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segunda-feira, 1 de maio de 2023

1973

 



Para início de conversa, a nossa causa não era justa.

Éramos então, o inimigo, o invasor, aqueles sobre quem histórias terríveis eram contadas e que levavam pavor aos corações dos homens.



Batalhávamos em terra estrangeira, nós, os soldados sem ideais.

Não éramos mais homens. 

Éramos os gritos, os estrondos, o frenesi dos combates e o céu noturno iluminado por chamas.

Sob o estandarte da crueldade, lutamos, sangramos, fizemos sangrar...

E perdemos a guerra.



Perto do fim de uma noite, os sinos das cidades ressoaram anunciando o nascer de um novo dia e a nossa derrota. 

Houveram festas, celebrações e danças nas ruas, missas e graças dadas aos céus quando o flagelo foi varrido de sobre a terra e a esperança voltou ao mundo.



Em fuga, derrotados e feridos, fomos perseguidos como as feras que éramos então, e abatidos um a um,  sem a graça da mesma compaixão que negávamos a outros.

Acuado, com medo e sozinho, não caí lutando.



Recebi a morte dos covardes, trespassado por lâminas e balas e flechas.

Caí em um charco imundo, meu sangue derramado misturando-se ao lodo e lama.

Meu corpo ficou ao léu, sem enterro, sem o abrigo de sepultura ou lamento de pessoa querida e os animais de rapina se recusaram a dele se alimentar.



Tempo e esquecimento jogaram poeira sobre meus ossos e a lembrança de mim, dos meus e de tudo o que fizemos foi pouco a pouco tornando-se um mito triste.



Vaguei…

Nem Inferno, nem o Duat, nem o Valhalla… Vaguei em terra fria e escura, de sombras lamentosas que se esgueiravam na penumbra e me ignoravam ou sussurravam insultos.

Insultava-os de volta.

Em fúria, perdido, açoitado por lembranças dolorosas, lamentei, blasfemei e implorei e aos poucos, tornei-me também sombra murmurante,

 esquecido de quem eu havia sido e o meu passado se tornou suposto.

Tornei-me fictício.

Perdi meu nome.

Perdi quem eu fui.

Minhas lembranças transformaram-se em ecos confusos.

Arrependimentos dolorosos de crimes verdadeiros ou imaginados misturaram-se às acusações berradas pelas trevas em derredor como açoites e eu ja não tinha mais certeza da história que acabei de contar.

 

Quanto tempo se passou até que fui desprovido da lembrança de um único dia feliz? 

Para onde foram todos os gestos de bondade, recebidos ou realizados? E todos os sorrisos e abraços de irmãos?

Seria concebível eu ter vindo à existência sem um colo de mãe, já que eu não o levava na lembrança? 

Ou ter passado a vida inteira sem ter conhecido o amor de um pai?

Era então toda a verdade do mundo aqueles queixumes e gritos nas sombras?

Quando essas questões começaram a surgir na minha mente em febre, aos poucos a treva em volta se rarefez e tive um vislumbre ao longe, de um propósito qualquer.



Não sei dizer ao certo quanto tempo levou até que me aprouve mover-me sem o esmo que me guiava naquela terra,  e por fim caminhei, sem sequer saber o porquê, na direção daquele ponto de luz.

 

E fui receber nova carne, e fui conhecer nova dor. 

Algo falhou no entanto e eu me lembro, não das lembranças, mas da lembrança  de ter lembranças.

Recebi nome, identidade e memórias novas, como uma plantação semeada por sobre onde antes havia uma floresta antiga.

Sinto ainda as raízes das árvores cortadas, bem ao fundo na terra da minha alma. 

Sinto saudades de casa, do “de antes” do passado e de quem eu era antes de me tornar quem eu fui.

 

E então, sento-me para escrever este texto e nele tento criar outra hipótese de mim mesmo.



terça-feira, 10 de outubro de 2017

É um convite pra dançar

(...)


Ahahahahahahahahahahaha!!!

Que...De que diabos está rindo afinal?

(De uma coisa que na verdade devia me fazer chorar, mas), porra, você está aí falando da sua preguiça de "amores impossíveis" e de gente que teima em vivê-los e estou pensando em quando vai perceber que ainda não entendeu o óbvio...

Me ilumine, então, ser superior... Não entendi o quê exatamente?


Eh...Simples. TODO AMOR É IMPOSSÍVEL!.

(...)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Expropriado (ou 100 Sonhos)




Nada há o que comungar e nada a partilhar
Entre o Eu e os amplos espaços vazios da minha compreensão.
Há os grandes hiatos abertos 
Em meus ossos quebrados por palavras
Em meu espírito fragmentado por pedras e paus...

