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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Epílogo



Desde que comecei a "escrevinhar" aqui, em idos 2011, forjei no meu entusiasmo 356 postagens(boa parte deletada em meio a ondas tolas de constrangimento), a maioria coisa minha, digitada no afã de ser relevante.
Pra não falar de outras coisas postadas em blogues deletados e em outros lugares por onde “pisei”

Mas por quanto tempo pode uma pessoa iludir-se a respeito da própria grandeza ou mesquinhez?

Olhando em retrospecto, meus motivos para escrever nunca foram puros..

Ora queria impressionar certa garota (que em minha imaturidade trintenária pré-"quarentária" eu imaginava que sorvia em secreto todas as minhas letras e, diabos me levem, talvez nem fosse uma garota de verdade! Mundo liquido da net e seus descaminhos...), ora queria  escrever e me colocar em condições de me comparar a meus escritores favoritos ou então tentava convencer a mim mesmo de algo.
Algumas vezes estava só com raiva ou melancólico...

De toda forma, quem é que pode afirmar para si mesmo que escreve com honestidade pura?

Toda essa minha glossolalia era um fútil exercício de afirmação de uma existência, e isso me parece agora tão desimportante que sinto uma pontada de desdém por mim mesmo, pois ao digitar isso agora, muito provavelmente estou me justificando e ainda no esforço inútil de existir para além da minha realidade individual.

Tem umas coisas que me deixam curioso... Quando checo as estatísticas, a a maior parte do trafego para meu blog vem de sites pornográficos. Não sei o motivo, mas se ao menos eu pudesse imaginar que meus devaneios deixam alguém com tesão, já teria valido cada teclada!
Ahahahahahah!


Eu não sei se alguém ainda lê alguma coisa.
E mesmo que haja, nada tenho de relevante a acrescentar a essa superprodução de verdades fugazes.

Já estou com 45 anos e, Deus, daqui a pouco eu morro e não curei o câncer salvando milhares e tampouco joguei lixo nuclear na  Praça 7 tornando BH inabitável por 1000000000000 anos e ainda penso que é terrível ser só mais um a pegar uma senha e aguardar na fila a minha vez de ser coisa alguma.

Ter todos os sonhos do mundo dentro de si não nos faz necessariamente deixar de ser o nada querendo ser alguma coisa.

Muito menos ser melodramático..


Devaneios...

É um ato de gentileza de minha parte não acrescentar mais nenhuma irrelevância ao muito que já existe por ai.

São poucos os que leem agora.
Com raras exceções (Gaiman é uma dessas), tampouco ando lendo o que se produz por ai (ainda aguardo a conclusão de Guerra dos Tronos que o filho da puta do Martin teima em deixar na gaveta!). Ja estou cansado de reler os livros que já li sei lá quantas vezes e quando leio algo na net, me apaixono mais pela pessoa que escreveu do que pelo que foi escrito (por que o que foi escrito já o foi antes, por muitos outros e me encanta ainda haver Quixotes a bater moinhos).

Não sei para que tipo de mundo caminhamos sem letras...Sem leituras...Sem livros...
Mas quer saber?
Que diferença faz?
O mundo acaba quando a gente morre, não é?
Ok, não jogo lixo no chão e evito como posso sacanear o planeta, mas no fim, mesmo que eu jogasse lixo na rua todos os dias, o planeta vai se recuperar de qualquer estrago que eu, individualmente, fizer assim como vai ser irrelevante qualquer coisa positiva que eu também faça.

Dentro do pouco que eu entendi ser a minha habilidade, tentei fazer algo (por motivos egoístas, já deixei claro, mas comparações inadequadas a parte, vai checar porque é que o Carrol escreveu Alice no País das Maravilhas...), tentei registrar nem que fosse o meu espanto por estar espantado...

Mas agora...

Pensei em sair de fininho.
Mas gente vaidosa nunca consegue o fazer, pois teme intimamente que se o fizer, ninguém notará.

Passei os últimos minutos rascunhando estes versos abaixo:

"A estrada é longa e devo toma la sozinho
A senda das sombras, A Jornada solitária...
A porta abre e a noite sopra promessas
De caminhos desimpedidos de chuva,
De estradas não lameadas
De dunas infinitas sob o açoite do vento e de praias vazias...

A estrada é longa e devo tomá-la sozinho
Atrás de mim o canto e os risos sobem com a fumaça das chaminés,
E eu não ouso me virar
Os corpos junto ao fogo e o aconchego camarada.
Os convivas da festa se alegram e ignoram a noite por detrás da segurança das paredes frágeis.

O estrada é longa e devo tomá la sozinho..."


"Caminhos desimpedidos de chuva..."
Ta bom...
 Coisa piegas e melodramática!
Bem o que eu imaginava que ia me tornar, perto do inicio da minha decrepitude.

