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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Expropriado (ou 100 Sonhos)




Nada há o que comungar e nada a partilhar
Entre o Eu e os amplos espaços vazios da minha compreensão.
Há os grandes hiatos abertos 
Em meus ossos quebrados por palavras
Em meu espírito fragmentado por pedras e paus...

Um dia hei – e na ânsia desse dia, já nem como ou durmo senão em sonhos-
De livrar-me desse entorpecimento dos sentidos
Dessa fuga de pensamentos que correm em avalancha
Como se não tivesse crânio a detê-los, mas apenas o céu por teto para o cérebro.
Por certo, deveria perder-me no acaso dos caminhos que aponto
Nas direções que indico, mas nunca tomo, 
Como se a trilha para a minha alma caminhar
Começasse na ponta do meu indicador.
Todos parecem saber, mas eu...Eu não compreendo...

Mas tem uns fantasmas falando com minha voz,
Monólogos maçantes em que debato comigo mesmo e com meus medos.
Pavores absurdos, pueris, pesadelos que já nem assustam tanto
Quanto a consciência da súbita perda da capacidade
De me assustar.

Tem dois abismos doces por detrás de suas pupilas...
Há dois demônios graciosos a espreita nas suas pálpebras...
Há néctar e veneno confundidos na curva dos seus lábios...
E enquanto me corre um rio de água gelada pelo estômago,
Sorrio de volta para o inferno – Para o maravilhoso e encantador inferno!
E penso o que pensa a vidraça ao beijo da pedra:
Isso vai doer!

Devo, em meu devir repleto de reminiscências
Expropriar-me de imaginações e sepultar em baús os devaneios
Não tardará romper o dia e há tributos a serem pagos
A tudo e a todos e a corrida do mundo não toma fôlego.

Sonhos são dinheiro precioso.
Já cá, ando sem moeda alguma que jogar no Arrudas
Em troca de um desejo.
Um único.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Poema Breve 2


...Vê, o vento sopra, é sinal de que o céu se inquieta.
Observa-o agitar-se  no léu e deleite a sua alma.
Se bafeja nas velas da sua nau, significa que você será levado para lá,
Para os horizontes vermelhos em que deseja ardentemente se perder.

Se em direção contrária -  posto que o vento é belo porque é livre -
Então para aquela modorrenta calmaria sem ondas,
Você dirá adeus ao vento e horizontes prometidos e estará também livre,
Livre como o viajante sem estradas e como o pássaro aconchegado à gaiola
Livre do desejo de se perder.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Na outra ponta do divã




Talvez no fim, não seja grande coisa meu corpo estar aquecido sob edredons em quarto confortável, se minha alma está enregelada debaixo de uma ponte. 

Oh, que pensamento trágico e gracioso...
Queria ter um verso adequado para rimar com ele e então eu teria poesia e não um exercício fútil de melodrama...

Mas a manhã está boa para pensamentos trágicos e graciosos e me apetece  acrescentar mais uma pedra ao edifício das minhas aspirações natimortas... 

Pensar a vida como uma sucessão de situações venturosas equivale a lançar minha autoestima cambaleante para uma sarjeta qualquer.

Ontem, e antes disso, num tempo que já não levo na consciência, dei-me conta final e tardiamente não entendo em absoluto a dinâmica da vida cotidiana dos semi-deuses que me cercam.

O mistério das relações nesse teatro de bonecos que se chama humanidade (e se Deus é o titereiro supremo ou mais um boneco nas mãos dos bonecos, não sei dizer), não é menos esotérico do que o elixir da vida ou do que a pedra filosofal.

Mas tampouco se pode ser realmente humano sem complicar mais as já complicadas relações.

Ou talvez isso tudo seja apenas fruto de uma má disposição do espírito hoje e semana que vem e no ano passado ou a negação de ter um espírito que vá ter disposição para mais do que se desesperar diante do absurdo.

Talvez seja o nada engolindo novamente o tudo.


E eu, que nada sei sobre nada do que sei, sei que manter elevadas expectativas de mim mesmo, desejando ser moralmente belo e virtuoso, far-me-á ter ódio de mim mesmo por não conseguir jamais viver a altura desses céus onde miro minha ambição por ser.

São essas aspirações que cedo ou tarde me farão acabar com os pulsos sangrando em algum canto escuro ou pendurado numa corda, embora eu prefira pensar que ainda teria forças para fugir para o vazio de modo menos drástico e mais digno.

Nem vou pensar demais nisso, porque a essas alturas, seria uma tragédia se eu me descobrisse súbita e abjetamente religioso.
Deus me livre e me dê antes uma morte honrada!
Mais pensamentos trágicos e graciosos..

Já então, não me podem seduzir ou amedrontar as ameaças do céu e do inferno e estou mais ou menos entregue ao mesmo princípio de caos que orienta o mundo, tanto quanto qualquer um, mas ciente de que estou perdido e de que preciso me orientar.

O caminho do bem não é a minha vereda.
O caminho do mal não é chão onde ponha eu os meus pés trôpegos.

Tenho de me equilibrar sobre a linha fina sobre o abismo, enquanto de ambos os lados, voam pedras sobre mim e urram ventos querendo me derrubar.

Não, este não é definitivamente o meu momento de maior inspiração. 
E o que é que pode inspirar o nada?

Nem é o tédio a corroer as minhas horas, mas o desejo de silêncio que vem da certeza de que lá na outra ponta do divã, dormita o analista e eu falo para os meus próprios ouvidos surdos.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Para aquelas noites



Para aquelas noites em que você deixa que tudo  transborde em si, o amor e o ódio na mesma medida;

Para aquelas noites em que você faz as pazes com o que em si te ensinaram a desamar, desarmar e temer;

Para aquelas súbitas e infernais noites em que toda a sua  lógica falha, toda a razão vai tomar chá com o diabo e deus vai colher flores por entre as suas estrelas ,

Para aquelas noites meu caro, em que você se permite desejar derreter-se e inundar o mundo com as ondas do seu Eu,

Para essas noites de embriagues metafísica e principalmente, para a modorra dos dias que as seguirão, 
dou-te este conselho:

Tenha coragem! 

