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sábado, 15 de abril de 2023

Hiflosigkeit








Bem ao fundo, onde você se funda

Nas bases íntimas do seu eu,

Naquela noite eterna e cintilada de estrelas por detrás das suas pálpebras

Lá, na escuridão púrpura, pontilhada por luzes distantes, 

Nas raízes primárias de onde voce ergueu;

 

Esse sorriso fácil, mentiroso e gentil,

E esse sarcasmo 

E esse senso de humor duvidoso…

E essa formalidade elegante com a qual despacha, preenche certidões e mandados…

E essa afetação educada nos cumprimentos a toda a gente…

E esse olhar astuto a negociar preços e taxas menores de juros…

E esse ar preocupado e solene ao ler as notícias dos desvairos do mundo…

E esse suspiro sonhador e perdido ao se deliciar por manter para si um segredo doce…

E esse aborrecimento tardio ao descobrir aqui e ali sinais de selinidade…

E essa vaidade tola pela adulação ao suposto da sua erudição…

E a eterna postergação para tomar decisões perfeitamente adiáveis…



Abaixo, dentro e por detrás de tudo isso;



Que há nos recônditos interiores de si, meu pobre Luiz, criatura confusa e erma de si mesma?

Há um herege blasfemando sacrilégios para o nada ?

Um crente fiel e fervoroso a oferecer culto e súplicas às estrelas?

Um monge? Um louco?

No seu interior há um menino perdido e desamparado a clamar pelo pai?

Há um romântico abandonado chorando eternamente a perda da alma amada?

Há uma fera raivosa e sedenta a uivar sua fúria para a lua?

Ou uma ave canora e cantante a entoar louvores ao sol?



No fundo e no fim, é tão somente um poeta do desamparo, 

Teimosamente  forjando no fogo brilhante do que é belo a luz do dia

Odes e trovas sobre sussurros noturnos, 

Sobre temas falados nas sombras por onde se esgueiram duendes e sonhos ruins.

E enquanto a vida corre, o dia arde, o verde toma conta da paisagem, 

Você espera pelo cair da noite para se sentir pleno…

Colhendo bouquets de espinhos em jardins floridos…

Alguem lhe nomeou embaixador e porta voz da dor?

Ou lhe designou arauto a falar pelo silêncio?

Ou é simplesmente uma inclinação natural e, portanto, bela, à escuridão?



Mas olha; enquanto voce passa a salada para a pessoa ao lado

E comenta desinteressado sobre o tempo com a pessoa da frente

e se distrai com uma brisa no rosto, súbita e ignorada por todos os convivas

O relógio do tempo ainda corre na mesma direção

E o dia se sucede a noite bem como a noite ao dia.

A marcha da vida não se interrompe,

Enquanto voce oculta a alma atrás do crachá, do número do RG 

E se pergunta se o sapato combina com o cinto…




quarta-feira, 1 de março de 2023

Ouroboros - Ou da Dinâmica Entres os Que Sonham


 

Na obscuridade das minhas linhas, em sono descuidado, sonhei que você me sonhava,
E foi dessa forma, que comecei a duvidar da certeza da minha inexistência,
Que eu era aquela ficção contada por mim mesmo ao nada, que respondia em eco com a minha voz,
Nas horas voláteis, no vazio dos dias entre o horário do almoço, o sono do divã e a sessão das dez.

Se você existia, era suposto que eu também haveria de ser o sonho sonhado por outro sonhador.
Tal qual o sonhei primeiro em dias muito antigos.
E então me pareceu haverem flores brotando em um abandonado jardim do eu,
Uma primavera implacável rompendo em verde no cinza dos meus outonos da alma.
(E se meus dedos inábeis pudessem ao piano acompanhar as batidas rítmicas do meus desejos, ao criar possibilidades onde antes nem vazio havia,
Eu faria uma música de inefável beleza que levaria o seu nome).


