Esperança é um urubu pintado de verde.
O diabo é que a essa porcaria de pássaro estranho calhou de cismar que meu ombro é seu poleiro e eu persigo um meio qualquer de parar de perseguir o que quer que seja que não me permita dormir...
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Do que é melhor não saber
"Só sei que nada sei..."
Mas a pressuposição da ignorância
não chega a ser um conforto, porque, mãe das contradições, a pressuposição
enseja um “saber de algo” que nega a si mesmo. As autofagias desses raciocínios
não chegam a melhorar a minha gastrite que faz estágio para úlcera que faz
estágio para coisa pior no meu estômago e eu tenho de reiterar, embora
preferisse não saber, que bênção não é a ignorância, mas a ignorância da
própria ignorância.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Sensações de um Sonâmbulo Desperto
É uma manhã como
todas as outras.
Uma primeira
manhã como todas as ultimas. O esquisito, para início de conversa, é que escovo
os dentes de maneira metódica, todas as noites antes de dormir. Depois
enxaguante com o desenho de um cara queixudo no rótulo e mais um pouco de água.
Ainda assim, acordo com a boca amarga, como se tivesse bebido rum ou absinto e
como se tivesse passado a noite em um festim nojento na lixeira.
Isso pra não
falar do corpo doendo, a cabeça latejando e a sensação de que elefantes me
usaram como pista de dança por mais uma noite e que fui sparring em algum sonho
perdido do Muhamad Ali...
Antes de ir
tirar a sensação de esgoto da boca e desenrijecer a máquina velha que é meu
corpo, tenho de me atualizar.
Me situar de
novo no mundo concreto e separar as sobras de sonhos que me enxameia a cabeça
como moscas em torno da lixeira que sinto no estômago; terminar diálogos que
tive nesses sonhos, experimentar partes do meu corpo para ter certeza de que
não vão se liquefazer ou coisa parecida e por fim decidir de vez se já acordei
mesmo ou se ainda estou vivendo uma daquelas outras mil e doze vidas, mais terríveis,
mais vívidas, mais sensíveis e mais preferíveis a essa em que acordo com lixo
no estômago e dores nos ossos.
Esse processo
não costuma demorar mais do que uns poucos minutos, mas nos últimos tempos
tenha percebido com o que me resta de senso crítico nesses momentos no limiar,
que tenho me demorado cada vez mais entre sonho e realidade.
E não chego a ter
certeza do quê é o quê.
Algumas vezes
isso me ocorre ao longo do dia, como num sonho lúcido invertido.
Então o
despertador berra uma irritante música que vivo jurando que vou mudar sem o
fazer e por fim decido que sou Eu. Espanto relutante as sobras de sonho a
contragosto e reitero escovação, enxaguante e mais água, apenas para minutos
depois sujar novamente dentes e espírito com café e as notícias do mundo nos
jornais da manhã.
Está escuro lá
fora e tento me recordar se na verdade já não é noite e eu tenha dormido de dia e por
algum motivo não me tenha lembrado.
Não.
É chuva.
O céu parece
comigo esta manhã: Negro, ameaçador, de mau humor e em vias de desabar.
“Bem-vindo ao clube, cara!”.
Se eu tivesse
bom senso não estaria zombando do céu em manhã de tempestade. Não me lembro o
que é bom senso.
Também não me
lembro de ter ligado a TV ou mesmo se deixei ligada quando dormi. Mas ela zumbe
uma musica qualquer que por motivo qualquer me chama a atenção.
“E a estrada
fica difícil, não sei o porquê...
A estrada é
longa, nós seguimos adiante
Tente se
divertir nesse meio tempo”
Garota com cara
anglo-saxâ e nome latino.
Bonita. O cara
abraçado com ela no vídeo também. Ao fundo tem uma bandeira americana tremulando
e a música não é de todo ruim. Mas o cenário é clichê demais.
Pelo modo como
se abraçam, percebo que definitivamente não sou um tipo romântico ou tenho uma
percepção um tanto torta do que é o amor, se é que a música fala realmente
disso.
Azar!
Tenho uma
percepção torta sobre quase tudo, inclusive sobre o que é percepção...
A menina no
vídeo parece estar nos seus melhores anos. Mas já tem tempo que não vejo um
sujeito com uma aparência mais junkie
life! Se esse vídeo tiver mais de
um ano, duvido que esse garoto ainda esteja vivo.
Mas é maldade
minha e talvez uma pontada de inveja, por eu ser tão saudável, por não fumar ou
ter tatuagens ou não ser capaz de arruinar o coração de alguém, como a letra da
canção dá a entender que o garoto de aparência doentia fez ou faz.
Desligo a TV e
olho pela janela. O céu está mais escuro. Embora já seja oito da manhã, as
luzes dos postes ainda estão ligadas lançando o amarelo do mercúrio em desafio
ao negror do céu.
Tem gente
passando apressada na calçada, como se chuva fosse ácido. E nem está chovendo
ainda. Sinto impulsos de gritar: É só água, caramba!
Mas quem disse
que consigo atender a impulsos?
São 8:32
agora...
Acho que eu
devia estar a caminho do trabalho ou coisa assim e só depois de tomar mais duas
ou três xícaras de café me decido por fim de que é domingo e não tenho que
sair.
É onde é que
essa gente vai apressada as oito da manhã de domingo?
Queria que todo
dia fosse domingo, menos as quartas, que é dia sessão de filmes estrangeiros
num charmoso cinema decadente ali pelos lados do Floresta.
