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terça-feira, 31 de maio de 2011

Sonhos subversivos






Tive um sonho estranho e isso é uma redundância, é claro... Nenhuma novidade nisso. Todos os sonhos são estranhos. Os meus pelo menos são. Não faz muito tempo voltei a ter sonhos desconexos, porque durante muito tempo tive apenas o que chamamos de “sonhos lúcidos”, ou seja, eu sempre (ou quase sempre)  sabia que estava sonhando. Na verdade, segundo me disseram, eu também tinha sonhos desconexos, mas a lembrança dos sonhos lúcidos suplantava a destes em importância e eu não me recordava que os tivesse tido.  Agora que penso entender um pouco mais sobre sonhos, fico imaginando os desdobramentos psicológicos de ter sonhos assim... Não sei que mecanismo voluntário ou involuntário fez com que eu voltasse a ter sonhos “normais” com maior freqüência (supondo-se que exista coisa como  sonhos normais), mas por sugestão de um amigo acadêmico, comecei a anotar meus sonhos e talvez isso tenha influenciado.


Tarefa chata e difícil no começo, mas depois de um tempo, consegui lembrar-me razoavelmente bem dos meus sonhos. E persistir em anotar aprimorou minha habilidade de lembrar-me não apenas do enredo do sonho mas também da emoção que sinto ao sonhar.

O desta ultima noite foi particularmente estranho. Sonhei que estava fumando um cigarro.  Nada extraordinário, eu sei, mas o fato é que eu não fumo. Nunca fumei. Mas me recordo de que no sonho, estava com um tipo de cigarro aromático, com uma textura nacarada na fumaça azulada que me lembrava um misto de canela e erva cidreira. Recordo-me do prazer descomunal  que eu sentia ao fumar o tal cigarro, da sensação aveludada da fumaça no céu da boca ( e olhando por esse lado, talvez não fosse bem um cigarro, mas nesse caso eu dificilmente saberia dizer quer em sonho, quer desperto, a diferença entre um “careta” e um “cigarrinho do capeta”, supondo-se que tais nomenclaturas ainda sejam usadas). Eu observava o azul da fumaça subir e formar desenhos que espiralavam no ar  e depois desapareciam no vento...


Quando acordei fiquei algum tempo pensando que  talvez eu devesse ter fumado na adolescência como quase todos os meus amigos. Eu provavelmente diminuiria a minha expectativa de vida em uns trinta anos ou mais (como se minha vida não pudesse ser interrompida a qualquer momento por uma fatalidade  ou uma estupidez minha ou de outros...!) e teria gastado em cigarros dinheiro suficiente para, se reunido, pagar  uma viagem de volta ao mundo num camarote vip do “Queen Mary” (Pelo menos é o que dizem aquelas senhoras veneráveis que tudo sabem e sobre tudo opinam: as Estatísticas). Ter fumado na adolescência teria sido burrice, mas talvez fosse melhor ter mais cicatrizes no corpo do que no espírito, sei lá...
 


Não, eu nunca fumei e nem deveria ter fumado. Sei reconhecer quando tento me iludir com falsos raciocínios... Não lamento o fato de nunca ter experimentado o prazer de uma “pitadinha” porque depois de ver tanta gente quase ter um troço por ter de ficar algumas horas sem queimar um dia de vida (três, segundo as mesma sábias senhoras Estatísticas, mas acho um exagero) na ponta de um cigarro, dá-me calafrios imaginar que eu pudesse ficar refém de uma coisa cujo custo não compensa o benefício.


 
Mas se eu tivesse fumado na adolescência e ainda fumasse,  não me sentiria tão injustiçado pelo fato de meu irmão fumar desde os quatorze anos (tem trinta e três agora) e ter os dentes brancos como porcelana nova e eu, que nunca fumei porcaria nenhuma ter os meus amarelados como os de um fumante inveterado (excesso de antibióticos na gestação, segundo aquelas senhoras).  Não me parece justo ter o ônus sem ter o bônus, supondo-se que haja mesmo algum bônus em fumar. Droga de vida injusta! E droga de mania de reclamar da droga da vida!
 


A vida não é justa e quem me disser o contrário, ou é mal informado ou mal informado!

Não sei por que diabos o prazer de fumar um cigarro (careta ou do capeta), coisa que nunca experimentei acabou por se imiscuir nos meus já tão complicados sonhos, mas quando penso no gesto de fumar, penso em subversividade. Garoto da minha geração que fosse pego com um cigarro, pagava com o couro por aquele ato (como eu já disse antes, eram tempos duros aqueles).

Ainda não avancei o suficiente no estudo da psicanálise para atrever-me a fazer mesmo uma pálida tentativa de interpretação dos meus sonhos. Mas se eu fizesse uma “psicanálise selvagem”, eu diria que  ou tenho medo ou desejo de soltar algumas amarras, mentais ou morais, sei lá, e cometer algum desatino .

Talvez algo legalmente inócuo, mas moralmente condenável, como deixar os cabelos crescerem e formarem dreadlokcs (ainda vou fazer isso, nem que seja octogenário!!!!) ou fazer uma tatuagem e ir morar na praia, vivendo de vender bugigangas aos turistas e ser feliz como um condenado... Já ameacei parentes e amigos com coisas assim, mas sei lá porque, me parece que iriam preferir que eu fumasse a me verem tomar um rumo na vida que não fosse previsível, de acordo com a moral, os bons costumes e a porcaria de “modo de vida americano”. Parece que ser feliz  é menos aceitável socialmente do que o prazer subversivo do fumo...
 


Acho que meu inconsciente quer me dar um pito, como se dissesse em sonho que quem quer, não ameaça, não pede e nem espera permissão alheia para ser ou fazer o que quer. Simplesmente faz e depois se acerta com as conseqüências benéficas ou onerosas de seus atos...

Recado anotado, inconsciente! Assim que eu conseguir convencer as outras instâncias de mim mesmo, volte aqui e falaremos sobre dreadlocks e tatuagens.


 

Neve e Trigo




Da neve branca e farta bloqueando caminhos, rompem brotos verdes rumo ao céu;
Mas o frio expulsou-me da janela um pouco antes do cair da noite e meus olhos perderam o lento e belo fim do inverno. Minha lareira quase se apagou e eu precisei reavivar as chamas. Invejo a força das plantas sob o gelo, mas compartilho com elas seu amor ao sol.  Ergo meus braços a ele numa oração lenta algumas vezes, mas como toda divindade que se preze, o sol Ignora solenemente os meus rogos.


Minha casa é repleta de fantasmas, bem o sabes... E tua forma vem preenchê-la sempre de alegria, espantando as sombras, quando, exausta de viagens e farta de estradas, apetece-te passar algumas horas comigo à lareira. Então mesmo desperto, conheço um pouco do que é felicidade.

Haverá por certo pousos melhores que este, em lugares mais ridentes e paragens com mais cores, jardins bem cuidados e frescos campos gramados, terras amenas de vento suave... Mas nenhum que vá amar-te tanto,  mesmo a sombra do teu vôo quando partes, nenhum que deseje tanto o teu pouso esporádico, quanto a minha casa. Nenhum que reconheça suas plumas numa multidão de outras asas, anjo infinito de cabelos ao vento... E eu ainda serei o teu lar, porque só podes repousar em mim.