Acima e antes de qualquer coisa tenha coragem! Mesmo e principalmente nos momentos de maior pavor e de dor! 
Não se ajoelhe aos pés do carrasco, olhe-o e desafie-o diretamente nos olhos e o  faça tremer enquanto desce o machado! 

Fique de pé!

Essa é a segunda e mais cara e preciosa moeda do mundo; um nível abaixo do autoamor e um acima do conhecimento.

Coragem, especialmente para SER, seja lá quem você for ou o que você for.

Se souber disso, o que e quem você é, você é (provavelmente) a criatura mais genuína e importante num raio de muitos milhares de séculos-luz. 

E não, não finja que não o é, porque falsa humildade é repugnante. 
Melhor que sejas honesta e verdadeiramente soberbo na simplicidade de quem se sabe único, Alfa e ômega de si mesmo.

Sê corajoso e tudo irá bem.
Mesmo quando tudo parece desprovido de sentido e valor.

E para aqueles momentos em que pensa estar só ...
Ah, meu caro...
Está muito perto de compreender o quanto você está enganado nos seus momentos de maior certeza.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Da impossível vida


Viver... é uma tarefa difícil...
Eu digo isso para o nada e para ninguém porque no fundo penso que talvez eu queria convencer a mim mesmo ou descobrir alguma verdade libertadora quando digito ao acaso o que me ferve...

Essa blogosfera as vezes se parece em muito com um cemitério ou um livro antigo onde alguém grafou uma frase qualquer e você o lê e fica meio paralisado pelo suposto do que e de quem foi a pessoa que escreveu aquilo e que já então sumiu nessa fluidez dolorosa do mundo virtual.

Diabo, tudo flui afinal...!

As vezes as pessoas simplesmente somem na vida e as vezes elas somem da vida e é sempre perturbador ficar imaginando o que se deu neste ou naquele caso.

Estou tergiversando...
É só que anda me incomodando demasiado a insinceridade com que tenho vivido, fingindo sentimentos e pensamentos unicamente para que não sofram as pessoas a quem amo.

Como seria sublime não ser chicoteado pelas lágrimas dos outros.

Eu ando por BH invejando conscientemente a inconsciência desses fantasmas humanos, gente que se acotovela nas filas de ônibus a caminho de casa e das novelas e futebol e mundanices nas quais fingem viver.

Tal qual Fernando Pessoa, eu invejo qualquer um que não seja eu.
Eu invejo as cordas invisíveis (ao menos para eles) presas às mãos do titereiro que os tange qual gado e invejo de um modo muito doloroso a irresponsabilidade alegre com que aparentemente vivem.

Porque eu tenho também cordas, mas não me foi concedido ignorá-las nem por um instante e não me foi concedido a capacidade de render-me a elas e eu luto uma luta perdida, para me livrar dessa cortante dor de viver.

"Ha barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer".
Talvez seja o cinza lá fora, no céu escuro dessa manhã nublada ou talvez sejam as cinzas dentro de mim, restos da cremação da minha juventude...

Mas estou me lembrando (novamente) do porquê escrevo neste lugar: pelo descompromisso com a estética e com a preocupação daqueles que pensam e mentem para si mesmos.
Eu quero ser genuíno, nem que seja para dançar na escuridão.

Viver é uma tarefa impossível, ao menos para quem ama.
E por hoje essa é toda a verdade que encontro por debaixo do céu escuro dessa BH...
E se soo pessimista, não ligo em absoluto que o pensem.
Se eu tivesse digitado pensamentos felizes e mentirosos, minha vida não seria mais genuína.

O que estou fazendo, é tecendo uma teia para tentar resgatar fragmentos meus soltos no vento.
E entoando uma ode ao que eu sou e ao que eu poderia ser se não estivesse tão subjugado de amor pelos outros...

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Poema sem Título e Sem Data


Não há de me atormentar para sempre
O desejo de ser atormentado.
Pelo desejo que me atormenta.
.
Beijo lábios frios, desejando que sejam frios.
Mas escrevi teu nome em letras de fogo, como num sortilégio,
Distraindo-me em adivinhar no céu da sua angustia
Mil motivos para que não me veja olhando-te de volta
Quando te miras num espelho.

Oh, éramos a erva e o sol, o canto rouco do vento
E o silêncio da tarde.
Ela se arrasta preguiçosa e eu conto nuvens no azul.
Eu recordo dos dias felizes em que eu era como esse sol
E te banhavas em minha luz.
E todas as tardes eram preguiçosas como essa.

Todos os dias minha loucura grita.
Que eu tenho o direito de esquecer o ângulo perfeito de teu rosto
E o circulo maravilhoso desse olhar febril que me despe sem me ver.
Mas que homem em sua sanidade
Escuta o que berra a sua loucura?

Imaginei o mundo como um louco carrossel multicolor
E  eu a girar com ele,
Vejo o mundo em cores indistintas.
Um bêbado num carrossel.
Imaginei tuas formas sensuais sendo esculpidas em marfim,
Conseguido ao custo do sangue de muitos homens.
Sangue parece ser sempre o preço a se pagar pelo maravilhar dos olhos.

Seja por vicio poético, seja por escassa imaginação
Comparo-te aos materiais deleites que meus dedos podem tocar.
Que alegria!
Alegria?
 – Poesia!

Então, não te tenho e nem te toco,
Senão com um ou outro delírio fugaz que me permito.

Então se és toda poesia, se és feita de amor,
De que me serve todo o ouro e o delicado marfim do mundo?