Em 2008, quando comecei a me enredar pelos bits e bytes da net, travei conhecimento com uma amiga com quem não falo ha muitos anos...(Nossa, me deu um aperto de saudade e uma onda de autoraiva por minha estupidez covarde..)
Espero que o Rio Grande esteja tão grande quanto está ao Sul, Fada da Montanha Enluarada...
Ela me presenteou, logo que começamos a conversar com estes versos abaixo, os quais, segundo ela, faziam-na pensar em mim:

"vou pegar um vôo

antes que seja tarde demais
eu vou, não volto
nem por céu, nem no cais

vou até os astros
antes que entardeça horizonte
eu vou, sem rastro
bem de fronte, bem na fonte

vou sem hora, sem demora
aventurar em outros ares 
que aqui não mais posso ficar
no ansiar por novos mares 

vou sem rota, sem derrota
procurar outra parte de mim
que não sei onde perdi
no começo ou perto do fim"

(Cris de Souza & Cáh Morandi)



Agora, ainda que não possa mais ter ilusões a meu respeito, me digam se não tive bons motivos como meios de justificar minha vaidade?
De todo modo, isso foi em 2008 e embora a proximidade de meu horizonte de eventos particular tenha me dado mais serenidade/senilidade. a ânsia por novos ares permanece uma constante e eu acho uma pena deixar esse espaço depois de todos esses anos, mas...
Bem, digamos que não se deve colocar um ponto final onde bem cabem reticencias...
Mas por enquanto, “vou até os astros”

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Sobre Mentiras..



Liste todos os defeitos possíveis no impossível repertório de vícios de um ser humano e eu colocarei na primeira escala de seres abomináveis os Mentirosos.

Superam até os nazifascistas.

Anos atrás, quando me falaram de uma coisa chamada "Deep Web" (acho que por razões óbvias ela é chamada hoje muito apropriadamente de "Dark Web") e eu movido por uma curiosidade pueril, fui lá fuçar no lodo moral da humanidade o tipo de atrocidade de que os filhos de Adão são capazes.

Não precisei de mais do que alguns minutos para sair horrorizado, com vontade de vomitar, com nojo de mim mesmo por ter me aviltado daquela forma e sentindo uma necessidade absurda de tomar banho repetidamente e assistir filmes da disney ou qualquer coisa felizinha.

E mesmo assim, ainda considero o Mentiroso mais abjeto do que aquelas pessoas que são capazes de perversões inomináveis (até porque, é sabido que esse tipo de pessoa que passeia pelo lado underground da vida, mantém uma vida social irreprovável, como bom cidadão, como pessoa moral e "do bem", logo, na raiz, um Mentiroso.)

Odeio mentiras com um ódio que me faz gelar o sangue.
Não que eu não minta. Eu não teria sobrevivido até os 45 anos sem ter me valido da mentira para sobreviver em um mundo tão duro quanto o que vivemos.

Mas usei esse recurso odioso tão pouco, que o apego a verdade me custou amizades, convívio familiar e relacionamentos.
A bem da verdade, me fez chegar a vida adulta com pouquíssima experiência amorosa, coisa que até certa época me deixava aturdido. Mas não deveria.

Fale a verdade e condene-se a solidão.
Mas há escolha?

Quem pode conscientemente adotar um estilo de vida diverso ao que considera o correto apenas para obter vantagens que de outra forma não obteria é canalha, gente de espírito fraco, covarde no âmago e vou me deter aqui na lista de adjetivos que iria longe.

Custou um preço alto e eu o paguei. E seria um mentiroso se eu falasse que me sinto recompensado ou se valeu a pena, porque não é como se eu tivesse escolha.

Mentir nunca foi uma escolha. Foi apenas violência cometida contra mim mesmo na medida em que me igualei a tudo e todos que desprezo.

A questão é que quando alguém mente, priva o outro da liberdade de escolher que caminho tomar.
Mentir é roubar a liberdade.
Mentir é aprisionar na ignorância.
É um ato de covardia
Um ato de falta de amor, pelo outro e por si mesmo.

Quem mente não quer pagar o preço de sua liberdade de escolher e por isso rouba a liberdade do outro mentindo para ele, mantendo-o cego e incapaz de decidir seu destino baseado em fatos.

Se por um lado a mentira é a coisa que mais desprezo em um ser humano, por outro o que mais admiro é a coragem.

Só seres extraordinários tem coragem de ser e de pagar  o preço por ser quem é e manifestar isso diante do mundo.

Viver é mais que se esconder atrás de cenários pintados nas línguas falsas do teatro social.

Mas eu não sei ao certo o que é viver e não quero sentir novamente aquela sensação de estupidez que sinto quando me ponho a falar de assuntos que não compreendo.

Mas sei que viver mentindo é um simulacro de vida que não vale a respiração.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Cartas de Lugar Nenhum 3

Hoje eu senti saudades.
Seja lá o que isso signifique.
Não é de nada nem ninguém em especial, mas um sentimento de falta que doí, em um lugar em que nada doí e nada flui.
Não tenho efetivamente com o que ocupar o meu tempo, senão o exercício diário de me surpreender com o singular da minha situação. 
E dar voltas na órbita dos meus devaneios e me fazer perguntas retóricas.

De que é que sinto falta afinal?
Noite passada eu comi todo aquele pão da mesa e me decidi a ficar desperto, vendo se algo ou alguém o vinha substituir enquanto eu fingia dormir. Fiquei ali deitado, com olhos fixos na mesa, atento ao menor sinal de qualquer coisa inusitada.

Mas o inusitado tem sido o meu quotidiano nesse lugar e o bruxuleio da vela me hipnotizou tempo o bastante para que eu piscasse e lá estava aquele pão, no mesmo lugar onde um segundo antes meu olhar deu com um prato vazio e tal foi a naturalidade com que dei com ele ali que fiquei e ainda estou em duvidas se realmente o comi inteiro.

