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quinta-feira, 19 de abril de 2018
Como Nossos Pais
Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi, e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens
Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina na rua
É que se fez o meu braço
O meu lábio e a minha voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a idéia
De uma nova consciência e juventude
Está em casa
Guardado por Deus, contando o vil metal
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais
(Belchior 1976)
segunda-feira, 26 de junho de 2017
Escolha a vida...
"Escolha
a vida".
"Escolha
a vida" era um slogan de uma campanha anti-droga dos anos 80...
Só
que nós adicionamos coisas.
Eu
diria, por exemplo:
Escolha...
...uma
lingerie nova na esperança de reviver
uma
relação morta.
Escolha
bolsas caras.
Escolha
sapatos de salto alto.
Lã, caxemira e seda para sentir que qualquer coisa te faz feliz.
Escolha
um iPhone fabricado na China por
uma
mulher que pulou de uma janela...
E
coloque-o em sua bolsa feita
em
uma fábrica que pode pegar fogo a qualquer momento.
Escolha
Facebook, Twitter,
Snapchat,
Instagram...
...
e milhares de outras maneiras ridículas
de
expor e oferecer sua vida a estranhos.
Escolha
atualizar seu perfil.
Poste
uma foto do que você comeu no café da manhã e diga ao mundo o que você vai ter para
um almoço na esperança de que alguém se importe.
Olhe
perfis de ex-namorados, procure paqueras antigas, desejando de que eles não
tenham envelhecido tanto quanto você.
Escolha
olhar as fotos de viagem de alguém, mas não olhe ninguém nos olhos...
Escolha
postar um vídeo ao vivo de sua primeira masturbação, poste e partilhe tudo, até
sua morte.
(Interação
humana reduzida
a
mera informação.)
Escolha
10 coisas que você não
sabia
sobre celebridades.
Escolha
ignorar tudo o que você não sabe sobre você...
Escolha
gritar e reclamar sobre o barulho.
Escolha
ouvir e contar piadas de estupro, racismo, pornografia de
vingança
e pedofilia deprimente.
Escolha
achar que nunca aconteceu o 11 de setembro e se aconteceu,escolha achar que foi
causado pelos judeus.
Escolha
um contrato de 10 horas e uma
viagem
de 2 horas para o trabalho...
...E
o que é pior, escolha a mesma merda para
os
seus filhos!
E
talvez você venha um dia a pensar que
Fosse
melhor nunca ter existido;
E depois talvez possa relaxar e afogar a dor...
E depois talvez possa relaxar e afogar a dor...
com
uma dose desconhecida de uma droga desconhecida feita em uma cozinha
desconhecida por um desconhecido.
Escolha
promessas quebradas.
Escolha
arrepende-se de tudo.
Escolha
culpar os outros...
Escolha
nunca aprender com
seus erros.
Escolha
isso para ver a mesma porcaria de história se repetir.
Escolha
apegar-se lentamente
à
migalha que você pode conseguir em vez de lutar por aquilo
com
o que você sonhou.
Escolha
contentar-se com menos e com um sorriso no rosto,
escolha
a decepção...
Escolha
ignorar seus entes queridos, até você ver que, no futuro, um por um, todos
desapareceram e quando eles se forem, um pedaço
de
você morrerá com eles.
E
não haverá nada mais de você que
Poderia
te mostrar que você está vivo ou morto.
Escolha
o seu futuro,
“Escolha
a vida.”
(Adaptado do roteiro do filme “Trainspotting2”)
domingo, 16 de agosto de 2015
Citações que valem o susto da queda do mergulho pra dentro..
E nunca me senti assim
tão profundo
e ao mesmo tempo,
tão alheio de mim
e tão presente no mundo...
Allbert Camus
tão profundo
e ao mesmo tempo,
tão alheio de mim
e tão presente no mundo...
Allbert Camus
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Uns fragmentos de William Butler Yeats
Aquela
moça ensandecida,
Ao acaso forjando a sua música e poesia,
Dançando em meio à praia; a alma a parte de si mesma,
A subir e descer aonde a moça não sabia;
A esconder em meio ao peso da bruma,
A rótula quebrada,
Eu proclamo essa moça algo de belo e alto,
Ao acaso forjando a sua música e poesia,
Dançando em meio à praia; a alma a parte de si mesma,
A subir e descer aonde a moça não sabia;
A esconder em meio ao peso da bruma,
A rótula quebrada,
Eu proclamo essa moça algo de belo e alto,
Ou algo perdido
com bravura e de mesmo modo,
Com
bravura encontrado.
