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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

O Problema do Copo 2- (ou de como uso utensílios domésticos para forjar delírios)


 

O copo é outro, claro, eu porém, penso ser o mesmo ou, no mínimo, reconheço-me  nesses fragmentos que ficaram daquilo que eu fui. 

Renovo o meu Eu antigo dando-lhe polimento  e reestreio velharias psicológicas no afã de forjar do mofo  algo que seja novo e reluzente.

Mas a questão que me paralisou, foi que eu bebi do copo muito menos agua do que usei momentos depois, para lavar o copo no qual bebi. 

Absurdo e absorto, fiquei feliz e triste pelo dilema que iria me consumir nas próximas horas e pela água que desceu pelo ralo em maior abundância que pela minha garganta.

Os paradoxos, são o meu brinquedo favorito para passar as horas de ócio meditativo.

Uma criança a brincar com cacos de vidro e lâminas de barbear.

"Para inicio de conversa - pensei enquanto lambia o sangue dos dedos e recolhia os cacos do chão - , eu nem mesmo estava com sede de água, mas de metafísica e de poesia."

E mais ainda -  será que o que ainda em mim há,

Há de querer o que não há mais em mim? -

Não tenho o bastante que me inspire a ser generoso, 

Mas bem posso compartilhar ausências e dividir meus hiatos.


"Mas como me falta o que quero e o que tenho não me preenche, 

estou cheio de insuficiências, 

repleto de vazio e transbordante do desejo de estar cheio."


A terra girou tantas vezes em torno do sol e eu, sem eixo, em torno de mim mesmo,

E nem entrou na minha contabilidade líquida, 

As lagrimas que verti, (tolo e comovido com a própria tolice),

Quando pensei no oceano que lancei pelo ralo,

Nos meus atos de higiene equivocada.


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Outra nota sobre a coragem...


Em uma postagem anterior,  falei sobre coragem, como um dom a ser perseguido.

E em outra, não sei se nesse blog ou em espaço perdido nas minhas antigas e perdidas veredas da net eu raciologiquei que coragem não é a ausência de medo. Ausência de medo é burrice, se não for patologia.
Coragem, é ter medo e, não obstante, enfrentá-lo.
É o kamikazi caindo voluntariamente do céu, é o guerreiro sozinho com uma espada se lançando contra um mar de escudos e lanças, é a mãe se jogando sobre o filho para protegê-lo das balas, é o rato acuado brigando como um leão.

É arriscar e talvez morrer por algo maior do que a si próprio.

Talvez seja uma coisa difícil de se fazer, porém, asseguro que é bem mais difícil viver com medo.

Anos atrás, após uma discussão breve, alguém gritou por socorro de madrugada, na rua em frente a minha casa. Me levantei imediatamente e ia sair mas minha ex-esposa me convenceu a não o fazer. Ela argumentou algumas coisas; que era briga de gente ruim, que era obrigação da polícia prestar socorro e que eu tinha esposa e filha e que devia pensar nelas ao invés de me colocar em risco por "gente que não presta".
A briga silenciou na rua e eu me deixei convencer pela minha ex-esposa.
A verdade, bem o sei, é que se eu estivesse resolvido, ela não teria conseguido me deter. Deixei o medo me segurar e me impedir de socorrer alguém. A verdade é que prezei mais a minha segurança do que o fazer o que é correto.
Passados tantos anos, não consigo me recordar deste episódio sem sentir náuseas de desprezo por mim mesmo. E faço questão de contar isso pra que eu nunca me esqueça.

Viver com medo é uma morte lenta, uma tortura silenciosa e uma escolha de covardes que preferem se acomodar quentinhos junto á lareira do que olhar o sol de frente. É coisa de quem quer um universo seguro e ordenado, de quem prefere as sombras projetadas na caverna do que sentir e viver a marcha selvagem da vida.

Viver a verdade das coisas é algo que tenho procurado ha muito tempo.
Penso que já nasci com essa veia moral, de encontrar significado, de olhar atrás do cenário, de tentar saber o que faz a marionete se mexer.
A mentira, a ilusão e a desonestidade são coisas pavorosas, que me reviram o estômago e me gelam o sangue de ódio. E é pior quando tento fazer isso comigo próprio.

