terça-feira, 1 de março de 2011

Fragmentado - By Sahge



...E daí acordei me sentindo estranho. Era, é claro, um sinal de que estava tudo bem, porque eu sempre acordo me sentindo estranho. Sentia porém, que algo estava diferente sem que eu soubesse exatamente o que. Aquela sensação de estranheza  era enervante, porque estou quase sempre com pressa, mesmo em relação a coisas sem importância, e ter de ficar tentando descobrir percepções por detrás de sensações que nem consigo definir enquanto o relógio ditador controla minha vida, aborrece-me em demasia. Queria ao menos não acordar tão exausto...
As pessoas dizem, e eu não tenho razão alguma para duvidar delas, que existe uma coisa chamada “uma boa noite de sono”, mas se isso realmente existe, o conceito me escapa completamente. Uma noite repousante, sem ter de lutar durante anos num mundo de pesadelos ou delirar por milênios num paraíso onírico...Sem acordar com aquela sensação de que elefantes usaram o seu corpo como pista para dançar rumba... Deve ser muito estranho... Quase como uma morte temporária, de uma noite só.
Algo estava faltando pela manhã, é claro. Algo está sempre faltando e algo é sempre novo. Acontece quando se é um amontoado de fragmentos que se ligam e desligam-se uns dos outros a todo o momento.  Não sei se já voltei pra casa alguma vez o mesmo que quando sai. Não sei se já me levantei o mesmo que quando me deitei na noite anterior. Não que eu estivesse prestando atenção. Parece-me que sempre há um acréscimo de alguma coisa, uma impressão talvez, ou um pensamento que me roeu durante todo o dia, algo que alguém me disse ou o olhar cruzado com alguém que provavelmente eu nunca mais verei... Tudo isso me compõe e então nem é necessário que eu tenha um nome, pois se me denomino de alguma forma, logo no fim do dia ou dali a um minuto já não mais me reconhecerei por esse nome...Me chame do que quiser, mas seja rápido em inventar novos nomes, porque é quase certo de que não vou atender pelo mesmo duas vezes.
Mas naquela manhã, dentre o muito que se desprendeu de mim, evadiu-se a esperança de que eu um dia seria uma unidade, um ser coeso. Não sei onde deixei...Nunca sei onde ponho minhas coisas. Minha memória péssima me leva a fazer anotações para me lembrar as coisas e anotações para lembrar-me de ler as primeiras anotações. Essa deficiência me fez perder muitas coisas preciosas, mas essa era uma pela qual eu devia ter tido um zelo maior.
Irremediavelmente quebrado, já não tinha mais noção das minhas dimensões, mas isso não chegava ser uma vantagem, porque eu estava tão limitado no infinito quanto disperso, dançando na ponta de uma agulha com os anjos vadios.
Não estou certo de onde a perdi, mas caso alguém a encontre, seria um gesto de amabilidade pelo qual eu seria muito grato, devolver-me essa esperança. Não é coisa difícil de reconhecer. Uma coisinha brilhante e um tanto delicada, quase como uma jóia, mas que nos dias de hoje não tem muito valor de mercado. Quase ninguém quer ter a esperança de estar íntegro, de modo que pouco conseguiriam por ela aqueles que a tentassem vender.
Para mim, porém, é coisa preciosa e eu estaria disposto a pagar o que fosse necessário para tê-la novamente. Qualquer coisa que eu possua, daria em troca de ter novamente essa esperança. Mesmo essa quimera a que chamam “alma imortal”, porque de que me serve ter uma alma sem ter esperança para ela?
Queria terminar isso de modo otimista, mas, lamento, também perdi o otimismo em alguma esquina da vida, talvez a mesma esquina onde encontrei este tédio obstinado que me corroi as horas

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