Um dia hei – e na ânsia desse dia, já nem como ou durmo senão em sonhos-
De livrar-me desse entorpecimento dos sentidos
Dessa fuga de pensamentos que correm em avalancha
Como se não tivesse crânio a detê-los, mas apenas o céu por teto para o cérebro.
Por certo, deveria perder-me no acaso dos caminhos que aponto
Nas direções que indico, mas nunca tomo, 
Como se a trilha para a minha alma caminhar
Começasse na ponta do meu indicador.
Todos parecem saber, mas eu...Eu não compreendo...

Mas tem uns fantasmas falando com minha voz,
Monólogos maçantes em que debato comigo mesmo e com meus medos.
Pavores absurdos, pueris, pesadelos que já nem assustam tanto
Quanto a consciência da súbita perda da capacidade
De me assustar.

Tem dois abismos doces por detrás de suas pupilas...
Há dois demônios graciosos a espreita nas suas pálpebras...
Há néctar e veneno confundidos na curva dos seus lábios...
E enquanto me corre um rio de água gelada pelo estômago,
Sorrio de volta para o inferno – Para o maravilhoso e encantador inferno!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!

Devo, em meu devir repleto de reminiscências
Expropriar-me de imaginações e sepultar em baús os devaneios
Não tardará romper o dia e há tributos a serem pagos
A tudo e a todos e a corrida do mundo não toma fôlego.

Sonhos são dinheiro precioso.
Já cá, ando sem moeda alguma que jogar no Arrudas
Em troca de um desejo.
Um único.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Um pouquinho de raiva para adoçar o dia

Horror a compromissos, como se uma estabilidade qualquer fosse o nome escrito em sangue num contrato nas mãos do Diabo, fugia disso como quem foge da cruz, crescente, estrela de Davi ou adjacências...

Você queria uma reposta pronta?
Queria um sentido e direção e palavras de conforto?
Você queria felicidade (e quem não quer) ?
Pegasse nas postagens divertidas de poucas linhas do facebook, nos vídeos en(des)graçados que atentam contra dignidade humana e que rapidamente contagiam no whatsapp, nas conversas vazias em mesas de bar e meios diálogos ensaiados de meia gente.

Fosse à igreja ouvir o sacerdote, lesse livros de auto-ajuda, conversasse com aquelas pessoas "do bem", que enchem a boca pra falar de "Deus, Pátria, Tradição, Família", ou nos defensores vorazes de boas causas...

Você queria a salvação?
Queria um céu idílico onde poderia entoar Alleluias por megabilhões de anos?
E, contraditoriamente, queria um mundo de prazeres imediatos e facilmente alcançáveis e facilmente perdíveis?
Você querias as cordinhas invisíveis de um supremo titereiro invisível?

Desculpe, mas essas coisas eu não tenho em estoque, porque têm sido amplamente consumidas por esses dias e não são recursos renováveis (e não porque se esgotam, mas porque nunca se renovam em sua antiguidade).

Mas tenho caos em abundância.
Perdição em ampla faixa.
Eu tenho sentimentos de revolta e ódio maravilhosos e desejos de atear fogo no mundo (estão em promoção).
Eu tenho a alegria da queda e o gosto de sangue nos lábios partidos por socos dados em brigas ferozes.
Eu tenho gritos no escuro e solidão e medo e repulsa (dizem que é a ultima moda em algum lugar de Bangladesh e muito popular em Seattle).
Eu tenho vida, valiosa porque se perde em um minuto, e sem promessa de céu ou ameaça do inferno...

Por outro lado, a grama do lado de lá parece mais verde e você pode se sentar nela e ignorar que alguém tem de regá-la e apará-la e adubá-la para que você possa dar descanso à sua ignorância.

Você pode ignorar e pode descansar por muito e por pouco.
Eu prefiro preferir um minuto qualquer de vida genuína.
E no processo, odiar.

Odiar linda e divinamente, como quem está apaixonado...

Feliz Natal...




sábado, 29 de março de 2014

Da minha coleção


Tem gente que coleciona selos, moedas, namoradas...

Eu coleciono defeitos.

Todo dia esbarro em um pelas esquinas e como o adulo e lhe faço carícias, o bandidinho me segue até em casa e daí fica difícil me livrar do bicho. 

Então minha coleção aumenta exponencialmente, enquanto meu estoque de amigos diminui na mesma proporção.

Hora ou outra tenho de fazer um puxadinho moral para colocar em ordem essa coleção e para tanto, terei de demolir um cômodo ou dois onde tenho alojado qualidades mentirosas.

É um inferno, porque a unica coisa que tenho para amar em mim mesmo atualmente são meus defeitos, porque eles são muito mais genuínos do que as minhas qualidades reais ou imaginárias, então fica difícil desfazer-me de um item dessa coleção, mesmo os que tenho repetidos e que poderia trocar num escambo de más qualidades. 


