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quarta-feira, 18 de maio de 2016

1978, Elis Regina e uma mulher em manhãs de sábado



O ano era 1978.

Eu acho. Não se deve confiar demais na memória de alguém que procura memórias suas aos cinco anos de idade. Há gente que, com efeito, se recorda de lembranças de idade mais tenra ainda, prodígios capazes de voltar no tempo até seus dois ou três anos ou, caso não haja exagero, até mesmo meses de idade ou memórias intrauterinas.

Vai saber...
Lamento informar que não me encontro no rol de tais fenômenos e até o que comi no almoço me é tão indistinto quanto a camisa que usei em 15 de abril de 1993 ou, sei lá, minha adolescência que passou quase como um sopro de sonho. Daí eu ter de advertir que muito provavelmente, minhas memorias de 1978 são muito mais sensoriais (nisso eu posso me gabar de ter uma habilidade notável) do que de fatos concretos.

Eu tinha, pois, cinco anos e já era uma criança bem estranha, para os padrões da minha comunidade.

Muito grave, quase nunca ria e nunca chorava e se o fizesse, era em silêncio, no máximo um murmúrio de protesto sentido. Há que se pensar que eu esteja me vangloriando.... Ledo engano! Eu era uma criança “odiosa”. Os adultos me evitavam. As outras crianças também.  Era quieto demais. Silencioso demais. Adultos gostam de crianças barulhentas e dependentes, que lhes acreditem em todas as contradições e mentiras e que os façam sentir-se necessários e as crianças igualmente gostam de outras que lhes desafiem em jogos ou lhes apoiem as gatagens.

Eu era uma coisa que observava, indagava e aprendia. Por isso enquanto a matilha de irmãos e primos gritava lá fora atrás de cachorros, pipas e encrencas, eu me sentava e olhava pro céu, pras nuvens e pra dentro do meu pequeno e curioso eu.

A exceção, o que me arrancava de dentro da minha introspecção era o meu espetáculo favorito. Minha mãe.

Deus inexistente, como eu amava aquela mulher! 
Ela era linda, ora sofrida, ora alegre e vibrante. 
Aos fins de semana, depois de se matar a semana inteira para alimentar a ninhada, ela se matava para limpar a sujeira que a mesma ninhada fazia em suas ausências da semana.
Ela lavava roupas, limpava a casa, fazia a comida e limpava o terreiro, num ritual que lhe comia o dia todo.

Raramente eu a via, durante o dia, se sentar para comer ou para passar óleo nas pernas e cuidar do cabelo, coisa que ela só fazia durante a noite quando a ninhada já estava dormindo. Minha mãe primeiro cuidava do mundo. Depois cuidava de si. Depois disso, ela se sentava próximo a lamparina (não tinha luz elétrica em alguns bairros de BH nessa época) e se dedicava ao vicio que me legou: ler livros.

O menino estranho e a mulher sozinha a cuidar de seis filhos...

1978...

Minha mãe sempre canta quando está triste. Minha mãe está sempre cantando.

Em 1978 ela estava recém separada do meu pai. História comum em bairro comum de uma cidade comum de um mundo comum: Homem “abandona” mulher com filhos e cai no mundo. Lega a mulher o cuidado com os filhos e vai viver a vida com outra. Minha mãe amava aquele homem inconstante. Até onde eu sei, ele fazia um sucesso inacreditável com a mulherada. Charmoso, bonitão e absolutamente canalha, atributos que bem poderia ter me deixado de herança, já que não me deixou pecúnia.

Oh, aos cinco anos de idade eu amei pela primeira vez e pela primeira vez eu vi como era tolo o coração de uma mulher apaixonada. Minha mãe havia sido traída mais de uma vez. E meu pai ia e voltava uma história pra lá de clichê e não vou aborrecer ninguém com esses detalhes porque é basicamente a história de milhares, senão milhões de famílias...

Minha mãe cantava. Tinha uma radiola antiga a pilhas, onde ela ouvia Benito di Paula, Valdir de Azevedo e Elis Regina.

Elis. Se minha mãe foi meu primeiro amor, Elis foi o segundo.

Naquelas manhãs de sábado em que o sol entrava em casa pelas frestas do telhado desenhando moedas de ouro nas paredes e caindo em raios de poeira levantada pela vassoura da minha mãe, eu a ouvia cantar lá fora.

Na radiola, Elis cantava com minha mãe.
Eu já ouvi todas as músicas de Elis. Ouvi várias vezes e nunca consegui ao certo saber qual era aquela que minha mãe duetava com Elis. Talvez seja porque minha memória de cinco anos é emocional e sensorial. Eu ainda não tinha um arcabouço linguístico elaborado o bastante para saber sobre o que cantavam aquelas duas mulheres lindas. Eu apenas intuía. Eu hoje sou ateu, mas penso que aquelas manhãs de sábado eram momentos religiosos. Havia algo de muito místico naquilo. 

Eu saltava da cama irritado por ter dormido demais e ia lá pra fora, pro sol, pra poeira, pra Elis e pra minha mãe.
Elis cantava como um anjo e como um demônio, como uma amante, como uma assassina...!

Não sei qual era, mas minha mãe repetia tanto aquela música que não sei como o disco de vinil não gastava. E na voz de Elis, embora eu não soubesse e nem saiba a letra, eu ouvia a alegria e a dor, Elis amava naquela música e também odiava. Ela parecia implorar e amaldiçoar. Elis gritava sua angustia e seu deleite de um modo absolutamente mágico e parecia protestar e desafiar seja lá qual o destino lhe arrebatara a pessoa amada.

Era prata, cristal e fogo no ar em forma de música. Eu não entendia como meus irmãos ou qualquer pessoa podia fazer ou olhar ou ouvir qualquer coisa que não fosse aquilo. Era minha mãe, ainda lamentando a perda do “amor de sua vida”, chorando junto a Elis Regina em manhãs de sábado de 1978. Eu não sabia bem como reagir a beleza triste daquilo. Algumas vezes eu desejava poder fazer algo, por que em idade edípica, eu também lamentava do meu pai uma ausência qualquer. Venci meu inimigo pelo coração da mulher que eu amava. 

O que eu não sabia, era que eu amava o meu inimigo vencido e que ao expulsá-lo, fiquei com a mulher, mas o coração dela se foi com ele. Saudades do meu pai morto ainda em vida e de minha mãe, morta como mulher... Coisas que o divã revela...

Eu nada podia fazer, mas ao longo dos anos, sempre que minha mãe estava muito triste, eu permanecia calado ao lado dela, numa solidariedade muda, porque a mim parecia em minha fantasia de criança, que ficando perto eu poderia pegar um pouco daquilo que lhe pesava ao coração, absorver parte da tristeza dela para que ela risse mais, porque minha mãe chorando com Elis Regina era uma primavera, mas rindo, ela era as quatro estações e mais algumas.

