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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Poema sem data ou Dente de Leão 2



Ficou no ar feito perfume ou a tensão que precede o atroz...
Após a sua passagem ficou essa certeza
De que ha beleza no mundo,
E sol por sobre aquelas nuvens escuras..

E o desejo pelo fogo e calor que exala desse desejo,
E que ficou no ar e na paisagem depois de sua passagem,
É dessas coisas que não cabem em dicionário..
É dessas respostas para perguntas que nunca foram feitas...

E enquanto isso me percorre as veias em febre e a cabeça em êxtase,
Eu acelero o carro dos meus pensamentos e devaneio estradas infinitas,
Enquanto atravesso ruas de trânsito lento, sentindo felicidade em todos os meus sentidos.

Sussurre enquanto seu corpo treme no meu...
Suspire no ar enquanto minha alma devora cada instante...
Desses, quando desejo que o tempo pare ou exista todo de uma só vez.
Você deixou um pouco de sol, lá nesse paraíso qualquer de onde fugiu?

Eu caio,
Enquanto o ritmo da música diminui e seus cabelos varrem o ar.
Minha pulsação acelera com o mundo e eu sou feliz em câmara lenta..

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Em Três Tempos




(Tarde)
Letárgico, olhava para dentro em queda livre, sentindo a vertigem própria de quem se abisma em si mesmo.

Sentia e ponderava a impertinência que é o sentir.
Me sentia impertinente...

E divagava em meu divagar, me concentrando em me concentrar, extraordinariamente perdido de mim, acendendo cigarros esquecido de que não fumo...

E olhava para a janela fechada tentado me recordar do que era o ânimo para abrir a janela.
Tentando me lembrar do que é lembrar.
E enquanto olhava, entrou pela janela o sol e uma bola
Estilhaçando vidro e letargia.

Pela janela quebrada por onde entrou sol e bola eu olhava a me olhar uma menina com o sol nos olhos e nos cabelos.
O mesmo sol que me entrou pela janela junto a bola.

(Noite)

Experimento estar desperto depois de semanas de sonambulismo insone,
Estico os nervos adormecidos da literatura
E me flexiono atordoado em linhas novamente...
A bola ainda está no chão com o vidro quebrado e o sol arde agora em algum lugar da china e de mim.

(Manhã)

E o que lhe posso dar, criança antiga como as histórias que se contam às crianças?
Há alguma novidade que eu possa contar que já não esteja embolorada de antiguidade?
Há algum presente que eu lhe possa legar no futuro que não esteja enraizado ao passado?
Há perguntas que lhe possa fazer cujas respostas não tenha adivinhado em seus jogos solitários de advinhas?

Eu lhe poderia amar, mas que é o amor que eu conheça, que não seja essa fome ardente que consome até as cinzas e continua a consumir mesmo quando já não há o que consumir?

Tenho um Everest  de motivos, um labirinto de livros não escritos na memória com todas as histórias ainda por contar, mas que esquecemos.

Sei por instinto, como o sabem as feras, todas as alegrias e agruras do mundo na última hora.
Ainda tenho uma garrafa daquele vinho transformado, que antes fora água, e que antes fora chuva, e que antes fora a lágrima de alguém que bebia vinho sozinho...

Cigarros meio fumados, em meios cinzeiros nas cinzas de uma meia manhã cinzenta...
Uma vida meio vivida...

Enquanto recolho do chão os cacos de vidro quebrados e fragmentos da minha consciência adormecida, corto os dedos, conto as horas e me movo em câmara lenta enquanto tento decifrar o mistério que te faz tão jovem e tão antiga.

Sobe a fumaça evolando do meu cérebro em ebulição, esses meus cabelos brancos subitamente pueris diante do seu corpo pós adolescido...

Em dó menor eu desafinei minhas angustias numa sinfonia muda de letras por dias infinitos.
Houve alguma vez dentro ou fora de um poema, palavra que descrevesse o assombro?
Se houvesse, haveria o assombro e haveriam palavras, mas não poesia...
Não haveria você e não haveria eu a escrever sobre escrever sobre você.

Eu faço um poema que rasteja por debaixo dessa prosa e saio do meu transe e entro no seu.
Faço cópulas com as palavras, tentando rimar o que vejo quando olho pra você, com o que eu deveria estar vendo.

E te destino essas linhas e entrelinhas e o que há entre elas e que não escrevi.
E amanhã devolverei a bola, mas acho que reterei o seu sol...



Para Lili, pelo resgate...









segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Amici, ad Qui Venisti?


E aquilo chegou-se deslizando da escuridão da noite para a luz das labaredas na fogueira.
Não desrespeitou meu silêncio com saudações vazias e retribui-lhe a gentileza calando-me por meu turno. Claro que não pediu licença e nem era necessário. Eu era dono das cinzas e da madeira que crepitava, mas não do fogo, porque o fogo não pertence a ninguém.

Acocorou-se de frente e ali deixou-se ficar como eu, absorvido pela dança das chamas.
Era uma sombra, ou coisa que mais familiar seria se eu a chamasse assim. Não sabia o que era e nem parecia me importar ou se importar. Compartilhávamos o fogo, mas não a presença um do outro. Éramos então duas sombras gentis, zelando pela solidão um do outro.

Não sei se tinha olhos para ver ou um rosto que fosse visto, mas era uma sombra. De algo ou alguém...
Era noite escura  e ventava muito naquele deserto dos sentidos.  Seja lá o que isso for...
Uma parede de breu translucida se erguia alguns metros além do alcance do dourado das chamas, o deserto e o mundo se resumiam a aquele círculo e aquela sombra pareceu um pedaço da noite infinita a se desgarrar e vir aquecer-se, embora não fizesse frio.  

Não era do tipo supersticioso e não havia motivo para temer o que quer que fosse que viesse noite adentro. Mas algo naquela sombra solitária atraída pela fogueira de um vagabundo dos ermos  me inquietava.
Veio na direção contraria a que eu seguia, muito embora eu não tivesse direção alguma a seguir, o que é a coisa mais bela em um deserto – Não ter caminhos...

Mas eu sentia, muito mais do que sabia, que aquela sombra vinha na não-direção contrária, e eu pisaria nas pegadas dela voltando e ela pisaria em minhas pegadas indo.

Talvez...
Talvez fosse eu voltando de lá, daquele lugar para onde eu não ia seguindo sem querer chegar a lugar algum enquanto olhava para o céu. Talvez aquela sombra agachada perto do fogo olhando para o infinito das chamas fosse eu, mais velho e imensamente mais sábio. Ou pelo menos, menos miseravelmente  tolo. 