De alguma forma, sinto que seu nome soa como o retinir de pequenos sinos a badalar dentro de uma fantasia.
Talvez voce tenha nome de flor, de pedra preciosa que seja ou talvez quisera o amor ou a fé de seus pais dar-lhe o nome de uma rainha antiga ou o de um profeta
(E, deus!, em meu devaneio, vejo-o precioso, mas não como pedra, perfumado como uma flor reluzente, e, talvez você seja mesmo uma rainha no império do coração de alguém ou profeta incompreendido e rejeitado por seu próprio povo).


Retiro os olhos desse livro onde o crio e o sonho em letras, as tuas formas lindas e desconhecidas tomando corpo no destino de tudo o que posso desejar, 

E ainda mais sonhador olho para as direções à volta do meu cárcere suave, mas então perco-o de vista, pois sinto-o mais vivamente nestas linhas em que escrevo ha anos uma carta de amor e que você existe em um ponto cardinal que levo dentro da minha mente.


Observo escritos passados, na gaveta fechada a chave e vergonhas.
Desinvestidos dos sentimentos que lhes deram forma, parecem-me a soma de todos os olhares estrangeiros onde reconheci os teus olhos de passagem.


Penso em tudo o que eu pensava quando não estava pensando em você e me surpreendo a te ver delineado em todos aqueles pensamentos.


 
 


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma chuva que não vem...


Dir-se-ia ter eu seiva nas veias, pois outubro agoniza e eu anseio o desabar do céu em chuva, para me tirar desse estupor e me lançar em outro...
Uma chuva que não vem...

Onde foram o negro céu, a tempestade majestosa e o uivo furioso do vento de outubro?
Algo floresce mais do que plantas, nesses dias em que costumo desabar pra dentro de mim enquanto olho pela janela o mundo inteiro se recolher fugindo da chuva.

Uma chuva que não vem...

O sol impera absoluto no céu e impossibilitado de fazer meus voos labirínticos pra dentro, olho pra fora, pro leste, pra brisa fresca dessa tarde quente, soprando, balançando a copa das árvores com a suavidade de um balançar de cabelos e penso no que eu não queria pensar.

Penso no tempo e no que ele levou e trouxe...
Em tanta coisa que foi e não foi dita e não pensada e não vivida e nessas encruzilhadas todas onde é certo, assombram os espectros das direções que não tomei.
Faço balancetes silenciosos e uma sensação de frio, no calor dessa tarde, percorre minha espinha e eu anseio pela chuva...

Uma chuva que não vem...

Mas me vêm essa inquietação teimosa, fruto de lembranças a que o tempo já deveria ter esmaecido, e orbita sobre minha cabeça em trajetória elíptica .

Algures, em ermo que só deus sabe, alguém olha pro tempo e anseia também e eu penso se é fatal essa sina de estar sempre se sentindo alheio.

E não obstante a carência de fé nos gestos e nos motivos, escrevo como em um ritual e deixo rastros, migalhas de pão a indicar o caminho de casa...

Talvez na esperança de que mesmo na chuva ou na falta dela, não se percam nem o caminho e nem aqueles que estão destinados a percorrê-lo...


terça-feira, 10 de outubro de 2017

É um convite pra dançar

(...)


Ahahahahahahahahahahaha!!!

Que...De que diabos está rindo afinal?

(De uma coisa que na verdade devia me fazer chorar, mas), porra, você está aí falando da sua preguiça de "amores impossíveis" e de gente que teima em vivê-los e estou pensando em quando vai perceber que ainda não entendeu o óbvio...

Me ilumine, então, ser superior... Não entendi o quê exatamente?


Eh...Simples. TODO AMOR É IMPOSSÍVEL!.

(...)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Escolha a vida...





"Escolha a vida".

"Escolha a vida" era um slogan de uma campanha anti-droga dos anos 80...

Só que nós adicionamos coisas.
Eu diria, por exemplo:

Escolha...

...uma lingerie nova na esperança de reviver
uma relação morta.