Quer dizer, a gente até pode mentir para os outros ou para nós mesmos, sobre as próprias virtudes e embora as pessoas possam ter ilusões a seu respeito, você é uma pessoa bem desafortunada se tiver uma repulsa natural pelas auto-mentiras.

Se eu fosse um sujeito esperto, colecionaria selos, , namorada, moedas ou falsas qualidades. 
São coisas muito úteis e as pessoas em geral gostam bastante de quem ostenta um bom estoque dessas coisas.

Mas quem disse que eu sou esperto?
Sei lá se alguém disse. 
Foi uma pergunta meramente retórica.

Mas se alguém tivesse realmente dito, estaria falando, é certo, de uma das poucas falsas qualidades minhas que pretendo desalojar para ampliar minha coleção de defeitos genuínos.

---
Ah e só pra constar, não, não sou adepto da misoginia ou da misandria.
Sou misantropo mesmo e minha birra de gente (que oscila para um absoluto fascínio e simpatia) não conhece e não reconhece gênero.

domingo, 25 de agosto de 2013

Fumar aos Quarenta



...ainda não entendi....Porque diabos você quer começar a fumar agora?

Ora, por que! Porque, eu posso, porque não tem lei me proibindo de fazê-lo, porque todo mundo acha que não devo... Tenho um porrilhão de motivos, mas a verdade é que eu quero. Simples assim. E se não tem lei em contrário, o meu querer e o meu não-querer tem de ser razão o bastante para que eu faça ou deixe de fazer qualquer coisa....

Mas você sabe que isso vai te ferrar, né? Vai ficar com os dentes amarelados, o cabelo e a roupas fedendo e nem vai conseguir subir uma escada sem por os bofes pra fora!

...E blá-blá-blá! Você se esqueceu de falar do câncer de pulmão.

Tem isso também! E não é coisa que se despreze!

Bom, eu não ligo de não conseguir subir escadas (pra isso existem os elevadores) e meus dentes (caso não tenha notado) já são amarelos (e sem o “benefício” do fumo) e quanto ao fedor... Ah, eu vou fumar charutos! Charutos não fedem tanto assim! E o cheiro, dizem, é até gostoso...

Nem! Fala só por você!

O Freud fumava charutos...

E morreu de câncer na boca!

Com 83 anos, caramba! Ele tinha de morrer de alguma coisa! Teve o prazer de fumar por décadas e depois morreu. Acha que ele devia viver pra sempre?

Não. Só acho que é um jeito bem desagradável de se morrer...

Rá! Você fala como se existisse um jeito agradável de se morrer.

Não, mas tem jeitos e jeitos... E ainda acho que fumar é má ideia.

Bom, acho um tanto tolo esse negócio de viver em função de como se vai morrer, pra não falar que é paradoxal e um tanto... Religioso...
Fumar talvez seja má idéia, mas se te preocupa que eu vá morrer, advirto que fumando ou não fumando, vou morrer de qualquer jeito.

Você vai fazer merda!

Vou. Mas eu nunca fiz merda na vida. E sou de opinião que quem nunca fez merda na vida, teve muita merda e pouca vida...Ou uma vida de merda, se me permite dize-lo.

Então, se está mesmo tão decidido a fazer alguma asneira, porque não faz uma tatuagem ou foge com um circo?

E desde quando fazer tatuagens é asneira? E qual foi a ultima vez que você viu um circo que aceite gente sem talento para o picadeiro? Cara, você anda vendo TV demais...

Certo, mas é que, fumar, sabendo que é besteira, me parece um tanto irresponsável.

(...)

Quero dizer, a gente faz merda na vida, mas geralmente faz inconscientemente.

Está me dizendo então que uma idiotice é legitima quando feita inconscientemente?

Ei, não coloca palavras na minha boca! Não vem com essa de psicologia reversa barata para justificar o fato de que está para fazer uma estupidez!

Não estou justificando nada. Só estou me dando o direito de arruinar minha saúde. Mas pensa nisso: Dizem que se você começar a fumar com doze anos de idade, aos quarenta vai ter, provavelmente, um monte de problemas de saúde, né?

É o que dizem...

Pois então! Já tenho quarenta, o que significa que vou começar a ter problemas lá pela casa dos setenta anos. É a época em que qualquer um começa a ter problemas de saúde, fumando ou não!

Não acredito!!

O que?

Essa é a coisa mais estupidamente maniqueísta que você já disse!

Diz isso porque me ouviu falar relativamente pouco... Mas não negue a lógica de um pensamento apenas porque ele te desagrada.

Isso não tem lógica nenhuma! E você é um idiota!

Talvez, mas sou um idiota bastante ciente de que se é idiota, o que não se pode dizer da maioria dos idiotas.