Talvez me olhasse dali do outro lado da fogueira como sombra também... Uma sombra da sua juventude, da sua infância, do caminhante sem rumo que foi e que muitos anos antes se sentou numa caverna meio perdida num deserto dos sentidos, ponderando sobre a natureza de uma sombra.

Talvez me olhasse com compaixão ou com pesar, talvez me invejasse a pele ainda virgem das muitas cicatrizes que levava e a alma ainda carregada de anseios...

E eu querendo saber se ele havia encontrado um pássaro pintado naquele céu infinito acima do deserto.
Mas se fosse eu, claro que não me diria.

Eu jamais pouparia a mim mesmo o esmo em que vagava e a jornada, e a solidão das dunas e a espreita de Graograman e o vento quente no rosto e a sede de água e de mim mesmo...

Não. Estava decidido a, caso encontrasse a mim mesmo em algum momento da ida ou da volta, não faria nada a não ser partilhar um silêncio a volta de uma fogueira...

E a madrugada rompeu  a escuridão e tão silenciosamente quanto veio, aquilo foi para fora da caverna, das minhas vistas mas não dos meus pensamentos, enquanto eu caminhava pela paisagem árida saudando o sol e o vento maravilhoso e sem perceber, pisava os passos  que vinham de lá, de além das dunas, marcados na areia colorida....

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Cognitio




Minha historia foi a seguinte:

Eu nasci, vivi e eu morri.
Vivi como um homem de fé, procurei a virtude piedosa e quando morri, estava certo de entrar numa outra vida e num modo melhor de existência, mas quando a luz se apagou...nada! Não havia nada lá e  eu estava morto e acabado e...

Espere aí! Isso não pode estar certo! Como eu poderia ter acabado se estou aqui a contar isso??

Na verdade não foi assim que aconteceu. Eu vivi e eu morri.
Mas eu vivi como um Ateu fundamentalista, victo e convicto e morri assim. Em meus momentos finais escarneci da morte, ri-me das preces dos meus tolos entes queridos por minha alma inexistente e apaguei. Esperava depois de morto...Nada. Mas para a minha surpresa, havia um depois, um além. Cheguei a um lugar que não era um lugar, mas um conceito. Daí pensei:
“Diabos! E não é que aquele bando de religiosos tinha razão?”
E agora?


Ah, cometi um equivoco aqui. Devem me perdoar. Não se pode se fiar na própria memória depois de morto. A verdade é que eu morri. Mas havia vivido como um cristão devotado e sincero. Quando segui a luz e cheguei perto do trono de Deus...Essa não! Jesus não estava ali. Era o Ganesha sentado no trono! E eu havia até mesmo debochado daquele deus-menino-elefante de quatro braços enquanto estava vivo! 
E agora?

Não.... Agora tenho certeza. Foi assim. 
Eu vivi e depois morri. 
Mas havia vivido a vida toda como um Budista fiel. Depois que abandonei minha carne, sabia que depois de ter vivido corretamente no caminho óctuplo, iria alcançar o  Nirvana, mas cheguei num lugar onde havia um trono e sentado no trono, reconheci de imediato aquela figura. 
Por todos os sagrados Lamas, aquele era Jesus!
E agora?

...

Eu morri como vivi.
Na dúvida. Nunca encontrei um modo mais honesto de se viver, o que talvez tenha sido um erro. Talvez meu único acerto. Estava prestes a descobrir.
Ou não...

Estava apavorado diante do novo, do incerto, daquilo do qual tudo e tanto especulei, mas nada sabia de fato. 

Eu estava saindo do mundo tão ignorante e desamparado quanto quando nele entrei. E assim como estava preparado para nele entrar, mesmo indefeso e com medo, estava preparado para dele sair. Engraçado como a morte e a vida parecem  portas de passagem para as mesmas incertezas...

Fiquei feliz pela minha vida não passar diante de mim como num filme, como eu ouvi certa vez que acontecia. Eu conhecia bem o roteiro e no geral, odeio reprises. E seria maçante ter de repassar todo o tédio de uma existência de desequilíbrio, alegrias, tristezas, rever rostos amados apagados pelo tempo e circunstâncias e idade; e apegar- me à lembrança renovada deles, o que tornaria minha morte mais dolorosa do que devia. Se é que deveria haver alguma dor na morte, como tanta houve na vida. Eu devia abandonar aquilo, do mesmo modo que abandonei o conforto do útero, para correr a corrida humana.

Mãos dadas com o meu medo e desamparo, havia uma esperança, tão tênue quanto o fôlego que me abandonava.

Torcia no meu intimo, que todos, absolutamente todos aqueles que ao longo da vida me apontaram dedos acusadores e caminhos para a salvação, estivessem certos e eu entrasse numa outra vida, ainda que fosse para ser punido num inferno porque qualquer forma de existência, mesmo penosa, parecia-me preferível a desaparecer para sempre. Supondo que há uma alma, a alma não reconhece o nada.

Mas torcia ainda mais, para que os deuses, se existissem, fossem mais piedosos e compreensivos do que seus muitos arautos, que condenaram a minha humanidade frágil por eu nunca estar a altura de sua semi-divindade, e se apiedassem de mim, antes poderoso e viril, agora quebrado, sozinho.

Pensei na minha mãe. Fazia muitos, muitos anos que eu não pensava nela. Talvez esperasse que ela estivesse lá para me embalar, me segurar e cuidar de mim, como fez antes, mas, claro, era uma espera tão imersa na incerteza quanto a que experimentei naqueles segundos traumáticos depois do parto. Eu esperava, mas duvidava que ela estivesse lá; uma estranha esperança na qual não podia me apegar. Uma esperança desesperada.

Apaguei como uma vela soprada e não houve nem túnel de luz e nem um coro de anjos a me saudar. Tudo bem. Eu já estava, depois de uma longa carreira no mundo humano, desprovido da vaidade de esperar cerimônias e honrarias. Eu não esperava um coro. Apenas esperava que houvesse alguém lá que me recebesse. Que houvesse um lá e que houvesse um alguém.

Eu morri e fui levado pelas mãos do nada. Era o que fui a vida toda; um passarinho atordoado na tempestade, chicoteado pelo vento, desejando que depois daquela cortina de nuvens escuras, houvesse um galho qualquer de uma árvore qualquer, onde eu pudesse por fim repousar as asas cansadas.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

São Tempos Difíceis...