Não ouso confiar nos meus sentidos e tampouco nas minhas memórias fragmentadas do nada que sei sobre mim mesmo.

Haverá em algum lugar alguém que chora a minha ausência como nesses dias choro a ausência de mim mesmo?
Se ha, invejo-o até a raiz da alma, pois este chora por alguém cujo rosto e nome reconheceria talvez em uma multidão de rostos e eu não o reconheço mesmo ao espelho.

O que inquieta é a sensação de iminência de qualquer coisa, como se algo se avizinhasse e retrocedesse deixando no ar parado dessa montanha quieta e quente aquela eletricidade que antecede um temporal.

Uma hora se passou desde que escrevi a ultima linha. Falei em temporal e me lembrei de que nunca choveu neste lugar e imediatamente desabou uma chuva torrencial.

Fiquei nostálgico a olhar para as nuvens densar e ouvindo o gotejar rítmico da água em algum lugar atrás da casa. 
Fiz isso o suficiente para saber que eu sempre gostei de chuva. Não foi uma lembrança, mas um sentimento de certeza que me acometeu, junto à ciência de eu também sinto falta de sentir falta.  


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Cartas de Lugar Nenhum 2

Tenho quase certeza de que morri.
Incomoda não lembrar e não saber se ao menos vivi antes de ter morrido. Ainda que não lembre o tipo de pessoa que eu fui, supondo-se que fui pessoa que supusesse o que quer que fosse, penso que sempre me ha de ter me incomodado a ignorância sobre o que quer que seja.

Aqui estou em topo de montanha muito alta, sem possibilidade alguma de descer, em cabana que nem posso imaginar como foi feita, por quem e como diabos trouxeram para esse cume isolado, primeiro a cabana na qual estou a escrever isso, depois a pessoa que nela habita a indagar como tudo isso se deu.

Em torno dessa cabana ha uma área pequena, um cimo de pedra cinza e quente, onde em pequenos trechos teima em crescer Urzes e outra vegetação rala e pobre.

Não posso dar mais de trinta passos em qualquer direção sem dar com um abismo se estendendo por muitas centenas de metros abaixo à terra e bilhões de quilômetros acima, às estrelas.

Não ha sinal de trilha ou outro meio de acesso pelo qual teria sido possível trazer para este sítio nas alturas todo o aparato que compõe o meu cárcere ou eu próprio. E o pouco terreno é de tal forma acidentado que nem mesmo por meios aéreos se poderia trazer qualquer coisa.

Não por meios que eu possa imaginar.

Há ainda outras coisas surpreendentes; como o fato de aqui ser absolutamente alto, porém a temperatura é agradável, a cama estar sempre limpa, sempre haver pão e queijo a mesa vindos não sei de onde e por mais que eu beba daquela bilha, a água nunca acaba e esta sempre fresca.

Os dias por aqui são extraordinariamente longos e estou quase certo que a primeira noite que surgiu foi em consequência de eu ter notado que o dia estava anormalmente longo.
Conjecturei muita coisa nesse tempo entre a primeira vez que escrevi neste livro em branco e o hiato que surgiu até que peguei este lápis novamente.

Talvez tudo isso seja irreal e seja eu um louco a babar incoerências por detrás das paredes acolchoadas de um asilo qualquer.
Mas como sei o que é loucura e como é que conheço a palavra "asilo"?

E que língua é essa na qual estou escrevendo minhas dúvidas, inclusive sobre a própria e quem ma ensinou?
Se morri de fato, isso tampouco explica esse não-lugar onde estou. A distância vejo cimos de outras montanhas onde é possível haver neste momento outros como eu, atordoados pelo seu não saber.

Ignoro que tipo de pessoa eu fui, mas se estou morto como interpretar este lugar onde estou preso e bem cuidado?
O diabo não seria tão gentil e os anjos não seriam tão cruéis...

Ando a volta dessa cabana como se andasse a volta de mim mesmo e esse limite do abismo cada dia mais me parece convidativo, como se eu devesse dar por ali um salto de fé para transcender minhas dúvidas e a mim mesmo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Cartas de Lugar Nenhum




Eu...
Não sei quanto tempo se passou ou quanto tempo estive a olhar por aquela porta as distâncias infinitas desses horizontes atras de horizontes até que por fim tive consciência de estar consciente e de estar olhando por ela.
Creio que eu pensei ser eu próprio a abertura e o horizonte lilás emoldurado por ela. Se é que eu estava pensando qualquer coisa. 

Quando se está por tempo demais a fazer uma coisa, torna-se a coisa por excelência e eu fui uma porta aberta para as grandes distâncias até que comecei a perceber que percebia.

Mas o fato é que estive a olhar por uma porta, porta esta que está na parede dessa cabana na qual está a mesa, na qual está o livro no qual nesse momento escrevo.

Escrevo a você, embora eu saiba que provavelmente nunca vá ler isso.
Tampouco é carta que eu possa assinar, pois o inusitado dessa situação é que eu não sei quem é você a quem escrevo e tampouco sei quem sou eu, este que te escreve.