Bem, se quer que eu diga, sim, isso certamente conta a seu favor.

Autorização pra fumar então, "majestade"?

Que se dane! O funeral é seu!

O pulmão também. E olha lá... A tabacaria fica ali, perto da redação do "Estado de Minas".

(...)

Quié?!!

Tem um estúdio de tatuagem lá no "Edifício Maleta que"...





segunda-feira, 4 de março de 2013

Eu sou "Do Mal"


“Eu sou do Bem!”

O sujeito, recém-chegado, disse isso tocando solenemente no próprio peito e com um tom de voz tão afetado que deixava claro o orgulho que sentia de si mesmo. Isso era tão evidente que era possível ver que se postando assim, do lado das luzes e das virtudes piedosas, estava acima da ralé humana cheia de vícios e defeitos. E eu sou, lastimo dizer, desgraçadamente humano.

Já ia ficando de má vontade para com a gabolice dele, porque tenho uma antiga e desarrazoada antipatia para com os deuses, e ver um semideus de carne e osso e tão superior bem na minha frente, atiçou todas as cascavéis que tenho no estômago.

Discursava efusivamente, com gestos teatrais, com a eloquência de um pregador religioso e a verborragia maçante de um palestrante motivacional.

E como a criatura era bastante performática, literalmente saltando por entre as cadeiras e mesas, papagueando o tempo todo um discurso hiper-positivo, claro que cativou imediatamente os corações e mentes de todos os presentes, exceto um, que, como era sabido por todos os presentes, não tinha coração e duvidava mesmo que tinha uma mente a ser conquistada.

De minha parte, tentei simpatizar com ele tão logo me foi apresentado. É do tipo que sorri fácil, tem um aperto de mão firme e olha nos olhos quando o faz, embora o seu olhar não dure nem um segundo, caso se olhe de volta.

Mas era aparentemente do tipo que não suporta não ser o centro das atenções e tão logo lhe foi dada a palavra, iniciou o seu monólogo auto-afirmativo. Falava alto e com gestos tão largos e espalhafatosos (fazendo círculos e curvas rápidas com os braços), que temi por várias vezes que fosse fazer voar pelos ares a bandeja de um dos garçons.

Meu primeiro incômodo foi ver que o tal sujeito, a quem todos gabavam como “um  figuraça”, gostava dessa alcunha, que no meu entender  não tinha nada de elogiosa. Era uma pessoa extravagante e positiva demais para ser levado a sério, mas a voz alta, o sorriso largo, mais aquela meia dúzia de frases doces e sedutoras que papagueava para que todos soubessem o quanto ele era “do bem”, claro, tornaram-no o centro das atenções. Tal como ele, aparentemente, queria...

Estaria tudo bem, não fosse o fato de que as pessoas na mesa, habituadas a minha visão niilista e pouco ortodoxa da vida, imediatamente alçaram o tal sujeito “do bem”, a posição de meu nêmesis: “Tá vendo Luiz!?? É assim que você TEM que ser!”



E eu, por entre resmungos mal humorados, fazia pequenas e silenciosas preces para os deuses em que não acreditava e antipatizava: “Da boca do lobo, da pata do tigre, da vingança das mulheres e dos 'homens de bem', livrai-me senhor!”

Aquele sujeito, segundo meus “queridos amigos” a mesa diziam, era a minha antítese (e logo, um modelo de virtude e bondade que eu devia seguir) e insistiam que eu Devia ser como aquele cara, porque não tenho certeza do porquê, mas pessoas próximas que gostam de mim pelas suas razões (equivocadas ou não), cismam de salvar-me a alma, tentando fazer com que eu seja um anjinho de candura e bondade cristã, apoiador de boas causas, alguém que professa fé em Deus, na moral, nos bons costumes e na porcaria do modo de vida americano e blá-blá-blá... Como se eu não soubesse que gostam de mim exatamente por eu ser “mau” como sou...



Para a minha sorte, aquele homem continuava metralhando-nos impiedosamente com suas bravatas auto-afirmativas, proclamando dentre outras coisas: a defesa da liberdade do Tibete (coisa que todo mundo apoiou sem sequer saber localizar o Tibete num mapa), a proteção da floresta Amazônica, da fauna, da flora, das crianças, das baleias, dos rios,  a camada de ozônio, os escoteiros, os animais em extinção, os meninos de rua, os pobres, as minorias, o UNICEF e mais um porrilhão de outras boas causas.

Estava entretido demais consigo mesmo, encantando com o próprio coração bom e virtuoso e duvido que fosse capaz de perceber a presença de mais alguém além de si mesmo, doutro modo teria percebido que as pessoas naquela mesa se divertiam à custa dele e as minhas, alçando-nos a posição de antagonistas involuntários.