"Já tive sonhos que nunca mais me abandonaram
e que me mudaram as idéias; espalharam-se dentro de mim, como
o vinho se espalha na água, e alteraram a cor dos meus
pensamentos."


Li isso há tanto tempo em “O Morro dos ventos Uivantes” e fiquei tanto tempo sob o impacto dessas palavras, que sim, elas também se espalharam dentro de mim e alteraram a cor dos meus pensamentos. Ou os meus pensamentos se tornaram tão densos que por causa deles eu tenho lá aqueles sonhos estranhos (mesmo acordado) e eu também acabo acordando sempre com aquela sensação de que “duendes me usam como saco de pancadas durante a noite”.

Chega-se a um ponto que o que é pensamento e o que é sonho fica indistinto e ou os pensamentos são os  sonhos disfarçados de razão ou os sonhos são uma forma mais subjetiva e mais elevada de pensamento.

Não sei...

Só sei que tenho pensado que embora eu lamente, (num luto que cada vez mais me parece impossível de elaborar), que certas pessoas morram (quando a coisa mais importante do mundo é que estivessem vivas), lamento em maior medida, embora não tão dolorosamente, que a maioria das pessoas que me cercam, embora respirem, não estão de fato vivas.

E que quando se perde a referência o que fica tem mesmo de valer o esforço da existência...

São mesmo tempos difíceis para os sonhadores...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Reencontre-se




Recupere a sua compreensão e conexão com o absurdo. Que há com você? Se ignorar  o vazio voraz que te devora, que te consome pouco a pouco, disfarçando a sua indiferença com ideologias que te abandonam como uma amante infiel, que vai colocar em seu lugar? O que vai usar para tapar o abismo, que não seja uma panela de retórica positivista, frívola e irreal? Por acaso a irrealidade não é uma versão enganadora do nada? Uma camada de gelo fino disfarçada de chão a sustentar os pés alegres de homens inconscientes a dançar? (lembre-se da lição de Atreyu: O nada não pode ser destruído. Deve ser preenchido). Preencha o nada com o seu Eu. Deixe-se ser um indivíduo íntegro, não no sentido da moralidade, mas da inteireza, da coesão.  O Nada não é o inimigo. O seu medo dele é que é. Derrote o medo, abrace o nada. Nele, há muito mais espaço para ser Você. O nada é real. As verdades são pura abstração.

Então Carl Gustav Jung estava certo nisso: “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta”. (até porque, é quase impossível alguém estar errado em tudo, e eu implico com Jung por causa da minha lealdade canina ao velho Sig e da minha alergia ao misticismo, que Jung abraçou)
Eh, Bien, sou eu novamente.
Lembrei-me de uma cena de um dos melhores filmes a que assisti no ano passado; Cisne Negro. Quase no finzinho do filme, Natalie Portman tem o corpo coberto de penas negras (é o tal cisne negro dando as caras) e sorriu de satisfação. Curiosamente, salvo engano, é a única cena do filme em que ela sorri, o que me faz pensar se a miséria da vida dela não era o seu Cisne Branco. Voltar para dentro de mim mesmo, a sensação foi parecida. Com a diferença que eu sempre tive “plumas negras” e meus problemas começam quando cismo, sei lá por que, que tenho de ser colorido como uma droga de Arara.

Todo mundo precisa ficar um pouco só, para reaprender a respirar com seus próprios pulmões (é a primeira coisa que a gente aprende na vida, mas a própria vida comunal acaba por nos fazer esquecer, daí sufocamos na multidão). Apenas um pouco de solitude, coisa que as circunstâncias ( e em certa medida, nossa  própria covardia) não nos têm permitido é necessário para lembrarmos. (Um pouquinho de tempo e  duas ou três musicas de Himogen Heap pode surtir um efeito similar ao que uma bolsa de sangue teria para um hemorrágico).

Estar dentro da própria pele  é bastante atormentador, mas é um tormento confortável e familiar, porque é o Seu  tormento, e não as agruras alheias que as pessoas teimam em colocar sobre ombros outrem.
Preciso sempre me lembrar de que se existe ressaca moral, também existe embriagues moral, e esse é o tipo de porre de que qualquer um deve se envergonhar. Ficar embriagado de ideologias ou da inconsciência de si é o pior tipo de carraspana que alguém pode tomar.

Sem direito a um antiácido psicológico.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Subverta-se



Parece até que era uma afronta ou por afronta, mas não, você não escolhia ser um oxímoro ambulante para debochar daqueles que escolhem terceirizar suas escolhas.

Era apenas por sentir que não tinha e nunca teve escolha alguma, a não ser escolher por si mesmo.

Claro, o que acabei de digitar é uma deslavada mentira.
A verdade e que você era assim pelo puro e bruto prazer de andar na direção contrária à multidão. Esse era o único prazer genuíno e digno da grandeza do seu espírito livre. Você sentia que só possuia uma única vida e já não tinha certeza de haver um “segundo tempo” ou então era uma certeza tão tênue, que sem perceber (ou habilmente fingindo não perceber) você permanecia tentando acumular o ouro onde a traça come e o ladrão rouba. .

Você percebia que nasceu sozinho (porque venhamos e convenhamos, sua mãe estava com preocupações maiores naquele momento e só depois do choque inicial do nascimento, é que pode te amparar um pouco), que vivia sozinho porque por mais amigos e amantes e amados tivesse, viessem e se fossem, quem é que sabia ou queria saber o que se passava na escura noite ou nos dias solitários por trás de todos os seus sorrisos e afetações?

E você sabia que morreria também sozinho no final, quando a luz se apagasse e todo o resquício de sua pouca fé seria posta a prova. Onde estariam neste momento aqueles que te amam? Provavelmente ali, segurando a sua mão, sofrendo por você (na verdade, sofrendo por eles mesmos, porque sua morte lhe doeria, mas não faça julgamentos, porque é um sofrimento sincero ainda assim). Estariam ali tentando te dar algum conforto, mas você estaria só, porque seria  o seu coração  parando, a sua respiração cessando e  a sua vida se esvaindo...

Então, porque por vezes se esquece de tudo isso e fica pensando que precisa mesmo estar em uma simbiose psicológica com o mundo? Porque tem de se render a tirania da aceitação alheia numa síndrome de Estocolmo para a sua alma? Porque acha que sua vida deve ser como um maldito comercial de margarina?

Tem um preço a se pagar pela realidade da sua existência, pelo direito de ser você mesmo e pense se ele é tão alto e penoso quanto o valor do ingresso para desaparecer imerso na coletividade sem alma.

