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domingo, 23 de julho de 2023

Cartas de Lugar nenhum - 4




 Querido Voce....

Hoje me veio a mente a ideia de que estar vivo, é um exercício de estranha magia...

Supor que estou vivo, tem sido a minha salvação neste ermo sutil. 

Pois ainda que não saiba de onde me vem o pensamento de que a vida é transitória e finita, agarro-me qual naufrago a essa ideia, pois se me soubesse morto, não conseguiria manter a esperança da transtoriedade da minha situação.

Os dias têm se tornado longos demais. 

Demasiado semelhantes uns aos outros, sinto-me agrilhoado a essa repetição de nada.

As noites, igualmente longas e monótonas, não trazem repouso, mas um sono inquieto, sonhos confusos e ao amanhecer, o constante choque de ainda estar atado a mim mesmo.

Nesse lugar estático, chamado vida, sinto a satisfação oscilar inconstante, como algo que rasteja entre o tédio e a ansiedade.

Após um tempo, a memória indistinta trai minha  lógica em dança ensandecida. Dou rodopios mentais, querendo sentir neste movimento, uma sensação qualquer de vida que me distraia.

Poderia o aceno da loucura ser tão algo tão sedutor?

Esquecido até de mim mesmo, consigo pensar que são meus estes meus pensamentos, essas palavras pensadas em uma lingua que não criei, como não tenho criado nada além de espanto e choque,  e que muito possivelmente me vieram da leitura de livros ou de conversas antigas com gente mais sábia e mais antiga do que os pensamentos e palavras com que me distraio...

Tomando como naturais absurdos quotidianos, questiono minha sensibilidade. 

Questiono minha capacidade de questionar .

Supus, após meditar um tanto displicentemente, que essa montanha é uma metáfora para a minha solidão. 

Que, talvez,  todas essas montanhas no entorno da minha plerpelxidade, para as quais tenho gritado sem que delas me retorne sequer eco, são tambem o sígno da solidão de outros, tais como eu, sozinhos, retidos no sonho estranho de estar existindo.

E neste ato, de prestar atenção, aprender, apreender, supor, imaginar, refletir e depois lançar ao ar todo o saber que me deixa na boca o gosto amargo da consciência da minha ignorância, permaneço em transe.

E então sinto, nas bordas do meu eu,  a formação do paradoxo incrivel, a saber, que o conhecimento não só não me libertou, mas aprisionou-me de maneira implacável ao saber de não saber absolutamente coisa alguma.

Onde quer que esteja, espero que esteja lidando melhor do que eu, com a troca de olhares com o abismo nosso de cada dia.


Atenciosamente, Eu.


Nota ao pé da página (um eco de dias idos):

Tenho experimentado grandes ausências de mim , hiatos de tempo em que passo os dias a deixar passar os dias, intuindo por entre esse vazio se não me perdi em uma grande fenda qualquer que me deixou nesse limbo de onde escrevo a você mais uma vez o meu desamparo.

segunda-feira, 1 de maio de 2023

1973

 



Para início de conversa, a nossa causa não era justa.

Éramos então, o inimigo, o invasor, aqueles sobre quem histórias terríveis eram contadas e que levavam pavor aos corações dos homens.



Batalhávamos em terra estrangeira, nós, os soldados sem ideais.

Não éramos mais homens. 

Éramos os gritos, os estrondos, o frenesi dos combates e o céu noturno iluminado por chamas.

Sob o estandarte da crueldade, lutamos, sangramos, fizemos sangrar...

E perdemos a guerra.



Perto do fim de uma noite, os sinos das cidades ressoaram anunciando o nascer de um novo dia e a nossa derrota. 

Houveram festas, celebrações e danças nas ruas, missas e graças dadas aos céus quando o flagelo foi varrido de sobre a terra e a esperança voltou ao mundo.



Em fuga, derrotados e feridos, fomos perseguidos como as feras que éramos então, e abatidos um a um,  sem a graça da mesma compaixão que negávamos a outros.

Acuado, com medo e sozinho, não caí lutando.



Recebi a morte dos covardes, trespassado por lâminas e balas e flechas.

Caí em um charco imundo, meu sangue derramado misturando-se ao lodo e lama.

