quinta-feira, 5 de maio de 2016

Em Três Tempos




(Tarde)
Letárgico, olhava para dentro em queda livre, sentindo a vertigem própria de quem se abisma em si mesmo.

Sentia e ponderava a impertinência que é o sentir.
Me sentia impertinente...

E divagava em meu divagar, me concentrando em me concentrar, extraordinariamente perdido de mim, acendendo cigarros esquecido de que não fumo...

E olhava para a janela fechada tentado me recordar do que era o ânimo para abrir a janela.
Tentando me lembrar do que é lembrar.
E enquanto olhava, entrou pela janela o sol e uma bola
Estilhaçando vidro e letargia.

Pela janela quebrada por onde entrou sol e bola eu olhava a me olhar uma menina com o sol nos olhos e nos cabelos.
O mesmo sol que me entrou pela janela junto a bola.

(Noite)

Experimento estar desperto depois de semanas de sonambulismo insone,
Estico os nervos adormecidos da literatura
E me flexiono atordoado em linhas novamente...
A bola ainda está no chão com o vidro quebrado e o sol arde agora em algum lugar da china e de mim.

(Manhã)

E o que lhe posso dar, criança antiga como as histórias que se contam às crianças?
Há alguma novidade que eu possa contar que já não esteja embolorada de antiguidade?
Há algum presente que eu lhe possa legar no futuro que não esteja enraizado ao passado?
Há perguntas que lhe possa fazer cujas respostas não tenha adivinhado em seus jogos solitários de advinhas?

Eu lhe poderia amar, mas que é o amor que eu conheça, que não seja essa fome ardente que consome até as cinzas e continua a consumir mesmo quando já não há o que consumir?

Tenho um Everest  de motivos, um labirinto de livros não escritos na memória com todas as histórias ainda por contar, mas que esquecemos.

Sei por instinto, como o sabem as feras, todas as alegrias e agruras do mundo na última hora.
Ainda tenho uma garrafa daquele vinho transformado, que antes fora água, e que antes fora chuva, e que antes fora a lágrima de alguém que bebia vinho sozinho...

Cigarros meio fumados, em meios cinzeiros nas cinzas de uma meia manhã cinzenta...
Uma vida meio vivida...

Enquanto recolho do chão os cacos de vidro quebrados e fragmentos da minha consciência adormecida, corto os dedos, conto as horas e me movo em câmara lenta enquanto tento decifrar o mistério que te faz tão jovem e tão antiga.

Sobe a fumaça evolando do meu cérebro em ebulição, esses meus cabelos brancos subitamente pueris diante do seu corpo pós adolescido...

Em dó menor eu desafinei minhas angustias numa sinfonia muda de letras por dias infinitos.
Houve alguma vez dentro ou fora de um poema, palavra que descrevesse o assombro?
Se houvesse, haveria o assombro e haveriam palavras, mas não poesia...
Não haveria você e não haveria eu a escrever sobre escrever sobre você.

Eu faço um poema que rasteja por debaixo dessa prosa e saio do meu transe e entro no seu.
Faço cópulas com as palavras, tentando rimar o que vejo quando olho pra você, com o que eu deveria estar vendo.

E te destino essas linhas e entrelinhas e o que há entre elas e que não escrevi.
E amanhã devolverei a bola, mas acho que reterei o seu sol...



Para Lili, pelo resgate...









3 comentários:

Pandora disse...

Como diria, cá estava eu em uma noite de sábado, acho que já madrugada, naquele estado de letargia: sem vontade de dormir, sem condições de ler mais uma história "Das Mil e Uma Noites", olhando para a parede e não vendo nada... E me ocorreu passar aqui para vê se tinha mais uma página nesse seu livro Sahge... Posso dizer que dei sorte, como sempre seus escritos me instigam como mergulhar em algo familiar, íntimo, honesto - mesmo quando diz sem dizer, mostra sem mostrar... Como sempre você me enternece.

Mas não foi por isso que fui acometida pela vontade existencial de comentar.

Só estou comentando porque mesmo depois de fechar a tela e voltar a desfrutar da letargia fiquei pensando nos benditos questionamentos:

"E o que lhe posso dar, criança antiga como as histórias que se contam às crianças?
Há alguma novidade que eu possa contar que já não esteja embolorada de antiguidade?
Há algum presente que eu lhe possa legar no futuro que não esteja enraizado ao passado?
Há perguntas que lhe possa fazer cujas respostas não tenha adivinhado em seus jogos solitários de advinhas?"

Pq essas questões são estranhamente minhas e dessa vida que tenho vivido nesse meu agora...

Mas, de repente, eu que adoro arrumar 2 perguntas para cada resposta, uma mania tão criticada que só por birra e vingança estímulo cada aluna e aluno meu a praticar sem moderação... Me sinto incomodada por não encontrar respostas... mas vou continuar pensando... E mesmo agora me ocorrem pensamentos a respeito, mas esses ficam para outro momento... Já escrevi demais...

TSC TSC TSC essa sua mania de cutucar e tirar as pessoas do seu estado de letargia... TSC TSC TSC...

Cheros Sage, até qualquer dia!

Luiz Carlos Sahge disse...

Pandora, minha querida parceira de inquietação...
Sei que voc~e conhece bem a sensação de estátua: Basta vir alguem e tirar uma lasquinha de nada e você se lembra de que é feita de carne e sangue e não de mármore.
E aqui estamos nós, e aqui estão mais umas linhas, muito depois de ja termos imaginado que nada mais havia a escrever.

Se "não ha nada de novo debaixo do sol", então é o caso de olhar pra cima dele ou pra outros sóis ou pro mesmo sol, mas em outro tempo...

As suas questões sempre forma igualmente minhas e delas me apropriei sem culpa, para sondar de mim quando o peso das minhas próprias indagações se tornou demasiado para que eu ficasse quieto.

Oito anos, Pandora!

Cheros, Pandora!
Até qualquer dia..

Pandora disse...

Eu sou especialista em olha para o mesmo sol em outro tempo e de me apropriar de suas questões e mergulhar nas suas palavras mesmo quando elas aparecem em aspirais e labirintos que desafiam meus limites de compreensão ou pesam quando ousam ser significativas.

ano Sahge!!! Que bom que conseguimos manter nosso vinculo afetivo no meio da fragilidade e da fluides do mundo digital. Desde que você se tornou para mim mais do que uma pessoa que escrevia coisas instigantes nos descaminhos do yahoo passei a desejar dialogar com você pela vida toda e e fico feliz em constatar que a passagem desses anos espaçou nossos diálogos, mas não os extinguiu de todo.

Cheros, Sahge, até nosso próximo encontro.