O preço é a mais absoluta solidão, mas nesse caso, você vai estar a sós consigo mesmo e eu ainda não sei que melhor companhia possa um ser humano almejar. A solidão não é o demônio que pintam ou pelo menos, não é tão medonho quanto o estrangulamento do seu Eu no coletivo.

Só que te ensinaram a não gostar de estar consigo, a temer ficar sozinho e nu diante de si mesmo, taxaram de egoísta o seu olhar para dentro,chamaram de "masturbação mental", como se um minuto de autismo intelectivo fosse um crime de “lesa humanidade”, quando o que realmente temem é que você se ame mais do que ama aquilo que escolheram que você amasse.


Não sei se é realmente possível amar o que é para você ou o que você tem. Não se ama o que se tem ou o que tem você.Talvez apenas seja possível amar o que é com você. O que coexiste com você em singularidade própria.
Aquilo que não é sua própria imagem distorcida num espelho de vaidades vazias.
Aquilo que não se desconfigurou apenas para agradar seus olhos.
Aquilo que não responde como um autômato à fugaz palpitação dos seus hormônios.
Aquilo que permanece dentro de sua própria pele, sem máscaras, acariciando com amor os limites entre o que é ele e o que é você.
Um ser humano íntegro.
Um Eu que permanece um Eu em sua companhia, sem buscar te sufocar com o nós.
Encontro, sim. Anexação, não! 

Não permita que te convençam de que é desejo seu ter aqueles arreios a tolher sua mente e vontade e vida. Não pague com o ouro da sua liberdade pelos grilhões e pelos serviços do carcereiro. Te ensinaram a temer a noite e você sente frio naquele momento logo após o sol desaparecer, como se fosse a sua vida se pondo com o sol e não subindo com a lua. Mas a noite é só e apenas o outro lado da realidade por detrás dessa gaiola confortável onde você se meteu.
Você é um corvo de plumas obsidianas fingindo ser um canário amarelo, quando devia mesmo era amar ser um corvo. 
Você é um Eloi inocente, alimentado e nutrido pelos Morlocks...Sabe como a história termina.

O que não querem que você saiba, é que não há na floresta lá fora nenhum lobo que seja mais aterrador do que a mão a te colocar alpiste todas as manhãs.
Que a gaiola nem mesmo tem tranca (é o seu medo a te manter preso).
Que você tem asas e elas são tão poderosas quanto for a sua determinação.
Que a árdua sobrevivência é mais gratificante do que a desprezível rendição.
Que mais vale o leão morto em combate na selva do que o poodle vivo no travesseiro de seda.

Nem é preciso pensar muito. É o momento de esquecer a lógica, se esta é mais um elo da longa corrente.
Rebele-se, não contra o mundo, mas contra si mesmo, contra o conforto, contra a maciez da vida de limites auto-impostos. Seja Um. Seja Livre! Chega de andar nas calçadas e na sombra. Arrisque-se.
Ande pelo meio da rua até encontrar um carro sem maçanetas na porta e então, caia para cima como uma estrela ascendente.




terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Não Pise na Grama




Então me sentei ao pé daquela  árvore. Chutei para longe a plaquinha recém colocada com os dizeres “não pise na grama” e pensei irritado para que diabos serviria uma grama senão para ser pisada, senão para ter a sua suavidade sentida pelos pés cansados...Confesso:sou a porcaria de um utilitarista, e a praça tem trocentos metros de grama e não iria ser daquele pouco mais de metro e meio que eu iria abrir mão.

E fiquei durante um tempo  gozando a sensação bem familiar de não ter, a não ser o pé daquela árvore dentre todos os lugares do planeta,  lugar algum neste planeta que eu pudesse  chamar de lar. 

Sensação reconhecível como minha, coisa mais familiar do que a alma que me habita, rebelando-se, protestando para abandonar-me, porque assim como não reconheço neste mundo como lar nada que esteja além das fronteiras do pé dessa árvore, minha alma não reconhece  como casa o corpo que habita e eu permaneço em fragmentos e em discordância até com as minhas contradições.

E o inferno sorri...

...e então quando sinto a grama e olho por momentos para essa praça, tudo tão frágil e tão brilhante; cachorrinhos, flores, crianças, pássaros e o som fervilhante da cidade em torno dela,  a cena  se move em minha mente e por uns momentos chego a duvidar de que algo de fato morra no mundo...

Daí a mesma grama me lembra, minha mente salta a cena e eu vejo a teatralidade, a maré de gente perdida de si, fantasmas pálidos se aquecendo em banalidades enquanto a iluminação de natal desmorona,  a cena congela em meu coração e chego a duvidar de que algo no mundo de fato viva...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Da Inadequação Do meu Existir




Você sabe, chega uma hora que simplesmente não se pode mais ignorar certas coisas.  

Por exemplo,  que a dialética só é possível na presença do Outro. É entediante entabular uma conversação consigo  próprio e você...Você já está levemente farto da própria conversa. E então recita:
Oh, Dio...me duelle tanto!

Quando dão em nada todas as suas tentativas de mergulhar sua angustia no teatro da vida interpretando solitários papeis coletivos, sorrindo quando queria mesmo era praguejar; sustentando uma felicidade fingida, tão ilusória quanto o bálsamo do tempo que já não serve como a prometida panacéia, ou você faz as pazes com aquilo, ou aquilo te devora. 

Imagino que isso seja mais ou menos o equivalente às picadas diárias de um diabético. Acabamos por nos acostumar  à dor e ela se torna tão e uma constante, que apenas em momentos de pura ausência do Eu (leia-se êxtase etílico) você percebe que ela está lá.  
Onde deveria estar a sua completitude.

Mas a rotação da terra te joga para fora da cama todas as manhãs e a pulsação do mundo não te dá folga ou tempo sequer para respirar, quanto mais para se lamentar. Você tem que andar mesmo meio morto. Mesmo sem calma, mesmo sem alma... A falta de sono é sempre uma ótima desculpa para a opacidade de seu olhar e para a languidez dos seus modos.

Exercite o inerte "músculus sorrisus" do seu rosto.
Esconda a sua tristeza suave como o viciado oculta as marcas do seu vício.
Ou o baile de máscaras pára e todos se voltam para você zangados porque você interrompeu a dança com a inadequação do seu existir.

Têm horários a cumprir o e trânsito na Cristiano Machado vai estar tão infernal quanto a noite insone que você teve. E o dia vai se arrastar tão intragável quanto aquele café frio e apressado que você deixou pela metade antes de perder mais um ônibus.