E eu tinha decidido gostar do sujeito! E eu apoiava quase todas as “boas causas” que ele defendia!

Mas uma coisa que li há muito tempo num livro do Balzac, foi o conselho de jamais permitir que digam que você seja um sujeito “divertido”, porque esta é uma expressão de disfarçado menosprezo. Mas meu brilhante Sir Galahad, meu belo e encantador “inimigo” do outro lado da mesa, parecia estar indiferente aos sorrisos sardônicos dos que o aclamavam. Acho que aplausos devem tornar- nos surdos e cegos para as vaias que rastejam por debaixo dos mesmos. Mas, claro, essa é uma inferência meramente teórica, posto que não sei  e nunca quero saber o que é ser aplaudido.

A bem da verdade, penso que eu estava mais irritado é por ter aceitado o convite para a bebida e não conseguir encontrar um modo elegante de cair fora daquela mesa sem parecer estar irritado e mais irritado ainda por ficar preocupado com o que eu aparentaria ou não.

Olhava para a pregação de boas causas daquele homem e quase podia ver um halo sobre a sua cabeça e, por comparação e por maioria de votos, constatei que definitivamente, eu sou um sujeito “do mal”.

Pensar nisso e colocar- me nessa posição, fez com que eu me sentisse razoavelmente confortável e menos irritadiço. Porque se algo me dava alguma satisfação naquele momento, era me distanciar, no que pudesse, da aura de santidade patética daquele sujeito. Foi então que, para coroar uma frase de efeito ele soltou emocionado essa pérola:

“Porque uma célula feliz, convida a célula do lado: ‘Vem ser feliz comigo!’ E elas convidam outra e outra e logo todo organismo do sujeito está iluminado de felicidade!”

Ovação total. Ouviu-se o costumeiro “ohhhh” na mesa, mas desta feita, alguém que estava ao meu lado teve a feliz ideia de me cutucar (fisicamente! Praticamente me cravou o cotovelo por entre as costelas.Tem gente que arrisca a vida por pouco...!) quase berrando em meus ouvidos:
“Tá veeeenndo Luiz!!!”

Engasguei com o ultimo gole de bebida amarga (que a essas alturas, comparada à bile e à raiva que percorria o veneno vermelho das minhas veias, estava quase doce), mas terminei a bebida. Até então havia me limitado a resmungar. Era a minha deixa para ir embora. Disse levantando-me da mesa:

“Isso tem lá sua lógica...Por exemplo, uma célula em metástase também convida a célula ao lado; ‘Vem fazer um tumor comigo!’ E elas juntas fazem um câncer que f@#%m o cara. “

Dito isso, deixei uma nota em cima da mesa para pagar a minha parte da conta e fui embora. Não ia dar oportunidades para réplicas e essa era uma atitude de óbvia covardia dialética, mas acredito que por umas dez encarnações já esgotei minha cota de pérolas a lançar aos porcos.

 Ia emendar um sonoro “vão para o inferno, vocês todos” ou  coisa semelhante, mas já estava longe da mesa e meio arrependido por ter falado aquilo. Não pelos meus amigos convivas, mas pelo tal “príncipe feliz”.

Certamente não merecia aquilo e não era um "mau" sujeito.
Eu era.
Eu sou.
E o inferno vai congelar antes que eu mude.

Mas não mau o bastante para não me importar em ferir os sentimentos dos “bonzinhos” (ai meu deus!Que gente irritante!) com palavras ásperas. Também me senti levemente contrariado por ter participado contra a minha vontade daquele espetáculo lamentável.

Aquietei minha atormentada consciência com a constatação que, muito provavelmente, aquele rapaz sequer ouviu minha grosseria. Como eu disse, duvido muito que ele ouvisse qualquer coisa que não fossem elogios ou a própria voz entoando loas a si mesmo.
Quanto aos meus "amigos" que fizeram a gentileza de se divertir as minhas expensas,  não disse, mas reitero o que não disse;
Vão para o diabo sem mim.
Ou deixem-me ir ao diabo sozinho.
Por que haveríamos de ir juntos?

Fora isso, tenho de aceitar que em grande parte a culpa é minha por ser tão previsível em minhas irritações e por insistir em partilhar companhias que fazem com que eu, por minha natureza, acabe sendo grosseiro e tenha cada vez menos (em companhia deles) simpatia por mim mesmo.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A tardia ignição do meu Desconfiômetro



Tenho cérebro de esquilo.
 Fato.

É o que sempre digo a mim mesmo quando tenho uma opinião desfavorável a meu respeito e como isso é quase uma constante, admira-me o fato de eu não ter ainda me mudado para um desses parques de BH e ido fazer parte de uma comunidade de caxinguelês. 

