilégios para o nada ?

Um crente fiel e fervoroso a oferecer culto e súplicas às estrelas?

Um monge? Um louco?

No seu interior há um menino perdido e desamparado a clamar pelo pai?

Há um romântico abandonado chorando eternamente a perda da alma amada?

Há uma fera raivosa e sedenta a uivar sua fúria para a lua?

Ou uma ave canora e cantante a entoar louvores ao sol?



No fundo e no fim, é tão somente um poeta do desamparo, 

Teimosamente  forjando no fogo brilhante do que é belo a luz do dia

Odes e trovas sobre sussurros noturnos, 

Sobre temas falados nas sombras por onde se esgueiram duendes e sonhos ruins.

E enquanto a vida corre, o dia arde, o verde toma conta da paisagem, 

Você espera pelo cair da noite para se sentir pleno…

Colhendo bouquets de espinhos em jardins floridos…

Alguem lhe nomeou embaixador e porta voz da dor?

Ou lhe designou arauto a falar pelo silêncio?

Ou é simplesmente uma inclinação natural e, portanto, bela, à escuridão?



Mas olha; enquanto voce passa a salada para a pessoa ao lado

E comenta desinteressado sobre o tempo com a pessoa da frente

e se distrai com uma brisa no rosto, súbita e ignorada por todos os convivas

O relógio do tempo ainda corre na mesma direção

E o dia se sucede a noite bem como a noite ao dia.

A marcha da vida não se interrompe,

Enquanto voce oculta a alma atrás do crachá, do número do RG 

E se pergunta se o sapato combina com o cinto…




terça-feira, 28 de março de 2023

Ao Menino Manco Diante de Quem Fechou-se a Porta No Monte Kolppenberg




Nasci ao mundo, terra estranha, para nele estar estrangeiro, talvez em papel mais confortável, do que o anterior, de apátrida na minha terra natal.

E nessa, que era então uma terra de espinhos morais, por um longo tempo caminhei com alma e pés descalços.

Mas agora, caminho por palácios gigantes de concreto e vidro e aço polido e percorro os salões enormes, onde homens tambem polidos, duros como concreto  e com corações de aço, que veem a si como gigantes, sentam-se em tronos outorgados e decidem o destino de muitos.

Nesta seara igualmente espinhosa, eu caminho no piso de mármore frio, ressoando com meu  pisar o  do som dos passos de muita gente em pressa.

Nos pés levo sapatos que custam o salário de um trabalhador e na alma, a certeza de estar vivendo em vão.

Desgostoso, deixo a mente escorregar, deslizo para os reinos da memória e me lembro...

Foi me dito que no início, Deus criou o céu e a terra e então, dentre tudo isso, dedicou especial atenção em meio a ordem criada, ao que seria  o meu quinhão de caos e de dor.

Destinaram-me a uma vida servil, de costas e cabeça curvadas, mãos e alma embrutecidas a lavrar do solo o sempre insuficiente pão.

Deram-me na saída, aspirações subalternistas com que me distrair nos momentos de folga  e me estenderam a garrafa onde, por sonhos etílicos, no esquecimento da minha miséria, também desapareceria nas minhas alienações do eu, a consciência da dureza da minha servidão destinada.

Apontaram-me altares vazios diante dos quais eu deveria me curvar e oferecer com fé orações que seriam frequentemente ignoradas. Mostraram-me deuses indiferentes ou surdos, aos quais eu deveria oferecer lágrimas e súplicas e paradoxalmente os temer e os amar.

E, nos arremates da minha sina, entre os atos de nascer sozinho  e morrer violentamente,  existiria um hiato de tempo em que meu corpo serviria ao conforto dos que seriam os eleitos à grandeza e seria para mim o palco do espetáculo amargo das minhas dores e do meu desamor.

Algo, no entanto, falhou e eu me tornei ainda mais miserável, estando o tempo todo dolorosamente consciente de mim mesmo e do que poderia ser o meu destino.

Na infância, no jardim interno que toda criança leva na alma, vicejava em meus pensamentos uma chama a que eu não tinha o direito.

Como um pequeno Prometeu mal nutrido, de pele marrom e cabelos crespos, roubei-a ao diabo ou a deus e com ela atormentei-me com pensamentos de grandeza, de nobreza talvez ilusória, enquanto me apunhalava o estômago em estocadas dolorosas a fome comum daqueles tempos.

Era a alma-em-espinhos desejando florir  de um menino pardo, os pés descalços na poeira vermelha do tempo, em uma terra árida e de homens ásperos, fotografia velha em que o tempo levou as cores e as memórias, nos anos de mil novecentos e setenta e tantos sofrimentos gravados na cabeça cheia de sonhos, a margem da vida, quando não havia alimento para o corpo, amor para a alma ou futuro para o mundo.