Então, enquanto o mundo desaba num dilúvio e você se esforça para lembrar como são aquelas tardes quentes em que o sol derrama ouro pela janela e o vento do leste te traz aromas de alturas inacreditáveis, você se pega a olhar para o nada  e sua mente vazia nota de novo o vazio ali.  Dá-se conta mais uma vez de que algo está faltando no mundo e já tinha prometido ao menos tentar  ignorar essa falta. 
Só que é estranho ignorar que apenas metade de você está realmente em  si, que você está pensando com meio cérebro, respirando com apenas um pulmão e que o Átrio e Ventrículo que te sobraram meio a esquerda do seu meio peito, já não dão conta de bombear  eficientemente o oxigênio para o seu meio corpo.

Você sufoca pela metade.

Se ao menos não tivesse se desinvestido da capacidade de se intoxicar de idealismos e ignorar a si mesmo, talvez seu pensamento ultrapassasse menos o breu daquelas nuvens acima do horizonte e talvez você não fosse bater às portas daquele mundo além da bruma, atrás de uma paz que não te pertence.
Deixe doer. Só há dor onde há vida.

É a sua principal referencia... É o que melhor descreve a sua sensação de estar flutuando na borda de um buraco negro que ameaça, mas jamais te engole.

Nunca foi difícil lidar com o cinza . São as cores talvez  inexistentes com as quais sonham os seus pensamentos daltônicos, a deixar esse rio de água gelada correndo pelo seu estômago. E você sendo  monocromático, passando a vida a pensar que deveria ser caleidoscópico, quando o que realmente deveria ter feito é aprendido a apreciar  melhor  a coesão do cinza em si. E só depois de amassar o nariz em muitas portas fechadas e de recolher cacos de sonhos em sarjetas sujas é que acabou  entendendo que  não há almoço grátis e nem atalhos fáceis na vida. 

 “...e o Nada é o vazio que resta! ”
Você o cria sempre que coloca pensamentos importados ou  anseios alheios (tudo feito pra você, mas não por você) no lugar onde a pira do seu Eu deveria arder em chama alta, iluminando a escuridão.

Perto da sua curta adolescência, decidiu não beber (promessa que tem cumprido mais ou menos displicentemente) e acabou  levando essa abstemia para a vida ( e para a sua tragédia, a esse derivado da promessa tem sido mais fiel do que seria salutar).

O que talvez tenha sido o maior erro de que não vai se arrepender. 



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Meu Meio-Diálogo




Pensar dói.

E por causa dessas cefaléias de pensamento, a maioria das pessoas sabiamente opta cada vez mais por mergulhar suas inquietações nas percepções sensoriais. Você sabe que faria companhia  a elas de bom grado nessa alienação do Eu, mas tem de lidar com seu inferno íntimo. Seus olhos dizendo que as cores choram de dia e as trevas entoam aleluias a noite. Sente o sabor azedo do linho em contato com sua pele e seus ouvidos atestando o tempo todo que tudo o que você come, tem a cor do desespero. 
E você, que nem aspirina toma, parece ter nascido com LSD nas veias.

Existem  aquelas coisas que você quer e pode compartilhar com aqueles que ama. Geralmente, amenidades, coisas pouco ou nada perturbadoras que não tiram o sono de ninguém. Outras, em muito mais densas, você só pode , na falta das bem treinadas orelhas de um Analista, gritar para dentro de você mesmo e num exercício de imaginação acreditar que não é o eco reverberando no vazio, mas uma voz interior te respondendo.

E você teima em ser denso num mundo de suavidades.

Daí você se move apenas porque ficou tempo demais na mesma posição e suas pernas têm cãibras (falta de potássio e perspectivas) Estivesse sentado numa praça, sua imobilidade confundiria os pombos e você seria obrigado por uma razão ainda mais desagradável do que cãibras a mover-se.  Não há um só lugar neste planeta onde possa aquietar a sua tranqüila monotonia.

Você só precisa da ferramenta certa para demolir essa fortaleza onde se encastelou a sua vaidade. Talvez uma pesada marreta de bom senso com que filosofar a sua solidão. Porque é tão importante ser bem visto aos olhos alheios quando aos seus próprios olhos você é invisível? E continua invisível ainda que te vejam com olhos bons ou maus, porque nunca verão além daquilo que desejam.
Você teima em ser profundo, num mundo de superficialidades.

Compre um livro de auto-ajuda, compre um carro bonito, consiga títulos e honras, colecione  palavras doces e pensamentos felizes e todo mundo vai te amar. Ou pode fazer o oposto e vitimizar-se além do humanamente digno e atrair compaixão, que é a mais ínfima migalha de respeito que lhe podem legar.

Pardais podem viver de migalhas, mas e se você tiver a natureza de uma águia ou de um corvo? Um poleiro seguro e afagos na sua cabeça outrora orgulhosa são um preço justo a se pagar pela perda da sua liberdade?
Sem mais vento no rosto?
Sem mais a alegria louca da queda livre?
Sem mais a divina perdição das almas vadias?

Livre- o Céu de ver-se repentinamente livre do seu céu!

Alguém passou por você numa esquina na Savassi e te olhou com um ar atrevido. Sentiu imediatamente o antagonismo e se perguntou  em que pesadelo ou sonho, (posto que nunca o viu cá, deste lado da realidade)  aquela alma contendeu consigo para sustentar assim o seu olhar de desafio em recíproca. Você gostou dele! Estivessem ambos livre das amarras sociais, teriam entabulado estranha conversa e é possível que se tivessem atracado em violenta fúria irracional. E você sente vergonha em admitir que já passou da idade de sentir vergonha em confessar que teria gostado disso. É o selvagem inerte em si, latente, domado por mil minúcias mundanas. Tanto quanto as mesmas que debelaram o espírito do  sujeito de quem se sentiu imediatamente irmanado. Que brutal mundo civilizado esse em que você vive!

E foi engraçado, porque ao vê-lo partir levando em si uma sufocada antipatia por você, sentiu tornar-se  mais real aos olhos deste estranho que te antipatizou, do que aos da maioria que lhe demonstram afeto .
Fugindo por entre a selva de concreto e lojas bacaninhas, esgueirando a sua estranheza por entre carros e pequenas iniqüidades do cenário urbano, vai...