Escolha bolsas caras.
Escolha sapatos de salto alto.
Lã, caxemira e seda para sentir que qualquer coisa te faz feliz.

Escolha um iPhone fabricado na China por
uma mulher que pulou de uma janela...

E coloque-o em sua bolsa feita
em uma fábrica que pode pegar fogo a qualquer momento.

Escolha Facebook, Twitter,
Snapchat, Instagram...

... e milhares de outras maneiras ridículas
de expor e oferecer sua vida a estranhos.

Escolha atualizar seu perfil.

Poste uma foto do que você comeu no café da manhã e diga ao mundo o que você vai ter para um almoço na esperança de que alguém se importe.

Olhe perfis de ex-namorados, procure paqueras antigas, desejando de que eles não tenham envelhecido tanto quanto você.

Escolha olhar as fotos de viagem de alguém, mas não olhe ninguém nos olhos...
Escolha postar um vídeo ao vivo de sua primeira masturbação, poste e partilhe tudo, até sua morte.

(Interação humana reduzida
a mera informação.)


Escolha 10 coisas que você não
sabia sobre celebridades.
Escolha ignorar tudo o que você não sabe sobre você...

Escolha gritar e reclamar sobre o barulho.


Escolha ouvir e contar piadas de estupro, racismo, pornografia de
vingança e pedofilia deprimente.

Escolha achar que nunca aconteceu o 11 de setembro e se aconteceu,escolha achar que foi causado pelos judeus.

Escolha um contrato de 10 horas e uma
viagem de 2 horas para o trabalho...

...E o que é pior, escolha a mesma merda para
os seus filhos!

E talvez você venha um dia a pensar que
Fosse melhor nunca ter existido;
E depois talvez possa relaxar e afogar a dor...
com uma dose desconhecida de uma droga desconhecida feita em uma cozinha desconhecida por um desconhecido.

Escolha promessas quebradas.
Escolha arrepende-se  de tudo.
Escolha culpar os outros...

Escolha nunca aprender com seus erros.

Escolha isso para ver a mesma porcaria de história se repetir.

Escolha apegar-se lentamente
à migalha que você pode conseguir em vez de lutar por aquilo
com o que você sonhou.

Escolha contentar-se com menos e com um sorriso no rosto,
escolha a decepção...

Escolha ignorar seus entes queridos, até você ver que, no futuro, um por um, todos desapareceram e quando eles se forem, um pedaço
de você morrerá com eles.

E não haverá nada mais de você que
Poderia te mostrar que você está vivo ou morto.

Escolha o seu futuro,
“Escolha a vida.”


                                                            (Adaptado do roteiro do filme  “Trainspotting2”)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

1978, Elis Regina e uma mulher em manhãs de sábado



O ano era 1978.

Eu acho. Não se deve confiar demais na memória de alguém que procura memórias suas aos cinco anos de idade. Há gente que, com efeito, se recorda de lembranças de idade mais tenra ainda, prodígios capazes de voltar no tempo até seus dois ou três anos ou, caso não haja exagero, até mesmo meses de idade ou memórias intrauterinas.

Vai saber...
Lamento informar que não me encontro no rol de tais fenômenos e até o que comi no almoço me é tão indistinto quanto a camisa que usei em 15 de abril de 1993 ou, sei lá, minha adolescência que passou quase como um sopro de sonho. Daí eu ter de advertir que muito provavelmente, minhas memorias de 1978 são muito mais sensoriais (nisso eu posso me gabar de ter uma habilidade notável) do que de fatos concretos.

Eu tinha, pois, cinco anos e já era uma criança bem estranha, para os padrões da minha comunidade.

Muito grave, quase nunca ria e nunca chorava e se o fizesse, era em silêncio, no máximo um murmúrio de protesto sentido. Há que se pensar que eu esteja me vangloriando.... Ledo engano! Eu era uma criança “odiosa”. Os adultos me evitavam. As outras crianças também.  Era quieto demais. Silencioso demais. Adultos gostam de crianças barulhentas e dependentes, que lhes acreditem em todas as contradições e mentiras e que os façam sentir-se necessários e as crianças igualmente gostam de outras que lhes desafiem em jogos ou lhes apoiem as gatagens.