Se o mesmo vento soprar a apagar minhas velas... E olhando em volta ver que junto com minhas chamas, levou o vento suas asas diáfanas... Bem, a alegria por vezes dura um instante apenas, mas é um instante imbuído de eternidade. Haverei de passar a vida esperando esses instantes em que eu sou eterno...


E ainda que eu não coma pão, ganho por causa dos campos de trigo e sentirei o  cheiro dos teus cabelos no ouro dos raios do sol.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sobre uma frase em que esbarrei numa viela de BH


Erros de interpretação podem ser um desastre. Postei uma frase um tempo (salvo engano, em outro blog) atrás que dizia que “viver cautelosamente pode ser perigoso”. É uma ótima frase, pichada numa viela perto de um viaduto por onde passo todos os dias a caminho de casa. Não é difícil imaginar o que passava na cabeça do sujeito que a pichou. Gosto daquele lugar. É um local semi-abandonado pela prefeitura, onde artistas de rua e outros "subversivos" fazem suas intervenções como grafites, shows de rock debaixo do viaduto, distribuição de abraços,  manifestaçoes políticas e afins. Como é um local onde os moradores de rua costumam dormir, de vez em quando membros de uma igreja distribuem sopa e orações, tentando salvar a alma enquanto também cuidam também do corpo. Eu poderia arrazoar friamente que se trata de mais uma tentativa de arrebanhar alguns “cristãos de arroz”, mas isso seria conversa de alguém que contribui muito pouco para salvar corpo ou alma daquela massa de deserdados a margem da sociedade.

Enfim...

Voltando a frase, sempre que penso nela percebo o quanto sou medroso em relação a coisas nas quais eu deveria mesmo arriscar e me conforta o pensamento, talvez errôneo, de que a  maioria das pessoas se comporta do mesmo modo. Viver é risco, e sem risco, sem vida. O grande problema, é que algumas em coisas se pode arriscar porque  algumas perdas são facilmente reparáveis. Vem fácil, vai fácil. Simples assim. Mas naquelas situações onde o que está em jogo é-nos muito caro, a hesitação é uma constante e podemos perder o que tentamos manter justamente pela hesitação. É o inferno decidir o que fazer em seguida para não quebrar um vinculo, não desperdiçar uma chance, não falar a coisa errada e por ai vai. Isso é cautela.
Situação análoga a de um ornitólogo que a vida inteira procurou por um pássaro tão raro quanto esquivo e no dia em que finalmente o encontra, fica tão ansioso por fotografá-lo, que acaba espantando-o para longe antes de poder fazê-lo. Nesse caso é a precipitação que leva embora o que é preciso, mas não sei por que, eu acho preferível errar por excesso do que por falta de ação.

Estou divagando...A verdade é que hoje estou disposto a evitar o perigo de uma vida cautelosa. Mandei ao diabo toda a prudência e me sinto feliz sem sequer saber se tenho o direito a tal felicidade. Possivelmente, amanhã descubro que me precipitei, que cometi um erro de julgamento, mas isso é amanhã e TALVEZ . 
Hoje, roubo um pouquinho de alegria desse universo maluco porque o amanhã...Bem, o "amanhã trará suas próprias ansiedades" e haveremos de ver o que a maré trará ou levará para o oceanos da vida...
Nas palavras de Lou Salomé, Senhores;

Ouse, ouse... ouse tudo!!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.

Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!

domingo, 22 de maio de 2011

Linhas Breves


Porque é tenue a linha separando o beato do boêmio,
E seja por fé ou embriagues,
Não lhes pesa a realidade...
Morrem jovens, mesmo em franca senilidade,
Mesmo fartos de dias e cercados de netos,
Quando morrem sozinhos, tal como a este mundo vêm...

Escrever ou Calar




Escrever é uma  aventura para a qual cada vez menos me falta coragem (leia-se entusiasmo). Prefiro cada vez mais deslizar pelos pensamentos de outros e  calar a voz da minha duvida nas certezas agudas que as pessoas parecem ter em tudo, mesmo não podendo compartilhar de tais certezas. Isso me parece altamente sintomático...Quando eu escrevia para os outros, até que me virava bem, porque aí eu estava comprometido com o que iam pensar aqueles que me lessem e rebuscava um parágrafo, trocava um verbo, esmerava-me na retórica para que o discurso ficasse bom de ser lido, para que as pessoas pudessem com algum esforço auferir um prazer objetivo em ler-me como uma justa paga ao prazer subjetivo que eu tenho em lê-las.
 Lembro de Lispector dizendo como se sentia livre por não ser uma escritora profissional e experimento uma sensação de acides no espírito, porque agora que encasquetei de escrever para mim ( mesmo que seja para, como freqüentemente acontece, voltar a estes escritos depois de algum tempo e pensar “meu deus! Onde eu estava com a cabeça quando escrevi isso!?”), experimento o oposto embora eu nunca tenha tido a pretensão de ser  um “escritor” ainda mais profissional. Mas  me ocorre que estou sentindo uma obrigação inquietante não mais para com a forma, mas para com o conteúdo do que escrevo aqui. Sempre me pego na metade de um parágrafo paralisado, inerte pela súbita constatação de que não sei do que estou digitando. Sabia quando iniciei, mas agora fiquei na dúvida.  Talvez seja por fim um progresso na evolução do meu pensamento ou talvez um retrocesso, porque aquilo que levava meses ou anos para me despertar uma suspeita de inautenticidade intelectual, agora se me apresenta imediatamente após eu ter formulado um pensamento.
E eu poderia parar este mesmo post por aqui mesmo, em conformidade com esse meu constante estado de percepção da minha ignorância (que nada tem a ver com a famosa ignorância socrática. Não é uma ignorância ad valorem, mas de facto.), mas aí me sinto confortável, porque se tem uma coisa da qual estou certo, portanto habilitado para falar honestamente, é da minha ignorância.  Acontece que quando começa-se a questionar os motivos que influenciaram toda a sua educação cultural, os motivos reais por detrás da retórica vazia do ideal, percebe-se que a vida se parece em muito com um cenário mal feito de uma peça em que todos tem o seu papel  e mesmo desconfortáveis acabam cumprindo-os.  Então, despossuindo-me da autoridade de falar como alguém que sabe, conto com a indulgencia daqueles que me honram com sua visita, se eu soar por vezes ambíguo e levantar mais duvidas do que fazer afirmações. É apenas a minha maneira de ser honesto intelectualmente, uma busca por coesão de pensamentos. Isso é a minha vocação de agente do caos...
 Devíamos mesmo processar a Disney  e Holiwood por “estelionato ideológico-emocional”. Eu me empenharia nisso e caso alguém aí quiser entrar como litisconsórcio comigo, mande-me um email. Haveremos de fazer barulho e arrancar alguns dólares de Mickey e Cia, por terem ao longo de uma vida inteira nos iludido com um “ e viveram felizes para sempre, que não encontramos nunca num correspondente do mundo real. Mas claro, posso estar errado nisso também e falando movido unicamente por um momento em que todas as coisas pelas quais nos esfolamos parecem encolher e mirrar em importância...

Jack e Hyde - Um Encontro no Porto


Aviso. Minha narrativa não é boa e eu nunca me aventurei a escrever contos para que outros lessem porque tenho algum bom senso. Mas não o tive em dose o suficiente para evitar dizer a um amigo que havia escrito um e também não o tive para evitar prometer a esse amigo que ia postar no blog. Enfim, aqui está meu caro Gladstone.