Todas as histórias talvez comecem com uma frase redundante, então há de me perdoar se começo do começo, relatando o momento em que deixei de olhar a porta aberta e as montanhas depois dela e me pus a examinar o ambiente a minha volta, surpreso em que houvesse eu a volta do qual havia ambiente a observar.

Como eu disse, estou em uma cabana simples, um cômodo grande com pouca mobília:
Uma cama sobre a qual há colcha e travesseiro, uma mesa tendo por cima uma moringa de barro com água, um tipo de pão de frutas e um queijo qualquer gorduroso e odorífero.

Ha também uma cadeira dura de encosto baixo e janelas de ambos os lados da cabana.
Ela própria é feita de madeira e adobes e embora seja limpa e confortável, tem ar bolorento, como se fosse casa antiga e por muito tempo inabitada.

Não faço ideia de como cheguei aqui e de quem eu sou ou fui.
Mas certamente sou ou fui alguém e certamente cheguei aqui de algum modo e ao pegar esse livro para escrever a carta que nunca enviarei, comecei a me sentir um pouco mais seguro, pois é certo que a medida que o lápis corre por esse papel branco vou desenhando a mim mesmo junto com essa história...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Poema sem data ou Dente de Leão 2



Ficou no ar feito perfume ou a tensão que precede o atroz...
Após a sua passagem ficou essa certeza
De que ha beleza no mundo,
E sol por sobre aquelas nuvens escuras..

E o desejo pelo fogo e calor que exala desse desejo,
E que ficou no ar e na paisagem depois de sua passagem,
É dessas coisas que não cabem em dicionário..
É dessas respostas para perguntas que nunca foram feitas...

E enquanto isso me percorre as veias em febre e a cabeça em êxtase,
Eu acelero o carro dos meus pensamentos e devaneio estradas infinitas,
Enquanto atravesso ruas de trânsito lento, sentindo felicidade em todos os meus sentidos.

Sussurre enquanto seu corpo treme no meu...
Suspire no ar enquanto minha alma devora cada instante...
Desses, quando desejo que o tempo pare ou exista todo de uma só vez.
Você deixou um pouco de sol, lá nesse paraíso qualquer de onde fugiu?

Eu caio,
Enquanto o ritmo da música diminui e seus cabelos varrem o ar.
Minha pulsação acelera com o mundo e eu sou feliz em câmara lenta..

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Geladas são as noites no País da Morte


 

Ando ha semanas encorujado (como se diz aqui em Minas), por causa do frio.  Mesmo sendo Ateu e descendente na maior parte de africanos e ameríndios, acho que Deus provavelmente vai me reservar uma vaga no inferno nórdico e eu sofrerei entre escandinavos as agruras de um tormento gelado...

Terei, pois, de subornar o Diabo e passar férias nas "quebradas" dele para conseguir relaxar em um confortável ofurô de óleo fervente!

Ahahahahaha!
....

.... 
Inverno é uma época odiosa para mim. Sinto vontade unicamente de dormir, dormir e dormir até que o sol e a chuva voltem para o mundo.

Ontem eu vi pela TV, umas pessoas que saíram de Minas para ir ver um simulacro de neve em uma serra da região Sul.
Cada qual com seu prazer, é claro, mas tem gente que é absurdamente louca!

... 

Gostaria de me mudar para um país (talvez da Ásia) onde fosse quente e chovesse a maior parte do ano e onde inverno fosse coisa que só se vê pela televisão em Especiais de Natal estrangeiro.

 Mas não existe país assim e mesmo se existisse, sei que provavelmente nunca colocaria os pés nele, quanto mais ir morar em uma terra estranha. 

Já me basta ser estrangeiro na minha própria terra e aqui ao menos a língua eu entendo fácil e a comida é suportável. 

Mas estou encolhido, quase desaparecido por entre edredons a noite e  dentro de mim mesmo de dia.
Gostaria de poder tirar férias sazonais e hibernar decentemente. 

Como não posso, emerjo por umas horas para trabalhar e cumprir compromissos.

Deus, como eu odeio o frio! 

Já era um estado e não uma condição da minha natureza, mas no inverno, cada vez mais me sinto e me porto diferentemente de Albert Camus: tão profundo, tão presente em mim e tão alheio do mundo.
  
Coroada de névoas, surge a aurora 

Por detrás das montanhas do oriente; 

Vê-se um resto de sono e de preguiça, 

Nos olhos da fantástica indolente. 



Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 

A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 

Machado de Assis




sexta-feira, 20 de abril de 2018

Outra nota sobre a coragem...


Em uma postagem anterior,  falei sobre coragem, como um dom a ser perseguido.

E em outra, não sei se nesse blog ou em espaço perdido nas minhas antigas e perdidas veredas da net eu raciologiquei que coragem não é a ausência de medo. Ausência de medo é burrice, se não for patologia.
Coragem, é ter medo e, não obstante, enfrentá-lo.
É o kamikazi caindo voluntariamente do céu, é o guerreiro sozinho com uma espada se lançando contra um mar de escudos e lanças, é a mãe se jogando sobre o filho para protegê-lo das balas, é o rato acuado brigando como um leão.

É arriscar e talvez morrer por algo maior do que a si próprio.

Talvez seja uma coisa difícil de se fazer, porém, asseguro que é bem mais difícil viver com medo.