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Abismo de Mim



Uma pedra  lançou-me no abismo.
Atentou para ouvir
O eco do meu corpo, quando eu batesse no fundo
Quando meu grito ressoasse no nada.
“O abismo a que me empurras – disse a Esfinge – Não é maior
Do que aquele que existe em tua alma”

Não houve som e nem dor,
Quando me choquei contras as rochas .
Apenas uma nuvem de dentes de leão flutuando no ar
E o som do farfalhar de folhas secas
Levadas pelo vento.

Bobagem.
Não há vento no abismo profundo,
Como não há alegria nas horas escuras
Quando seu mundo parece retrair e morrer.
Deve deixar que as sombras dancem com as sombras
E as luzes de tua alma,
Que dancem com as luzes que emanam das almas felizes.
Como morrem os anjos?
Como abraçam o vazio os homens alados, cujos sonhos voam?

Morrem como morrem todos os homens,
Sozinhos e com medo, antes que a cortina caia.
Lançando no eterno a esperança de alcançar o mar infinito
O verde e o campo onde caminhariam para sempre.

Uma pedra lançou-me ao abismo.
Está claro que não morri.
E o que não me mata, torna mais louco.
Fiquei carregado da  sabedoria de nada saber,.

Há conforto na sabedoria.
Há abrigo na ignorância.

Mas a loucura....
Abraça-me os ombros como uma consorte.
E me seduz com beijos doces, alucinógenos...
Dota-me de asas imaginarias
E enche a minha cabeça de um céu ilusório:

Mas no vazio, a queda para baixo ou para cima
Não faz diferença alguma.
A pilhéria da vida é a mesma.
Se a ouvir de cabeça pra baixo
Terá a mesma graça
Nenhuma corrente te prende à sombra do mundo,
Exceto as que tu mesmo forjas com lágrimas
Exceto a paixão à própria prisão.

 Uma pedra atirou-me no lago
Atentou  para contar as ondas que se formaram
Quando eu  afundei...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Trinta e Seis Sombras



Trinta e seis sombras
Espiralaram como redemoinho ao meio dia empoeirado
E deslizaram por meus dedos como água.
(Cristalina fosse, nem sede teria minha alma esfaimada)
Mas correm os anos como moleques despreocupados na manhã,
Até que vem a tarde e a noite surpreende nos seus cabelos
Um fino orvalho e o esbranquiçado da senilidade.


Nós envelhecemos, nós desaparecemos da memória
Fechamos os livros e os olhos
Mas Graograman ainda corre pelas dunas coloridas...


Tenho ilusões, pesadelos delicados
Nas quais meu sangue cai pelo conta-gotas de uma ampulheta...
Segundos como dias, horas feito anos...
E semanas como morosos milênios .
E pelos cantos se acumula ainda uma poeira insólita
Que minha inquietação varre de outros tempos.


Na porta da esplêndida Casa,
Entalhados em mármore róseo e chumbo, os dizeres:
“deixai ó vós que entrai toda a esperança”.
Brilha em neon como letreiro de motéis baratos...
Uma ameaça, sedutora como uma promessa de amor.

No mar...
Olhos embaçados,
Esforço-me por ver ainda por entre essa névoa espessa
Um farol qualquer que me leve de volta ao porto.
Mas mesmo sem luz, sei ler no grito das gaivotas
A promessa de uma terra não muito além dessas ondas.
Talvez na próxima aurora eu não reveja um crepúsculo,
E a meiguice de uma praia venha me saudar os braços exaustos
Da labuta com Poseidon e suas vagas.

Afeito ao mar revolto, habituado ao vento salino,
O pensamento ou vento que não  estrala como um açoite nem parece real.
Miragens não movem barcos ou sonhos e a calmaria não me acalma...

E a noite escura em que o horizonte se traveste de trevas
Há de me contar ainda uma ou duas histórias
Antes que eu aporte.
Apenas um breve repouso e parto novamente
(A impaciência do vento agita as velas do meu espírito)
Para encontrar a glória de romper com uma frágil escuna
Os alegres abismos em que o leviatã abre as suas presas.


O porto não é o lugar de chegada,
Mas um trampolim de onde saltar novamente para o infinito.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os Monjes Futeboleiros



Na corrida entre casa, trabalho e faculdade, sempre preso a horários (os quais infelizmente quase nunca consigo cumprir), tenho pouco tempo para erguer os olhos e apreciar as cenas líricas de minha cidade. Vez por outra, no entanto, percebo (não sou um homem razoável) o incomum, o estranho e o poético ocorrendo bem no seio da selva de concreto e então (danem-se os horários!) paro e reflito sobre como o obvio, estando diante dos nossos olhos nos escapa. Fico em transe com cenas assim, como no dia em que vi um mendigo numa verborragia eloqüente, vociferar para si mesmo sobre a natureza do universo (Aprendi bastante, porque a loucura ensina tanto ou mais que a razão).Todo mundo passa por essas cenas e ignora. Imagino que seja a coisa certa a fazer, ou de outro modo ficaríamos estáticos entre o tanto de estranheza que existe nesse mundo estranho que é o nosso.


Ontem ( na verdade, isso ocorreu a mais de um ano, mas como é a reedição de um texto antigo, peço que sejam indulgentes para com essa minha incorreção temporal), próximo a plataforma do metrô eu vi dois monges conversando. Nada de extraordinário, não fosse o fato de que um envergava um sarongue Budista e o outro  trajava o marrom ocre de um franciscano (talvez, beneditino. Confesso que não sei a diferença, mas o crucifixo em torno do pescoço deixa inconfundível a marca do catolicismo). Conversavam animadamente e eu fiquei imediatamente interessado. Ora, a conversa era amistosa e imaginei que tipos de conversa aqueles dois teriam há uns três ou quatro séculos atrás. O mais provável é que se matassem numa maré de intolerância religiosa (e para ser justo com o budista, é possível que a animosidade partisse do monge “cristão”, porque as religiões orientais, com raras exceções, costumavam ser bem tolerantes com os outros credos, o mesmo não se pode dizer das nossas).

