Na obscuridade das minhas linhas, em sono descuidado, sonhei que você me sonhava,
E foi dessa forma, que comecei a duvidar da certeza da minha inexistência,
Que eu era aquela ficção contada por mim mesmo ao nada, que respondia em eco com a minha voz,
Nas horas voláteis, no vazio dos dias entre o horário do almoço, o sono do divã e a sessão das dez.Se você existia, era suposto que eu também haveria de ser o sonho sonhado por outro sonhador.
Tal qual o sonhei primeiro em dias muito antigos.
E então me pareceu haverem flores brotando em um abandonado jardim do eu,
Uma primavera implacável rompendo em verde no cinza dos meus outonos da alma.
(E se meus dedos inábeis pudessem ao piano acompanhar as batidas rítmicas do meus desejos, ao criar possibilidades onde antes nem vazio havia,
Eu faria uma música de inefável beleza que levaria o seu nome).
De alguma forma, sinto que seu nome soa como o retinir de pequenos sinos a badalar dentro de uma fantasia.
Talvez voce tenha nome de flor, de pedra preciosa que seja ou talvez quisera o amor ou a fé de seus pais dar-lhe o nome de uma rainha antiga ou o de um profeta
(E, deus!, em meu devaneio, vejo-o precioso, mas não como pedra, perfumado como uma flor reluzente, e, talvez você seja mesmo uma rainha no império do coração de alguém ou profeta incompreendido e rejeitado por seu próprio povo).
Retiro os olhos desse livro onde o crio e o sonho em letras, as tuas formas lindas e desconhecidas tomando corpo no destino de tudo o que posso desejar,E ainda mais sonhador olho para as direções à volta do meu cárcere suave, mas então perco-o de vista, pois sinto-o mais vivamente nestas linhas em que escrevo ha anos uma carta de amor e que você existe em um ponto cardinal que levo dentro da minha mente.
Observo escritos passados, na gaveta fechada a chave e vergonhas.
Desinvestidos dos sentimentos que lhes deram forma, parecem-me a soma de todos os olhares estrangeiros onde reconheci os teus olhos de passagem.
Penso em tudo o que eu pensava quando não estava pensando em você e me surpreendo a te ver delineado em todos aqueles pensamentos.
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quarta-feira, 1 de março de 2023
Ouroboros - Ou da Dinâmica Entres os Que Sonham
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Poema que Correu Fora da Realidade
O que há de real e verdadeiro,
há, de real e de verdadeiro,
Ainda que fora da minha percepção.
Filosofando versos para a escuridão sem rima,
Me esquivo dos cumprimentos polidos de toda a gente de alma pálida, que me quer banal e citadino.
(Se ao menos um visse que na escuridão dos meus olhos ardem estrelas…)
Naquelas horas de êxtase místico, contando as batidas do meu coração em descompasso ou
desenhando a rota dos pássaros em voo, eu resisto.
Existindo no esforço de existir.
Relativizando o nada.
O mesmo nada, tão vasto e tão amplo quanto o tudo.
O tudo que há, de real e de verdadeiro.
É a musa intangível, que meus devaneios querem humana, para calar as necessidades de literatura.
É Deus inexistindo ou existindo como coisa que não compreendo,
(como não o compreendem os que o pregam em latim ou o apregoam como coisa que se venda)
Pairando como mistério inescrutável acima das minhas orações sem fé,
Mas reais e verdadeiras.
Os meus medos, esses são imaginados e por isso mesmo, ainda mais terríveis.
E eles doem, como a culpa daquele que quis pecar e não pecou e sofre com a certeza
de que lhe bastou esse querer para o condenar,
mas sofre ainda mais pela delícia não vivida do pecado desejado mas não cometido.
E, talvez um pecado cometido,
Seja mais real e verdadeiro do que uma virtude que não nasceu e ficou só na intenção de ser nobre.
Arte: Alexander Ant, via Pexels
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023
O Problema do Copo 2- (ou de como uso utensílios domésticos para forjar delírios)
O copo é outro, claro, eu porém, penso ser o mesmo ou, no mínimo, reconheço-me nesses fragmentos que ficaram daquilo que eu fui.
Renovo o meu Eu antigo dando-lhe polimento e reestreio velharias psicológicas no afã de forjar do mofo algo que seja novo e reluzente.
Mas a questão que me paralisou, foi que eu bebi do copo muito menos agua do que usei momentos depois, para lavar o copo no qual bebi.
Absurdo e absorto, fiquei feliz e triste pelo dilema que iria me consumir nas próximas horas e pela água que desceu pelo ralo em maior abundância que pela minha garganta.
Os paradoxos, são o meu brinquedo favorito para passar as horas de ócio meditativo.
Uma criança a brincar com cacos de vidro e lâminas de barbear.
"Para inicio de conversa - pensei enquanto lambia o sangue dos dedos e recolhia os cacos do chão - , eu nem mesmo estava com sede de água, mas de metafísica e de poesia."
E mais ainda - será que o que ainda em mim há,
Há de querer o que não há mais em mim? -
Não tenho o bastante que me inspire a ser generoso,
Mas bem posso compartilhar ausências e dividir meus hiatos.