Anos atrás, após uma discussão breve, alguém gritou por socorro de madrugada, na rua em frente a minha casa. Me levantei imediatamente e ia sair mas minha ex-esposa me convenceu a não o fazer. Ela argumentou algumas coisas; que era briga de gente ruim, que era obrigação da polícia prestar socorro e que eu tinha esposa e filha e que devia pensar nelas ao invés de me colocar em risco por "gente que não presta".
A briga silenciou na rua e eu me deixei convencer pela minha ex-esposa.
A verdade, bem o sei, é que se eu estivesse resolvido, ela não teria conseguido me deter. Deixei o medo me segurar e me impedir de socorrer alguém. A verdade é que prezei mais a minha segurança do que o fazer o que é correto.
Passados tantos anos, não consigo me recordar deste episódio sem sentir náuseas de desprezo por mim mesmo. E faço questão de contar isso pra que eu nunca me esqueça.

Viver com medo é uma morte lenta, uma tortura silenciosa e uma escolha de covardes que preferem se acomodar quentinhos junto á lareira do que olhar o sol de frente. É coisa de quem quer um universo seguro e ordenado, de quem prefere as sombras projetadas na caverna do que sentir e viver a marcha selvagem da vida.

Viver a verdade das coisas é algo que tenho procurado ha muito tempo.
Penso que já nasci com essa veia moral, de encontrar significado, de olhar atrás do cenário, de tentar saber o que faz a marionete se mexer.
A mentira, a ilusão e a desonestidade são coisas pavorosas, que me reviram o estômago e me gelam o sangue de ódio. E é pior quando tento fazer isso comigo próprio.

Nunca soube de nada mais odioso do que a mentira.
Exceto, talvez, o medo.
Viver com medo ou viver uma vida de mentira é mil vezes pior  do que morrer.

Melhor está o leão morto do que o cão vivo.

O meu maior gesto de coragem foi olhar nos olhos de uma pessoa e lhe falar a verdade, sabendo que isso ia libertá-la e a mim, mas também lhe ia partir o coração e destruir sua zona de conforto.
Colhi as consequências.
Não poderia ser de outra forma.
Mas o alívio que eu senti por não mentir compensou em muito a dor que causei e senti.
Foi a coisa certa a fazer e não posso sequer me orgulhar de o ter feito, porque não é como se eu tivesse escolha.
Mas as pessoas em geral, pensam que têm.
A escolha de mentir.
A escolha de viver o conforto e a segurança.
A escolha do medo.

Mentir é roubar ao outro a liberdade de escolher um caminho a tomar.
Não é uma opção.

Ainda assim, este e outros atos de coragem, paradoxalmente me levam a seguir minha outra veia moral, uma que me move desde criança: O desejo por redenção.

Que pecados tem a purgar um criança?
Talvez o de ter nascido?
Quando aqueles que te trazem ao mundo manifestam, mesmo inconscientemente, o arrependimento por o ter feito, você é um desgraçado se por acaso tem sensibilidade o suficiente para perceber isso.


Deixando de lado minhas fantasias pueris de culpa filial, eu penso muito em redenção.

Não quero ir pra cova carregando essas dores que causei. É um fardo pesado demais.

Viver corajosamente tem um preço, é claro, e eu ainda prefiro ter a consciência atormentada pelos efeitos de uma atitude correta a ter de passar a vida tendo de contar a terceira para justificar a segunda mentira que justificou a primeira que serviu para esconder o fato de que sou um merda!

Ainda não vi um abismo que eu não tenha sentido vontade de me atirar ao fundo.
É a esperança que quando der por fim com o corpo nas pedras, silencie junto com minha respiração, o peso de tantas culpas.

São 16:22 agora...

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Como Nossos Pais


Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi, e tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina na rua
É que se fez o meu braço
O meu lábio e a minha voz

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos  ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem me deu a idéia
De uma nova consciência e juventude
Está em casa
Guardado por Deus, contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos

Como os nossos pais

(Belchior 1976)

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Graal

(...)Você precisa entender um fato (contra o qual, de todo o coração espero que se rebele);

Que há basicamente dois tipos de ser humano sobre a terra: os que nascem para pensar e os que nascem para serem felizes.

Os primeiros, uma diminuta, sublime e desgraçada raça a olhar sonhadora para as estrelas, espécie triste, sem a qual  sequer teríamos descido das árvores.

Os segundos, uma animália que nem chega a ter consciência  de que não tem senão impulsos de  ter impulsos e de manter a cabeça rente ao chão,  a cata de forragem (...)

terça-feira, 20 de março de 2018

O Sagitariano Decrépito





"Que mais há que ocupemos nossas horas, que cair em contradições enquanto esperamos o tecido  fino da vida desfiar?" 
Eu sou um rato. Já percorri essa merda de labirinto trinta vezes e, diabos, eu sei que não há saída, mas vou continuar procurando mesmo assim! E quando por fim me cansar de correr atrás de portas que não existem, vou esburacar essas paredes com os dentes, até que não me restem dentes ou que do limiar do meu desespero surja uma porta qualquer. 

Você desperta com essas palavras reverberando de algum sonho ou lembrança. Como um soldado cujo sono foi mais profundo do que o adequado, salta da cama ouvindo essas palavras, um clarim anunciando mais um dia de guerra.

