domingo, 22 de maio de 2011

Jack e Hyde - Um Encontro no Porto


Aviso. Minha narrativa não é boa e eu nunca me aventurei a escrever contos para que outros lessem porque tenho algum bom senso. Mas não o tive em dose o suficiente para evitar dizer a um amigo que havia escrito um e também não o tive para evitar prometer a esse amigo que ia postar no blog. Enfim, aqui está meu caro Gladstone.

Fantasmagórico seria uma definição suave para o porto da velha Londres. Apesar de ser  A Civilização, em pleno século 19 a capital do império não diferia da mais remota selva dos confins da terra. Ambiente dividido entre predadores vorazes e presas incautas, coisas obscuras se arrastavam no porto da Velha Londres... Coisas malignas sedentas do dinheiro, do sangue  e medo alheio.  Punguistas, prostitutas e velhos marujos bêbados de mar e rum ordinário, esgueiravam-se por entre a bruma; mas qualquer um que olhasse, diria que além da lua espectral em viagem pelo céu sombrio, nada se movia pelas ruas escuras.
Eram tempos ruins aqueles... Ruins numa época que já não era boa para os desavisados que perambulavam à noite.
Isso não parecia de modo algum perturbar aquele respeitável cavalheiro que, munido de bengala e cartola, respirava satisfeito o ar frio e nevoento. A sua figura era bem conhecida nas melhores casas, nos círculos da baixa e média nobreza. Sua respeitabilidade era notória em todos os ambientes bem freqüentados, o que não o impedia de, como todo predador noturno, esconder debaixo de uma capa pesada a figura de bom cidadão, deixando circular pela noite de Londres, o feroz assassino conhecido pela alcunha de “Jack, o Estripador”.  Jack estava felicíssimo. Demorariam para encontrar o corpo e ele poderia acompanhar nos periódicos o pânico da sociedade londrina e o constrangimento de sua ineficiente policia. Procuraria pessoalmente o chefe de policia e exigiria, como lhe cabia como cidadão e nobre, a imediata prisão do criminoso que assolava Whitechapel  e agora atacava o porto.
Enquanto placidamente batia a ponta metálica da bengala nas pedras gastas do calçamento sujo, “Jack” relembrava os  mágicos e últimos momentos da “mundana” cujo corpo deixara nas pedras do porto e pensava em como era bom estar vivo. A vida era boa e “Jack” estava feliz...

