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sábado, 1 de março de 2025

Deuses, diabos e de como consegui sapatos novos...

 



Duas estradas estreitas de terra branca se cruzavam no meio do nada. E isso não fazia diferença alguma para mim.

E lá estava eu, com calor, suado, empoeirado e irritado.

"Lugar perfeito para um encontro dessa natureza", pensei cuspindo um palavrão na poeira esbranquicenta que me arruinara um bom par de sapatos tão logo desci do carro e afundei até os tornozelos na poeira fina.

"Esse ermo miserável não entrou na prancheta de Deus quando este criou o mundo e é certo que permanece esquecido por ele desde então."

O sol já havia passado do zênite mas ainda derramava fogo sobre o mundo. Refletida na terra batida e branca daquele lugar, a luz solar feria as vistas e me forçava a manter os olhos semi-cerrados, além de piorar a sensação de calor.

A vegetação em volta era um arremedo deprimente  de árvores ressequidas, os galhos espinhosos e retorcidos parecidos a garras prontas para estraçalhar.  Sem folhagem decente, não  ofereciam sombra e alívio, mas sim um espetáculo triste, que desanimava à vista. 

Colocando a mão em concha sobre o relógio, verifiquei já ser perto de uma e quinze da tarde.

"@#%$(impublicável), Johnson! Se essa história for uma mentira sua, vou encontrá-lo e reduzir seus dentes a algo tão arruinado quanto meus sapatos!"

Eu era então um sujeito jovem, a quem o tempo e sofrimento não haviam ainda temperado o caráter, sendo irritável e impaciente. Era um tipo nervosinho e boca suja. E duas coisas me enfureciam além do suportável: Mentiras e atrasos. 

E estava ali justamente para tratar com o pai das mentiras.

E ele se atrasou.

Cheguei na encruzilhada um pouco antes do meio-dia, como estava escrito no cartão que Robert, um tanto bêbado havia me dado. Ele indicou o lugar e me disse para esperar que ao meio dia alguém viria negociar.

"E eu acreditei! (resmunguei para mim mesmo e para ninguém) Um imbecil bêbado mente e um imbecil maior ainda compra a mentira e fica assando no sol e sufocando na poeira!"

O fato é que Robert havia sido um tanto medíocre como músico, mas ficou fora de vista por alguns meses e retornou à ribalta como se fosse um exímio artista. Como eu era igualmente medíocre na minha arte, pensei em usar os mesmos artifícios.

Um pouco depois do meio dia, quando eu já estava bem irritado, passou um homem em uma carroça puxada por dois cavalos tão esqueléticos que só Deus sabe por quais sortilégios conseguiam puxar cocheiro e carro. Pensando se tratar do "negociante", escondi minha raiva pelo atraso num simulacro de sorriso entredentes ao cumprimentá-lo. 

Mas o condutor da carroça apenas me olhou condescendente, apiedando-se por certo do pobre idiota parado ali na encruzilhada a espera de sabe-se lá o que, no meio do nada.

Continuou sua marcha e resmungou ao passar  alguma coisa que me pareceu um cumprimento rude, ao que respondi com um sonoro "vai pra @#$% (impublicável)!", mais irritado comigo mesmo, quando me lembrei de que me esforcei para sorrir pra ele.

Olhei novamente ao relógio e já se aproximava das duas da tarde. Eu estava me voltando para fazer o caminho de volta, desenhando mentalmente e já me deliciando homicida com um cenário no qual eu me desforrava em represália sangrenta na pessoa de Robert Johnson por ter me feito de tolo.

Quando do nada, em uma lufada de vento quente veio aquele sujeito engomadinho e risonho andando na minha direção.

Ria um risinho baixo e sibilante, como o suspiro ameaçador de uma cobra. Uma boca larga e vermelha mostrava uma coleção de dentes muito brancos, nos qual exibia um canibalesco sorriso de deboche.

Vestia terno e calças longas, bem cortadas, risca de giz. Na cabeça, sobre um rosto barbeado, levava chapéu de abas largas, exagerado e feminino demais ao meu ver. Usava uma gravata vermelha extravagante e exalava aquele perfume bem conhecido a quem frequenta casas de má reputação: um misto de perfume barato, cigarros, bebida forte, sangue e sexo.

Absolutamente atraente e repugnante.

Mas o que mais me irritava naquela figura, além do olhar debochado, eram seus sapatos brilhantes de tão limpos, com polainas elegantes, intocados pela poeira daquele oco de coruja.

E mais surpreso do que por ele ter surgido do nada, eu apenas me perguntava:

"Como esse filho de uma @#$%(impublicável) conseguiu manter os sapatos limpos?"

Olhei-o rancoroso, mas ele não deu mostras de ter notado. Com ar zombeteiro  me falou: 

  • Estava me esperando, garoto?

"Garoto é o @$#% (impublicável)", pensei. Mas só pensei. Precisava negociar com aquele tipo. Não era conveniente arrumar uma briga antes de obter uma barganha.

Ainda assim, estava irritado.

Andando na direção dele com passos largos, respondi com aspereza fazendo questão de colocar nessa resposta uma acusação.

          - Desde o meio dia! - Protestei.

Ele ainda mantinha no rosto aquele sorriso de escárnio,  mas se permitiu franzir o cenho e demonstrar um pouco de surpresa.

  • Como é…?

    - Robert Johnson me deu esse cartão - interrompi levantando a altura daqueles olhos amarelos o papel também amarelado - Caso não saiba, está escrito aqui que você estaria nessa encruzilhada ao meio-dia! E já são duas da tarde!

É certo que ele não esperava esse tipo de reação. Deixando morrer um pouco daquele sorriso de tubarão irritante no rosto (o que me agradou ao me dar a sensação de haver obtido uma pequena vitória), ele deslizou em volta de mim me olhando como uma fera prestes a atacar.

  • Você sabe quem eu sou? E o que eu posso fazer?

    - Se eu não soubesse - respondi sem titubear e sem fazer caso daquela ameaça velada - Por que @#$% (impublicável) eu estaria nesta @#$% (impublicável) de lugar estragando meus sapatos de 50 $!?

Ele estreitou os olhos me avaliando por um tempo, parecendo decidir como reagir aquela afronta. Por fim, desatou a rir uma risada estridente e lunática, tirando o chapéu da cabeça e batendo com o mesmo no joelho, uma atitude provinciana que destoava de seu ar engomadinho.

  • Garoto, eu gosto de você! Continue atrevido assim e vai facilitar meu trabalho em muito!

(‘Se esse $%#@ (impublicável) me chamar de garoto mais uma vez, vou me esquecer que ele é a %$#@ do diabo e vou afundar-lhe a socos, o focinho empoado cabeça adentro!”)

  • - Simpatia é dispensável, pontualidade, desejável - bufei mal humorado - E já que falou do seu trabalho, se não fizer objeções, vamos a ele e talvez eu possa sair desse sol e dessa poeira. Afinal, se é pra eu queimar, que seja no inferno e só depois de cumpridos os termos do acordo, não é?

A isso, ele revirou os bolsos do terno elegante em busca de um contrato, mantendo no rosto o risinho de deboche, mas com aquele brilho assassino no olhar . Eu o observava com antipatia crescente. ("Esse infeliz deve ter algum problema nos músculos do rosto, pois não fica segundo sequer sem sorrir como um maldito cafetão! ")

  • Só pra me certificar de que você sabe o que está envolvido…Você conhece os termos deste contrato, rapaz?

    - Agora essa é boa! - ironizei devolvendo seu deboche inicial - Um diabo com princípios! Com o que então, vai querer que eu leia as letras miúdas também?