Meu corpo ficou ao léu, sem enterro, sem o abrigo de sepultura ou lamento de pessoa querida e os animais de rapina se recusaram a dele se alimentar.



Tempo e esquecimento jogaram poeira sobre meus ossos e a lembrança de mim, dos meus e de tudo o que fizemos foi pouco a pouco tornando-se um mito triste.



Vaguei…

Nem Inferno, nem o Duat, nem o Valhalla… Vaguei em terra fria e escura, de sombras lamentosas que se esgueiravam na penumbra e me ignoravam ou sussurravam insultos.

Insultava-os de volta.

Em fúria, perdido, açoitado por lembranças dolorosas, lamentei, blasfemei e implorei e aos poucos, tornei-me também sombra murmurante,

 esquecido de quem eu havia sido e o meu passado se tornou suposto.

Tornei-me fictício.

Perdi meu nome.

Perdi quem eu fui.

Minhas lembranças transformaram-se em ecos confusos.

Arrependimentos dolorosos de crimes verdadeiros ou imaginados misturaram-se às acusações berradas pelas trevas em derredor como açoites e eu ja não tinha mais certeza da história que acabei de contar.

 

Quanto tempo se passou até que fui desprovido da lembrança de um único dia feliz? 

Para onde foram todos os gestos de bondade, recebidos ou realizados? E todos os sorrisos e abraços de irmãos?

Seria concebível eu ter vindo à existência sem um colo de mãe, já que eu não o levava na lembrança? 

Ou ter passado a vida inteira sem ter conhecido o amor de um pai?

Era então toda a verdade do mundo aqueles queixumes e gritos nas sombras?

Quando essas questões começaram a surgir na minha mente em febre, aos poucos a treva em volta se rarefez e tive um vislumbre ao longe, de um propósito qualquer.



Não sei dizer ao certo quanto tempo levou até que me aprouve mover-me sem o esmo que me guiava naquela terra,  e por fim caminhei, sem sequer saber o porquê, na direção daquele ponto de luz.

 

E fui receber nova carne, e fui conhecer nova dor. 

Algo falhou no entanto e eu me lembro, não das lembranças, mas da lembrança  de ter lembranças.

Recebi nome, identidade e memórias novas, como uma plantação semeada por sobre onde antes havia uma floresta antiga.

Sinto ainda as raízes das árvores cortadas, bem ao fundo na terra da minha alma. 

Sinto saudades de casa, do “de antes” do passado e de quem eu era antes de me tornar quem eu fui.

 

E então, sento-me para escrever este texto e nele tento criar outra hipótese de mim mesmo.



quarta-feira, 11 de julho de 2018

Geladas são as noites no País da Morte


 

Ando ha semanas encorujado (como se diz aqui em Minas), por causa do frio.  Mesmo sendo Ateu e descendente na maior parte de africanos e ameríndios, acho que Deus provavelmente vai me reservar uma vaga no inferno nórdico e eu sofrerei entre escandinavos as agruras de um tormento gelado...

Terei, pois, de subornar o Diabo e passar férias nas "quebradas" dele para conseguir relaxar em um confortável ofurô de óleo fervente!

Ahahahahaha!
....

.... 
Inverno é uma época odiosa para mim. Sinto vontade unicamente de dormir, dormir e dormir até que o sol e a chuva voltem para o mundo.

Ontem eu vi pela TV, umas pessoas que saíram de Minas para ir ver um simulacro de neve em uma serra da região Sul.
Cada qual com seu prazer, é claro, mas tem gente que é absurdamente louca!

... 

Gostaria de me mudar para um país (talvez da Ásia) onde fosse quente e chovesse a maior parte do ano e onde inverno fosse coisa que só se vê pela televisão em Especiais de Natal estrangeiro.

 Mas não existe país assim e mesmo se existisse, sei que provavelmente nunca colocaria os pés nele, quanto mais ir morar em uma terra estranha. 

Já me basta ser estrangeiro na minha própria terra e aqui ao menos a língua eu entendo fácil e a comida é suportável. 

Mas estou encolhido, quase desaparecido por entre edredons a noite e  dentro de mim mesmo de dia.
Gostaria de poder tirar férias sazonais e hibernar decentemente. 

