domingo, 18 de dezembro de 2011

Fragmentos de "Os Hamlets"



Abaixo, estão os versos mais marcantes (em minha nada humilde opinião) recitados pelo Professor da Puc Minas Luciano Luppi, no excelente monólogo "Os Hamlets - Uma releitura", durante a Jornada do Fórum do Campo Lacaniano 2011. Lamento não me lembrar os versos na íntegra, mas estes, são inesquecíveis...


 Ser ou não ser, eis a questão
 Será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, 
Ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? 
Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, 
Como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. 
Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: 
Pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, 
Uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar.
 Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Nenhuma constituição
E nenhuma revolução
Jamais pensaram em garantir, para os homens,
O Direito de Respirar 
Nenhum direito mais necessário,
Pois vivemos o tempo todo nos sufocando uns aos outros.
Você me sufoca:
- Sempre que não posso dizer para você o que faço,
O que sinto e
O que penso.
- Sempre que preciso controlar minha voz e meus gestos,
Para que você não perceba minhas intenções.
- Sempre que me ponho a justificar o que faço
Frente a meu Juiz interior – que é você.
- Sempre que reprimo meus desejos
Porque todos vigiam a todos, para que ninguém faça
O que todos gostariam de fazer
O que seria bom que todos fizessem.
Amar, cantar e dançar…
Minha vingança é fazer o mesmo com você.
Por isso digo que vivemos todos nos sufocando,
E que jamais se pensou em garantir para todos, o direito
De respirar.
Nós nos negamos o mais fundamental dos direitos –
O de viver.
Por isso vivemos sufocados – angustiados – infelizes.
É preciso renascer – e é possível renascer.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



                                                                             Shakespeare, Pessoa, Gaiarsa & José Régio