Espera aí...
O cinema fechou
há anos. Virou uma Igreja eu acho.
E é para a
igreja lá da esquina que essa gente vai, com certeza.
Desliguei a TV
cedo demais.
Aos poucos me
recordo de que no dia anterior estava defenestrando com alguma alegria todos os
textos sobre psicologia que fui obrigado a ler nos últimos anos e em meio a
estes papeis dei com uns versinhos rimados que forjei há uns vinte anos.
Havia me
esquecido de que os havia escrito e bem poderia ter continuado neste
esquecimento.
Que coisa tola e
doce e idealista! E este era eu nestes versos.
Verdade seja
dita, tenho preguiça e um desdém enorme pelos versos que já escrevi em qualquer
época e que em uma vaidade entorpecida chamei de “poesia”.
É como quando se
é criança e pega-se um monte de remédios dos pais, temperos e mais qualquer
outra substância a mão e mistura-se, imaginando estar criando uma fórmula mágica.
Escrevo uma
coisa, acho-a maravilhosa e passo um curto tempo gozando a irreal e fugidia
sensação de que sei escrever.
Depois renovo a
minha convicção de que sou um tolo e defenestro meus escritos, com a mesma facilidade com
que gostaria de defenestrar a mim mesmo de mim.
Mas estes versos
em particular me irritam demasiado.
O caso é que
eles representam um Eu que já desapareceu de mim sem deixar saudades e sentir
na sintaxe deles o absurdo da minha (quero crer) antiga ingenuidade, deixa-me
um tanto encabulado, especialmente por me recordar de que àquela época, eu
teria defendido com unhas e dentes e um fervor apaixonado essas ideias de que
hoje me envergonho.
E eu era realmente
assim?
Pobre e tolo
Luiz...
Ocorreu-me um
dos meus trechos favoritos de Waking Life e fiz as contas: Vinte anos... Troquei
todas as células do meu corpo neste tempo e já não há mais nem um resquício
daquele garoto em mim.
Isso porém não
me consola nem um pouco e sobra-me a certeza de que, em geral, o
constrangimento que se sente quando topamos com algum vestígio de um Eu nosso
mais jovem é na verdade uma disfarçada culpa por termos decepcionado os anseios
daquela criança que fomos um dia.
É quase como se
disséssemos: “Desculpe garoto(a), mas eu fiz merda com todas as suas esperanças”.
Culpa sua,
menino!
Quem mandou ter
tão altas expectativas em relação a si e ao mundo?
Finalmente
começa a chover e uma garota passa na calçada.
Diferente dos
demais, ela não tem pressa e vai na direção contrária. Fuma e eu sinto inveja
dela e sentir inveja duas vezes numa só manhã me deixa ainda mais irritado.
Nas costas nuas
ela levava a tatuagem de uma fênix, a mais mal feita que já vi e por isso a
achei linda. Que direito essa menina tem de passar diante do meu mau humor como
um raio de sol naquelas nuvens escuras? (penso nisso e intimamente digo: "Mais versos dos quais me envergonhar amanhâ...")
A beleza das
mulheres é um tormento e um tormento a mais quando emoldurada em almas rebeldes
como aquela.
Deus, tem dias
que ser um homem é um saco!
Também é um saco
controlar emoções o tempo todo então enquanto rasgo meus antigos e rejeitados versos
dou livre rédea a minha inveja.
Sinto inveja do
menino que fui e do cigarro daquela menina, da igreja para onde as pessoas iam
apressadas em busca de salvação, do mundo de onde essa garota provavelmente
vinha com uma nova cota de pecados e do céu, que depois de muito ameaçar, desaba pesado sobre o mundo.
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
De quando quase meti a colher
Praça de alimentação, Shopping Cidade às três da tarde.
Casal jovem.
Ele, cara bonitinho, como as pessoas entendem a beleza
masculina.
Sentaram bem perto de mim, brigando sei lá por qual motivo, mas
meio que ocuparam o banco em que eu estava sentado, me “convidando” a sair
dali. Mas como não chegaram a me solicitar polidamente e se permitiram me
ignorar, deixei-me ficar por minha vez, ignorando-os também.
Ou tentando pelo menos.
Brigavam.
Na verdade, era o garoto que gritava como um lunático, coisa
bastante desagradável em se tratando de um local público e ainda mais sentado a
centímetros de alguém que já estava lá e nada tinha a ver com a lide.
Mas, meu deus, esses “playboys” todos tem o mesmo cheiro! Cheiro
de sabonete, mas um cheiro nauseante, como se esses caras comessem uma dieta
qualquer que os fizessem suar uma murrinha esquisita...
Certo. Estava de má vontade (e nunca vi um ser humano
completamente isento de antipatias e não sou exceção!) para com aquele tipo e
tudo nele me desagradaria, ainda que ele exalasse sândalo em vez de almíscar
azedo...
Ela, garota linda (como meus olhos entendem a beleza
feminina).
Cheirava maravilhosamente bem, mas acho que meu nariz tem
predileção especial pelo aroma doce da progesterona, mesmo por debaixo daquela
camada de perfumes e cremes todos. Discutiam acidamente por alguma coisa e não,
não estou orgulhoso por, mesmo sem querer, ter ouvido sorrateiramente conversa
alheia.
Azar.