Injustiça minha, é claro. Estou sendo duro demais nesse juízo de valor.
Esquilos são criaturas espertas e agradáveis, o que é mais do que posso dizer a meu respeito. Na verdade, devo ter é um cérebro de avelã (se é que tenho cérebro) e por associação, acabei difamando a honrada raça dos esquilos.

Mostre-me uma pessoa com elevada autoestima e eu te mostrarei alguém com baixíssima autocrítica (e consequentemente, uma pessoa feliz, tal como as pessoas em geral compreendem a quimera da felicidade)

Tenho um retardo patológico para coisas importantes. Constatação triste e que, como de costume, chega- me tardiamente.

Estou dando informações que não interessam a ninguém, mas a exceção do meu metabolismo, tudo em mim funciona com uma lentidão que parece que vejo e levo a vida em tedioso slow-motion. Mas, criatura de extremos que sou, quando engreno uma marcha, adquiro uma compreensão supersônica  do que até um segundo atrás ignorava completamente. Não é uma coisa vantajosa e muito menos um processo indolor.

Então o meu “descofiômetro”, aparelho subjetivo de existência duvidosa, resolveu finalmente funcionar e agora está próximo a velocidade da luz.

Pegou no tranco e para tanto, precisei de uma ladeira onírica e me recuso a pensar que sempre necessitarei de recursos metapsicológicos para inferir coisas que deviam vir de ponderação e raciocínio. Mas que posso esperar do meu diminuto cérebro de avelã?
Meu Deus!

Como também tenho queda para exageros e melodrama, penso em Édipo arrancando os olhos quando descobre que matou o pai e casou com a mãe, mas é apenas uma outra associação inadequada. Sou um sujeito de extremos, mas nem tanto.

Mas tragédia é tragédia e não sei de condição mais trágica do que a do barril consciente de que está cheio de pólvora e que o pavio está aceso e se aproximando perigosamente.

Então, não é exatamente por não saber dançar, mas por não poder ignorar que o chão é de gelo fino, que me agarro apavorado nesses lapsos de consciência de onde olho para mim mesmo com certo desprezo. Seria bem mais digno e menos cansativo simplesmente deixar-me cair. Duvido que a queda doa tanto quanto o medo da queda...

A consciência de certas coisas é constrangedora, mais ou menos como entrar nu numa sala cheia de tias anciãs e carolas. E pior, ficar lembrando-se desse fato o tempo todo. 

Putz! Parafraseando Mafalda: “Justo a mim me coube ser eu”.
É o meu dia de Hardy, a hiena...
"Oh, dia, oh vida...."

domingo, 16 de setembro de 2012

Sábado, Sete e Quarenta



...Bem antes do que eu gostaria. Que diabos!

O mundo não dá uma folga nem para a minha preguiça de me irritar com tudo.

Sábado, sete e quarenta da manhã, pego o ônibus para ir à faculdade. Calor infernal, o que me agrada bastante porque para o tipo de criatura que sou, mesmo se chovesse fogo do céu ainda estaria frio. Mas, claro, não penso unicamente no meu conforto e já passou da hora de cair uma chuva por aqui para acabar com esse mormaço terrível que cobre BH.

Entrei no ônibus já com o humor não dos melhores.

 Saído de sei lá de que buraco, entra um casal. Cabelos desgrenhados, roupas sujas cheirando a suor de muitos  dias e a álcool. Pinga de má qualidade para ser mais exato. Jesus! Sete e quarenta da manhã!

Carregavam o que parecia ser uma TV de LCD ou coisa parecida. O Homem, cerca de trinta anos ou mais ou menos, entrou pela porta do meio, deixou a TV e voltou para  se sentar nos bancos dianteiros, bem debaixo de um letreiro onde dizia: “Reservado para idosos e portadores de necessidades especiais”

A única necessidade especial que aquele ali tinha, era a de um bom banho! Com urgência!

A mulher sentou-se bem na minha frente, ocupando dois bancos com a Tv no colo. E a viagem seguiu por uns dois quarteirões, quando  ela sacou de uma bolsa ou sacola o que parecia ser um “marmitex”. Para quem não conhece o termo, trata-se de uma embalagem feita de papel alumínio amarrotada, simulando o que deveria ser uma marmita. Meu deus!

Macarrão alho e óleo e arroz! Dentro do ônibus!  E uma droga de molho qualquer cujo cheiro forte e enjoativo deu-me um murro no estomago, lembrando-me de que na pressa de sair  acabei não tomando café.  E só o diabo sabe onde aquela mulher conseguiu um garfo. Juro! Um garfo de metal dentro do ônibus as sete e quarenta da manhã de sábado!