Anda pala casa como um espectro de madrugada...
De madrugada...Todas as falsas madrugadas em que uma luz difusa e cinza cobre o mundo, você acorda ouvindo palavras, ecos de discursos oníricos ou lembranças, não sabe dizer, e o som de ondas baixas lambendo a areia da praia.

Isso seria confortador, caso o mar não estivesse a várias centenas de quilômetros da sua janela e da sua sanidade (tão cinzenta e incerta como a luz da falsa madrugada e o falso som das ondas que escuta mesmo depois de já estar de pé, na cozinha, se empanturrando de café e solidão).
E você não quer pensar que chegou ao ponto de procurar consolo em devaneios alucinatórios.

Pela janela da cozinha observa sua nova e silenciosa vizinhança.
Talvez a ausência de barulho aqui tenha despertado em sua mente, acostumada a algazarra de sua antiga morada, esse som fantasma de uma praia alhures...

Cioso e agradecido da consideração de seus vizinhos, evita acender as luzes enquanto olha pela janela enorme em meio ao escuro da cozinha. Vê  lá fora, o mar de luzes acesas em uma BH que não dorme. 
Não de todo.

Se recua o olhar por um instante, para a intimidade da sua casa, um fantasma te olha de volta refletido no filme do vidro escuro da janela. Tenta ouvir qualquer som que denuncie vida; criança chorando, buzina de carro, seu coração batendo, um cão latindo, mas tudo que ouve é o zumbido da geladeira e esse som de ondas tão fantasma quanto o homem refletido no vidro segurando a caneca.

Tanta vida lá fora e você aqui, se sentindo esvair como um balão furado.
Agarra-se à caneca com uma força fanática, quase como se o amargo e o calor do café fossem lastro no ar, uma ancora ao inverso, para impedir o inevitável da sua queda.

Sente-se hoje mais perto da morte do que do dia do seu nascimento e é em choque que constata que este é um pensamento que já lhe ocorria aos oito ou nove anos de idade.
Um sentimento de iminência, de ir embora, uma ansiedade que não se configura nem em medo e nem em esperança, semelhante a um ruído branco no fundo da consciência...

Tem poucas expectativas agora.
Você, que era feito essencialmente de fogo e de esperança.
Corre-lhe pelas veias o sentimento de estar inacreditavelmente velho e cansado, como se os fios fracos que te ligam as coisas do mundo estivessem se rompendo um a um

Um dia desses se levantou mesmo antes de saber que havia acordado e antes de ir à cozinha, viu seu corpo ainda deitado e desde então não olha mais para a cama antes de ir pra cozinha ou pra onde quer que seus devaneios o levem de madrugada.

Se seu corpo experimenta cansaço demais para lhe acompanhar, pois que fique. Nunca quis mesmo arrastar consigo presenças relutantes.

Pobre do seu corpo. Anda tão farto da sua companhia...

Fossilizado em cansaço, tão largado quanto o edredom caído ao chão.
Uma casca que você abandona para devanear na janela e no amargo do café que nem mesmo tem certeza estar bebendo ou sonhando que o faz, enquanto fica imaginando onde diabos iriam as pessoas que estavam naquele jato que de madrugada deixava uma trilha reta de nuvem no céu. 

Você sabe que o mundo não inicia e nem termina em si.
Mas você iniciou e terminará em si mesmo.

O que te atormenta é imaginar como subirão as letras finais da droga do filme da sua vida.
Há pensamentos que gostaria de evitar.
Por exemplo, não quer pensar que morrerá tal como nasceu e como viveu: Chorando, com raiva e com medo.

Não quer pensar que será um idoso tão decepcionante para si agora quanto certamente o é para o moleque que foi umas décadas para trás.
Se seu coração encarquilhar dentro desse peito magro, talvez a única paixão que lhe reste no futuro, que seja capaz de o mover, seja examinar o paradoxo de ter ficado velho sem nunca ter sido jovem.

Voce pensa se quer mesmo viver para colecionar tanto arrependimento quanto cabelo branco.
Se por um lado não curou o câncer, tampouco jogou lixo nuclear em um parque, não plantou uma floresta e nem poluiu um rio e é triste se imaginar uma irrelevância tanto para o bem quanto para o mal no ordenamento final das coisas.

Por mais intenso que tenha sido no sentir, pondera que amou em conta gotas e foi igualmente frugal em seu ódio...
Não abraçou nenhuma causa que não tenha abandonado depois, não defendeu nenhum ponto de vista que não tenha renegado.

Talvez apenas se torne mais um velhote com frio, lamuriento e nostálgico.
Ou pior! Talvez se torne desgraçadamente conformado e feliz!

Imagina-se andando por uma casa esmolando atenção e cuidados de netos que te ignoram solenemente e uma parentalha barulhenta, desconfiado intimamente de que eles, a despeito de todo o carinho, desejem inconscientemente que eu você resolva por fim a morrer e deixar o mundo aos que o herdaram.

Você se vê se recriminando pela falta de coragem, pelo apego à segurança na juventude... Imagina os longos diálogos íntimos entabulados nas suas horas vazias, com seus arrependimentos.
. 
Se um dia preferir a segurança de uma gaiola moral, conta ao menos perceber que morrerá de uma forma ou de outra exatamente no dia em que fizer essa escolha.