Como não posso, emerjo por umas horas para trabalhar e cumprir compromissos.

Deus, como eu odeio o frio! 

Já era um estado e não uma condição da minha natureza, mas no inverno, cada vez mais me sinto e me porto diferentemente de Albert Camus: tão profundo, tão presente em mim e tão alheio do mundo.
  
Coroada de névoas, surge a aurora 

Por detrás das montanhas do oriente; 

Vê-se um resto de sono e de preguiça, 

Nos olhos da fantástica indolente. 



Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Machado de Assis




terça-feira, 20 de março de 2018

O Sagitariano Decrépito





"Que mais há que ocupemos nossas horas, que cair em contradições enquanto esperamos o tecido  fino da vida desfiar?" 
Eu sou um rato. Já percorri essa merda de labirinto trinta vezes e, diabos, eu sei que não há saída, mas vou continuar procurando mesmo assim! E quando por fim me cansar de correr atrás de portas que não existem, vou esburacar essas paredes com os dentes, até que não me restem dentes ou que do limiar do meu desespero surja uma porta qualquer. 

Você desperta com essas palavras reverberando de algum sonho ou lembrança. Como um soldado cujo sono foi mais profundo do que o adequado, salta da cama ouvindo essas palavras, um clarim anunciando mais um dia de guerra.

Anda pala casa como um espectro de madrugada...
De madrugada...Todas as falsas madrugadas em que uma luz difusa e cinza cobre o mundo, você acorda ouvindo palavras, ecos de discursos oníricos ou lembranças, não sabe dizer, e o som de ondas baixas lambendo a areia da praia.

Isso seria confortador, caso o mar não estivesse a várias centenas de quilômetros da sua janela e da sua sanidade (tão cinzenta e incerta como a luz da falsa madrugada e o falso som das ondas que escuta mesmo depois de já estar de pé, na cozinha, se empanturrando de café e solidão).
E você não quer pensar que chegou ao ponto de procurar consolo em devaneios alucinatórios.

Pela janela da cozinha observa sua nova e silenciosa vizinhança.
Talvez a ausência de barulho aqui tenha despertado em sua mente, acostumada a algazarra de sua antiga morada, esse som fantasma de uma praia alhures...

Cioso e agradecido da consideração de seus vizinhos, evita acender as luzes enquanto olha pela janela enorme em meio ao escuro da cozinha. Vê  lá fora, o mar de luzes acesas em uma BH que não dorme. 
Não de todo.

Se recua o olhar por um instante, para a intimidade da sua casa, um fantasma te olha de volta refletido no filme do vidro escuro da janela. Tenta ouvir qualquer som que denuncie vida; criança chorando, buzina de carro, seu coração batendo, um cão latindo, mas tudo que ouve é o zumbido da geladeira e esse som de ondas tão fantasma quanto o homem refletido no vidro segurando a caneca.

Tanta vida lá fora e você aqui, se sentindo esvair como um balão furado.
Agarra-se à caneca com uma força fanática, quase como se o amargo e o calor do café fossem lastro no ar, uma ancora ao inverso, para impedir o inevitável da sua queda.

Sente-se hoje mais perto da morte do que do dia do seu nascimento e é em choque que constata que este é um pensamento que já lhe ocorria aos oito ou nove anos de idade.
Um sentimento de iminência, de ir embora, uma ansiedade que não se configura nem em medo e nem em esperança, semelhante a um ruído branco no fundo da consciência...

Tem poucas expectativas agora.
Você, que era feito essencialmente de fogo e de esperança.
Corre-lhe pelas veias o sentimento de estar inacreditavelmente velho e cansado, como se os fios fracos que te ligam as coisas do mundo estivessem se rompendo um a um

Um dia desses se levantou mesmo antes de saber que havia acordado e antes de ir à cozinha, viu seu corpo ainda deitado e desde então não olha mais para a cama antes de ir pra cozinha ou pra onde quer que seus devaneios o levem de madrugada.

Se seu corpo experimenta cansaço demais para lhe acompanhar, pois que fique. Nunca quis mesmo arrastar consigo presenças relutantes.

Pobre do seu corpo. Anda tão farto da sua companhia...