Casal discutindo todo lugar tem. E se a eles não ocorre lavar a
droga da roupa suja em casa, problema deles caso orelhas
involuntariamente curiosas estejam ali, ávidas por perscrutar os detalhes do
entrevero.
Mas minha bisbilhotice não foi completamente saciada.
Chegaram ali já no ápice da questão, naquele momento tenso em que
em muitos casos a coisa já culminou para as vias de fato.
Mas era uma briga de casal e jamais me ocorreria que a coisa
pudesse descambar (em se tratando de uma rixa homem – mulher) para a violência
física. Mas o sujeito gritou com a garota um “vai tomar no @#%! “ com tanta
fúria na voz, que tive um súbito mal estar. “Que diabos esse cara tem?
Está drogado?”
Mulheres são criaturas deliciosas e enervantes, isso é certo.
Por vezes, tanto mais deliciosas quanto mais enervantes. Posso listar dúzia e meia de ocasiões, e só no ultimo semestre, em que uma ou outra
mulher, nas muitas instâncias da minha vida, me tirou do sério. Mas nada, nada
mesmo justifica uma atitude de violência, mesmo moral ou vocal, de um homem
contra uma mulher.
Não da parte de um homem de verdade.
E isso pode até ser um chauvinismo tolo da minha parte, mas senti
ânsias de partir pra pancada com o sujeito e com certeza o faria, se ele
tivesse tocado naquela garota, que fosse lá namorada dele ou não, não lhe dava
direto de gritar aquela grosseria. E num shopping cheio de crianças!
Pensando nisso, me ocorre que é a segunda vez em menos de um
semestre, fico excitado com a possibilidade de me meter numa briga e levar uns
socos, o que talvez mostre preocupantes sinais de sentimentos de autodestruição
de minha parte. Mas é maçante ficar o tempo todo indagando das próprias
motivações como se a droga do mundo fosse uma extensão da droga do divã.
Azar(2)!
Olhei para os lados.
Nada de seguranças ou coisa semelhante. Certos profissionais têm o
dom de desaparecer de vista quando mais se precisa deles. Isso tudo aconteceu
no espaço de minutos, tempo insuficiente para se tomar decisões que poderiam
acabar na delegacia ou no hospital.
É só que tem horas que, ou se mete colher ou se encolhe como um covarde e depois vai pra um canto qualquer remoer um desagradável auto-desprezo.
Acho que ia me meter em confusão dos diabos.
E a coisa ia por aí...Eu já sentindo engulhos de partir pra
pancada com o sujeito, quando a menina levantou-se do banco, olhou-o com um olhar
triste e num meio sorriso disse com suavidade:
“Espero que você tenha câncer...”
E foi embora.
“Espero que você tenha câncer”!!!!
Jesus! Fiquei ali paralisado, sentado com aquele sujeito cheirando
a sabonete e murrinha! Nós dois com a boca aberta e olhos arregalados.
Quase quatro décadas de vida e nunca vi ninguém desejar semelhante
coisa a alguém. Nunca vi ninguém sentir um ódio tão profundo por alguém a ponto
de desejar-lhe que tenha câncer. Ah...Em outra situação, teria rido do tal
sujeito, pois era um tipo estúpido que bem merecia um insulto, mas enquanto ele
se afastava com a cabeça baixa (talvez digerindo aquelas palavras ditas com
gelo na voz), senti dele uma inveja enorme.
É fato, o cara era um FDP², mas o era
de tal modo, que conseguia inspirar naquela moça bonita o ódio mais
maravilhosamente autêntico que já vi alguém expressar.
E ódio autêntico é certamente muito mais doce de ser usufruído do
que um amor por vezes titubeante.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Os dilemas de um homem sutil
"Ouse, ouse... ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!"
Lou Andeas Salomé
Eu ia dizer que é engraçado como, diferente dos cérebros que os pensam, certos pensamentos nunca envelhecem. Como esse de Lou Salomé...
Mas a verdade é que isso não chega a ter graça.
Isso sequer é uma coisa extraordinária.
Isso simplesmente é.
E a natureza de um homem por vezes se volta contra a simplicidade das coisas e ele se rebela contra a simplicidade, quando talvez fosse mais sábio rebelar-se contra a sua natureza.
Intimamente, arde-lhe uma certeza velada e uma voz lhe sussurra: "Não é assim. Deve haver algo mais".
E com uma frequência desconcertante ele tem confirmações excessivas da simplicidade do mundo, enquanto anda as cegas, procurando o sentido profundo das coisas.
O que quer que isso seja.
Há no mundo um tipo de lógica matematicamente cruel.
Verdades cruas, que só o paladar de um selvagem pode apreciar com refinamento.
Por exemplo, que não se pode aparentemente obter uma quota de alegria sem que em algum lugar a balança pese em sentido contrário e como resultado, o seu deleite se converte em desespero para outrem.
A vida dá mesmo poucos presentes.
Em compensação, pode tirar tudo o que você consegue obter. Pisque os olhos e já foi.
Você ficou velho, perdeu muito e ainda não encontrou a droga do sentido profundo das coisas.
A duras penas vem, facilmente se vai.
E tem verdades que incomodam, mesmo quando se passa pelo próprio julgamento.
Deve certamente, haver algo de errado quando você começa a pensar que ver alguém se desvencilhar de ideias velhas é tão ou mais sedutor do que uma mulher se despindo.