E lá, na poeira vermelha, por entre ruas sem calçamento, agua poluída, fome, doenças, miasmas  e gente sem metafísica, poderia haver poesia onde sequer havia pão?

E ainda assim, teimava em surgir na pulsação do meu espirito ainda indomado, o impossível dentro do possível, o infinito ardendo na palma da mão pequena, magra e de unhas sujas. 

Nos limites invisíveis da minha prisão sem grades ou trancas, um mundo vasto delineava-se no anseio de ser mais do que o corpo frágil, constantemente carente de nutrientes e afagos, o estômago roncava e eu sonhava com a Terra do Nunca, poesia brotava na mente no mesmo ritmo que se estragavam na boca os dentes sem tratamento, e passava a paralisia cinza do tempo entre as  paredes sem reboco e por entre almas sem abstrações.

Para onde foram esses dias perdidos? Em que passado refeito no meu emaranhado de traumas perdeu-se minha pequena e brilhante alma, o futuro e a chama verde e teimosa da esperança? 

Fecho os olhos para o passado e os abro ao presente e olho para meus sapatos lustrosos, que custaram o salario médio de um trabalhador, (talvez um homem enorme,  melhor do que eu, alma simples de  mãos calosas que  ergueu do nada esses palácios em que seu destino é decidido) e sinto por mim mesmo um desprezo profundo, próximo ao rancor e fujo pelos corredores sentindo o olhar acusador e atemporal de um menino marron, criança parda perdida na poeira do tempo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Sobre Pontes e obturações

 Quando em meus exercícios de imaginação, nas horas de ócio pelos quais me culpo, deixo a mente deslizar e imagino-me frente a frente com meu eu.

Um Luiz, abstrato e físico, tal como eu, um conceito de qualquer coisa humana.

Ali estaria eu, ante meu doppelganger, um eu clonado à imagem e semelhança do meu tédio.

Naturalmente, entraríamos em franco ato de pugilato, coisa terrível à vista de almas sensíveis, e eu desferiria socos sobre socos na boca que nunca consegue ficar inerte sem emitir opiniões e partiria a disparos de voadoras todos os ossos do meu corpo outro e do meu difícil ofício de ser humano..

Ato contínuo, eu destruiria os meus precários dentes a pontapés, alegre, embriagado de violência e desforra, absolutamente esquecido do quanto me custaria na contabilidade do dentista todas aquelas pontes, implantes e demais obturações, para que eu pudesse continuar a me dar o prazer fugaz de comer azeitonas.

Oh, que maravilha seria poder represaliar a mim mesmo de todas as vergonhas e constrangimentos, de todas as paixões e febres da alma...

Nesses exercícios, quase sempre vejo a mim, este quase cinquentenário a destruir o menino tolo que fui, sempre encantado por tanto que ignorava sempre a distancia que havia e ha entre o que é e o que era o seu desejo que fosse.

Aquela minha alma de menino ardia e forjou nessas labaredas as lembranças que hoje retorcem-me as entranhas de pesar, raiva e culpa.

Vendo-me hoje vergar as costas, coração e motivos, pelas mesmas forças que me moviam ha tanto tempo, sentindo a perdição em devaneios meus que não ressoam no real, os nervos aflorando em busca do nada, criando como uma criança, fantasias (bem mais coloridas do que esta na qual me atraco em homicídio-suicídio de mim mesmo, mas tão frívolas quanto), sinto uma revolta surda contra meu eu ja velho e implacavelmente tolo.

Que ridículo!

Então minha perspectiva recua ainda mais, torno-me ainda mais alheio, observando a essa imaginada batalha de mim comigo mesmo,  e esse outro, terceiro eu, agora observador da lide auto-imposta, vendo o embate, talvez torcesse para que o eu mais jovem, ciente do que se tornaria na figura do seu adversário mais velho e absurdamente irado, talvez encontrasse forças o bastante e levasse à morte a triste versão de si mesmo na qual inevitavelmente se tornaria.

 É viver o bastante para considerar-se um ser absolutamente repelente.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Destes pedaços de Luiz que Vou largando Enquanto me perco - ou sobre uma tela em branco

 

Paralisia súbita, nos dedos e nas ideias, enquanto olho impassível a tela em branco. 

...

"Que diabos estou tentando fazer?"

É difícil dizer honestamente o que move a maior parte das nossas ações. Só o ato de pensar nisso já nos paralisa.