Fossilizado em cansaço, tão largado quanto o edredom caído ao chão.
Uma casca que você abandona para devanear na janela e no amargo do café que nem mesmo tem certeza estar bebendo ou sonhando que o faz, enquanto fica imaginando onde diabos iriam as pessoas que estavam naquele jato que de madrugada deixava uma trilha reta de nuvem no céu. 

Você sabe que o mundo não inicia e nem termina em si.
Mas você iniciou e terminará em si mesmo.

O que te atormenta é imaginar como subirão as letras finais da droga do filme da sua vida.
Há pensamentos que gostaria de evitar.
Por exemplo, não quer pensar que morrerá tal como nasceu e como viveu: Chorando, com raiva e com medo.

Não quer pensar que será um idoso tão decepcionante para si agora quanto certamente o é para o moleque que foi umas décadas para trás.
Se seu coração encarquilhar dentro desse peito magro, talvez a única paixão que lhe reste no futuro, que seja capaz de o mover, seja examinar o paradoxo de ter ficado velho sem nunca ter sido jovem.

Voce pensa se quer mesmo viver para colecionar tanto arrependimento quanto cabelo branco.
Se por um lado não curou o câncer, tampouco jogou lixo nuclear em um parque, não plantou uma floresta e nem poluiu um rio e é triste se imaginar uma irrelevância tanto para o bem quanto para o mal no ordenamento final das coisas.

Por mais intenso que tenha sido no sentir, pondera que amou em conta gotas e foi igualmente frugal em seu ódio...
Não abraçou nenhuma causa que não tenha abandonado depois, não defendeu nenhum ponto de vista que não tenha renegado.

Talvez apenas se torne mais um velhote com frio, lamuriento e nostálgico.
Ou pior! Talvez se torne desgraçadamente conformado e feliz!

Imagina-se andando por uma casa esmolando atenção e cuidados de netos que te ignoram solenemente e uma parentalha barulhenta, desconfiado intimamente de que eles, a despeito de todo o carinho, desejem inconscientemente que eu você resolva por fim a morrer e deixar o mundo aos que o herdaram.

Você se vê se recriminando pela falta de coragem, pelo apego à segurança na juventude... Imagina os longos diálogos íntimos entabulados nas suas horas vazias, com seus arrependimentos.
. 
Se um dia preferir a segurança de uma gaiola moral, conta ao menos perceber que morrerá de uma forma ou de outra exatamente no dia em que fizer essa escolha.

Você era o fogo, mas transformou-se em lenha.
Você era a seta, mas se converteu no arco.
Você desbravava caminhos, mas tornou-se gado...

Enquanto coloca a caneca na pia, você planeja e se revolta.

Tenciona encontrar a saída, pois esse labirinto não é maior do que seu desejo de fugir dele.

Mesmo tendo de o percorrer mais mil vezes, mesmo tendo de roer as paredes dessa paz pachorrenta da qual todo mundo finge se orgulhar.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Minha Dialética Tardia...




"A luta entre o velho e o novo, entre o que morre e o que nasce, entre o que é perene e o que evolui...
A luta dos contrários é,pois, o motor de toda a mudança."

Eu pensei que queimaria a mim mesmo na fogueira das minhas vaidades. Nunca soube de lenha mais adequada.

Isso seria um desejo mais realizável do que meu antigo anseio de ser uma lanterna para o mundo. Ou talvez apenas me tenha escapado o fato de que são desejos sinonimizados.

Mas, oh, clichês a parte, a chama ardeu alto, mas por tão pouco tempo que nem chegou a iluminar a mim mesmo ou a noite escura a minha volta. E eu cai de tão alto que já nem havia ossos na casca frágil que se rompeu de encontro as rochas..

De que é que poderia me envaidecer, eu, com a consciência aguda das minhas limitações físicas e metafisicas, estéticas e éticas, morais e acadêmicas e de outras ordens e desordens?

Eu olho para trás e vejo com antipatia e compaixão o garoto que fui há tão perdidos anos e para um pouco a frente, com temor do julgamento do velho que serei.

Paradoxalmente, sou ainda aquele garoto com ideias tão revolucionárias quanto efêmeras e também já aquele ancião repleto de cansaço e nostalgia que está há alguns outonos a frente, no horizonte do meu destino.