Você era o fogo, mas transformou-se em lenha.
Você era a seta, mas se converteu no arco.
Você desbravava caminhos, mas tornou-se gado...

Enquanto coloca a caneca na pia, você planeja e se revolta.

Tenciona encontrar a saída, pois esse labirinto não é maior do que seu desejo de fugir dele.

Mesmo tendo de o percorrer mais mil vezes, mesmo tendo de roer as paredes dessa paz pachorrenta da qual todo mundo finge se orgulhar.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Elixir e a Pedra



“Vais arder...
E eu serei a mirra.


Uma vez em um sonho alguém me havia dito que "a beleza real de uma consciência desperta, é que em pequeno espaço dela podem caber muitas estrelas."

Houve época em que eu podia facultar ter ilusões de que poderia atribuir significado a tudo e a nada. 
Era esse o meu modo de abrir uma consciência em universo sonâmbulo.


Até que aconteceu.

Senti isso aflorar como algo que buscou passagem por um longo tempo, passando por caminhos estreitos e labirintos, cavando, fluindo por brechas e fendas na pesada armadura da razão, até vir à luz da percepção.

É daquelas coisas, que despencam nos sentidos, preenchendo espaços até então dotados de um vazio ignorado, causando reações de violentos ciúmes em toda a sua lógica, porque a razão luta com unhas e dentes para se apropriar desse território estrangeiro. 
Esse, em que sentimos um estremecimento, um reconhecimento de algo que escapa à explicação racional.

Nada nesse universo é como você espera, a não ser, talvez, a decepção advinda da expectativa.
Preso a esse dogma, um dia parei de esperar e quando o fiz, aquilo que não mais esperava veio.

Eu olhava para aquilo a que não pude dar nome, com a certeza (eu que nunca tenho certeza de nada) de que era exatamente como deveria ser e isso por si só já deveria causar um estranhamento...

Mas aquela certeza pulsava na minha mão como um coração em chamas, e crepitava à minha volta como uma translúcida neblina flamejante.

Tal qual um primeiro homem reverente ante o primeiro fogo, observei, e, no entanto, esse era um fogo que não queimava ao toque, que não servia para servir, que não espantava o terror da noite.

Era uma chama que ardia sem consumir lenha, um sol que sempre iluminaria o vazio, uma estrela que nunca cairia do céu. Espantava o terror do terror.

Fiquei atado à sina fatal dessa ambiguidade, pois Sempre e Nunca jamais deram as mãos em qualquer definição que eu pudesse dar a um grande mistério ou a um devaneio. 

Mas lá estava ela, a Definição, algo que não necessitava de palavras, mas de sentidos e ainda assim, estou inerte, sem versos, tentando determinar o que não se pode trancafiar no arcabouço limitado da linguagem...


E ainda que certo receio antigo e enraizado (nas mesmas profundezas de onde me veio aquilo de que estou certo) insista para que eu deambule em incertezas, um vácuo de calma fatalista se apossa de mim e eu, que nunca consegui silenciar as vozes da mente, me encontro final e magicamente em transe...

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Deuses, Diabos e Sapatos de Camurça


Uma vez  após outra você me prometeu amor.
Adoração.
Agora que você finalmente encontrou, o que vem a seguir?
A seguir? A seguir vem a morte.
E depois?
Depois? Depois você queima!

Deus e o diabo bebiam tranquilamente naquele barzinho lá da rua Claudio Manoel.
Tenho certeza de que eram eles! Quero dizer, é esquisito falar em certeza quando se trata de Deus ou do Diabo. Ainda mais para um Ateu relutante até em desacreditar de tudo como eu.

Era de manhã bem cedo.
Sei lá como ninguém parecia perceber os dois ali.
Deve ser porque ninguém estava procurando por eles (daí talvez se permitirem uma folga na sua rivalidade e procurarem um boteco underground para relaxar e tomar uma bebida). Ou então e porque com frequência quem procura algo dificilmente encontra, mesmo aquilo estando perto (como o caso da caneta que você procura e acaba constatando constrangido que a porcaria estava atrás da sua orelha o tempo todo).

Bem, eu certamente não estava à procura deles. Gente inteligente evita a sombra de deuses e diabos e eu quero realmente crer que não sou um completo estúpido, apesar de rotineiramente fornecer a mim mesmo provas em contrário.

O que eu procurava era um lugar para me abrigar da chuva, porque o mundo inundava e eu na pressa de sair de casa, esqueci botas e bom senso e calhei de sair de sapatos de camurça. Coisa ridícula a se fazer em tempo de chuva (ou em qualquer tempo, pensei agora olhando com desgosto para meus sapatos).

A caminho do trabalho há esse bar decadente, mas que serve ótimo café.  Como já estava lá, resolvi pagar a minha estadia consumindo ao menos um copo de uma porcaria qualquer que fingi beber no espaço de tempo em que lá estive. Refrigerante, já que estava a caminho do trabalho, mas soubesse o que estava para se suceder, teria pedido vodca, rum ou whisky ou mesmo cachaça! Sob risco de perder o trabalho!