Eu era uma coisa que observava, indagava e aprendia. Por isso enquanto a matilha de irmãos e primos gritava lá fora atrás de cachorros, pipas e encrencas, eu me sentava e olhava pro céu, pras nuvens e pra dentro do meu pequeno e curioso eu.

A exceção, o que me arrancava de dentro da minha introspecção era o meu espetáculo favorito. Minha mãe.

Deus inexistente, como eu amava aquela mulher! 
Ela era linda, ora sofrida, ora alegre e vibrante. 
Aos fins de semana, depois de se matar a semana inteira para alimentar a ninhada, ela se matava para limpar a sujeira que a mesma ninhada fazia em suas ausências da semana.
Ela lavava roupas, limpava a casa, fazia a comida e limpava o terreiro, num ritual que lhe comia o dia todo.

Raramente eu a via, durante o dia, se sentar para comer ou para passar óleo nas pernas e cuidar do cabelo, coisa que ela só fazia durante a noite quando a ninhada já estava dormindo. Minha mãe primeiro cuidava do mundo. Depois cuidava de si. Depois disso, ela se sentava próximo a lamparina (não tinha luz elétrica em alguns bairros de BH nessa época) e se dedicava ao vicio que me legou: ler livros.

O menino estranho e a mulher sozinha a cuidar de seis filhos...

1978...

Minha mãe sempre canta quando está triste. Minha mãe está sempre cantando.

Em 1978 ela estava recém separada do meu pai. História comum em bairro comum de uma cidade comum de um mundo comum: Homem “abandona” mulher com filhos e cai no mundo. Lega a mulher o cuidado com os filhos e vai viver a vida com outra. Minha mãe amava aquele homem inconstante. Até onde eu sei, ele fazia um sucesso inacreditável com a mulherada. Charmoso, bonitão e absolutamente canalha, atributos que bem poderia ter me deixado de herança, já que não me deixou pecúnia.

Oh, aos cinco anos de idade eu amei pela primeira vez e pela primeira vez eu vi como era tolo o coração de uma mulher apaixonada. Minha mãe havia sido traída mais de uma vez. E meu pai ia e voltava uma história pra lá de clichê e não vou aborrecer ninguém com esses detalhes porque é basicamente a história de milhares, senão milhões de famílias...

Minha mãe cantava. Tinha uma radiola antiga a pilhas, onde ela ouvia Benito di Paula, Valdir de Azevedo e Elis Regina.

Elis. Se minha mãe foi meu primeiro amor, Elis foi o segundo.

Naquelas manhãs de sábado em que o sol entrava em casa pelas frestas do telhado desenhando moedas de ouro nas paredes e caindo em raios de poeira levantada pela vassoura da minha mãe, eu a ouvia cantar lá fora.

Na radiola, Elis cantava com minha mãe.
Eu já ouvi todas as músicas de Elis. Ouvi várias vezes e nunca consegui ao certo saber qual era aquela que minha mãe duetava com Elis. Talvez seja porque minha memória de cinco anos é emocional e sensorial. Eu ainda não tinha um arcabouço linguístico elaborado o bastante para saber sobre o que cantavam aquelas duas mulheres lindas. Eu apenas intuía. Eu hoje sou ateu, mas penso que aquelas manhãs de sábado eram momentos religiosos. Havia algo de muito místico naquilo. 

Eu saltava da cama irritado por ter dormido demais e ia lá pra fora, pro sol, pra poeira, pra Elis e pra minha mãe.
Elis cantava como um anjo e como um demônio, como uma amante, como uma assassina...!