    Não me entenda mal - defendeu-se o demônio engomadinho, levemente desconcertado - Mas desde aquela coisa lá com o Fausto, estamos mais atentos com essas minúcias nos negócios…

    -Ahã -Debochei - Foi mesmo uma lambança “dos diabos” aquilo lá, não foi? - respondi mofino, com um sorriso maldoso - Pois poupe seu fôlego e o meu. Eu já sei o que está envolvido. Fogo, enxofre, danação eterna e bla-bla-bla…Em troca de talento e dez anos de glória neste mundo você leva minha alma. Foi o que o Johnson me falou

  • Ora, mas isso é interessante… Ele retomou seu tom zombeteiro - Não é todo dia que encontro um tipo que parece ansioso para se desfazer da própria alma.. Não está com medo?

    - Posso suportar ficar com minha alma mais um tempo, meu chapa. O que não posso suportar é esse calor e essa poeira. Vamos acabar logo com isso, se não se importa!

    O funeral é seu, garoto - replicou o diabo sorridente - Assine aqui e será tão talentoso quanto o Robert Jhonson. Por dez anos. Depois disso…

    -Eu sei - Tomei-lhe a caneta e papel da mão e rabisquei uma assinatura descuidada - Fogo, enxofre, etc.

Devolvi lhe-o papel, que ele colocou apressadamente nos bolsos do terno elegante.

  • Onde está o seu instrumento, rapaz? Você quer talento mas nem mesmo traz consigo… O que? O que voce toca afinal? Violão? Gaita? 

    -(!!!??) Se eu fosse pianista, teria de arrastar um piano até este fim de mundo para termos um acordo? @#$% (impublicável), pois meu instrumento está na sua mão - Respondi - A Caneta - Apontei, quando ele fez uma expressão aparvalhada de quem não estava entendendo - Me dê talento o suficiente para eu não me tornar um escritor irrelevante e terá mais uma alma para torturar, se é o que lhe apraz fazer em seu tempo livre. E já pode cumprir a parte do contrato onde você me dá os seus sapatos.

    O que? Como é? De que é que está falando?

    - Está no contrato.

Retirando o papel do bolso, ele leu desconfiado o que rasurei nos termos do contrato, logo abaixo da parte que falava do benefício do talento, acrescentei; “ E um par de sapatos novos”.

Ele ficou furioso. Estava tão distraído debochando de mim que não notou que escrevi mais uma cláusula. Mas ainda assim tirou o par de sapatos e me estendeu. O ar a volta dele crepitava em irritação quando vociferou uma última ameaça.

  • Você pensa que me enganou, garoto. Mas não perde por esperar! Um dia, virei cobrar e você vai aprender o que é o medo!

Ergui os ombros.

  • -De que? Do inferno? Pois saiba o senhor Diabo, eu tinha medo do inferno até um minuto antes de você vir rodopiando risonho nessa poeira. Tinha medo de ele existir. Na hora em que te vi, tive certeza de que o inferno é real. E se o inferno é real, estou certo que assinasse esse contrato ou não, eu iria parar lá de qualquer modo. Então por que @#$% (impublicável) vou ter medo do que não posso evitar?

  • Conheço o seu tipo! Está blefando! Quer me fazer acreditar que não te assusta a dor? O sofrimento? A eterna agonia de uma vida sem esperança? - insistiu o velhaco enquanto eu lhe arrebatava das mãos os sapatos elegantes.

    -Sofrimento? Vida sem esperanças? Bah! Eu já fui casado três vezes, camarada. Você não está falando com um novato nessa seara. Vejo você em dez anos.

Ele ainda estava lá, quando me virei para ir embora e foi um conforto adicional perceber que, a despeito do que eu havia pensando antes, ele era bem capaz de parar de sorrir por alguns momentos. Estava com uma expressão terrível no rosto bem barbeado.

Ainda estou à espera de que ele cumpra a parte do contrato, pois já se vão muitos e muitos anos desde aquilo; e findos os primeiros dez, vinte, trinta anos, não vieram nem o talento prometido e tampouco a cobrança pela minha alma. 

Dentre tantos defeitos, jamais imaginei que o diabo fosse um tratante.

Aquele cretino sem palavra!

Quanto aos sapatos…Serviram, já não me servem mas ainda os tenho.

Não foi uma perda total.




terça-feira, 28 de março de 2023

Ao Menino Manco Diante de Quem Fechou-se a Porta No Monte Kolppenberg




Nasci ao mundo, terra estranha, para nele estar estrangeiro, talvez em papel mais confortável, do que o anterior, de apátrida na minha terra natal.

E nessa, que era então uma terra de espinhos morais, por um longo tempo caminhei com alma e pés descalços.

Mas agora, caminho por palácios gigantes de concreto e vidro e aço polido e percorro os salões enormes, onde homens tambem polidos, duros como concreto  e com corações de aço, que veem a si como gigantes, sentam-se em tronos outorgados e decidem o destino de muitos.

Nesta seara igualmente espinhosa, eu caminho no piso de mármore frio, ressoando com meu  pisar o  do som dos passos de muita gente em pressa.

Nos pés levo sapatos que custam o salário de um trabalhador e na alma, a certeza de estar vivendo em vão.

Desgostoso, deixo a mente escorregar, deslizo para os reinos da memória e me lembro...

Foi me dito que no início, Deus criou o céu e a terra e então, dentre tudo isso, dedicou especial atenção em meio a ordem criada, ao que seria  o meu quinhão de caos e de dor.

Destinaram-me a uma vida servil, de costas e cabeça curvadas, mãos e alma embrutecidas a lavrar do solo o sempre insuficiente pão.

Deram-me na saída, aspirações subalternistas com que me distrair nos momentos de folga  e me estenderam a garrafa onde, por sonhos etílicos, no esquecimento da minha miséria, também desapareceria nas minhas alienações do eu, a consciência da dureza da minha servidão destinada.

Apontaram-me altares vazios diante dos quais eu deveria me curvar e oferecer com fé orações que seriam frequentemente ignoradas. Mostraram-me deuses indiferentes ou surdos, aos quais eu deveria oferecer lágrimas e súplicas e paradoxalmente os temer e os amar.

E, nos arremates da minha sina, entre os atos de nascer sozinho  e morrer violentamente,  existiria um hiato de tempo em que meu corpo serviria ao conforto dos que seriam os eleitos à grandeza e seria para mim o palco do espetáculo amargo das minhas dores e do meu desamor.

Algo, no entanto, falhou e eu me tornei ainda mais miserável, estando o tempo todo dolorosamente consciente de mim mesmo e do que poderia ser o meu destino.

Na infância, no jardim interno que toda criança leva na alma, vicejava em meus pensamentos uma chama a que eu não tinha o direito.

Como um pequeno Prometeu mal nutrido, de pele marrom e cabelos crespos, roubei-a ao diabo ou a deus e com ela atormentei-me com pensamentos de grandeza, de nobreza talvez ilusória, enquanto me apunhalava o estômago em estocadas dolorosas a fome comum daqueles tempos.

Era a alma-em-espinhos desejando florir  de um menino pardo, os pés descalços na poeira vermelha do tempo, em uma terra árida e de homens ásperos, fotografia velha em que o tempo levou as cores e as memórias, nos anos de mil novecentos e setenta e tantos sofrimentos gravados na cabeça cheia de sonhos, a margem da vida, quando não havia alimento para o corpo, amor para a alma ou futuro para o mundo.

E lá, na poeira vermelha, por entre ruas sem calçamento, agua poluída, fome, doenças, miasmas  e gente sem metafísica, poderia haver poesia onde sequer havia pão?

E ainda assim, teimava em surgir na pulsação do meu espirito ainda indomado, o impossível dentro do possível, o infinito ardendo na palma da mão pequena, magra e de unhas sujas. 