Fantasmagórico seria uma definição suave para o porto da velha Londres. Apesar de ser  A Civilização, em pleno século 19 a capital do império não diferia da mais remota selva dos confins da terra. Ambiente dividido entre predadores vorazes e presas incautas, coisas obscuras se arrastavam no porto da Velha Londres... Coisas malignas sedentas do dinheiro, do sangue  e medo alheio.  Punguistas, prostitutas e velhos marujos bêbados de mar e rum ordinário, esgueiravam-se por entre a bruma; mas qualquer um que olhasse, diria que além da lua espectral em viagem pelo céu sombrio, nada se movia pelas ruas escuras.
Eram tempos ruins aqueles... Ruins numa época que já não era boa para os desavisados que perambulavam à noite.
Isso não parecia de modo algum perturbar aquele respeitável cavalheiro que, munido de bengala e cartola, respirava satisfeito o ar frio e nevoento. A sua figura era bem conhecida nas melhores casas, nos círculos da baixa e média nobreza. Sua respeitabilidade era notória em todos os ambientes bem freqüentados, o que não o impedia de, como todo predador noturno, esconder debaixo de uma capa pesada a figura de bom cidadão, deixando circular pela noite de Londres, o feroz assassino conhecido pela alcunha de “Jack, o Estripador”.  Jack estava felicíssimo. Demorariam para encontrar o corpo e ele poderia acompanhar nos periódicos o pânico da sociedade londrina e o constrangimento de sua ineficiente policia. Procuraria pessoalmente o chefe de policia e exigiria, como lhe cabia como cidadão e nobre, a imediata prisão do criminoso que assolava Whitechapel  e agora atacava o porto.
Enquanto placidamente batia a ponta metálica da bengala nas pedras gastas do calçamento sujo, “Jack” relembrava os  mágicos e últimos momentos da “mundana” cujo corpo deixara nas pedras do porto e pensava em como era bom estar vivo. A vida era boa e “Jack” estava feliz...

Na direção oposta, cabriolando alegremente nas poças enlameadas, vinha um satisfeito Mister Hyde. A noite havia sido boa também para ele e enquanto nas profundezas de sua mente vil um perplexo Henry Jekyll  se angustiava, Hyde cantarolava uma canção obscena que aprendera com os marujos do pub, enquanto seguia sob a lua fria de outono. Um festim dos demônios alegrava sua memória... Lembranças doces de um espancamento no pub, um jogo de gamão trapaceado e uma orgia numa casa mal freqüentada em rua escura. Depois, quando a noite ainda era uma jovem cheia de promessas, um trabalhador do porto que levava para casa suas costas alquebradas de cansaço, teve o azar de encontrar Hyde, que justamente nessa noite resolveu atender a um capricho de seu desejo. Haveria um pai de família a menos em casa hoje e um estivador a menos no porto pela manhã. Hyde não ligava, é claro. Matou um inocente e havia gostado. Experimentara sangue e estava inebriado de alegria por tê-lo feito. No bolso da longa capa levava a pequena barra de ferro que usou para quebrar, primeiro o espírito, depois os ossos do estivador. E gargalhava ao imaginar o que pensaria o bom e gentil Dr. Jekyll quando encontrasse pela manhã aquela “prenda” nos bolsos, coberta de sangue e de memórias!  Ah, certamente o bom doutor encontraria dentre os muitos subterfúgios que usava para justificar as razões que o levavam a tomar sua fórmula, um que apaziguasse sua mente culpada pelas atrocidades cometidas por seu alter ego.
E vinham, Hyde pensando com alegria no tormento do doutor e “Jack” sentindo um êxtase quase místico por ter dado vazão a sua necessidade macabra,  e tão concentrados estavam em seu deleite assassino, que só deram pela presença um do outro quando estavam a apenas alguns metros de distância.
O primeiro impulso de “Jack” foi o de se esconder nas sombras... Apenas bandidos circulavam pelo porto àquelas horas, ou na pior das hipóteses, policiais e era esse ultimo tipo justamente o que o respeitável cidadão não gostaria de encontrar. Hyde não se importava em absoluto com o que ou quem viesse pela frente, conquanto pudesse auferir disso algum prazer sádico e manteve o passo firme, enquanto seus dedos agarravam a pequena barra de ferro. “Jack” não tendo tempo de ocultar-se, manteve o mesmo passo, tendo, entretanto o cuidado de abaixar a cartola e subir a gola da capa, de modo a ocultar como pudesse seu rosto. Assaltante ou policial, o homem que caminhava em sua direção parecia estar só e embora a presa principal de “Jack” fosse outra, qualquer um que tentasse opor-se a ele em noite fria e cais deserto, haveria de descobrir como era hábil com uma navalha. Pensou melhor sobre a questão. “Não! Não a navalha!” Aquele era seu instrumento predileto, com o qual mandava para o outro mundo suas presas selecionadas... Não haveria de aviltar sua navalha com o sangue de um homem! Mas sua bengala era  revestida de ferro polido  e ele era um homem de compleição forte. Teria de servir-se dela para despachar ao inferno o seu antagonista.
O passo firme do outro de modo algum fez com que Hyde hesitasse. Na verdade, apetecia-lhe lidar com um valente! Um predador digno não se satisfaria nunca com uma presa passiva. Que resistisse então! Ao contrário do que o senso viria a dizer muito mais tarde quando o caso do “médico e o Monstro” viesse a público, Hyde era de compleição franzina e pálida, o que a exceção dos seus olhos, lhe dava uma aparência inofensiva e por isso muitos o subestimavam. Hyde sabia tirar partido desse engano e essa noite não seria diferente.
Parando frente a frente, fera e fera se encararam e imediatamente souberam que alguma coisa estava muito errada. Não havia presas no porto naquele momento, mas apenas predadores perplexos por encontrar um semelhante.
A despeito do tamanho mirrado do outro, “JacK” já não estava tão seguro de sua capacidade física, nem com a bengala de ferro e nem com a navalha. Sentia um odor almiscarado exalando do outro e seus olhos encontraram no olhar do outro, uma ferocidade que só em pesadelos imaginara existir numa criatura humana. Hyde por seu turno, afrouxou os dedos da barra de ferro e transpirava inquieto, sem saber o porquê de um homem, menos corpulento do que o outro que matara a menos de uma hora, lhe causar um mal estar tão grande. Jack tinha olhos de frio metal,  raiados com relâmpagos de sangue...O outro os possuía amarelados, embebidos num brilho de selvageria irracional. Seu encontro foi de uma brevidade que tomariam como um sonho negro.  Suor escorria pelas costas de Hyde, enquanto “Jack” retesava seus músculos em alerta.  A avaliação que fizeram um do outro foi breve, mas reveladora o bastante  para que ambos soubessem que numa luta, nenhum deles sairia vencedor
 Como numa coreografia ensaiada, ambos deram um passo para trás. A pugna estava decidida. Antes de partirem, “Jack” tocou levemente a aba de sua cartola numa mesura cavalheiresca, ao que Hyde respondeu com uma risada nervosa. Fizeram a volta pelo caminho que vieram e embora todos os demônios do pavor lhes recomendassem que deviam correr, nenhum deles o fez. Andando vagarosamente, desapareceram na neblina sem olhar para trás.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dor de Cabeça


Estou com dor de cabeça. Fiquei assim o dia todo e a julgar pelo andar da carruagem, ela vai persistir madrugada adentro.
Se for parar para pensar, até que é uma coisa boa ter uma dor de cabeça. Porque os engraçadinhos têm certa razão e da dor concluo que eu TENHO uma cabeça que dói, ou seja, a dor não é a única coisa que tenho. Parece bobagem e talvez seja mesmo, mas é também um pensamento otimista se for comparado com a triste constatação de que por vezes, a dor é a única coisa que te lembra que você ainda tem algo ou que está vivo. A hora em que a dor cessa, já não há mais esperança para o moribundo. Viva a dor de cabeça! :)
Essa ambivalência dos sentidos é que torna a vida complicada e um complicador às vezes. Tem que diga que a vida é um  “eterno desejo a se realizar”. Outros falam em “viver intensamente”. Quero, com honestidade compreender e não apenas fingir, como freqüentemente fazem os propagadores entusiastas dessas idéias, o que é realmente “viver com intensidade”.

