quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Esquina



Eu sou o que não sou. E frequentemente, consigo não ser o que sou com maior zelo do que o ser.
E sendo, não posso ser outra coisa que não esta dialética e esse cio entre o ser e o não ser.

Os meus sentidos um dia talvez – não sei por qual sortilégio – venham a calar
E eu, com outras percepções, de outros modos venha a saber
Que na vida não tenho amado senão a fantasmas vivos
Sendo eu próprio e este espelho,
E estas rugas e estes olhos no espelho que me fitam com rancor,
Um fantasma do amor que deixei de legar a mim mesmo
Enquanto amava fantasmas vivos...

Penso que eu realmente deveria fumar estes cigarros
Que deixo arderem como incenso no cinzeiro apenas por gostar do cheiro de decadência
Da fumaça que se desprende da seda e dança até o teto.

Penso que eu realmente deveria parar de emprestar livros e sonhos.
As pessoas nunca os devolvem e eu me encontro pelos corredores desprovido de tudo,
Com a estante e a cabeça repletas de fantasmas literários e oníricos.
Um vazio paradoxalmente repleto de ausências.

Se eu virasse agora aquela esquina onde há um minuto
Garotos barulhentos perseguiam um cão vadio,
E pegasse depois de umas curvas e algumas esquinas outras, um caminho para o deserto,
Talvez perdesse essa sensação de alheamento
Com essa casa e este espelho,
Com esse silêncio barulhento em meu sangue
E essas gargalhadas que vem não sei de onde, 
E essa gente lá fora e essa inquietação aqui dentro
E esse desespero branco e essa preguiça tardia e esse cansaço que me corrói as horas
E as entranhas...


Há grandes questões no mundo,
Guerras e estrelas a explodir e a nascer nos remotos do céu e da terra.
Ali é só uma esquina mal iluminada.
Deus e o Diabo devem estar neste momento ocupadíssimos;
Em batalha pala alma de algum santo, decidindo o destino de uma nação,  envolvidos demais nas importâncias do mundo,
Para olharem para uma simples esquina.
Se eu virar ali sem que vejam, escapo para sempre das grandes questões!
Da metafísica!
Pensando nisso, deitei escadas abaixo o meu corpo em fuga dos meus pensamentos, antes mesmo de pensar no absurdo de empreender tal fuga.


Mas antes de virar a esquina, eis que me antagoniza um vagabundo.

Era um vagabundo parado entre eu e a esquina, olhando-me em desafio.
Talvez me confundisse sabe-se lá com que objeto do seu mal querer, mas era um vadio.
Chamo-o assim, porque o odeio.
Insulto-o porque o invejo.
Está ali, sem camisas e sem pudores, exibindo o torso nu no azul da tarde.
Gozando, por entre os rotos que parcamente lhe cobrem as partes, o estômago semi-vazio e a imundice de sua pele,
 A gloria de não ser eu.

Que direito esse maldito tem de não ser eu?
Que direito tem de estar ali fora das grandes questões do universo
E de ser peça ausente do xadrez de Deus e do Diabo?
Odiei-o! Odiei-o pela sua liberdade de não ser eu...
E por impor, como baluarte, sua liberdade entre mim e a esquina por onde eu fugiria.

Avaliei a coisa pela matemática enquanto retribuía o desafio.
Os números me desfavoreciam...
Era vinte quilos mais pesado, vinte centímetros mais alto e vinte anos mais jovem do que eu.
Levava na cara atrevida  e nas unhas sujas a malicia das ruas que em tempo e por entre  feras irmãs aprendera,
E que meus diplomas e leituras e noites em claro jamais me ensinariam.
Como ser fera livre.
Levava nos olhos a leveza da vadiagem desprovida de tudo.

Ele me bateria, estou certo e isso me fazia estar feliz com a felicidade dos desgraçados.
Pois por vezes um soco a esmagar as bochechas e dentes e ossos – é tanta vida a se desprender de um gesto – aquece a alma tal qual um beijo apaixonado.
Havia muito eu não sabia o que eram ambas essas coisas.

E por tudo o que estava em meu desfavor, decidi que definitivamente o atacaria.
E por deus, se não desembargasse aquela esquina, eu o reduziria a cinzas!

Que espetáculo seria!
A minha respeitabilidade engalfinhada com a livre mendicância dele!

Sim, era eu e era ele que não era eu e lutaríamos!
Tal era o meu ódio que, tinha certeza,  o esmagaria contra a sarjeta onde mendigava o seu pão.

Mas antes que eu travasse peleja mortal, uma nuvem cruza o céu e Deus e o Diabo olham.
Eis que passa um carro e um homem atira uma moeda,
E meu inimigo, rapidamente esquecido de mim, corre por entre os carros, arrisca a vida
A cata de uma moeda de pouco valor.
Li em seus olhos o desespero para buscá-la  e ao que ela traria e apiedando-me dele, amei-o.
A fúria que me animava os músculos se esvaiu.
Oh, homem desgraçado! É meu irmão!
Ele cata moedas por entre carros e eu  metafísicas  nas vilezas da vida.
Não é melhor do que eu, apenas tem amos em menor número.
É tão rico de necessitar de tão pouco, que nem me permite odiá-lo.

De volta ao meu quarto e muito depois, passado o meu sonho de mutuo extermínio,  lamento em silêncio o olhar de Deus e do Diabo
Para aquela esquina onde um homem agora dormia sobre trapos
Em sono menos perturbado do que eu em sedas e travesseiros a lavanda.
Ele só quer pão e álcool e eu quero o impossível não querer, mas...
Espera...!

Há aqui nesta mesa pão em demasia, repleto de bolor.
A metafísica não me permite comer.
Há aqui neste armário e sob esta cômoda, vinho mais velho do que meu cansaço.
A moral não me permite beber.

Do que ele necessita, o pão para saciar o corpo, o álcool para acalmar a alma,
Tenho em abundância, sem no entanto ter calma e sem saciedade.
Deveria ter arrebatado-lhe a moeda como me furtou a fuga!
Por que necessitaria de algo mais do que já tinha?
Era livre! Não era eu...