Celebre a sua singular condição de estranho numa terra estranha, que é ao mesmo tempo sua casa e sua prisão. Subversão também é isso: amar em si aquilo que te ensinaram a odiar por razões não suas...

sábado, 10 de setembro de 2011

O Morro dos Ventos Uivantes - Um Filme Novo e o Peso de Uma Página



As vésperas de estrear a nova versão cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes”, encasquetei de ler pela milionésima vez o meu surrado exemplar de “O Morro”.

Não o devia ter feito por muitos motivos. O primeiro é que isso não é muito justo para com um filme, porque quase nunca um filme se iguala ou supera a obra literária que lhe deu origem. E eu já havia torcido o nariz quando li num blog que a diretora fez na verdade uma “adaptação”, sem se ater ao texto original do livro. Agora certamente vou ficar o tempo todo durante o filme fazendo aquelas comparações inevitáveis que fazem os fanáticos por certas obras.

Mas é de “O Morro...” estamos falando aqui!  Já gostei de James Howson! Sujeito de coragem! Mesmo se eu fosse um ator de primeira linha e tivesse o rosto bonito dele, iria pensar muito e teriam de me pagar o peso em ouro para que eu topasse herdar primeiro o manto absurdamente denso de Heatcliff e secundariamente a interpretação espantosa de Laurence Olivier, Tymoth Dalton e Ralph Fiennes! Não o conheço e não me recordo de ter assistido a nenhum trabalho seu, mas esse cara está encrencado! Mais ou menos como Heath Ledger estava quando topou fazer um novo coringa sob a sombra de Jack Nicholson. Saiu melhor que a encomenda, então, desejo toda sorte do mundo para Howson.

E embora eu seja bem informado demais para ser otimista, espero ainda estar vivo no dia em que o fato de um homem ser negro não gere um alvoroço danado quando ele fizer  alguma coisa que até então seria visto como um "papel de gente branca". Mas por enquanto, me limito a pensar que é um desafio para um ator novato (se é que ele é novato no ramo, porque como eu disse, eu nada sei sobre James Howson e ele pode, mesmo sendo jóvem, ser um veterano do teatro ou coisa assim)

Sobre Kaya Schodelario não tenho muito que falar. É só que sou mesmo um xiita e reluto em ver outro rosto para Katharina Earnshaw que não seja o de Juliette Binoche (esqueci de mencionar que a versão de 1992 é a minha favorita). Não é que não goste de Kaya (e muito pelo contrário. Embora eu já tenha visto um filme com ela mas não possa por isso estar habilitado para falar sobre seu talento como atriz, Jesus! Como ela é bonita!), é pura implicância de um chato que não teve apenasuma queda, mas levou um verdadeiro tombo por Juliette Binoche e ainda está preso a esse encantamento.

Contudo, implicâncias a parte e embora tenha solenemente ignorado uma “versão teen” que soube ter sido filmada a alguns anos (vi o folder do filme e não quis assistir e sim, vou manter a irracional atitude de "não-vi-e-não-gostei", sem o menor constragimento ou peso na consciência. Eu sei do que dou e do que não dou conta), vou tentar conter o meu xiismo e vou sim assistir a esse remake de o “O Morro”. Posso me surpreender e ainda teimo em pensar que nem toda surpresa é necessariamente desagradável.

Voltando ao fato de que não deveria ter relido “O Morro..”, eu estava dizendo que tinha vários motivos para não o fazer agora. Tive plena consciência disso quando, quase no fim do livro, caí sobre essa página e ela em resposta praticamente me caiu na cabeça com a força de um raio:

-- Mas não se sente mal, pois não? -- inquiri.
Não, Nelly, não sinto.
-- Então não tem medo de morrer? -- prossegui.
-- Medo? Não! -- retorquiu. -- Nem medo, nem pressentimento, nem desejo de morrer. Por que havia de ter?

“Com a minha constituição física e a vida regrada que levo, sem correr riscos, provavelmente caminharei sobre a terra até que não me reste um só fio de cabelo preto na cabeça... E, no entanto, não posso continuar assim, a ter de me obrigar  a respirar, a quase a ter de forçar o coração a bater! É como dobrar um pedaço de ferro: é só pela força, e não pela vontade, que faço as coisas mais simples, e é só à força que percebo as coisas vivas ou mortas que não estejam associadas a uma idéia que me obceca... "

"Tenho um  único e ardente desejo, e todo o meu ser, todas as minhas faculdades lutam por vê-lo realizado. Aspiram a isso há tanto tempo, e com tal força, que estou convencido de que esse desejo se realizará... E bem depressa... Pois devorou-me a existência e me consome na antecipação do clímax. Sei que os desabafos não me aliviam; mas podem, pelo menos, explicar algumas das minhas aparentemente inexplicáveis alterações de humor. Meu Deus! Tem sido árdua a luta. Quem dera que
acabasse!"

 ...

Realmente, não foi uma boa idéia ler isso...Por melhor atuação que possam ter os atores, dificilmente conseguirão passar  a força de um trecho como esse, mesmo porque, o compromisso de um filme costuma ser o Visual, em detrimento do subjetivo (com raríssimas e magníficas exceções). É preciso ser um titã da sétima arte para passar a  pesada carga emocional do desamparo de Heatcliff, sua revolta contra seu estado de não-vida, uma vez que em um trecho anterior do livro, ele pergunta: “Como pode alguém viver tendo a sua alma metida num caixão?”
Ele se pergunta...
Eu me pergunto...

...

Eu poderia continuar falando sobre o livro e fazendo considerações sobre a situação do protagonista, mas isso ia acabar em mais tietagem vazia da minha parte (fico insuportável quando falo sobre algo que me apaixona e poucas coisas me apaixonam tanto quanto Emily Bronte e “O Morro dos ventos Uivantes”) e também teria de evocar e tocar em coisas pessoais muito doloridas (razão principal pela qual não deveria mesmo ter relido esse livro agora) e isso seria desagradável para quem lê e também para quem escreve.

Então, paro por aqui e espero sinceramente que esse novo filme não altere demais o enredo daquela história, porque seria muito bom vê-la num contexto mais moderno (mas "versão teen" e modernidade são coisas bem diferentes). Mesmo porque, foi o primeiro romance que li em que o personagem principal é ao mesmo tempo a vítima e algoz ( e não admito nunca que Heatcliff possa, apesar de todos os seus crimes, ser levianamente tachado de “vilão”. Ou isso ou então tenho torcido pelo lado errado durante todos esses anos em que pensei ser uma boa pessoa e se esse for o caso, então, droga, viva o “lado negro da força!”) . Não existem inocentes em “O Morro...”, não existem anjos ou demônios ali. Só seres humanos se equilibrando a beira do abismo e o mais intenso deles, não só se atreve a saltar dentro como na queda arrasta todos a sua volta. Também foi o livro que me ensinou que uma história para ser linda, não tem de ter final feliz. Só tem de ter uma história antes do fim...
Encontro vocês na fila do cinema.




segunda-feira, 4 de julho de 2011

Delírium - By Sahge


Mande-me um pouco de inspiração,
Tal qual os deuses enviam raios sobre este mundo...