Desejo a se realizar... Do modo como a coisa é posta, parece então que viver é buscar algo com afinco e se eu busco, logo vivo. O quão intensamente, creio, seja uma questão de quanto eu alcanço nessa busca. Talvez fosse mais fácil se eu buscasse coisas materiais, digamos, dinheiro, para simplificar as coisas. Talvez fosse possível viver com alguma intensidade, porque consigo imaginar uns mil e seis modos de se conseguir dinheiro. Essa minha atitude um tanto desapegada das coisas materiais não é sensata, porque vez por outra tenho de recorrer a cartão de credito ou cheque especial para comprar um livro ou pagar alguma conta de ultima hora. Azar meu!
Mas me consola saber que por mais dinheiro que eu ganhasse, tanto mais gastaria e nunca seria o bastante para que eu parasse de desejar as coisas. E nas raras ocasiões em que sei lá como, consigo por a mão numa quantia razoável, a intensidade da vida vivida dura tanto quanto durar o dinheiro e como o preço das coisas anda nas alturas, viver com intensidade tem se tornado cada vez mais caro, portanto, mais breve. E o que eu disse sobre dinheiro vale para todas as buscas materiais: São coisas que valem e não valem a penas buscar, porque são coisas que se perdem fácil demais.
Daí, não sei quando, encasquetei de viver intensamente através de uma busca alucinada por compreensão. E antes que alguém pense que a busca por conhecimento seja algo nobre ou virtuoso, me deixe avisar que no meu modo de pensar, conhecer uma coisa é dominar essa coisa, logo, a busca por conhecimento é na verdade uma busca por poder.
O problema é que há aqui também uma ambivalência do sentido, porque quanto mais aprendo, junto à boa sensação de poder oriunda do conhecimento adquirido, rasteja uma compreensão dolorosa do quanto ignoro. Quero dizer, aprendi algo que há um minuto não sabia e percebo que há muito e muito e muito que eu não sei e o fato de ter a minha frente uns 30 ou no máximo 35 anos de vida, percebo que não disponho de minutos o suficiente para compreender sequer a mínima parte daquilo que não sei. Ignorância ampliada pela compreensão.
É um tipo de dor de cabeça intelectual e enquanto penso nisso e a noite avança junto com a dor de cabeça, procuro o ultimo dipirona na mochila, enquanto considero seriamente se não seria melhor abandonar essas ponderações e me empenhar em dar umas irmãs de 50 e 100 para as minhas ultimas notas de 5 e 10 reais...

sexta-feira, 29 de abril de 2011

E nunca se esqueça:



De mim...
Do mundo...
Do que há de errado ou certo em mim e no mundo...
Dos seus defeitos...
Da sua obstinada busca por perfeição...
De sua própria  dor...
Da sua paixão teimosa por sua dor...
Daquilo que te compõe...
Daquilo que te desconstrói...
De tudo o que quiseram te impor...
Daquilo que a que você mesmo se obrigou...
Daquilo que fizeram a você...
Daquilo que você fez com o que te fizeram...
Das decisões que você tomou...
Das decisões que você deixou de tomar...
Das viagens que você não fez...
Das oportunidades que você perdeu ou aproveitou...
Das pessoas que você não conheceu...
Das esquinas nas quais você não virou...
Dos risos compartilhados e das  lágrimas solitárias...
Das lembranças boas e das que te atormentam...
E de tudo o que viveu ou deixou que caísse no limbo,
nos momentos em que o medo da vida superou o medo da morte...
Lembre-se...
Você é livre...

É só uma questão de escolha...

Mas escolha com cuidado,
porque você é também  livre 
Para escolher ficar numa gaiola...

...

Balão Solto


Sonhe, porque é bom sonhar e em algumas noites Morpheus não cobra prendas.
Alargue o reino de sua imaginação e colha corações em ramalhete num campo cultivado de batatas...
Enfeite seus olhos com estrelas e coroe a sua cabeça com uma nebulosa, porque é vasta a alma que sonha, maior do que o poder dos deuses...

Sente-se nas nuvens e agite os pés sobre o vácuo. De lá, lance pedrinhas na superfície calma do lago do mundo quando dorme. Podem ser fugidios os sonhos felizes de tempos verdes. Podem ser intensos os pesadelos de noites abafadas. Suas pedrinhas hão de agitar meus devaneios noturnos em ondas suaves, em espirais do centro a margem...

Se estiver caminhando pelo ar, caso encontre Deus, diga a Ele ou a Ela, que eu não sei rezar e tampouco sou um tipo virtuoso, mas esforço-me para viver sem muitos arrependimentos. Acho que algumas vezes consigo.
E sou acordado pela quarta vez esta noite pelo pulsar de uma cidade que não dorme. Uma sirene berra em algum lugar e uma criança faz coro com seu choro. Cachorros vadios  entoam cânticos perdidos em alguma esquina e alguém esqueceu o rádio ligado.

 Há modos vários de enlouquecer ou se iluminar.
Alguns poderiam até mesmo romper a corrente que me ancora ao planeta.
Livre deste lastro, eu cairia para cima e perder-me-ia acima da ionosfera. Solto da minha forma flutuante, ele poderia cair na imensidão do céu. 
Seria espetáculo dos mais singulares; seis bilhões e uma alma gritando enquanto caem no céu em direções opostas.

Era assim que eu queria ser: 
Não tão firme, não tão certo do que não sei, nem tão fluido, moldando-me àquilo que não me contém , mas rarefeito, gasoso..Livre o bastante, para escapulir por entre as pequenas brechas do mundo...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Übermensch



Dizem que o que não mata fortalece. Se assim é, devo estar em vias de tornar-me finalmente um super-homem, porque ao término de um dia mais do que cansativo em muitos sentidos ( gostaria de poder hibernar como fazem os ursos, por semanas a fio e assim tirar férias de mim mesmo), não morri.

Mas antes que eu seja tomado por delírios de poder e saia por aí exibindo um "S" no peito, com ânsias de “salvar o mundo”, tenho de me lembrar de um desafio que me foi suspirado num sonho:

 “Talvez, Sahge, você  se imagine um tipo qualquer de profeta heróico, em missão divina, porém, antes que comece a sair por aí pregando a sua verdade a fim de mudar o mundo, eu te proponho um desafio menor. Ao invés de tentar mudar a humanidade, tarefa hercúlea cujos resultados podemos prever, te desafio a mudar UMA ÚNICA PESSOA! “

“...Certo. Reconheço que ainda assim, é um desafio inglório, porque você vai ter de lutar contra o desejo dessa pessoa em permanecer a mesma, em não mudar e, meu amigo, não há nada mais rebelde e difícil de domar do que uma alma humana. Então, eu te proponho que tente mudar a si mesmo. Faça-o se puder. Sei que sua vontade está de acordo com isso e que você vai colaborar com seus esforços...Não a humanidade, nem uma pessoa alheia a seu desejo, mas a si mesmo. Pode parecer paradoxal, mas se analisar a coisa com calma, vai perceber que te propus um desafio maior e mais difícil do que mudar a humanidade. Mude a SI MESMO e depois volte aqui, e haveremos de falar em mudar o mundo...”