De todo modo, embora pessoalmente eu não me interesse por religião alguma, um debate amigável entre aqueles dois seria algo digno da atenção de qualquer um apaixonado pela psique e por todas as variações do pensamento humano e a religião é uma das mais importantes dessas variações. E um debate entre pensamentos místicos tão diferentes imediatamente me interessou. Tudo bem que é feio ouvir a conversa alheia e eu não fui, é claro, convidado à condição de platéia. Mas, que diabos, os dois estavam conversando num lugar publico e geralmente os religiosos esperam mesmo que seus argumentos sejam ouvidos por quem está próximo! Assim, confortavelmente alicerçado nessa e em outras desculpas inconscientes para justificar  a minha bisbilhotice (rsrsr) detive meus passos e fiquei perto o bastante para ouvir o que falavam. Esperava ouvir argumentos e contra-argumentos metafísicos, filosóficos e, ainda que seja Agnóstico,  deleitar-me com o rico e comovente pensamento cristão e o milenar e profundo ensinamento budista.

Mas aqueles dois me decepcionaram cruelmente! Eu devia processá-los por “Estelionato Espiritual”.  (rsrsrs) Com que então os dois monges discutiam animadamente sobre FUTEBOL!
Futebol! E nem ao menos eram de times rivais...Se ambos tivessem parado a conversa para assobiar em uníssono para a garota bonita que passou por ali e fizessem elogios grosseiros, a cena estaria completa!

Desci as escadas pensando: “Sinal dos tempos” (e nem sei por que me ocorreu uma expressão cristã nesse momento)! Embora me deixe bastante satisfeito a amistosidade entre dois credos diferentes, traduzida numa animada conversa próxima ao metrô, entre tanta coisa acontecendo no mundo, com toda a incoerência espiritual e ideológica do mundo, aqueles dois, que dedicaram sua vida à busca das coisas do espírito, não tinham assunto melhor que discutir do que a permanência ou saída de um "fulano" de um clube da capital. Tudo bem que sejam jovens e (quase) todo jovem goste de futebol, mas imagino que os dois tenham muito a aprender um com o outro e a ensinar ao mundo (supondo-se que é esta a missão dos profissionais do espírito e creio que essa seja uma definição razoável para um religioso).Em volta deles um mar de gente desamparada espiritualmente passa e lança aqueles dois um olhar de curiosidade muda. Certamente à maioria ocorre o mesmo que me ocorreu ao vê-los juntos. Ninguém, no entanto pára para ouvi-los e é melhor que não o façam. Iriam ficar, como eu, decepcionados.

Saber sobre as novidades do futebol talvez seja do interesse de alguem, mas esse alguem iria preferir ouvir numa roda de conversa de bar ou ler nesses jornais esportivos que viraram febre. Mas de monges...Nosso mundo parece estar se tornando cada vez mais banal. Na próxima vez em que alguém me perguntar o porquê de eu às vezes ser tão cínico, vou me lembrar desse momento para elaborar uma resposta adequada. A vida é estranha. E estranhos somos os que tentam arrancar-lhe algum significado.

sábado, 25 de junho de 2011

A Grandeza em cinquenta e três minutos


Grandeza
Este é o destino do ser humano e sua principal fonte de angustia. Nascemos “deuses“ e somos tratados quando bebês com tal zelo, que sentimos ser confirmada a nossa divindade.  Basta chorar, e somos alimentados, confortados, consolados e embalados com amor e todo o nosso mundo  se resume a deleite. Onipotência constantemente reafirmada, tanto mais percebemos e recebemos do mundo sensações de agrado e prazer. Mas nossa divindade é posta a prova bem cedo, quando tomamos consciência de que existe mais do que nossas vontades imediatas, e somos forçados a reconhecer que não somos tudo e não podemos ter tudo. Ao contrário, somos forçados a abandonar o seio materno, a dividir os brinquedos, a ter hora para dormir e pouco a pouco nosso altar pueril vai sendo demolido. É o Princípio de Realidade nos destituindo do divino.

E, no entanto, mesmo depois de muito tempo, nossa sensação oceânica de pertencer a tudo e a tudo abarcar persiste e somos tomados o tempo todo por pensamentos de grandeza, ainda que estes estejam disfarçados de idéias ou ideais. O monge mais abnegado, que orgulhosamente afirma não estar atado a mesquinharias materiais e volta seu olhar para as coisas do espírito, espera alcançar através de sua abnegação a gloria do Nirvana ou a recompensa dos virtuosos num paraíso transcendental. E nisso  ele não difere de um lobo de wall street ou da Bovespa; ambos tem pensamentos grandiosos, com a diferença de que o lobo parece ser mais honesto consigo mesmo e com sua sede de grandeza do que o monge. Porém, a ambição do monge está mais de acordo com a vocação humana de sublimar suas reais motivações. É um pensamento grandioso, uma ambição, me parece, mais altiva do que os sonhos vorazes do maior dos avaros. Admitir, no entanto essa vocação para a grandeza fere a nossa moral  e criamos um monte de contradições culturais.Uma coisa engraçada na nossa cultura,é a de valorizar os de inclinação “humilde”. Dissemos “Conhece Fulano? Ah, ele é uma pessoa muito boa...É humilde e simples”. Porque? Porque deve nos emocionar o fato de uma pessoa ser mais hábil do que nós em mascarar a sua sede de grandeza por detrás de uma simplicidade que é tão ilusória, quanto incompatível com a natureza humana? Em outros países , em outras terras, o homem empreendedor é admirado como modelo a ser seguido, mas nossa cultura não parece valorizar quem se valoriza. Do coveiro ao Desembargador, do Pároco ao Cardeal, por mais que uma pessoa demonstre capacidade, vai estar sempre sendo orientada a manter uma atitude de humildade, não porque isso seja necessariamente uma virtude, mas especialmente porque nos incomoda muito ver alguém assumir algo que nós mesmos não temos coragem, a saber, ousar atribuir a si mesmo o valor pessoal que é direito e dever de todo herdeiro de Adão e de toda filha de Eva. Conquistamos o direito á grandeza, com o preço da perda do paraíso e de nossa inocência.