E quando se começa a questionar, sem aquele constrangimento próprio de quem se pensa virtuoso, a natureza do que chamamos de bem e mal e se percebe que é tudo uma questão de tempo e momento histórico e retórica e cultura, põe-se em cheque a própria concepção do que é ser humano.
Princípios são coisas traiçoeiras e submeter-se a eles é meter-se numa paralisia moral enquanto sua vida cai a sua volta como um castelo de cartas.
Então as veredas, diferentes daquela trilhada tão teimosamente, se abrem como um mar de possibilidades quando se quebra certas correntes, mas a paralisia está não somente no apego as ideias velhas, mas na consciência de que ha preços que não se pode pagar.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Da musica de Gonzaguinha e do que me falta
Na manhã do dia 19 de
dezembro de 1973, Saturno devia estar dando um “rolê” ali pela casa de Plutão
e Sagitário estava alinhado com a constelação de peixes....
E eu estou fingindo
pessimamente que sei qualquer coisa de zodíaco para explicar coisas para as
quais não encontro explicação.
Por exemplo, o fato de que,
sendo um modelo da safra de 73, vim com itens de série, mas diferente dos
demais que saíram daquela fornada, aparentemente me fabricaram desprovido do
dispositivo singular chamado coloquialmente de “botão-do-foda-se”.
E olha que já revirei cada
canto metafísico meu a cata do dito cujo, porque quantas e tantas vezes me
exortaram a ligar o danado, perdi a conta. Ou então eu estou procurando no
lugar errado, e esse item esteja escondido somaticamente, por detrás do baço ou
por dentro do pâncreas ou em qualquer outro lugar inacessível a minha percepção
ou toque e, portanto, inviabilizado de ser acionado.
Talvez seja o caso de fazer
um recall, mas meus pais, em tese, tinham
justamente função de me fazer negar a existência do meu inexistente “botão-do-foda-se” e ser miseravelmente
responsável. Então como vou lá eu aos enta
anos pedir que me equipem com algo que deveriam - em tese(2) - prover-me na
concepção?
Talvez devesse pedir pra
Deus então, mas ainda que eu soubesse a qual dessa miríade de seres superiores
que existem - em tese(3) -acima do céu monoteísta – em tese(4) – pedir, até o momento, ele(a) tem solenemente
ignorado todas as orações sem fé que tenho deixado em secretária eletrônica.
Até onde posso ver, sou
despossuido desse dispositivo.
Isso talvez explique o porquê
de eu nem mesmo conseguir ouvir uma musica sem pensá-la.
Diabos, deve ser bom demais
estar dentro da própria pele sem senti-la como a um casaco velho grande ou
pequeno demais que lhe deram!
Tem dias em que o
desassossego metafísico é uma goteira na cabeceira em noite chuvosa.
“Cantar a beleza de ser um
eterno aprendiz...”.
Saudoso Gonzaguinha...
Que há de belo em ser um
sempre e sempre a-luno (sem luz) é coisa que me escapa, justamente porque
talvez eu não tenha aprendido a aprender e a fruir prazer do aprendizado.
Ou da ignorância.
Acho que estava ocupado
demais medindo e remoendo as dimensões da minha angustia por ser tão ignorante.
E no processo acabei,
contrário ao que diz a sua bela canção, desenvolvendo uma sutil vergonha de ser
tão infeliz ou (in)feliz, até que compreendi que essa é, essencialmente, a minha
natureza. E só às vezes ouso pensar que essa é a condição de qualquer ser
humano, o que nos move como criaturas desejantes e insatisfeitas, mas ao que
parece, também me falta, além do tal “botão-do-foda-se”
(e talvez justamente por isso), a capacidade de fingir para mim mesmo que não
ligo para isso.
Melhor que o corvo ame o negrume de suas penas, ou
vai passar uma vida miserável tentando piar como a um canário.
Não aprendi e não sei o que
é aprender.
Talvez também nem mesmo saiba o
que é belo.
Eu sei o que me atrai e com alguma certeza, posso dizer que nem sempre é o que se chamaria
de “bonito”.
Minhas respostas nunca foram
puras, mesmo quando eu era - em tese(5) - criança.
Acho que sequer tive
respostas a dar, só (até o momento) irrespondíveis perguntas puras.
Mas, é claro, isso também
não impede que eu repita:
É a vida, é a vida e é a
vida!
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Dividindo o que me ocorre (pura e simplesmente)
...E estou quase me alforriando de uma labuta de cinco anos.
E se tempo é dinheiro, reitero que ando sem sequer um minuto nos bolsos.
Não dá pra escrever nada que seja minimamente decente...
Mas me ocorreu algo e senti impulsos de dividir.
Daí me irritei e pensei; "Cara, isso daí é 'felizinho' e senso-comum demais para merecer consideração". Mas como ando desconfiado até das minhas implicâncias e o que me ocorreu é importante, eis:
Um luto devidamente elaborado é quando você pára de lamentar o fato de alguém ter morrido, (embora fique surpreso com o fato de o mundo ainda não ter caído no sol por esta pessoa ter morrido) e quando começa finalmente a celebrar o fato maravilhoso de que essa pessoa viveu.
Porque de alguma forma muito subjetiva, seria inadmissível passar a vida sem a consciência de ela ter vivido...
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Raciologicando (por não ter nada melhor a fazer)
...E eu ainda não vi uma só vidraça que não fizesse, indecentemente, um convite a todas as pedradas do mundo.
E realmente gostaria que meus ossos fossem tão resistentes quanto a obstinação do meu orgulho.