Odeio esse tipo de sonho enigmático. Odeio me lembrar com detalhes desse tipo de sonho. E odeio ainda mais ter a minha vaidade messiânica questionada pela razoabilidade fria da minha razão ( um amigo chamou-me a atenção para a redundância de falar em "razoabilidade da razão" e eu concordo com ele. Isso ficou péssimo de se ler. Mas eu estava e estou pensando na Razão como algo a parte do indivíduo e independente de sua vontade, como se esta fosse uma entidade. Também não faria sentido falar em "loucura da Loucura". E paro por aqui, porque senão farei menos sentido ainda, o que eu acharia ótimo, mas não atenderia ao anseio linguísatico do meu amigo. Mea Culpa feita, Antonio...). Mas não posso simplesmente lançar meu superego monstruoso pela janela. Ele é pesado e pode acabar esmagando algum transeunte. E vai me culpar (como é de hábito) por uma morte inocente.

Deixe estar...Já sinto culpa demais por aquilo que não fiz para acrescentar mais esta carga em meus super-ombros, que já carregam o peso do planeta ao cubo! Permitam-me exagerar no dia de hoje, porque um homem que carrega a consciência da própria estupidez é o homem mais sobrecarregado do mundo... Talvez eu não esteja mais forte, mas pelo menos também não estou morto.

domingo, 10 de abril de 2011

Lembre-se


Desinvente
A coisa que criaram com os estilhaços de seus sonhos...
Isso pode ser tudo e nada, mas não é você.
De modo algum isto é você...
Acalme-se,
Contratos de compra e venda de alma não tem valor legal.
Você ainda é livre.

Oscile, porque toda a certeza é apenas a soma
Da estupidez daqueles que almejam a falsa segurança.
Entre na fila da ordem, pegue um número,
E aguarde a sua vez de fingir ser feliz...
Ou evolua no caos,
Onde borbulha e transborda uma existência de significado...

E quando estiver olhando para o abismo do nada,
E seu coração fraquejar sob o peso do medo,
Quando chorar na solidão e ninguém te ouvir
Lembre-se...

Que o abismo é grande, mas cabe num buraco de fechadura
Que é menor do que o seu olho.
Que o vazio não é maior
Do que a sua consciencia que o abarca,
E que sonhos enferrujam, se deixados na chuva.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Anseio, Arte e dom inato... - By Sahge

 


Eu me lembro de uma definição singular que uma amiga usa para definir a inquietação: Para cada solução eu arrumo um problema. Difícil pensar em qualquer outra coisa que descreva com maior primor esse estado constante de agitação, como se eu fosse uma fábrica de três turnos a produzir o caos, e sem mercado consumidor para escoar a produção. Talvez eu acabasse criando algo que fosse útil a alguém, caso me dispusesse a fazer com meu tempo, mais do que conjecturar o absurdo, dessacralizar o  divino, perscrutar aquilo que é irrelevante...

Era mais fácil quando me imaginava um tipo qualquer de artista, porque eu pensava que quando o homem é privado, por algum motivo, daquilo que o distancia da natureza, a saber, o trabalho, retorna a este mesmo estado de natureza, desprovido de sua humanidade. Mas enquanto o trabalho, tal qual o concebemos nos alça da condição de humanos para máquinas por seu utilitarismo (uma preocupante inversão da evolução que deixa de ser natural e passa a ser cultural), a arte nos liberta... E eu gostava de me imaginar livre.

Ela é a mais refinada forma de trabalho e a única que é plena em seu significado, pois sua finalidade e seu  simbolismo estão contidos não num resultado ou num lucro, mas  naquilo a que se propõe: a própria arte.

Num livro sobre Psicologia Existencial (A Negação da Morte, por sinal, excelente livro!), li que "artista, é um neurótico capaz de criar". Que seja. Na falta de uma definição que não seja dada pela própria arte, esta me parece tão boa quanto qualquer outra, e como o normal é ser "razoavelmente neurótico", eu diria que artista é um ser humano capaz de criar. Quer me parecer que esse dom oscila de vez em quando em momentos em que curiosamente a inspiração é muita, mas a capacidade para traduzir essa força em versos, música, pintura ou outra forma de arte se acha ausente. E eu tento me resignar a isso e contornar esse anseio por criar no nada, porque gente muito melhor do que eu sucumbiu por excesso de humanidade. E é exatamente isso que é a inquietação, que nos fez descer das árvores ou abandonar o Éden: O arbítrio da  nossa humanidade.

Esta noite, na aula de Psicologia Humanista (contra a qual não me é possível  deixar de fazer muitas ressalvas), falávamos sobre potencial e talentos inatos. Parece-me que podemos acabar chegando a conclusão de que muitas pessoas podem até desenvolver um grande talento em muitas áreas, mas algumas demonstram um dom maior para outras atividades. Enquanto rabiscava um poema ( que como outros tantos provavelmente ficará inacabado) , fiquei tentando descobrir o meu, já que parece que minha arte, que talvez não fosse algo de extraordinário, mas que me deixava amplamente satisfeito, resolveu desaparecer como se eu tivesse me tornado cego para tudo que não fosse o absurdo do mundo.

...
Talvez amanhã eu possa fazer melhor (um anseio que talvez me tire o sono, talvez me adormeça), mas hoje, foi tudo o que consegui espremer do meu espírito. Tenho de ser menos exigente.


...Sentir o invisível além dos sentidos e se angustiar além do razoável...Mas que droga de super-poder!
.

domingo, 3 de abril de 2011

Duas Razões...By Sahge

Uma para felicidade!!

Ozzy Osbourne no Mineirinho dia 09 de abril de 2011



Bem no quintal de casa...EU VOU!!!!!!!!!!!!!!!!! :)




E duas para tristeza...

V Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana - enapol




...e 7º CONPSI



 Longe de casa e durante o semestre letivo....EU NÃO POSSO IR..... :(

quinta-feira, 31 de março de 2011

Festinha - By Sahge


Espero que no dia em que meu Eu dobrar sobre si, eu ainda me reconheça apesar do tanto que deixei o mundo e meu próprio e tolo capricho amarrotar-me. Deixar, ainda que momentaneamente, que te molde o mundo ou o seu desejo de fazer parte dele é receita certa para um desastre, no qual o Eu acaba por sofre duros golpes na firmeza de sua força individual. Sua convicção vacila e os limites daquilo que é da cultura e daquilo que é seu, se esvaecem, o boêmio se confunde ao beato; e onde não há fronteira, há o tráfego e o tráfico de idéias que não são suas. Há o transe e o trânsito de pensamentos e anseios alienígenas ao Eu.


Deixe que entrem em si. Deixe!