Porém...
Uma vez falei  a uma amiga sobre como um livro nos afeta de diferentes modos, em diferentes épocas da vida. Parece-me um bom modo de medir o nosso amadurecimento (ou a falta dele), reler um livro que nos causou uma impressão forte em certa época e depois  avaliar se reagimos do mesmo modo a ele. Bem, passando por um sebo, entre pilhas de volumes amarelados dei com um exemplar maltratado de “O Pequeno Príncipe” e enquanto me perguntava por quanto tempo ainda esse livro comovente vai emocionar gerações, inconscientemente o folheei até a página que contem minha passagem preferida do livro. Muita gente sintetiza a beleza desse livro na frase  O essencial é invisível para os olhos”, ou “Te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e eu me reúno a elas em coro a admiração que essas frases lindas e terríveis (um oxímaro, eu sei) desperta. Lindas pelas razões óbvias, e terríveis, porque essa ultima frase profunda, contém mais do que a beleza de um pensamento lírico bem escrito por um homem genial, mas também a fatalidade, quase uma sentença, uma Lei do amor que em outras épocas chamei de “Regra da Raposa”.  E depois que se cai sobre o encantamento dela, todas as relações, todo o sentimento que nutrimos pelos outros passa a ser visto pelo âmbito dessa lei.


Mas ainda que eu tenha caído voluntariamente vítima dessa Lei e essa frase tenha me encantado tanto quanto a maioria, não é essa absolutamente a frase de “O Pequeno Príncipe” que mais me impressionou, mas sim a que diz:

 “Se eu tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando, passo a passo, mãos nos bolsos na direção de uma fonte”.

Eu devia ter onze ou doze anos quando li essa frase pela primeira vez e se puder avaliar as mudanças na minha personalidade pela maneira que um livro me afeta, sou forçado a acreditar que não sou muito diferente daquele garoto, porque tão logo reli a frase, fui tomado do mesmo encantamento. Por quê? O que há nessa frase que parece tão deslocada no texto que me parece tão importante?

A maneira como o autor a colocou no texto me faz pensar sempre num significado oculto para um pensamento que ocorreu ao Principezinho quando se viu na possibilidade de ter tal tempo disponível. Porque entre tanto que se pode fazer, com tanta coisa importante a realizar alguém quereria simplesmente ir caminhando devagar em direção a uma fonte? Nenhuma razão, e por isso mesmo, a razão mais importante dentre todas.


E de novo me vem a mente o fato de que nos estamos sempre tão empenhados com coisas importantes, (coisas de gente grande), projetos grandiosos como construir uma carreira, alcançar o sucesso, criar filhos e deixar a marca de nossa passagem no planeta, que pouco tiramos tempo para a singeleza de um momento deslocado no tempo. Quando, entre tantos momentos que temos para os outros e para nosso projeto de grandeza, quer material, quer metafísico, tiramos um momento para o nada (porque creio que em nada pensaria o principezinho ao caminhar desocupadamente em direção a uma fonte)? Admirar a imponência de uma montanha é coisa fácil e não requer nenhum esforço de imaginação... Mas e quanto as pequenas pedras que em conjunto formam essa montanha? E embora eu esteja convencido que nosso destino e condenação é a grandeza, seja de que modo for, creio que construir um monumento que ofusque o brilho das estrelas, não seja afinal mais importante do que passar uma tarde preguiçosa deitado numa varanda, acompanhando com o olhar o vôo despreocupado de um pardal ou mesmo o zumbido de um inseto. Tudo é insignificante e tudo é importante.


Minha cidade não tem muitas fontes e as poucas que conheço não me motivam a querer caminhar até elas. Talvez eu deva circular mais pelo meu habitat, mas acredito, depois de meditar sobre os pensamentos  grandiosos que assombram os homens, nada nesse momento me parece mais extraordinário do que caminhar, passo a passo, mãos nos bolsos na direção senão de uma fonte, de um momento qualquer para gastar com o nada, com o vazio que não anseia ser preenchido.  É só uma questão de relatividade, mas aí já é outra história...


sábado, 18 de junho de 2011

Sândalo caído - By Sahge



Quem é mais afetado pelo choque;
o Sândalo caído
ou o machado perfumado?
Ironia cruel, vendo o gigante caído,
Penso que o gume frio do machado
Nada vale sem um cabo que o empunhe.
De um galho o Sândalo o forneceu à mão que o deitou.


Observo-o caído interrompendo a passagem.
Caiu sobre a trilha antiga, obrigando os passantes a darem a volta.
Eu o deixarei lá, o bravo gigante!
Ficará ali até que seu tronco se desfaça sob a chuva e o sol.
Um testemunho incômodo, de que ali viveu e floriu.
Perfumou o ar com sua extinção...


Breve a trilha se desviará para o canto
E os viajantes, evitando o tronco,
Passarão ao largo do lago morto.

E entre essas duas coisas mortas,
A trilha da vida dará uma pausa,
Suspirará e tomará um novo alento.
Talvez o lago volte a brilhar, talvez o toco de arvore
Reviva seus galhos de folhas e sombra.
Talvez...


Atrás de mim, sinto a lareira arder suavemente,
Uma frágil flama que se apaga em lento crepitar.
Sinto um impulso de avivar-lhe as brasas
Lançar-lhe uma nova acha que fortaleça suas chamas
Mas não me movo.
Tudo tem um inicio e tudo tem um fim.