Como agora ha pouco, diante da tela em branco.


Olhei o vazio na tela e pensei:

"Que lindo! Imagine esse nada magnífico na cabeça e nas artérias". 

Senti um calafrio agradável e involuntário deixar minha pele arrepiada enquanto navegava neste devaneio...

Mas não. O niilismo barato não vai me salvar no dia de hoje.

E então os dedos se movem e lá vou eu, tanteando no escuro e no teclado, deixando mais fragmentos de minhas dúvidas emporcalhando a existência...

As vezes fico furioso e nostálgico... Saudoso, não de situações e nem necessariamente de pessoas, mas da época em que eu me iludia de que no fim, conseguiria inferir algum sentido nessa loucura chamada "vida". 

O fim se aproxima, vou descrendo de tudo e sinto saudades do meu otimismo militante e fanático.

No entanto, um dos resultados trágicos do amadurecimento é a perda da capacidade de se auto-iludir. 

Abala mais do que rugas e dores nos joelhos.

Gosto de pensar que sou movido por motivos nobres ou virtuosos, mas como fugir da sensação amarga de que na verdade sou só mais um animalzinho assustado com medo da noite, com a barriga roncando de fome, procurando me aquecer e atender a urgência do cio?

...

Tenho evitado ler ou conversar com pessoas que amo e admiro, porque sei que tudo o que vou pensar em seguida, qualquer coisa que me saia da boca ou dos pensamentos que enxameiam o meu cadáver cerebral, será então um diálogo íntimo e intuitivo com essas letras e com essas pessoas. 

Traçarei a linha das minhas ideias reagindo por dias com lirismos alheios e vou afirmar envaidecido pra mim mesmo, que sou qualquer coisa de extraordinário como pensador, enquanto meu desamparo debocha e afirma o contrário... 

Quando na verdade, minha maior ambição seria não pensar em nada. Não reagir a nada. Ficar tal qual essa tela que minutos atrás estava limpa das contradições cansativas que nela digitei.

Quando tudo parece encolher como em um outono perene...

Quando na verdade tudo no mundo me confunde  e eu ainda que eu ame, já estou meio farto de amar as pessoas de maneira tão súbita e ardentemente. 

E me pergunto se alguém já esteve realmente farto de amar ou se foi só uma  maneira melodramática e menos poética de dizer que "o meu cansaço é um barco velho apodrecendo em praia deserta..."

Além do mais, amor não solicitado dificilmente é bem recebido ou valorizado (se tolerado)

Talvez pensando nisso, andei relendo algumas coisas que escrevi ha mais de uma década atrás, época em que eu ainda me permitia apaixonar pela ficção que eu criava das pessoas e só o diabo sabe como me diverti lendo aquilo.

Já consigo olhar com simpatia para o moleque de  trinta e poucos anos que eu fui (o que já e um avanço), mas não consigo fazer as pazes com minha versão de cinco anos atras e sinto um rancor profundo da pessoa que eu era na semana passada.

Talvez eu possa concluir disso que provavelmente  daqui a 12 anos (Deus!), aos sessenta anos serei indulgente para com este ser por quem agora sinto exagerada repulsa, mas é quase certo que nesta mesma época terei pensamentos amargos sobre mim mesmo aos cinquenta e tantos anos.

Acho que na verdade, se vivermos o bastante vamos concluir que nunca somos o que queremos ser.

Só reinventamos o personagem que até ontem interpretávamos e seguimos o roteiro da vida que nos convenceram de que era a nossa.


Agora são 16:21

terça-feira, 30 de março de 2021

O Segredo do Inferno

 


Então me deixe contar uma historinha curta:

D'Ararzzen era um mago que jogava cartas com o Diabo.
Não que ele fosse um mago "maligno" ou das trevas. 

Bem e mal era abstrações, a seu ver, das mais tolas.


Era só que o Diabo tinha um repertorio de piadas melhores do que Deus.

E Deus não gostava de perder.

("Eu que inventei essa droga de jogo!”, obtemperava em noites de mãos ruins.)

Além do mais, o mago era excelente jogador de pôquer e toda vez que ganhava de Deus sentia aquela ameaça velada...

Em noites em que Deus perdia muitas rodadas, resmungava furioso e ao longe ressoava um trovão.

“Vem chuva por aí...”, comentava D'Ararzzen, utilizando um subterfúgio pra se levantar e ir embora.

Vai nada!”, o Onipotente determinava.

Senta aí! Se eu quisesse, chovia quarenta dias e noite e acabava o mundo. Mais aí eu não ia poder recuperar minha grana nessa mesa. Revanche?