Será como uma festa na qual aqueles poucos que receberam o seu convite, trouxeram consigo outros não convidados e estes também trouxeram uma companhia análoga. Somados a estes e aos anteriores, uma multidão de penetras adentrou a sua festa... E reviraram sua casa, sujaram seu tapete, transformaram sua pequena festa numa rave desordenada, comeram, beberam, incomodaram seus vizinhos, não fizeram o menor caso de cumprimentar o anfitrião e depois de reclamarem a noite toda da festa “mixa” na qual nada comeram e nada beberam ( a despeito do fato de você ter posto a disposição destes seu estoque mensal ou semestral de víveres e esvaziado a sua adega), vão se na noite sem sequer despedirem-se de você, deixando-lha uma pilha de pratos sujos, garrafas vazias e aquela sensação de que você se comportou como um tolo por ter feito a festa, para início de conversa.


Ainda não sei o que é pior; não ter forças para certas coisas em alguns aspectos e assumir isso, ou amparar-se na força de outrem se esquecendo da própria limitação.
O que eu sei, é que toda vez que vejo aquele “piedoso” e arrogante sorriso, no rosto de pessoas claramente vazias de si quando suspiram pelo “céu dos virtuosos” sem ao menos estarem honestamente convictos de que existe mesmo um céu, mais ardentemente desejo assegurar o meu lugar no inferno, porque me parece que é para lá que são enviadas as almas mais densas.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Caos Numa Esquina - By Sahge




Escrevendo errado em linhas tortas finjo ser um poeta,
(decentemente, segundo uns, mas considero isso um elogio injustificado e imerecido),
Rabisco o Caos disfarçado em versos sem rima...

E porquanto o Caos pulsa-me nas veias e flui em minhas idéias,
Atrai-me a ordem e simetria das pequenas e grandes coisas,
Semelhante a mariposa fascinada pela chama.

Enquanto escorrego para casa, atravessando a noite fluida,
Experimento o subversivo e quase místico prazer de andar de olhos fechados...
Headfones me nutrindo de Stoa:
"ignis, quo crucior
(das Feuer, das mich quält)
immo quo glorior
(aber zugleich erhöht)
ignis est invisibilis".

E lá me vou numa cegueira auto-imposta
Pelas calçadas apinhadas e ruas de infernal trânsito...

Isso tudo é sonho, é claro...

A verdade é que fiquei ali parado numa esquina incapaz de mover-me...
Pensava se em algum momento você passou por ali,
Por aquela mesma esquina, imersa em pensamentos,
Como eu, andando em sonhos...
Enquanto isso contava o fluxo de pessoas e carros apressados,
E perdi a conta de quantas vezes perdi a conta.

Lembro-me de algo que você disse e penso enquanto me vou na noite:
Se as pessoas são sonhos (e sei bem quem são os meus),
Se estou sendo sonhado ou sou a imagem de um pesadelo (que seja),
Quem é o sonhador que a mim dá forma e substância onírica?
E o que acontece se ele acordar?
Será o despertar dele...Ou o meu?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Não há silêncio - By Sahge




Da morte não temo a vida, porque se a temesse
Evitaria como um louco a sua irmã gêmea.
São indistinguíveis no escuro, o choro ou o riso
E quem escuta?
Confundem-se no absurdo do contar de horas e anos.


Que faz existir um oceano senão gotas e rios perdidos
Que nele imergem sua unidade para se fundirem
No nada que é tudo?


Meu coração não é feito do sangue que bombeia,
Nem das fibras que alimenta,
Mas de cada batida dolorosa.
De cada batida lenta e dolorosa!

Cada passo em direção à morte me lembra de que estou vivo
E isso pode até ser redundância, mas
Cada vez que perco o fôlego, cada instante em que sufoco
Torna mais precioso o ar que respiro.
Minha vida
É feita de cada belo momento em que morro um pouco.

Eu olhei em teus olhos e menti a única mentira que conheço.
A de que nunca te amei menos do que fui capaz por vontade...
A verdade, (negue se quiser, és livre!)
É a de que não existe no mundo verdade alguma
Senão a de que você e eu somos um.
Confundidos como um híbrido de Céu e Inferno.
Uma aberração, uma linda e reluzente aberração.

O medo corre em suas veias como um veneno
Corroendo os seus dias como o tempo corrói a sua carne.
O medo de descobrir que nada no mundo é real
Exceto aquilo em que não acredita.


Eu,
Eu nunca vi um abismo sem querer me atirar ao fundo
Nem conto voar ao fazê-lo, mas sentir na queda o vento no rosto.
Mais um instante de vida enquanto caio!
Nunca fugi de um pesadelo ou da decadência.
Nem de presas, garras ou olhos maus no escuro.

Mas fujo das visões que pairam sobre a minha cabeceira...
Visões do teu corpo nu na luminescência da noite,
Flutuando no céu dos meus desejos inebriados.
E corro da lembrança dos teus lindos olhos lânguidos,
E da sua alma prateada,
Que faz meu sangue correr como lava.

Ah, eu contava encontrar no vácuo do nada o silêncio
Que calasse toda a vida que pulsa em mim.
Contava silenciar a humanidade que me desperta a tua memória.
Só não contava que no vazio que há, não há silêncio...
Há que se preencher com aquilo que mais se ama.

MARFIM - By Sahge




Não há de me atormentar o desejo de ser atormentado.
Pelo desejo que me atormenta.
Para sempre.
Beijo lábios frios, desejando que sejam frios.
Mas escrevi teu nome em letras de fogo, como num sortilégio,
Distraindo-me em adivinhar no céu da sua angustia
Mil motivos para que não me veja olhando-te de volta
Quando te miras num espelho.

Oh, seríamos a erva e o sol, o canto rouco do vento
E o silêncio da tarde.
Ela se arrasta preguiçosa e eu conto nuvens no azul.
Eu recordo dos dias felizes em que eu era como esse sol
E te banhavas em minha luz.
E todas as tardes eram preguiçosas como essa.

Todos os dias minha loucura grita.
Que eu tenho o direito de esquecer o ângulo perfeito de teu rosto
E o circulo maravilhoso desse olhar febril que me despe sem me ver.
Mas que homem em sua sanidade
Escuta o que berra a sua loucura?

Imaginei o mundo como um louco carrossel multicolor
E eu a girar com ele,
Vejo o mundo em cores indistintas.
Um bêbado num carrossel.
Imaginei tuas formas sensuais sendo esculpidas em marfim,
Conseguido ao custo do sangue de muitos homens.
Sangue parece ser sempre o preço a se pagar pelo maravilhar dos olhos.

Seja por vicio poético, seja por escassa imaginação
Comparo-te aos materiais deleites que meus dedos podem tocar.

Fosse de ouro o teu corpo e safiras os teus olhos,
Com algum esforço eu te teria em meus braços.
Mas és de carne e sangue, forjada no amor de teus pais.
E nada é mais precioso do que carne, sangue e amor – Poesia!

Então, não te tenho e nem te toco,
Senão com um ou outro delírio fugaz que me permito.

Então se és toda poesia, se és feita de amor,
De que me serve todo o ouro e o delicado marfim do mundo?

domingo, 20 de março de 2011

El Toboso, la bella - By Sahge




Tomei-me de amores por ti,Toboso...
Encantei-me pelo cinza de suas pedras aquecidas pelo sol.
E tão extasiado estava pelo calor de sua beleza,
E pelo azul límpido desse teu céu ridente,
Que nem mesmo noteis os negros olhos
E a sinuosidade voluptuosa da morena ao passar.

É-me notável que sejas mais bela,
E mais envolvente do que una mujer con los ojos negros...
E que eu queira perder meus pensamentos e suspiros
Nas tuas seculares paredes musgosas,
Em teus muros cobertos de heras antigas e de noble sangre,
Em tuas escadas de gastos degraus...