Pouco importa o ocaso, a tragédia,
Ela envolvia-se em desesperada música,
Ela abraçava-se, afagava-se,
E não se ergueu em triunfo,
Pouco importa o ocaso, a tragédia,
Ela envolvia-se em desesperada música,
Ela abraçava-se, afagava-se,
E não se ergueu em triunfo,
Onde os fardos e pesos repousavam,
Som que fosse simples e inteligível,
porém cantou: "Mar esfomeado, ó mar faminto de mar".
No Oriente, ela oculta alegria antes pouco antes de partir pela manhã.
No Ocidente, ele chora no orvalho e anseia pelo passado morto,
O vento Sul está a derramar as rosas de fogo carmesim:
A vaidade da Letargia, a esperança, a ilusão, o infinito livre arbítrio...
Os cavalos da desgraça imergiam no barro pesado.
Amada, aceite estes meus olhos próximos aos teus,
O seu coração batendo,
Sobre o meu coração a bater,
E seu cabelo a cair macio sobre a
densidade do meu espírito.
Afogo do amor perdido na hora da mais profunda sombra,
Ocultam suas crinas golpeando o mundo sob seus cascos de tormenta...
domingo, 24 de agosto de 2014
Algo a se lembrar para ter motivos (para o que quer que sejam motivos....)
"O impossível não é uma limitação.
É um convite..."
domingo, 30 de março de 2014
Dos restos dos meus diálogos oníricos
...e mesmo que a gente não venha a este mundo aparelhado com uma tecla f5, é necessária atualização constante do que nós somos e isso implica longos auto-diálogos para dentro. Então conhece a si mesmo para tornar-se o que você é.
Isso requer mudança, porque sem mudança há a extinção do que somos, porque a moeda de troca pela aceitação do mundo e (pasme) até de nós mesmos, é a nossa identidade. Não a cristalize, pois, em modelos.
O que não muda, desaparece e você tem sim de mudar constantemente para estar cada vez mais parecido consigo mesmo. "Só o mutável pode perdurar", lembra?
..e antes que o despertador grite para que você vá (ainda) mal aparelhado para a batalha do mundo, me deixe dividir com você uma quase-verdade que troquei por uma imperfeição de que gostava muito:
O Amor tal como nos é ensinado não existe. O que existe é desejo de posse.
É só pensar que se você diz amar algo ou alguém, ficará apavorado com a ideia de ter de partilhar com outro esse objeto do seu amor.
Talvez até o faça, por razões que só o inferno compreende, mas não sem uma quota considerável de sofrimento.
Houvesse um mandamento contra essa idéia, seria: "Não chamarás 'amor' o teu desejo de exclusividade emocional ou sexual sobre nada ou ninguém".
Não é um pensamento confortável, mas talvez te desperte mais eficientemente do que as xícaras de café amargo e o banho frio.
O único amor real, é o que se tem pelas ideias, porque essas, você ama e faz questão de partilhar e de soprar ao vento como dentes-de-leão.
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
E você...
...até pode pretender saber qualquer coisa sobre o amor. Mas eu ainda acho que feliz era Lili, que não amava ninguém... E J. Pinto Fernandes, que veio por fora da pista e ganhou a corrida.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Obra Maravilhosa de Fernando Esteves Pinto...
Queres existir nesta folha
do tempo que viaja dentro da minha mente?
Vou pôr um livro nas tuas mãos enquanto te despes.
Vou pôr um livro nas tuas mãos enquanto te despes.
Não quero que me
ames se pensas que o amor é para sempre.
Tenho uma idéia da minha vida que nem sequer é verdadeira.
Tenho uma idéia da minha vida que nem sequer é verdadeira.
Uma história de amor.
E se eu te dissesse que amamos sempre pelas razões erradas?
Os erros eternos
fazem grandes histórias de amor.
Não tenho uma imagem do teu sorriso.
Não tenho um desenho da tua boca.
Desejas amar-me em que sentido?
Não tenho um desenho da tua boca.
Desejas amar-me em que sentido?