Nunca soube de nada mais odioso do que a mentira.
Exceto, talvez, o medo.
Viver com medo ou viver uma vida de mentira é mil vezes pior  do que morrer.

Melhor está o leão morto do que o cão vivo.

O meu maior gesto de coragem foi olhar nos olhos de uma pessoa e lhe falar a verdade, sabendo que isso ia libertá-la e a mim, mas também lhe ia partir o coração e destruir sua zona de conforto.
Colhi as consequências.
Não poderia ser de outra forma.
Mas o alívio que eu senti por não mentir compensou em muito a dor que causei e senti.
Foi a coisa certa a fazer e não posso sequer me orgulhar de o ter feito, porque não é como se eu tivesse escolha.
Mas as pessoas em geral, pensam que têm.
A escolha de mentir.
A escolha de viver o conforto e a segurança.
A escolha do medo.

Mentir é roubar ao outro a liberdade de escolher um caminho a tomar.
Não é uma opção.

Ainda assim, este e outros atos de coragem, paradoxalmente me levam a seguir minha outra veia moral, uma que me move desde criança: O desejo por redenção.

Que pecados tem a purgar um criança?
Talvez o de ter nascido?
Quando aqueles que te trazem ao mundo manifestam, mesmo inconscientemente, o arrependimento por o ter feito, você é um desgraçado se por acaso tem sensibilidade o suficiente para perceber isso.


Deixando de lado minhas fantasias pueris de culpa filial, eu penso muito em redenção.

Não quero ir pra cova carregando essas dores que causei. É um fardo pesado demais.

Viver corajosamente tem um preço, é claro, e eu ainda prefiro ter a consciência atormentada pelos efeitos de uma atitude correta a ter de passar a vida tendo de contar a terceira para justificar a segunda mentira que justificou a primeira que serviu para esconder o fato de que sou um merda!

Ainda não vi um abismo que eu não tenha sentido vontade de me atirar ao fundo.
É a esperança que quando der por fim com o corpo nas pedras, silencie junto com minha respiração, o peso de tantas culpas.

São 16:22 agora...

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Eu inverno no outono enquanto desejo fugir

Minha visão monocromatizou em cinza essas manhãs de maio e minha percepção esticou as noites e encolheu os dias...

Mas que tem isso? Tudo se encolhe, se recolhe, pássaros ficam mudos nos ninhos, estrelas aparecem frias por entre as brechas do cinza das nuvens e eu sonho com o Atacama.
É inverno até no inferno.

Sorri quando me lembrei de quantas vezes tive de tirar minha dor do caminho do seu sorriso, antes de pegar uma autoestrada qualquer na qual eu pudesse final e irremediavelmente cair fora do mundo e para dentro de mim, mas hoje...
Me cansa esse desejo constante por decadência e meu niilismo dá lugar a um profundo anseio por sol, vento, e caminhos abertos.
Me cansa estar sempre em fuga, sentado no mesmo lugar de onde tudo em mim grita para sair...
Mas a casa está confortável e quente e eu nutro um autodesprezo doloroso por estar igualmente confortável, olhando pela janela o infinito do mundo em desafio.

Talvez você saiba quem sou eu, mais do que sabem minhas dúvidas, meus únicos pontos de referência na constante interrogação de mim mesmo...

E eu penso em você...
Penso em você até quando penso estar pensando em outra coisa.
Penso nos lugares alienígenas e maravilhosos por onde esteve e por onde sua presença igualmente alienígena e maravilhosa deixou e guardou marcas e me sinto encolher em febre...

Pois me dói pensar que é mais provável que assim como eu, você esteja olhando por alguma janela de algum lugar, desejando que seu corpo possa correr pelo mundo, junto à sua alma fugitiva.

Talvez haja sol aí,neste seu lado da realidade e talvez você cante com  minha voz alguma canção que soe subitamente estranha e triste..

Porque eu sei que você me acha estranho e triste e eu fico intrigado do motivo de eu gostar tanto do seu engano de pensar que eu sou uma única coisa.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

1978, Elis Regina e uma mulher em manhãs de sábado



O ano era 1978.