D'Ararzzen se sentava e , ainda que não fosse um sábio (se fosse não estava jogando cartas com aqueles dois), era inteligente o suficiente para rir sem graça das piadas sem graça de Deus e sair daquela jogada perdendo de proposito, mesmo tendo cartas melhores.

O Diabo ria e debochava mentalmente da cautela do mago: “Bundão!”


Enfim.
Uma noite, Deus não conseguiu uma desculpa boa para comparecer ao jogo, e na mesa em que só dois jogavam, o diabo estava em uma onda de azar.


Em resumo, o mago já tinha ganhado várias rodadas e o diabo estava ficando sem grana até pro taxi.

Estava tarde e D'Ararzzen decidiu encerrar a jogatina.
Mas o diabo teimoso insistiu em uma ultima cartada.

"O dobro ou nada!"

"Sem essa! Você já não tem mais um vintém nos bolsos...Vai apostar o que?"

O diabo pensou e não ia deixar barato. Afinal, era um mal perdedor assim como Deus.


Havia perdido até as calças no carteado, mas apostou o segredo mais bem guardado do inferno.

O mago, que era além de bom jogador, um excelente trapaceiro, topou e após o Diabo vitoriosamente lançar um Flush sobre a mesa,  com um Straight Flush esmagador venceu e obrigou o diabo a contar o tal segredo.


Puto da vida ('Eu que inventei a trapaça, merda!!"), o diabo pegou seu chapéu da mesa pra ir embora, virou o último trago de conhaque (com cinzas de cigarro dentro, pois foi usado como cinzeiro pelo mago e por ele próprio minutos antes) e ao sair, contrariado, mas fiel a sua palavra,  vociferou entredentes o tal segredo.


Que vou dividir com vocês agora.


"O segredo do inferno", disse o diabo,
"É que ele é completamente facultativo...”

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Aos Gatos que Guerreavam em dança mortal no teto do...Bairro Esplanada



Os gatos tem fuso horário curioso.
Fossem como as corujas ou morcegos e demais coisas noturnas, eu até compreenderia os entreveros travados as tantas da madrugada.
Mas eu tenho gatos desde que me lembro e contrariando o consenso geral, suas excelências felinas não são absolutamente animais noturnos. Então, é favor não confundir as trinta e tantas cochiladas durante o dia com preguiça. São apenas as pausas necessárias ao exercício da sua majestosidade.

Eram cerca de três e meia da madrugada.
Despertei com um barulho bem familiar.
Este bairro em que vim morar é extraordinariamente silencioso, o que tornou o ato de dormir algo penoso nos primeiros meses.
Esse é um subúrbio de classe média, sossegado, quintais grandes e bem cuidados, cheios de árvores frutíferas, pracinha bem cuidada onde crianças igualmente bem cuidadas correm atras de cachorros; aposentados que após o estranhamento inicial com o elemento estranho (e provavelmente ameaçador, pois essa gente costuma associar pele com mais melanina a ameaça), cumprimentam com um “bom dia” de fina cortesia.
Bem diferente do barulho efervescente e infernal do meu antigo bairro, onde o silêncio era e ainda é um luxo tão escasso quanto saneamento básico. A não ser que seja o silêncio que antecede o desastre, em noites de tretas resolvidas a bala, facada ou barbaridade semelhante.
Mas o som que me despertou era o já conhecido debate que antecede uma guerra de extermínio travada entre dois gatos.
Da janela enorme da cozinha eu tinha (e tenho) uma vista panorâmica da cidade e da vizinhança. Vejo diversos telhados, sacadas e varandas, os prédios iluminados da cidade ao longe e mais alguns aqui perto.
Ali estavam, no telhado do vizinho, dois velhos conhecidos meus. Um gato branco enorme, que na falta de referencias, apelidei de Saruman. O outro, era o gatarrão dominante desse território, um preto e branco, tipo Frajola, que mais de vez observei por a correr desafiantes atrevidos. A esse eu sempre chamei de Néro, pois suas guerras colocam fogo no seu império.

Estavam naquela fase do embate em que apresentam suas alegações para legitimar a posse do território. Frente a frente, caldas agitadas, focinhos em riste, orelhas levemente arqueadas para trás e pelos do corpo eriçados, para avantajar-lhes artificialmente o tamanho. Desafiavam-se com miados guturais de gelar o sangue de almas supersticiosas.

Gatos não são animais selvagens. Na verdade, comportam-se como verdadeiros políticos. Discutem os pormenores da contenda em termos polidos e cavalheirescos. Não chegam as vias de fato, senão depois de esgotados todos os argumentos possíveis.

