terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Considerações antes de uma capitulação...

Caso alguém me leve a mal,
Penso e advirto
Que me divirto imenso
Escrevendo isto.
(A rima é proposital)
...

E quem haveria de pensar em tal coisa...?
A verdade, e eu me lembro bem, que fomos meio lubridiados no advento do ano 2000, ano que segundo os afeitos ao apocalipse, o mundo acabaria em fogo e enxofre. “Mil passará, dois não chegará e blá-blá-blá...”
E nós ainda estamos aqui.

Mas, claro, nosso fascínio pela nossa destruição não cede mesmo quando o Armagedon não venha nos próximos cinco minutos, como quer a nossa fé. O mundo não foi pras cucuias. Deus nos decepcionou e não nos mandou fogo dos céus...
Mas continuamos a espera.

O que eu acho engraçado, se é que isso tem graça ou talvez seja uma “dês” (apenas para poupar os olhos e mentes mais sensíveis as sutilezas do nosso vocabulário), é que um dos personagens do fim do mundo já deu as caras há tempos e parece que ninguém se deu conta. Aqui está a parte engraçada: Ficamos todos à espera que a tal “besta do apocalipse” surgisse entre os grandes vultos da humanidade. Uns pensavam que seria um líder político e outros tinham certeza de que seria um guia religioso.
Quem imaginaria que o dito cujo fosse um nerd dos confins de Westchester?

Esqueçam de Lex Luthor, Darth Vader ou o Coringa. O grande supervilão da humanidade é o fundador do facebook, mas diferente destes três primeiros, ele realmente conseguiu “dominar o mundo”.
Hoje em dia ninguém mais existe de fato fora do “face”.
Não há comunicação fora dali.
Ninguém te manda e-mail, carta ou mesmo telefona.
Aquelas fotos de família? “Postei ontem no face.”
O trabalho de faculdade? “Ta no face desde de manhã! Em que mundo você vive?”
“Te deixei um recado no face.” “Eu não te encontro no face?!” “Qual é o seu face?”

Da ultima vez em que acessei o facebook, foi quando das manifestações pelo Brasil no ano passado (ao final das quais mais uma vez perdemos a oportunidade de fazer história em vez de vivê-la) e eu precisava saber onde e quando as pessoas se reuniriam. Foi útil, mas atualmente esse negócio anda mais ou menos como sopa de quartel: cem gramas de carne para quatro litros de água!

O mundo real não existe mais. E é nesse mundo que ainda teimo em viver. O meu denuncismo talvez seja uma teimosia quixotesca, talvez um prazer advindo da rebeldia ou simplesmente uma tendência a andar na direção contrária da multidão. Mas o fato é que ninguém mais “compra ou vende” fora do facebook.

Até então eu tenho me virado razoavelmente bem sem ele, mais o cerco se aperta e acontece que enquanto eu vivo e convivo em sociedade, preciso comerciar. Preciso comprar e preciso vender, logo, tenho de ter a tal marca do face, porque encontro esse logotipo “F” (coincidentemente, a 6ª letra do alfabeto. Número repleto de significados sinistros...)em tudo que é canto. Até em sites governamentais!

“Curta a porcaria da nossa página...”

O meu problema é que tenho preguiça em militar por qualquer coisa. Ficar praguejando contra as tendências da humanidade cansa o espírito já exausto de lutas inúteis, pra não falar que cansa os ouvidos alheios. O virtual superou o real (que já era confuso e duvidoso) e agora, aparentemente não temos mais carne e sangue, a não ser em situações especiais e fomos convertidos em bits e bytes, em álbuns de fotos que nada dizem e postagens sobre banalidades ou tragédias pessoais.


É magnífica a capacidade humana para transformar ferramentas potencialmente úteis em coisas perniciosas e estou pra ver coisa mais nefasta e comprometedora da privacidade do que o tal facebook.
E olha que eu já implicava com o orkut, msn (alguém se lembra?)...
E como o “funk” (outra praga que veio pra ficar) substituiu a lambada, já me arrepio pensando no que vai substituir o “face”.

Quem pode me explicar o porquê de um ser humano tirar uma fotografia de um prato de batatas (engorduradas e aparentemente fritas em óleo muitas vezes utilizado, a julgar pelos fragmentos escuros nas fritas) e postar essa porcaria numa rede social?
E me explica, por favor, os mais de trinta comentários do tipo: “Hum...Tô aí!” “Que delícia!” “Eu queeeeroooo!”, e por aí vai!?

E vai olhando;
a pessoa posta, essencialmente, piadas (que já foram compartilhadas numa centena de outros perfis), fotos suas em poses repetidas (fazendo um bico ridículo ou com os dedos em v e L)  ou em ocasiões que o bom senso diriam ser intimas (pra não dizer constrangedoras), farpas para supostos inimigos(as) (que aparentemente não tem coisa pra fazer além de fuçar o perfil de quem lhe detesta), trechos adocicados de poemas, mensagens religiosas do tipo “Jesus te ama” intercaladas com coisas como “Batom de periguete é superbonder”  e a lista segue.

Lamento, porém, que essa figura não se trate de exceção, mas representa uma grande maioria barulhenta.

Eu juro, nunca vou compreender as pessoas.

Não passa semana em que alguém não me venha dizer que teve um problema qualquer no “face”. É inacreditável, porém, como as pessoas se expõem ali e continuam a se expor não obstante os problemas que por ventura tenham.

Mas eu dizia que preciso comerciar. Preciso comprar e preciso viver e contrariando as minhas esperanças, essa rede social aparentemente veio pra ficar, aliando-se ao telefone celular para se tornar mais uma porcaria de cadeia sem a qual não é possível existir em sociedade e ter ou manter contatos.

Então, é sem constrangimento (até porque dá muito trabalho ficar constrangido) que reconheço que estou em vias de capitular.

Estou bem com isso.
Já fui um sujeito de convicções, até o dia em que percebi que é melhor não estar convencido de nada, porque obstinação é raiz de carvalho em noite de tormenta.

E como não sou um deus e nem um animal, não posso, infelizmente, viver só, daí enfiar o rabo entre as pernas e colocar-me sob o jugo de mais essa cadeia.

Paciência...
Vai ver, são apenas moinhos de vento mesmo...


“Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.
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