Foi uma verdadeira lástima que minha mãe, assim como muita gente ao longo do meu caminhar, não compreendesse bem meu modo sutil de amar e de viver. Nunca entendeu o filho calado e profundo e embora ela tentasse muito, nunca conseguiu gostar dele ou o amar como pessoa.

Não me levem a mal (levem-me para Pasárgada!). Eu lhes asseguro que amor de mãe é coisa inútil para mim. Segundo dizem, se uma mãe tiver doze filhos, 11 psicopatas sádicos e um virtuoso, há de amar igualmente aos 12. Então qual o mérito do filho virtuoso no que tange ao amor de sua mãe?

Esse amor ideal de mãe, que tudo suporta, que tudo aceita e blá blá blá.... Isso nunca me interessou de modo que embora ela tenha sido excelente e ido além de suas forças ao cuidar de mim, não chego a lamentar que ela não me tenha amado como um filho. Eu já vi o que os filhos fazem as mães e como o amor por eles é pesado para elas. Todas essas besteiras que li no dia das mães, sobre esse ideário de amor quase transcendental, mãe que ama incondicionalmente, que tudo suporta, como se fosse realmente um martírio qualquer abrir o útero para uma criança, sofrer no parísio; ideário que talvez venha do mito de Maria mãe de Jesus, isso tudo me deixa nauseado, por que parece negar a uma mulher, uma vez sendo mãe, a humanidade própria.

Mães não podem odiar, não podem se permitir uma canalhice, mães não tem orgasmos (supostamente a concepção de filhos deve ser “pura”), momentos de fraqueza ou força, mães estão condenadas à santidade em vida e não são absolutamente, mulheres. 
Pobres mães...

Ah, eu amava aquela mulher que chorava o amor perdido enquanto colocava lençóis azulados de anil na grama para quarar ao som absolutamente mágico da voz incrível de Elis Regina. Amava a força esmagadora dela ao enfrentar o mundo, ao levantar de madrugada no escuro para arrancar sozinha do mundo o com que alimentar os filhos; suportando bravamente enquanto o ser mãe ia lentamente minando o ser mulher dela.

Muita chuva e vento e verões transcorreram desde 1978.


Morreu Elis, morreu meu pai, morreu a mulher que cantava com Elis e chorava pelo meu pai. 

Ficou a mãe, que me olha com olhos gentis, vasculha no fundo da alma algum amor que possa dar ao filho estranho tão “indiferente” e diferente dos outros filhos e pergunta como vou indo, nas raras vezes em que nos vemos. Abraço-lhe o corpo ossudo, os ombros cansados e sinto raiva de mim mesmo por ser seu filho e assim como os outros filhos, ter arrancado dela tanto que não posso devolver. 

Quase como se eu tivesse entrado no Louvre e, extasiado de amor, tivesse arruinado a Mona Lisa...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Em Três Tempos




(Tarde)
Letárgico, olhava para dentro em queda livre, sentindo a vertigem própria de quem se abisma em si mesmo.

Sentia e ponderava a impertinência que é o sentir.
Me sentia impertinente...

E divagava em meu divagar, me concentrando em me concentrar, extraordinariamente perdido de mim, acendendo cigarros esquecido de que não fumo...

E olhava para a janela fechada tentado me recordar do que era o ânimo para abrir a janela.
Tentando me lembrar do que é lembrar.
E enquanto olhava, entrou pela janela o sol e uma bola
Estilhaçando vidro e letargia.

Pela janela quebrada por onde entrou sol e bola eu olhava a me olhar uma menina com o sol nos olhos e nos cabelos.
O mesmo sol que me entrou pela janela junto a bola.

(Noite)

Experimento estar desperto depois de semanas de sonambulismo insone,
Estico os nervos adormecidos da literatura
E me flexiono atordoado em linhas novamente...
A bola ainda está no chão com o vidro quebrado e o sol arde agora em algum lugar da china e de mim.

(Manhã)

E o que lhe posso dar, criança antiga como as histórias que se contam às crianças?
Há alguma novidade que eu possa contar que já não esteja embolorada de antiguidade?
Há algum presente que eu lhe possa legar no futuro que não esteja enraizado ao passado?
Há perguntas que lhe possa fazer cujas respostas não tenha adivinhado em seus jogos solitários de advinhas?

Eu lhe poderia amar, mas que é o amor que eu conheça, que não seja essa fome ardente que consome até as cinzas e continua a consumir mesmo quando já não há o que consumir?

Tenho um Everest  de motivos, um labirinto de livros não escritos na memória com todas as histórias ainda por contar, mas que esquecemos.

Sei por instinto, como o sabem as feras, todas as alegrias e agruras do mundo na última hora.
Ainda tenho uma garrafa daquele vinho transformado, que antes fora água, e que antes fora chuva, e que antes fora a lágrima de alguém que bebia vinho sozinho...

Cigarros meio fumados, em meios cinzeiros nas cinzas de uma meia manhã cinzenta...
Uma vida meio vivida...

Enquanto recolho do chão os cacos de vidro quebrados e fragmentos da minha consciência adormecida, corto os dedos, conto as horas e me movo em câmara lenta enquanto tento decifrar o mistério que te faz tão jovem e tão antiga.

Sobe a fumaça evolando do meu cérebro em ebulição, esses meus cabelos brancos subitamente pueris diante do seu corpo pós adolescido...

Em dó menor eu desafinei minhas angustias numa sinfonia muda de letras por dias infinitos.
Houve alguma vez dentro ou fora de um poema, palavra que descrevesse o assombro?
Se houvesse, haveria o assombro e haveriam palavras, mas não poesia...
Não haveria você e não haveria eu a escrever sobre escrever sobre você.

Eu faço um poema que rasteja por debaixo dessa prosa e saio do meu transe e entro no seu.
Faço cópulas com as palavras, tentando rimar o que vejo quando olho pra você, com o que eu deveria estar vendo.

E te destino essas linhas e entrelinhas e o que há entre elas e que não escrevi.
E amanhã devolverei a bola, mas acho que reterei o seu sol...



Para Lili, pelo resgate...









sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Uns minutos de silêncio...


...e então você começa a compreender o pensamento dos supervilões clássicos e aquele desejo de destruir o mundo e reconstruí-lo ao seu modo torna-se bastante atraente. Você meio que se delicia com o pensamento desse planeta ardendo, e depois que tudo silenciar, você pegaria uma pá, removeria o entulho e olharia para o céu, ciente de que tudo está como deveria. São sete e vinte da manhã e eu estou me deliciando agora é com um inesperado silêncio na minha vizinhança que parece que jamais tem um minuto de silêncio.

A gente que mora por aqui é odiosa! Solta foguete por qualquer motivo, por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio; e escuta funk e breganejo no ultimo volume por qualquer motivo desses ou por nenhum, mas escuta, estuprando os ouvidos alheios com essa droga!