Na direção oposta, cabriolando alegremente nas poças enlameadas, vinha um satisfeito Mister Hyde. A noite havia sido boa também para ele e enquanto nas profundezas de sua mente vil um perplexo Henry Jekyll  se angustiava, Hyde cantarolava uma canção obscena que aprendera com os marujos do pub, enquanto seguia sob a lua fria de outono. Um festim dos demônios alegrava sua memória... Lembranças doces de um espancamento no pub, um jogo de gamão trapaceado e uma orgia numa casa mal freqüentada em rua escura. Depois, quando a noite ainda era uma jovem cheia de promessas, um trabalhador do porto que levava para casa suas costas alquebradas de cansaço, teve o azar de encontrar Hyde, que justamente nessa noite resolveu atender a um capricho de seu desejo. Haveria um pai de família a menos em casa hoje e um estivador a menos no porto pela manhã. Hyde não ligava, é claro. Matou um inocente e havia gostado. Experimentara sangue e estava inebriado de alegria por tê-lo feito. No bolso da longa capa levava a pequena barra de ferro que usou para quebrar, primeiro o espírito, depois os ossos do estivador. E gargalhava ao imaginar o que pensaria o bom e gentil Dr. Jekyll quando encontrasse pela manhã aquela “prenda” nos bolsos, coberta de sangue e de memórias!  Ah, certamente o bom doutor encontraria dentre os muitos subterfúgios que usava para justificar as razões que o levavam a tomar sua fórmula, um que apaziguasse sua mente culpada pelas atrocidades cometidas por seu alter ego.
E vinham, Hyde pensando com alegria no tormento do doutor e “Jack” sentindo um êxtase quase místico por ter dado vazão a sua necessidade macabra,  e tão concentrados estavam em seu deleite assassino, que só deram pela presença um do outro quando estavam a apenas alguns metros de distância.
O primeiro impulso de “Jack” foi o de se esconder nas sombras... Apenas bandidos circulavam pelo porto àquelas horas, ou na pior das hipóteses, policiais e era esse ultimo tipo justamente o que o respeitável cidadão não gostaria de encontrar. Hyde não se importava em absoluto com o que ou quem viesse pela frente, conquanto pudesse auferir disso algum prazer sádico e manteve o passo firme, enquanto seus dedos agarravam a pequena barra de ferro. “Jack” não tendo tempo de ocultar-se, manteve o mesmo passo, tendo, entretanto o cuidado de abaixar a cartola e subir a gola da capa, de modo a ocultar como pudesse seu rosto. Assaltante ou policial, o homem que caminhava em sua direção parecia estar só e embora a presa principal de “Jack” fosse outra, qualquer um que tentasse opor-se a ele em noite fria e cais deserto, haveria de descobrir como era hábil com uma navalha. Pensou melhor sobre a questão. “Não! Não a navalha!” Aquele era seu instrumento predileto, com o qual mandava para o outro mundo suas presas selecionadas... Não haveria de aviltar sua navalha com o sangue de um homem! Mas sua bengala era  revestida de ferro polido  e ele era um homem de compleição forte. Teria de servir-se dela para despachar ao inferno o seu antagonista.
O passo firme do outro de modo algum fez com que Hyde hesitasse. Na verdade, apetecia-lhe lidar com um valente! Um predador digno não se satisfaria nunca com uma presa passiva. Que resistisse então! Ao contrário do que o senso viria a dizer muito mais tarde quando o caso do “médico e o Monstro” viesse a público, Hyde era de compleição franzina e pálida, o que a exceção dos seus olhos, lhe dava uma aparência inofensiva e por isso muitos o subestimavam. Hyde sabia tirar partido desse engano e essa noite não seria diferente.
Parando frente a frente, fera e fera se encararam e imediatamente souberam que alguma coisa estava muito errada. Não havia presas no porto naquele momento, mas apenas predadores perplexos por encontrar um semelhante.
A despeito do tamanho mirrado do outro, “JacK” já não estava tão seguro de sua capacidade física, nem com a bengala de ferro e nem com a navalha. Sentia um odor almiscarado exalando do outro e seus olhos encontraram no olhar do outro, uma ferocidade que só em pesadelos imaginara existir numa criatura humana. Hyde por seu turno, afrouxou os dedos da barra de ferro e transpirava inquieto, sem saber o porquê de um homem, menos corpulento do que o outro que matara a menos de uma hora, lhe causar um mal estar tão grande. Jack tinha olhos de frio metal,  raiados com relâmpagos de sangue...O outro os possuía amarelados, embebidos num brilho de selvageria irracional. Seu encontro foi de uma brevidade que tomariam como um sonho negro.  Suor escorria pelas costas de Hyde, enquanto “Jack” retesava seus músculos em alerta.  A avaliação que fizeram um do outro foi breve, mas reveladora o bastante  para que ambos soubessem que numa luta, nenhum deles sairia vencedor
 Como numa coreografia ensaiada, ambos deram um passo para trás. A pugna estava decidida. Antes de partirem, “Jack” tocou levemente a aba de sua cartola numa mesura cavalheiresca, ao que Hyde respondeu com uma risada nervosa. Fizeram a volta pelo caminho que vieram e embora todos os demônios do pavor lhes recomendassem que deviam correr, nenhum deles o fez. Andando vagarosamente, desapareceram na neblina sem olhar para trás.

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