Eu estava com sono e queria voltar a dormir, pelo que deu vontade de gritar: “Calem a merda da boca e caiam não porrada de uma vez!”.
Não o fiz. Moro agora em terra de gente educada, de aposentados gentis e cachorrinhos pugs e beagles. Não posso gritar impropérios nas altas da matina.
Ademais, estou certo que os nobres felinos em contenda, votariam aos meus protestos chulos o mais frio desprezo, como é da natureza altiva deles.

Recolhi-me em silencio à minha insignificância.

Peguei um copo de água. Voltei a janela e os termos entre os gatos parecia não chegar a um acordo. Muito havia a ser debatido aparentemente. O destino e supremacia de uns dois hectares estava sendo decidido e não o podia ser feito de modo leviano. Havia na balança o governo absoluto daquela área e estamos falando de muitos ratos gordos e pássaros suculentos, gatas no cio, latas de lixo a revirar, diversos cachorros a atazanar e paparicos por parte de uns e vassouradas por parte de outros moradores e demais posses e possessões que caberiam ao vencedor do litigio.
E qual deles tinha direito?
Um argumentava:
- Eeeeeeeeeuuuuuuuuuu....EEEEEEEEUUUUUUUUUUUUUUUU!
Ao que o outro respondia energicamente:
-NO NO NO NO NO.....EEEEEEEEEEEEUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!

E a coisa ia assim até perto das quatro horas.

Não se pode criticar esses debates barulhentos da aristocrática espécie  Felis Silvestris Catus, sem saber a que se destina;
Evitar uma briga furiosa e mortal!

Briga de gato não é pra ser assistida por almas sensíveis.
Por mais delicado e gentil pareça seu bichano, quando se mete em uma briga, o propósito não é a agressão gratuita. Busca-se a morte do outro. O “Mimi” do travesseio torna-se um huno, um Khal Drogo de bigodes e quatro patas. O gato, animal dócil e tranquilo subitamente se torna uma maquina de combate, sem compaixão pela pessoa do querelante e busca, uma vez inciada a lide física, o extermínio cabal do outro.

Por isso mesmo, por não serem selvagens e por terem ciência das regras cruéis que se impõem sobre a guerra felina, e que debatem demorada e longamente, ora sussurrando , ora subindo o tom de seus miados que apavoram corações supersticiosos.

A coisa ia por ai, eu já impaciente (e confesso que impaciente para que um deles ou desse causa ganha ao rival, ou partissem logo para a guerra, pensamento inferior de um ser inferior, que só queria dormir)

Pois aparentemente, Nero se cansou de argumentar e se recusou a ouvir as alegações finais do oponente.
Berrou uma ameaça gélida, como o grito de uma Banshee e após esse aviso, imprudentemente ignorado por Saruman que sibilou um desafio, Nero desferiu o primeiro golpe.

Avançou como uma cobra dando o bote na jugular do outro, que revidou com a mesma fúria.
Como eu disse, briga de gatos não é para almas sensíveis.
Se engalfinharam sobre o telhado vociferando, disparando tiros e mais tiros de garras, dentes e ódios.
Eram rápidos, misturaram-se em um borrão de pelos, rugidos e fúria, sendo impossível dizer quem levava a vantagem.

Amo gatos.
Se eu pudesse ter escolhido ou se alguma ocasião puder escolher, viria ou virei a este mundo como um desses animais magníficos e injustiçados.
Pois eles são políticos por natureza, pacíficos e nunca fazem gestos vazios. Evitam como podem o conflito, porem, uma vez iniciada a guerra, ela é cruel, violenta, definitiva e também rápida.

Nero e Saruman caíram de um telhado para o outro, uma queda de mais de três metros, ainda unidos na sua batalha gaticida. Tão empenhados estavam nela, que nem pareciam notar a queda. Era uma coisa terrível de se ver.
Uma vez eu vi um sujeito tentar apartar uma briga de gatos. O pobre infeliz pagou com uma tira de couro  da mão por aquela intromissão.
Gente tola só aprende com a experiencia. Gente sábia aprende com a história (sua e dos outros).

Expectador estava e expectador fiquei.