Ontem foi véspera de natal e esse bairro horroroso que não tem nem de longe o charme de uma Las Vegas, mas igualmente nunca dorme, parece ter finalmente silenciado um pouco e, ou algum demônio camarada ouviu minhas súplicas e matou todo mundo num raio de kilômetros, ou então estão todos em coma, entupidos de comida gordurosa (churrasco, pernil, chester e porcarias semelhantes),emborcados em uma ressaca daquelas, porque, papagaiadas de "espirito natalino" a parte, tudo parece motivo para se entupir de bebidas e derivativos (por velório ou gol do seu time de futebol, em dias santos ou por puro tédio).

(E se você estiver pensando "se ele odeia tanto a sua vizinhança, por que diabos não se muda?", eu digo, dê-me a chave do seu apartamento de cobertura no Belvedere cara, e eu me mudo imediatamente! Mas essa vizinhança me apetece, porque a odeio e a humanidade é coisa que eu odeio amar, mas amo odiar! Cada qual com seu vício!)

De repente descubro que não sei o que fazer com esse silêncio que se instala e, como uma criança que come um doce bem devagar para que dure mais, teclo devagar nesse teclado e ouço o silêncio. Tenho um minuto para parar de me manter na superfície das coisas do mundo que amaçam me afogar se eu parar de nadar e venho aqui dividir sei-lá-o-quê com sei-la-quem, porque sinceramente? Quem lê blogs hoje em dia?
Quem lê qualquer coisa que não sejam linhas curtas de whatsapp?

Mas-que-merda!
Algum cretino pelo jeito não bebeu o bastante e acabou de ligar o som às 7:38 da manhã!

Durou pouco e eu fiquei desanimado de continuar a escrever.

Que vontade de morrer...Só espero que o diabo seja mesmo o pai do rock e que não toquem funk no inferno...

Vou ali, tentar me manter na superfície dessas coisas que odeio e me consolar com o pensamento de que não sou eterno e uma hora dessas eu morro e deixo pra trás esse planeta, que não posso destruir por mais que o queira e nem reconstruir ao meu modo.

Uma hora dessas vem lá um ataque cardíaco, um crime passional ou não, câncer, falência múltipla dos órgãos ou um raio de um deus me punindo pelas minhas heresias  e eu morro...

Mas numa praia solitária ou na boca de um tubarão. De jeito nenhum afogado nesse mar de lixo psicológico chamado "vida comunal"


Fonte da imagem: http://canaltech.com.br/

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Vamos conversar...




...e para finalizar uma conversa que ainda nem começamos, eu lhe asseguro que a luta do fanático é mais válida do que a do soldado relutante, ainda que eu pense que a justeza ou não da luta travada nada tenha a ver com sua validade...

domingo, 6 de setembro de 2015

Saudações do futuro pretérito!


Meu caro Luiz

Este que te escrevo sou tu.

Saudações do futuro.

Hás de perdoar-me o modo sofrível como te escrevo, mas já vão muitos verões que não sou tu, de sorte que, receio, a linguagem dos dias tais é por demais diferente destes teus tempos verdes. lembro-me de que tinhas cáries e esperanças, mas não como escrevias ou falavas nesses anos idos. Sê indulgente para  com meus erros de concordância e demais pecados ortográficos, pois já carregas consigo nestes dias meus, uma quota considerável de pecados e o acréscimo de mais estes pouca diferença farão a uma alma cansarregada de pecados. Orgulha-te, pois o neologismo é teu!

Há dois fatos curiosos acerca desta carta, a saber, o fato de eu escrever a mim mesmo nos dias da minha meninice e o fato de alguém em pleno século vinte e um ainda escrever cartas. Sou, pois, um dinossauro!

Saudações meu rapaz, do ano 2015! 
Descortino-te o futuro.

Sim. É correta a tua decepção. Nostradamus, tal como os da sua honrada estirpe de profetas, errou e cá estamos nós, ansiosos e esperançosos de que o mundo acabe, ele porém, teima em permanecer eternamente moribundo. Cá ainda estamos.

Fosse eu um sujeito esperto, enviar-te-ia números da bolsa de valores ou resultados de loterias, mas bem sabes que não sou esperto. 

És agora um jovem tolo. Converter-te-ás em um velho tolo.

Escrevo-te como um exercício de inutilidade, posto que essa carta sequer sairá do meu computador, quanto mais adentrar a consciência minha aos 15 e poucos anos, época em que eu tinha um apreço especial pela minha consciência.

Mas todos os exercícios feitos atualmente, são inúteis, pelo que posso escrever a mim mesmo na flor do meu tempo e fingir, no processo, que sou uma pessoa extraordinária.

Já não temes a morte, a vida porém, te apavora.

A esperança quase acabou e também a honra, por outro lado, ainda temos petróleo e música ruim, mas a união soviética já não existe.

Tu que estás ojerizado com a Lambada, recomendo que a cultue como o mais fino produto cultural de nosso país, porque os ritmos musicais que a sucederão, não me acreditarias se os contasse.

De mesma forma, ama as sílfides luminosas por quem te apaixonas em teu tempo e bebe lhes o frescor do espirito, a vaidade e a beleza enquanto podes, porque hão de converter-se em matronas grotescas, com o corpo cheios de excessos e estrias e a alma cheia de ressentimento e desânimo e tu, tu as desprezarás, não pelas estrias, excessos e amarguras, nem pela beleza e frescor perdidos, mas pelo desânimo de pensarem que não podem ser coisas melhores (ah, a Daniela gosta de ti, seu tolo! Deixa de lado a irmã dela e ama quem te ama. Por um tempo conveniente).

Os homens a quem admiras não terão sorte melhor e decepcionar-te-á saber que o destino não é destino, mas escolha e todos, tu inclusive e em grande medida, escolhemos a mediocridade por preguiça, porque é de um trabalho considerável ter fé em coisas reais e na grandeza humana.

O comunismo fracassou.
O capitalismo também, mas ainda não se tomou consciência disso.
O romantismo se tornou coisa abjeta e te envergonharás de todos os poemas de amor que vieres a criar (cria-os, ainda assim!)

O bom cinema faleceu e acompanhou-o à cova a boa literatura, com raras e felizes exceções.

Torna-te vegetariano, não uses suspensórios quando a moda surgir nos fins dos anos 90 (terás razões de grande amargura por isso), não roubes biscoitos na padaria do senhor Mohamed (serás pego e te envergonharás pelos próximos trinta anos).

Continua honrado, justo e paciente, mas reserva a maior parte de tais virtudes para usar contigo próprio. Tempos haverão em que precisarás muito de tais recursos e não esgote tais pérolas com os porcos quotidianos.

Exercita-te pelo menos duas vezes por semana (apenas uma conservou-te magro, porém inflexível no corpo e no espirito).

Leia Freud antes da faculdade.

Não leias Honoré de Balzac, repudia “O Pequeno príncipe” como literatura atroz e despede-te dos deuses em que tens fé titubeante, pois não tarda descobrirás vazios os altares em que depositas tuas preces nunca ouvidas.