O fogo, o Sândalo caído...
Sinto isso, mesmo que minha razão fraqueje em aceitá-lo.


E por mais que eu lamente a queda da árvore
E tema o frio que se instalará na casa e na minha alma
Quando a labareda delicada se apagar,
Quando a árvore morta desaparecer da paisagem,

Deixo que o mundo pulse e siga.
Deixo que a chama apague
Quando poderia usar o velho Sândalo caído
Como lenha perfumada...


Não posso  alimentar meu lume
Com os destroços da agonia alheia,
Com os despojos de um colosso tombado.
Não foi a minha mão, não foi meu o machado...
E não desejo o calor das chamas
a semelhante preço.


Talvez quando a labareda se extinguir por fim,
O frio me expulse dessa janela,
E eu saia ao sol e pegue aquela trilha...

Em direção ao lago morto.



terça-feira, 1 de março de 2011

Esquinas e Curvas - By Sahge

O que completava e competia a tua alegria me escapou dos pensamentos...
Não consigo capturar nessas linhas turvas, difusas
Não consigo entender o que confundo com tanta e teimosa frequencia.
Se o que queres é eternizar-se em mim, dê-me prazer ou deixe doer,
Não temas. Faça-o! Simplesmente faça-o...
Mas não sejas nunca inofensiva ao meu espírito
Jamais inócua à minha carne e a minha mente.

Tudo o que sabemos sobre o amor poderia não ser verdadeiro
E se assim fosse, caber-nos-ia criar uma nova definição
Uma que fosse só nossa, porém mais real do que o ideário..

Tornemo-nos lindos, tornemo-nos trágicos se necessário,
 Porque grandes tragédias comovem
E são o perfeito enredo de uma história de amor.
Vamos nos amar trágica e lindamente!
Mas se quiseres um final feliz, doce e colorido,
Tal qual sonhava a tua infância na vida,
O podes comprar em troca de um sentimento menos real.

Desaprendi a perder, tu sabes.
Então guardei a marca das tuas pegadas,
Certo de que as seguirias de volta para casa.

Ignoro o que é essa parede de bruma entre nós.
Eu sei,
Que eu nunca soube coisa alguma do que devia saber.
Atolado entre uma pilha de livros em mil línguas,
Lendo os pensamentos de outros,
Nunca soube ler os teus silêncios
Nem mesmo quando eles gritavam para mim.

Nunca soube coisa alguma
Sobre o descompasso do teu coração
E da alegria e da  alegoria ardente de tua alma
Sob cuja superfície perpassava uma tristeza muda.

Nunca entendi,
Porque devias tu pensar com a mente de outros
Pintar o mundo com cores alheias...
Na minha loucura ou lucidês de poeta
Cheguei a pensar que te bastaria e servia
Como para mim, é certo, bastava
As mais perfeitas cores que emanam de ti mesma.

Seriam as flores insensíveis a própria beleza e perfume?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Uma carta de Freud e uma reflexão sobre a vaidade - By Sahge



Trecho de uma carta de Freud a seu amigo, o reverendo Oskar Pfister:


“Posso imaginar que há vários milhões de anos, no período triássico, todos os grandes –odonte e –térios tinham muito orgulho da evolução da raça dos sáurios e estavam na expectativa de Deus sabe lá que magnífico futuro para eles. E então, com a exceção do maldito crocodilo, todos eles foram extintos. O senhor pode alegar que (...) o homem é dotado de inteligência, o que dá a ele o direito de pensar no futuro e acreditar nesse futuro. Ora, não há duvida de que existe algo de especial em relação à mente, tão pouco é o que se sabe sobre ela e sua relação com a natureza. Eu, pessoalmente, tenho um enorme respeito pela mente, mas será que a natureza o tem? A mente é apenas um pedacinho da natureza;o resto da natureza me parece que pode muito bem viver sem ela. Será que vai se permitir ser muito influenciada pela consideração que tenha pela mente? Aquele que puder sentir-se mais confiante do que eu a respeito disso é digno de inveja.”

Depois de boas e justas gargalhadas provocadas pela ironia do comentário de Freud, me veio a reflexão sobre a analogia entre os poderosos dinossauro e nós, magníficos sapiens-sapiens. Se como sugere Freud, os sáurios estavam envaidecidos pela opulência de sua raça não vem ao caso, mas motivos para tanto o tinham. Eram sem duvidas seres maravilhosos, senhores do planeta e havendo em sua possível e rudimentar inteligência um laivo qualquer de espiritualidade, é de se pensar que tal como nós, imaginavam-se o “top of mind” da criação, a imagem e semelhança de seu criador. A parte esses devaneios que me divertem, compartilhamos com os antigos lagartos trovão a mesma vaidade característica de seres poderosos e únicos. É fato que somos mentalmente tão poderosos quanto o eram os dinossauros fisicamente, mas o homem no fim das contas talvez seja apenas mais um acontecimento lindo e efêmero na história do universo, conceito contra o qual luta toda a nossa fé e filosofia.

E Quem é que quer se imaginar como erva que cresce, floresce e fina? Ninguém! E eu não sou exceção a regra. E como disse numa conversa com uma amiga tempos atrás, o grande problema com as minhas "crenças” (eufemismo para a minha vaidade em múltiplas facetas) é que elas não resistem a um exame da minha razão. Basta que eu medite um pouco e vou encontrar tantas brechas, tantas lacunas que tenho de preencher com verdades incômodas, que sinto que estou me sustentando sobre o nada. Um exemplo claro de como as ilusões são necessárias: Sentado tranquilamente na sala de aula no sexto andar, iludo-me de que aquilo em que piso é efetivamente, O Chão. E nem por um momento passa pela minha cabeça que na verdade me encontro suspenso dezenas de metros acima do chão. Mas suponhamos por um momento que as leis da física se alterassem e o concreto e paredes que me dão essa sensação de segurança se tornassem transparentes e eu visse onde estou. Onde realmente estou. Muito acima do chão e muito, muito abaixo das estrelas, no vazio...