Nos limites invisíveis da minha prisão sem grades ou trancas, um mundo vasto delineava-se no anseio de ser mais do que o corpo frágil, constantemente carente de nutrientes e afagos, o estômago roncava e eu sonhava com a Terra do Nunca, poesia brotava na mente no mesmo ritmo que se estragavam na boca os dentes sem tratamento, e passava a paralisia cinza do tempo entre as  paredes sem reboco e por entre almas sem abstrações.

Para onde foram esses dias perdidos? Em que passado refeito no meu emaranhado de traumas perdeu-se minha pequena e brilhante alma, o futuro e a chama verde e teimosa da esperança? 

Fecho os olhos para o passado e os abro ao presente e olho para meus sapatos lustrosos, que custaram o salario médio de um trabalhador, (talvez um homem enorme,  melhor do que eu, alma simples de  mãos calosas que  ergueu do nada esses palácios em que seu destino é decidido) e sinto por mim mesmo um desprezo profundo, próximo ao rancor e fujo pelos corredores sentindo o olhar acusador e atemporal de um menino marron, criança parda perdida na poeira do tempo.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Sândalo Caído 2- (ou sobre como a fábula da vida é contada sem zelo)

 


Da extinção do sândalo caído compus um poema tolo,

Em momentos de febre de sentimentos.

O gume frio do machado perfumado,

Que me inspirou versos tão insípidos

Nada valia sem o cabo que o empunhava.

O cabo, fora feito de um galho do sândalo,

E o Sândalo o forneceu à mão que o deitou.

E eu me juntei a camarilha sem inspiração para dar voltas no entorno de contradições vazias.


Mas à beleza daquela mulher insana já haviam cantado demasiados poetas ...

E ela ficou fria, bocejou votando aos meus versos banais - oração sem fé de uma alma atéia - justa indiferença.

E foi brincar de ser vento e dar nós nos pensamentos daqueles a quem sua loucura inspirava mais verdadeira e violentamente.


O sândalo caído e minha fé perdida…

A despeito da minha inércia, 

Sobre a trilha antiga, a vida se ergueu novamente em floração

Tempos e silêncios deram as mãos e as muitas chuvas lavaram da terra o perfume de sua queda.


E eis,

Tudo tem um início e nesse inicio já está delineado o seu fim.

Isso se aplica a chama da lareira, ao sândalo caído e a coisas em demasia.

Sinto isso, mesmo que minha razão teimosa fraqueje em aceitá-lo.

Reviro as cinzas da lareira a cata de uma ultima brasa e repito, sussurrando baixo, tentando convencer a mim mesmo:

Não foi a minha mão, não foi meu o machado”

E não serei cúmplice da minha própria queda hoje,

Mais do que fui dessas linhas sem inspiração, que minha impaciência lança ao fogo do meu esquecimento.

Talvez quando esta derradeira labareda se extinguir por fim,

Eu finalize esses versos bem como a tentativa de não pensar na sensação estranha de que minha história está sendo reescrita por mão invisivel e displicente.

E talvez por fim, o frio me expulse dessa janela,

E va dormir um sono silencioso e sem sonhos.


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Destes pedaços de Luiz que Vou largando Enquanto me perco - ou sobre uma tela em branco

 

Paralisia súbita, nos dedos e nas ideias, enquanto olho impassível a tela em branco. 

...

"Que diabos estou tentando fazer?"

É difícil dizer honestamente o que move a maior parte das nossas ações. Só o ato de pensar nisso já nos paralisa.

Como agora ha pouco, diante da tela em branco.


Olhei o vazio na tela e pensei:

"Que lindo! Imagine esse nada magnífico na cabeça e nas artérias". 

Senti um calafrio agradável e involuntário deixar minha pele arrepiada enquanto navegava neste devaneio...

Mas não. O niilismo barato não vai me salvar no dia de hoje.

E então os dedos se movem e lá vou eu, tanteando no escuro e no teclado, deixando mais fragmentos de minhas dúvidas emporcalhando a existência...

As vezes fico furioso e nostálgico... Saudoso, não de situações e nem necessariamente de pessoas, mas da época em que eu me iludia de que no fim, conseguiria inferir algum sentido nessa loucura chamada "vida". 

O fim se aproxima, vou descrendo de tudo e sinto saudades do meu otimismo militante e fanático.

No entanto, um dos resultados trágicos do amadurecimento é a perda da capacidade de se auto-iludir. 

Abala mais do que rugas e dores nos joelhos.

Gosto de pensar que sou movido por motivos nobres ou virtuosos, mas como fugir da sensação amarga de que na verdade sou só mais um animalzinho assustado com medo da noite, com a barriga roncando de fome, procurando me aquecer e atender a urgência do cio?

...

Tenho evitado ler ou conversar com pessoas que amo e admiro, porque sei que tudo o que vou pensar em seguida, qualquer coisa que me saia da boca ou dos pensamentos que enxameiam o meu cadáver cerebral, será então um diálogo íntimo e intuitivo com essas letras e com essas pessoas. 

Traçarei a linha das minhas ideias reagindo por dias com lirismos alheios e vou afirmar envaidecido pra mim mesmo, que sou qualquer coisa de extraordinário como pensador, enquanto meu desamparo debocha e afirma o contrário... 

Quando na verdade, minha maior ambição seria não pensar em nada. Não reagir a nada. Ficar tal qual essa tela que minutos atrás estava limpa das contradições cansativas que nela digitei.

Quando tudo parece encolher como em um outono perene...

Quando na verdade tudo no mundo me confunde  e eu ainda que eu ame, já estou meio farto de amar as pessoas de maneira tão súbita e ardentemente. 

E me pergunto se alguém já esteve realmente farto de amar ou se foi só uma  maneira melodramática e menos poética de dizer que "o meu cansaço é um barco velho apodrecendo em praia deserta..."

Além do mais, amor não solicitado dificilmente é bem recebido ou valorizado (se tolerado)

Talvez pensando nisso, andei relendo algumas coisas que escrevi ha mais de uma década atrás, época em que eu ainda me permitia apaixonar pela ficção que eu criava das pessoas e só o diabo sabe como me diverti lendo aquilo.

Já consigo olhar com simpatia para o moleque de  trinta e poucos anos que eu fui (o que já e um avanço), mas não consigo fazer as pazes com minha versão de cinco anos atras e sinto um rancor profundo da pessoa que eu era na semana passada.

Talvez eu possa concluir disso que provavelmente  daqui a 12 anos (Deus!), aos sessenta anos serei indulgente para com este ser por quem agora sinto exagerada repulsa, mas é quase certo que nesta mesma época terei pensamentos amargos sobre mim mesmo aos cinquenta e tantos anos.

Acho que na verdade, se vivermos o bastante vamos concluir que nunca somos o que queremos ser.

Só reinventamos o personagem que até ontem interpretávamos e seguimos o roteiro da vida que nos convenceram de que era a nossa.


Agora são 16:21

terça-feira, 30 de março de 2021

O Segredo do Inferno

 


Então me deixe contar uma historinha curta:

D'Ararzzen era um mago que jogava cartas com o Diabo.
Não que ele fosse um mago "maligno" ou das trevas. 

Bem e mal era abstrações, a seu ver, das mais tolas.


Era só que o Diabo tinha um repertorio de piadas melhores do que Deus.

E Deus não gostava de perder.

("Eu que inventei essa droga de jogo!”, obtemperava em noites de mãos ruins.)

Além do mais, o mago era excelente jogador de pôquer e toda vez que ganhava de Deus sentia aquela ameaça velada...

Em noites em que Deus perdia muitas rodadas, resmungava furioso e ao longe ressoava um trovão.

“Vem chuva por aí...”, comentava D'Ararzzen, utilizando um subterfúgio pra se levantar e ir embora.

Vai nada!”, o Onipotente determinava.

Senta aí! Se eu quisesse, chovia quarenta dias e noite e acabava o mundo. Mais aí eu não ia poder recuperar minha grana nessa mesa. Revanche?