Não sei qual era, mas minha mãe repetia tanto aquela música que não sei como o disco de vinil não gastava. E na voz de Elis, embora eu não soubesse e nem saiba a letra, eu ouvia a alegria e a dor, Elis amava naquela música e também odiava. Ela parecia implorar e amaldiçoar. Elis gritava sua angustia e seu deleite de um modo absolutamente mágico e parecia protestar e desafiar seja lá qual o destino lhe arrebatara a pessoa amada.

Era prata, cristal e fogo no ar em forma de música. Eu não entendia como meus irmãos ou qualquer pessoa podia fazer ou olhar ou ouvir qualquer coisa que não fosse aquilo. Era minha mãe, ainda lamentando a perda do “amor de sua vida”, chorando junto a Elis Regina em manhãs de sábado de 1978. Eu não sabia bem como reagir a beleza triste daquilo. Algumas vezes eu desejava poder fazer algo, por que em idade edípica, eu também lamentava do meu pai uma ausência qualquer. Venci meu inimigo pelo coração da mulher que eu amava. 

O que eu não sabia, era que eu amava o meu inimigo vencido e que ao expulsá-lo, fiquei com a mulher, mas o coração dela se foi com ele. Saudades do meu pai morto ainda em vida e de minha mãe, morta como mulher... Coisas que o divã revela...

Eu nada podia fazer, mas ao longo dos anos, sempre que minha mãe estava muito triste, eu permanecia calado ao lado dela, numa solidariedade muda, porque a mim parecia em minha fantasia de criança, que ficando perto eu poderia pegar um pouco daquilo que lhe pesava ao coração, absorver parte da tristeza dela para que ela risse mais, porque minha mãe chorando com Elis Regina era uma primavera, mas rindo, ela era as quatro estações e mais algumas.

Foi uma verdadeira lástima que minha mãe, assim como muita gente ao longo do meu caminhar, não compreendesse bem meu modo sutil de amar e de viver. Nunca entendeu o filho calado e profundo e embora ela tentasse muito, nunca conseguiu gostar dele ou o amar como pessoa.

Não me levem a mal (levem-me para Pasárgada!). Eu lhes asseguro que amor de mãe é coisa inútil para mim. Segundo dizem, se uma mãe tiver doze filhos, 11 psicopatas sádicos e um virtuoso, há de amar igualmente aos 12. Então qual o mérito do filho virtuoso no que tange ao amor de sua mãe?

Esse amor ideal de mãe, que tudo suporta, que tudo aceita e blá blá blá.... Isso nunca me interessou de modo que embora ela tenha sido excelente e ido além de suas forças ao cuidar de mim, não chego a lamentar que ela não me tenha amado como um filho. Eu já vi o que os filhos fazem as mães e como o amor por eles é pesado para elas. Todas essas besteiras que li no dia das mães, sobre esse ideário de amor quase transcendental, mãe que ama incondicionalmente, que tudo suporta, como se fosse realmente um martírio qualquer abrir o útero para uma criança, sofrer no parísio; ideário que talvez venha do mito de Maria mãe de Jesus, isso tudo me deixa nauseado, por que parece negar a uma mulher, uma vez sendo mãe, a humanidade própria.

Mães não podem odiar, não podem se permitir uma canalhice, mães não tem orgasmos (supostamente a concepção de filhos deve ser “pura”), momentos de fraqueza ou força, mães estão condenadas à santidade em vida e não são absolutamente, mulheres. 
Pobres mães...

Ah, eu amava aquela mulher que chorava o amor perdido enquanto colocava lençóis azulados de anil na grama para quarar ao som absolutamente mágico da voz incrível de Elis Regina. Amava a força esmagadora dela ao enfrentar o mundo, ao levantar de madrugada no escuro para arrancar sozinha do mundo o com que alimentar os filhos; suportando bravamente enquanto o ser mãe ia lentamente minando o ser mulher dela.

Muita chuva e vento e verões transcorreram desde 1978.


Morreu Elis, morreu meu pai, morreu a mulher que cantava com Elis e chorava pelo meu pai. 