Nietzsche, a quem conhecerás e amarás, tinha razão e em tempos esses em que vives a angustia de 2015, Deus morreu como referência e tornou-se vestimenta retórica que as pessoas vestem e despem segundo a conveniência.

Isso não chegará a dar polimento ao teu ateísmo, mas o entristecerá, não a morte de um deus em que não crês, mas a da sinceridade daqueles que dizem crê-lo.  

O Ubermensch, no entanto, ainda não apareceu e estamos vivendo um período de letárgica involução, não para a curiosidade latente do cro-magnon e nem para o vigor robusto do neandertal, mas para aquele antropoide gordo e satisfeito que seríamos sem os dentes de sabre e Era Glacial a matar nos, e já não temos o que nos inspire a sermos melhores.

Sai de casa antes dos vinte.
Sai do país antes dos trinta.
Encontra uma raison d'etre.

Não jogues foras teus escritos por impaciência. Não dês a moeda de 50 soles à Renata (é de ouro de verdade!  Será de grande valia para ti e ademais, Renata não quererá o ouro do teu amor mas tem amor ao ouro da tua moeda).

Pára de desprezar o dinheiro, mas não o ames e sabes isso: Humildade não é virtude, mas meio e meios de manterem-te dócil, imaginando te inferior aos outros.

E ao fim desta carta em que esgotei toda a minha metafisica acumulada em meses de preguiça, saúdo-te, meu Luiz pueril e nobre. E lastimo não ter que lhe enviar deste lado de cá de Nárnia, em que tudo está cinzento e vazio, coisa melhor do que o desamparo filho de uma era perdida.

Consola-te porem, com a consciência de que nãos és culpado (afinal, não podes mesmo ser culpado por tudo!) e alivia-te com esse pensamento, porque o mundo anda às cegas no escuro a beira de inacreditáveis abismos, mas descobrir-te-á otimista.

Inacreditavelmente otimista, pois a despeito da decadência nossa como povo, como indivíduos continuamos brilhantes.

Todo progresso começa com um indivíduo.

Não te torne, pois, povo.

Saudoso de tua meninice,
Tu



domingo, 16 de agosto de 2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

Para o meu palato enjoado de coisas doces


Pode ser apenas falta de vontade ou um excesso de inspiração que me vem novamente em atropelo...
Mas essa musica...
Me preenche de uma angustia contraditoriamente alegre e eu procuro um pedaço de sol nesse cinza todo de BH, onde eu possa degustá-la com vagar...

11:06 horas de uma terça-feira em que tudo parece desimportante...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Inércia



A terra deu umas voltas em torno de si, desde a ultima vez em que me senti confortável para escrever o que quer que seja, e meu estômago deu voltas em número idêntico quando por fim me atrevi a sair da minha letargia moral. 

Mas depois de passado um tempo razoável numa posição só, até o mais preguiçoso dos sujeitos vai querer se mexer, mesmo que seja apenas para eliminar as cãibras resultantes de se estar no conforto da inércia por tempo demais...

Eu escrevi um monte nas ultimas horas...

Lixo...
Apenas lixo. 
Entusiasmante, sincero e ainda assim, lixo..

Reconheço o monte de tralha que escrevo quando releio e percebo que lá vou eu, tentando, tateando, ensejando escrever sobre coisas que não compreendo. Isso é fácil notar pelo tom abjetamente humilde com que eu me desculpo linha a linha, pela minha incapacidade de entender aquilo sobre o que tento escrever. 

Escrever sobre as mulheres, sobre o amor, sobre o sexo, sobre a vida, sobre a morte, sobre a necessidade de se crer, escrever, entender...

Burrice pouca é bobagem, Luiz.


Você realmente necessita de atestar tão frequentemente a sua tolice?


O problema se dá justamente por ser sempre mais atraente escrever sobre o que não entendo do que sobre o que entendo penso entender.

Mas o suposto do meu entendimento sobre as coisas já não me conforta o suficiente para que eu suporte as cãibras quieto no meu canto.

Algumas vezes remexo em problemas  antigos, apenas para evitar o impulso a novos problemas, porque o bolor e mofo se acumularam por aqui de tal forma, que já até os sinto como uma coberta quentinha a proteger-me contra o inverno da alma e do frio-outono-cinza-miserável que igualmente cobre essa BH por entre as gerais...





quarta-feira, 11 de março de 2015

O que Partilhar quando nada se tem além do desejo de partilhar...

Por semanas a fio tenho raspado o fundo do caldeirão de idéias a cata de algo que valha a pena compartilhar com o mundo.
Como se o "mundo" me lesse...(Oh vaidade! Dona Modéstia mandou lembranças!)

Por "mundo", leia-se um pequeno grupo de pessoas que me honra com alguns minutos de seu tempo e que gastam outro par destes minutos torcendo os neurônios enquanto os olhos escorregam pela confusão minha de cada dia.
Pra falar a verdade, eu me daria por bastante satisfeito se ao menos uma pessoa me lesse, mas que me lesse com a sensação de familiaridade com que leio algumas pessoas...

Só uma andorinha e eu teria o verão e outono e primavera e todos os invernos do céu.

Me ocorreu (eu ia escrever "ocorreu-me", mas já me disseram que tenho de vencer minha tendência à proclisação - e ao neologismo também, pelo jeito - ) postar umas poesias que forjei em tempos róseos, em momento de febre uns anos atrás e que postei num blog perdido na memória.
Tenho numa gaveta um montante razoável de versos atordoados...

O problema foi o calor que me subiu ao rosto ao lê-las e me lembrar dos sentimentos que mas motivaram o parto e dos quais eu sinto certo constrangimento ao lembrar...
Olha a minha infância de sentimentos me acenando ali da esquina!
É um saco ser a síntese de um menino medroso e um velho preocupado, quando o assunto são as coisas do coração.

Vou deixar essas "poesias" marinar um pouco mais numa gaveta antes de me atrever a olhar de novo o meu ridículo.
Até por que, cartas de amor não seriam ridículas se não fossem cartas de amor...
Ou o inverso disso, não sei dizer no que pensava o poeta...

Preciso envelhecer.
E preciso envelhecer logo!

Então, meus caros leitores incautos e amigos invisíveis, como não tenho o que partilhar hoje, além da minha perplexidade, me permitam partilhar o sentimento de estar perplexo por ainda ter a capacidade de estar perplexo.

São 16:49 agora

domingo, 1 de março de 2015

Da minha preguiça de escrever e do que a motiva....

Peguei a caneta e uns papeis amassados e amarelecidos. O amarelo do papel mais o fato de a caneta ser uma bico de pena me deram a falsa impressão de que eu, tal qual os grandes literários a quem admiro, seria possuído por sei lá qual das musas caprichosas e engendraria algo fabuloso e digno de ser lido e de que me orgulharia...

Mas eu teclo há muito tempo e os músculos da mão desacostumados, logo se cansaram e eu abandonei neste momento de desalento as minhas pretensões de nada pretender...
É mais ou menos assim; você passa um período qualquer numa letargia literária e se vê na obrigação de fazer algo relevante, reinventar a roda e re-re-redescobrir uma América de significados.