Daí eu seria imortal e talvez estivesse ainda por aqui quando todas as vidraças, pedradas e orgulhos já estivessem extintos por sob a poeira da história..
Por outro lado, é uma manhã tépida de uma quinta-feira tépida num mundo tépido.
E essa vai ser toda a angustia a que me vou permitir por hoje...
...................................................
Um adendo tardio: Seria bom ou não tão mau, que as pessoas à minha volta, só às vezes, se lembrassem de que eu sou um Psicólogo....
E realmente gostaria que meus ossos fossem tão resistentes quanto a obstinação do meu orgulho.
Daí eu seria imortal e talvez estivesse ainda por aqui quando todas as vidraças, pedradas e orgulhos já estivessem extintos por sob a poeira da história..
Por outro lado, é uma manhã tépida de uma quinta-feira tépida num mundo tépido.
E essa vai ser toda a angustia a que me vou permitir por hoje...
...................................................
Um adendo tardio: Seria bom ou não tão mau, que as pessoas à minha volta, só às vezes, se lembrassem de que eu sou um Psicólogo....
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Você não sabe de nada, Luiz!
Acabo de devorar as 811 páginas de “Dança dos Dragões”, de
George R.R. Martin.
Já aviso que não vem spoiler neste post, embora eu goste de
ler spoilers e fico sempre pensando na logica de comprar um livro ou assistir a
um filme sem saber antecipadamente do
enredo (as chances de levar lebre por gato é sempre uma constante), mas serei
cioso de quem tem fobia de spoiler ou prefere ser surpreendido pelos
acontecimentos em vez de degustar com vagar as
minucias literárias ou performáticas de atores.
Também não vou falar do meu entusiasmo por George R. R.
Martin (e do meu pavor que o velhinho caprichoso morra antes de concluir sua saga ou
de que ele resolva que mais algum personagem
maravilhoso morra). Além do mais, estou meio apaixonado pela saga de R. Martin e
eu penso em meu torto pensar que nós sempre ficamos um tanto bobos quando
estamos apaixonados. Eu sou um entusiasta muito patético e a consciência disso
dói e eu estou em dúvidas se existe algo que doa mais do que consciência.
Tem
sensações que eu prefiro, quando possível, evitar.
Então, permitam-me dividir o meu estranho reconhecimento por
uma frase que surgiu por varias vezes ao longo do texto:
Você não sabe nada,
Jon Snow.
O porquê de destacar essa frase de todo o enredo maravilhoso
de “Dança dos Dragões” eu explico após uma breve e tediosa história:
No comecinho da década de 90 um grupo de garotos se reunia
na Praça da Savassi umas duas vezes por mês para jogar RPG. Até então as cartas
e os dados eram difíceis de conseguir, sendo a maioria importada e em inglês ou
em japonês. O detalhe é que nenhum dos garotos sabia falar essas línguas, o que
tornava o jogo ainda mais desafiador. Um desses meninos era uma esquálida criatura
de hábitos. Deu-se razoavelmente bem jogando e ganhando algumas rodadas usando
um personagem Wizard ou Sage ( como vinham nas cartas),
resultado que não conseguiu repetir usando outras categorias de avatar. Essa persistência
em utilizar esse tipo de personagem (mais a mania de falar demais e de estar,
irritantemente, sempre certo) valeu-lhe a infeliz alcunha de Sage, apelido que lhe acompanhou até a
vida adulta e que, para mal de seus pecados, manteve, quando começou a se
aventurar pela internet e precisou de um nickname.
É realmente uma lástima ter muita consciência, mas pouca
imaginação.
Esse garoto, agora perdido por entre o labirinto de Eus dentro
deste adulto que vos digita, nunca foi e nunca se viu como alguém sábio, e na
verdade, ainda o sinto em alguma dobra perdida das minhas contradições, a
revoltar-se contra a ideia de ser sábio. Ele se inquieta em algum lugar ermo de
mim e me causa náuseas morais cada vez
que alguém me diz que sou inteligente. A isto respondo como num vômito raivoso
e cansarregado de ironias:
Mesmo? Pois eu
preferia ser bonito ou então ter sorte!
Jesus e todos os
deuses sabem que eu trocaria de bom grado vinte pontos de QI por um par de
ombros largos ou dentes perfeitos ou uma barriga musculosa. Ou os 1,85 m do meu
irmão ou os cabelos de mel da minha filha ou a pele maravilhosa daquele rapaz
que me vendeu balas intragáveis no ônibus um dia desses...
Mas que sei eu?
Não sei de nada.
Nada...
Então talvez eu não tenha nenhum ponto de QI que possa
investir numa barganha por algum atributo que me faça sonambulear melhor pela vida...
Você não sabe de nada,
Luiz!
Tenho ouvido isso com tanta frequência e de pessoas tão
separadas por tempo, espaço, cultura e situações que sinto aquele estranhamento
peculiar de quem subitamente toma consciência de uma dolorosa verdade absoluta.
Você não sabe de nada,
Luiz!
Daí a minha sensação de deja
vu a cada vez que li em “Dança dos
Dragões” essa frase que ficava pairando sobre a cabeça do personagem Jon Snow.
E eu não sei nada. Talvez fosse o caso de perguntar se alguém
realmente sabe, mas estou quase certo de que não vou compreender a resposta.