D'Ararzzen se sentava e , ainda que não fosse um sábio (se fosse não estava jogando cartas com aqueles dois), era inteligente o suficiente para rir sem graça das piadas sem graça de Deus e sair daquela jogada perdendo de proposito, mesmo tendo cartas melhores.

O Diabo ria e debochava mentalmente da cautela do mago: “Bundão!”


Enfim.
Uma noite, Deus não conseguiu uma desculpa boa para comparecer ao jogo, e na mesa em que só dois jogavam, o diabo estava em uma onda de azar.


Em resumo, o mago já tinha ganhado várias rodadas e o diabo estava ficando sem grana até pro taxi.

Estava tarde e D'Ararzzen decidiu encerrar a jogatina.
Mas o diabo teimoso insistiu em uma ultima cartada.

"O dobro ou nada!"

"Sem essa! Você já não tem mais um vintém nos bolsos...Vai apostar o que?"

O diabo pensou e não ia deixar barato. Afinal, era um mal perdedor assim como Deus.


Havia perdido até as calças no carteado, mas apostou o segredo mais bem guardado do inferno.

O mago, que era além de bom jogador, um excelente trapaceiro, topou e após o Diabo vitoriosamente lançar um Flush sobre a mesa,  com um Straight Flush esmagador venceu e obrigou o diabo a contar o tal segredo.


Puto da vida ('Eu que inventei a trapaça, merda!!"), o diabo pegou seu chapéu da mesa pra ir embora, virou o último trago de conhaque (com cinzas de cigarro dentro, pois foi usado como cinzeiro pelo mago e por ele próprio minutos antes) e ao sair, contrariado, mas fiel a sua palavra,  vociferou entredentes o tal segredo.


Que vou dividir com vocês agora.


"O segredo do inferno", disse o diabo,
"É que ele é completamente facultativo...”

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Outra nota sobre a coragem...


Em uma postagem anterior,  falei sobre coragem, como um dom a ser perseguido.

E em outra, não sei se nesse blog ou em espaço perdido nas minhas antigas e perdidas veredas da net eu raciologiquei que coragem não é a ausência de medo. Ausência de medo é burrice, se não for patologia.
Coragem, é ter medo e, não obstante, enfrentá-lo.
É o kamikazi caindo voluntariamente do céu, é o guerreiro sozinho com uma espada se lançando contra um mar de escudos e lanças, é a mãe se jogando sobre o filho para protegê-lo das balas, é o rato acuado brigando como um leão.

É arriscar e talvez morrer por algo maior do que a si próprio.

Talvez seja uma coisa difícil de se fazer, porém, asseguro que é bem mais difícil viver com medo.

Anos atrás, após uma discussão breve, alguém gritou por socorro de madrugada, na rua em frente a minha casa. Me levantei imediatamente e ia sair mas minha ex-esposa me convenceu a não o fazer. Ela argumentou algumas coisas; que era briga de gente ruim, que era obrigação da polícia prestar socorro e que eu tinha esposa e filha e que devia pensar nelas ao invés de me colocar em risco por "gente que não presta".
A briga silenciou na rua e eu me deixei convencer pela minha ex-esposa.
A verdade, bem o sei, é que se eu estivesse resolvido, ela não teria conseguido me deter. Deixei o medo me segurar e me impedir de socorrer alguém. A verdade é que prezei mais a minha segurança do que o fazer o que é correto.
Passados tantos anos, não consigo me recordar deste episódio sem sentir náuseas de desprezo por mim mesmo. E faço questão de contar isso pra que eu nunca me esqueça.

Viver com medo é uma morte lenta, uma tortura silenciosa e uma escolha de covardes que preferem se acomodar quentinhos junto á lareira do que olhar o sol de frente. É coisa de quem quer um universo seguro e ordenado, de quem prefere as sombras projetadas na caverna do que sentir e viver a marcha selvagem da vida.

Viver a verdade das coisas é algo que tenho procurado ha muito tempo.
Penso que já nasci com essa veia moral, de encontrar significado, de olhar atrás do cenário, de tentar saber o que faz a marionete se mexer.
A mentira, a ilusão e a desonestidade são coisas pavorosas, que me reviram o estômago e me gelam o sangue de ódio. E é pior quando tento fazer isso comigo próprio.

Nunca soube de nada mais odioso do que a mentira.
Exceto, talvez, o medo.
Viver com medo ou viver uma vida de mentira é mil vezes pior  do que morrer.

Melhor está o leão morto do que o cão vivo.

O meu maior gesto de coragem foi olhar nos olhos de uma pessoa e lhe falar a verdade, sabendo que isso ia libertá-la e a mim, mas também lhe ia partir o coração e destruir sua zona de conforto.
Colhi as consequências.
Não poderia ser de outra forma.
Mas o alívio que eu senti por não mentir compensou em muito a dor que causei e senti.
Foi a coisa certa a fazer e não posso sequer me orgulhar de o ter feito, porque não é como se eu tivesse escolha.
Mas as pessoas em geral, pensam que têm.
A escolha de mentir.
A escolha de viver o conforto e a segurança.
A escolha do medo.

Mentir é roubar ao outro a liberdade de escolher um caminho a tomar.
Não é uma opção.

Ainda assim, este e outros atos de coragem, paradoxalmente me levam a seguir minha outra veia moral, uma que me move desde criança: O desejo por redenção.

Que pecados tem a purgar um criança?
Talvez o de ter nascido?
Quando aqueles que te trazem ao mundo manifestam, mesmo inconscientemente, o arrependimento por o ter feito, você é um desgraçado se por acaso tem sensibilidade o suficiente para perceber isso.


Deixando de lado minhas fantasias pueris de culpa filial, eu penso muito em redenção.

Não quero ir pra cova carregando essas dores que causei. É um fardo pesado demais.

Viver corajosamente tem um preço, é claro, e eu ainda prefiro ter a consciência atormentada pelos efeitos de uma atitude correta a ter de passar a vida tendo de contar a terceira para justificar a segunda mentira que justificou a primeira que serviu para esconder o fato de que sou um merda!

Ainda não vi um abismo que eu não tenha sentido vontade de me atirar ao fundo.
É a esperança que quando der por fim com o corpo nas pedras, silencie junto com minha respiração, o peso de tantas culpas.

São 16:22 agora...

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Mea Culpa Entre Amigos (2, eu acho...)




Tá... Eu desisto.

Preciso estudar, mas minha capacidade de concentração foi pro ar, junto com meus pensamentos que surpreendi a vaguear pelo nada...

Tenho de compartilhar um ponto de vista e me lembro ao fazê-lo de um dito de uma professora minha que “à vista de um ponto, tudo é um ponto de vista”.

Do divórcio então...

Minha ex-esposa pensava que eu sou ateu, que tenho pouco ou nenhum respeito pelos valores da sociedade, que tenho ideias nada ortodoxas, que não faço nenhum sentido, que sou um filho-da-puta que não faz o mínimo esforço pra ser socialmente aceito e que acho que estou sempre certo.

Tudo verdade, é claro. Mas essa não foi exatamente a questão do divórcio. Eu tinha cá comigo as minhas queixas também. 
Afinal ela era humana, não é?

Deixemos minhas queixas de lado, porque do meu lado, não foram minhas queixas, mas minhas ideias.
Porque dentre as minhas ideias loucas está a de que você faz coisas doidas por amor e uma delas é não permitir que alguém que você ama (ou pelo menos, porque nutre algum amor fraterno, como era o caso) permaneça ao seu lado sendo infeliz por esse motivo, ou que alguém use o que chama de “amor” por você, como um tipo de chicote com o qual se auto-inflinge todo tipo de mazela. Daí talvez você tenha de expulsar o passarinho da gaiola (oh, que altruísta que eu sou..) e obriga-lo a voar, porque o carcereiro está tão preso quanto o detento.