Fiquei com preguiça de escrever e essa foi a desculpa que dei a mim mesmo para fingir que eu não estava com vergonha do conhecimento de que eu escrevo para ser reconhecido por alguém que como eu seja “da Tribo”.

Lastimo não ter de, tal qual um Odisseu moderno, passado uma vida sem encontrar e a procura destes que como eu estão conectados a essa coisa sem nome, esse sentimento de EU e de existência.

Infelizmente para mim, eu os encontrei. E assim como não posso dar nome ao que nos liga sem tornar o que nos liga algo que efetivamente não é (dar-lhe nome), também não posso com segurança descrever a sensação de decepção e pesar, por ver que a Tribo não quer ser a tribo.

O anseio por qualquer coisa é um mau juízo de toda forma e não é incomum no afã do maravilhar-se com alguém, se agigantar anões e ver montanhas onde só há colinas.
Pior ainda é ver tigres ronronando como a gatos e leões se autocastrarem para serem adulados como poodles...

Há o mundo que-se-reconhece-como-O-real e nele nós não temos lugar, a não ser o lugar ermo dos mau-ditos (ou mal ditos ou malditos mesmo) e das incompreensões. Mas a Tribo, ainda que não se reúna como tal e nem crie nenhum estatuto, estabelece por instinto os meios de como se imiscuir num mundo que não a quer; e o meio é não querer ser o que se é.

Talvez você conheça o tipo de pessoa que nega o que é e foge do que é, como o diabo foge  do diabo caso se veja ao espelho.  É mais ou menos como aquele homossexual não assumido que se por acaso encontra em ocasião social um que é assumido, evita-lhe ou mesmo o hostiliza por receio de que este olhando-o nos olhos o reconheça como um igual e reconhecendo o denuncie de alguma forma e de alguma forma ele perca o “greencard” para o mundo dos “normais”.


Em certos países, o recurso do greencard pode ser obtido, caso se case com um nativo ou de outra forma, abjure da sua cidadania e cultura anteriores. Você seria, pois, aceito, assimilado.

Não há lugar nesse mundo estranho para gente estranha, então, assimile-se.
Você não casa na tribo. Você não comercia, você não frequenta e nem é frequentado pela tribo e caso alguém se assuma como Anacrônico, há sempre o recurso de evitar-lhe amavelmente e amavelmente evitar o que poderiam ser em associação um com o outro.

Melhor casar, comerciar e viver com um a quem subreptilicamente se considera como um “normal” (seja lá que diabos isso signifique) e tentar, através desse vínculo fingir mais um pouco que não se está fingindo e fugindo de quem é você.

A vida inautêntica mata, crianças.

Tire a vírgula da frase anterior e você lerá não um aviso, mas uma verdade amarga...

A Tribo está em extinção porque merece ser extinta, porque um povo, um ser que não acredita no próprio direito de ser o que se é e de existir e que procura pelos meios de se autoanular em troca das migalhas da aceitação alheia cheia de condicionantes, não merece mesmo existir.

Não sei direito por que e o porquê faço ou deixo de fazer algumas coisas, mas o interesse em saber, penso, me distingue da manada.  

É um pensamento vaidoso, mas a vaidade é um recurso legitimo para se manter a autoestima e os motivos afiados, em tempos  de vazio e banalidades em que tudo o mais parece fraquejar e sumir a sua volta.


Ainda não tenho respostas, mas tampouco me cansei de fazer as perguntas...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Retrospectiva de um ano em que tudo fluiu (de um modo e de outro)



2014 foi um ano...Igualzinho aos anteriores e diferente de todos os demais.

Fiz um pequeno balanço, coisa inútil, tanto quanto aquelas resoluções de ano novo que a gente nunca segue, mas eu meio que desenvolvi o gosto nada saudável de polir e dar brilho à minha perplexidade...

Comecei o ano enrolado na incompreensão de alguns paradoxos cotidianos  e o que era um simples novelo nas patas de um gatinho metafísico, agora no momentos em que dezembro agoniza é uma bola emaranhada de não-entendi do tamanho do Himalaia.

Conheci o que é essa tão falada “felicidade” e me deliciei e me desesperei por compreender o quão facilmente isso nos pode ser tirado.

Também confirmei  aquela impressão antiga (e que me extasiou quando percebi que não era percepção exclusiva minha) que tudo o que se ama é permeado de uma angustia dolorosa, porque tudo o que se ama está na iminência da perda.

Fiquei atordoado ao perceber que as pessoas gostam de mim pelos meus defeitos e me detestam pelas minhas qualidades.

Também parei de brigar com certas idéias apenas porque me eram antipáticas e aprendi a melhor ouvir o inimigo para melhor combatê-lo ou celebrar a paz, se for o caso.

Deixei de lado a estética e parei de repudiar o escatológico, mas ainda tento manter as unhas e pensamentos razoavelmente limpos.

Quebrei promessas (especialmente as de não fazer promessas), mas felizmente nenhum osso do corpo e citando o “Sábio” Falcão, caí em contradição, mas não do oitavo andar.

Passei o ano inteiro em constante mudança para tentar permanecer como sou, briguei para consolidar uma identidade, nadei contra a maré e me afoguei (mas eu pensei e ainda penso que foi a coisa certa a fazer). Fui jogando pela janela ou deixei que por lá se atirassem os amigos de ocasião, o social, o noblesse oblige, o politicamente correto.

Namorei, casei e me divorciei de algumas idéias e reatei com outras, entendi que relações, infeliz ou felizmente, são como iogurte:têm prazo de validade.
Arrependi-me de algumas coisas, mas teimei e as fiz novamente e tenciono continuar a fazê-las em 2015, porque eu me permitirei ser minimamente estúpido.

Aprendi que as pessoas não são feitas de manteiga e espantosamente não morrem caso se lhes fale uma verdade amarga ou um galanteio grosseiro (com a pessoa certa e no momento apropriado, é claro) e que ser educado não é sinônimo de ser um dândi

Descobri que não é crime falar um ou outro palavrão (e o poder catártico que desse gesto advém) e algumas vezes é até mesmo desejável.

Fui pra guerra levando caneta e papel enquanto os outros levavam metralhadoras, fui de black tie em festas à fantasia e perdi aliados por incapacidade de fingir ser bonzinho e amável e de comungar com a suavidade de alguns pensamentos.

Descobri a preciosa fragilidade do amor e o revigorante e autodestrutivo poder do ódio. E como é importante beber das duas fontes...

Continuo brigando com a minha própria humanidade, mas fiz as pazes com a dos outros...

 E a despeito de todos os calorosos, impensados e superficiais votos que eu e você receberemos no dia de hoje, uma mudança no calendário nada significa se você não operar mudanças em si mesmo.