Que tempo queres que exista para se dar o encontro?
Um nevoeiro corporal em tudo
o que nos espera.
Tenho as tuas palavras, mas esvaziei-as da emoção que traziam.
Tenho as tuas palavras, mas esvaziei-as da emoção que traziam.
No fundo és uma luz no desejo de não existires.
E eu escrevo este tempo perdido no corpo que procuro.
Se eu deixasse de pensar e escrever, eu sei, tu não sentirias medo.
E eu escrevo este tempo perdido no corpo que procuro.
Se eu deixasse de pensar e escrever, eu sei, tu não sentirias medo.
O espetáculo
burlesco que vai à minha cabeça.
Esta manhã vi teu rosto em todas as
mulheres com quem me cruzei na rua.
É uma espécie de escrita em que vou
abandonando pequenos pensamentos que não acho interessante.
No fim fiquei sem nada, mulher nua com um livro a ser lido.
Tu amas o tempo e eu não vivo no teu tempo.
No fim fiquei sem nada, mulher nua com um livro a ser lido.
Tu amas o tempo e eu não vivo no teu tempo.
Tu amas as minhas
palavras e eu não sou as palavras que escrevo.
O amor e a literatura são parecidos na mentira. E é sempre triste não amar alguém porque se tem medo da mentira.
O amor e a literatura são parecidos na mentira. E é sempre triste não amar alguém porque se tem medo da mentira.
Tenho saudades dos
teus dias passados longe da minha vida, é uma verdade. Se isso não chega para
se sentir o amor, nunca poderei amar a tua liberdade.
Mulher no tempo com livro
aberto no coração nu.
Um dia encontrar-te-ei dentro duma frase que fale de amor.
Um dia encontrar-te-ei dentro duma frase que fale de amor.
Fernando Esteves Pinto
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Da Anatomia Da Ordem e do Caos
E o caos, contraditoriamente, está na ordem do dia.
Acho que aquela parte metafísica do homem que costumeiramente chamamos
de “coração” é o mais vigoroso agente e também morada do caos em
nós.
Por outro lado, se existe um órgão humano que está ligado à ordem das
coisas, esse é o estômago. Porque é o estômago a doer quando as coisas estão
caóticas, um formigamento próximo ao diafragma que pede desesperadamente para
que as coisas se aquietem de alguma forma.
Elas tendem a aquietar-se, porque a diferença entre o homem e o universo
que o cerca (e também o que nos torna singulares), é que o homem tende ao caos,
mas o universo tende a ordenar-se e a aquietar-se, daí o homem ser, para
prejuízo seu, um ser rebelde por natureza, contra a regularidade das coisas.
Nós só existimos porque "balançamos o barco". Dói como o inferno, mas
é a nossa natureza ser contrários a natureza.
Tudo se aquietará, mas nada será como antes. E a mudança traz medo, que
é o sentimento básico por detrás do desejo por ordem.
Há hora para tudo. Essa é talvez uma hora de escuridão e de tempestade.
Uma hora de incertezas e de tempo fluido. A impressão doida e doída de que o
furacão talvez esteja ainda no olho e sei-lá-o-que nos espreita a espera de
mais um poderoso e doloroso golpe.
Por dentro do emaranhado de neurônios e hormônios, demônios
dançam na confusão de um monte de sentidos e o mundo interno está de
ponta-cabeça invertida e ao contrário.
Mas lá fora, o sol ainda brilha, o vento balança nas árvores, a bolsa de
valores oscila, “os homens fazem guerra e Mona Lisa continua sorrindo”.
É estranho...
Mas o caos está só nas entranhas do homem.
Diagnose
Multiplicamos doenças por prazer,
Inventamos uma necessidade horrível, uma dúvida vergonhosa,
Regalamo-nos na licenciosidade, nutrimo-nos da noite,
Criamos balbúrdia no íntimo – e não saímos.
Por que sairíamos?
Despojado de sutis complicações,
Quem poderia encarar o Sol senão com temor?
Este é o nosso refúgio contra a contemplação,
Nosso único refúgio contra o simples e o claro.
Quem irá sair rastejando de sob o escuro
Para ficar indefeso no ar ensolarado?
Não há terror da obliqüidade tão certo
Quanto o mais notável terror da desesperança
De saber como é simples a nossa mais profunda necessidade,
Como é intensa, e como é impossível satisfazê-la.