Sei lá, mas tem papéis nos quais simplesmente não vou aceitar nunca que me coloquem.

“Criatura, escolha ser livre! Escolha encontrar o melhor de você mesma! ”

Esse tipo de pensamento é assustador, pra maioria, mas eu meio que tinha de ser fiel à minha tendência a queimar e reluzir e reduzir a cinzas as prisões interiores de todos a minha volta, como convém a um bom Sagitariano com ascendente em Áries.

Além do mais, inquietar é preciso, viver não é preciso.

Porra, Sagitário com ascendente em Áries!! 
O que esperam de alguém com dois signos do fogo?!
São os dois signos mais donos da verdade que existem!
Se a gente fode a coisa toda no processo, é mero detalhe, eu acho...
Fogo total nas minhas ideias e nos meus impulsos! Oras, vai lá e pede pro sol brilhar menos ou ser menos quente....

Como podem ver, não era fácil viver comigo. Talvez eu devesse estar feliz, por não ter sido vítima de um crime passional, porque motivos para tanto, talvez eu até tenha dado...

A questão não é essa. Ninguém casa sozinho e ninguém divorcia sozinho. Eu apenas acho que toda história tem dois lados e aqui eu me esforcei, penso, para contar apenas o lado da minha ex-esposa..

Nem era sobre divórcio esse post.

Era sobre como as coisas podem melhorar, se você permitir que melhorem. Há pássaros que amam gaiolas e isso é coisa que não me entra na cabeça. E olha que eu sou a pessoa com idéias doidas!
Idade pode ser uma coisa ótima, caso você não tenha síndrome de Peter Pan, e a bem da verdade, eu tive certamente boas influências externas e internas para operar mudanças necessárias e colocar um pouco de saudável Caos no bolor estagnado que eu chamava de “ordem”.

Uma coisa boa em ser ateísta, é a certeza de que você só dispões de uma vida. Uma única em que que fazer as coisas valerem a pena. Não, não falo de hedonismo, falo de coisas reais, que não se perdem tão fácil quanto um orgasmo ou a sensação boa de comprar algo caro ou obter um deleite frugal.
A vida é boa.

 E eu espero que seja boa pra todo mundo que já cruzou meu caminho, caminhou comigo por um tempo e depois seguiu o próprio (claro, desde que esses queiram que seja, porque se não quiserem, eu não entendo, mas lhes reconheço o direito de se ferrarem. Que se vai fazer...)


Só isso já é motivo o bastante pra sair pro sol...


PS: Acho que avisei que sou um filho-da-puta que acha que está sempre certo, né?

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Enquanto Setembro agoniza eu conto lírios em um jardim que não existe...

Se ao menos não me fascinasse tanto os fragmentos de vida sobre os quais bocejo meu desinteresse sutil,
Se ao menos eu não estivesse tão empenhando em olhar para o vazio da noite esperando ver – o que? Gritos de socorro nas esquinas lá fora que sufoquem os gritos de socorro emudecidos aqui dentro? – sondando, tentando achar o que quer que se ache quando se olha pro vazio da noite

Se ao menos não me importunassem com conversas enfadonhas os fantasmas da minha insônia,

Talvez me aprouvesse ser menos introspectivo para fora e mais extrovertido para dentro.... Eu faria carnavais silenciosos enquanto seguraria o queixo e olharia pela janela, perdido em atitude meditativa.

Um dia desses a rotação da terra me jogou para fora da cama dela (não me lembro qual, porque estranhamente ainda me aconchego em seus edredons e sorrisos no escuro) e tive que orbitar apenas em volta daquelas perguntas que deixei de fazer e das respostas que ela não me deu.

Mas ela.... Se empenhou apaixonadamente em ser uma mulher, mas negligenciou um tanto de sua humanidade, brincando com meu espanto quando lhe dizia que as duas coisas dançavam juntas e não eram antagônicas.

Por meu lado, fiquei enredado, perdido, devotado com ardor em minha humanidade e no processo, me esqueci completamente de ser um homem...

E eis-nos aqui, no limiar de qualquer coisa entre o que somos, o que queríamos e devíamos ser.

Mas na matemática das coisas, a paixão dela deu fruto e flor e ela se tornou uma mulher notável, extraordinariamente humana em sua feminilidade.

Eu por outro lado, tanto me esforcei e como resultado, sou um ser humano sofrível e o masculino se configura para mim em mistério e não sou completamente nem uma coisa e nem outra.

Apenas levemente irritado e um tanto comovido quando ela vem me pedir auxílio com as tampas de pote de maionese e com os grandes dilemas da existência, quando sei bem que ela se vira com essas coisas melhor do que eu.
Um truque indulgente para eu não me sentir tão inútil quando os badulaques da mesa da sala de estar.

Ainda me perco, caindo infinitamente pra dentro em pensamentos, enquanto setembro agoniza, a chuva pendura no céu - e ameaça e promete -  e ela passa óleo nas pernas e ri da minha confusão.

E  eu ouço o riso que espanta as pensamentos do céu, a chuva que agoniza dentro de mim e a confusão dos meses em que me perco e penso que amar é bom...
Miseravelmente bom.
...

Mas se você amar qualquer coisa que não lhe traga uma considerável quota de dor (ainda a iminência da perda), talvez seja só uma inferência de alguém que não sabe o que é amor, mas talvez eu saiba e creio que talvez é  você que esteja chamando de amor algo que seja alheio a isso..

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Uns minutos de silêncio...


...e então você começa a compreender o pensamento dos supervilões clássicos e aquele desejo de destruir o mundo e reconstruí-lo ao seu modo torna-se bastante atraente. Você meio que se delicia com o pensamento desse planeta ardendo, e depois que tudo silenciar, você pegaria uma pá, removeria o entulho e olharia para o céu, ciente de que tudo está como deveria. São sete e vinte da manhã e eu estou me deliciando agora é com um inesperado silêncio na minha vizinhança que parece que jamais tem um minuto de silêncio.

A gente que mora por aqui é odiosa! Solta foguete por qualquer motivo, por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio; e escuta funk e breganejo no ultimo volume por qualquer motivo desses ou por nenhum, mas escuta, estuprando os ouvidos alheios com essa droga!

Ontem foi véspera de natal e esse bairro horroroso que não tem nem de longe o charme de uma Las Vegas, mas igualmente nunca dorme, parece ter finalmente silenciado um pouco e, ou algum demônio camarada ouviu minhas súplicas e matou todo mundo num raio de kilômetros, ou então estão todos em coma, entupidos de comida gordurosa (churrasco, pernil, chester e porcarias semelhantes),emborcados em uma ressaca daquelas, porque, papagaiadas de "espirito natalino" a parte, tudo parece motivo para se entupir de bebidas e derivativos (por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio).

(E se você estiver pensando "se ele odeia tanto a sua vizinhança, por que diabos não se muda?", eu digo, dê-me a chave do seu apartamento de cobertura no Belvedere cara, e eu me mudo imediatamente! Mas essa vizinhança me apetece, porque a odeio e a humanidade é coisa que eu odeio amar, mas amo odiar! Cada qual com seu vício!)

De repente descubro que não sei o que fazer com esse silêncio que se instala e, como uma criança que come um doce bem devagar para que dure mais, teclo devagar nesse teclado e ouço o silêncio. Tenho um minuto para parar de me manter na superfície das coisas do mundo que amaçam me afogar se eu parar de nadar e venho aqui dividir sei-lá-o-quê com sei-la-quem, porque sinceramente? Quem lê blogs hoje em dia?
Quem lê qualquer coisa que não sejam linhas curtas de whatsapp?

Mas-que-merda!
Algum cretino pelo jeito não bebeu o bastante e acabou de ligar o som às 7:38 da manhã!