Então vou te dar um mau conselho (porque os bons não são de graça e eu sei que você não vai me pagar):

Em 2015, você que esfolou a droga dos joelhos subindo montes, tentando sem sucesso alcançar o céu, dê uma chance para a sua humanidade; para de se pensar mais ou menos do que é.

Permita-se o inferno!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Um pouquinho de raiva para adoçar o dia

Horror a compromissos, como se uma estabilidade qualquer fosse o nome escrito em sangue num contrato nas mãos do Diabo, fugia disso como quem foge da cruz, crescente, estrela de Davi ou adjacências...

Você queria uma reposta pronta?
Queria um sentido e direção e palavras de conforto?
Você queria felicidade (e quem não quer) ?
Pegasse nas postagens divertidas de poucas linhas do facebook, nos vídeos en(des)graçados que atentam contra dignidade humana e que rapidamente contagiam no whatsapp, nas conversas vazias em mesas de bar e meios diálogos ensaiados de meia gente.

Fosse à igreja ouvir o sacerdote, lesse livros de auto-ajuda, conversasse com aquelas pessoas "do bem", que enchem a boca pra falar de "Deus, Pátria, Tradição, Família", ou nos defensores vorazes de boas causas...

Você queria a salvação?
Queria um céu idílico onde poderia entoar Alleluias por megabilhões de anos?
E, contraditoriamente, queria um mundo de prazeres imediatos e facilmente alcançáveis e facilmente perdíveis?
Você querias as cordinhas invisíveis de um supremo titereiro invisível?

Desculpe, mas essas coisas eu não tenho em estoque, porque têm sido amplamente consumidas por esses dias e não são recursos renováveis (e não porque se esgotam, mas porque nunca se renovam em sua antiguidade).

Mas tenho caos em abundância.
Perdição em ampla faixa.
Eu tenho sentimentos de revolta e ódio maravilhosos e desejos de atear fogo no mundo (estão em promoção).
Eu tenho a alegria da queda e o gosto de sangue nos lábios partidos por socos dados em brigas ferozes.
Eu tenho gritos no escuro e solidão e medo e repulsa (dizem que é a ultima moda em algum lugar de Bangladesh e muito popular em Seattle).
Eu tenho vida, valiosa porque se perde em um minuto, e sem promessa de céu ou ameaça do inferno...

Por outro lado, a grama do lado de lá parece mais verde e você pode se sentar nela e ignorar que alguém tem de regá-la e apará-la e adubá-la para que você possa dar descanso à sua ignorância.

Você pode ignorar e pode descansar por muito e por pouco.
Eu prefiro preferir um minuto qualquer de vida genuína.
E no processo, odiar.

Odiar linda e divinamente, como quem está apaixonado...

Feliz Natal...




quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Das Perguntas que ninguém quer (se) fazer...

Por que?
Por que somos quem e o que somos?
Por que fazemos as coisas que fazemos?
Por que aceitamos que o que deveria ser o absurdo se torne o comum, parte da paisagem?
Quando foi que nos dessensibilizamos para o que deveria nos tocar e nos tornamos tão sensíveis ao que deveríamos ser resilientes?

E por que, afinal, toda maldita pergunta tornou-se retórica?

Eu ia justificar umas coisas por aqui e tentar ponderar outras, mas a verdade, é que ninguém está muito a fim de compreender o que quer que seja e a Preguiça de ser e de pensar e de entender ( e também de se explicar) tornou-se a contraditória dinâmica de nossa época...

Ninguém está imune...

Quase todo mundo que conheço ( e para meu espanto, as pessoas a quem mais admiro estão no rol) adquiriu sei -la como e por que motivo, um horror absurdo ao auto-questionamento ou a inquirição de outros. As pessoas fazem e pensam e vivem de uma maneira quase automática, sempre em movimento, quase como se temessem que, caso parassem por um momento, perderiam o equilíbrio e cairiam no abismo por debaixo do arame onde andam precariamente.

Você pergunta a alguém o motivo de o porquê é o que é e faz o que faz e a pessoa é evasiva, não porque não quer responder, mas porque nunca pensou muito sobre o assunto e se por acaso você insiste em perguntar, a pessoa é tomada de um horror absurdo, como se você a estivesse despindo (o que não deixa de ser verdade), ou invadindo ou mexendo com coisas que ela preferia deixar de lado e o que choca, não é porque ela não quer que VOCÊ saiba, mas porque ela tem pavor de que ela mesma venha a saber o que é mais confortável ignorar.

Por mais que o processo seja (aparentemente) doloroso, uma pessoa que não se fascina pelo mistério da própria existência é um mistério que  (aparentemente) não fascina ninguém .

Mas não é difícil entender que, ainda que isso não se revele conscientemente para todo mundo, inconscientemente as pessoas sabem que conhecimento pressupõe responsabilidade e ação; e ninguém conseguem mais ficar no conforto do agir e viver irresponsavelmente tendo descoberto o que a motiva, o que a faz ser quem é.

Daí preferirem se jogar nas coisas...

Vai lá e diz pra elas que o chão é de vidro, que suas vidas não são tão seguras quanto pensam, que aquilo que sustenta seu ego, o amor dos outros e deles próprios é vacilante, que ninguém ama unica e exclusivamente pessoa alguma, que não há perfeição, que não há um Deus que vela, que estão sozinhas e nuas no vazio e que a única coisa que as sustenta é o auto-engodo de pensar que se é o centro do universo...E vão se voltar contra você e te destruir...

Vai dizer a elas que a vida não se resume àquelas sombras projetadas no fundo da caverna e que o caminho que escolheram foi escolhido para elas e que nada é certo, nada é seguro. Vai tirá-las do cantinho quente junto ao fogo e dizer a elas que devem se preparar para os predadores que espreitam lá fora em noite escura.
Pra que perguntar?
É carnaval, é Ano Novo, é Natal!

Paz na terra entre os homens de boa vontade.
Tudo bem, a Terra está aí e não vou nem perguntar cadê a Paz, mas afinal onde está a vontade  e onde estão os homens?


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Uns fragmentos de William Butler Yeats


Aquela moça ensandecida,
Ao acaso forjando a sua música e poesia,
Dançando em meio à praia; a alma  a parte de si mesma,
A subir e descer aonde a moça não sabia;
A esconder em meio ao peso da bruma,
A rótula quebrada,
Eu proclamo essa moça algo de belo e alto,
Ou algo perdido com bravura e de mesmo modo,
Com bravura encontrado.

Pouco importa o ocaso, a tragédia,
Ela envolvia-se em desesperada música,
Ela abraçava-se, afagava-se,
E não se ergueu em triunfo,

Onde os fardos e pesos repousavam,
Som que fosse simples e inteligível,
porém cantou: "Mar esfomeado, ó mar faminto de mar".

No Oriente, ela oculta alegria antes pouco antes de partir pela manhã.
No Ocidente, ele chora no orvalho e anseia pelo passado morto,
O vento Sul está a derramar as rosas de fogo carmesim:
A vaidade da Letargia, a esperança, a ilusão, o infinito livre arbítrio...
Os cavalos da desgraça imergiam no barro pesado.