Às seis, anunciam os sinos a hora do Angelus...
E eu, infiel distante dos altares e das divinas graças,
Envio minhas preces não para cima, mas por tuas ruas estreitas ou largas,
Apinhadas de gente e história, ou vazias de ambas as coisas,
Indo deitá-las nos púlpitos pagãos das florestas em volta,
Pedindo a todos os deuses bosquíferos, vivos ou mortos;
Que permitam, segundo seu capricho,
Que tudo destruído seja,
Que não haja mais Espanha ou Castilha – Tanto se me dá!
Mas que preservem a ti, bela Toboso de pedras quentes,
Aquecidas pelo sol e amor dessa terra azul...
Porque en las calles incluso se mueven las formas bellas de Dulcinea...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Um bom negócio.





Dei-lhe uns trocados e recebi um sorriso.

Sincero, porque apesar do seu estado de mendicância, não me pediu nada. Evitava pedir aos homens. Pedia às mulheres supondo talvez que nestas por serem mais sensíveis, ele poderia despertar um sentimento de compaixão. Eu o observei durante um bom tempo. Estávamos ambos melancólicos; Ele pelas razões óbvias e eu, dentre o muito que arde na cabeça e no estômago, por causa desse tempo nublado que se abateu sobre minha cidade e sobre meu espírito.

Calçada encharcada e suja; um frio dos diabos, no vento e no olhar das pessoas que passavam sem ver o homem invisível sentado numa pilha de andrajos, e eu momentaneamente esquecido da minha raiva pela demora do maldito ônibus. O contraste das gotas de chuva no neon dos letreiros e gente apressada se acotovelando nas portas dos “para-todos” lotados. E ele ali, com aquele olhar angustiado ( se treinado ou não pela pratica cotidiana do pedir-sem-receber, não se dizer);
“Ô Dona, me da uma ajuda?”.

Acredito que ele já estava nisso a um bom tempo, porque enquanto sua boca repetia aquela cantilena a que ninguém parecia dar atenção, seus olhos embaçados, sei lá se por catarata ou álcool, parecia anunciar que ninguém “estava em casa”. Parecia que sua imginação, etílica ou idílica por si, o levava para fora da sarjeta e do frio, para longe do corpo sujo e enregelado... Talvez seja apenas uma impressão minha... Talvez eu tenha essa tendência a psicologizar tudo, até a mendicância. Porque até que fatos me mostrem o contrário, tudo é psicológico. Até a miséria, dele caído na sarjeta, e dos outros caídos em sarjetas mentais, não menos frias.

Finalmente o ônibus veio. Parou no sinal a um quarteirão antes do ponto. Tive pouco tempo então para tomar qualquer atitude e não gosto de pensar que agi movido por compaixão ou por generosidade. Tenho de tomar cuidado quando avalio minhas motivações porque não raro sou justo ou injusto demais para comigo mesmo. A verdade é que me senti irmanado daquele sujeito invisível, cujo corpo pedia um trocado, mas cuja mente estava alhures... Porque sinto que às vezes me sinto desse modo, dicotômico em relação a realidade, no automático.
Claro, estou psicologizando isso também.

A verdade é que eu quis dar a ele um trocado por razões minhas em que eu nem pensei. Talvez seja apenas para zombar daquele discurso que diz que não se deve “incentivar a mendicância ou que as esmolas são usadas para comprar drogas e bla,bla, bla”, desculpas perfeitas para não se importar, para fingir que a tragédia do outro não lhe diz respeito. E eu não ligo se ele usou para comprar cachaça ou pão, coisa que ele conseguiria independente da minha atitude . O que eu sei é que no momento em que lhe dei um trocado (que ele não pediu) e pus a mão no ombro dele (coisa que ele não esperava), trouxe um sorriso sincero e um brilho no olhar opaco de um ser humano de quem a vida tirou absolutamente tudo. Nunca paguei tão barato por algo que tivesse tanto valor.

Pensando bem, não fui generoso ou compassivo. Não fiz nada por aquele homem. Fiz um bom negócio.

domingo, 13 de março de 2011

Yets, em quatro lindas versões


Abaixo o meu poema preferido de Willian Butler Yets em quatro magníficas traduções. Impressionante como lendo nas quatro versões, parece serem diferentes poemas, sendo no entanto facilmente reconhecido o seu teor.


Tivesse eu dos céus os bordados tecidos
Adornados com áurea e prateada luz,
Os azuis, delicados e escuros tecidos
Da noite e da luz e da meia-luz,
Eu os ajeitaria por sob teus pés:
Mas eu, sendo pobre, só tenho os meus sonhos;
Eu postei os meus sonhos por sob teus pés;
Sejas leve ao pisar, pois pisas em meus sonhos.

Tivesse eu o céu, bordado em panos
com ouro e prata feitos de luz,
Azuis, e opacos, e escuros panos
em difusa e profusa e nula luz,
Eu poria os panos aos teus pés.
Mas eu, bem pobre, tenho só sonhos
Eu pus os meus sonhos aos teus pés
Pisa suave, que pisas em sonhos.

Se eu tivesse o manto bordado dos céus,
Tecido de veios de luz de ouro e de prata,
De pano azul, escuro e opaco
Da noite, a luz e a meia-luz,
Eu estenderia um manto sob teus pés: 
Mas, eu, tão pobre, apenas posso sonhar;
Estendi meus sonhos sob teus pés;
Pisa devagar, pois pisas sobre os meus sonhos.

Se meus fossem os tecidos do céu
E os azulados bordados de outro e de prata
E do azul escuro e fosco
Da noite a luz e a meia luz
Como um manto, eu os estenderia aos teus pés.
Mas sendo pobre, apenas tenho os meus sonhos
Eu estendi os meus sonhos aos teus pés
Caminhas devagar, porque caminhas sobre meus sonhos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Apreendendo e apreendendo tardiamente - By Sahge

O grande gênio de Mary Shelley cunhou isso:

Por que há de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se restringissem à fome, à sede e ao desejo, poderíamos ser quase livres. Somos, porém, impelidos por todos os ventos que sopram, e basta uma palavra ao acaso, um perfume, uma cena, para provocar-nos as mais diversas e inesperadas evocações.
Dormimos.
Eis que um sonho nos envenena o sono.
Despertamos.
Um pensamento errante contamina o dia.
Sentimos, imaginamos, refletimos, rimos, choramos,
Abraçamo-nos à dor, ou libertamo-nos das penas,
Vário é o caminho, mas para a alegria ou a tristeza,
É sempre franco,
O amanhã jamais igualará o ontem;
Nada, exceto o mutável, pode perdurar!

Eu cheguei a pensar num tempo ido, que havia compreendido essas palavras de Mary, dado o grande impacto que em mim causaram. Se eu ao menos fosse tão bom em compreender as palavras com a mesma intensidade com que as sinto, então, tenho certeza, eu seria um grande gênio, talvez até mesmo do porte de Mary Shelley ou do seu. Isso não acontece e me frustro sendo incapaz de compreender as palavras ou mesmo impedir que me penetrem a consciência com tanta força. E como quase tudo acontece tardiamente para mim, só hoje compreendi, em harmonia com muito do que você disse, o que essas palavras querem realmente dizer.