Agora pensando naquilo, não sei dizer o porquê não levantei e fui para os bancos traseiros do ônibus ou então descido. Porque o dia já começou mal e se eu tivesse um pouco de inteligência, teria visto nisso um sinal dos céus, descido do ônibus  e voltado para a casa e ficado por lá até depois de meia noite. Talvez o domingo começasse de modo mais ameno.

Então...

Sentado estava, sentado fiquei, talvez me penitenciando por alguma coisa. Excesso de pecados necessitando serem purgados talvez... Enquanto aquela mulher  devorava aquela comida que, de certo, era do dia anterior, fiquei pesando: “Por favor, me decepcione e não jogue os restos pela janela...”

Pois a criatura pareceu adivinhar-me os pensamentos e depois de uns torturantes minutos comendo, embrulhou os restos dos restos e atirou pela janela.  Depois sacou três Yakults da sacola, tomou os três de um gole sé e lá se foram as embalagens voando pela janela do ônibus. Que combinação maravilhosa de uma refeição matinal! Macarrão alho e óleo e Yakult!

Ainda fez uma “limpeza” na sacola que levava, tirou os restos mortais de outros alimentos e porcarias anexas e jogou tudo pela janela após o que, começou a chupar os dentes  e a limpá-los com a unha suja do dedo mindinho. Um fragmento de comida voou e ficou pregado no vidro da janela. Passou a poucos centímetros do meu rosto e eu fiquei gelado pensando nos vinte anos ou mais, que eu certamente passaria em um presídio qualquer cumprindo pena por “maloqueiricídio”, caso aquilo caísse em mim.  

E já estava engolindo de volta a bile que me subia como ácido pela garganta (porque estava certo de que ia vomitar e como estava com o estomago vazio de tudo o que não fosse ódio, tenho certeza de  que vomitaria Napalm), cabeça doendo de raiva e enjôo quando eis que entra um sujeito...Que foge a qualquer definição.

O ônibus estava quase vazio, mas o tal fez questão de ficar em pé, naquele espaço em meio ao ônibus que é reservado aos cadeirantes.  Apoiou o traseiro na barra de ferro bem na direção de quem estava sentado. No caso, de costas para mim e para a educada senhora que acabara de fazer a sua sofisticada refeição matinal.

Nada demais, mas o sujeito que... Porta alguma adiposidade, tendo-a concentrada quase que exclusivamente na região sobre os glúteos ( que numa vaca chamaríamos “alcatra”), estava usando calças largas demais, sem cinto e por efeito da gravidade (e da total ausência de bom senso), calças e cuecas largas caiam.

Que é que meus pobres olhos fizeram para merecer semelhante espetáculo?

Resultado  ostentoso do seu apetite, o sujeito certamente estava orgulhoso de sua obra, posto que ao sair de casa, deixava-a a vista de todos. Um artista sem dúvidas!

E, de certo, o tal era aparentado dos lobisomens ou da nobre família dos ursos pardos, porque eu certamente poderia passar umas trinta encarnações ou mais sem ver semelhante coisa, mas a não ser que se tratasse de um boi almiscarado dentro do ônibus, aquela foi certamente a  “alcatra humana”mais cabeluda que meus olhos já tiveram o desprazer de olhar.

Que droga de mundo horrível! Principio da Alteridade, descanse em paz!

Macarrão com Yacult, lixo voando pela janela e um “cofre cabeludo” às malditas sete e quarenta de uma maldita manhã de sábado!

Horror! Horror! Horror!




Imagem:artedootavio

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um Sopro em Minha Estupides




É uma situação desconfortável.
Saber tanto sobre o quão pouco se sabe sobre tudo.  A maioria das pessoas não sabe disso. A maioria das pessoas tem uma sorte danada. Receio que eu não esteja incluído no grupo dos afortunados ignorantes da própria ignorância. A maioria das pessoas é sabia. Eu sou, penso em meu errôneo pensar,  de uma estupidez atroz, tão mais aguda quanto mais ciente dela estou.

Mas tem momentos em que eu quase chego a me esquecer de me lembrar do quanto sou tolo. Tem momentos em que posso sem constrangimento dizer, “Foda-se!”, que é expressão grosseira, mas catarticamente a mais perfeita.
Infelizmente, são momentos bem raros.

Porém, tive um momento meio...místico esta tarde.
Estava sentado num velho e gasto banco de concreto bem de frente para um pequeno  bosque (se posso chamar assim, porque na verdade, trata-se de um jardim com algumas árvores que me agrada pelo seu aspecto meio selvagem) que há onde eu trabalho.  A tarde estava ensolarada e ventava o maravilhoso bafo de agosto. Sei lá como, mas consegui por um momento não pensar em coisa alguma. Nem percebi que estava (ou não estava) pensando em nada quando o vento soprou pelas arvores e uma chuva de folhas secas flutuou em diagonal até o chão do “bosque”. Parecia um instante em câmera lenta e eu acompanhei a queda das folhas até o chão como que hipnotizado. Era agosto (mês de desgosto, de cachorro louco e de ventania) agonizando e enchendo o ar de beleza com seus últimos suspiros.