Há coisas inconfessáveis, que perturbam o suposto da minha maturidade, em numero similar aos constrangimentos antigos da minha meninice.

O entusiasmo sufocante por coisas que eu julgava tão apagadas em mim como a chama da minha vaidade fenecida me inquieta e tenho de me mexer.

De repente me brotam versos e trovas vindas de algum lugar, inspirada por estrelas em ascensão, quando minha alma já caiu no escuro de algum canto onde o mofo e bolor tirou-lhe o brilho..

Ah, melodrama do diabo!
Me sinto antigo e apaixonado por coisas novas, um dinossauro procurando sua versão .2 em smartphones...
Me sinto ridículo, com uns impulsos que brigam com meu desejo de imobilidade e sou ultrapassado até pela minha letargia.

Um corvo errante berra seu “Never more” e eu passo as horas tentando escrever e dar sentido à sujeira que seu pouso deixou no encosto da minha cadeira e na minha consciência...

Me releio em coisas esquecidas e lembradas, umas com ternura, outras com embaraço e rio de mim mesmo, em gargalhadas sufocadas pelo pensamento de que em alguns anos provavelmente estarei rindo deste Sahge/2017...


Talvez eu esteja mesmo é com receio de que a decadência não seja afinal tão romântica quanto a quer o meu niilismo...

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Eu inverno no outono enquanto desejo fugir

Minha visão monocromatizou em cinza essas manhãs de maio e minha percepção esticou as noites e encolheu os dias...

Mas que tem isso? Tudo se encolhe, se recolhe, pássaros ficam mudos nos ninhos, estrelas aparecem frias por entre as brechas do cinza das nuvens e eu sonho com o Atacama.
É inverno até no inferno.

Sorri quando me lembrei de quantas vezes tive de tirar minha dor do caminho do seu sorriso, antes de pegar uma autoestrada qualquer na qual eu pudesse final e irremediavelmente cair fora do mundo e para dentro de mim, mas hoje...
Me cansa esse desejo constante por decadência e meu niilismo dá lugar a um profundo anseio por sol, vento, e caminhos abertos.
Me cansa estar sempre em fuga, sentado no mesmo lugar de onde tudo em mim grita para sair...
Mas a casa está confortável e quente e eu nutro um autodesprezo doloroso por estar igualmente confortável, olhando pela janela o infinito do mundo em desafio.

Talvez você saiba quem sou eu, mais do que sabem minhas dúvidas, meus únicos pontos de referência na constante interrogação de mim mesmo...

E eu penso em você...
Penso em você até quando penso estar pensando em outra coisa.
Penso nos lugares alienígenas e maravilhosos por onde esteve e por onde sua presença igualmente alienígena e maravilhosa deixou e guardou marcas e me sinto encolher em febre...

Pois me dói pensar que é mais provável que assim como eu, você esteja olhando por alguma janela de algum lugar, desejando que seu corpo possa correr pelo mundo, junto à sua alma fugitiva.

Talvez haja sol aí,neste seu lado da realidade e talvez você cante com  minha voz alguma canção que soe subitamente estranha e triste..

Porque eu sei que você me acha estranho e triste e eu fico intrigado do motivo de eu gostar tanto do seu engano de pensar que eu sou uma única coisa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sobre vitaminas que não tomo e noites que não durmo...

Me afogo...
E, no entanto, não ouso descansar os braços enquanto nado nesse abismo de água repleto de monstros que sussurram meu nome na escuridão.
Ainda sou o embaixador de mim mesmo, mas não faço proclamas porque ainda não acredito no meu produto. Uma buzina soa, alguém dobra os joelhos e grita aleluias e eu olho irritado o inicio do apocalipse, porque o mundo vai acabar ainda não acabei de ler um livro que ganhei de aniversário..

Um sonho mau... Apenas isso.
E então fico aqui,inerte por um tempo...
Eu me espreguiço de tédio nesse escuro porque terror é coisa que compreendo tão bem quanto as letras miúdas em frascos de vitaminas que meus olhos não conseguem mais ler sem óculos e meu esquecimento não dá conta de engulir.
E a droga é que nem tenho óculos, mas tenho uma memória elefantina...