Eu acho. Não se deve confiar demais na memória de alguém que procura memórias suas aos cinco anos de idade. Há gente que, com efeito, se recorda de lembranças de idade mais tenra ainda, prodígios capazes de voltar no tempo até seus dois ou três anos ou, caso não haja exagero, até mesmo meses de idade ou memórias intrauterinas.

Vai saber...
Lamento informar que não me encontro no rol de tais fenômenos e até o que comi no almoço me é tão indistinto quanto a camisa que usei em 15 de abril de 1993 ou, sei lá, minha adolescência que passou quase como um sopro de sonho. Daí eu ter de advertir que muito provavelmente, minhas memorias de 1978 são muito mais sensoriais (nisso eu posso me gabar de ter uma habilidade notável) do que de fatos concretos.

Eu tinha, pois, cinco anos e já era uma criança bem estranha, para os padrões da minha comunidade.

Muito grave, quase nunca ria e nunca chorava e se o fizesse, era em silêncio, no máximo um murmúrio de protesto sentido. Há que se pensar que eu esteja me vangloriando.... Ledo engano! Eu era uma criança “odiosa”. Os adultos me evitavam. As outras crianças também.  Era quieto demais. Silencioso demais. Adultos gostam de crianças barulhentas e dependentes, que lhes acreditem em todas as contradições e mentiras e que os façam sentir-se necessários e as crianças igualmente gostam de outras que lhes desafiem em jogos ou lhes apoiem as gatagens.

Eu era uma coisa que observava, indagava e aprendia. Por isso enquanto a matilha de irmãos e primos gritava lá fora atrás de cachorros, pipas e encrencas, eu me sentava e olhava pro céu, pras nuvens e pra dentro do meu pequeno e curioso eu.

A exceção, o que me arrancava de dentro da minha introspecção era o meu espetáculo favorito. Minha mãe.

Deus inexistente, como eu amava aquela mulher! 
Ela era linda, ora sofrida, ora alegre e vibrante. 
Aos fins de semana, depois de se matar a semana inteira para alimentar a ninhada, ela se matava para limpar a sujeira que a mesma ninhada fazia em suas ausências da semana.
Ela lavava roupas, limpava a casa, fazia a comida e limpava o terreiro, num ritual que lhe comia o dia todo.

Raramente eu a via, durante o dia, se sentar para comer ou para passar óleo nas pernas e cuidar do cabelo, coisa que ela só fazia durante a noite quando a ninhada já estava dormindo. Minha mãe primeiro cuidava do mundo. Depois cuidava de si. Depois disso, ela se sentava próximo a lamparina (não tinha luz elétrica em alguns bairros de BH nessa época) e se dedicava ao vicio que me legou: ler livros.

O menino estranho e a mulher sozinha a cuidar de seis filhos...

1978...

Minha mãe sempre canta quando está triste. Minha mãe está sempre cantando.

Em 1978 ela estava recém separada do meu pai. História comum em bairro comum de uma cidade comum de um mundo comum: Homem “abandona” mulher com filhos e cai no mundo. Lega a mulher o cuidado com os filhos e vai viver a vida com outra. Minha mãe amava aquele homem inconstante. Até onde eu sei, ele fazia um sucesso inacreditável com a mulherada. Charmoso, bonitão e absolutamente canalha, atributos que bem poderia ter me deixado de herança, já que não me deixou pecúnia.

Oh, aos cinco anos de idade eu amei pela primeira vez e pela primeira vez eu vi como era tolo o coração de uma mulher apaixonada. Minha mãe havia sido traída mais de uma vez. E meu pai ia e voltava uma história pra lá de clichê e não vou aborrecer ninguém com esses detalhes porque é basicamente a história de milhares, senão milhões de famílias...

Minha mãe cantava. Tinha uma radiola antiga a pilhas, onde ela ouvia Benito di Paula, Valdir de Azevedo e Elis Regina.

Elis. Se minha mãe foi meu primeiro amor, Elis foi o segundo.

Naquelas manhãs de sábado em que o sol entrava em casa pelas frestas do telhado desenhando moedas de ouro nas paredes e caindo em raios de poeira levantada pela vassoura da minha mãe, eu a ouvia cantar lá fora.