Durou pouco e eu fiquei desanimado de continuar a escrever.

Que vontade de morrer...Só espero que o diabo seja mesmo o pai do rock e que não toquem funk no inferno...

Vou ali, tentar me manter na superfície dessas coisas que odeio e me consolar com o pensamento de que não sou eterno e uma hora dessas eu morro e deixo pra trás esse planeta, que não posso destruir por mais que o queira e nem reconstruir ao meu modo.

Uma hora dessas vem lá um ataque cardíaco, um crime passional ou não, câncer, falência múltipla dos órgãos ou um raio de um deus me punindo pelas minhas heresias  e eu morro...

Mas numa praia solitária ou na boca de um tubarão. De jeito nenhum afogado nesse mar de lixo psicológico chamado "vida comunal"


Fonte da imagem: http://canaltech.com.br/

domingo, 6 de setembro de 2015

Saudações do futuro pretérito!


Meu caro Luiz

Este que te escrevo sou tu.

Saudações do futuro.

Hás de perdoar-me o modo sofrível como te escrevo, mas já vão muitos verões que não sou tu, de sorte que, receio, a linguagem dos dias tais é por demais diferente destes teus tempos verdes. lembro-me de que tinhas cáries e esperanças, mas não como escrevias ou falavas nesses anos idos. Sê indulgente para  com meus erros de concordância e demais pecados ortográficos, pois já carregas consigo nestes dias meus, uma quota considerável de pecados e o acréscimo de mais estes pouca diferença farão a uma alma cansarregada de pecados. Orgulha-te, pois o neologismo é teu!

Há dois fatos curiosos acerca desta carta, a saber, o fato de eu escrever a mim mesmo nos dias da minha meninice e o fato de alguém em pleno século vinte e um ainda escrever cartas. Sou, pois, um dinossauro!

Saudações meu rapaz, do ano 2015! 
Descortino-te o futuro.

Sim. É correta a tua decepção. Nostradamus, tal como os da sua honrada estirpe de profetas, errou e cá estamos nós, ansiosos e esperançosos de que o mundo acabe, ele porém, teima em permanecer eternamente moribundo. Cá ainda estamos.

Fosse eu um sujeito esperto, enviar-te-ia números da bolsa de valores ou resultados de loterias, mas bem sabes que não sou esperto. 

És agora um jovem tolo. Converter-te-ás em um velho tolo.

Escrevo-te como um exercício de inutilidade, posto que essa carta sequer sairá do meu computador, quanto mais adentrar a consciência minha aos 15 e poucos anos, época em que eu tinha um apreço especial pela minha consciência.

Mas todos os exercícios feitos atualmente, são inúteis, pelo que posso escrever a mim mesmo na flor do meu tempo e fingir, no processo, que sou uma pessoa extraordinária.

Já não temes a morte, a vida porém, te apavora.

A esperança quase acabou e também a honra, por outro lado, ainda temos petróleo e música ruim, mas a união soviética já não existe.

Tu que estás ojerizado com a Lambada, recomendo que a cultue como o mais fino produto cultural de nosso país, porque os ritmos musicais que a sucederão, não me acreditarias se os contasse.

De mesma forma, ama as sílfides luminosas por quem te apaixonas em teu tempo e bebe lhes o frescor do espirito, a vaidade e a beleza enquanto podes, porque hão de converter-se em matronas grotescas, com o corpo cheios de excessos e estrias e a alma cheia de ressentimento e desânimo e tu, tu as desprezarás, não pelas estrias, excessos e amarguras, nem pela beleza e frescor perdidos, mas pelo desânimo de pensarem que não podem ser coisas melhores (ah, a Daniela gosta de ti, seu tolo! Deixa de lado a irmã dela e ama quem te ama. Por um tempo conveniente).

Os homens a quem admiras não terão sorte melhor e decepcionar-te-á saber que o destino não é destino, mas escolha e todos, tu inclusive e em grande medida, escolhemos a mediocridade por preguiça, porque é de um trabalho considerável ter fé em coisas reais e na grandeza humana.

O comunismo fracassou.
O capitalismo também, mas ainda não se tomou consciência disso.
O romantismo se tornou coisa abjeta e te envergonharás de todos os poemas de amor que vieres a criar (cria-os, ainda assim!)

O bom cinema faleceu e acompanhou-o à cova a boa literatura, com raras e felizes exceções.

Torna-te vegetariano, não uses suspensórios quando a moda surgir nos fins dos anos 90 (terás razões de grande amargura por isso), não roubes biscoitos na padaria do senhor Mohamed (serás pego e te envergonharás pelos próximos trinta anos).

Continua honrado, justo e paciente, mas reserva a maior parte de tais virtudes para usar contigo próprio. Tempos haverão em que precisarás muito de tais recursos e não esgote tais pérolas com os porcos quotidianos.

Exercita-te pelo menos duas vezes por semana (apenas uma conservou-te magro, porém inflexível no corpo e no espirito).

Leia Freud antes da faculdade.

Não leias Honoré de Balzac, repudia “O Pequeno príncipe” como literatura atroz e despede-te dos deuses em que tens fé titubeante, pois não tarda descobrirás vazios os altares em que depositas tuas preces nunca ouvidas.

Nietzsche, a quem conhecerás e amarás, tinha razão e em tempos esses em que vives a angustia de 2015, Deus morreu como referência e tornou-se vestimenta retórica que as pessoas vestem e despem segundo a conveniência.

Isso não chegará a dar polimento ao teu ateísmo, mas o entristecerá, não a morte de um deus em que não crês, mas a da sinceridade daqueles que dizem crê-lo.  

O Ubermensch, no entanto, ainda não apareceu e estamos vivendo um período de letárgica involução, não para a curiosidade latente do cro-magnon e nem para o vigor robusto do neandertal, mas para aquele antropoide gordo e satisfeito que seríamos sem os dentes de sabre e Era Glacial a matar nos, e já não temos o que nos inspire a sermos melhores.

Sai de casa antes dos vinte.
Sai do país antes dos trinta.
Encontra uma raison d'etre.

Não jogues foras teus escritos por impaciência. Não dês a moeda de 50 soles à Renata (é de ouro de verdade!  Será de grande valia para ti e ademais, Renata não quererá o ouro do teu amor mas tem amor ao ouro da tua moeda).

Pára de desprezar o dinheiro, mas não o ames e sabes isso: Humildade não é virtude, mas meio e meios de manterem-te dócil, imaginando te inferior aos outros.

E ao fim desta carta em que esgotei toda a minha metafisica acumulada em meses de preguiça, saúdo-te, meu Luiz pueril e nobre. E lastimo não ter que lhe enviar deste lado de cá de Nárnia, em que tudo está cinzento e vazio, coisa melhor do que o desamparo filho de uma era perdida.

Consola-te porem, com a consciência de que nãos és culpado (afinal, não podes mesmo ser culpado por tudo!) e alivia-te com esse pensamento, porque o mundo anda às cegas no escuro a beira de inacreditáveis abismos, mas descobrir-te-á otimista.

Inacreditavelmente otimista, pois a despeito da decadência nossa como povo, como indivíduos continuamos brilhantes.

Todo progresso começa com um indivíduo.

Não te torne, pois, povo.

Saudoso de tua meninice,
Tu



terça-feira, 21 de outubro de 2014

Uma reflexão sobre a minha humanidade...

Eu havia prometido não falar mais de deus ou dos deuses.

Eu já prometi não prometer nada. 
Tem muito que eu já disse que não mais faria e faço e farei (e aqui estou eu, na minha trocentésima postagem quando me vem a memória a promessa de não escrever mais nada).

E tem tanta coisa que eu já me propus a não fazer (ou mesmo sentir) mas eis que me encontro sempre e sempre de volta a velhos hábitos, como um maldito viciado, que sim, me assumo uma pessoa volúvel (desgraçadamente ciente de que o é, para azar meu) e lá vai:
Sobre os deuses...