Marcia Lee Anderson
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Lisbon Revisited (1926)
Nada me prende a
nada.
Quero cinquenta
coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma
angústia de fome de carne
O que não sei que
seja -
Definidamente pelo
indefinido...
Durmo irrequieto, e
vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme
irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as
portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de
todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa
achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma
vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos
sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se
sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só
desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a
intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de
cansaço;
E um tédio que é até
do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino
ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do
sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de
literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto,
nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu
espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da
alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma
névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e
atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados,
últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos
sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por
existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha
infãncia pavorosamente perdida...
Cidade triste e
alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o
mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a
voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei
a voltar?
Ou somos todos os Eu
que estive aqui ou estiveram,
Uma série de
contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos
de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais
longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo -
Lisboa e Tejo e tudo -
Transeunte inútil de
ti e de mim,
Estrangeiro aqui como
em toda a parte,
Casual na vida como
na alma,
Fantasma a errar em
salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e
das tábuas que rangem
No castelo maldito de
ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa
através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz
fúnebre desconhecida,
E entra na noite como
um rastro de barco se perde
Na água que deixa de
se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me
revejo!
Partiu-se o espelho
mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento
fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de
mim!...
Álvaro de
Campos
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Etc. (Cassiano Ricardo)
Para que o mundo exista, existimos.Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
(Fernando Pessoa)
Pois seja.
Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?
Seria a árvore dos dourados pomos, etc.
O que é ignorado não existe.
O que é eterno também não existe.
A eternidade é uma forma de não existência.
Ao menos para nós o mundo não existiria
se não fosse existirmos.
Para mim, por exemplo, o mundo existe
porque ora estou alegre, ora sou triste.
Mas no fim vem a morte e… nos leva.
O seu poder é bem maior que o nosso;
porque é o da treva, e o nosso, esse não passa
de só dar existência ao que claramente já existe,
ao que só existe em razão dos nossos frágeis sentidos.
Que podemos ouvir, olhar, tocar, etc.
Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim… que foi? Um homem suicidou-se.
O dedo lhe está preso, ainda, no gatilho,
rígido como uma hora certa. Sem nenhum
arrependimento.
Muita gente reunida em redor do seu corpo.
Muitos rostos examinando o seu rosto.
Mas ele suicidou-se, apenas? Não é, isso, bem menos
do que ele fez?
Ele desceu violentamente a cortina da noite
sobre nossos rostos, que só continuam vivos
para nós.
O seu corpo ali está, presente a todos,
mas nós — que somos todos — já estamos ausentes.
Ele nos suprimiu.
Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.
Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Ele desceu violentamente a cortina da noite.
Jogou ao chão a sua própria estátua.
Não aceitou a explicação da vida.
Fez qualquer coisa de mais belo e mais monstruoso.
Pois nem Deus (e Deus é Deus)
conseguirá, jamais, fazer o que ele fez: suicidar-se.
Ah, ele conserva ainda
na mão a arma com que apagou o sol e as estrelas.
Como dizer-se apenas: suicidou-se?
Agora virá a mulher e essa mulher o abraçará loucamente.
A esposa, e um anjo, a filha, lhe dirão palavras estranguladas.
Virá a ambulância. Alguém já chamou a polícia,
e haverá autópsia, etc.
Cassiano Ricardo
domingo, 26 de agosto de 2012
sábado, 18 de agosto de 2012
Florbela e a Noite do Meu Niilismo
![]() |
Abaixo está um poema que uma pessoa cuja inteligencia e sensibilidade admiro mais do que posso expressar em palavras me enviou. Fiquei entre feliz e perplexo, pois lendo-o lembrou-se de mim, e de mim mesmo em uma outra instância.
E em uníssono ao espanto pelo (re)conhecimento destes versos que não são meus, mas calam tão dentro de mim que perguntar carece, como não fui eu que fiz(?), eis o que me inspiraram:
...se até o Nada é relativo, nada é relativo, logo tudo é concreto, absoluto. E o que é absoluto é absolutamente desprovido de sentido, de significado. Mais ainda que o Nada.
O que isso tem a ver com os versos? Tudo a ver e nada a ver. Porque diabos uma coisa tem que ver com outra para fazer ou não fazer sentido (que dá no mesmo)?