Por um momento a peleja pareceu pender a favor do desafiante. Nero soltou-se de Saruman e disparou, aparentemente em fuga, em direção a parede de uma sacada, com o outro, triunfante em seu encalço. Mas era uma estratégia calculada. 
Nero pulou em direção a parede e tendo o rival bem atrás de si, quicou como uma bola, saltando por sobre o oponente, pegando-o na sequência em parte macia e desguarnecida de defesa.
Na janela, sussurrei um:
- 'Puta que o pariu!”
Claro que descrevi porcamente um movimento que foi rápido demais para os meus olhos, mas posso afiançar que foi estratégia. Nero é um gato mais velho. 
E dizem que o Diabo sabe mais por ser velho do que por ser o Diabo.
Pois guerra se ganha com inteligencia, além da força.
Confiante de sua vitória, Saruman se descuidou e em um movimento certeiro, Nero pôs termo à escaramuça.
Desferiu golpe sobre golpe, agarrado as costas do pobre rival, que desesperado, usou suas ultimas forças para se desvencilhar do abraço mortal, e partiu como um raio saltando de telhado a telhado, lutando desta vez, não pela posse do território, mas para preservar o que sobrou de suas sete vidas.

No rastro dele foi o vencedor, ainda disparando seus golpes. Como eu disse, gatos evitam briga, mas quando se metem em uma, não querem deixar pedra sobre pedra.

Os perdi de vista quando saltaram por sobre muro no quarteirão de baixo, deixando um rastro de pelos e sangue pelos telhados.
Aos que se preocupam com a sorte do pobre gato vencido, lhes asseguro que ele está vivo e bem.
Essa briga já foi há umas semanas e dia desses eu o vi passeando, saltando por sobre uma arvore próxima.
O Status Quo foi mantido, Nero governa soberano no território e ao perdedor, um de uma lista de muitos, cabe aceitar o papel secundário, de macho beta, gama ou delta, porque o Alfa, segue inconteste como Gatarrão do território.

sábado, 11 de julho de 2020

E Mais Ainda Sobre Relógios - Variação do Velho Tema


Tic e Tac

Era 19 de dezembro de 1973.

Dia em que o Estatuto do índio foi promulgado, terroristas libertaram reféns em um aeroporto do Kwait, a gasolina estava mais cara no mundo todo e morreu o “Seu Amâncio”, velho rezador da rua de baixo.

Um dia ordinário, na história ordinária de um mundo ordinário.

Em um hospital igualmente ordinário, a enfermeira olhou para o relógio na parede e sentenciou que eu nasci as 10:15.

Se ela pudesse olhar para meu relógio interno, teria anotado na cadernetinha que naquele mesmo instante, ele marcava 68 anos.

Exatos 68 anos.

Aos  67 anos, 11 meses, 29 dias, 23 horas e 18 minutos, constatei surpreso e agradecido, que minha mãe, apesar de três gestações anteriores, vida difícil e má nutrição, ainda era capaz de gerar leite para alimentar mais uma cria.

Marcava 67 anos, 11 meses, 29 dias, 22 horas e alguns minutos, quando exausto de tanto berrar, com frio e irritado, tive meu primeiro sono extra-utero.

Aos 66 anos e dois meses mais ou menos, saltei da fase quadrúpede para bípede e deus sabe, que se eu soubesse o que me sucederia nos anos seguintes, teria continuado um milhar de passos depois daquele primeiro, e mais outro milhar e mais outro depois e estaria agora dando minha terceira ou quarta volta no planeta, feliz como só um desgraçado sem pátria, e também sem lastro, pode ser...

Quando completei 65 anos e algumas semanas, perdi meu pai. Nao para a morte, mas para a vida, o que dói mais ainda. O canalha viveu ainda algumas décadas depois de abandonar a prole ao se desentender  com a esposa. Viveu o suficiente para que eu alimentasse justificado rancor contra ele pelo abandono, mas não o bastante para que eu o alcançasse com o tardio perdão, que me livrou finalmente do peso daquele rancor. A falta dele me inaugurou como pessoa e me estruturou por sobre um vazio de referencias que ainda é algo com que tenho de lidar.

Aquele filho da puta!

Aos 63 anos e 11 meses e 16 dias, quando finalmente se lembraram que meu aniversario havia passado, compreendi que jamais teria uma festa de aniversario. Que talvez jamais teria festa alguma.

Com 60 anos e 10 meses fui pra escola. Aos 58, fugi da mesa escola e não voltei senão depois de vagabundear pelos brejos e descampados do meu bairro, (gosto de pensar que eu era uma versão tupiniquim de Huck Finn), até completar 55 anos. E então eu era um adolescente estudando com crianças. Deslocado e extemporâneo. Mas isso nao chegava a ser novidade para mim.

Aos 54 anos olhei para uma garota na porta de escola, senti vespas de fogo no estômago, uma vontade doida de sair correndo.

 Não corri.

Nunca mais senti vontade de correr e na sequencia de paixonites sazonais que se seguiu, nunca mais fui feliz.