Na radiola, Elis cantava com minha mãe.
Eu já ouvi todas as músicas de Elis. Ouvi várias vezes e nunca consegui ao certo saber qual era aquela que minha mãe duetava com Elis. Talvez seja porque minha memória de cinco anos é emocional e sensorial. Eu ainda não tinha um arcabouço linguístico elaborado o bastante para saber sobre o que cantavam aquelas duas mulheres lindas. Eu apenas intuía. Eu hoje sou ateu, mas penso que aquelas manhãs de sábado eram momentos religiosos. Havia algo de muito místico naquilo. 

Eu saltava da cama irritado por ter dormido demais e ia lá pra fora, pro sol, pra poeira, pra Elis e pra minha mãe.
Elis cantava como um anjo e como um demônio, como uma amante, como uma assassina...!

Não sei qual era, mas minha mãe repetia tanto aquela música que não sei como o disco de vinil não gastava. E na voz de Elis, embora eu não soubesse e nem saiba a letra, eu ouvia a alegria e a dor, Elis amava naquela música e também odiava. Ela parecia implorar e amaldiçoar. Elis gritava sua angustia e seu deleite de um modo absolutamente mágico e parecia protestar e desafiar seja lá qual o destino lhe arrebatara a pessoa amada.

Era prata, cristal e fogo no ar em forma de música. Eu não entendia como meus irmãos ou qualquer pessoa podia fazer ou olhar ou ouvir qualquer coisa que não fosse aquilo. Era minha mãe, ainda lamentando a perda do “amor de sua vida”, chorando junto a Elis Regina em manhãs de sábado de 1978. Eu não sabia bem como reagir a beleza triste daquilo. Algumas vezes eu desejava poder fazer algo, por que em idade edípica, eu também lamentava do meu pai uma ausência qualquer. Venci meu inimigo pelo coração da mulher que eu amava. 

O que eu não sabia, era que eu amava o meu inimigo vencido e que ao expulsá-lo, fiquei com a mulher, mas o coração dela se foi com ele. Saudades do meu pai morto ainda em vida e de minha mãe, morta como mulher... Coisas que o divã revela...

Eu nada podia fazer, mas ao longo dos anos, sempre que minha mãe estava muito triste, eu permanecia calado ao lado dela, numa solidariedade muda, porque a mim parecia em minha fantasia de criança, que ficando perto eu poderia pegar um pouco daquilo que lhe pesava ao coração, absorver parte da tristeza dela para que ela risse mais, porque minha mãe chorando com Elis Regina era uma primavera, mas rindo, ela era as quatro estações e mais algumas.

Foi uma verdadeira lástima que minha mãe, assim como muita gente ao longo do meu caminhar, não compreendesse bem meu modo sutil de amar e de viver. Nunca entendeu o filho calado e profundo e embora ela tentasse muito, nunca conseguiu gostar dele ou o amar como pessoa.

Não me levem a mal (levem-me para Pasárgada!). Eu lhes asseguro que amor de mãe é coisa inútil para mim. Segundo dizem, se uma mãe tiver doze filhos, 11 psicopatas sádicos e um virtuoso, há de amar igualmente aos 12. Então qual o mérito do filho virtuoso no que tange ao amor de sua mãe?

Esse amor ideal de mãe, que tudo suporta, que tudo aceita e blá blá blá.... Isso nunca me interessou de modo que embora ela tenha sido excelente e ido além de suas forças ao cuidar de mim, não chego a lamentar que ela não me tenha amado como um filho. Eu já vi o que os filhos fazem as mães e como o amor por eles é pesado para elas. Todas essas besteiras que li no dia das mães, sobre esse ideário de amor quase transcendental, mãe que ama incondicionalmente, que tudo suporta, como se fosse realmente um martírio qualquer abrir o útero para uma criança, sofrer no parísio; ideário que talvez venha do mito de Maria mãe de Jesus, isso tudo me deixa nauseado, por que parece negar a uma mulher, uma vez sendo mãe, a humanidade própria.

Mães não podem odiar, não podem se permitir uma canalhice, mães não tem orgasmos (supostamente a concepção de filhos deve ser “pura”), momentos de fraqueza ou força, mães estão condenadas à santidade em vida e não são absolutamente, mulheres. 
Pobres mães...