Talvez eu devesse ter óculos...
Talvez eu devesse ter anseios, desejos de felicidade e amor, mas sempre que penso nisso, me sinto tolo, como alguém que teima em tirar água com que se afogar em um poço que já secou há muito tempo...
Até sinto um pouco de medo, mas não o compreendo...
Em um mundo de sensações, fico imaginando se alguém compreende ou mesmo se alguém se importa em compreender algo, além de sentir.
E é através dessa vida vítrea que meio trôpego, me levanto no escuro, me desvio de um ou outro fantasma lamentoso e praguejo contra o pé da mesa no qual dou topadas no escuro.
Queria não ter bexiga, vizinhos barulhentos e sonhos perturbadores e talvez não precisasse me levantar tantas vezes durante a noite.

Oh, deus do céu! De repente tenho 43 anos e nem sinal do rosto grave, absolutamente masculino, olhar duro e vida segura que em minha infância sonhava que estaria me olhando de volta neste espelho.

Um corpo lânguido, uma alma febril e um sentimento de virar a esquina da vida a qualquer tempo. Alguma coisa deu errada na minha, mas faço balancetes diários e ainda assim não fecho a conta, mas fecho o armário do banheiro e la está a cara de garoto cansado me olhando...

Uma semana sem fazer a barba e nem sinal de pelos espinhentos que me completem o ar de decadência. Preciso checar o cartão de crédito, o cheque especial, as notas da escola da minha filha e meus níveis de testosterona.
Deus! Que hora ruim pra ser ateu! Eu poderia fazer como fazem seus “filhos” e culpa-lo por tudo, dizer que é um dos seus “planos misteriosos” e me consolar de alguma forma absurda e esotérica. 
Ao invés disso fico aqui, me culpando por tudo,  até pela vitória de Trump e a queda de todos os aviões  e projetos de vida do mundo...

E porque diabos estou escovando os dentes as três da madrugada?!
Cabelos brancos desde os dezesseis anos, então não posso me vangloriar dessa névoa no topete como uma condecoração pelo tempo de vida e eu nunca fui vaidoso, mas que merda! Se não posso ter um rosto bonito, ao menos não poderia tê-lo um tantinho mais viril?
Olhos tristes e cansados, cansados também de se verem a cada manhã e agora a cada madrugada nesse espelho salpicado de creme dental.

É insano!
Sempre tem alguma porcaria de cachorro latindo, rádio ligado em algum lugar, gente gritando em um bar próximo e eu que deveria estar dormindo, irritado como um autêntico velhinho mal humorado que fica reclamando do barulho.
E pra falar a verdade, fico mais incomodado é com o silêncio nesse lugar, parecido ao silêncio da selva, como se algo inacreditável e violento estivesse pra acontecer.

Reminiscências de uma noite insone e insana...
Sinto vontade de fumar e novamente me lembro de que nunca fumei e que detesto o cheiro de cigarros e que detesto estar detestando tudo o tempo todo, mas que se dane isso!
Cada qual com seu talento, não é?
O meu é estar mal e detestar, eu acho.
A única coisa que parece que sou bom.

Tenho uma inclinação patológica pra estar  mal..
Tenho um buraco onde deveria haver um estômago. 
Uma fome de tudo que paralisa meus sentidos.
Tenho cãibras nos braços e nos motivos,
Tenho preguiça até de ter preguiça e me movo de volta pra cama fria em câmara lenta enquanto sobem as letras dos créditos finais de minha vida.











quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Dia tanto, do mês tal, de dois mil e sei lá...



Foi só começar a chover e eu fiquei feliz como um masoquista de coração partido. 

Pensei que a água lavando vidraças e pecados de BH finalmente me tiraria desse hiato de escrita e eu poderia me inspirar na atmosfera intimista que a chuva proporciona ao nos prender em casa.

Posso bem me lembrar de umas duas ou mais postagens de que me orgulhei de ter escrito e que me vieram em dias ou noites de chuva, quando o mundo parece aquietar e se recolher um pouco.

Mas qual o quê!