Não preciso de muito vento nos cabelos ou sol no rosto
Mas tampouco quero voar nas finas asas de um sonho.
Ficou um  pouco de ti nessa nevoa que embaçou o meu olhar
E é estranho pensar que me impedes de ver as coisas.
Um mundo vítreo através das lágrimas.

E porque não me deixam ficar casulo no teto do mundo,
Suspenso por entre os caibros do céu...?
Esquecido da lagarta que fui, ignorante das asas que terei,
Eu seria,
Uma sombra indefinida e feliz por estar no limiar de duas coisas...

Das tuas palavras montei um vitral multicor
Mas está claro que desenhei uma imagem errada.
Sou um daltônico do espírito vendo tudo em nuanças cinzentas...
E havias te pintado com todo um arco-íris de finos matizes.

E na ausência de um talento para a arte,
Construí uma ponte frágil de pura esperança,
Uma que atravessasse esse infinito abismo entre nós...

Eu sabia que as rosas tinham garras agudas com que enfrentar tigres
Mas ignorava que tivessem asas como os anjos.
(Porque diabos tinhas de voar tão alto?)
Para pendurarem-te no céu qual estrela, devem os deuses ter bom gosto.
 
Iluminas o firmamento...
Mas, eu,
Tu sabes que este corpo é pesado demais para que eu o leve agora.
E porquanto meus sonhos sejam densos demais para que eu voe com eles,
E não encontre uma amável serpente que liberte-me com um beijo,
Sonharei no deserto por entre as dunas aquecidas pelo sol e saudades
Com o dia em que também reencontrar
O meu caminho para casa...

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Balão Solto


Sonhe, porque é bom sonhar e em algumas noites Morpheus não cobra prendas.
Alargue o reino de sua imaginação e colha corações em ramalhete num campo cultivado de batatas...
Enfeite seus olhos com estrelas e coroe a sua cabeça com uma nebulosa, porque é vasta a alma que sonha, maior do que o poder dos deuses...

Sente-se nas nuvens e agite os pés sobre o vácuo. De lá, lance pedrinhas na superfície calma do lago do mundo quando dorme. Podem ser fugidios os sonhos felizes de tempos verdes. Podem ser intensos os pesadelos de noites abafadas. Suas pedrinhas hão de agitar meus devaneios noturnos em ondas suaves, em espirais do centro a margem...

Se estiver caminhando pelo ar, caso encontre Deus, diga a Ele ou a Ela, que eu não sei rezar e tampouco sou um tipo virtuoso, mas esforço-me para viver sem muitos arrependimentos. Acho que algumas vezes consigo.
E sou acordado pela quarta vez esta noite pelo pulsar de uma cidade que não dorme. Uma sirene berra em algum lugar e uma criança faz coro com seu choro. Cachorros vadios  entoam cânticos perdidos em alguma esquina e alguém esqueceu o rádio ligado.

 Há modos vários de enlouquecer ou se iluminar.
Alguns poderiam até mesmo romper a corrente que me ancora ao planeta.
Livre deste lastro, eu cairia para cima e perder-me-ia acima da ionosfera. Solto da minha forma flutuante, ele poderia cair na imensidão do céu. 
Seria espetáculo dos mais singulares; seis bilhões e uma alma gritando enquanto caem no céu em direções opostas.

Era assim que eu queria ser: 
Não tão firme, não tão certo do que não sei, nem tão fluido, moldando-me àquilo que não me contém , mas rarefeito, gasoso..Livre o bastante, para escapulir por entre as pequenas brechas do mundo...

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Caos Numa Esquina - By Sahge




Escrevendo errado em linhas tortas finjo ser um poeta,
(decentemente, segundo uns, mas considero isso um elogio injustificado e imerecido),
Rabisco o Caos disfarçado em versos sem rima...

E porquanto o Caos pulsa-me nas veias e flui em minhas idéias,
Atrai-me a ordem e simetria das pequenas e grandes coisas,
Semelhante a mariposa fascinada pela chama.

Enquanto escorrego para casa, atravessando a noite fluida,
Experimento o subversivo e quase místico prazer de andar de olhos fechados...
Headfones me nutrindo de Stoa:
"ignis, quo crucior
(das Feuer, das mich quält)
immo quo glorior
(aber zugleich erhöht)
ignis est invisibilis".

E lá me vou numa cegueira auto-imposta
Pelas calçadas apinhadas e ruas de infernal trânsito...

Isso tudo é sonho, é claro...

A verdade é que fiquei ali parado numa esquina incapaz de mover-me...
Pensava se em algum momento você passou por ali,
Por aquela mesma esquina, imersa em pensamentos,
Como eu, andando em sonhos...
Enquanto isso contava o fluxo de pessoas e carros apressados,
E perdi a conta de quantas vezes perdi a conta.

Lembro-me de algo que você disse e penso enquanto me vou na noite:
Se as pessoas são sonhos (e sei bem quem são os meus),
Se estou sendo sonhado ou sou a imagem de um pesadelo (que seja),
Quem é o sonhador que a mim dá forma e substância onírica?
E o que acontece se ele acordar?
Será o despertar dele...Ou o meu?

quinta-feira, 3 de março de 2011

Apreendendo e apreendendo tardiamente - By Sahge

O grande gênio de Mary Shelley cunhou isso:

Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações.
Dormimos.
Eis que um sonho nos envenena o sono.
Despertamos.
Um pensamento errante contamina o dia.
Sentimos, imaginamos, refletimos, rimos, choramos,
Abraçamo-nos à dor, ou libertamo-nos das penas,
Vário é o caminho, mas para a alegria ou a tristeza,
É sempre franco,
O amanhã jamais igualará o ontem;
Nada, exceto o mutável, pode perdurar!