Ficou a mãe, que me olha com olhos gentis, vasculha no fundo da alma algum amor que possa dar ao filho estranho tão “indiferente” e diferente dos outros filhos e pergunta como vou indo, nas raras vezes em que nos vemos. Abraço-lhe o corpo ossudo, os ombros cansados e sinto raiva de mim mesmo por ser seu filho e assim como os outros filhos, ter arrancado dela tanto que não posso devolver. 

Quase como se eu tivesse entrado no Louvre e, extasiado de amor, tivesse arruinado a Mona Lisa...

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Vamos conversar...




...e para finalizar uma conversa que ainda nem começamos, eu lhe asseguro que a luta do fanático é mais válida do que a do soldado relutante, ainda que eu pense que a justeza ou não da luta travada nada tenha a ver com sua validade...

domingo, 30 de março de 2014

Dos restos dos meus diálogos oníricos


...e mesmo que a gente não venha a este mundo aparelhado com uma tecla f5, é necessária atualização constante do que nós somos e isso implica longos auto-diálogos para dentro. Então conhece a si mesmo para tornar-se o que você é.

Isso requer mudança, porque sem mudança há a extinção do que somos, porque a moeda de troca pela aceitação do mundo e (pasme) até de nós  mesmos, é a nossa identidade. Não  a cristalize, pois, em modelos.

O que não muda, desaparece e você tem sim de mudar constantemente para estar cada vez mais parecido consigo mesmo. "Só o mutável pode perdurar", lembra?

..e antes que o despertador grite para que você vá (ainda) mal aparelhado para a batalha do mundo, me deixe dividir com você uma quase-verdade que troquei por uma imperfeição de que gostava muito:

O Amor tal como nos é ensinado não existe. O que existe é desejo de posse.

É só pensar que se você diz amar algo ou alguém, ficará apavorado com a ideia de ter de partilhar com outro esse objeto do seu amor.
Talvez até o faça, por razões que só o inferno compreende, mas não sem uma quota considerável de sofrimento.

Houvesse um mandamento contra essa idéia, seria: "Não chamarás 'amor' o teu desejo de exclusividade emocional ou sexual sobre nada ou ninguém".

Não é um pensamento confortável, mas talvez te desperte mais eficientemente do que as xícaras de café amargo e o banho frio.

O único amor real, é o que se tem pelas ideias, porque essas, você ama e faz questão de partilhar e de soprar ao vento como dentes-de-leão.


domingo, 3 de novembro de 2013

Talvez (elevado a sexta potência)


Dialetizemos as nossas discordâncias na imagem acima.
O que você chama de "felicidade" está aparentemente à esquerda.
O que eu penso ser "liberdade" segue à direita...
É possível que estejamos ambos  em erro e que nem você seja tão feliz quanto pensa e tampouco eu seja verdadeiramente livre.
Talvez eu acabe ficando prisioneiro de minha singularidade,
Talvez você se torne livre do compromisso de ser alguém único...
Talvez seja alto o preço a se pagar por ser livre e, consequentemente, solitário.
Talvez a felicidade da multidão seja uma alegria menor ao que deseja a sua alma...
E talvez eu que busco a liberdade, acabe por me tornar feliz por ter a mim mesmo
E ao abraçar o mundo, você perceba que ficou de mãos vazias,
Ou privando-se de si mesmo você tenha tudo...

Mas aqui, nessa encruzilhada onde nossos caminhos se separam (e porque apenas eu questiono)
Me questiono, e ao fazê-lo penso
Que talvez eu, que questiono, já seja livre, porque ter certeza é ser prisioneiro.
E você, que segue o mundo sem questionar, já seja feliz, porque ser prisioneiro é, de alguma forma, estar seguro...


Fonte da imagem http://www.caulos.com/

domingo, 25 de agosto de 2013

Fumar aos Quarenta



...ainda não entendi....Porque diabos você quer começar a fumar agora?