Ah, eu amava aquela mulher que chorava o amor perdido enquanto colocava lençóis azulados de anil na grama para quarar ao som absolutamente mágico da voz incrível de Elis Regina. Amava a força esmagadora dela ao enfrentar o mundo, ao levantar de madrugada no escuro para arrancar sozinha do mundo o com que alimentar os filhos; suportando bravamente enquanto o ser mãe ia lentamente minando o ser mulher dela.

Muita chuva e vento e verões transcorreram desde 1978.


Morreu Elis, morreu meu pai, morreu a mulher que cantava com Elis e chorava pelo meu pai. 

Ficou a mãe, que me olha com olhos gentis, vasculha no fundo da alma algum amor que possa dar ao filho estranho tão “indiferente” e diferente dos outros filhos e pergunta como vou indo, nas raras vezes em que nos vemos. Abraço-lhe o corpo ossudo, os ombros cansados e sinto raiva de mim mesmo por ser seu filho e assim como os outros filhos, ter arrancado dela tanto que não posso devolver. 

Quase como se eu tivesse entrado no Louvre e, extasiado de amor, tivesse arruinado a Mona Lisa...

domingo, 6 de julho de 2014

Apresentação... Ou Um Exercício de Humanidade



Isso ia soar bem esquisito.
Fazer uma apresentação de mim (exigência para participar de um site de literatura), como se eu fosse ao mesmo tempo um ponto e guia turístico e tivesse de alistar dentre as minhas características algo que valesse a pena uma visita. Lamentavelmente, sou uma criatura bastante vulgar, no que tange a aparência física. Acho esquisitíssimo tirar e exibir fotografias de mim, como se a minha cara fosse algum tipo de obra de arte que valesse a pena ter na parede. Então, receio que quem me visite não vá ter um cartão postal decente que enviar para os conterrâneos. Quero dizer, a estética que se dane, porque eu já me irrito com o trabalho de ter de escolher dentre as roupas que sou obrigado a comprar alguma que seja sóbria o bastante para que eu passe despercebido e ou não assuste as velhinhas no ponto de ônibus a noite como a promessa de um possível assalto ou coisa que o valha e nem dê a impressão de que acabei de sair de um bloco carnavalesco.

Então, fotos em sites, nem pensar!
Porque diabos eu vou dar as pessoas que me visitam o desprazer que me acomete todos os dias pela manhã ao olhar para a minha cara cansada?

Toda vez que faço a barba e tenho de suportar o espelho olhando de volta, olho e penso se a imagem daqueles olhos vermelhos e nariz pontudo ficariam bem numa parede qualquer de uma galeria de arte. O pensamento só não me faz rir porque pela manhã meu humor não está dos melhores, coisa que me torna ainda menos atraente ao olhar...
E olha que nem me considero realmente "feio", mas é que essa pele que uso para me movimentar neste mundo não me parece que deva ser o aspecto que eu vá valorizar em detrimento de outros. Sempre tem um cara mais bonito,  mais "fodão", mais forte, mais rico, mais o diabo, então, que se dane isso que daqui ha uns anos vai ser só poeira numa cova qualquer...

As pessoas geralmente quando se apresentam adotam uma postura bastante estranha, descrevendo defeitos como qualidades, passando-se por temíveis, atraentes ou mais agressivas do que na verdade são. 

Mulheres fatais super-fêmeas, ultraseguras e coquetes até a ponta dos dedos ou o irritante oposto - mocinha-donzela-a-espera-de-uma-porcaria-de-príncipe-que-lhe-vá-salvar-de-sei-lá-o-quê.

Homens super-amantes, dotados de capacidades sexuais dignas de um fauno (aqueles falastrões do tipo, “se te pego de te viro do avesso...”), ou a-porcaria-de-príncipe-de-mentira-que-a-mocinha-das-linhas-de-cima-espera.

Afinal "onde é que há gente no mundo?"

Não neste em que vivemos, isso é certo... 
Um mundo maravilhoso de clichês, de gente clichê, de pensamentos prontos e ou previsivelmente suaves ou previsivelmente agressivos, ou previsivelmente previsíveis...
Existe sempre "a coisa certa" a ser dita. 
Diga, e todos vão amar a pessoa "maravilhosa" que você é.