Não que isso importe. Tenho problemas demais em lidar com a
antiga e constantemente renovada consciência da minha própria ignorância, para
queimar meus neurônios decadentes meditando o não-saber alheio. O que me
incomoda é o fato de que quando alguém me diz: "Você não sabe de nada", está
afirmando implicitamente que ela sabe, mas não está e não me parece disposta a
me ensinar o que eu não sei e a partilhar o que ela sabe, porque sabendo e mantendo-me
na ignorância, mantém também o seu poder e superioridade sobre mim.
E eis o que vim lhes anunciar hoje senhores:
A vossa superioridade.
São, todos vocês, superiores a mim.
Todos vocês, os que sabem, os que conhecem o que há por detrás das máscaras e das palavras. Os que compreendem os meandros e sutilezas das linguagens e das intenções humanas.
Vocês, os que tem defesas, os que conseguem dormir e olhar nos olhos uns dos outros enquanto dormem...
Porque vocês sabem algo que eu ignoro e eu sempre serei um
ignorante. E não falo de ignorância socrática, não é o princípio da sabedoria, mas de uma terrificante consciência de que não posso me fiar nem mesmo na minha capacidade de levantar dúvidas.
Eu não sei.
Mas vocês sabem.
Sabem e não vão me
ensinar nada e nem eu tenho as condições reais e necessárias para aprender sozinho ou com preceptores.
Possivelmente, algum defeito na minha capacidade cognitiva ou esse excesso de
ligação com o absurdo, fazem-me refém de um autismo moral e eu permaneço em
transe, meditando meus próprios processos enquanto a minha volta o mundo gira e
muda, as pessoas amam, odeiam, vem e vão e eu permaneço perplexo com os grão de
poeira em suspensão nos raios de sol da tarde.
Fiz a mim mesmo uma piada cruel quando nomeei-me Sage,
porque intimamente eu sabia que de sábio eu nunca tive nada. Era, não uma afirmação do que eu pensava ser,
mas a de um desejo e uma busca.
Quando o meu ridículo ficou auto-evidente, criatura de
hábitos que sou, acrescentei um singelo “h”, para mudar o sentido e transformar
o que era um inadequado apelido em algo parecido a um nome. Sahge, porém, não é menos ridículo ou mais adequado. Por
outro lado, se chegarem-se a porta de onde trabalho e perguntarem: “Quem é o
Luiz?” cinco ou seis pessoas (dependendo do dia) olharão em sua direção, mas
uma delas, e apenas uma delas, é o Luiz que não sabe de nada.
Você não sabe de nada,
Luiz.
Verdade absoluta.
Não sei lidar com verdades absolutas.
Não sei de nada, mas bem podiam ter me deixado na ignorância
disso também.
Talvez, contrário ao que diz a fé de muitas pessoas, Deus
tenha inventado o álcool.
Mas veio o Diabo (sacana dos infernos literais e
imaginários) e inventou a solene e ridícula promessa de não beber mais.
E os dois sabem bem que eu, ainda na temporada de trocas,
negociaria a receita da Pedra Filosofal e do Elixir da Vida, pelo esquecimento
da minha própria ignorância que me proporcionaria uma garrafa ou duas de qualquer
bebida ordinária.
domingo, 3 de novembro de 2013
Talvez (elevado a sexta potência)
Dialetizemos as nossas discordâncias na imagem acima.
O que você chama de "felicidade" está aparentemente à esquerda.
O que eu penso ser "liberdade" segue à direita...
É possível que estejamos ambos em erro e que nem você seja tão feliz quanto pensa e tampouco eu seja verdadeiramente livre.
Talvez eu acabe ficando prisioneiro de minha singularidade,
Talvez você se torne livre do compromisso de ser alguém único...
Talvez seja alto o preço a se pagar por ser livre e, consequentemente, solitário.
Talvez a felicidade da multidão seja uma alegria menor ao que deseja a sua alma...
E talvez eu que busco a liberdade, acabe por me tornar feliz por ter a mim mesmo
E ao abraçar o mundo, você perceba que ficou de mãos vazias,
Ou privando-se de si mesmo você tenha tudo...
Mas aqui, nessa encruzilhada onde nossos caminhos se separam (e porque apenas eu questiono)
Me questiono, e ao fazê-lo penso
Que talvez eu, que questiono, já seja livre, porque ter certeza é ser prisioneiro.
E você, que segue o mundo sem questionar, já seja feliz, porque ser prisioneiro é, de alguma forma, estar seguro...
Fonte da imagem http://www.caulos.com/
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Sobre os seus olhos azuis...
É claro que te amam, e é claro que é por causa dos seus olhos azuis...
O grande problema é que, a menos que seu datolnismo moral se tenha infiltrado pela córnea adentro, meu caro, você absolutamente não tem olhos azuis. Eles são tão castanhos quanto seu espírito indócil. Se não me acredita vá lá se olhar ao espelho e esquece a vermelhidão e os relâmpagos.
Eles são resultantes dos dias de sonambulismo, de pesadelos despertos, da fumaça e poluição dessa BH de papel e da sua necessidade há muito negligenciada de óculos e sono.
Não. Definitivamente você não tem olhos azuis.
Então o quê...?
Você é um príncipe feliz por acaso?
É uma alma doce?
Afinal as pessoas te amam...
É o que te dizem...
Mas as pessoas amam coisas demais.
Elas amam sorvetes, cachorrinhos e dias ensolarados. A suavidade das ilusões cantadas em versos e trovas, as fantasias que empurram para longe os terrores imaginários das longas noites...