Você talvez nada tenha a ver comigo ou com ninguém...Deixa de ter ou tem mais significado por causa dessa sua singular desconexão com o todo?
Se ao ler isso sentir o seu estômago revirar com essas contradições, alegre-se!
Pelo menos você ainda tem um estômago que embrulhar! Eu já não tenho estomago para nada (pois o Nada o devorou). Apenas uma amaldiçoada e confusa cabeça pensante (coisa que ela faz de modo cada vez mais precário como deve ter notado por essas linhas), que não posso resetar e nem deixar em stand by para dormir um pouco como você e sonhar com amenidades.
Mas hoje é uma noite tão boa quanto qualquer outra para fazer amor com os meus paradoxos.
"Foi tudo em vão até agora!"
Não há relatividade, exceto a relatividade do Nada.
É...meu niilismo não tem futuro. E nem deseja ter.
Eu ...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Das Alegrias e das Paixões
“Irmão, quando tens uma virtude e
essa virtude é tua, não a tens em comum com ninguém.
Na verdade, a queres chamá-la pelo seu nome e acariciá-la; queres
puxar-lhe a orelha e divertir-te com ela.
E vês! Dás-lhe agora um nome, que é comum a ti e ao povo, e
tornaste-te povo e rebanho nas relações com a tua virtude!
Melhor seria que dissesses: “Inexpressável e sem nome é o que
constitui o tormento e a doçura da minha alma, e o que é também a fome das
minhas entranhas”.
Que tua virtude seja demasiado
alta para a familiaridade de denominações; e se necessitas falar dela não te
envergonhes de balbuciar.
Fala e balbucia assim: “Este é o meu bem, o que amo; só assim me
agrada inteiramente; só assim é que quero bem!
Não o quero como mandamento de um deus, nem como uma lei e uma
necessidade humana; não há de ser para mim um guia de terras transcendentes e
nem para paraísos.
O que eu amo é uma virtude terrena, que se não relaciona com a
sabedoria e menos ainda com o senso comum.
Este pássaro, porém, construiu o seu ninho em mim; por isso lhe
quero e o estreito ao coração. Agora incuba em mim os seus dourados ovos”.
É assim que deves balbuciar e elogiar a tua virtude.
Dantes tinhas paixões e as chamava más. Agora, porém, só tens as
tuas virtudes: que brotaram das tuas paixões.
Puseste nessas paixões o teu objetivo mais elevado; então passaram
a ser tuas virtudes e alegrias.
Ainda que fosses da raça dos coléricos, ou dos voluptuosos ou dos
fanáticos, ou dos vingativos, todas as tuas paixões acabaram por se mudar em
virtudes, todos os teus demônios em anjos.
Dantes tinhas no teu antro, cães selvagens, mas acabaram por se
converter em pássaros e aves canoras.
Com os teus venenos preparaste o teu bálsamo; ordenhaste a tua
vaca de tribulação e agora bebes o doce leite dos seus úberes.
E nenhum mal nasce em ti, a não ser aquele que brota da luta das
tuas virtudes.
Irmão, és bem-aventurado quando gozas uma virtude, e nada mais,
pois assim mais rapidamente passarás a ponte.
É uma distinção ter muitas
virtudes, mas é sorte bem árdua; e mais de um foi morrer no deserto por estar
farto de ser batalha e campo de batalha de suas virtudes.
Irmão, a guerra e as batalhas são males? Pois são males
necessários; a inveja, a desconfiança e a calúnia são necessárias entre as tuas
virtudes.
Repara como cada uma das virtudes deseja o mais alto que há: quer
todo o teu espírito para seu arauto, quer a tua força toda na cólera, no ódio e
no amor.
Cada virtude é ciosa das outras virtudes, e os ciúmes são uma
coisa terrível. Também há virtudes que podem morrer por ciúmes.
O que anda em redor da chama dos ciúmes, acaba qual escorpião, por
voltar contra si mesmo o aguilhão envenenado.
Ah, meu irmão! Nunca viste uma virtude caluniar-se e aniquilar-se
a si mesma?
O homem precisa ser superado. Por isso deves amar as tuas
virtudes, porque por meio delas perecerás”.
Assim falou Zaratustra
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