Um pouco depois dos 50 anos, dei o meu primeiro e memorável beijo. Lastimo lembrar que passaram-se alguns anos antes que o segundo viesse e mais alguns anos para que o terceiro o sucedesse a assim foi, até que um pouco depois de completar 43, juventude, carência e inexperiência me levaram a um casamento prematuro.

Aos 39 anos,7 meses e 12 dias a vida dá uma guinada feliz, o destino se distrai , eu roubo um pouco de felicidade e me torno pai, sem nunca ter sido filho. Pego minha filha no colo, rezando para que ela nao repita minha vida. Comecei neste dia a não ser mais uma criatura solitária.

Com mais ou menos 33 anos eu pego em um teclado e digito um apelido idiota em um fórum da internet. Aos 27 anos e seis meses, no rastro de um acúmulo de rancor mútuo, vem o divórcio. Sentimentos de culpa, raiva, e um tardio reboot em uma vida que nem parecia ter começado ainda.

Tic e tac

Passam semanas, meses, anos...As estações se confundem em invernos quentes e verões frios,  a poeira do tempo se acumula sobre perguntas sem respostas e móveis sem uso, minha filha cresce, se torna uma mulher extraordinária, se apaixona, eu agradeço a vida que ela leva, fico orgulhoso, fico feliz, fico triste, envelheço, meu gato morre, meus ideiais morrem antes do gato, enterro ambos, tenho experiencias espirituais, (mas Deus, se existe, continua alhures) e eu vejo os ponteiros correrem ao contrario inexoráveis...

Tic e tac

Reencontro o amor, ou o encontro pela primeira vez. Conheço o medo, com dificuldade aprendo a receber o que sempre dei, estranho e desconfio da dedicação que me é votada, como se não fosse merecedor dela, duvidando o tempo todo que o destino olhe em outra direção pela segunda vez. Acordo e vejo-a ali, linda e tranquila, como eu nunca fui, medito, me critico intimamente,  duvido novamente que a mereça, sinto que o mundo vai desabar a qualquer momento, ou que as coisas voltem para seus devidos lugares e ela me seja arrebatada, entristeço e fico arredio, ela percebe, me conhece, me atura, me acalenta, me ama e me ajuda a voltar aos trilhos da sanidade.

Faço 25 anos e minha antiga profecia mostra-se falha, pois finalmente recebo uma festa de aniversario. De presente natalício recebo a percepção de que nunca completamos mais um ano de vida, mas um a menos.

O cansaço se acumula e eu me sinto velho aos 24 anos. Semanas depois de completar 23, encontro um fio de cabelo branco na barba antes impecavelmente negra, olho pro espelho e debocho: Então é isso, cara! Voce tá morrendo sem nem ter vivido! E rio diabólico e triste da minha decadência.

Meu relógio interno marca um pouco mais de 22 anos agora e eu  sinto que esse resto de tempo é quase uma eternidade. Tempo demais para eu fazer merda na vida, mas tempo de menos para me reconciliar comigo mesmo, com a humanidade, com o mundo...O mesmo mundo que está paralisado por uma pandemia e isso intensifica essa sensação de tempo em slow motion.

 

No fim do dia me recordo divertido do meu deboche antigo e mordaz das pessoas que cismavam de se reinventar o tempo todo, como meio de fugir a própria estranheza.

Ti e Tac...

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Do Fim do Meu Cansativo Sabbath

 

Uma vez me disseram, que na raiz de toda ação está, ou a necessidade ou a vontade.

A pessoa que me disse isso está mais qualificada do que eu para falar sobre a motivação do movimento ou inércia das coisas outras do universo afora, posto que é estudioso dessas coisas. Só posso falar por mim, embora não seja sequer graduado em mim mesmo.

 

Na raiz de quase todas as minhas ações ou inações, está o cansaço.

 Me movo por estar cansado de estar parado e paro por estar cansado de me mover.

Tenho quase certeza de que foi o cansaço, mais do que o fim do período natural de gestação, que me fez sair já com uma preguiça enorme, da barriga da minha mãe, onde acabei entrando por estar também cansado de ser sempre a possibilidade de ser uma pessoa.

 

Depois desse ultimo ano, cansei de falar pra mim mesmo o tempo todo, coisas que bem poderiam azucrinar cabeças alheias. Lá no fundinho da consciência há um dedo acusatório, um dentre milhares de filhos-da-puta-acusadores, que me denuncia a mentira velada, que está disfarçada mas que no fim é apenas o velho desejo de ser relevante que  move meus dedos neste teclado novamente.