Elas amam praticamente tudo o que é doce, macio, suave e "bom".
E, bom, não há e nem nunca houve muita suavidade nas suas palavras ou doçura no seu olhar feroz.
Poderíamos imaginar que talvez seja essa sua elegância meio pedante, essa sofisticação decadente (a sofisticação de um super-vilão de primeira linha) ou talvez seja esse seu ar zombeteiro e o humor mordaz, que passa a impressão de que talvez você seja o tipo de diamante bruto a ser lapidado, uma alma carente e boa que, privada de calor desenvolveu espinhos, mas que em terreno fértil de afagos e mimos faria germinar um menestrel delicado e gentil.
...
...!!
(Ceeeerrto... Reconheço que eu mereci isso. Assim que você conseguir parar com essa risada demoníaca, eu continuo)
...
Seja sincero, ao menos no que lhe pesa a verdade das coisas...
Não há que se deter em miragens ou andar em transe pelo deserto.
Há qualquer coisa de equivocado nessas declarações de amor e você não deve repousar em ninho alheio a asa da sua inquietação.
Porque a menos que alguém te diga:
"Eu te amo, por sua constante e cortante dor de viver, pelo amor que ferve em suas entranhas junto ao ódio que gela sua alma, pela visão trágica e poética que você tem do mundo, pela sua inadequação, pelas suas contradições, pela sua sabedoria um tanto louca, pela sua ignorância sábia, pelo seu olhar perdido e pelo fato de que está sempre a deriva e naufrago de si mesmo, pelos seus balbucios e pelo seu tatear na vida e por detestar a si mesmo tanto quanto ama tudo o que você é sem o saber: por tudo isso e mais e além; eu te amo!"
A menos que ouça isso, meu caro, dito por alguém que te olha nos olhos e vê-se refletido no seu castanho, tem de saber, por triste que seja ao seu coração e doloroso ao seu ego, que definitivamente, você nunca foi amado, porque amam uma ficção do que você é...
Fumaça na neblina...
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Raciologicando ao cubo...
Pensamento breve, para uma quinta-feira de brevidades:
O maravilhoso neste universo terrível, é que algumas coisas mudam sempre, e o fazem (por uma necessidade inconsciente).
E qualquer coincidência disso com a realidade, está longe de ser uma mera semelhança.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Da Anatomia Da Ordem e do Caos
E o caos, contraditoriamente, está na ordem do dia.
Acho que aquela parte metafísica do homem que costumeiramente chamamos
de “coração” é o mais vigoroso agente e também morada do caos em
nós.
Por outro lado, se existe um órgão humano que está ligado à ordem das
coisas, esse é o estômago. Porque é o estômago a doer quando as coisas estão
caóticas, um formigamento próximo ao diafragma que pede desesperadamente para
que as coisas se aquietem de alguma forma.
Elas tendem a aquietar-se, porque a diferença entre o homem e o universo
que o cerca (e também o que nos torna singulares), é que o homem tende ao caos,
mas o universo tende a ordenar-se e a aquietar-se, daí o homem ser, para
prejuízo seu, um ser rebelde por natureza, contra a regularidade das coisas.
Nós só existimos porque "balançamos o barco". Dói como o inferno, mas
é a nossa natureza ser contrários a natureza.
Tudo se aquietará, mas nada será como antes. E a mudança traz medo, que
é o sentimento básico por detrás do desejo por ordem.
Há hora para tudo. Essa é talvez uma hora de escuridão e de tempestade.
Uma hora de incertezas e de tempo fluido. A impressão doida e doída de que o
furacão talvez esteja ainda no olho e sei-lá-o-que nos espreita a espera de
mais um poderoso e doloroso golpe.
Por dentro do emaranhado de neurônios e hormônios, demônios
dançam na confusão de um monte de sentidos e o mundo interno está de
ponta-cabeça invertida e ao contrário.
Mas lá fora, o sol ainda brilha, o vento balança nas árvores, a bolsa de
valores oscila, “os homens fazem guerra e Mona Lisa continua sorrindo”.
É estranho...
Mas o caos está só nas entranhas do homem.
Diagnose
Multiplicamos doenças por prazer,
Inventamos uma necessidade horrível, uma dúvida vergonhosa,
Regalamo-nos na licenciosidade, nutrimo-nos da noite,
Criamos balbúrdia no íntimo – e não saímos.
Por que sairíamos?
Despojado de sutis complicações,
Quem poderia encarar o Sol senão com temor?
Este é o nosso refúgio contra a contemplação,
Nosso único refúgio contra o simples e o claro.
Quem irá sair rastejando de sob o escuro
Para ficar indefeso no ar ensolarado?
Não há terror da obliqüidade tão certo
Quanto o mais notável terror da desesperança
De saber como é simples a nossa mais profunda necessidade,
Como é intensa, e como é impossível satisfazê-la.
Marcia Lee Anderson
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Raciologicando ao quadrado
Tinha sonhos aos cacos,
Pela ladeira ingrime por onde o bom senso escorria junto com pensamentos...
A natureza de um homem o trai tanto quanto mais ele luta contra ela.
Pela ladeira ingrime por onde o bom senso escorria junto com pensamentos...