Foi só então que, alucinando ou não, percebi que por um minuto deixei de ser extemporâneo, desconectei das lembranças do passado e das angustias do futuro e existi dentro daquele exato momento em que vivi  a queda das folhas. Foi bastante estranho  (bonito, reconfortante como uma boa noite de sono, mas estranho) e como na ultima postagem eu disse ( lembrando de uma fala ótima do filme ”V de Vingança”) que Deus(a) está no vento, talvez seja Ele(a) brincando com a minha descrença (como se fosse escolha minha acreditar ou não...) dando uma pequena mostra de sua existência.

 Se foi assim, gostei, especialmente pelo fato de ser (em teoria) uma prova de que Ele(a), caso exista,  ao contrario dos que dizem adorá-lo(a), tem senso de humor.

Lembrei-me de uma conversa antiga com uma grande amiga, uma dessas pessoas maravilhosas que a vida nos arranca de um modo ou de outro (como o vento arranca folhas das árvores), que me disse:
“Quem quer buscar a Deus, na maioria das vezes, deve-se afastar das religiões. O pensamento deve desligar-se dos preceitos acanhados; deve rejeitar as formas grosseiras e irrefletidas que as religiões envolveram o supremo ideal.”

 “Deve estudar Deus na majestade de suas obras”.

Era uma pessoa de grande fé, coisa de que ainda sou incapaz, mas hoje compreendi um pouco mais do que ela queria dizer. Eu acho.

E acho que implico demais com Deus(a). 
E na possibilidade de Ele(a) existir, dá o troco do seu modo.

Eu também tenho senso de humor , mas embora tenha apreciado muito  aquele momento, ainda preferia um desfile de anjos na Praça Sete  ao meio dia ou então que a Pampulha se dividisse ao meio mostrando o  leito normalmente  elameado  limpo e coberto por Maná.
Mas acho que isso seria esperar demais.

 Então, partindo do principio de que (segundo dizem), para Ele(a) tudo é possível, possível é que  nas horas de ócio em que não está distribuindo pragas ou bênçãos para a humanidade (segundo dizem 2), tire algum tempo para ler blogs obscuros.

Nesse caso Deus(a),  caso passe por aqui, saiba que agradeço pelo momento mágico da tarde de sol e vento, pela paralisia do tempo na queda das folhas e pelo instante de silêncio que me proporcionou; e se possível (já que para si tudo o é), gostaria de pedir  que me concedesse a graça de poder ficar inconsciente desse tanto que sei sobre o que não sei, ignorante da minha ignorância e não tão certo da minha própria estupidez.. Faça-o por capricho, por compaixão ou por misericórdia (a mim não interessa tanto o atributo quanto o resultado), mas faça. 
Ser-lhe-ia muito agradecido...

sábado, 18 de agosto de 2012

Florbela e a Noite do Meu Niilismo



Abaixo está um poema que uma pessoa cuja inteligencia e sensibilidade admiro mais do que posso expressar em palavras me enviou. Fiquei entre feliz e perplexo, pois lendo-o lembrou-se de mim, e de mim mesmo em uma outra instância.
E em uníssono ao espanto pelo (re)conhecimento destes versos que não são meus, mas calam tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu que fiz(?), eis o que me inspiraram:
                
 ...se até o Nada é relativo, nada é relativo, logo tudo é concreto, absoluto. E o que é absoluto é absolutamente desprovido de sentido, de significado. Mais ainda que o Nada. 

O que isso tem a ver com os versos? Tudo a ver e nada a ver. Porque diabos uma coisa tem que ver com outra para fazer ou não fazer sentido (que dá no mesmo)?
Você talvez nada tenha a ver comigo ou com ninguém...Deixa de ter ou tem mais significado por causa dessa sua singular desconexão com o todo?

Se ao ler isso sentir o seu estômago revirar com essas contradições, alegre-se! 
Pelo menos você ainda tem  um estômago que embrulhar! Eu já não tenho estomago para nada (pois o Nada o devorou). Apenas uma amaldiçoada e confusa cabeça pensante (coisa que ela faz de modo cada vez  mais precário como deve ter notado por essas linhas), que não posso resetar e nem deixar em stand by para dormir um pouco como você e sonhar com amenidades.

Mas hoje é uma noite tão boa quanto qualquer outra para fazer amor com os meus paradoxos.

"Foi tudo em vão até agora!"
Não há relatividade, exceto a relatividade do Nada.
É...meu niilismo não tem futuro. E nem deseja ter.

Eu ...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou! 

                                                                                      Florbela Espanca




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