Eu cheguei a pensar num tempo ido, que havia compreendido essas palavras de Mary, dado o grande impacto que em mim causaram. Se eu ao menos fosse tão bom em compreender as palavras com a mesma intensidade com que as sinto, então, tenho certeza, eu seria um grande gênio, talvez até mesmo do porte de Mary Shelley ou do seu. Isso não acontece e me frustro sendo incapaz de compreender as palavras ou mesmo impedir que me penetrem a consciência com tanta força. E como quase tudo acontece tardiamente para mim, só hoje compreendi, em harmonia com muito do que você disse, o que essas palavras querem realmente dizer.

Daí apreendi que é mais apropriado à minha flexibilidade e mutabilidade mental, pautar-me mais por idéias (que libertam) do que pelos ideais (que aprisionam).
E isso não é contraditoriamente prender-me a um ideal (o das idéias), mas uma tentativa de fazer com eu me torne o que você foi por toda a sua vida:


Um ser dialético.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Aliunde - By Sahge

 

De tudo que já me esqueci,
Aprendi a ser muita coisa por amor.
Eu conheço a agonia de ser o ninho que o pássaro abandona
E a alegria de ser o céu em que ele voa ao deixar o ninho.
Sofrer pela sua liberdade que me priva do seu calor,
E extasiar-mede alegria sentindo o teu vôo nos meus ares...
Acariciar tuas asas com meu vento,
Secar nos teus olhos as mesmas lágrimas de desespero no adeus que me queimam a face...
E regozijar-me até a loucura quando distingo a tua forma voltando.
Nunca compreendi o que agora se me revela
Que não importa o quanto e o quão longe voe
Continuas voando em mim...

E eu pergunto;
Para onde eu poderia ir que não te levasse em minhas veias
Minha febre tão amada?
Jamais abandone a minha cabeceira,
Resista a todas as poções alquímicas ou do bom senso,
E deixe-me arder gloriosamente por este breve instante
Em que te apraz repousar em mim suas asas fartas de vôo.

Vem, deixa-me abrigar-te da chuva e da noite escura,
E não temas  perder-te,
Porque todos os ventos soprar-te-ão a mim
E vire curvas, desças e suba sobre vales...
Todos os teus caminhos trar-te-ão a minha porta.
Para onde eu poderia partir desse limiar,
Se tornei-me o próprio lugar onde permaneço?
Sou o porto açoitado pelo vento e pelas marés
 E nesse oceano que finda no infinito,
Cujas ondas são também a minha carne e fibras
Desliza o barco que abandona o porto que sou eu.

Ficar nunca foi escolha minha, partir nunca foi escolha tua
É o meu destino, passarinho encantado de plumas ao vento
Permanecer ao largo do mundo e te apontar as distâncias que te chamam.
“Ela há de voltar”, sussurra o vento
“Ela tem de voltar!”, grita minha alma.

E vigilante investigo no ocaso das horas o céu e as ondas.
É o ritual durante o qual indago se minha razão abandou-me
Como o pássaro abandona o ninho.

Se meu destino é a um só tempo ser pouso e céu de adejo
O teu meu passarinho tão amado, é ser livre para voar em mim...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Relógios - By Sahge






Pode procurar em qualquer lugar...loja de artigos de colecionador, e-bay, sites de curiosidades e em nenhum destes você vai conseguir encontrar um relógio cujos ponteiros girem em sentido contrário. É sério.
Claro, é uma trivialidade falar ou sequer pensar em algo tão inútil quanto um relógio defeituoso... Mas nem por curiosidade alguém faria um relógio assim? Seria um artigo pelo qual muitos pagariam uma soma considerável.

Eu me lembrei de quando era criança e num dia, movido por curiosidade e atendendo um impulso, desmontei um despertador, um daqueles modelos antigos e infernais que anunciavam o nascer de um novo dia com uma algazarra que rivalizava a  do galos. Não consegui reconstruir (o que me custou uma bela surra. Eram tempos rudes aqueles...), mas do modo que o montei, deu-me a impressão (ou talvez seja uma falsa memória provocada por um desejo meu) de que os ponteiros efetivamente começaram a girar em sentido inverso.
Se pararmos para pensar, vamos concluir que essa coisa que chamamos de tempo existe apenas nos instrumentos que usamos para marcar os instantes que incidem entre as nossas batidas cardíacas e entre o nascimento e morte de estrelas. Dá no mesmo. Sem um relógio, mesmo alguém que possua uma mente prodigiosa, só vai conseguir ter noção de tempo através dos ciclos da natureza, o que é também exterior a nossa mente. E se uma coisa implacável como o tempo pode ser enclausurado num instrumento rudimentar como um relógio, um produto efêmero de efêmeras mãos humanas, então não seria maravilhoso imaginar um relógio que girasse os ponteiros em sentido inverso e fizesse-o voltar no tempo? Não seria magnífico poder usar o mesmo instrumento que nos diz quando devemos acordar, levantar, comer, dormir, viver e morrer, para voltar o tempo a quem sabe um bom momento, ou mesmo congelar-nos nele como em um quadro, uma tapeçaria milenar, onde seriamos sempre jovens, sempre uma promessa a se cumprir...?


E mais, se o mesmo instrumento que marca a passagem linear do tempo pudesse fazê-lo retroceder, seria divino poder  consertar o inconsertavel...Reparar erros, propiciar (finalmente!) encontros que não se deram, colher no ar palavras que foram e não deviam ter sido ditas ou libertar no mesmo ar aquelas que deixamos presas.  Um homem poderia visitar a si mesmo em sua infância e ser seu próprio pai. Poderia se reinventar e ser mil possibilidade dentro de uma vida, em vez de ser uma vida dentre mil possibilidade.  Devaneios de um fim de domingo onde uma “depressão pós-fantástico” se avizinha e uma semana linear, dentro de um tempo linear se inicia.


O fluxo do tempo controla nossas vidas e ele é inexorável...É claro que o fato de um relógio correr ao contrário não trará de volta o brilho a cores desbotadas pela ausência daqueles que nos eram caros...Mas se o tempo existe fora da mente, dentro ou fora dos relógios, a mente não reconhece aquilo que é alheio a ela e se permite vagar em direção ao passado e ao futuro e colher flores em jardins abandonados ou que ainda não foram cultivados... Isso é a memória...Isso é esperança

"É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais.

Quando eu lhe dizia:
"- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada."
Você sorriu e disse:
"- Eu gosto de você também."

Só que você foi embora cedo demais

Eu continuo aqui,
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

Vai com os anjos! vai em paz.
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez.

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais

E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer.

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre mais eu sei
Que você está bem agora
Só que este ano
O verão acabou
Cedo demais.
   (Legião Urbana)
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