Duas horas olhando a janela e só me veio à mente o vazio suave que me tem comido pensamentos, porém aflorado lembranças que bem poderia apagar junto aos pensamentos que me comem. Eu fiquei hipnotizado pela queda da água, mas afora a beleza do vazio contemplativo, não me ocorreram linhas que partilhar.
Um desânimo que até do desânimo me desanima me abraçou os ombros e só então desisti de tentar arrancar da chuva o que o cansaço de existir aparentemente calou em mim.

Uma musa...
Tem uma musa que tenho procurado evitar.

A única que não me abandona nunca e a única que me inspira longas horas e muitos textos que deixo apenas nos repartimentos mofados da minha consciência porque a ninguém interessa de fato.

A Morte.

Contrário a maioria da minha geração, nunca fui um caçador de sensações, mas de conhecimento, ainda que tente obter esse conhecimento mesmo através de sensações.
Sensações são inúteis...

Mas que é que sei de sensações?
Que é que eu sei de qualquer coisa?
Pouco, eu acho, de pouco.
E quanto mais eu sei, mais me sinto tolo e mais quero saber, porque o acúmulo de conhecimento me torna ainda mais consciente da minha estupidez...

A Morte é, talvez, a única coisa que realmente sacie a necessidade de conhecimento. Talvez seja uma musa um tanto lúgubre, mas isso é o que pensaria a gente que se apavora com a ideia da própria finitude (como se se pudesse honestamente ignorar isso por um momento que seja), mas andei pensando que afinal, tudo o que a gente tanto se esfola para buscar e alcançar está em vias de passar, ainda que o consigamos.

Nenhum alimento sacia de vez a necessidade de comer, nenhum beijo elimina a vontade de beijar e nenhuma paixão cala de vez a necessidade idiota do nosso coração de se apaixonar.

Vivemos e morremos com fome de tudo e de nada e nada sacia a fome, mesmo que tenhamos tudo.

E eu quero saber tudo.
Tudo o que há pra saber. 
Mesmo as coisas mais dolorosas, me angustia até o limite do suportável não saber de algo.

Mas suponhamos que eu soubesse que no dia tanto do mês tal de dois-mil-e-sei-lá eu fosse morrer. Esse conhecimento suplantaria toda a minha necessidade de conhecimento e eu teria então um pouco de paz para olhar pra chuva sem ansiar que ela me inspirasse nada que não fosse o vazio lindo que me absorveu por horas. Se eu soubesse quando vou morrer, não iria por aí, como todo mundo diz “vivendo a vida ao máximo”, porque quando alguém diz isso, está na verdade, sendo fiel à minha geração, fazendo apologia a um modo de vida hedonista, como se o prazer fosse tudo o que houvesse para torna a vida o máximo.

Sei lá...

Entre o último parágrafo e esse eu fiquei absorto por mais uma hora olhando a chuva e pensando na minha finitude. Nem sei como terminar esse texto e nem sei se devo ou não o postar.

Atualmente me sinto alienígena até de mim mesmo e tão desconectado de tudo que suspeito que só estou ancorado neste mundo por causa das roupas e nu, cairia pra cima e pro vazio.

Fiquei em um beco sem saída com esse texto idiota, inspirado por uma sensação de vazio idiota em um homem idiota.
Então vou terminar compartilhando uma das minhas minha citações favoritas, e que me fará suspirar por mais umas horas a olhar pro vazio, pra chuva:

“Gosto de desenhar os suspiros dos átomos. E colocar acentos agudos em seus sonhos”.




terça-feira, 30 de agosto de 2016

Na outra ponta do divã




Talvez no fim, não seja grande coisa meu corpo estar aquecido sob edredons em quarto confortável, se minha alma está enregelada debaixo de uma ponte. 

Oh, que pensamento trágico e gracioso...
Queria ter um verso adequado para rimar com ele e então eu teria poesia e não um exercício fútil de melodrama...

Mas a manhã está boa para pensamentos trágicos e graciosos e me apetece  acrescentar mais uma pedra ao edifício das minhas aspirações natimortas... 

Pensar a vida como uma sucessão de situações venturosas equivale a lançar minha autoestima cambaleante para uma sarjeta qualquer.

Ontem, e antes disso, num tempo que já não levo na consciência, dei-me conta final e tardiamente não entendo em absoluto a dinâmica da vida cotidiana dos semi-deuses que me cercam.