"Mas como me falta o que quero e o que tenho não me preenche,
estou cheio de insuficiências,
repleto de vazio e transbordante do desejo de estar cheio."
A terra girou tantas vezes em torno do sol e eu, sem eixo, em torno de mim mesmo,
E nem entrou na minha contabilidade líquida,
As lagrimas que verti, (tolo e comovido com a própria tolice),
Quando pensei no oceano que lancei pelo ralo,
Nos meus atos de higiene equivocada.
domingo, 12 de fevereiro de 2023
Aqueles Dezessete Segundos...
Ficou surpreso quando percebeu-se ainda irresponsavelmente sonhador…
Pensava já ter perdido em algum canto da memória ambas as capacidades; a de sonhar e a de se surpreender.
Talvez lhe devessem jubilar na vida, pois há lições que ele obstinava-se a não aprender e apreender, ainda que lhe fossem dura e constantemente ministradas, vez após vez.
Vai saber o que move a fé de um homem sem fé em si mesmo…
Os dias escorrem monótonos por semanas que se arrastam lentas, dentro de meses congelados nos anos inertes…
Dezessete segundos…
Um estremecimento dos sentidos, uma fragilidade diante da própria fome de tudo, e lá está ele a espera de um momento de êxtase, um orgasmo físico ou moral qualquer que lhe fulminasse e deste modo pudesse descer o pano da sua vida em um instante de arrebatamento sensorial.
Entre os nacos do quinhão do amargo tédio nosso de cada dia, ele conta momentos, passando o tempo no esforço de passar o tempo, a espera do intervalo da vida, naqueles segundos.
...
A dança caleidoscópica dos corpos havia terminado e cada qual, lado a lado, experimentava absorto a sensação de paz perfeita decorrente do cessar dos gritos famintos dos hormônios.
Um silêncio dos sentidos que durava sempre, exatos dezessete segundos.
Dezessete segundos de paz inebriada.
Ele deixa a mão escorregar para o chão, os dedos a tocarem de leve no piso frio, e a mente vagar, na batida do coração na ponta dos dedos, uma fantasia delicada de que não é seu corpo, mas o planeta que pulsa e vibra suave, enquanto ele luta para não escorregar para um sono gentil.
Um sono do qual ansiava intimamente, não precisasse mais despertar.
“Se eu dormir agora, corro o sério risco de acordar e ver nos olhos dela a decepção e a certeza de que me tornei um clichê.”
Ele não queria parecer insensível e pensava sim que era coisa absolutamente linda e desejável ficarem abraçados no escuro. Que modo há de encarar o escuro, senão o de estar entrelaçado no amor do outro?
Ainda assim, esperava que ela lhe desse aquele momento.
Aquela pausa de si mesmo e de seus medos futuros de solidão pretérita.
Se ele pudesse, escorregaria para dentro daquele instante que havia entre o tic e o tac do relógio, o momento do tempo real, pois cada parada do ponteiro, era um momento que já se foi.
Cada momento lembrado é um momento morto para além do tempo.
Menos ali, naquelas batidas cada vez mais lentas do coração na ponta dos dedos, não mais o seu coração, mas o coração do mundo.
Se ao menos pudesse...Ele se perderia voluntariamente ali.
Existiria dentro um instante que fosse eterno, não como coisa que passou.
Pois todo o tempo que se tem é sempre o tempo que já passou.
Menos aqueles dezessete segundos.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
O Elixir e a Pedra
Até que aconteceu.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Poema sem Título e Sem Data
Não há de me atormentar para sempre
O desejo de ser atormentado.
Pelo desejo que me atormenta.
.
Beijo lábios frios, desejando que sejam frios.
Mas escrevi teu nome em letras de fogo, como num sortilégio,
Distraindo-me em adivinhar no céu da sua angustia
Mil motivos para que não me veja olhando-te de volta
Quando te miras num espelho.
Oh, éramos a erva e o sol, o canto rouco do vento
E o silêncio da tarde.
Ela se arrasta preguiçosa e eu conto nuvens no azul.
Eu recordo dos dias felizes em que eu era como esse sol
E te banhavas em minha luz.
E todas as tardes eram preguiçosas como essa.
Todos os dias minha loucura grita.
Que eu tenho o direito de esquecer o ângulo perfeito de teu rosto
E o circulo maravilhoso desse olhar febril que me despe sem me ver.
Mas que homem em sua sanidade
Escuta o que berra a sua loucura?
Imaginei o mundo como um louco carrossel multicolor
E eu a girar com ele,
Vejo o mundo em cores indistintas.
Um bêbado num carrossel.
Imaginei tuas formas sensuais sendo esculpidas em marfim,
Conseguido ao custo do sangue de muitos homens.
Sangue parece ser sempre o preço a se pagar pelo maravilhar dos olhos.
Seja por vicio poético, seja por escassa imaginação
Comparo-te aos materiais deleites que meus dedos podem tocar.
Que alegria!
Alegria?
– Poesia!
Então, não te tenho e nem te toco,
Senão com um ou outro delírio fugaz que me permito.
Então se és toda poesia, se és feita de amor,
De que me serve todo o ouro e o delicado marfim do mundo?