Religiosos enchem o saco.
Ateus idem e com a mesma virulência.

E eu sou um apóstata de todas as minhas crenças e descrenças e por vezes, defendo com tanta veemência os meus não-pontos de vista, que me irmano a camarilha irritante de gente que teima em impor a sua visão de mundo aos outros. 

Mas como já falei deles e me causam preguiça mortal, quero mais é que se danem. Ou que me permitam danar-me em paz...

Mas hoje tenho de abjurar da crença em um último deus em que eu depositava alguma fé.
E desconstruir outro que eu sequer sabia que recebia culto e reverência.

O primeiro é o deus Diálogo. 
Confesso que o altar deste recebia de mim as mais fervorosas orações e súplicas.  Eu pensava ( e alguma parte quase perdida de mim ainda pensa) que qualquer coisa entre as pessoas poderia e seria resolvida, compreendida, apaziguada, conciliada, sancionada em comum acordo ou de outra forma, que o Diálogo era a ponte que uniria e a marreta a quebrar os muros entre os seres humanos...

Mas a nossa era é uma era de medo do Diálogo, das conversações em poucos caracteres, porque as pessoas não mais falam, por medo de se expor e não ouvem, por receio de não compreender aquele que por ventura se arrisca a mostrar que não é um super-homem e que chora e que ama e que sangra...

O medo e a resultante incapacidade de reflexão e consequente compreensão do outro, matou o deus Diálogo. 

Ainda que haja retórica em contrário, toda a conversa que se tem é campo de batalha para fazer valer a força, não da lógica ou da razão, mas a força da força, trincheiras onde as pessoas que querem parecer fortes se escondem com medo que o outro veja a sua fragilidade.

Homens  de vidro voluntariamente mudos e surdos em armaduras de aço.

O segundo deus a quem tenho de mandar ao limbo sou eu mesmo. 
É sério!

Fui até ontem uma divindade.
Não aos meus próprios olhos, está claro.

Mas aos olhos equivocados de pessoas que cismaram sei lá por que diabos, que eu era um tipo qualquer de Lama iluminado ou um guru espiritualizado. 

Teve gente que teve receio de me falar coisas muito simples, como se eu fosse uma coisa qualquer de pura ou muito santa que não deveria ser conspurcada por linguagem baixa ou assunto chulo.

Mais de uma garota me brindou com o maldito “amor Ágape” (e teve a feliz ideia de me contar essa porcaria, à guisa de fazer-me sentir “especial”), castrando-me, desprovendo-me  de pênis, testosterona e defeitos, me colocando numa droga de altar quando eu queria que me quisessem na cama ou no inferno, que são os lugares em que uma mulher deveria colocar o homem que lhe serve ou não lhe serve.

Mais de um homem tomou-me a bênção ou veio a mim em busca de conselho sobre coisas que eu ignorava (e ainda ignoro) ou buscando perdão por pecados cometidos, não contra mim, mas contra si mesmo, como se eu, pelo suposto da minha “idoneidade moral”, estivesse em posição de dar-lhes a absolvição que eles próprios não se davam.

As pessoas que eu conheço ficam particularmente chocadas quando me posiciono a favor do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da Auto-eutanásia, da liberdade irrestrita de pensamento ou contra a pena de morte (ééé... Porque "gente santa", em geral, curiosamente é a favor da pena de morte).

Acham absurdo que eu coma carne e não recicle o lixo e pensam que eu fico a vida inteira com a cara enfiada num livro, meditando, em contemplação de sei –lá que universo metafísico, procurando a solução para os grandes males da humanidade enquanto as pessoas reais vivem vidas reais.

Pro inferno com o amor Ágape! Pro inferno com toda a deferência com que me tratam!
Sou um homem, não um clichê de “ser superior”.

Eu sou desse mundo mes amis, ainda que não o compreenda.

Justo eu, o pior ser humano que eu conheço (até porque eu sou o único que realmente conheço, já que está todo mundo entrincheirado e com medo de se mostrar, mas eu não posso esconder de mim o que sou)!

A droga é ter de reconhecer em mea-culpa tardia que, se mais de uma pessoa me viu com esses olhos embevecidos e reverentes, é porque eu, de alguma forma tenho passado essa imagem a meu respeito, a despeito de todos os meus esforços para dizer da minha humanidade.

Daí abjurar do deus diálogo e do suposto da minha divindade.


Daí estar inclinado a viver, pensar e escrever com um tanto mais de agressividade, fazendo uso dos atributos que são considerados “humanos”, não para convencer meus confrades de que sou gente, mas para o reafirmar para mim mesmo, por que seria o fim da picada se eu me deixasse convencer pela opinião corrente de que não sou...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Filopoema- Ou uma constatação

...e o que me faz (fez)  permanecer desperto desse transe (trânsito) em vive um (o) mundo imerso em banalidades, foi (é) a consciência de que não há nada no mundo que seja irrelevante.

Ainda que mesmo as estrelas e os possíveis deuses acima delas sejam efêmeros...

sexta-feira, 21 de março de 2014

Um momento de chauvanismo místico




Apesar de ser um incrédulo fanático e apóstata de tudo o que é "bonitinho" e esteticamente doce, sou, penso, um sujeito de muita fé.

Tenho fé na minha descrença e acredito que muita falta me faz o dom divino de ter fé. 
No que quer que seja.
Por exemplo, contrariando a todo o pensamento corrente (ao menos no ocidente que tem a pretensão de ter a palavra ultima sobre tudo), acredito piamente que Deus não é Ele, mas Ela.

E olha que eu nem acredito em Deus.
Não mais do que não acredito em mim mesmo e nas minhas descrenças.

Eu nunca entendi essa coisa de "deus-pai", como se o ser superior tivesse testículos e gametas para preenchê-los e (já fui até aqui em minhas heresias sem que um raio me caísse na cabeça, então, vou me permitir ir adiante!) fecundasse a criação como um homem "fecunda" uma mulher.

A lógica me diz que se deus existe, ele só pode ser mulher.
E não é porque o ato de gerar seja um atributo tipicamente feminino ou porque o universo seja maravilhosamente caótico e cheio de minúcias, porque estou convencido de que a unica coisa que um homem faz melhor do que uma mulher é urinar em pé (embora eu saiba de umas que se tem aprimorado nesta técnica e de uns que nunca a aprenderam corretamente, como se verifica nas tampas de sanitários) e um deus macho pode ser igualmente capaz de ser confuso e minucioso como o é aquele(a) ser que talvez esteja neste momento preparando um relâmpago destinado a me abater (é, eu me acho sim! Na verdade, não me acho. Me tenho certeza, ainda que duvide dela!).

E nem adiantaria enumerar os aspectos positivos e negativos da divindade, porque neste sentido, tudo o que se diz de uma mulher pode igualmente ser dito de um homem, embora em instâncias diferentes.

Mas o que me convence, a mim que não me permito convencer de nada, de que Deus é fêmea, é por uma razão muito pessoal:
E nunca me dei bem com as mulheres, do mesmo modo que não me dou bem com Deus(a).

Temos, penso, uma mútua incompreensão, sua lógica é confusa para mim e a minha confusão não se acerta com Sua lógica, tenho um desejo muito profundo de acreditar nele(a), papagueio um monte de asneiras no afã de chamar sua atenção (ainda que seja um raio como castigo pelas heresias), acho que a existência dele(a) é a coisa mais necessária neste universo (embora as evidências A MIM mostrem que no céu só tem estrelas e aliens e vácuo), amo (a idéia de) Deus(a), mas Ele(a) sequer tem idéia do que eu amo ou odeio.