Uma pobre e desamparada criatura de carne e sangue solta no vácuo. É provável que eu ou entrasse em pânico e me agarrasse a minha cadeira ou a qualquer coisa a mão como o náufrago de Ortega, e ficasse paralisado de terror. Me agarraria a qualquer coisa para não cair no vazio, para sentir que estou seguro. E é assim em todos os aspectos da vida. Sem ilusões estamos sós, estamos nus diante da grandeza da natureza que não tem consideração para conosco, como não teve para com os dinossauros ou para com qualquer outra criatura por mais poderosa que fosse. E a natureza física não é mais assustadora do que a natureza social, o meio em que vivemos. Nessa, necessitamos ainda mais de um lastro psíquico.

O grande problema é descobrir que se está andando por sobre uma camada de gelo fino. Nunca mais poderemos andar com a segurança necessária. E nisso, creio, esteja a clara vantagem que levavam sobre nós, os orgulhosos dinossauros de Freud; Eles não tinham em absoluto a menor dúvida de sua grandiosidade. Nunca se afligiram com hesitações ou questionaram se eram realmente tão importantes para a natureza ou uns para os outros e isso é uma coisa linda na arrogância: A certeza de estar sempre andando sobre as rochas, ainda que por baixo esteja realmente uma camada de gelo fino. Sem angustias, sem dúvidas, sem desamparo, até o dia em que, ou um asteróide os varreu ou o planeta os sacudiu como um animal sacode as pulgas do corpo. E desse orgulho todo, colecionamos os tesouros dos seus ossos em museus. Receio que meu frágil esqueleto não vá resistir ao tempo para dar testemunho de mim e de minha vaidade.

Tenho certeza de muitas coisas, mas por prudência e/ou covardia, evito passá-las pelo crivo da minha razão (da qual mantenho também uma suspeita saudável), por necessitar iludir-me tanto para poder permanecer tranquilamente sentado no sexto andar da faculdade, quanto para me movimentar no mundo e ficar convicto de que tenho alguma importância para o universo e para os meus. Como Freud, tenho um grande respeito pela mente, em especial, a minha e não por considerá-la algo notável entre as mentes humanas, mas por ser ela o meu canal, com o qual percebo, toco e sou tocado pela maravilha que é a comunidade das mentes humanas. Mas sei que a natureza não vai ter a mesma consideração para comigo e nesse caso, não estou em melhor situação que o genial e incômodo Freud: Também invejo o homem que está certo de que a natureza, o Universo ou seja lá o que for, terá para com a mente dele, sua essência ou alma maior anelo do que teve para com os dinos. Mas qualquer um que tiver alguma honestidade para consigo próprio vai reconhecer quão pouca é a segurança que sentimos e quão incômoda é a verdade (razão pela qual temos tanta avidez em acreditar em mentiras ou confirmar aquelas em já acreditamos) a respeito da nossa situação como seres que são parte, mas não mestres da natureza, tanto física quanto social.

Se temos algum diferencial em relação aos sáurios é o de que nós pelo menos podemos escolher encarar a verdade e viver ao menos sem muitas ilusões, além das necessárias. Não pretendo e nem sugiro a ninguém viver constantemente com medo do futuro (até porque quem vive com medo, vive também refém de uma ou várias mentiras a respeito de si, dos outros e do mundo), porque viver com medo não é viver. É existir na sombra do mundo. Mas se um dia o planeta for me sacudir de sua pele, não pretendo ficar perplexo com isso, como se o meu desaparecimento fosse algo mais extraordinário do que o de uma estrela que arde por bilhões de anos. Afinal, tanto ela quanto eu somos, vaidade a parte, apenas elementos de um Todo maior que engloba tudo, até mesmo a mente humana de que me orgulho tanto. 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os Meus Amados Inimigos



"Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a manteiga mais frescos, flores em minha janela e algumas belas árvores em frente à minha porta; e, se Deus quiser tornar completa a minha felicidade, me concederá a alegria de ver seis ou sete de meus inimigos enforcados nessas árvores. Antes da morte deles, eu, tocado em meu coração, lhes perdoarei todo o mal que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, perdoar os inimigos - mas não antes de terem sido enforcados".
                                                                                Heinrich Heine
Talvez não seja um habito razoável, mas gosto de escrever cartas aos meus autores favoritos ou a outros cujas obras me emocionem ou me atinjam de algum modo comentando trechos de sua obra. É um tanto ousado, para não dizer que é uma tolice de minha parte, uma vez que não envio tais cartas e a maioria desses autores já morreu. É apenas um modo de demonstrar apreço ou dissecar o efeito que teve em mim tais obras. Hoje me ocorreu de enviar uma ao grande  Heinrich Heine, comentando a sua poesia acima que muito me impressionou.

Julho, Inverno de 2010
Caro Herr Heine
Eu deveria começar dizendo que não tenho palavras para expressar o meu apreço por sua intrigante poesia, mas isso, além de uma gabolice que deve cansar a vista de um escritor, seria uma inverdade, posto que tanto tenho, que delas farei uso para atrever-me a fazer algumas considerações. O senhor naturalmente não me conhece, portanto não estou no direito de fazer qualquer censura as suas palavras que diga-se, são a expressão de uma inquietante verdade. No entanto, tenho de indagar; 
Se o senhor foi  honesto o bastante para confessar o desejo, por muitos tomado como repreensível, de ver enforcados os seus inimigos, ora, porque não fez uso desta mesma honestidade para admitir que, não, não lhe bastaria apenas uma cabana humilde e boa comida, mas agradar-lhe-ia em muito em vez disso, habitar o mais esplendoroso palácio de prata e cristal, tendo a sua disposição um lauto banquete servido por um batalhão de bailarinas?