Quando aquelas pessoas passaram por mim, senti o mesmo que se sente ao ficar perto de um dínamo ou caixa de som. Arrepiei pelos do corpo que nem mesmo sabia que tinha. E olhando para eles não tive dúvidas sobre quem ou o que eram, o que me fez ficar um tanto surpreso com a aparente amistosidade entre ambos quanto a escolha do lugar onde foram ter seu happy hour.
E às sete da manhã!!

Pensando bem, acho que só gente mortal pensa haver algum mérito em tomar um drink caro em uma boate chique de algum lugar elegante, mas se você for um dos jogadores cósmicos da vida humana, acho que tanto faz champanhe em Milão ou cachaça em uma birosca em Itacaxeroca.

Passei ao exame de ambos...

Conversavam como bons camaradas, contavam alguma coisa que os divertia. Talvez alguma fofoca sobre deuses ou demônios.
Vai saber sobre o que conversam demiurgos...!

Notei que Deus tomava um líquido dourado e translúcido e que por mais que ele bebesse daquele copo, este nunca ficava vazio. Ninguém o servia e ainda assim seu copo estava sempre cheio.

Já o Diabo era servido por um pobre garçom que no tempo em que enchia o copo daquela coisa, envelhecia a olhos vistos e suava, transpirava, como se estivesse carregando pedras. E não importava o que derramasse naquele copo, o líquido se transmutava em cor carmesim, que o Diabo levava aos lábios igualmente rubros e perfeitamente delineados. E como bebia aquele demônio! O pai e mãe de todo o alcoolismo, sem dúvidas!

Deus era um velho barbudo que se você olhasse direito parecia tomar todo o ambiente e não apenas ocupar uma cadeira. Tinha aquele ar de magnata, de gente muito rica que está habituada a receber todo tipo de deferência. Acho que ele notou que eu o observava, mas aparentemente não se importou. Tinha olhos bondosos, tenho que reconhecer, mas era aquela bondade um tanto tola que você vê nos olhos de crianças cujos pais não ensinaram a não serem imediatamente simpáticos com estranhos.

A pele formigava ao olhar para ele e eu senti aquela sensação de queda iminente, um frio no estômago como quando se está diante de uma cachoeira imponente ou olhando a beira de um abismo.
A voz dele, como seria de se esperar, parecia-se a um trovão ribombando, e ele ria alto deixando a mostra perfeitos dentes madrepérola. Instintivamente passei a língua sobre a ruína que trago por detrás dos lábios um tanto invejoso. O plano odontológico dele era, aparentemente, melhor que o meu.  Juro que não sei dizer que roupa ele vestia, se é que vestia alguma, porque quando se olha na direção daquilo, a única coisa que se pode ver é o rosto que inspira bondade e pavor.

Receoso das implicações de ficar encarando Deus, passei a observar o Diabo.

Devia ter continuado a olhar pra Deus!
O Diabo era uma coisa andrógena e um tanto...Reptiliana. Parecia uma mulher bem bonita (acho que seria um homem bonito, caso eu fosse de outro gênero), mas uma beleza que assustava porque vinha carregada de ameaça.  Se movia de modo gracioso e mortal, parecendo uma cobra ou um chicote e tal como uma cobra, sua voz era um sussurro e sibilava alguma indiscrição divertida nos ouvidos de Deus, ao que este ria alto dando tapas no joelho.

E o cheiro que o Diabo exalava é algo difícil de descrever. Uma coisa doce e putrefata. Um odor animalesco...Cio e festim de alguma fera que acasalava ou matava e aquilo apavorava e atraia, como se eu me descobrisse repentinamente dentro da toca de uma ursa... Não era bem isso. Como eu disse, difícil de descrever...
Mas sei que aquele cheiro horroroso mas viciante me entrou violento pelas narinas e involuntariamente me fez ter uma dolorosa e constrangedora ereção e também uma vontade profunda de vomitar.

Irritado e nauseado, engoli mais um pouco do que quer que eu estivesse bebendo, lutando para não colocar pra fora o frugal café da manhã que havia tomado. Nunca pensei que o diabo pudesse ser tão odioso!

Achei revoltante o modo como conversavam como se fossem comadres velhas.
O mundo lá fora perdido, necessitando de salvação e de tentação e eles ali, indolentes em uma manhã de quinta-feira, em boteco decadente como se nada lhes dissesse respeito.
Isso e mais o incômodo físico provocado pela presença deles fez olhar com hostilidade para ambos quando saíram.
Deus me sorriu amistoso e complacente. O Diabo mandou um beijinho todo coquete, carregado de deboche e promessas. Sumiram na chuva...

Fiquei na dúvida, depois que saíram. Talvez fossem apenas um velho rico conversando amigavelmente com um rapazola (ou moça) em manhã de chuva.
Quero dizer, tinha mais gente lá no bar e ninguém parecia notar aquelas figuras extravagantes ou o impacto que causavam no ambiente.
Estava quase duvidando do meu juízo, afinal, eu sou um ateísta. Que sei de deuses e diabos para reconhecer quaisquer deles?
Mas olhando em derredor, encontrei cumplicidade e apoio nos olhos de uma garota de piercing que parecia tão atordoada quanto eu.
-Você reparou naqueles dois? – Perguntei como se fosse evidente de quem falava. A garota, no entanto, pareceu acompanhar meus pensamentos.

-Claro que vi! Inacreditável, né? Por essas e outras é que sou atéia!!
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