Deus(a) me ignora completamente (apesar do discurso de que Ele[a] tem um plano qualquer que me envolva pessoalmente, trata-se de plano obscuro demais e muito mais da cabeça dos que dizem ser Seus porta vozes do que o que a realidade das coisa me tem revelado) e é a mais maravilhosa musa a me inspirar a mais profunda angustia existencial.

Dificilmente  um macho, seja físico ou metafísico, seria capaz de inspirar (ao menos a mim) tanto fascínio, confusão, pavor e uma indisfarçável revolta  pelo seu aparente desdém.
Deus não gosta de mim embora eu o ame e não acredite nele.
Logo Deus é mulher.

Postagem estranha para o mês de março, mas eu sou estranho e acho que por hoje vou me permitir abrir mão do compromisso de tentar aparentar normalidade ou bom mocismo.

Não que seja necessário esclarecer, mas a postagem acima, embora seja  expressão da minha verdade particular (logo frágil e passível de mudança nos próximos segundos) é uma descarada provocação a uma amiga; criatura maravilhosa, visceral em sua genialidade, tola até a raiz dos cabelos quando se irrita, uma feminista roxa, ateia fanática, pensadora vitoriosa e o mais implacável inimigo da minha irascibilidade imbecil.




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

E você...

...até pode pretender saber qualquer coisa sobre o amor. Mas eu ainda acho que feliz era Lili, que não amava ninguém... E J. Pinto Fernandes, que veio por fora da pista e ganhou a corrida.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Anacrônico



Chame a si mesmo do que quiser,  
(até porque, quando te chamas, nunca respondes!)
Nomes são palavras "e os erros são teus"
Mas você é um profeta, 
Quando faz poesia,
Poeta, 
Quando vem anunciar para ouvidos moucos o absurdo das pequenas vilezas dos homens,
Sábio, quando compõe odes a sua ignorância,
Tolo, quando pensa estar pensando que sabe o que pensa sem o saber.

Você pode estar confuso, mas não o bastante para andar sem rumo,
E há tantos caminhos a escolher, que não é difícil se perder por entre escolhas. 

Você é o portador de uma estranha verdade:
  - Estar perdido é o modo de esbarrar consigo mesmo numa esquina qualquer.

E afinal este não é um mundo alucinado?
Você pode ter certezas, mas fatalmente irá desconfiar delas, porque é a sua natureza ir contra a sua natureza de ser contra a sua natureza (e por aí vai...)

Mas isso que você faz,
Isso que você é,
É uma tentativa comovente criança,
De dar a si mesmo o que tão fartamente dá a outros sem receber,
Um meio de amar a si mesmo, ainda que através do amor dos outros,
E de ver a si mesmo, mesmo que com olhos que não te enxergam...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

De quando quase meti a colher



Praça de alimentação, Shopping Cidade às três da tarde. 
Casal jovem. 
Ele, cara  bonitinho, como as pessoas entendem a beleza masculina. 
Sentaram bem perto de mim, brigando sei lá por qual motivo, mas meio que ocuparam o banco em que eu estava sentado, me “convidando” a sair dali. Mas como não chegaram a me solicitar polidamente e se permitiram me ignorar, deixei-me ficar por minha vez, ignorando-os também. 
Ou tentando pelo menos.

Brigavam.

Na verdade, era o garoto que gritava como um lunático, coisa bastante desagradável em se tratando de um local público e ainda mais sentado a centímetros de alguém que já estava lá e nada tinha a ver com a lide.

Mas, meu deus, esses “playboys” todos tem o mesmo cheiro! Cheiro de sabonete, mas um cheiro nauseante, como se esses caras comessem uma dieta qualquer que os fizessem suar uma murrinha esquisita...

Certo. Estava de má vontade (e nunca vi um ser humano completamente isento de antipatias e não sou exceção!) para com aquele tipo e tudo nele me desagradaria, ainda que ele exalasse sândalo em vez de almíscar azedo...

Ela, garota linda (como meus olhos entendem a beleza feminina). 
Cheirava maravilhosamente bem, mas acho que meu nariz tem predileção especial pelo aroma doce da progesterona, mesmo por debaixo daquela camada de perfumes e cremes todos. Discutiam acidamente por alguma coisa e não, não estou orgulhoso por, mesmo sem querer, ter ouvido sorrateiramente conversa alheia. 

Azar.

Casal discutindo todo lugar tem. E se a eles não ocorre lavar a droga da roupa suja em casa, problema deles caso  orelhas involuntariamente curiosas estejam ali, ávidas por perscrutar os detalhes do entrevero.

Mas minha bisbilhotice não foi completamente saciada. Chegaram ali já no ápice da questão, naquele momento tenso em que em muitos casos a coisa já culminou para as vias de fato.

Mas era uma briga de casal e jamais me ocorreria que a coisa pudesse descambar (em se tratando de uma rixa homem – mulher) para a violência física. Mas o sujeito gritou com a garota um “vai tomar no @#%! “ com tanta fúria  na voz, que tive um súbito mal estar. “Que diabos esse cara tem? Está drogado?”

Mulheres são criaturas deliciosas e enervantes, isso é certo.
Por vezes, tanto mais deliciosas quanto mais enervantes. Posso listar dúzia e meia de ocasiões, e só no ultimo semestre, em que uma ou outra mulher, nas muitas instâncias da minha vida, me tirou do sério. Mas nada, nada mesmo justifica uma atitude de violência, mesmo moral ou vocal, de um homem contra uma mulher. 
Não da parte de um homem de verdade. 

E isso pode até ser um chauvinismo tolo da minha parte, mas senti ânsias de partir pra pancada com o sujeito e com certeza o faria, se ele tivesse tocado naquela garota, que fosse lá namorada dele ou não, não lhe dava direto de gritar aquela grosseria. E num shopping  cheio de crianças!

Pensando nisso, me ocorre que é a segunda vez em menos de um semestre, fico excitado com a possibilidade de me meter numa briga e levar uns socos, o que talvez mostre preocupantes sinais de sentimentos de autodestruição de minha parte. Mas é maçante ficar o tempo todo indagando das próprias motivações como se a droga do mundo fosse uma extensão da droga do divã.

Azar(2)!

Olhei para os lados. 
Nada de seguranças ou coisa semelhante. Certos profissionais têm o dom de desaparecer de vista quando mais se precisa deles. Isso tudo aconteceu no espaço de minutos, tempo insuficiente para se tomar decisões que poderiam acabar na delegacia ou no hospital. 

É só que tem horas que, ou se mete  colher  ou se encolhe como um covarde e depois vai pra um canto qualquer remoer um desagradável auto-desprezo.
Acho que ia me meter em confusão dos diabos.

E a coisa ia por aí...Eu já sentindo engulhos de partir pra pancada com o sujeito, quando a menina levantou-se do banco, olhou-o com um olhar triste e num meio sorriso disse com suavidade:

“Espero que você tenha câncer...”

E foi embora.

“Espero que você tenha câncer”!!!!

Jesus! Fiquei ali paralisado, sentado com aquele sujeito cheirando a sabonete e murrinha! Nós dois com a boca aberta e olhos arregalados.

Quase quatro décadas de vida e nunca vi ninguém desejar semelhante coisa a alguém. Nunca vi ninguém sentir um ódio tão profundo por alguém a ponto de desejar-lhe que tenha câncer. Ah...Em outra situação, teria rido do tal sujeito, pois era um tipo estúpido que bem merecia um insulto, mas enquanto ele se afastava com a cabeça baixa (talvez digerindo aquelas palavras ditas com gelo na voz), senti dele uma inveja enorme.

É fato, o cara era um FDP², mas o era de tal modo, que conseguia inspirar naquela moça bonita o ódio mais maravilhosamente autêntico que já vi alguém expressar.


E ódio autêntico é certamente muito mais doce de ser usufruído do que um amor por vezes titubeante.


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