A natureza de um homem o trai tanto quanto mais ele luta contra ela.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
Ainda sobre a Rua da Bahia
...E foi nos perigosos cantos escuros da Rua da Bahia, cintilados
pelas sombras da noite e povoados por almas perdidas, que em noite escura tive
uma iluminação:
A vida e a morte dançam juntas, e a primeira dança ainda mais
belamente quando na presença da segunda;
A percepção disso certamente mexeu e retorceu os meus sistemas
nervoso, sanguíneo, filosófico, poético e outros tantos sistemas para os quais
ainda não há nome.
Certas coisas não têm mesmo de ter nome.
Fui para casa meio a dançar, no gozo dessa perfeição anônima.
Eu sou um meio-meta-pseudo-qualquer-coisa-de-poesia.
E se não tenho uma definição para mim mesmo, como posso significar
o que é indefinível?
Há sensações que a palavra não alcança e se alcançar, mataria
a sensação pela frieza de uma palavra que se pretende calorosa.
Afinal, ha mais do que poeira e cansaço correndo pelas
minhas veias.
É outra percepção que me deixa atordoado.
Há, nos hiatos abismais da minha memória, o que a poesia
não é forte o bastante e nem profunda o suficiente para dar forma.
...
É só e apenas que certas coisas são perfeitas...
E têm
uma perfeição que lhe é própria, fugindo a qualquer nomenclatura.
Eu sinto...
E o resto é poeira...
domingo, 25 de agosto de 2013
Fumar aos Quarenta
...ainda não entendi....Porque diabos você
quer começar a fumar agora?
Ora, por que! Porque, eu posso, porque não tem lei me proibindo de
fazê-lo, porque todo mundo acha que não devo... Tenho um porrilhão de motivos,
mas a verdade é que eu quero. Simples assim. E se não tem lei em contrário, o meu querer e o meu não-querer
tem de ser razão o bastante para que eu faça ou deixe de fazer qualquer
coisa....
Mas você sabe que isso vai te ferrar,
né? Vai ficar com os dentes amarelados, o cabelo e a roupas fedendo e nem vai
conseguir subir uma escada sem por os bofes pra fora!
...E blá-blá-blá! Você se esqueceu de falar do câncer de pulmão.
Tem isso também! E não é coisa que se
despreze!
Bom, eu não ligo de não conseguir subir escadas (pra isso existem os
elevadores) e meus dentes (caso não tenha notado) já são amarelos (e sem o
“benefício” do fumo) e quanto ao fedor... Ah, eu vou fumar charutos! Charutos
não fedem tanto assim! E o cheiro, dizem, é até gostoso...
Nem! Fala só por você!
O Freud fumava charutos...
E morreu de câncer na boca!
Com 83 anos, caramba! Ele tinha de morrer de alguma coisa! Teve o prazer
de fumar por décadas e depois morreu. Acha que ele devia viver pra sempre?
Não. Só acho que é um jeito bem
desagradável de se morrer...
Rá! Você fala como se existisse um jeito agradável de se morrer.
Não, mas tem jeitos e jeitos... E ainda
acho que fumar é má ideia.
Bom, acho um tanto tolo esse negócio de viver em função de como se vai
morrer, pra não falar que é paradoxal e um tanto... Religioso...
Fumar talvez seja má idéia, mas se te preocupa que eu vá morrer, advirto
que fumando ou não fumando, vou morrer de qualquer jeito.
Você vai fazer merda!
Vou. Mas eu nunca fiz merda na vida. E sou de opinião que quem nunca fez
merda na vida, teve muita merda e pouca vida...Ou uma vida de merda, se me
permite dize-lo.
Então, se está mesmo tão decidido a
fazer alguma asneira, porque não faz uma tatuagem ou foge com um circo?
E desde quando fazer tatuagens é asneira? E qual foi a ultima vez que você
viu um circo que aceite gente sem talento para o picadeiro? Cara, você anda
vendo TV demais...
Certo, mas é que, fumar, sabendo que é
besteira, me parece um tanto irresponsável.
(...)
Quero dizer, a gente faz merda na vida,
mas geralmente faz inconscientemente.
Está me dizendo então que uma idiotice é legitima quando feita
inconscientemente?
Ei, não coloca palavras na minha boca!
Não vem com essa de psicologia reversa barata para justificar o fato de que está
para fazer uma estupidez!
Não estou justificando nada. Só estou me dando o direito de arruinar
minha saúde. Mas pensa nisso: Dizem que se você começar a fumar com doze anos
de idade, aos quarenta vai ter, provavelmente, um monte de problemas de saúde,
né?
É o que dizem...
Pois então! Já tenho quarenta, o que significa que vou começar a ter
problemas lá pela casa dos setenta anos. É a época em que qualquer um começa a
ter problemas de saúde, fumando ou não!
Não acredito!!
O que?
Essa é a coisa mais estupidamente maniqueísta
que você já disse!
Diz isso porque me ouviu falar relativamente pouco... Mas não negue a
lógica de um pensamento apenas porque ele te desagrada.
Isso não tem lógica nenhuma! E você é um
idiota!
Talvez, mas sou um idiota bastante ciente de que se é idiota, o que não
se pode dizer da maioria dos idiotas.
Bem, se quer que eu diga, sim, isso
certamente conta a seu favor.
Autorização pra fumar então, "majestade"?
Que se dane! O funeral é seu!
O pulmão também. E olha lá... A tabacaria fica ali, perto da redação do "Estado de Minas".
(...)
Quié?!!
Tem um estúdio de tatuagem lá no "Edifício Maleta que"...
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