O fato de "a coisa certa" quase nunca ser verdade ou coisa sincera é de somenos importância.
O que importa é que te amem na mentira, que talvez (se você para pra pensar) seja tão pesado quanto ser odiado na verdade.

Mas todo mundo se protege do desamor dos outros...
Uns exageram suas “qualidades” mais desimportantes e outros o fazem com os defeitos de mesma ordem. Já vi gente, (muita gente aliás) se dizendo “louca” (como se isso fosse alguma vantagem, como como se alguém que fosse realmente 'louco' se visse como tal e não visse no inverso, que louco é o mundo).

 Na maioria das vezes essas pessoas unicamente se valiam da suposição de sua loucura para acobertar uma estranheza (que contraditoriamente é bem normalzinha, por que da pele pra fora todos no mundo nos são estranhos), como desculpa para sua inconstância, para não formarem laços (como se apenas eles ansiassem por uma vida não- simbiótica), para justificar as feridas que sua singularidade causa naqueles que os amam (como fosse possível viver sem ferir os outros).

Os falsos humildes são ainda piores do que os assumidamente arrogantes, com a diferença que estes últimos são engraçadíssimos, enquanto os primeiros são maçantes ao cubo!

Eu penso que ninguém se apresenta como um ser humano, simples, inconstante, cheio de medo e de duvidas simplesmente porque ninguém nos ensina a ser gente, (humana e falível gente) e de outra parte, somos ensinados a nunca pôr a nu diante dos nossos irmãos da confraria humana, que somos tal como eles. Mesmo porque, as pessoas em geral se sentem desconfortáveis quando alguém se atreve a lhe lançar consciência adentro o peso de sua humanidade como um espelho, onde podem mirar a própria. 


Então, por consideração aos vossos brios, permitam-me que me apresente adequadamente...
Eu sou uma semi-divindade, cavalheiros!
Eu sou um homem maravilhoso, virtuoso, forte, inteligente, cheio de convicção e portador de uma força e fé inabaláveis.
Nunca oscilo, nunca tenho um momento de dúvida e não sei o que é fragilidade.
Do mesmíssimo modo que todos vocês, aliás...

Só falo um pouquinho de mentira.

E infelizmente, me falta a mágica capacidade de acreditar nelas.
Nutro em secreto a ambição de um dia acreditar, nas minhas e nas vossas...

Mas eu ainda não tive uma só ambição que não me saísse pela culatra.
Algumas vezes, naquelas horas em que uma sensação tão castanha quanto a minha pele se apossa de mim, fico me perguntando se há algo mais digno de ser ambicionado do que ser simplesmente um ser humano, para fora de qualquer rótulo.

A verdade é que talvez não existam verdades, a não ser a verdade do pó, das coisas ínfimas que no conjunto aparentam as coisas grandiosa em que nossa vaidade se aferra...

Mas tudo se constitui de fina poeira que o vento leva e a mim parece que um homem só tolera a ideia de ser humano porque nesta ideia está implícita a sedutora ideia de ser o embrião de um deus.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Raciologicando à quinta potência


(...)

... e depois de considerar o quanto pode caber no espaço ocupado por parênteses e três pontos, me convenço finalmente de que a linguagem, contraditoriamente, é talvez o maior entrave à nossa comunicação.

No espaço por entre os parênteses acima, estava um longo monólogo carregado de uma emotividade ridícula que me encheu de auto-desprezo depois de ler o que digitei. Fica pra outra hora, porque acho que já espezirritei-me a mim mesmo em demasia por essa semana (e talvez por toda uma encarnação)...

Penso que é até possível, com os meios adequados e ainda ignorados, ensinar um animal ou vegetal e até um mineral (por que não?) a falar.

Mas um homem, tendo-o aprendido a falar, lamentavelmente jamais aprenderá a calar a maldita boca, enquanto se importar com esses universos caóticos chamados "pessoas" que circundam a sua órbita e meio que parasitam seu parco estoque de auto-amor, mais do que consigo mesmo e com este estoque.

Isso é lastimável, embora não pareça fazer muito sentido.