Certo... É bem possível que se trate mais de um desejo exclusivamente meu e que minha prepotência atribua igual anseio a todos os homens e que o senhor seja de uma estirpe menos mundana, porem, não consigo entender por que diabos iria um homem contentar-se com uma choupana quando poderia muito bem dispor de todo um reino, caso lhe fosse oferecida a oportunidade de escolha!  Eu de minha parte, não julgaria mal o seu caráter caso tivesse demonstrado um desejo inicial mais de acordo com a índole humana, como o senhor fez magistralmente em sua conclusão e me sentiria menos desconfortável por ter de ver-me em posição inferior, de homem ambicioso e fútil que almeja sonhos de grandeza enquanto ao senhor que é um totem entre gigantes, tão pouco bastaria. Mas é evidente que ao forjar a sua perturbadora e genial poesia, o senhor de modo algum estava interessado nos sentimentos de anônimos admiradores de sua obra, dentre os quais me incluo. Deixemos de lado.

A parte a humilhação minha por ter de confessar-me um homem cobiçoso de coisas que talvez sejam futilidades, também fiquei desconcertado quando imaginei-me em seu lugar, tendo prontamente atendido o meu íntimo desejo de levar ao cadafalso os meus inimigos.  O primeiro fato é imaginar que Deus me tenha em tão alta conta que vá, a guisa de fazer-me feliz, pendurar pelo pescoço seis ou sete pessoas, desconsiderando o fato de que elas dificilmente estariam tendo a sua felicidade realizada em tal posição. Eu teria de ser um prodígio e valer mais do que sete pessoas, um elemento dentre o universo da humanidade por quem o Criador tivesse um afeto e consideração excepcionais. Porém minha constante e severa avaliação de mim mesmo me impossibilita de iludir-me a esse respeito. Nunca fui um santo ou um homem dotado de virtude piedosa. E se há uma sorte de homens assim, supondo que o senhor se inclua nessa confraria de portentos, livre-me Deus de estar contado dentre os inimigos de tais homens! Estaria eu contado dentre os seis ou sete dependurados nas belas árvores em frente a sua porta. A minha consternação seguinte está no fato de que nunca soube com exatidão quem eram os meus inimigos, com exceção de um.  Veja o senhor que ainda hoje andei lendo um sábio conselho que há muito me persegue: Cuidado com o que desejas, pois podes acabar o conseguindo.

Conselho valioso e sábio e atento a ele, não posso deixar de imaginar que baseado no conhecimento do meu desconhecimento acerca de quem são os meus inimigos, eu possivelmente tendo um tal desejo atendido, veria ali seis ou sete das pessoas a quem mais tenho amado nessa vida. Oh, não é exagero imaginar cena tão dantesca, porque o único inimigo que conheço e reconheço em qualquer campo de batalha, aquele que trabalha para a minha ruína noite e dia e com quem tenho me batido há muitos e cansativos verões em guerra aberta é o meu coração estúpido. Esse, herr Heine, é o único inimigo que eu gostaria de ver pendurado no cadafalso, supondo é claro, que eu poderia viver sem as suas batidas infernais dentro do meu peito. Como sei que a coisa não se dá assim, teria de contentar-me com as belas árvores unicamente por sua sombra e flores ou frutos e pela força de seus troncos e galhos onde poderiam pousar os meus corvos.

Inimigos não são tão facilmente identificáveis porque constantemente estamos esperando destes uma adaga fria na noite, uma flecha a nos fender o fígado ou o sabor amargo do ferro quente, mas nunca um beijo, um afago ou uma palavra amiga. Seis ou sete dos meus amados pendurados pelo pescoço não é cena que eu gostaria de ver e nem completaria a minha felicidade. Primeiro porque, sem inimigos imagino que a vida de um homem deva ser menos desafiadora e embora eu já não seja tão jovem, me apetece um bom desafio, uma luta em que triunfar ou tombar em glória e coragem ( Como vê, não abandonei totalmente o idealismo da juventude). E em segundo, porque seria trespassado por dores agudas ao descobrir que aqueles a quem dediquei amor, abstinência e abnegação e muitos dos meus pensamentos são justamente as pessoas que mais se empenharam para que eu permanecesse infeliz.  Posso muito bem perdoá-los sem que para isso tenham de morrer, porque inimigos ou não, são pessoas a quem amo e se inimigos se mostrassem... Diabos! Não seria dar-lhes a vitória final sobre mim, causando-me com sua morte brutal uma dor profunda a  que meu coração estúpido que não sabe diferenciar amigo de inimigo iria fatalmente me submeter?  Há coisa mais patética do que sofrer pelo inimigo enforcado? Há coisa mais terrível que descobrir que amou quem em secreto te odiava?

Ah, se ao Criador (por compaixão ou por diversão ou por simples tédio, posto que por merecimento dificilmente me concederia alguma graça) aprouvesse fazer-me feliz, seja numa choupana com teto de palha ou num palácio de prata e cristal, deixaria meus amados, meus muito amados inimigos vivos, mas penduraria pelas artérias,( já que pescoço não possui) o meu coração estúpido e me permitiria viver sem ele. Talvez eu não criasse mais, talvez eu nem mesmo tivesse algo como um arremedo de vida, mas é possível que tivesse algumas boas noites de sono.  Bom outono para o senhor e parabéns pela bela e incômoda poesia!

Atenciosamente
Sahge.

PS: Caso o pedantismo e atrevimento de minhas palavras o tenham exasperado além do humanamente suportável, peço desculpas e renovo a minha estima e consideração mesmo se  o senhor, justamente movido pela irritação mandar-me ao inferno, advertindo-lhe contudo que é inútil fazê-lo. Sou um poeta, mein freund. Já vivo no inferno há algum tempo e acostumei-me a esta vizinhança.
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