Ora, por que! Porque, eu posso, porque não tem lei me proibindo de fazê-lo, porque todo mundo acha que não devo... Tenho um porrilhão de motivos, mas a verdade é que eu quero. Simples assim. E se não tem lei em contrário, o meu querer e o meu não-querer tem de ser razão o bastante para que eu faça ou deixe de fazer qualquer coisa....

Mas você sabe que isso vai te ferrar, né? Vai ficar com os dentes amarelados, o cabelo e a roupas fedendo e nem vai conseguir subir uma escada sem por os bofes pra fora!

...E blá-blá-blá! Você se esqueceu de falar do câncer de pulmão.

Tem isso também! E não é coisa que se despreze!

Bom, eu não ligo de não conseguir subir escadas (pra isso existem os elevadores) e meus dentes (caso não tenha notado) já são amarelos (e sem o “benefício” do fumo) e quanto ao fedor... Ah, eu vou fumar charutos! Charutos não fedem tanto assim! E o cheiro, dizem, é até gostoso...

Nem! Fala só por você!

O Freud fumava charutos...

E morreu de câncer na boca!

Com 83 anos, caramba! Ele tinha de morrer de alguma coisa! Teve o prazer de fumar por décadas e depois morreu. Acha que ele devia viver pra sempre?

Não. Só acho que é um jeito bem desagradável de se morrer...

Rá! Você fala como se existisse um jeito agradável de se morrer.

Não, mas tem jeitos e jeitos... E ainda acho que fumar é má ideia.

Bom, acho um tanto tolo esse negócio de viver em função de como se vai morrer, pra não falar que é paradoxal e um tanto... Religioso...
Fumar talvez seja má idéia, mas se te preocupa que eu vá morrer, advirto que fumando ou não fumando, vou morrer de qualquer jeito.

Você vai fazer merda!

Vou. Mas eu nunca fiz merda na vida. E sou de opinião que quem nunca fez merda na vida, teve muita merda e pouca vida...Ou uma vida de merda, se me permite dize-lo.

Então, se está mesmo tão decidido a fazer alguma asneira, porque não faz uma tatuagem ou foge com um circo?

E desde quando fazer tatuagens é asneira? E qual foi a ultima vez que você viu um circo que aceite gente sem talento para o picadeiro? Cara, você anda vendo TV demais...

Certo, mas é que, fumar, sabendo que é besteira, me parece um tanto irresponsável.

(...)

Quero dizer, a gente faz merda na vida, mas geralmente faz inconscientemente.

Está me dizendo então que uma idiotice é legitima quando feita inconscientemente?

Ei, não coloca palavras na minha boca! Não vem com essa de psicologia reversa barata para justificar o fato de que está para fazer uma estupidez!

Não estou justificando nada. Só estou me dando o direito de arruinar minha saúde. Mas pensa nisso: Dizem que se você começar a fumar com doze anos de idade, aos quarenta vai ter, provavelmente, um monte de problemas de saúde, né?

É o que dizem...

Pois então! Já tenho quarenta, o que significa que vou começar a ter problemas lá pela casa dos setenta anos. É a época em que qualquer um começa a ter problemas de saúde, fumando ou não!

Não acredito!!

O que?

Essa é a coisa mais estupidamente maniqueísta que você já disse!

Diz isso porque me ouviu falar relativamente pouco... Mas não negue a lógica de um pensamento apenas porque ele te desagrada.

Isso não tem lógica nenhuma! E você é um idiota!

Talvez, mas sou um idiota bastante ciente de que se é idiota, o que não se pode dizer da maioria dos idiotas.

Bem, se quer que eu diga, sim, isso certamente conta a seu favor.

Autorização pra fumar então, "majestade"?

Que se dane! O funeral é seu!

O pulmão também. E olha lá... A tabacaria fica ali, perto da redação do "Estado de Minas".

(...)

Quié?!!

Tem um estúdio de tatuagem lá no "Edifício Maleta que"...





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