Mas se posso afirmar (e ainda que eu não pudesse, afirmaria assim mesmo), considero que somos talvez muito afortunados pelo fato de sermos capazes de odiar, tão doida e profundamente quanto amamos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Raciologicando (por não ter nada melhor a fazer)

...E eu ainda não vi uma só vidraça que não fizesse, indecentemente, um convite a todas as pedradas do mundo.
E realmente gostaria que meus ossos fossem tão resistentes quanto a obstinação do meu orgulho.

Daí eu seria imortal e talvez estivesse ainda por aqui quando todas as vidraças, pedradas e orgulhos já estivessem extintos por sob a poeira da história..

Por outro lado, é uma manhã tépida de uma quinta-feira tépida num mundo tépido.

E essa vai ser toda a angustia a que me vou permitir por hoje...

...................................................

Um adendo tardio: Seria bom ou não tão mau, que as pessoas à minha volta, só às vezes, se lembrassem de que eu sou um Psicólogo....

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Você não sabe de nada, Luiz!



Acabo de devorar as 811 páginas de “Dança dos Dragões”, de George R.R. Martin. 
Já aviso que não vem spoiler neste post, embora eu goste de ler spoilers e fico sempre pensando na logica de comprar um livro ou assistir a um filme sem saber antecipadamente  do enredo (as chances de levar lebre por gato é sempre uma constante), mas serei cioso de quem tem fobia de spoiler ou prefere ser surpreendido pelos acontecimentos em vez de degustar com vagar as  minucias literárias ou performáticas de atores.

Também não vou falar do meu entusiasmo por George R. R. Martin (e do meu pavor que o velhinho  caprichoso morra antes de concluir sua saga ou de que ele resolva que  mais algum personagem maravilhoso morra). Além do mais, estou meio apaixonado pela saga de R. Martin e eu penso em meu torto pensar que nós sempre ficamos um tanto bobos quando estamos apaixonados. Eu sou um entusiasta muito patético e a consciência disso dói e eu estou em dúvidas se existe algo que doa mais do que consciência. 
Tem sensações que eu prefiro, quando possível, evitar.

Então, permitam-me dividir o meu estranho reconhecimento por uma frase que surgiu por varias vezes ao longo do texto:
Você não sabe nada, Jon Snow.

O porquê de destacar essa frase de todo o enredo maravilhoso de “Dança dos Dragões” eu explico após uma breve e tediosa história:

No comecinho da década de 90 um grupo de garotos se reunia na Praça da Savassi umas duas vezes por mês para jogar RPG. Até então as cartas e os dados eram difíceis de conseguir, sendo a maioria importada e em inglês ou em japonês. O detalhe é que nenhum dos garotos sabia falar essas línguas, o que tornava o jogo ainda mais desafiador. Um desses meninos era uma esquálida criatura de hábitos. Deu-se razoavelmente bem jogando e ganhando algumas rodadas usando um personagem Wizard ou Sage ( como vinham nas cartas), resultado que não conseguiu repetir usando outras categorias de avatar. Essa persistência em utilizar esse tipo de personagem (mais a mania de falar demais e de estar, irritantemente, sempre certo) valeu-lhe a infeliz alcunha de Sage, apelido que lhe acompanhou até a vida adulta e que, para mal de seus pecados, manteve, quando começou a se aventurar pela internet e precisou de um nickname.

É realmente uma lástima ter muita consciência, mas pouca imaginação.

Esse garoto, agora perdido por entre o labirinto de Eus dentro deste adulto que vos digita, nunca foi e nunca se viu como alguém sábio, e na verdade, ainda o sinto em alguma dobra perdida das minhas contradições, a revoltar-se contra a ideia de ser sábio. Ele se inquieta em algum lugar ermo de mim e me causa náuseas morais  cada vez que alguém me diz que sou inteligente. A isto respondo como num vômito raivoso e cansarregado de ironias:

Mesmo? Pois eu preferia ser bonito ou então ter sorte!

 Jesus e todos os deuses sabem que eu trocaria de bom grado vinte pontos de QI por um par de ombros largos ou dentes perfeitos ou uma barriga musculosa. Ou os 1,85 m do meu irmão ou os cabelos de mel da minha filha ou a pele maravilhosa daquele rapaz que me vendeu balas intragáveis no ônibus um dia desses...
Mas que sei eu?
Não sei de nada.
Nada...
Então talvez eu não tenha nenhum ponto de QI que possa investir numa barganha por algum atributo que me faça sonambulear melhor pela vida...