Daí apreendi que é mais apropriado à minha flexibilidade e mutabilidade mental, pautar-me mais por idéias (que libertam) do que pelos ideais (que aprisionam).
E isso não é contraditoriamente prender-me a um ideal (o das idéias), mas uma tentativa de fazer com eu me torne o que você foi por toda a sua vida:


Um ser dialético.

Algo que me ocorreu longo de um longo dia... - By Sahge

Urge que o  Eu torne-se cada vez mais uma autoconsciência da própria unidade e singularidade, e não um mero pronome repetido a exaustão numa retórica vazia, que serve unicamente para a autopromoção num meio.

terça-feira, 1 de março de 2011

Fragmentado - By Sahge



...E daí acordei me sentindo estranho. Era, é claro, um sinal de que estava tudo bem, porque eu sempre acordo me sentindo estranho. Sentia porém, que algo estava diferente sem que eu soubesse exatamente o que. Aquela sensação de estranheza  era enervante, porque estou quase sempre com pressa, mesmo em relação a coisas sem importância, e ter de ficar tentando descobrir percepções por detrás de sensações que nem consigo definir enquanto o relógio ditador controla minha vida, aborrece-me em demasia. Queria ao menos não acordar tão exausto...

As pessoas dizem, e eu não tenho razão alguma para duvidar delas, que existe uma coisa chamada “uma boa noite de sono”, mas se isso realmente existe, o conceito me escapa completamente. Uma noite repousante, sem ter de lutar durante anos num mundo de pesadelos ou delirar por milênios num paraíso onírico...Sem acordar com aquela sensação de que elefantes usaram o seu corpo como pista para dançar rumba... Deve ser muito estranho... Quase como uma morte temporária, de uma noite só.

Algo estava faltando pela manhã, é claro. Algo está sempre faltando e algo é sempre novo. Acontece quando se é um amontoado de fragmentos que se ligam e desligam-se uns dos outros a todo o momento.  Não sei se já voltei pra casa alguma vez o mesmo que quando sai. Não sei se já me levantei o mesmo que quando me deitei na noite anterior. Não que eu estivesse prestando atenção. Parece-me que sempre há um acréscimo de alguma coisa, uma impressão talvez, ou um pensamento que me roeu durante todo o dia, algo que alguém me disse ou o olhar cruzado com alguém que provavelmente eu nunca mais verei... Tudo isso me compõe e então nem é necessário que eu tenha um nome, pois se me denomino de alguma forma, logo no fim do dia ou dali a um minuto já não mais me reconhecerei por esse nome...Me chame do que quiser, mas seja rápido em inventar novos nomes, porque é quase certo de que não vou atender pelo mesmo duas vezes.

Mas naquela manhã, dentre o muito que se desprendeu de mim, evadiu-se a esperança de que eu um dia seria uma unidade, um ser coeso. Não sei onde deixei...Nunca sei onde ponho minhas coisas. Minha memória péssima me leva a fazer anotações para me lembrar as coisas e anotações para lembrar-me de ler as primeiras anotações. Essa deficiência me fez perder muitas coisas preciosas, mas essa era uma pela qual eu devia ter tido um zelo maior.

Irremediavelmente quebrado, já não tinha mais noção das minhas dimensões, mas isso não chegava ser uma vantagem, porque eu estava tão limitado no infinito quanto disperso, dançando na ponta de uma agulha com os anjos vadios.
Não estou certo de onde a perdi, mas caso alguém a encontre, seria um gesto de amabilidade pelo qual eu seria muito grato, devolver-me essa esperança. Não é coisa difícil de reconhecer. Uma coisinha brilhante e um tanto delicada, quase como uma jóia, mas que nos dias de hoje não tem muito valor de mercado. Quase ninguém quer ter a esperança de estar íntegro, de modo que pouco conseguiriam por ela aqueles que a tentassem vender.

Para mim, porém, é coisa preciosa e eu estaria disposto a pagar o que fosse necessário para tê-la novamente. Qualquer coisa que eu possua, daria em troca de ter novamente essa esperança. Mesmo essa quimera a que chamam “alma imortal”, porque de que me serve ter uma alma sem ter esperança para ela?

Queria terminar isso de modo otimista, mas, lamento, também perdi o otimismo em alguma esquina da vida, talvez a mesma esquina onde encontrei este tédio obstinado que me corroi as horas


Linhas - By Emily Bronte

O azul sem nuvens acaricia o olhar
E todo o ouro, o verde e o louro da terra,
Como em um novo éden rebentam nos ares.
Na terra e no ar encontrei o repouso.
Estava deitada e deslizei devagar
E mergulhei ao fundo ,onde reina
A minha infância.
Vi perderem-se ao longe as severas
Idéias,
E a doce memória triunfar finalmente
Das furiosas paixões e das pungentes iras.

Mas nele,
Que o sol agora iluminava
Banhando aquela fronte queimada,
Austera e negra,
Talvez despertassem (como adivinhá-lo?)
Os ecos de um murmúrio ou a doçura de um sonho,
Uma derradeira alegria,
Que depois de anos perdida
Numa frágil noite se tenha fenecido.

Este homem rude de férreo coração,
Parecia se muito comigo outrora;
Talvez tenha sido uma criança grave, ardente,
E sua infância deve ter visto
A gloria e os verões do céu.

Bem podem ter gemido no seu coração,
Ocultas tempestades,
Mas saberá ele esquecer em sua alma deserta
a antiga lembrança da primeira mansão?
Esquecer para sempre,sem esperança de volta?

Nem jamais voltar ver a imagem de sua mãe
Quando, relaxando os braços, doce e ternamente,
Abandonava a criança que seu coração
Preferia
Aos folguedos e aos jogos que duravam
Ate a noite?

Nem os lugares amados, nem as colheitas de flores,
Que a mão pequena apertava com ardor,
Ao voltar dos jardins onde a noite baixava
Misturando-se suave aos seus calmos cabelos?

Eu olhava a brisa
Brincar ligeira e beijar-lhe as faces,
Olhava seus dedos, fechados entre as rosas,
E espiava descer às suas faces
uma outra sombra, efêmera e dócil
Que na sua passagem lançava àquela alma
A ternura de um sonho.


Os olhos circulavam através da janela aberta
Do jardim cheio de reflexos ao céu
Maravilhoso.
E a esperança dos bosques se fazia mais
Profunda,
Aos cantos harmoniosos  da terra inumerável.

Ele silenciava e eu pude acreditar
Que talvez seu espírito
Consentisse ao repouso
Submetendo enfim aquele atormentado
Coração.
E na sua alma talvez surgisse a vaga
Do tranqüilo oceano que alimenta o sonho.

Quero estar mais próxima de espetáculo tão belo;
Verei seus olhos negros
Enfraquecerem e se velarem
Sob um santo orvalho,
E o remorso despertar na sua consciência
Para livrá-lo um pouco do peso
Destas culpas.

Eis talvez, a hora em que os destinos sonharão
Com o fim deste fatal poder que o inferno ostenta.
Ver-se-á o próprio céu descer de suas alturas
E saudar a alma em gritos, e o amor que salva.

Atenta, em segredo, retive os meus olhares.
E devagar meu pensamento seguiu o raio de luz,
Cujo brilho tinha furtado à sua passagem:
Surpreendi então nas suas pupilas a fria indiferença
Com que fitava o esplendor do lugar.

Oh!
O crime pode envelhecer uma alma ainda
Jovem,
Mais cedo do que os anos de exaustivo
Sofrimento,
E congelar o calor de um sangue generoso
Como o vento de inverno ou a neve dos pólos.
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