 Mas estou certo de que justifico pra mim mesmo.

Não há uma só promessa que tenha feito a mim mesmo que não tenha quebrado. Posso viver com isso. Enquanto eu viver, prometo solenemente quebrar todas as promessas que a mim mesmo fizer. Ha outro modo de admitir os próprios erros?

 Bem, aqui estou.

Nesse hiato de tempo entre minha ultima despedida deste espaço e hoje, aconteceram algumas coisas. Ninharias, é claro, mas quando você reencontra algum conhecido na rua, só se interessam pelas ninharias da sua vida.

“Já casou?” é a favorita das pessoas e nove entre dez que te encontram na rua te perguntam isso. Dá vontade de responder, “Não, não casei, mas atropelei um cachorro sem querer, atrasei a entrega da declaração de imposto de renda, minhas plaquetas estão baixas e um cara com quem troquei socos anos atrás fez cirurgia e agora é mulher e estou me sentindo um canalha por ter brigado com uma garota (e envergonhado também, porque no fim das contas, ela, que era ele na época, era boa de briga e eu apanhei mais do que bati)...Quer saber mais alguma coisa?”

 Tudo isso aconteceu no ultimo ano (com exceção do atropelamento, que inventei apenas para horrorizar meu suposto interlocutor).

 

A idade cronológica finalmente me alcançou neste ultimo ano e como sinal da minha decrepitude, agora tenho que usar óculos. Disseram que minha higiene é duvidosa e eu correria riscos se teimasse em usar lentes de contato. Depois de agradecer o aviso com um sonoro “vá se foder”, resolvi acatar o conselho, porque posso não ser um exemplo na higiene, mas não sou completamente estúpido. Ou perderia a porcaria das lentes ou pegaria uma infecção nos olhos. Relutei, refuguei e fiquei horrorizado quando os óculos ficaram prontos, mas, caramba! A maldita coisa é excelente! Consigo enxergar maravilhas com essa droga no rosto e só depois de voltar a enxergar direito, é que percebi como estava sofrendo pra ler.

Ademais, como vou brigar com bolsomínions no Twiter se não enxergo a porcaria das letrinhas do celular?

Uma saliência incomoda se alojou um pouco acima da minha cintura no ultimo ano e, vida tranquila e comida demais me instalaram uma ‘pochete” adiposa na linha da cintura, que meus detratores (os mesmos que sentenciaram minha higiene duvidosa) insistem que “só sai com cirurgia”. Ao que eu digo: Esperem só! Tiro essa merda com caminhadas e abdominais em tres meses!

Isso foi ha um ano...E a pochete continua aqui, infelizmente.

Mais novidades?

Na ultima semana peguei COVID. Não obstante litros e mais litros de alcool gel, caminhando quatro quatro quilômetros e meio a pé  na ida e volta ao trabalho para evitar ônibus e demais cuidados, sou diagnosticado com a porcaria do vírus e embora não tenha tido até o momento maiores problemas, (a não ser febre noturna nos primeiros dias, durante as quais creio que tenha brigado feio com deuses e diabos) estou assintomático..

Fiquei um tanto mais corajoso no ultimo ano, coisa que, espero, fique evidente na minha escrita.

Não o tipo de coragem que me faria saltar de pára-quedas ou mergulhar com tubarões, mas ...Não sei dizer...A coragem que vem da admissão da transitoriedade de tudo o que se ama.

E também o desejo de tacar pedras psicológicas no ideário incorruptível que criei dentro de mim mesmo, para prestar culto e reverencia, enquanto virava as costas as outras coisas que me ensinaram que eu deveria reverenciar. Decidi que isso igualmente é digno do meu desdém.

 

Pensei em escrever algo digno do meu desejo de retorno a esse teclado, mas eu sabia que ia me repetir aqui.

Coisa que ja faço desde de 2011.

Lá se vão doze anos de loop nas minhas ideias e, relendo, bem, ha coisas das quais efetivamente me orgulho de ter escrito. 

Em outras eu sinto aquela frustração advinda do divã, quando, depois de anos de análise, já me imaginado um ser humano ressignificado, me pego novamente a falar de minha mãe, como se estivesse na primeira consulta ainda.

É muito  frustrante e ainda que minha vida tenha sido uma coletânea de frustrações, não envelheci o bastante para as aceitar com o estoicismo necessário a não tomar decisões baseadas no cansaço de dar voltas em torno de mim mesmo.

Mas se eu esperar que me surja o ímpeto ou aquela velha ilusão de que eu poderia reinventar a roda, acho que nunca mais escreveria nada...

Isto dito, vamos as letras...

 

 

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