O mistério das relações nesse teatro de bonecos que se chama humanidade (e se Deus é o titereiro supremo ou mais um boneco nas mãos dos bonecos, não sei dizer), não é menos esotérico do que o elixir da vida ou do que a pedra filosofal.

Mas tampouco se pode ser realmente humano sem complicar mais as já complicadas relações.

Ou talvez isso tudo seja apenas fruto de uma má disposição do espírito hoje e semana que vem e no ano passado ou a negação de ter um espírito que vá ter disposição para mais do que se desesperar diante do absurdo.

Talvez seja o nada engolindo novamente o tudo.


E eu, que nada sei sobre nada do que sei, sei que manter elevadas expectativas de mim mesmo, desejando ser moralmente belo e virtuoso, far-me-á ter ódio de mim mesmo por não conseguir jamais viver a altura desses céus onde miro minha ambição por ser.

São essas aspirações que cedo ou tarde me farão acabar com os pulsos sangrando em algum canto escuro ou pendurado numa corda, embora eu prefira pensar que ainda teria forças para fugir para o vazio de modo menos drástico e mais digno.

Nem vou pensar demais nisso, porque a essas alturas, seria uma tragédia se eu me descobrisse súbita e abjetamente religioso.
Deus me livre e me dê antes uma morte honrada!
Mais pensamentos trágicos e graciosos..

Já então, não me podem seduzir ou amedrontar as ameaças do céu e do inferno e estou mais ou menos entregue ao mesmo princípio de caos que orienta o mundo, tanto quanto qualquer um, mas ciente de que estou perdido e de que preciso me orientar.

O caminho do bem não é a minha vereda.
O caminho do mal não é chão onde ponha eu os meus pés trôpegos.

Tenho de me equilibrar sobre a linha fina sobre o abismo, enquanto de ambos os lados, voam pedras sobre mim e urram ventos querendo me derrubar.

Não, este não é definitivamente o meu momento de maior inspiração. 
E o que é que pode inspirar o nada?

Nem é o tédio a corroer as minhas horas, mas o desejo de silêncio que vem da certeza de que lá na outra ponta do divã, dormita o analista e eu falo para os meus próprios ouvidos surdos.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Vamos conversar...




...e para finalizar uma conversa que ainda nem começamos, eu lhe asseguro que a luta do fanático é mais válida do que a do soldado relutante, ainda que eu pense que a justeza ou não da luta travada nada tenha a ver com sua validade...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Inércia



A terra deu umas voltas em torno de si, desde a ultima vez em que me senti confortável para escrever o que quer que seja, e meu estômago deu voltas em número idêntico quando por fim me atrevi a sair da minha letargia moral. 

Mas depois de passado um tempo razoável numa posição só, até o mais preguiçoso dos sujeitos vai querer se mexer, mesmo que seja apenas para eliminar as cãibras resultantes de se estar no conforto da inércia por tempo demais...

Eu escrevi um monte nas ultimas horas...

Lixo...
Apenas lixo. 
Entusiasmante, sincero e ainda assim, lixo..

Reconheço o monte de tralha que escrevo quando releio e percebo que lá vou eu, tentando, tateando, ensejando escrever sobre coisas que não compreendo. Isso é fácil notar pelo tom abjetamente humilde com que eu me desculpo linha a linha, pela minha incapacidade de entender aquilo sobre o que tento escrever. 

Escrever sobre as mulheres, sobre o amor, sobre o sexo, sobre a vida, sobre a morte, sobre a necessidade de se crer, escrever, entender...

Burrice pouca é bobagem, Luiz.


Você realmente necessita de atestar tão frequentemente a sua tolice?


O problema se dá justamente por ser sempre mais atraente escrever sobre o que não entendo do que sobre o que entendo penso entender.

Mas o suposto do meu entendimento sobre as coisas já não me conforta o suficiente para que eu suporte as cãibras quieto no meu canto.

Algumas vezes remexo em problemas  antigos, apenas para evitar o impulso a novos problemas, porque o bolor e mofo se acumularam por aqui de tal forma, que já até os sinto como uma coberta quentinha a proteger-me contra o inverno da alma e do frio-outono-cinza-miserável que igualmente cobre essa BH por entre as gerais...





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