Você não sabe de nada, Luiz!
Tenho ouvido isso com tanta frequência e de pessoas tão separadas por tempo, espaço, cultura e situações que sinto aquele estranhamento peculiar de quem subitamente toma consciência de uma dolorosa verdade absoluta.

Você não sabe de nada, Luiz!

Daí a minha sensação de deja vu a cada vez que li em  “Dança dos Dragões” essa frase que ficava pairando sobre a cabeça do personagem Jon Snow.

E eu não sei nada. Talvez fosse o caso de perguntar se alguém realmente sabe, mas estou quase certo de que não vou compreender a resposta.

Não que isso importe. Tenho problemas demais em lidar com a antiga e constantemente renovada consciência da minha própria ignorância, para queimar meus neurônios decadentes meditando o não-saber alheio. O que me incomoda é o fato de que quando alguém me diz: "Você não sabe de nada", está afirmando implicitamente que ela sabe, mas não está e não me parece disposta a me ensinar o que eu não sei e a partilhar o que ela sabe, porque sabendo e mantendo-me na ignorância, mantém também o seu poder e superioridade sobre mim.

E eis o que vim lhes anunciar hoje senhores:

A vossa superioridade.
São, todos vocês, superiores a mim.

Todos vocês, os que sabem, os que conhecem o que há por detrás das máscaras e das palavras. Os que compreendem os meandros e sutilezas das linguagens e das intenções humanas.

Vocês, os que tem defesas, os que conseguem dormir e olhar nos olhos uns dos outros enquanto dormem...

Porque vocês sabem algo que eu ignoro e eu sempre serei um ignorante. E não falo de ignorância socrática, não é o princípio da sabedoria, mas de uma terrificante consciência de que não posso me fiar nem mesmo na minha capacidade de levantar dúvidas.

Eu não sei.
Mas vocês sabem.
Sabem e não vão me ensinar nada e nem eu tenho as condições reais e necessárias para aprender sozinho ou com preceptores.
 Possivelmente, algum defeito na minha capacidade cognitiva ou esse excesso de ligação com o absurdo, fazem-me refém de um autismo moral e eu permaneço em transe, meditando meus próprios processos enquanto a minha volta o mundo gira e muda, as pessoas amam, odeiam, vem e vão e eu permaneço perplexo com os grão de poeira em suspensão nos raios de sol da tarde.

Fiz a mim mesmo uma piada cruel quando nomeei-me Sage, porque intimamente eu sabia que de sábio eu nunca tive nada.  Era, não uma afirmação do que eu pensava ser, mas a de um desejo e uma busca.
Quando o meu ridículo ficou auto-evidente, criatura de hábitos que sou, acrescentei um singelo “h”, para mudar o sentido e transformar o que era um inadequado apelido em algo parecido a um nome. Sahge, porém,  não é menos ridículo ou mais adequado. Por outro lado, se chegarem-se a porta de onde trabalho e perguntarem: “Quem é o Luiz?” cinco ou seis pessoas (dependendo do dia) olharão em sua direção, mas uma delas, e apenas uma delas, é o Luiz que não sabe de nada.
Você não sabe de nada, Luiz.

Verdade absoluta.

Não sei lidar com verdades absolutas.
Não sei de nada, mas bem podiam ter me deixado na ignorância disso também.
Talvez, contrário ao que diz a fé de muitas pessoas, Deus tenha inventado o álcool.
Mas veio o Diabo (sacana dos infernos literais e imaginários) e inventou a solene e ridícula promessa de não beber mais.
E os dois sabem bem que eu, ainda na temporada de trocas, negociaria a receita da Pedra Filosofal e do Elixir da Vida, pelo esquecimento da minha própria ignorância que me proporcionaria uma garrafa ou duas de qualquer bebida ordinária.






quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Raciologicando ao cubo...

Pensamento breve, para uma quinta-feira de brevidades: O maravilhoso neste universo terrível, é que algumas coisas mudam sempre, e o fazem (por uma necessidade inconsciente). E qualquer coincidência disso com a realidade, está longe de ser uma mera semelhança.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

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