Amada, aceite estes meus olhos próximos aos teus,
O seu coração batendo,
Sobre o meu coração a bater,
E seu cabelo a cair  macio sobre a densidade do meu espírito.
Afogo do amor perdido na hora da mais profunda sombra,
Ocultam suas crinas golpeando o mundo sob seus cascos de tormenta...


terça-feira, 21 de outubro de 2014

Uma reflexão sobre a minha humanidade...

Eu havia prometido não falar mais de deus ou dos deuses.

Eu já prometi não prometer nada. 
Tem muito que eu já disse que não mais faria e faço e farei (e aqui estou eu, na minha trocentésima postagem quando me vem a memória a promessa de não escrever mais nada).

E tem tanta coisa que eu já me propus a não fazer (ou mesmo sentir) mas eis que me encontro sempre e sempre de volta a velhos hábitos, como um maldito viciado, que sim, me assumo uma pessoa volúvel (desgraçadamente ciente de que o é, para azar meu) e lá vai:
Sobre os deuses...

Religiosos enchem o saco.
Ateus idem e com a mesma virulência.

E eu sou um apóstata de todas as minhas crenças e descrenças e por vezes, defendo com tanta veemência os meus não-pontos de vista, que me irmano a camarilha irritante de gente que teima em impor a sua visão de mundo aos outros. 

Mas como já falei deles e me causam preguiça mortal, quero mais é que se danem. Ou que me permitam danar-me em paz...

Mas hoje tenho de abjurar da crença em um último deus em que eu depositava alguma fé.
E desconstruir outro que eu sequer sabia que recebia culto e reverência.

O primeiro é o deus Diálogo. 
Confesso que o altar deste recebia de mim as mais fervorosas orações e súplicas.  Eu pensava ( e alguma parte quase perdida de mim ainda pensa) que qualquer coisa entre as pessoas poderia e seria resolvida, compreendida, apaziguada, conciliada, sancionada em comum acordo ou de outra forma, que o Diálogo era a ponte que uniria e a marreta a quebrar os muros entre os seres humanos...

Mas a nossa era é uma era de medo do Diálogo, das conversações em poucos caracteres, porque as pessoas não mais falam, por medo de se expor e não ouvem, por receio de não compreender aquele que por ventura se arrisca a mostrar que não é um super-homem e que chora e que ama e que sangra...

O medo e a resultante incapacidade de reflexão e consequente compreensão do outro, matou o deus Diálogo. 

Ainda que haja retórica em contrário, toda a conversa que se tem é campo de batalha para fazer valer a força, não da lógica ou da razão, mas a força da força, trincheiras onde as pessoas que querem parecer fortes se escondem com medo que o outro veja a sua fragilidade.

Homens  de vidro voluntariamente mudos e surdos em armaduras de aço.

O segundo deus a quem tenho de mandar ao limbo sou eu mesmo. 
É sério!

Fui até ontem uma divindade.
Não aos meus próprios olhos, está claro.

Mas aos olhos equivocados de pessoas que cismaram sei lá por que diabos, que eu era um tipo qualquer de Lama iluminado ou um guru espiritualizado. 

Teve gente que teve receio de me falar coisas muito simples, como se eu fosse uma coisa qualquer de pura ou muito santa que não deveria ser conspurcada por linguagem baixa ou assunto chulo.

Mais de uma garota me brindou com o maldito “amor Ágape” (e teve a feliz ideia de me contar essa porcaria, à guisa de fazer-me sentir “especial”), castrando-me, desprovendo-me  de pênis, testosterona e defeitos, me colocando numa droga de altar quando eu queria que me quisessem na cama ou no inferno, que são os lugares em que uma mulher deveria colocar o homem que lhe serve ou não lhe serve.

Mais de um homem tomou-me a bênção ou veio a mim em busca de conselho sobre coisas que eu ignorava (e ainda ignoro) ou buscando perdão por pecados cometidos, não contra mim, mas contra si mesmo, como se eu, pelo suposto da minha “idoneidade moral”, estivesse em posição de dar-lhes a absolvição que eles próprios não se davam.

As pessoas que eu conheço ficam particularmente chocadas quando me posiciono a favor do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da Auto-eutanásia, da liberdade irrestrita de pensamento ou contra a pena de morte (ééé... Porque "gente santa", em geral, curiosamente é a favor da pena de morte).

Acham absurdo que eu coma carne e não recicle o lixo e pensam que eu fico a vida inteira com a cara enfiada num livro, meditando, em contemplação de sei –lá que universo metafísico, procurando a solução para os grandes males da humanidade enquanto as pessoas reais vivem vidas reais.

Pro inferno com o amor Ágape! Pro inferno com toda a deferência com que me tratam!
Sou um homem, não um clichê de “ser superior”.

Eu sou desse mundo mes amis, ainda que não o compreenda.

Justo eu, o pior ser humano que eu conheço (até porque eu sou o único que realmente conheço, já que está todo mundo entrincheirado e com medo de se mostrar, mas eu não posso esconder de mim o que sou)!

A droga é ter de reconhecer em mea-culpa tardia que, se mais de uma pessoa me viu com esses olhos embevecidos e reverentes, é porque eu, de alguma forma tenho passado essa imagem a meu respeito, a despeito de todos os meus esforços para dizer da minha humanidade.

Daí abjurar do deus diálogo e do suposto da minha divindade.


Daí estar inclinado a viver, pensar e escrever com um tanto mais de agressividade, fazendo uso dos atributos que são considerados “humanos”, não para convencer meus confrades de que sou gente, mas para o reafirmar para mim mesmo, por que seria o fim da picada se eu me deixasse convencer pela opinião corrente de que não sou...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sabe o Fulano?! (ou de como as 8 da manhã de sábado perdi mais um amigo por falar o que penso)

Luiz, cê não vai acreditar!!
...?
 Sabe Fulano..?!
Que é que tem ele?

Cara, cê não imagina...!
...
Fiquei sabendo agorinha! Ele assumiu que é gay!!!
...
...?
E aí?
Aí o quê?
Não vai falar nada?

Tou esperando você me falar a grande “bomba” sobre Fulano...

Mas então!?

Então o quê, jesus!?
Ce me ouviu? Fulano é gay!

E daí? Porque é que eu não acreditaria nisso?
Vai dizer que ce sabia!?

Sabia o que?
Que ele era gay!??

Era? Ora, pois então não é mais?
@%$*! Você sabe do que eu estou falando!

Você supõe que eu saiba. O problema é quando eu também suponho. Ta, ce quer saber se eu sabia que ele É homossexual? Não, não sabia. Mas também não sabia se ele era heterossexual...
Coméquié?

Sabe...Heterossexual; Pessoas que se relacionam sexualmente com pessoas do sexo oposto.
Eu sei o que que é “hétero”!

E então.
Então o quê?

Então eu nunca soube se fulano era heterossexual, daí também não saber se ele era homossexual... Também não sei de você. Porque é que eu saberia? Nunca me interessei na verdade.
Mas que porra de conversa é essa?

Cê já me viu fazer sexo com alguém?
Que merda, claro que não! E por que eu veria!?

(É mesmo...Por que você veria..?) Então!? Como é que você sabe se eu sou gay ou não? Como é que sabe que eu não gosto de homem?
Mas você é casado e tem filho!!

Fulano também. Você também.
Tá querendo insinuar o quê? Que eu sou gay? Que você também é gay?

Uai e se eu fosse? Ia sair daqui correndo e contar absurdado pra algum amigo como se fosse a coisa mais fantástica do mundo?
Mas...

Híí...Já ta me olhando esquisito. Afastando a cadeira... O quê que há “bofe”? Tá com medo que eu te pegue? Hahahaha!
Pára!

Pra sua informação (e provável decepção), não, eu não sou homossexual, se é que isso é da sua conta.
Mas o que me deixa pasmo é você vir aqui falar de um cara que a gente conhece há vinte e tantos anos de um aspecto da vida dele que a gente não sabia (e ainda não entendi porque diabos a gente deveria saber ou não saber disso), mas parece agora que ele veio de Saturno ou que tem tentáculos.

Ô, né preconceito não! Mas, cara, porque ele não falou pra gente?

E pra quê ele falaria? Que é que isso interessa? Alguma vez você já me disse que era hétero?

Né isso não!
...?
É que...sei lá. Parece que eu não sei mais nada sobre Fulano...

Só porque “por acaso” o cara assumiu que é gay? Bom, aqui vai o que eu sei de Fulano: Cara legal, conta péssimas piadas, dança bem, me roubou uma namorada na oitava série, adora os filhos, briga, com a esposa, gosta de Creedence (eca!) e me deve uns oitenta reais (aquele dali não paga gente viva!)...Ah e “agora” é gay!

Mas custava falar?
De novo: Pra quê? Que diferença faz? Você ta com quarenta anos e tá reagindo assim. Imagina como reagiria se ele te falasse quando éramos moleques...
Eu realmente não entendo porque isso te incomoda tanto...! Pleno século vinte e um e alguém ainda se impressionar com a sexualidade dos outros como se fosse o fim do mundo!

Puta merda! Mas cê faz discurso pra tudo einh?

É um estilo de vida... E eu tava cuidando da minha quando você veio me enfiar a vida de fulano orelhas adentro.

Mas tem que me fazer sentir o sujeito mais preconceituoso do mundo?
Você é um filho da puta, Luiz!

(De novo) É um estilo de vida. Igual ao seu, de ser preconceituoso sem ser preconceituoso. Igual ao de fulano, que tem o direito de ser quem e o que é e falar disso ou não e você não tem porcaria nenhuma a ver com isso. Mais alguma coisa?

Só uma...Porque é que você não vai se fod@#$%?

“Me” fod@#$%? Não, obrigado. Isso daí é coisa que eu prefiro fazer com outra pessoa... Eu gosto de fazer assim. Espero que não seja um problema pra você.

%$#&@&#!!!!!


Ora, amém irmão! E lembranças a sua senhora...!

Eu não temo cinzas e nem o fogo...

Roma está a arder...
E minha inspiração me abandona porque as musas tem medo das chamas. Eu não.
Eu não temo chamas ou cinzas.
 Eu temo e sempre temi que essa cidade queimasse. Por isso mesmo a incendiei.
Eu acordava apavorado e suado e gritando na noite quando num pesadelo furtivo eu via as chamas a lamber os pátios e o templos.
Agora, que meu coração se desintegra junto com os pilares e casas e lugares amados a que estava ligado, eu olho e contemplo o pavor de um pesadelo vivo.
Eu queimo junto com esta cidade.
Mas eu temi tanto que ela se queimasse, que não tive escolha a não ser atear o fogo que agora ilumina o céu dos meus temores.
Foi a coisa mais lógica a se fazer, porque depois que só restarem cinzas, vou parar de ter medo.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Filopoema- Ou uma constatação

...e o que me faz (fez)  permanecer desperto desse transe (trânsito) em vive um (o) mundo imerso em banalidades, foi (é) a consciência de que não há nada no mundo que seja irrelevante.

Ainda que mesmo as estrelas e os possíveis deuses acima delas sejam efêmeros...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

We are from...


Mulheres (e derivativos) são de Vênus.
Homens (e adjacentes) são de Marte.
Já eu e minhas contradições somos de algum lugar em Plutão (que ora é planeta ora não é, mas segue girando indiferente as indiferenças alheias)

Como diabos viemos todos parar no quintal da terra?

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Aos Gatos que guerreavam em dança mortal no teto do mundo...



Enquanto eu durmo um sono-insone-entre-sonâmbulo, há gatos brigando por sobre o telhado, por sobre a cabeceira dos meus pesadelos.
E me perco raciocinando, tentado sondar o que só um delírio genuíno me revelaria.

Em algum lugar em Tikrit um sujeito sua frio e reza enquanto prende explosivos ao corpo.

Em algum lugar em Bangladesh alguém olha um copo vazio e se sente cheio de vazio enquanto enche o copo novamente.

Em algum lugar em Manaus alguém tentava apagar lembranças queimando fotografias antigas e agora tenta apagar as chamas com que tentava apagar as lembranças.
(vai ter cicatrizes para lembrá-lo de qundo tentou esquecer)

Em Porto Alegre alguém usa giz para riscar versos na parede de uma cela, porque lhe tiraram a caneta com que matou outro presidiário.

Em algum lugar a três ou trinta anos daqui, alguém mata mais um pouco da sua inocência olhando para uma tela onde algo indescritível se desenha.

Em Belo Horizonte, por sobre a cabeceira dos meus pesadelos gatos brigam num balé furioso de cio e violência.

Eu sonho com algo magnífico, mas é mais um fantasma furtivo do que eu não vou me lembrar amanhã.
Pensei de modo subliminar que haveria jeito supraliminar de ser um homem, mas já está dando tanto trabalho ser humano, que, sob pena de que me olhe novamente com esse seu olhar transparente, hoje vou me deixar escorregar para dentro do seu desgosto.

Desculpe, mas no balcão da padaria não tinha nem um pouco de Eternidade a venda (Eu perguntei. Juro!).
Perfeição também estava em falta, então contentei-me com bolinhos de avelã...

E não, não foi tentativa de suicídio.
Eu só me cortei para verificar se realmente eu era feito de gelo e de ouro, tal como me dizias, ainda que eu soubesse que não sou, porque me barbeio todos os dias e o rei Midas não era meu tetravô.

Acho que terei de sangrar, mas me esforçarei para não sujar os tapetes da sala e do mundo e da nossa vaidade.


Amanhã, quem sabe você deixe de desejar que eu fosse feito do mármore daquela estátua mergulhada em algum lugar do mar Egeu...?

Fonte da imagem:http://hqscreen.com/
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